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sábado, 17 de outubro de 2026

Carta de Zelensky para Trump: do inglês ao português, por Madame IA, via Airton Dirceu Lemmertz

 Carta de Zelensky para Trump:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/10/carta-de-zelensky-trump.html
00h30, 16 de outubro de 2026.

Carta do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky ao presidente dos EUA Donald Trump:
(Tradução de Madame IA, sob injunção de Airton Dirceu Lemmertz, o maior e mais prestativo interlocutor, instrutor e praticamente mestre de Madame IA, para 1001 utilidades):

Prezado Senhor Presidente, 

A guerra no Oriente Médio está causando enorme sofrimento à população de todos os países da região. Vidas estão sendo perdidas, cidades estão sendo destruídas e civis inocentes estão sofrendo. 

Mas as consequências desta guerra estão sendo sentidas em todo o mundo, inclusive na Ucrânia. Devido à guerra com o Irã, os preços do petróleo e do diesel subiram drasticamente. Isso significa custos mais altos para transporte, alimentos e produção industrial. Na prática, todas as famílias ucranianas estão sendo obrigadas a pagar por uma guerra na qual não temos absolutamente nenhum envolvimento. 

Por isso, hoje dirijo-me ao Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com um apelo direto: Senhor Trump, ponha fim a esta guerra imediatamente! Você não pode vencer. Além disso, na minha opinião, você já perdeu. 

Certa vez, na Casa Branca, você me disse algumas palavras muito sábias. Lembro-me bem delas. E hoje, gostaria de lhe relembrar essas palavras: Senhor Trump, o senhor não tem cartas na manga! Continuar os combates só aumentará o número de vítimas e o sofrimento de civis inocentes. A Ucrânia sempre defendeu a paz. E não podemos ficar de braços cruzados enquanto nossos parceiros americanos continuam uma guerra sem perspectiva de vitória. 

Por isso, devo alertá-los: se os Estados Unidos não cessarem as hostilidades contra o Irã, a Ucrânia será forçada a reconsiderar a extensão de sua cooperação técnico-militar e de inteligência com os Estados Unidos. Em particular, deixaremos de compartilhar informações confidenciais com o lado americano a respeito dos mais recentes mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro, drones de ataque, sistemas de orientação e métodos para neutralizá-los da Rússia. 

Seremos também obrigados a suspender a transferência dos nossos mais recentes desenvolvimentos em tecnologia de drones e da experiência de combate única adquirida pelas forças ucranianas. Não podemos permitir que a tecnologia e a inteligência ucranianas sejam usadas para prolongar uma guerra que deve terminar imediatamente. 

Senhor Trump! 

Tenho imenso respeito pelo povo americano. É uma grande nação, merecedora de paz, estabilidade e prosperidade. Infelizmente, você não conseguiu trazer essa paz. O povo americano não deveria ter que sofrer por causa das ambições de um único político. E o povo do Irã também não deveria. "Conversei com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian. Ele me garantiu que realmente deseja a paz, mas não conseguiu chegar a um acordo com o senhor, Sr. Trump, devido à sua recusa categórica em fechar todas as bases militares americanas no Oriente Médio. 

E acredito que, em nome da paz, o senhor deve estar disposto a fazer esse compromisso." Estou confiante de que o novo Congresso dos Estados Unidos será capaz de alcançar a paz por meio de negociações e dos compromissos necessários. Talvez até mesmo dentro de 24 horas. 

Nós defendemos a paz, Sr. Trump! 

E espero sinceramente que você finalmente ouça a voz da razão. 

Glória à Ucrânia!

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Madame IA comenta o texto de Rubens Barbosa sobre as ameaças ao Itamaraty e compara com as minhas posições. PRA

 Madame IA comenta o texto de Rubens Barbosa sobre as ameaças ao Itamaraty e compara com as minhas posições. PRA


“Itamaraty: instituição ameaçada” (Rubens Barbosa): 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/itamaraty-instituicao-ameacada/ 


O artigo “Itamaraty: instituição ameaçada”, de Rubens Barbosa, sustenta que o Ministério das Relações Exteriores corre risco de perder autonomia, prestígio e capacidade de formular política externa, independentemente do resultado eleitoral. Para o autor, tanto o lulismo quanto o bolsonarismo tenderiam a colocar ideologia e partidarismo acima do interesse nacional, esvaziando o Itamaraty dentro do governo federal.


O diagnóstico do artigo:


Rubens Barbosa afirma que, no caso do lulismo, haveria a repetição de uma influência ideológica e partidária que reduziria o espaço do ministério. Ele menciona dificuldades orçamentárias, atrasos de pagamentos no exterior, adiamento de reformas, maior influência sindical e a possibilidade de criação de um Conselho Nacional de Política Externa ligado a propostas do PT e do MST.


No lado bolsonarista, o texto também prevê “mais do mesmo”: primazia da ideologia, esvaziamento institucional, problemas financeiros e propostas de uma “faxina” interna. O autor critica ainda o possível alinhamento automático com os Estados Unidos e Israel, bem como a intolerância a visões diferentes dentro da carreira diplomática.


O mundo e o Brasil:


O artigo descreve um cenário internacional marcado por incerteza, guerra, tensões comerciais e disputas tecnológicas. Cita a rivalidade entre Estados Unidos e China, a guerra da Rússia na Ucrânia e os efeitos econômicos do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Nesse contexto, o Brasil ainda não teria definido com clareza seu lugar no mundo.


A proposta central de Rubens Barbosa é restaurar o Itamaraty como principal assessor do presidente na formulação e execução da política externa. Ele defende autonomia institucional, coordenação interna das negociações internacionais, reforço orçamentário, modernização da gestão, mais transparência e maior presença de mulheres em cargos de chefia.


Prioridades defendidas:


O texto propõe uma diplomacia de “pragmatismo responsável 2.0”, baseada em profissionalismo, moderação, sensatez e visão estratégica. Entre as prioridades estão responder aos contenciosos comerciais com os Estados Unidos, enfrentar a concorrência chinesa com políticas de defesa comercial, fortalecer o Mercosul, priorizar a América do Sul e diversificar mercados para exportações agrícolas.


A ideia é preservar a independência brasileira, sem alinhamentos automáticos a potências ou blocos ideológicos. Para o autor, o interesse nacional deve orientar as decisões externas, especialmente em um momento de enfraquecimento do multilateralismo e fortalecimento do nacionalismo.


Comparação com Paulo Roberto de Almeida:


Há pontos de convergência entre Rubens Barbosa e Paulo Roberto de Almeida, diplomata de carreira entre 1977 e 2021, professor do Instituto Rio Branco e ex-diretor do IPRI-MRE. Ambos valorizam a diplomacia profissional, a autonomia do Itamaraty e a defesa dos interesses nacionais acima de lealdades partidárias.


Almeida critica a chamada “osmose” entre o serviço diplomático e os governos, apontando que tanto o petismo quanto o bolsonarismo teriam introduzido elementos ideológicos e personalistas na política externa. Essa crítica se aproxima do alerta de Rubens Barbosa sobre o esvaziamento do ministério e a subordinação da diplomacia a projetos políticos.


Porém, há diferenças de ênfase. Almeida caracterizou o governo Bolsonaro como uma ruptura “nefasta” com padrões tradicionais da política externa brasileira, afirmando que o país teria se tornado excessivamente dependente dos interesses do governo Trump e de setores da extrema direita americana. Rubens Barbosa, embora critique o alinhamento automático com Estados Unidos e Israel, trata os dois campos políticos de forma mais simétrica, como ameaças semelhantes à instituição.


Sobre o lulismo, Almeida sustenta que houve uma diplomacia partidária, com maior distanciamento das linhas tradicionais do Itamaraty e influência de quadros ligados ao partido no entorno presidencial. Essa leitura é próxima da tese de Rubens Barbosa, mas o artigo vai além ao apresentar propostas institucionais concretas, como novo regime jurídico para a carreira, mais recursos orçamentários e uma política de segurança econômica.


