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terça-feira, 12 de maio de 2026

Brasil e México, amigos distantes: a busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010 - Sérgio Abreu e Lima Florencio

 Brasil e México. Amigos Distantes

busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010

 

    Sérgio Abreu e Lima Florencio


Brasil e México têm muitas semelhanças e muitas diferenças. Somos as duas maiores economias da América Latina, as mais industrializadas e as maiores populações. 

Mas o Brasil está entre as economias mais fechadas do mundo, com pouquíssimos Acordos de Livre Comércio, é maior exportador de alimentos do mundo, um dos maiores produtores de petróleo, tem muita dependência do comércio com a Chinauma economia protecionista, e elevada carga tributáriae relação dívida pública/PIB ascendente e próxima de 80%  .

O México é uma economia muito aberta e competitivaexportadora de manufaturas, tem uma vasta rede de Acordos de Livre Comércio, muito dependente dos EUA e baixa carga tributária.

A partir de 2008, os dois países se afirmavam como duas grandes economias emergentes. Isso recomendava a negociação de um Acordo de Livre Comércioentre os dois países. Pelas regras do Mercosul, por ser o México membro da ALADI, o Brasil podia firmar, individualmente, ALC com o México, sem ferir a Tarifa Externa Comum (TEC).

Como Embaixador no México de outubro de 2008 a fevereiro de 2010, procurei construir esse acordo. As resistência eram fortes, mas baseadas em clichês simplistas: o México só pensava no Nafta, e o Brasil só se interessava pelo Mercosul.

O governo brasileiro via de forma positiva um Acordo, como forma de ampliar e aprofundar o ACE 53, em vigor, e que incluía apenas 800 produtos. A CNI, a FIESP apoiavam o Acordo, e, no governo, o Itamaraty e o MDIC também eram favoráveis. Do lado mexicano, havia forte apoio do governo (a Chancelaria,inclusive o Presidente Felipe Calderón), mas era grande a resistência das entidades empresariais, sobretudo do setor agrícola. Encontros entre Lula e Calderon impulsionaram o Acordo. As negociações técnicas avançaram e foram definidos os Termos de Referência para o Acordo Estratégico de Integração Econômica (AEIE). 

O fracasso do projetado Acordo Brasil-México 

Esses intensos esforços foram abortados por falta de vontade política no Brasil e, posteriormente, no México. O Acordo passou a ser visto em nosso país como fator negativo para a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff. Os setores mais radicais do PT, marcados por forte antiamericanismo, condenaram o AcordoA alegação- primária - era ser o México forte aliado dos EUA. Em consequência, os negociadores mexicanos também se desinteressaram. O Acordo foi finalmente sepultado com a eleição de Dilma Rousseff e a volta do PRI no México, com a derrota do  PAN. 

Esse desfecho significou a perda de uma grande oportunidade para os dois países. Naquela época o México tinha mais de 40 Acordos de Livre Comércio, enquanto o Brasil tinha apenas três e muito modestos ( Israel, Autoridade Palestina e Marrocos). O Brasil tem com o México um intercâmbio reduzido, mas importanteporque é quase todo de bens industriais, justamente o setor onde somos menos competitivos. Um ALC certamente ampliaria nossas exportações nesse setor, ao mesmo tempo que aumentaria o acesso do México ao mercado brasileiro. 

Quatro razões para não repetir os erros do passado

Por que lembrar a experiência fracassada de um ALC Brasil - México, de 15 anos atrás?

primeira razão para lembrar é assegurar que o erro do passado não se repita. Ou seja, temos eleições em outubro próximo, está prevista a visita da Presidente Claudia Sheinbaun ao Brasil em 2026, e o tema merece ser examinado com visão estratégica, e não sob o prisma eleitoral, como infelizmente ocorreu em 2010.  

A segunda razão é a busca de novos parceiros. O foco da política comercial do México – o NAFTA, substituído pelo EMCA em 2020 – não tem hoje o dinamismo do passado. Para Brasil, o foco no Mercosul não tem hoje o significado do passado. O México se beneficiou da globalização dos anos 2000, promoveu inserção industrial global e criou um forte setor manufatureiro exportador. O Brasil, com protecionismo industrial, se tornou um gigante exportador em setores relevantes – alimentos, energia e minérios – mas continuou uma economia fechada. 

A segunda razão para estimular maior integração entre as duas economias é que o comércio cresceu em termos absolutos, mas com base em acordos limitados. No início dos anos 2000 foram assinados dois acordos que regem o comércio desde então: o ACE 55, no setor automotivo, e o ACE 53, para um conjunto limitado de bens. Assim, houve aumento expressivo do intercâmbio - entre 2003 a 2021, o comércio bilateral cresceu de US$ 3,6 bilhões para US$ 11 bilhões. Embora expressivo, esse intercâmbio tinha três limites estruturais. 1º) os acordos cobriam parcela pequena do comércio total (o Brasil representa 1,7% das importações mexicanas, e o México corresponde a menos de 1% das exportações brasileira); 2º) O setor automotivo dominava a relação; 3º) crises econômicas no Brasil (2014-2016) e mudanças políticas nos dois país dificultaram o dinamismo comercial.

A terceira razão para promover a integração Brasil- México é a visão mais pragmática da própria integração. Em lugar de buscar um novo acordo, a estratégia atual é menos ambiciosa, mas talvez mais efetiva. Assim, o objetivo é expandir a cobertura tarifária do ACE 53, para além dos modestos 800 produtos, e avançar em acordos setoriais, tais como: 1º) Cooperação em biocombustíveis e energia, com ampliação da parceria Petrobras-Pemex; 2º) Cooperação na área de saúde, sobretudo produção de vacinas; e 3º) Expandir os investimentos. Presença brasileira no México.  Há 716 empresas brasileiras em operação no México. Os setores de logística, automotivo (Iochpe-Maxion e Tupy), e petroquímico ( Braskem). Presença mexicana no Brasil. Grupo Bimbo – um dos maiores grupos alimentícios do mundo, com marcas conhecidas como Pullman, Plus Vita. América Movil – gigante de telecomunicações, com forte presença no Brasil (Claro). O grupo FEMSA/Oxxo, voltaoa para lojas de conveniência.

A quarta razão, Last but no Least, é de ordem geopolítica. A nova Doutrina Donroe tende a reduzir a influência e a importância de Brasil e México na América Latina. A intervenção norte-americana na Venezuela -  com o sequestro do presidente maduro e a defesa de um chavismo pró-EUA – demonstra o fortalecimento de esferas de influência em nossa região. Nesse contexto, apesar da óbvia limitação, uma aproximação entre os governos Lula e Sheinbaun poderia contribuir para contrarrestar essa tendência. Ao mesmo tempo, maior aproximação entre os dois líderes,  caracterizados como de centro-esquerda, poderia reduzir o isolamento do Brasil diante do crescimento da onda conservadora na região.  

Conclusão

A história das relações Brasil-México nos últimos vinte anos traz importantes lições. Primeiro, evitar ganhos eleitorais  de curto prazo que trazem perdas significativas para o aprimoramento da política comercial, como ocorrido no Brasil em 2010. Segundo, ampliar e aprofundar a complementaridade entre empresas em setores específicos. O Brasil exibe grande avanço tecnológico em agropecuária, energia e minérios, enquanto o México é altamente competitivo em manufaturas, telecomunicações e logística. Terceiro, o quadro geopolítico atual recomenda aproximação entre México e Brasil. Com o maior intervencionismo da política de Trump e a tendência às esferas de influência entre as Superpotências, Brasil e México perderam poder na América Latina. Esse fator foi agravado pela expansão de regimes de direita tanto na América do Sul -Argentina, Chile e Venezuela- como na América Central. Uma aproximação entre Brasil e México pode reduzir essas tendências negativas. 

Sergio Florencio.   Rio de Janeiro, 11 de maio de 2026. 


