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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

The World according to Madame IA, supostamente encarnando este blogueiro - Paulo Roberto de Almeida

 Não sou espírita, não acredito em reencarnação – CORRIJO: NÃO EXISTE reencarnação –, não sou sequer religioso, nem torcedor de qualquer time ou membro de qualquer partido político, mas parece que Madame IA – reencarnada como Gemini AI, e orquestrada pelo habil manipulador de inteligências frágeis, que se esconde sob o acrônimo de ADL – reencarnou em mim e traçou um panorama desolador da atualidade geopolítica e das turbulências atuais, com base, supostamente, em meus conceitos e alguns cacoetee que exibo frequentemente nestas paragens.
O resultado segue abaixo, mas depois vou corrigir minha reencarnação, isto é, Madame IA, em torno de alguns conceitos e características de meus argumentos. Mas, por enquanto, segue como Madame IA interpretou minha análise do sistema internacional. PRA (19/08/2026)

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18/08/2026, 23:53
Incorpore o estilo de escrita, as ideias e opiniões e a linha de
pensamento (corrente de raciocínio argumentativo) do
diplomata, professor, escritor e blogueiro Paulo Roberto de
Almeida (o 'PRA', administrador do blog Diplomatizzando).
Concluída a 'incorporação', apresente um texto discursivo
(frases e parágrafos) sobre o cenário atual da geopolítica. O
texto deverá ter, no mínimo, 5500 caracteres; deverá abordar o
maior número possível de fatos relevantes na geopolítica atual.

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O Despautério Global e a Erosão da Ordem Liberal: Reflexões Racionais sobre a Anarquia Contemporânea
Por Paulo Roberto de Almeida (PRA)

Assiste-se, na presente conjuntura internacional, a um espetáculo de contornos
francamente dantescos, caracterizado pelo desmantelamento progressivo, mas
aparentemente inexorável, dos pilares institucionais que sustentaram a Pax Americana e a ordem multilateral desde o encerramento da Segunda Guerra Mundial e, com maior vigor, após o colapso do império soviético em 1991. Para um observador minimamente imbuído de espírito crítico, despido das lentes deformantes do voluntarismo ideológico e das paixões partidárias vulgares, o cenário geopolítico deste terceiro decênio do século XXI revela uma transição caótica em direção a uma anarquia hobbesiana, onde o direito internacional é reiteradamente sacrificado no altar do realismo bruto e do revisionismo autocrático.
Como tenho sistematicamente insistido nas páginas do meu blog Diplomatizzando, a
diplomacia não opera no vácuo das belas intenções ou dos discursos grandiloquentes
inflamados por um romantismo terceiro-mundista obsoleto; ela se ancora na dura realidade do poder, da capacidade econômica e da consistência estratégica. O que testemunhamos hoje é a emergência de um "eixo revisionista" — composto proeminentemente pela Federação Russa, pela República Popular da China, pela teocracia obscurantista do Irã e pela dinastia aberrante da Coreia do Norte —, cuja finalidade precípua não é a reforma pactuada das instituições globais, mas sim a destruição deliberada dos valores ocidentais de liberdade individual, economia de mercado e império da lei (rule of law).


A Tragédia Ucraniana e o Desafio Revisionista do Kremlin
O primeiro e mais candente vetor dessa desordem sistêmica localiza-se nas planícies da Europa Oriental. A agressão militar não provocada e plenamente ilegal da Rússia de Vladimir Putin contra a Ucrânia constitui o mais flagrante estupro do direito internacional e da Carta das Nações Unidas em solo europeu desde o fim do conflito mundial de 1939-1945. Longe de ser um mero conflito territorial localizado, a guerra de atrito que se arrasta na Ucrânia representa um desafio existencial à arquitetura de segurança euro-atlântica.
Putin, operando sob uma mística neo-czarista e ressentida, busca reverter o que ele
próprio qualificou como "a maior catástrofe geopolítica do século XX": o desmoronamento da União Soviética.
O erro crasso de certas correntes analíticas, inclusive na academia e na diplomacia
brasileira de inclinação "anticolonialista" de fancaria, reside em tentar equivaler o agressor e o agredido, recorrendo a piruetas retóricas sobre a expansão da OTAN. Ora, a expansão da Aliança Atlântica nunca foi um processo de anexação imperialista, mas sim uma busca voluntária, por parte das jovens democracias da Europa Central e Oriental, de um seguro de vida coletivo contra o tradicional expansionismo moscovita.

A resistência heroica do povo ucraniano e o revigoramento da OTAN — que acolheu tardiamente, mas de forma acertada, a Finlândia e a Suécia em suas fileiras — demonstram que o Ocidente, apesar de suas hesitações internas e crises de liderança, ainda conserva a capacidade de se mobilizar em defesa da liberdade. Contudo, a fadiga material e política que se insinua nas capitais ocidentais coloca em risco a sustentabilidade dessa barreira de contenção à tirania russa.