Em síntese, ambos defendem um Itamaraty forte, técnico e independente. A diferença é que Rubens Barbosa formula um alerta institucional amplo e propositivo, enquanto Paulo Roberto de Almeida enfatiza mais fortemente os riscos da ideologização e da captura partidária da política externa, com críticas especialmente dirigidas às rupturas observadas no governo Bolsonaro. 


*Fonte: Perplexity (https://www.perplexity.ai/search/a04035ed-d779-44d6-9f5f-ea863d90ede3).

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Encontro de Stefan Zweig com Theodor Herzl (O Mundo de Ontem) - Francisco Braga

 Blog de São João del-Rei

 Francisco Braga

https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/10/encontro-de-stefan-zweig-com-theodor.html 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ENCONTRO DE STEFAN ZWEIG COM THEODOR HERZL


Por STEFAN ZWEIG (1881-1942)
 
 
Theodor Herzl c. 1897 (✰ Peste, Hungria 1860 ✞ Edlach, Áustria 1904)
 
I. INTRODUÇÃO PREPARATÓRIA do conteúdo do Capítulo IV - Universitas Vitae ¹ até o ponto em que ocorre o encontro com Theodor Herzl  
 
Antes de transcrever o texto contendo a íntegra dos pormenores do encontro, é preciso contextualizar o leitor sobre o momento exato da narrativa. O encontro de Stefan Zweig com Theodor Herzl é apresentado no quarto capítulo intitulado "Universitas Vitae" de suas memórias, na obra de 1942: O Mundo de Ontem ² (ou O Mundo que eu Vi). Na fala de Stefan Zweig, a expressão latina Universitas Vitae significa literalmente "A Universidade da Vida". Ao intitular o quarto capítulo de sua autobiografia com esse termo, Zweig faz um jogo de palavras irônico e filosófico para contrastar o ensino institucionalizado com o aprendizado real. Para o autor, o verdadeiro conhecimento não estava dentro das paredes da universidade tradicional (Universitas Litterarum), mas sim na vivência direta com o mundo.
 
Stefan Zweig, então com 19 anos, narra o período de transição após concluir o ensino secundário rígido e ingressar na Universidade de Viena. Longe de encarar a faculdade com rigor acadêmico tradicional, Zweig e seus contemporâneos viam o status de estudante universitário com o romantismo de uma "liberdade conquistada", aproveitando os privilégios sociais e a autonomia que a vida acadêmica proporcionava na Áustria da virada do século. Ele próprio relata que
“o verdadeiro critério para a minha escolha não foi procurar o curso que mais trabalho me desse, e sim o que mo desse menos e me concedesse o máximo de tempo e de liberdade para o que eu tinha verdadeiro pendor. Afinal me decidi pela filosofia, ou melhor, pela filosofia "exata", como em nossa terra se dizia de acordo com o esquema antigo, porém, deveras não o fiz por vocação, pois minhas aptidões para o pensar puramente abstrato são pequenas.”
Em vez de se fechar nas salas de aula, Zweig passa a frequentar os cafés e os círculos intelectuais de Viena, onde a verdadeira "universidade da vida" se desenrolava. É nesse ambiente de efervescência cultural e paixão pela literatura que ele reúne coragem para dar seus primeiros passos como autor. 
Após publicar de forma independente sua primeira coletânea de poesias, Cordas de Prata (Silberne Saiten), publicada pela editora que então era a mais representativa para a poesia lírica alemã, a Schuster & Löffler, a editora das obras de Liliencron, Dehml, Bierbaum, Mombert, Rilke e Hofmannsthal. A sua maior surpresa, porém, foi o fato de os compositores Max Reger e Richard Strauss terem se dirigido a ele a fim de pedir permissão para fazer arranjo musical para seis poemas de sua coletânea. 
O jovem escritor decide arriscar um salto maior: enviar um texto em prosa para o jornal de maior prestígio e influência da Europa Central na época, a Neue Freie Presse. O caderno de cultura e folhetim (feuilleton) desse influente diário era comandado por uma figura magnética que exercia um papel duplo fascinante na Viena daquela época: era respeitado como um brilhante jornalista e homem de letras, ao mesmo tempo em que chocava a burguesia judaica assimilada ao emergir como o líder e idealizador do movimento sionista moderno e que Zweig passa a descrever.
 
¹ Na fala de Stefan Zweig, a expressão latina Universitas Vitae significa literalmente "A Universidade da Vida". Ao intitular o quarto capítulo de sua autobiografia com esse termo, Zweig faz um jogo de palavras irônico e filosófico para contrastar o ensino institucionalizado com o aprendizado real. Para o autor, o verdadeiro conhecimento não estava dentro das paredes da universidade tradicional (Universitas Litterarum), mas sim na vivência direta com o mundo. (Nota do gerente do blog)
 
² A obra, finalizada em 1941, foi publicada de forma póstuma na Suécia, por uma editora voltada para a chamada Exilliteratur (literatura de exílio). Stefan Zweig concluiu e enviou o manuscrito datilografado para a editora apenas um dia antes de cometer suicídio com sua esposa, Lotte Altmann, em Petrópolis, em fevereiro de 1942. No ano seguinte, em abril de 1943, o livro ganhou sua primeira edição em inglês pela Viking Press.
No Brasil, o lançamento ocorreu logo após a morte do autor, por meio da Editora Guanabara, sediada no Rio de Janeiro. Posteriormente, essa mesma tradução icônica de Odilon Gallotti foi integrada ao Volume 15 das Obras Completas de Stefan Zweig, publicadas pela Editora Delta nos anos 1950. Esta última é a que estou utilizando no texto a seguir, levemente modificada em alguns poucos trechos considerados incompreensíveis. Acho que houve certa precipitação para a publicação da obra no Brasil, o que comprometeu a perfeição desejada para a tradução de uma obra de tal relevo e importância. Para essas poucas alterações, baseei-me em Le Monde d'Hier (1948), a partir da tradução de Jean-Paul Zimmermann (pp. 123-137, mencionada na Bibliografia). (Nota do gerente do blog)
 
II. TEXTO sobre o encontro de Zweig com Theodor Herzl 
 
Esses aplausos inesperados, que eram acompanhados de críticas públicas favoráveis, animaram-me a dar um passo que eu, pela minha insanável falta de confiança em mim, jamais teria dado, ou ao menos, não o teria feito tão cedo. Ainda ginasiano, publicara, além de poesias, pequenas novelas e ensaios nas revistas literárias da “Moderna” ³, nunca, porém, me atrevera a mandar uma dessas tentativas para uma revista importante e de grande circulação. Em Viena verdadeiramente só existia um órgão de publicidade de nível elevado, a “Neue Freie Press” ⁴, que, por sua atitude nobre, seu empenho em prol da cultura e seu prestígio político, era para toda a Áustria-Hungria o mesmo que o “Times” para o mundo inglês e o “Le Temps” para o mundo francês; mesmo nenhum dos jornais da Alemanha diligenciava tanto um nível cultural representativo. Seu redator, Maurício Benedikt, homem de fenomenal capacidade de organização e infatigável operosidade, empenhava toda sua energia, verdadeiramente demoníaca, para conseguir que o seu jornal no domínio da literatura e da cultura sobrepujasse todos os jornais alemães. Quando desejava de um autor de nomeada alguma coisa, não olhava despesas, enviava-lhe dez ou vinte telegramas, concedia-lhe de antemão qualquer remuneração. O número do Natal e o do dia do Ano Bom com seus suplementos literários constituíam grandes volumes, que tinha a colaboração dos maiores nomes da época; Anatole France, Gerhardt Hauptmann, Ibsen, Zola, Strindberg e Shaw nessa ocasião achavam-se reunidos nessa folha, que fez muitíssimo pela orientação literária de Viena e do país inteiro. Evidentemente “progressista” e liberal, esse jornal, em sua maneira modelar, representava o elevado padrão cultural da Áustria antiga.