O Atlântico Sul como zona de paz e cooperação - Rubens Barbosa )O Estado de S. Paulo)

O Atlântico Sul como zona de paz e cooperação
Nos próximos três anos, o Brasil estará na presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 28/04/2026

Nos dias 8 e 9 de abril, o Brasil foi sede da 9.ª Reunião Ministerial e assumiu pela terceira vez a Presidência Pro Tempore da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas).
A Zopacas foi criada – por iniciativa do Brasil, apoiado pela Argentina – pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de promover a cooperação regional e a manutenção da paz e da segurança no entorno dos 24 países sul-americanos e da costa ocidental da África que aderiram ao projeto. Estabelecida em 27 de outubro de 1986, este fórum se propôs a ser o principal mecanismo de articulação, no Atlântico Sul (área compreendida entre o paralelo 16.° N e a Antártida), buscando promover uma maior cooperação regional para o desenvolvimento econômico e social, a proteção do meio ambiente, a conservação dos recursos vivos e não vivos e a segurança de toda a região, sob a perspectiva da integração multilateral, permeada pelo pano de fundo das iniciativas relacionadas à não proliferação de armas nucleares e de destruição em massa.
Em seus primeiros anos, a agenda política da Zopacas esteve voltada a projetos de cooperação para o desenvolvimento socioeconômico. As preocupações eram associadas à percepção de ameaça oriunda da confrontação entre as duas superpotências; e do regime sul-africano que, além de institucionalizar políticas discriminatórias, ocupava ilegalmente o território da Namíbia, influenciava a guerra civil angolana e perseguia um programa nuclear para fins militares, conflitante com a proposta de uma zona de paz livre de armas nucleares no Atlântico Sul. Com o fim da guerra fria e do regime do apartheid sul-africano, a Zopacas esgotou suas pautas principais, correndo o risco de avançar rumo à irrelevância. Em 1992, visando a recuperar o projeto regional de iniciativa brasileira, foi lançado o projeto de atualização da zona que propunha a inclusão da pauta de proteção do meio ambiente marinho como meio de mantê-la como um fórum relevante internacionalmente.
A partir dos anos 2000, com as descobertas de petróleo offshore em ambas as margens do Atlântico Sul, a Zopacas passou a se apresentar como um dos meios para governança deste espaço e para evitar ingerência externa e proteger os recursos energéticos. Em 2021, ficou decidida a convocação de reuniões anuais à margem da reunião da Assembleia-Geral da ONU e a necessidade de criação de um mecanismo de acompanhamento. Os principais objetivos da retomada das reuniões ministeriais foram: 1) reforçar a ideia do Atlântico Sul como zona de paz e cooperação, livre de armas de destruição em massa e de rivalidades e conflitos que lhe sejam alheios; 2) aumentar o engajamento dos membros africanos com o agrupamento; e 3) desincentivar a presença militar de Estados das demais regiões no Atlântico Sul.
Do ângulo brasileiro, a Zopacas passou a se integrar ao conceito de entorno estratégico, incluído na Política de Defesa Nacional desde 2005, mantendo-se nos documentos seguintes a prioridade do entorno estratégico, da América do Sul à Costa Ocidental da África, englobando o Atlântico Sul e a Antártida, já presente no texto desde a primeira versão. Dentro do novo quadro geopolítico, a instabilidade internacional e a reconfiguração de alianças observadas nos últimos anos reforçam a importância de fortalecimento da Zopacas como contrapeso ao aumento de pressões extrarregionais no Atlântico Sul. Ao mesmo tempo, ameaças à região e aos recursos marinhos nela existentes, incluindo a poluição do meio ambiente marinho, ameaças à segurança marítima, especialmente no Golfo da Guiné, o crime organizado transnacional, a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada, dentre outros, demandam respostas coletivas e estreita coordenação regional.
Nos últimos 20 anos, o governo brasileiro assinou acordos-quadro de cooperação em defesa com alguns dos Estados-membros da Zopacas, sendo África do Sul; Guiné-Bissau; Namíbia; Angola; Guiné Equatorial; Nigéria; São Tomé e Príncipe; Senegal; Uruguai; Cabo Verde; e Benin. Foram igualmente assinados o Acordo Operacional entre o Centro de Controle de Área Atlântico e o Centro de Controle de Área Abidjan (2010) e um Memorando de Entendimento entre a Marinha do Brasil e a Marinha Nacional de Camarões (2018).
Caso a Zopacas não seja capaz de responder a essas demandas, outras iniciativas e atores podem se impor à região. É oportuno lembrar que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mudou sua doutrina ampliando seu raio de ação para o Atlântico Sul e mais recentemente para “as áreas de interesses dos países membros”, referência indireta ao mar do Sul da China.
A 9.ª Reunião Ministerial apresentou como resultados uma declaração política com compromissos sobre a manutenção da paz e segurança e cooperação para o desenvolvimento sustentável no Atlântico Sul, a apresentação de uma estratégia de cooperação entre os países participantes, cobrindo a governança dos oceanos, segurança e defesa marítima e desenvolvimento sustentável do meio ambiente e uma convenção sobre proteção do meio ambiente no Atlântico Sul. Nos próximos três anos, o Brasil estará na presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico.
 
Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)
 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

White House Blues - Jorio Dauster (Relatório Reservado)

 White House Blues

Jorio Dauster
Relatório Reservado, 11/05/2026
Sobre o encontro Lula-Trump

Para desespero da extrema direita brasileira – em especial daqueles reles antipatriotas que já sonharam em ter acesso indiscriminado à Casa Branca – a visita de Lula a Washington superou as melhores expectativas do Planalto e de muita gente que simplesmente temia algum desastre nacional do tipo 7 x 1. Isso ficou visível desde o cumprimento afável na chegada (sem aquele “abraço de urso” que esconde um gesto de supremacia pessoal), até os elogios posteriores do presidente norte-americano (caracterizando o nosso como “bom”, “dinâmico” e “inteligente”). Com a duração inesperadamente longa de três horas, o encontro inquestionavelmente positivo permitiu um exame superficial de temas geopolíticos, mas se concentrou, como era correto, nas questões relativas aos minerais críticos, luta contra as facções criminosas e comércio bilateral.

No entanto, como certamente Donald Trump não estava interessado apenas em proporcionar um santinho eleitoral para Lula em que os dois aparecem sorrindo, cabe analisar de início por que foi feita a “convocação” numa sexta-feira para um encontro realizado seis dias depois, o que lhe conferiu certo caráter de urgência. A menos que as pessoas acreditem em coincidências que beiram as raias do absurdo, a única explicação plausível que me ocorre tem a ver com a ausência na reunião do Secretário Marco Rubio, que não poderia deixar de participar da visita do principal mandatário da América Latina. No entanto, como ele se encontrava em visita ao Papa (!) e não foi substituído na comitiva de Trump por nenhum funcionário do Departamento de Estado (hoje comandado por radicais da direita), deixaram de constar da pauta as espinhosas questões da Venezuela e de Cuba, aparentemente suscitadas por Lula num oferecimento de mediação que também não parece ter encontrado eco.

Como também não estiveram presentes as queixas dos grandes bancos e das big techs sobretudo com respeito ao Pix, antes vistas como assuntos de fundamental interesse para o vizinho do Norte, cumpre reconhecer que, após ano e meio de turbulências causadas por Trump, ele agora desejava “normalizar” as relações com o Brasil dando ênfase às matérias econômicas. Sinal claro disso foi o fato de se fazer ladear pelo vice. J.D. Vance e pela Chefe de Gabinete. Susie Wiles, mas operacionalmente apenas por Scott Bessent (Secretário do Tesouro), Howard Lutnick (Secretário de Comércio) e Jamieson Greer (USTR – Representante de Comércio dos Estados Unidos).