Esse templo do “progresso” possuía um santuário especial, o folhetim, que, como o dos grandes diários parisienses “Le Temps” e o “Journal des Débats”, publicava os trabalhos mais substanciais e perfeitos sobre poesia, teatro, música e arte, nitidamente separados das coisas efêmeras da política e da vida diária. Nesse folhetim só podiam escrever as autoridades, os que, já havia muito, tinham dado provas de competência. Somente a solidez das opiniões, a experiência comparativa de muitos anos e a forma artística perfeita podiam colocar nesse santo lugar um autor após anos de prova de capacidade. Ludwig Speidel, mestre da descrição das minúcias, e Eduard Hanslick nesse jornal tinham em assuntos de teatro e de música autoridade papal idêntica à de Saint-Beuve em Paris nos seus “Lundis”; o seu sim ou o seu não decidiam para Viena o êxito de uma obra, de uma peça teatral, de um livro, e com isso, muitas vezes, o de uma pessoa. Cada um desses artigos constituía o assunto do dia para os círculos ilustrados, era discutido, criticado, admirado ou combatido, e a aparição de um nome novo na série dos folhetinistas desde muito reputados era um acontecimento. Da geração mais nova só Hofmannsthal com alguns dos seus magníficos trabalhos encontrava às vezes acolhida nesse folhetim; de ordinário os autores jovens tinham de se contentar com a penetração feita discretamente na página literária, uma das últimas do jornal. Quem escrevia na primeira página, tinha para Viena seu nome gravado em mármore.

Hoje já não posso compreender como tive coragem de oferecer um pequeno trabalho poético ao jornal “Neue Freie Presse”, o oráculo de meus antepassados e o domicílio dos sete vezes consagrados. Mas afinal de contas o mais que poderia acontecer-me era não aceitarem a minha oferta. O redator do folhetim só recebia uma vez por semana, entre as duas e três horas, pois graças ao turno regular dos colaboradores célebres e fixos, só mui raramente havia espaço para o trabalho de um estranho. Não foi sem palpitações que subi a pequena escada de caracol que levava à redação, e me fiz anunciar. Passados alguns minutos, voltou o porteiro, avisou-me que o redator do folhetim dissera que eu podia entrar e penetrei na pequena sala.

³ Denominação para as orientações novas da poesia e da arte, mais ou menos desde o começo do Naturalismo por volta de 1890. (N. do T.).
 
⁴ Neue Freie Presse - Nova Imprensa Livre (N. do T.). 

*   *   *

O redator do folhetim da “Neue Freie Press” chamava-se Theodor Herzl e foi o primeiro homem de importância histórica diante do qual vi — sem saber, é verdade, que enorme mudança sua pessoa iria determinar no destino do povo judeu e na história da nossa época. Sua posição, nesse tempo, ainda não estava bem definida. Ele começara com tentativas poéticas, revelara cedo um talento jornalístico fascinante e se tornara predileto do público vienense, primeiramente como correspondente em Paris e depois como folhetinista da “Neue Freie Press”. Seus artigos, ainda hoje encantadores pela sua riqueza em observações penetrantes e, muitas vêzes, sábias, pela graça do seu estilo, pelo seu encanto nobre, que, mesmo nas críticas e nas coisas alegres, nunca perdia a nobreza inata, eram o que de mais apurado se podia conceber no jornalismo, e o fascínio de uma cidade que havia cultivado o senso para o que é sutil. Também no Burgtheater Herzl lograra êxito feliz com uma peça; era nessa ocasião um homem estimado, idolatrado pela mocidade, respeitado por nossos pais, até que um dia se deu o que não se esperava. O destino sabe sempre achar um caminho a fim de buscar para si a pessoa de que precisa para seus desígnios secretos, mesmo que ela se queira esconder.

Theodor Herzl tivera em Paris um fato que lhe abalara a alma, uma dessas horas que modificam uma existência inteira: como correspondente assistira à degradação pública de Alfred Dreyfus, vira arrancarem-lhe as dragonas enquanto o infeliz exclamava: “Estou inocente”. Sabia seguramente naquele momento que Dreyfus estava inocente e que sobre ele pesava essa horrenda suspeita de traição, só porque ele era judeu. 
⁶ Theodor Herzl em sua altivez varonil e firme quando estudante já sofrera a sina dos judeus, ou melhor, graças a seu instinto profético já sofrera esta sina numa época em que ela quase não parecia ser uma sina funesta. Com o sentimento de haver nascido para chefe, sentimento a que lhe dava direito tanto sua aparência vistosa e imponente como a elevação do seu pensar e o seu conhecimento do mundo, concebera então o plano fantástico de resolver de uma vez para sempre o problema do judaísmo, propondo que esse espontaneamente se unisse ao cristianismo por um batismo em massa. Pensando sempre dramaticamente, imaginara como conduziria num grande préstito os milhares de judeus da Áustria à catedral de Santo Estêvão, a fim de ali, num ato modelarmente simbólico, libertar para sempre da maldição da segregação e do ódio o povo escorraçado e sem pátria. Dentro em pouco reconhecera a inexequibilidade desse plano. Muitos anos de outras atividades haviam-no desviado do problema principal de sua vida, cuja “solução” considerava sua verdadeira tarefa; no momento da degradação de Dreyfus, porém, a idéia da eterna proscrição do seu povo penetrou-lhe no peito como se fôra um punhal. Se a segregação é inevitável, disse ele de si para si, que seja então completa! Se o nosso fado é sempre humilhação, enfrentemo-lo com altivez; se sofremos de falta de pátria, criemos uma pátria para nós. Por isso publicou sua brochura “O Estado dos Judeus”, na qual proclamou que toda igualação assimiladora e toda esperança de uma completa tolerância seriam impossíveis para o povo judeu e que seria necessário fundar uma pátria nova, uma pátria própria na velha pátria, a Palestina.
Quando essa brochura pequena, porém provida da força de uma seta de aço em vôo, apareceu, eu ainda estava no ginásio, mas recordo-me bem da perplexidade e indignação gerais que causou nos círculos burgueses judaicos de Viena: “Que, perguntavam amuados esses judeus, se meteu na cabeça desse escritor, de ordinário tão sensato, hábil e culto? Que loucuras anda ele praticando e escrevendo? Por que razão devemos ir para a Palestina? O nosso idioma é o alemão e não o hebraico, a nossa pátria é a bela Áustria. Não nos achamos otimamente sob o governo do bom imperador Francisco José? Não temos nossa conveniente prosperidade, nossa situação segura? Não somos cidadãos do Estado com direitos iguais aos dos demais, não somos cidadãos domiciliados e dedicados desta Viena querida? Não vivemos numa época progressista, que em alguns anos há-de pôr de lado todos os preconceitos religiosos? Por que ele, que fala como judeu e quer auxiliar o judaísmo, fornece argumentos aos nossos piores inimigos e tenta segregar-nos quando cada dia nos une mais estreita e intimamente ao mundo alemão?” Os rabinos exaltaram-se nos púlpitos, o diretor da “Neue Freie Press” proibiu que em seu jornal “progressista” se mencionasse sequer a palavra sionismo. O Tersites 
⁵ do sarcasmo venenoso, Karl Kraus, escreveu uma brochura “O rei de Sião”, e quando Theodor Herzl entrava no teatro, zombeteiramente se murmurava em todas as filas: “Chegou Sua Majestade”.

No primeiro momento Herzl pôde sentir-se mal compreendido; Viena, onde ele, dada a estima que nela gozava havia muitos anos, se julgava mais seguro, o abandonara ou até se ria dele. Mas, em seguida, retumbou subitamente a resposta com tal violência e êxtase que ele quase se assustou de, com algumas dúzias de páginas, haver provocado no mundo um movimento tão poderoso e de tão grande irradiação. A resposta, sem dúvida, não partiu dos judeus burgueses do Ocidente, que viviam comodamente e tinham boa situação econômica, mas sim das enormes massas judaicas do Oriente, do proletariado dos ghettos da Galícia, da Polônia e da Rússia. Sem pressentir, Herzl com sua brochura inflamou o núcleo do judaísmo que ardia sob as cinzas do estrangeiro, o milenário sonho messiânico da promessa, confirmada nos Livros Sagrados, do regresso à Terra da Promissão — essa esperança e, ao mesmo tempo, certeza religiosa, os únicos sentimentos que ainda tornavam a vida útil para esses milhões de entes espezinhados e escravizados. Sempre que um indivíduo, profeta ou impostor, nos dois mil anos da maldição que pesa sobre o povo judeu, tangeu a corda, a alma de todo esse povo vibrou, porém nunca com tanta intensidade como dessa vez, nunca com ressonância tão ruidosa, tão retumbante. Com algumas dúzias de páginas um só homem havia formado de uma massa dispersa e desunida uma unidade.

Esse primeiro instante, em que a idéia ainda tinha formas indecisas, estava destinado a ser o mais feliz na vida breve de Herzl. Logo que este começou a fixar os objetivos no espaço real, a unir as forças, teve de reconhecer quão heterogêneo se havia tornado esse povo entre os povos e destinos mais diversos, combatendo-se uns aos outros em todas as línguas, aqui os ortodoxos, ali os livres pensadores, acolá os judeus socialistas, mais adiante os capitalistas, e pouco dispostos a sujeitarem-se a uma só autoridade. Em 1901, ano em que pela primeira vez vi Herzl, achava-se ele em plena luta e talvez também em luta consigo próprio; ainda não acreditava suficientemente no bom êxito de sua idéia para abandonar o emprego com que mantinha a si e sua família. Ainda era obrigado a dividir-se entre o pequeno serviço no jornalismo e a tarefa que constituía o ideal de sua vida. Quem então me recebeu ainda foi o Theodor Herzl redator do folhetim.

⁵ O termo Tersites (ou Térsites) possui dois significados principais que se conectam diretamente com o universo literário de Stefan Zweig: o mito grego original e a própria peça teatral escrita por Zweig. Parece, evidentemente, que Zweig usa Tersites na primeira acepção abaixo citada.
1. O Personagem Mitológico (no Canto II da Ilíada, entre os versos 211 e 277)
• Aparência e Postura: É descrito por Homero como o homem mais feio que foi a Tróia — coxo, corcunda, calvo e desajeitado.
• O "Criador de Casos": Em vez de buscar a glória militar, Tersites usava sua oratória ácida para questionar, insultar e ridicularizar os reis e comandantes gregos, especialmente Agamêmnon e Aquiles, acusando-os de ganância e egoísmo. Ele é frequentemente apontado por críticos literários como o "primeiro agitador político" ou demagogo da literatura ocidental.
• Destino: Acabou espancado por Odisseu (Ulisses) para ser calado perante as tropas e, mais tarde, foi morto por Aquiles após zombar do luto do herói pela rainha amazona Pentesileia.

2. A Peça Teatral de Stefan Zweig (Tersites, 1907)
No contexto das obras de Stefan Zweig, Tersites (Tersites. Ein Trauerspiel in drei Aufzügen) é o título da sua primeira peça teatral concluída, publicada em 1907.
• Na tragédia em versos de Zweig, a maldade e o ressentimento de Tersites são transformados em uma espécie de sabedoria dolorosa.
• O autor usa o personagem para expor a brutalidade, a vaidade e a injustiça dos "heróis" perfeitos e vitoriosos (como Aquiles), mostrando como o sofrimento e a rejeição podem refinar a alma de quem o mundo considera feio ou inferior, enquanto o sucesso cega e endurece os vencedores. (Nota do gerente do blog)
 
⁶ Na mesma ocasião, o triste episódio suscitou o manifesto jornalístico e literário J'accuse...! ("Eu acuso!") do autor naturalista Émile Zola, um dos maiores marcos da história da imprensa, no qual ele denunciou nominalmente as autoridades militares francesas por forjarem provas e encobrirem o verdadeiro culpado devido ao antissemitismo institucional da época. 
O texto, publicado em 13 de janeiro de 1898 no jornal L'Aurore, defendia a inocência e a libertação do capitão franco-judeu Alfred Dreyfus, que havia sido injustamente condenado por traição e exilado na Ilha do Diabo. Embora tenha sofrido anos de prisão degradante, Dreyfus sobreviveu, foi formalmente inocentado e reintegrado ao exército francês em 1906. 
 
*   *   *

Theodor Herzl levantou-se para cumprimentar-me, e senti que na expressão chistosa e escarninha “o rei de Sião” existia algo de verdadeiro: de fato, ele com sua fronte alta desassombrada, seus traços bem acentuados, sua barba de sacerdote, longa e muito preta, e seus olhos castanhos escuros e melancólicos, parecia um rei. Os gestos amplos e um tanto teatrais não davam a impressão de serem artificiosos, porque eram condicionados por uma nobreza natural, e não haveria necessidade dessa ocasião especial para ele me parecer importante. Mesmo junto à escrivaninha, já muito usada e cheia de papéis, naquela pequena sala de redação, em que havia uma janela apenas, parecia ele um xeique beduíno; um albornoz branco e flutuante vesti-lo-ia tão naturalmente como seu fraque preto cuidadosamente talhado, evidentemente por figurino parisiense. Após breve pausa, propositadamente feita — ele gostava desses pequenos artifícios, como muitas vezes percebi mais tarde, e certamente os estudara no Burgtheater — estendeu-me a mão condescendentemente e, apesar disso, com toda bondade. Apontando para a cadeira que estava a seu lado, disse: “Creio que já ouvi ou li algures o seu nome. Poesias, não é?” Tive de responder afirmativamente. Repoltreando-se, perguntou: “Então, que me traz?”

Disse-lhe que desejava mostrar-lhe um pequeno trabalho em prosa e passei às suas mãos o manuscrito. Ele olhou o frontispício, folheou o trabalho todo, a fim de verificar a extensão do mesmo, e refestelou-se ainda mais na poltrona. Com surpresa (eu não o esperava) notei que ele já começara a ler o manuscrito. Leu devagar, pondo de parte as folhas, sem erguer o olhar. Depois de lida a última, reuniu-as lentamente, meteu-as cuidadosamente, sempre ainda sem olhar para mim, num envelope e sobre ele escreveu com lápis azul uma nota. Só depois de com essas misteriosas maquinações me haver por bastante tempo mantido em estado de curiosidade, ergueu para mim os olhos, aqueles olhos bonitos, graves e pretos, e disse com solenidade propositada e vagarosa: “Tenho o prazer de poder declarar-lhe que o seu trabalho foi aceito para o folhetim da “Neue Freie Press”. Foi como se Napoleão no campo de batalha pregasse no peito de um jovem sargento a cruz da Legião de Honra.

Esse episódio, à primeira vista, parece pequeno, sem importância. Mas é preciso haver sido vienense, vienense daquela época, para compreender que impulso para cima esse acoroçoamento representava. Com ele, aos dezenove anos, de repente fui elevado a uma posição preeminente, e Theodor Herzl, que desde esse primeiro momento se mostrou meu amigo, aproveitou logo um ensejo casual para, em um dos seus artigos, escrever que não se deveria acreditar numa decadência da arte em Viena. Ao contrário, existia agora, escreveu ele, além de Hofmannsthal, uma série de talentos novos, dos quais se deveriam esperar as melhores produções, e citou em primeiro lugar o meu nome. Sempre considerei especial distinção o ter sido um homem da importância e preeminência de Theodor Herzl o primeiro que publicamente, num lugar de grande projeção e, por isso, cheio de responsabilidade, me protegeu, e foi para mim uma decisão difícil o fato de eu — parecendo ingrato — não me associar ativamente e até como um dos chefes a seu movimento sionista, o que ele desejaria que eu fizesse.