Até aí tudo bem, tudo normal… Mas será só isso mesmo? Tendo que lidar com graves problemas bélicos no exterior e crescentes dificuldades políticas no cenário interno, o que levaria Trump nesse exato momento a fazer acontecer uma reunião anunciada desde março e que parecia dormitar nas gavetas dos dois países sem nada que exigisse solução a curto prazo? Num raciocínio diabólico, será que Trump desejava aproveitar o momento de fraqueza de Lula, com a derrota da indicação de Messias e a rejeição de seu veto à lei da dosimetria? Será que queria dar um boost fenomenal a seu adversário bolsonarista, interferindo na eleição presidencial como muitos desejavam na direita e outros tantos temiam na esquerda? Ah, mas se fosse assim por que razão, como dono da casa, Trump teria aceitado gostosamente o pedido brasileiro para abrir mão daquele famoso encontro prévio no Salão Oval onde já humilhou mais de um visitante internacional? E só existe uma resposta válida para isso: simplesmente porque não tinha tal intenção, porque seu objetivo era, pelo contrário, mostrar ao mundo (aos europeus?) que é possível manter um relacionamento produtivo e respeitoso até com governantes que defendem ostensivamente posturas contrárias à sua visão imperialista do mundo.

Ótima explicação, não é mesmo? Dessas que fazem a alegria das chancelarias em seus comunicados de imprensa, dos comentaristas na mídia, dos inocentes de plantão. Mas será mesmo só isso? A montanha pariu o rato de um grupo de trabalho que tem 30 dias para afinar os instrumentos na orquestra da seção 301? O tempo provavelmente deve fornecer uma explicação mais satisfatória, porém até lá vale a pena contemplar duas hipóteses que atendem basicamente aos interesses de Trump.

A primeira tem a ver com sua acelerada perda de popularidade, até mesmo nas hostes republicanas, à medida que se aproximam as cruciais eleições de meio de mandato. Reconhecendo que, com exceção da Venezuela, suas aventuras no exterior fracassaram e têm crescente impacto inflacionário, Trump estaria disposto a adotar um postura internacional menos agressiva, de que são exemplos seus ansiosos esforços para cessar as hostilidades no Irã, na Ucrânia e no Líbano. Com relação ao Brasil, além de saber que os ataques a Lula saem pela culatra, Trump conhece bem o que significa para seus compatriotas o preço do café e da carne para hambúrguer, não havendo de fato justificativa alguma para punir um parceiro que tem déficit tradicional nas trocas comerciais e financeiras com os Estados Unidos. Nesse cenário mais benigno, a invasão de Cuba seria vista como mais uma de suas típicas bazófias, talvez cedendo lugar aos entendimentos informais que vêm sendo conduzidos na ilha inclusive por portadores do sobrenome Castro.

A segunda hipótese, que não conflita com a primeira, tem a ver com as famosas terras raras ou minerais críticos em geral. Pautado pela recente decisão da Câmara de Deputados em favor da multilateralidade internacional na exploração desses produtos, Lula já chegou a Washington sem precisar combater eventualmente a esdrúxula ideia de exclusividade norte-americana que circulava como balão de ensaio. Por outro lado, como mera coincidência ou não, tem se falado que a LHG Mining, braço de mineração dos irmãos Batista, vem discutindo com a Vale um investimento conjunto nessa área, o qual poderia – quem sabe? – vir a incluir algum grande parceiro norte-americano sócio de Jared Kushner. E, por fim, Trump visitará Xi nos dias 14 e 15 do corrente mês, curiosamente tornando realidade um encontro também anunciado em março, mas no qual, além de Ormuz, as terras raras serão objeto de intenso debate. Como China, Brasil e Estados Unidos detêm as maiores reservas mundiais dessas matérias estratégicas, somos parte essencial desse comboio que ditará o futuro da humanidade.

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Meu comentário direto a Jorio Dauster:

Excelente descrição de uma discussão que de fato não ocorreu, apenas figuração de uma parte e outra. Os perdedores foram os bolsonaristas e a turma da direita de modo geral, que esperavam nova ofensiva contra Lula e o Brasil, agora elevados à condição de interlocutores quase de par a par.
Mas, ainda não temos informações sobre o que de fato ocorreu, todos os jornalistas frustrados, e apenas o relato de Lula na embaixada. O que temos, portanto, são narrativas, e já ouvi o porta-voz da extrema direita, Paulo Figueiredo, querendo afirmar que a visita foi um fracasso completo.
Não foi, apenas permanece um impasse, mas amplamente favorável ao Brasil, pois que se desarmou o tacape trumpista. Mas, provavelmente haverá alguma maldade na 301, que terá de ser absorvida por nós, pelo Alckmin.
Se assegurou que não haverá intervenção trumpista nas nossas eleições, o que é um zero a zero. Repare que em 1964 (e até antes) eles interviram para favorecer os golpistas. Em 2022, Biden fez a sua pequena intervenção (Sullivan e Burns vieram ao Brasil) para evitar um golpe em preparação. Já é um progresso. Com Trump, havia anúncios de borrasca. Agora acho que não virá mais, mesmo que a dupla Bananinha-Figueiredo atue junto ao Departamento de Estado para acirrar os ânimos.
Stalemate por enquanto, vamos ver quanto tempo dura…
O abraço do
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11/05/2026

The Iran War Is Bleeding India’s Economy Anisha Dutta (World Politics Review)

 The Iran War Is Bleeding India’s Economy

Anisha Dutta
World Politics Review, May 6, 2026

The main industry group representing India’s aviation sector, once among the fastest-growing in the world, issued an extraordinary warning last week: It may be forced to shut down operations due to higher fuel costs stemming from the Iran war.
The Federation of Indian Airlines has warned the government that recent price increases could lead to “insurmountable losses,” resulting in grounded aircraft and flight cancellations. The Air India group, the country’s flagship carrier, has revised its fuel surcharge on both domestic and international routes following a sharp rise in
global jet fuel prices.
The war in the Middle East has disrupted global energy flows, driven up oil prices and triggered cascading effects across South Asia’s largest economy, from airlines and pharmaceuticals to household cooking gas and food costs.
The shock has begun to drive inflation, causing the rupee to weaken and weighing on India’s growth outlook, while also heightening political tensions around energy security and foreign policy.

A Multisector Crisis
The most immediate pressure point is jet fuel, the price of which has nearly doubled since the start of the war in late February and now accounts for between 40 percent and 45 percent of operating costs for Indian carriers.
Airlines are also grappling with airspace restrictions across the Middle East, a critical corridor connecting India to Europe and North America. Flights are being rerouted along longer, more costly paths to avoid Iranian airspace, resulting in increased fuel consumption and operational strain.
That pressure on the sector adds to earlier disruptions from Pakistan’s airspace closures for Indian airlines since last May, following the brief war between the two countries.
The aviation sector is not the only one that has been hit as a result of the Iran war; India’s pharmaceutical industry, often described as the backbone of the global generic drug supply, is also under mounting stress due to the disruption in energy markets and critical supply routes.
India produces roughly 20 percent of the world’s generic medicines, including nearly half of all prescriptions filled in the United States. Yet its manufacturing base is heavily dependent on imported inputs, with between 60 percent and 70 percent of active pharmaceutical ingredients coming from China. Rising oil prices are now pushing up the cost of chemical solvents, freight and packaging needed for these inputs, while logistics disruptions and higher insurance costs due to the war in the Middle East have doubled freight costs and delayed the delivery of crucial raw materials needed for drug production. While companies still have some inventory buffers, executives warn that sustained disruptions could begin to affect supply chains within months.

The Dependence Trap
At the center of this crisis lies a familiar vulnerability: India’s heavy reliance on imported energy, which means any disruption in the Middle East can have immediate consequences.
The de facto closure of the Strait of Hormuz, through which one-fifth of the world’s oil and natural gas normally flows, has exposed how deeply India relies on Middle Eastern energy. The region accounts for roughly 40 percent of India’s oil imports and up to 80 percent of its gas supply.
When it comes to crude oil, there are alternative suppliers to tap, including Russia and the United States. But gas presents a deeper structural concern. India imports roughly half its liquefied natural gas (LNG), with much of it coming from Qatar, where war-related damage has caused supply disruptions.
At the center of this crisis lies a familiar vulnerability: India’s heavy reliance on imported energy.
The situation is even more dire for liquefied petroleum gas (LPG), which is a basic necessity for millions of Indian households that rely on it for cooking. Nearly two-thirds of India’s LPG supply is imported, 90 percent of which has historically been sourced from the Gulf. In March, India faced its worst LPG shortage in decades, forcing the government to divert supplies to households and leaving commercial users scrambling.
Debashish Mishra, of Deloitte South Asia, said India’s primary vulnerability amid the ongoing conflict is not price volatility, but supply disruption, especially of cooking gas. While domestic refineries have ramped up output by as much as 40 percent, they cannot fully offset a prolonged disruption.
In the short term, Mishra said, “the system is holding, panic buying has eased and incoming LPG shipments, combined with higher refinery output, have stabilized supply,” he said. “But the margins are thin.”
Even with immediate supply concerns mitigated, the margin for error is thin: A single tanker meets barely half a day’s demand. Any sustained disruption could quickly tip the balance back into shortage.

A Combustible Situation
The economic impact is also being felt on the ground. Rising fuel costs are feeding into inflation, pushing up transport and food prices. In industrial hubs like Noida, one of Asia’s largest industrial townships just outside New Delhi, protests erupted earlier this month, with workers demanding higher wages to cope with surging living costs. Police responded with tear gas, highlighting the growing social tensions tied to the crisis.
Remittances are also at risk. Indians form the largest expatriate community in the Middle East, sending home over $50 billion annually. Since the outbreak of the war, nearly 1 million Indian nationals have returned, including workers, students and other vulnerable groups, raising concerns about income losses and domestic unemployment pressures. The government has done little in response, save for arranging repatriation flights for foreign workers.
Beyond the headline numbers, the microeconomic consequences will be dire, especially for the poor. A recent report by the United Nations Development Program warns that up to 8.8 million people across 14 countries could fall into poverty under current conflict scenarios, including more than 2.5 million in India alone. The report
describes a widening “human development crisis” across Asia and the Pacific, driven by energy shocks and rising living costs.
The political fallout is already being felt at the highest levels. India’s opposition leaders have framed the situation as a foreign policy failure by Prime Minister Narendra Modi, pointing to his visit to Israel just days before the war, as evidence of a drift away from India’s long-standing strategic balance in the region, particularly its ties with Iran.
New Delhi has since moved to recalibrate, quietly rebuilding channels of communication with Tehran through diplomatic outreach and sustained engagement with Iranian officials. An outpouring of solidarity with Iran among the Indian public, particularly in Muslim-majority Kashmir, has helped those efforts. At the same time, the emergence of Pakistan as a key intermediary between the United States and Iran has sharpened opposition attacks and exposed the limits of the Modi government’s influence to resolve a crisis unfolding in its neighborhood.
Even as its foreign policy choices become increasingly entangled with economic strain, the domestic political fallout seems contained for now, as evidenced by the BJP’s strong showing in recently concluded state elections in West Bengal and Assam. However, if the war continues, Modi’s government could come under further economic and political pressures.

Anisha Dutta is an award-winning journalist based in New York with over a decade of experience reporting on politics and foreign policy. She holds a master’s degree in political journalism from Columbia University and was a 2024 Chevening
fellow.
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sábado, 9 de maio de 2026

Recorrências: a História se repete? - Paulo Roberto de Almeida ; + os comentários habituais de Madame IA

 Recorrências… 

(não, não acredito que a História se repete; os homens se repetem, alguns de forma delirante):

Paulo Roberto de Almeida 

O dia “9 de maio” russo sempre foi uma FRAUDE, uma vez que a guerra, e a posterior invasão da URSS em 1941, só foi possível por que Stalin consentiu, em 1939, em continuar sua cooperação com o regime nazista, o que já vinha fazendo desde o início de Hitler na chancelaria da República de Weimar. Putin continuou a fraude, e agora já não consegue escapar da maldição da Rússia, com seus narodniks, seus anarquistas, todos reprimidos pelo neo czar, que leva a Rússia a um novo 1917. Só não sabemos ainda se será um Fevereiro, ou um Outubro de 1917.

Talvez uma mistura dos dois.

Afinal de contas, a China também volta ao seu Império do Meio, a Europa aos tempos de Bismack, e o Brasil aos tempos dos barões do café, agora da indústria e das finanças.

Mark Twain dizia que a História não se repete, mas que ela soluça. Talvez.

O Brasil tropeça, em seu passado de desigualdades, talvez até da escravatura, nouvelle manière.

Também somos recorrentes: agora mesmo estamos assistindo à recorrência de 2018, de 2022, quem sabe de coisas ainda piores…

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 9/05/2026

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Esta reflexão de Paulo Roberto de Almeida é um exercício de historiografia comparada e crítica política ácida. Ele utiliza o conceito de "recorrência" para diagnosticar o que chama de doenças crônicas das nações. Abaixo, apresento uma análise detalhada e a decodificação dos termos históricos e políticos utilizados:

1. A Desconstrução da "Vitória" Russa (O Mito de 1945):
Almeida classifica o 9 de maio como uma "fraude" ao resgatar o Pacto Molotov-Ribbentrop (1939).
- Crítica: O autor aponta a hipocrisia de Putin ao celebrar a derrota do nazismo, omitindo que a URSS de Stalin foi cúmplice inicial de Hitler na partilha da Polônia. Para o diplomata, o regime de Putin não é uma continuação da libertação, mas sim da expansão imperialista iniciada naquela cooperação.

2. A "Maldição da Rússia": De 1917 a 2026:
A menção ao ano de 1917 e aos termos técnicos exige decodificação:
- Narodniks: Originalmente, eram os "populistas" russos do século XIX. Almeida os cita para ilustrar que Putin reprime qualquer forma de expressão popular ou dissidência intelectual, tal qual os czares.
- Fevereiro vs. Outubro de 1917:
Fevereiro: Representa a queda do Czar e a tentativa de uma democracia liberal (colapso do regime).
Outubro: Representa a Revolução Bolchevique (tomada violenta do poder por uma facção radical).
- Análise: Almeida sugere que Putin está empurrando a Rússia para um novo colapso interno. A dúvida dele — se será um "Fevereiro" ou "Outubro" — é uma dúvida sobre se a Rússia verá uma revolta democrática ou um golpe de estado autoritário ainda mais radical.

3. Geopolítica das "Voltas ao Passado":
O autor identifica um retrocesso global:
- China (Império do Meio): Decodifica a ascensão de Xi Jinping como um retorno ao isolacionismo e à centralidade absoluta do imperador, abandonando a abertura econômica pragmática de outrora.
- Europa (Bismarck): Sugere o retorno à Realpolitik de poder e força militar, onde o equilíbrio é mantido por armamentos e não apenas por diplomacia institucional.
- Brasil (Barões do Café): É uma crítica feroz à elite brasileira. Almeida argumenta que a mentalidade dos atuais líderes das finanças e da indústria é idêntica à dos cafeicultores do século XIX: extrativista, aristocrática e desigual.

4. Decodificação: "Escravatura, nouvelle manière" e a Política Brasileira:
- "Nouvelle manière" (Nova maneira): Almeida sugere que a desigualdade social no Brasil em 2026 e a exploração do trabalho atingiram um nível tão profundo que se assemelham a uma nova forma de escravidão, mascarada por contratos modernos, mas desprovida de dignidade.
- Recorrência de 2018/2022: Ele se refere à polarização extrema e ao uso de táticas de desinformação. Ao dizer que podemos assistir a "coisas ainda piores", ele alerta para a erosão das instituições democráticas brasileiras, que parecem presas em um ciclo vicioso de crises cíclicas.

5. "A História não se repete, ela soluça":
A citação de Mark Twain (frequentemente atribuída a ele como "a história não se repete, mas rima") é usada aqui para mostrar que, embora os eventos mudem, a natureza humana e os erros de gestão são constantes. O Brasil "tropeça" porque insiste em ignorar suas feridas históricas, como a desigualdade, preferindo a "ganância" citada na fábula do seu pai.