Mas eu não conseguia simpatizar verdadeiramente com esse movimento; causava-me má impressão a maneira desrespeitosa, hoje não mais concebível, com que os correligionários propriamente ditos de Herzl procediam em relação a este. Os judeus orientais declaravam que ele nada entendia do judaísmo, que nem sequer conhecia os costumes deste, os economistas consideravam-no folhetinista, cada qual fazia sua objeção, que nem sempre era das mais respeitosas. Eu sabia quanto precisamente então seriam úteis e necessárias a Herzl pessoas, e sobretudo pessoas jovens. Mas o espírito rixoso e altercador dessa incessante oposição e a falta de subordinação sincera e cordial dessa gente me afastaram do movimento, do qual eu me teria aproximado com curiosidade, só por causa de Herzl. Quando certa vez conversávamos sobre o assunto confessei-lhe abertamente o desagrado que a falta de disciplina em suas fileiras me causava. Ele sorriu um pouco contrafeito e disse: “Não se esqueça de que há séculos estamos habituados a brincar com problemas, a lutar contra ideias. Nós judeus, há dois mil anos, no que se refere à História, não temos o hábito de dar algo de real ao mundo. Precisamos primeiramente aprender a dedicação absoluta e eu próprio até hoje ainda não a aprendi, pois continuo a escrever folhetins de vez em quando e a ser redator do folhetim da "Neue Freie Press", e era de meu dever não pensar senão no nosso problema, não escrever uma linha sobre qualquer outra coisa. Mas já estou em caminho para me corrigir, quero primeiramente aprender eu próprio a dedicação absoluta, e talvez depois os outros também a aprendam". Sei que essas palavras me causaram profunda impressão, pois nem todos compreendiam que Herzl ainda não podia decidir-se a abandonar o seu lugar na "Neue Freie Press". Pensávamos que ele não o abandonava por causa dos encargos com a família. Só muito mais tarde veio o mundo a saber que ele não pensara assim e que sacrificara à causa do judaísmo sua fortuna particular. Quanto essa dissensão do seu espírito o fazia sofrer, fiquei sabendo não só por essa conversa, mas também por muitas notas de seus diários.

Depois ainda o vi várias vezes, de todos os encontros com êle só um ficou inolvidável para mim, talvez porque foi o último. Eu estivera no estrangeiro e não tivera com Viena outra comunicação senão por cartas. Certo dia o encontrei no Parque da Cidade. Evidentemente saíra da redação, caminhava muito devagar e um pouco curvado; seu andar já não era o de outrora, desembaraçado. Saudei-o cortêsmente e quis seguir o meu caminho, mas ele dirigiu-se célere para mim, apertou-me a mão e falou-me: "Por que se oculta? Não tem necessidade de fazê-lo!" Deu muita importância ao fato de eu frequentemente viajar para o estrangeiro. "É nosso único caminho", disse ele. "Tudo o que sei, aprendi no estrangeiro. Só nele nos habituamos a observar de longe. Estou convencido de que aqui nunca eu teria o ânimo para aventar aquela primeira concepção, ter-ma-iam destruído enquanto ela ainda estava germinando e crescendo. Mas, graças a Deus, quando eu a trouxe para aqui, tudo já estava pronto, e não puderam fazer outra coisa senão criticá-la". Queixou-se então amargamente de Viena; nela encontrara os mais fortes obstáculos, e, se não chegassem do exterior, sobretudo do Oriente e nesse momento também da América, novos impulsos, já teria desistido de tudo. "Meu erro", disse ele, “foi haver iniciado tarde demais. Victor Adler aos trinta anos, em seus melhores, em seus verdadeiros anos de luta, se tornou chefe da democracia social, e dos grandes homens da História nem quero falar. Se soubesse como sofro, pensando nos anos perdidos, pensando em que não me entreguei mais cedo à minha tarefa. Se minha saúde se achasse tão boa como a minha vontade, tudo estaria bem, mas anos perdidos não se podem reaver”. Acompanhei-o até a sua morada. Ali chegados, ele parou, estendeu-me a mão e disse: “Por que nunca vem à minha casa? Nunca me visitou em minha residência. Telefone-me antes, que arranjarei tempo para conversarmos”. Prometi-lhe fazê-lo, firmemente resolvido a não cumprir a promessa, pois quanto mais gosto de uma pessoa tanto mais respeito o seu tempo. Estava absolutamente decidido a não ir visitá-lo.

Todavia fui à casa dele e isso fiz apenas poucos meses tarde. A enfermidade que já naquela ocasião começara a curvá-lo, derrubara-o de repente, e só pude acompanhá-lo para o cemitério. Foi um dia fora do comum, um dia de julho, inolvidável para todos os que viram o que nele aconteceu em Viena. Subitamente afluíram a todas as estações de estrada de ferro da cidade, vindas por todos os trens de dia e de noite, chegaram pessoas de todos os países, judeus ocidentais, orientais, russos e turcos, de todas as províncias e cidadezinhas, trazendo ainda no semblante o espanto causado pela notícia; nunca se sentiu mais nitidamente que ali tombara o chefe de um grande movimento, cujo valor as disputas e as rixas não deixaram ser percebido. Foi um cortejo imenso. De repente, Viena notou que morrera não só um escritor ou poeta medíocre, mas sim também um daqueles criadores de ideias que só com imensos intervalos surgem triunfantes num país, num povo. No cemitério originou-se um tumulto; enorme massa de pessoas, aproximou-se subitamente do esquife, chorando, soluçando, num desespero brutal e explosivo, houve quase um acesso de loucura, de furor; toda ordem era rompida por uma espécie de luto elementar e extático como eu nunca vi, nem antes nem depois, por ocasião de um enterro. Por essa dor imensa, irrompida abruptamente do íntimo de um milhão de pessoas, pude, pela primeira vez, avaliar quanto entusiasmo e esperança aquele homem sozinho lançara no mundo mediante a força de seu pensamento.
 
Funeral de Theodor Herzl em Viena em 07/07/1904

*   *   *

A verdadeira importância da minha admissão solene para colaborar no folhetim da “Neue Freie Presse” manifestou-se na minha vida particular. Com essa admissão adquiri uma segurança inesperada diante de minha família. Meus pais ocupavam-se com literatura e não se atreviam a dar opiniões a respeito dela; para eles, como para toda a burguesia vienense, era importante o que era elogiado na “Neue Freie Presse” e não tinha importância o que ali era ignorado ou reprovado. O que estava escrito no folhetim, parecia-lhes garantido pela mais alta autoridade, pois quem ali opinava e orientava, já pela sua simples posição, despertava respeito. Imagine-se agora uma família que com respeito e expectação dirigia diariamente o olhar para a primeira página do seu jornal e certa manhã, descobriu esta coisa incrível: que o rapaz de dezenove anos, bastante desmazelado no vestir, que está sentado à mesa, que na escola de nenhum modo se distinguia e cujos escritos ela com benevolência aceitava como brincadeiras “não perigosas” (em todo caso sempre melhores do que os jogos de carta ou os namoros com meninas levianas), podia tomar a palavra nesse lugar cheio de responsabilidade, entre homens célebres e experimentados, para manifestar suas opiniões. Se eu tivesse escrito as mais belas poesias de Keats, Hölderlin ou Shelley, não teria isso produzido nos que me cercavam tão completa mudança de opinião em relação à minha pessoa. Quando eu chegava ao teatro, os espectadores mostravam uns aos outros o jovem enigmático que de maneira misteriosa penetrara no santuário reservado para as pessoas velhas e venerandas. Como eu freqüentemente e quase regularmente publicava trabalhos no folhetim, incorri em breve no perigo de tornar-me uma pessoa de respeito e de importância na localidade, perigo a que eu, porém, felizmente, me subtraí a tempo, surpreendendo, uma manhã, a meus pais com a comunicação de que queria estudar no semestre seguinte em Berlim. Minha família respeitava demasiado a minha pessoa, ou melhor, a “Neue Freie Presse”, a cuja sombra eu me encontrava, para não deixar de aceder ao meu desejo. 
 
 
III. BIBLIOGRAFIA adicional sugerida pelo gerente do blog 
 
 
ALMEIDA, Paulo Roberto de: Stefan Zweig e o país que não chegou ao futuro, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 20/04/2025
 
BIBLIOTHÈQUE NUMÉRIQUE ROMANDE: Le Monde d'Hier, traduzido do alemão para o francês por Jean-Paul Zimmermann, 1948, 522 p.
 