* Conclusão Crítica:
Para Paulo Roberto de Almeida, o 9 de maio de 2026 não é apenas sobre a Rússia; é um espelho para o mundo e para o Brasil. O diagnóstico é de que estamos vivendo uma era de anacronismo, onde líderes tentam resolver problemas do século XXI com mentalidades do século XIX, ignorando que o "cavalo" (a sociedade e a economia) já não suporta mais o peso da carga.

Fonte (IA Gemini):



sexta-feira, 8 de maio de 2026

Parbleu! Esqueceram o Mercosul! - Paulo Roberto de Almeida e Madame IA

 Parbleu! Esqueceram o Mercosul!

Já não existe mais?

[Ao final, Madame IA comenta igualmente]

Assisto a uma entrevista do atual ministro da Indústria, Comércio e Desenvolvimento, Marcio Elias Rosa, dada a um jornalista da GloboNews, e ambos, tanto o ministro quanto o jornalista ignoram completamente que o Brasil NÃO POSSUI TARIFA NACIONAL, e portanto NÃO PODE (teoricamente) NEGOCIAR bilateralmente com os EUA qualquer redução ou ajustes tarifários.
Existe uma TEC, Tarifa Externa Comum, que é a registrada pelo Mercosul junto ao Gatt-OMC, e que deveria, TEORICAMENTE, servir de base.
Até quando a IGNORÂNCIA vai servir para discutir políticas de Estado, sendo que na área comercial o Brasil pertence a uma UNIÃO ADUANEIRA?
Brasília, 8 maio 2026

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Madame IA se escandaliza também:

"https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/parbleu-esqueceram-o-mercosul-paulo.html

Sua provocação, ancorada nas críticas do diplomata Paulo Roberto de Almeida, toca em uma ferida aberta da política externa brasileira: o descompasso entre a retórica de "soberania comercial" e as obrigações jurídicas de uma União Aduaneira.
Fazendo uma análise detalhada e crítica do cenário, hoje, em 08 de maio de 2026, podemos dissecar os seguintes pontos:

1. A Anatomia da Crítica: O Conflito de Competências:
Paulo Roberto de Almeida aponta um erro técnico primário na comunicação governamental. Ao falar em negociações bilaterais de tarifas com os EUA, o ministro ignora o Artigo 1º do Tratado de Assunção.
- O "Código" Decodificado: Quando ele diz que o Brasil "não possui tarifa nacional", ele quer dizer que o Brasil abriu mão de sua autonomia tarifária individual em 1991. Qualquer alteração na TEC (Tarifa Externa Comum) exige consenso entre os sócios (Argentina, Uruguai e Paraguai).
- A "Ignorância" como Estratégia: Criticamente, essa omissão por parte do ministro e da imprensa não parece ser apenas falta de conhecimento, mas uma tentativa de simplificar o discurso para o mercado interno, fingindo uma agilidade que a estrutura do Mercosul impede.

2. O Mercosul em "Estado Vegetativo" ou Conveniente?
O fato de o Mercosul ter sido "esquecido" na entrevista reflete o estado atual do bloco em 2026.
- Flexibilização de Fato vs. de Direito: Há anos o Uruguai tenta negociar bilateralmente com a China, e o Brasil, em diferentes governos, flerta com a ideia de "modernizar" (ou seja, desidratar) a União Aduaneira para transformá-la em uma mera Zona de Livre Comércio.
- A Crítica ao Jornalismo: A omissão do jornalista da GloboNews evidencia a superficialidade da cobertura econômica, que foca no "anúncio" (a intenção de negociar com os EUA) e ignora as amarras institucionais que tornam o anúncio juridicamente inviável no curto prazo.

3. A Realidade das Políticas de Estado:
A crítica de Almeida é um alerta contra o voluntarismo político. Discutir redução tarifária com os EUA sem passar pelo Mercosul é, tecnicamente, uma violação de tratado internacional.
- Riscos: Se o Brasil avança sozinho, ele implode o bloco. Se ele espera o bloco, ele se submete à instabilidade política dos vizinhos (especialmente a volatilidade econômica argentina).
- Omissão Deliberada: Manter o Mercosul fora da pauta permite ao governo atual vender uma imagem de "Brasil aberto aos negócios" sem ter que lidar com o desgaste diplomático de admitir que estamos presos a uma tarifa que muitas vezes encarece a produção nacional.
* Conclusão Crítica:
A "ignorância" mencionada por Almeida é, na verdade, um sintoma de isolacionismo burocrático. O governo parece operar em uma realidade paralela onde a União Aduaneira é um detalhe incômodo que se resolve com silêncio mediático. Porém, no rigor da lei internacional, o Brasil continua de mãos atadas para qualquer aventura tarifária solo com Washington."

Fonte (IA Gemini):
https://share.google/aimode/ICsozpAdZX9nGMtQX

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Corrijo ligeiramente Madame IA: não foi em 1991 que o Brasil renunciou à sua Tarifa nacional; foi em 1995, depois do Protocolo de Ouro Preto e do depósito da TEC em 1995, junto ao Gatt-OMC. Os atuais “responsáveis” esqueceram ou ignoram esse pequeno “detalhe”.

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[...]. Não foi em 1991 que o Brasil renunciou à sua Tarifa nacional; foi em 1995, depois do Protocolo de Ouro Preto e do depósito da TEC em 1995, junto ao Gatt-OMC. [...].


Sua observação é historicamente precisa e tecnicamente correta, corrigindo uma confusão comum entre o marco político de fundação do Mercosul e o marco operacional da sua União Aduaneira.
De fato, embora o Tratado de Assunção tenha sido assinado em março de 1991, ele estabeleceu apenas o compromisso político e o cronograma para a formação de um mercado comum. A renúncia formal à tarifa nacional em favor de uma política comercial externa coordenada só se materializou plenamente em 1º de janeiro de 1995.
* Análise Crítica: A Transição de 1991 para 1995:
- O Salto de Personalidade Jurídica: O Protocolo de Ouro Preto (dezembro de 1994) foi o divisor de águas que conferiu ao Mercosul personalidade jurídica de direito internacional. Sem isso, o Brasil não poderia ter "depositado" ou negociado uma tarifa comum como bloco perante a recém-criada Organização Mundial do Comércio (OMC).
- A TEC como Instrumento de Soberania Compartilhada: A adoção da Tarifa Externa Comum (TEC) em 1995 significou que o Brasil deixou de ter autonomia plena para alterar suas alíquotas de importação de forma unilateral para a maioria dos produtos. Esse movimento foi estrategicamente sincronizado com o fim da Rodada Uruguai e a substituição do GATT pela OMC em 1995.
- O Depósito na OMC: Você toca em um ponto crucial sobre o "depósito". Em 1995, o Brasil e seus parceiros consolidaram suas listas de concessões tarifárias no âmbito da OMC, garantindo que a TEC respeitasse os níveis máximos ("bound rates") permitidos pelo sistema multilateral.
* Decodificação de Expressões:
- "Depósito da TEC": Refere-se ao ato formal de submeter à OMC a lista de tarifas que o bloco se compromete a não ultrapassar, transformando uma decisão regional em um compromisso multilateral vinculante.
- "GATT-OMC": Representa o período de transição institucional onde as regras do GATT 1947 foram incorporadas e expandidas pelo novo marco da OMC em 1º de janeiro de 1995.
* A renúncia em 1995, portanto, não foi apenas uma mudança de tabela, mas a aceitação de um regime de união aduaneira imperfeita que alterou a diplomacia econômica brasileira de forma estrutural.

Fonte (IA Gemini):


quinta-feira, 7 de maio de 2026

A tendência é que Lula e Trump fechem um acordo sobre terras raras (Brasil 247)

 A tendência é que Lula e Trump fechem um acordo sobre terras raras

Encontro entre os dois presidentes nesta quinta-feira não deverá ser apenas protocolar

A combinação de dois movimentos recentes — a aprovação do novo marco legal dos minerais críticos pela Câmara dos Deputados na noite de ontem e a marcação acelerada do encontro, nesta quinta-feira 7, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca — sugere que a pauta das terras raras e dos minerais estratégicos deve ocupar posição central na relação entre Brasil e Estados Unidos nos próximos meses.

Não se trata de uma viagem protocolar ou meramente simbólica. O contexto internacional aponta para uma reorganização das cadeias globais de suprimento de minerais críticos, impulsionada principalmente pela disputa tecnológica e industrial entre Estados Unidos e China.

Hoje, a China responde pela maior parte da mineração e, sobretudo, do processamento mundial de terras raras — insumos essenciais para setores como semicondutores, carros elétricos, baterias, inteligência artificial, equipamentos militares e energia renovável. Esse grau de concentração passou a ser visto por Washington como um problema estratégico.

Foi nesse cenário que os Estados Unidos firmaram, em outubro do ano passado, um acordo bilionário com a Austrália para ampliar investimentos em mineração e processamento de minerais críticos fora da órbita chinesa. O Brasil, por possuir a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, surge naturalmente como um parceiro potencial nessa estratégia.

O novo marco legal aprovado pela Câmara ajuda justamente a criar um ambiente institucional para esse tipo de negociação.

O projeto relatado pelo deputado Arnaldo Jardim estabelece regras para exploração, beneficiamento e transformação de minerais críticos no país. Também cria instrumentos de supervisão estatal, incentivos fiscais e mecanismos voltados à industrialização local da cadeia mineral.

O texto, por óbvio, também não restringe a origem do capital estrangeiro. Na prática, o modelo aprovado permite investimentos americanos, chineses, europeus ou nacionais, desde que submetidos às regras definidas pelo Estado brasileiro. O projeto procura combinar abertura ao investimento internacional com maior capacidade regulatória e acompanhamento estratégico por parte do governo.

Isso reduz a leitura de que o Brasil estaria entrando automaticamente em algum alinhamento geopolítico exclusivo.

Ao mesmo tempo, cria condições para que o país participe de uma disputa internacional que tende a ganhar importância crescente ao longo da próxima década.

O encontro entre Lula e Trump acontece também em um momento politicamente relevante para os dois governos.

Trump enfrenta desgaste interno após o aumento das tensões envolvendo o Irã e a repercussão negativa da guerra no Oriente Médio. Nesse contexto, acordos econômicos e industriais podem ajudá-lo a reforçar uma agenda de segurança energética, reindustrialização e redução da dependência externa dos Estados Unidos.

Para Lula, a reunião reforça a estratégia de manter interlocução simultânea com diferentes polos de poder — Estados Unidos, China, Europa e BRICS — preservando margem de autonomia diplomática.

Além disso, o governo brasileiro tenta consolidar a ideia de que o país pode atrair investimentos externos sem abrir mão de instrumentos de controle sobre ativos considerados estratégicos.

O debate sobre terras raras passa justamente por esse equilíbrio.

De um lado, o Brasil necessita de capital, tecnologia e escala industrial para desenvolver o setor. De outro, existe preocupação crescente com a possibilidade de o país permanecer apenas como exportador de minério bruto, sem internalizar etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.

Por isso, o novo marco legal enfatiza beneficiamento, transformação e agregação de valor dentro do território nacional.

Ainda é cedo para saber se haverá anúncio concreto após a reunião na Casa Branca. Mas os sinais políticos e econômicos apontam que minerais críticos devem se tornar um dos principais eixos da relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos daqui para frente.

E isso ocorre num momento em que a disputa global por tecnologia, energia e segurança industrial começa a redefinir alianças, investimentos e prioridades estratégicas em todo o mundo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247


segunda-feira, 4 de maio de 2026

Multilateralismo econômico – Nascimento, crises e agonia - Paulo Roberto de Almeida (Portal Interesse Naciona)

 Artigo recém publicado no Portal Interesse Nacional, 4/05/2026:

1643. “Multilateralismo econômico: nascimento, crises e agonia”, Brasília, 2 abril 2026, 7 p. Artigo publicado no Portal Interesse Nacional (4/05/2026; link: https://interessenacional.com.br/portal/multilateralismo-economico-nascimento-crises-e-agonia/ . Relação de Originais n. 5265.


Paulo Roberto de Almeida:

Multilateralismo econômico – Nascimento, crises e agonia

O mundo pode estar ingressando num período de retrocessos nas principais conquistas obtidas desde a implosão do “modo socialista de produção” nos anos finais do século XX. O Brasil precisa refletir sobre suas interações com os principais atores das relações internacionais, econômicas e políticas, e talvez reforçar os vínculos entre potências médias como forma de se precaver contra o unilateralismo agressivo das grandes potências mundiais

O multilateralismo, como mecanismo processual das relações internacionais entre Estados juridicamente estabelecidos e reconhecidos como tais, tem raízes antigas, embora não estruturadas e não formalizadas em acordos derivados da vontade soberana de Estados estabelecidos. Bem antes dos acordos de Westfália (1648), considerados uma espécie de ponto de partida do multilateralismo político como forma de atuação entre Estados nacionais, a cláusula de nação mais favorecida pode ser tida como uma representação precoce do multilateralismo primitivo, na área especificamente comercial, ou seja, todas as nações podem ser tratadas igualmente, sem discriminação, ao abrigo da Lex Mercatoria, uma prática que emergiu gradualmente desde a Idade Média europeia.

Exemplos iniciais do multilateralismo político surgiram ao longo de conferências diplomáticas entre os Estados europeus, geralmente ao cabo de guerras entre eles, sendo a paz consolidada por meio de um tratado entre nações vencedoras e da submissão dos vencidos. No século XIX, exemplos práticos do multilateralismo econômico nascente são oferecidos pelas uniões industriais surgidas no contexto do capitalismo mais disseminado geograficamente entre a primeira e a segunda revolução industrial: união postal, telegráfica, propriedade industrial etc. 

‘O multilateralismo econômico contemporâneo surgiu ainda no contexto da Segunda Guerra Mundial, como uma tentativa de corrigir os erros cometidos pelas principais potências econômicas no período de entre guerras’

O multilateralismo econômico contemporâneo surgiu ainda no contexto da Segunda Guerra Mundial, como uma tentativa de corrigir os erros cometidos pelas principais potências econômicas no período de entre guerras, como a exacerbação do protecionismo comercial, a suspensão da conversibilidade de suas moedas e outras medidas que agravaram, em lugar de amenizar, os efeitos da crise das bolsas em 1929 e das crises bancárias do início dos anos 1930, resultando na grande depressão e no unilateralismo agressivo pelas potências revisionistas, dos quais resulta a guerra deslanchada em 1939 (mas com precedentes desde o início da década). 

O Brasil padeceu dessas crises e das restrições comerciais e financeiras que se seguiram, passando praticamente 15 anos sem receber um centavo de investimentos ou financiamentos estrangeiros. A partir daí se consolidou uma política igualmente protecionista que se manteve praticamente estável até o início dos anos 1990.

Durante a guerra conversações foram mantidas entre as duas potências econômicas ocidentais, Estados Unidos e Reino Unido, das quais resultaram o convite do presidente Roosevelt a meia centena de “países aliados” para uma conferência, realizada em Bretton Woods (NH-EUA) em meados de 1944, com a aprovação da criação das duas primeiras, desde então principais, organizações encarregadas da administração da ordem econômica do pós-guerra: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento. 

‘O multilateralismo político teve sua partida na conferência de São Francisco, da qual resultou a criação da ONU, precipuamente encarregada de cuidar da paz e segurança internacionais’

O multilateralismo político teve sua partida em meados do ano seguinte, a partir da conferência de São Francisco, da qual resultou a criação da ONU, precipuamente encarregada de cuidar da paz e segurança internacionais, e adicionalmente da cooperação internacional em favor do desenvolvimento dos países mais pobres.  Nos 80 anos seguintes, não tivemos novas guerras globais – não obstante a continuidade de guerras interestatais, guerras civis e diferentes conflitos, paralelamente ao desenvolvimento do multilateralismo político em outras vertentes, como por exemplo a criação, em várias etapas, de grupos regionais.