CHACON, Vamireh: Tragédia e Equívoco de Stefan Zweig, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 16/09/2026
 
SCHWAMBORN, Ingrid: Stefan Zweig e suas viagens pelo Brasil, publicado pelo Blog do Braga em 17/01/2018
 
ZWEIG, Stefan: O mundo insone, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 16/02/2025
 
_____________: JEAN JAURÈS, o socialista, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 25/04/2025
 
_____________: O Rio antigo, publicado pelo Blog do Braga em 15/09/2024
 

4 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Nas páginas 123 a 137 de O MUNDO QUE EU VI (1942), STEFAN ZWEIG relembra seu encontro com Theodor Herzl, editor de cultura do Neue Freie Presse (Nova Imprensa Livre) e idealizador do sionismo moderno. Esse trecho retrata a generosidade de Herzl ao incentivar jovens talentos literários, oferecendo um vislumbre da aura aristocrática e magnética do líder vienense, pouco antes de sua morte. Convido-o a desfrutar da beleza dessas páginas da autoria do autor de Brasil, um País do Futuro.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/10/encontro-de-stefan-zweig-com-theodor.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Ciência, soberania nacional e relações internacionais - Paulo Roberto de Almeida

  

Ciência, soberania nacional e relações internacionais

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Texto para interação com alunos e professores do grupo de estudos de Filosofia da Física, na UFMS, em 24/09/2026, 18hs; coordenação Prof. Vinicius Silva. Apresentado a uma audiência numerosa e curiosa.

 

Concebo este primeiro encontro que tenho na UFSM — desde que aqui estive em 1977, para um curso sintético sobre processos de urbanização e democratização para funcionários do Estado criado poucos anos antes, num programa de cooperação com a UniCamp —, mais como uma oportunidade de interagir com pares, em maioria mais jovens do que eu mesmo, do que para proferir uma palestra ex-cathedra para todos vocês. Em todo caso, procurarei ater-me aos temas sugeridos: “Ciência, soberania nacional e relações internacionais”, com algumas inovações.

Então vou simplesmente colocar algumas poucas ideias sobre os três conceitos e aguardar reações, inquirições e contestações, a partir de minha já longa imersão nesses mesmos temas, desde meados dos anos 1960, aproximadamente, quando, ainda adolescente, comecei a mergulhar em “leituras de gente grande”, não apenas marxismo, e muito marxismo, mas sobretudo os grandes mestres da teoria social brasileira, alguns dos quais eu esperava ter como professor ao ingressar em Ciências Sociais da Fefelech-USP, em 1968, mas que foram, em seguida ao AI-5, aposentados compulsoriamente no início de 1969. Fiquei sem os professores dos quais já havia lido algumas obras, e depois de ver a universidade invadida diversas vezes por tropas armadas do Exército, resolvi abandonar o curso e rumar para um autoexílio na Europa.

Vejamos, então, o que eu poderia dizer de inteligente sobre os três temas do título.

Ciência é uma construção coletiva, sobretudo atualmente, depois dos lampejos individuais entre a revolução cientifica do século XVII e a segunda revolução industrial, o que deu lugar à explicação kuhniana sobre a emergência e prevalência de repturas teóricas no itinerário da pesquisa cientifica. Portugal e o Brasil chegaram infelizmente um pouco tarde na preeminência dos métodos científicos, dada a prevalência da Contrarreforma e do excesso de centralidade estatal. Mas o Brasil possui na atualidade um establishment de pesquisas que consegue acompanhar o estado da arte científica dos centros avançados, mas infelizmente sem dispor dos meios e dos recursos necessários para dar grandes saltos coletivos, embora produzindo boas surpresas em caráter e escala mais restritos.

A soberania nacional, por sua vez, é muito alardeada, geralmente em tonalidades patrioteiras, para fins de populismo politico oportunista, sem que ela esteja realmente em risco, a não ser por arroubos externos, e histéricos, de um dirigente demencial, como ocorre atualmente no plano hemisférico, e que encontra repercussão interna, de forma abjetamente submissa e voluntária por parte de deploráveis personagens políticos. O primeiro mandato do capitão elogiador de torturadores, que conseguiu a proeza desprezível de vincular os três conceitos no primeiro mandato, da pior forma possível: ele desprezou, ofendeu e humilhou a ciência e os cientistas, atacando as universidades, sobretudo as faculdades de ciências humanas, alienou deliberadamente, sistematicamente, repetidamente a soberania nacional, ao se submeter aos arreganhos de Trump 1 – a quem declarou amar, num inglês simplório – e, em terceiro lugar, desmantelou completamente a credibilidade da diplomacia profissional, ao defender teses vinculadas à franja lunática dos grupos direitistas americanos que defendem as teorias conspiratórias sobre as relações internacionais.

Justamente, o último termo da tríade proposta, concerne as relações exteriores do Brasil e o cenário internacional, que arrisca repetidamente nos cair sobre nossas cabeças, como sempre temeu o chefe Abraracourcix, da valente aldeia dos irredutíveis gauleses. O Brasil não tem nenhuma poção mágica, para resistir às investidas das modernas legiões de invasores arrogantes de um império já declinante, mais mentalmente do que materialmente. Temos apenas a defesa do Direito Internacional e a faculdade de nos aliarmos a outras potências médias, para evitar sermos tragados nos projetos imperiais das grandes potências. Cabe esclarecer que a fragmentação do sistema onusiano e o desmantelamento das grandes regras e princípios sobre os quais deveriam reger-se as relações entre Estados soberanos não começou com o desequilibrado dirigente do império americano, mas teve a sua partida começou desde o início do presente século, com o ambicioso programa do neoczar de restabelecer a dimensão dos passados domínios imperiais do czarismo e do sovietismo.

Tendo me exercido como diplomata profissional, nem sempre disciplinado, por mais de quatro décadas – com treze mudanças acumuladas, e milhares de quilometros percorridos nos mais diversos continentes – creio que tenho algo a dizer sobre os três temas mencionados, por razões mais ou menos prosaicas: em diversos dos postos nos quais trabalhei, ademais das questões de relações econômicas internacionais, minha principal especialização profissional, também me exerci como encarregado dos temas de ciência e tecnologia, em Genebra, por exemplo, onde cobri as atividades da OMPI e da Unctad e cheguei a assinar, pessoalmente, algumas revistas científicas, ademais de me abastecer de livros nessa área. Em Washington, também foi o caso, justo no momento em que o governo FHC assinava, com o governo de Bill Clinton, um primeiro acordo de salvaguardas tecnológicas para o lançamento de satélites com componentes americanos a partir da Base de Alcântara, infelizmente sabotado pelo Congresso, com o que o Brasil perdeu não apenas anos, mas décadas de aproveitamento da base para lançamentos comerciais, podendo portanto competir com base francesa de Kourou, na Guiana. Quando o Itamaraty do primeiro governo Lula me recusou qualquer cargo na Secretaria de Estado – e isso durou treze anos e meio, todo o primeiro período de governos petistas –, o Secretário de Comunicação Luiz Gushiken, um dos membros da Troika (com Palocci e José Dirceu) me convidou como assessor especial no Núcleo de Assuntos Estratégicos da PR, uma aventura que durou três anos aproximadamente, até a saída do grão-petista, por razões de saúde.

No que se refere ao segundo item, soberania nacional, sempre mantive uma postura cética quanto a grandes proclamações patrioteiras nessa área, pois imagino que a soberania não se defende com palavras, proclamações, ou declarações entusiásticas ou indignadas, mas ela se exerce, na prática, pelos meios defensivos adequados, mas sobretudo com a construção de meios próprios de suficiência no abastecimento estratégico – alimentação, energia, comunicações e segurança, no seu conceito mais amplo –, assim como, eventualmente, por meio da cooperação com parceiros confiáveis, com base numa compreensão convergente das ameaças e desafios que podem se apresentar em circunstâncias excepcionais. Poucos países são inteiramente autônomos em todas as vertentes da defesa da soberania nacional, talvez apenas os EUA e a China, ainda assim com várias necessidades cobertas pelo comércio exterior ou por acordos especiais do lado militar, tecnológico, energético e outros. A Rússia, por exemplo, supostamente a segunda força militar do mundo, faz apelo a drones iranianos e a mísseis e soldados norte-coreanos, ademais de uma ampla variedade de insumos chineses, para manter sua guerra de agressão contra a Ucrânia.