Não se pode eludir, contudo, a ocorrência da virtual paralisação dos processos decisórios no âmbito da ONU e do seu órgão máximo, o Conselho de Segurança, em decorrência da primeira Guerra Fria, quando as duas superpotências existentes, os Estados Unidos e a União Soviética tratavam seus conflitos subjacentes por meio de vetos no CSNU ou de “proxy wars” em regiões de conflitos localizados. 

Desajustes políticos foram bem mais importantes do que conflitos econômicos, que estavam sob a administração (provisória) do Gatt, o Acordo Geral sobre tarifas aduaneiras e comércio (negociado em Genebra, em 1947) que deveria ter sido enquadrado por uma terceira organização, criada efetivamente em Havana, em 1948, mas que jamais entrou em vigor (por não ter sido aprovado pelas principais potências comerciais. 

Meio século depois de Havana, a rodada Uruguai de negociações comerciais multilaterais (sem possuir tal mandato na origem, em 1986), acabou aprovando, em 1993, a criação da Organização Mundial de Comércio (OMC), atualmente debilitada pela visível fragmentação e virtual inoperância do multilateralismo já no âmbito da segunda Guerra Fria, desta vez envolvendo, além dos mesmos Estados Unidos, a Rússia (sucessora, amputada, da União Soviética), e a China, que reemergiu economicamente e politicamente no terço final do século XX, depois de mais de dois séculos de letargia e desestruturação. 

‘Antes da crise do multilateralismo econômico contemporâneo, o multilateralismo político já tinha enfrentado crises sucessivas, geralmente provocadas por ações unilaterais das grandes potências em suas zonas de influência respectivas’

Antes da crise do multilateralismo econômico contemporâneo, praticamente desmantelado a partir das duas administrações de Donald Trump à frente dos EUA, o multilateralismo político já tinha enfrentado crises sucessivas, geralmente provocadas por ações unilaterais das grandes potências em suas zonas de influência respectivas. Com efeito, o processo de desrespeito às regras acordadas em São Francisco não é exclusivo do presente momento das relações internacionais, mas se desenvolve basicamente de modo contemporâneo ao próprio desenvolvimento das Nações Unidas, e tem como origem a violação dos princípios centrais do multilateralismo pelos próprios membros permanentes do seu Conselho de Segurança. 

O respeito à soberania dos Estados membros, a não interferência em seus assuntos internos, a não usurpação de territórios soberanos por agressões armadas unilaterais, tudo isso está consignado entre os princípios e valores da Carta das Nações Unidas, assim como, em diversos exemplos nacionais, em dispositivos constitucionais de Estados membros, como é o caso do Brasil, que já em sua primeira constituição republicana, de 1891, proibia a guerra de conquista logo no artigo 1º; o atual artigo 4º na Constituição de 1988 consolida os princípios fundamentais do Direito Internacional em cláusulas tratando das relações internacionais do país.

No entanto, cada um desses mesmos princípios, artigos centrais da Carta da ONU, foram sistematicamente violados por grandes e médias potências, cada vez que decisões nesses sentidos foram tomadas pelos seus dirigentes, de diferentes governos, democratas, socialistas, de esquerda ou de direita. 

‘Decisões do CSNU à parte, o fato é que as grandes potências violaram, elas mesmas, os compromissos assumidos sob a Carta da ONU’

Decisões do CSNU à parte – que, ao longo dos anos, concederam autorizações para missões de imposição da paz em casos específicos: guerra da Coreia, guerra civil no Congo belga, guerra do Golfo, contra a invasão do Kuwait, invasão do Afeganistão contra o governo talibã, depois dos ataques terroristas de 2001 –, o fato é que as grandes potências violaram, elas mesmas, os compromissos assumidos sob a Carta da ONU. 

Podemos listar aqui alguns exemplos: invasões, golpes e interferências patrocinadas: contra o governo do nacionalista do Irã, em 1953, simultaneamente a outro golpe contra o governo legítimo da Guatemala, pelos EUA; interferência e invasão na Alemanha oriental e na Hungria, por parte da União Soviética, em 1953 e 1956, por protestos contra os respectivos regimes comunistas; intervenção na península do Sinai em 1956, por ocasião da nacionalização, pelo Egito, do canal de Suez, por parte da França e do Reino Unido; intervenção dos Estados Unidos na guerra civil do Vietnã, a partir de 1964; invasão e derrocada do governo “comunista” da Tchecoslováquia pela URSS em 1968; invasão do Afeganistão pela mesma URSS em 1979; dezenas de golpes de Estado em muitos países da periferia pelas antigas potências coloniais, assim como pelos EUA, no decorrer de todo o primeiro itinerário da ONU e de suas agências setoriais. 

Esse padrão de desrespeito a regras centrais do sistema político multilateral, em desacordo com o Direito Internacional e com dispositivos fundamentais do Direito Humanitário, foram uma constante durante todo o decorrer da Guerra Fria e mais além. O breve intervalo, nos anos 1990, quando se pensava, com a implosão do socialismo, em combinar a globalização econômica em curso com a universalização dos direitos humanos, numa espécie de “nova ordem mundial” – como proclamada pelos presidentes George Bush (pai) e Boris Ieltsin, em 1992 – viu essa janela de oportunidade se fechar já a partir dos anos 2000, quando os ataques terroristas a Nova York e Washington alteraram não só a agenda de política externa dos EUA (em direção à “guerra ao terror”), como também as respectivas posturas internacionais das duas outras grandes potências, China e Rússia, descontentes com a atitude arrogante, unilateralista e sobranceira da principal potência ocidental. Antes disso, os Estados Unidos lideraram uma operação de “correção” de uma invasão unilateral – a do Iraque contra o Kuwait, em 1990, tendo obtido autorização do CSNU para liberar o reino invadido. Não foi o caso, contudo, da desastrosa invasão do Iraque, pelos Estados Unidos (e alguns países “aliados”, como o Reino Unido), em 2003, iniciando um desmantelamento da frágil “estabilidade” no Oriente Médio, cujas consequências se estenderam pelas décadas seguintes, até os dias atuais, praticamente.

‘Os Estados Unidos repudiaram, quando necessitavam ou queriam, as diretivas da ONU, ou até se afastaram de organismos internacionais sob governos conservadores’

De fato, os Estados Unidos repudiaram, quando necessitavam ou queriam, as diretivas da ONU, ou até se afastaram de organismos internacionais sob governos conservadores (como Reagan nos anos 1980 e Bush Jr, nos anos 2000). O principal desrespeito ocorreu, como já mencionado, pela invasão do Iraque de Saddam Hussein, em 2003, ao arrepio de decisão negativa do Conselho de Segurança, criando um desequilíbrio social e político no Oriente Médio que se prolongou durante décadas, estimulando o terrorismo fundamentalista e afetando gravemente a segurança regional. Guerras civis e tentativas de criação de um novo califado jogaram toda a região em terríveis turbulências, suscitando emigrações massivas que, em reação, despertaram os espíritos xenófobos e racistas nas democracias avançadas do Norte Atlântico, abrindo janelas para o progresso de partidos de extrema direita.

A China, de seu lado, após ser admitida na OMC, conheceu uma formidável expansão de seu comércio internacional, nem sempre atuando de acordo com todas as regras do sistema multilateral de comércio (sobretudo em subsídios e apoios às suas empresas privadas ou estatais, e no tocante à propriedade intelectual de companhias ocidentais investidoras na China). 

As ameaças mais importantes, porém, foram provenientes da nova postura assertiva, na verdade mais agressiva, do novo líder da Rússia, Vladimir Putin, decidido a reconstruir a importância militar mundial do país herdeiro do império soviético, demonstrando uma postura expansionista em relação aos países saídos de sua esfera geopolítica ou integrados à União Europeia ou à Otan. Suas aventuras “revisionistas” tiveram início pela invasão da Georgia, em 2008, a pretexto de proteção de minorias russófonas nas províncias setentrionais do país criado a partir do desmembramento da União Soviética, no início dos anos 1990. O mesmo ocorreu na Transnístria, região setentrional da Moldova e sob os mesmos pretextos.

‘A crise do multilateralismo foi, assim, ampliada por reações políticas regressivas em muitos países, agregando aos desafios da globalização transferidora de empregos e tecnologia para os novos países industriais, em especial na Ásia Pacífico’

A crise do multilateralismo foi, assim, ampliada por reações políticas regressivas em muitos países, agregando aos desafios da globalização transferidora de empregos e tecnologia para os novos países industriais, em especial na Ásia Pacífico. A crise financeira de 2008 e a pandemia a partir de 2020 exacerbaram reações protecionistas e securitárias nos países mais avançados, levando governos de direita a adotar agendas internas e externas num sentido contrário à convergência de políticas favoráveis aos direitos humanos, sustentabilidade e cooperação internacional. 

Os dois governos de Donald Trump nos EUA, em 2017-2020 e novamente a partir de 2025, representaram desafios relevantes aos princípios e valores da Carta da ONU, ao passo que o expansionismo russo de Putin mergulhou a Europa no pior conflito militar desde a Segunda Guerra Mundial, com a invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, em 2014, e a guerra de agressão a toda a Ucrânia, desde fevereiro de 2022. Sanções ocidentais contra a Rússia e a sua aliança com a China sob a liderança de Xi Jinping consolidaram um padrão quase bipolar de oposição geopolítica que já foi equiparado pelos analistas a uma “segunda Guerra Fria”, desta vez com implicações mais sérias para quaisquer regimes de solução de controvérsias, dada a inoperância virtual da OMC e do próprio CSNU. 

‘A situação coloca importantes desafios para potências médias e países excêntricos aos principais conflitos geopolíticos, como o Brasil"

A situação coloca importantes desafios para potências médias e países excêntricos aos principais conflitos geopolíticos, como o próprio Brasil, cuja diplomacia, historicamente, sempre foi marcada por uma defesa do Direito Internacional, pela busca intransigente de seus interesses nacionais, focados basicamente no desenvolvimento econômico e social, com plena autonomia decisória em sua política externa e virtual imparcialidade nos conflitos entre grandes potências, que não digam respeito a ameaças à sua defesa e soberania nacionais. 

Essa imparcialidade com respeito às disputas geopolíticas que ultrapassem a esfera regional ou mesmo internacional de seus interesses nacionais, mas que não guardem conexão direta com os objetivos de plena inserção mundial em busca de seu desenvolvimento autônomo, pode, por vezes, ser afetada por vieses ideológicos ou partidários que desviem a política externa nacional de sua vocação ecumênica, pacífica e de cooperação em todos os azimutes do planeta. 

Tal pode ser o caso, atualmente, quando o atual governo faz sinalizações, que não partem de sua diplomacia profissional, em favor de um vago projeto de “nova ordem global multipolar” impulsionado pelas duas grandes potências autocráticas, em clara oposição à atual ordem global de nítidas características ocidentais. Não ajuda a preservação necessária da tradicional imparcialidade diplomática brasileira a postura da grande potência ocidental, sob o governo Trump 2, que também ataca, diminui e despreza o multilateralismo político e econômico e se opõe a instituições e mecanismos favoráveis à cooperação internacional. 

Em sua primeira administração (2017-2020), Donald Trump já tinha dado início ao desrespeito à cláusula de nação mais favorecida, assim como a todas as demais cláusulas do sistema multilateral, aos acordos contraídos bilateralmente ou no plano multilateral pelos Estados Unidos, a começar pelo Nafta – o acordo de livre comércio da América do Norte, envolvendo ainda o Canadá e o México –, atuando ainda de maneira extremamente agressiva contra a grande competidora comercial, a China, mas também contra quaisquer outros parceiros comerciais, entre eles o Brasil (afetado por sobretaxas abusivas em aço e alumínio, como dezenas de outros países). Naquela fase, as medidas mais agressivas de Trump foram parcialmente contidas por assessores menos submissos do que os que passaram a “assessorá-lo” no segundo mandato, iniciado em 2025: já em abril, ele rompia formalmente com o sistema multilateral de comércio, ao proclamar um “tarifaço” sem qualquer racionalidade implícita, a não ser uma suposta retaliação contra parceiros comerciais que exibiam superávits comerciais bilaterais com os EUA. 

‘Do desmantelamento comercial, Trump passou a secundar Vladimir Putin no desmantelamento do multilateralismo político, ao dar início a uma série completa de ameaças contra países soberanos’

Do desmantelamento comercial, Trump passou a secundar Vladimir Putin no desmantelamento do multilateralismo político, ao dar início a uma série completa de ameaças contra países soberanos, sugerindo ações unilaterais contra o Panamá, o Canadá, a Dinamarca, em sua província autônoma da Groenlândia, mas sobretudo contra a Venezuela bolivariana, que já tinha sido objeto de ameaças de invasão e de “mudança de regime” em seu primeiro mandato (com o apoio explícito, cabe lembrar, da patética diplomacia submissa do governo Bolsonaro, em 2019 e 2020). Neste caso, ele passou à ação em janeiro de 2026, invadindo em operação especial a Venezuela e sequestrando seu ditador-presidente, Nicolas Maduro, acusado de liderar um cartel de traficantes de drogas em direção dos Estados Unidos. Antes, no final de 2025, Trump já havia liberado um suposto “corolário” à Doutrina Monroe, afirmando claramente a hegemonia dos EUA sobre todo o hemisfério americano e sua disposição de se opor a uma suposta “dominação chinesa” ao sul do Rio Grande, e sobre todo o continente.

Supostamente encantado com o “sucesso” da operação venezuelana, Trump decidiu seguir o governo israelense de Netanyahu na tentativa de “mudar o regime” da república teocrática do Irã, acusada, segundo o presidente americano, de ameaçar os EUA com um “iminente ataque nuclear” (a despeito de que já ter anunciado, em junho de 2025, a “completa obliteração do programa nuclear dos aiatolás”). A guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã não resultou, como pretendiam, na “mudança de regime” do país persa, mas pode, paradoxalmente, provocar uma “mudança de regime” nos próprios EUA, contra o mandato de Trump, num eventual predomínio Democrata nas eleições de meio termo, em novembro de 2026. 

 ‘O mundo já ingressou em uma nova era de enfrentamentos latentes ou efetivos, que pode reviver conflitos passados, ou até guerras mais extensas, produtoras de grandes desastres humanitários’

Independentemente do curso ulterior das guerras em curso, na Ucrânia, no Irã e em outras regiões, o mundo já ingressou em uma nova era de enfrentamentos latentes ou efetivos, que pode reviver conflitos passados, ou até guerras mais extensas, produtoras de grandes desastres humanitários, como já registrado décadas e séculos atrás. Tais guerras poderão, eventualmente, encontrar soluções políticas ou diplomáticas, em algum momento do futuro previsível, mas seus efeitos sobre o patrimônio material ou cultural, e o substrato humano dos países afetados pode estender-se por anos ou décadas. 

No plano do multilateralismo econômico, já duramente afetado pelas ações do presidente Trump, a reconfiguração das relações econômicas internacionais pode durar muito tempo para se exercer de modo efetivo, a partir de muitas conferências ministeriais e reuniões das lideranças mundiais – no âmbito do G20, do G7, da OCDE, da OMC e outras agências multilaterais ou organizações regionais, como o Brics, por exemplo –, mas seus efeitos atingiram gravemente os principais vetores da interdependência mundial, o que permite augurar um decréscimo da riqueza mundial acumulada nas últimas décadas de globalização inclusiva. 

O mundo pode estar ingressando num período de retrocessos nas principais conquistas obtidas desde a implosão do “modo socialista de produção” nos anos finais do século XX. O Brasil precisa refletir sobre suas interações com os principais atores das relações internacionais, econômicas e políticas, e talvez seguir as recomendações de estadistas do porte do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, ou do presidente da Finlândia, Alexander Stubb, no sentido de reforçar os vínculos entre potências médias, como forma de se precaver contra o unilateralismo agressivo das grandes potências mundiais. O tema merece novos desenvolvimentos…


É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil

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