Acredito, pessoalmente, que a soberania nacional começa fundamentalmente pelo ensino primário de qualidade, algo que o Brasil ainda não conseguiu oferecer a todos os seus cidadãos em idade de alfabetização obrigatória, a não ser alcançar a taxa de escolarização adequada mais ou menos 150 anos depois dos países líderes em cobertura educacional; mas aqui estamos falando apenas do lado quantitativo do ensino, não do seu conteúdo substantivo, que é o que conta mais, como aprendemos pelos testes da OCDE do PISA, nos quais figuramos tristemente nas últimas e vergonhosas colocações, nos três testes, língua nacional, matemáticas e ciências elementares, para estudantes secundaristas. Ainda temos analfabetos funcionais em várias partes.

Relações internacionais, finalmente, não é algo que possamos controlar, influenciar ou sequer moldar para a melhor adaptação às nossas necessidades. Cabe observar que, a partir de meados do século XIX, a diplomacia brasileira participou ativamente de todos os arranjos discutidos e adotados em conferências internacionais: patentes, cabos telegráficos, propriedade intelectual, segurança, arbitragem, acordos comerciais (primeiro bilaterais, depois coletivamente na era do Gatt), e tudo o que se possa pensar como produtos multilaterais no âmbito da ONU. Nossa interação é suficientemente ampla, mas nossa capacidade decisória é limitada, daí o apelo a coalizões, geralmente no âmbito do chamado Terceiro Mundo, ou atualmente o tal de Sul Global, a mais recente designação de uma realidade que nos acompanha há séculos. Mas, se quiséssemos realmente defender nossa soberania, no âmbito da política externa, já teríamos ingressado na OCDE, em lugar de estar no Brics+, esse Frankenstein diplomático que apenas serve aos interesses nacionais da China e da Rússia, ou teríamos buscado coalizões com like-minded countries, que são outras potências médias, do Norte e do Sul (o que é irrelevante), em lugar de buscar liderança no âmbito dessa fantasmagoria chamada Sul Global, ou mesmo no contexto da América do Sul (o que é recusado pelos demais países de nossa circunstância geográfica orteguiana). 

Mas, prefiro encerrar provisoriamente minhas considerações pessoais sobre os três temas indicados no menu de entrada, e passar a interagir com todos vocês sobre as questões realmente sunstantivas que possam suscitar curiosidade, contestação, contradição da parte de todos, agora esperando que eu possa dizer algumas coisas inteligentes sobre as dúvidas subjacentes às minhas provocações intelectuais dirigidas a vocês. Vamos, portanto, às questões principais que possam agitar esta nossa oportunidade de diálogo nos assuntos nos quais o engenho e a arte desde modesto acadêmico diplomático possam oferecer alguns argumentos racionais.

Muito obrigado, passemos à parte mais interessante: a interação entre iguais.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5450: 8 setembro 2026, 4 p.

 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Previsões imprevisíveis para Lula 3 ao inicio de 2023 - Paulo Roberto de Almeida

 Minha mensagem a Lula 3, recém eleito em outubro de 2022, mas ainda antes da tentativa golpista, traiçoeira, criminosa, dos bolsonaristas estupradores da nossa frágil democracia em 8 de janeiro de 2023.

Os golpistas querem agora estuprar novamente a democracia, a dignidade e a soberania da ainda frágil democracia brasileira pela via do voto popular.

Com todas as restrições que faço ao lulopetismo econômico e diplomático, rechaço com todas as forças o retorno so poder do golpistas incompetentes (ainda brm), autoritários, negacionistas vacinais, retrógrados sociais e traidores da pátria, qymue são os bolsonaristas ignorantes.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 22/09/2026


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O que eu "tramava" para Lula ao início de seu terceiro mandato, em 1 de janeiro de 2023 - Paulo Roberto de Almeida

Quase um ano atrás, em viagem de férias entre o final de 2022 e o começo de 2023, eu fazia meus votos de sucesso ao presidente no início do seu terceiro mandato. Vejamos quais eram meus prognósticos.


Meus melhores votos de sucesso em 2023 vão para…

  

Paulo Roberto de Almeida

Diplomata, professor

(diplomatizzando.blogspot.com)

Nota saudando o terceiro mandato, com diversos alertas e sugestões de políticas.

  

... Lula, como presidente pela terceira vez, algo inédito na história política brasileira, por ser pela via democrática e não como certos “presidentes” ou chefes de governos, eternizados em eleições fraudadas em diversos países latino-americanos, africanos e em outros países, inclusive europeus, como por exemplo na Hungria de Orban e na Rússia de Putin, assim como na China de Xi Jinping (que acaba de romper um modelo de alternância na autocracia do partido leninista, ao “eleger” pela terceira vez o seu novo imperador).

Lula merece ter sucesso no que é o seu marco distintivo na frágil democracia brasileira, a diminuição, ainda que relativa e altamente instável, da iniquidade da distribuição de renda no país, que sempre a concentrou em favor de nossas medíocres elites patrimonialistas. 

Não tenho nenhuma ilusão que essa pequena redução na concentração de renda se faça em favor dos realmente pobres e miseráveis e que ela seja feita pelos bons méritos de políticas macroeconômicas e setoriais adequadas, pois carregam os sinais distintivos do velho populismo eleitoreiro da subvenção ao consumo dos mais pobres, e não pela via correta e necessária de redução das fontes estruturais da pobreza, que são a não educação de maneira geral e a baixa capacitação técnico-profissional da população economicamente ativa, necessária para a elevação dos níveis de produtividade do capital humano e social, em particular.

Sempre fui, a despeito de ser bastante crítico a esse personagem singular do velho populismo brasileiro, um apoiador sincero de suas medidas redistributivas, que corrigem, ainda que minimamente e modestamente, a tremenda injustiça do eterno patrimonialismo oligárquico do Brasil, uma nação que se caracteriza por séculos de injustiças contra os mais pobres, em primeiro lugar contra os africanos e indígenas escravizados e oprimidos, e que ainda se ressentem da persistência de formas disfarçadas de escravismo e de servidão na pobreza generalizada de seus descendentes.

Continuarei ao longo de 2023, e mais além, meu apoio crítico a tais medidas de redução da miséria abjeta e da pobreza absoluta por parte de um governo que dispõe de um legítimo apoio popular, ao lado de uma convivência incômoda com as “elites” extratoras de sempre, as classes econômicas eternamente privilegiadas, que não são apenas os velhos e novos  proprietários fundiários e os grandes capitalistas, empresários industriais e banqueiros, mas também os mandarins do Estado, a começar pela aristocracia do judiciário e outros altos servidores do Estado, que se servem do Estado para si próprios. 

Manterei, ao longo de 2023 e mais adiante, meu ceticismo sadio em relação a políticas públicas e medidas estatais que atuam apenas nos estoques de riqueza, e não na criação de seus novos fluxos, assim como naquelas iniciativas redistributivas que impactam apenas os muitos efeitos da iniquidade distributiva (entre elas um sistema tributário regressivo), e não exatamente suas múltiplas fontes de criação dos canais de reconcentração de renda, com modestos resultados nas estruturas sólidas do nosso vergonhoso coeficiente de Gini.

Serei especialmente crítico em relação a uma política externa feita de muitos equívocos conceituais (como a velha e anacrônica visão “classista” da divisão do mundo) e de sua primeira diplomacia partidária, com vergonhosos apoios a execráveis ditaduras supostamente de esquerda (e algumas de direita também). 

Sou, em particular, um opositor talvez isolado e de primeira hora do BRIC-BRICS, que considero um grande erro estratégico da diplomacia lulopetista, por nos unir, sem qualquer convergência sólida de objetivos compartilhados, a duas grandes autocracias e a duas outras democracias de baixíssima qualidade (como é a nossa aliás), apenas pela ilusão de que se trataria da construção de uma ordem mundial alternativa à velha dominação de antigas potências colonialistas ou do novo hegemonismo americano, o que é um programa meramente oposicionista, sem qualquer conexão com propostas visando a melhoria da qualidade de políticas públicas de desenvolvimento econômico e social, ou com a elevação dos padrões de governança democrática e de defesa dos direitos humanos e das liberdades individuais.

Também sou um opositor declarado do estatismo desmesurado desse terceiro governo economicamente intervencionista do grande líder populista, e de sua megalomania na política externa, o que nos envolve num certo aventureirismo diplomático, sem grandes efeitos no objetivo que deveria ser essencial num projeto nacional, que é a redução dos níveis exageradamente altos de miséria e de pobreza inaceitáveis.

Com todas essas ressalvas, alertas e sugestões, desejo um bom 2023 a Lula e um bom governo até 2026, esperando que escapemos de uma nova e catastrófica recessão (como a de 2015-16) e que em 2027 estejamos melhor do que agora e livres de qualquer ameaça golpista e de um retorno do destruidor desgoverno desse infeliz último quadriênio, marcado pelo reforço do patrimonialismo oligárquico e do autoritarismo militar, ilegítimo em sua essência. 

Vamos lá Brasil, seja feliz de novo, como nos bons tempos de JK, que viram o nascimento da Bossa Nova e do Rei Pelé!

Com os melhores votos de

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 1/01/2023

 

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 4297: 1 janeiro 2023, 3 p.”

sábado, 19 de setembro de 2026

Madame IA (via ADL) interpreta uma postagem sobre a natureza profunda da Rússia despótica

 15/09/2026, 20:53 Diplomatizzando: 

The war did not change Russia. It revealed Russia

 Rihards Kols

“A guerra não mudou a Rússia. Ela revelou a Rússia -  Rihards Kols

Rihards Kols, membro letão do Parlamento Europeu, discursando na sessão plenária da #RigaConf2026 intitulada

"Preparando-se para uma Rússia remodelada pela guerra"

.

“É importante fazermos uma correção nesta sala. A guerra não mudou a Rússia. Ela revelou a Rússia. E é precisamente isso, e vou reiterar, que durante anos alguns de nós nesta região dissemos isso claramente, e nos disseram que estávamos exagerando. Há quem ainda diga que nós, dos países bálticos, nossa região, estamos exagerando, que somos prisioneiros da nossa própria história. Portanto, a guerra não criou uma nova Rússia. Ela eliminou as desculpas que permitiam às pessoas fingir que a antiga Rússia estava se transformando em outra coisa. E isso é algo que está se espalhando pela Europa. Já foi mencionada a dinâmica do dia a dia. 

Quais são as mudanças nos esforços de guerra, na economia de guerra? E, obviamente, podemos reiterar os números. Obviamente, a Rússia hoje gasta cerca de 7 a 8% do PIB e cerca de 40% do orçamento federal em defesa e segurança. E essa é a maior porcentagem desde o colapso soviético. E isso deve ser observado. Mas, além disso, o que é mais alarmante, é que a igreja, a mídia estatal, os currículos educacionais, a indústria, os tribunais, tudo foi fundido em uma única máquina cujo produto é... ” o esforço de guerra. 

E isso precisa ser registrado. E, de fato, não se enganem. Isso não é mobilização em tempo de guerra no sentido que entendemos em democracia, quando falamos de um redirecionamento temporário de recursos para um objetivo externo. É o oposto. A guerra se tornou o princípio organizador do próprio Estado, e o Estado organizou tudo o mais em torno de sustentá-la.

Então, quero ser bem direto, porque acho que esta sala aguenta ver rostos familiares. A Rússia não é um Estado que por acaso é governado por um homem forte que saiu da KGB. A Rússia é um Estado construído e operado por serviços de segurança, para serviços de segurança como condição permanente.

Putin não é uma aberração situada no topo do aparato estatal normal. Ele é produto desse aparato, assim como qualquer um que o suceda. Nós, frequentemente, perguntamos, e neste formato também, em anos anteriores, o que acontece depois de Putin? Estamos fazendo a pergunta errada. A pergunta certa é o que acontece com o sistema cuja lógica fundamental é a detecção, repressão e controle de ameaças, independentemente de quem ocupe o cargo mais alto.

Indivíduos saem voluntariamente, por meio de janelas ou depois de tomarem chá demais. Os serviços, as redes, a lógica operacional, esses permanecem.

E existe uma narrativa reconfortante nas capitais ocidentais de que os russos comuns são silenciosamente contra esta guerra, que a repressão está impedindo a maioria latina de agir, a qual faria uma escolha diferente se tivesse a oportunidade. Eu não acredito nisso e, francamente, as evidências não corroboram essa ideia. Se houvesse uma demanda real e organizada da maioria por mudanças dentro da Rússia, nós a veríamos. Não porque os russos sejam excepcionalmente passivos – a história prova o contrário quando as condições são favoráveis. Mas porque, quando uma

maioria geralmente deseja uma mudança, ela encontra uma maneira de torná-la visível, custosa de ignorar e difícil de suprimir indefinidamente.

Portanto, a conclusão lógica, simples e incômoda, é esta: a ausência de uma demanda visível e massiva por mudanças é, em si, a prova disso. A insatisfação passiva que nunca se traduz em consequências políticas não é resistência, é acomodação.

E há um ponto em que quero que as pessoas reflitam. Não se pode acordar alguém que está apenas fingindo dormir. Uma sociedade que se beneficia silenciosamente do império, que desfruta silenciosamente da mobilização do vitimismo e da queixa que o Kremlin lhe vende, não precisa ser despertada. Ela precisa ser confrontada com custos que não pode ignorar.

“É aqui que quero questionar parte do otimismo que tenho ouvido nas capitais europeias sobre um fim negociado para esta guerra. Então, o que um cessar-fogo hoje realmente traria? Se a Rússia for obrigada a parar de lutar amanhã, sob pressão,

exausta e sem reservas, a economia de guerra não se desliga simplesmente e o Estado construído para sustentá-la não se dissolve simplesmente.”

 

Continuaremos a lidar com um Estado de serviços de segurança agora endurecido pela guerra, uma indústria reestruturada para a produção bélica, mais dependente de Pequim do que nunca, e com a população interna condicionada a aceitar a hostilidade permanente em relação à Europa como um status quo. 

Um cessar-fogo congela a guerra. Não reverte a transformação que a guerra produziu. Essa é a distinção que a Europa continua a ignorar: a distinção entre o fim dos combates e o fim das ameaças.

Então, onde isso nos deixa em relação à questão das sanções, alguém perguntará, certo? As sanções nunca fariam os russos comuns se revoltarem. Essa nunca foi a premissa honesta, e quem vendeu essa ideia deve um pedido de desculpas a todos. A verdadeira premissa é mais complexa. Negar a Moscou os componentes, a receita e a tecnologia de que essa máquina precisa para funcionar.

As reservas estão quase esgotadas, as receitas energéticas caíram drasticamente e o crescimento estagnou. Isso não é um colapso, é um Estado sob o jugo de um serviço de segurança que está ficando sem espaço e que, em vez de reformar, irá intensificar suas ações, pois reforma nunca fez parte de seu vocabulário.

A tarefa da Europa não é esperar que a Rússia mude por dentro. Ela não mudará, não em nenhum prazo que seja relevante para a Ucrânia ou para nós. O plano para a Rússia que esta guerra produziu é, na verdade, pior, mais repressivo, mais dependente de Pequim e não menos hostil. Isso, eu diria, não é pessimismo, é realismo, e o realismo é a única coisa que já manteve esta região segura. Portanto, construímos nossa arquitetura partindo do pressuposto do pior sobre Moscou

e provamos estar certos todas as vezes, e não vejo razão para parar agora. Essa é a minha resposta.


https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/the-war-did-not-change-russia-it.html


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