O Dragão Asiático e a Armadilha de Tucídides
No flanco asiático, o desafio é substancialmente mais robusto e estrutural. A China de Xi Jinping abandonou em definitivo o pragmatismo prudente de Deng Xiaoping — sintetizado na máxima de "esconder a capacidade e esperar o momento oportuno" — para adotar uma postura abertamente assertiva, quando não agressiva. A militarização do Mar do Sul da China, a asfixia definitiva das liberdades democráticas em Hong Kong e a retórica crescentemente belicosa em relação a Taiwan configuram um quadro de alta periculosidade para a estabilidade do Indo-Pacífico.
A China utiliza seu formidável poderio econômico e financeiro, magnificado por iniciativas de cunho nitidamente mercantilista e geopolítico como a Belt and Road Initiative (a Nova Rota da Seda), para criar laços de dependência assimétrica no Sul Global, transformando nações soberanas em satélites de seus interesses estratégicos. A ilusão de que a inserção da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 conduziria a uma liberalização política concomitante foi sepultada pelo fortalecimento de um capitalismo de Estado autoritário e tecnologicamente totalitário. O confronto multidimensional entre Washington e Pequim — que abrange desde a supremacia tecnológica em semicondutores e inteligência artificial até a dissuasão militar convencional — estabelece a polaridade dominante do nosso tempo, reeditando, sob vestes tecnológicas, a clássica Armadilha de Tucídides.


O Polvorinho do Oriente Médio e a Teocracia Persa
Ao movermos o foco para o Oriente Médio, deparamo-nos com um cenário de
fragmentação e conflito agudizado pelas ambições hegemônicas regionais do Irã. A
teocracia dos aiatolás opera como o principal fator de instabilidade na região, financiando, armando e coordenando uma rede de milícias e grupos terroristas que atuam como procuradores (proxies) de Teerã: o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen e várias facções xiitas no Iraque e na Síria.
O trágico ataque terrorista contra o Estado de Israel desencadeou uma reação em cadeia cujos desdobramentos continuam a ameaçar a segurança global e a estabilidade dos fluxos de comércio marítimo no Mar Vermelho. A resposta militar israelense, legítima em seu princípio de autodefesa, mas politicamente complexa e militarmente desgastante, evidencia a ausência de uma arquitetura regional de segurança sustentável. Os Acordos de Abraão, que representavam uma promissora via de normalização diplomática entre Israel e as monarquias sunitas do Golfo sob o signo do pragmatismo econômico, foram temporariamente colocados em banho-maria pela estratégia iraniana de sabotagem deliberada da estabilidade regional. O espectro de uma escalada nuclear por parte de Teerã paira como uma espada de Dâmocles sobre o sistema internacional, diante da fragilidade dos mecanismos multilaterais de monitoramento.


A Crise das Democracias Ocidentais e a Ascensão do Populismo
Não seria correto, todavia, atribuir a responsabilidade pela desordem global exclusivamente aos atores autocráticos externos. A ordem liberal padece de graves enfermidades endógenas. Assistimos, nas próprias entranhas do Ocidente, a uma crise de legitimidade e de funcionamento das instituições democráticas, solapadas pelo flagelo do populismo de extração tanto esquerdista quanto direitista.
Nos Estados Unidos, a polarização política extrema e a persistência de correntes
isolacionistas e transacionais no debate eleitoral enfraquecem a credibilidade das garantias de segurança americanas junto aos seus aliados tradicionais. Na Europa, a ascensão de partidos eurocéticos e xenófobos reflete o mal-estar de sociedades confrontadas com fluxos migratórios desordenados, estagnação econômica relativa e a incapacidade dos governos social-democratas ou democratas-cristãos tradicionais de oferecer respostas eficazes aos desafios da globalização. Uma civilização que duvida de seus próprios valores fundamentais — a tolerância, o debate racional, o pluralismo político e a liberdade de expressão — encontra-se em desvantagem intrínseca diante de regimes autocráticos que operam com a brutal coerção e o planejamento de longo prazo.


O Equívoco da Diplomacia Brasileira: O "Não-Alinhamento" como Cumplicidade
É imperativo, neste ponto da nossa exposição, lançar um olhar crítico sobre a inserção
internacional do Brasil diante desse tabuleiro convulsionado. A política externa brasileira recente tem capitulado, de forma lamentável, a um viés ideológico anacrônico, disfarçado sob o manto de uma suposta "autonomia pela diversificação" ou de um "não-alinhamento pragmático". Ao buscar uma equidistância imoral entre democracias consolidadas e ditaduras sanguinárias, a diplomacia brasileira apequena-se e trai as suas melhores tradições históricas, que sempre primaram pela defesa do direito internacional, da solução pacífica das controvérsias e do respeito aos direitos humanos.
A postura ambígua de Brasília em relação à agressão russa na Ucrânia, a condescendência inaceitável com a ditadura na Venezuela de Nicolás Maduro — que
fraudou descaradamente o processo eleitoral para se perpetuar no poder —, e o
alinhamento retórico automático com as narrativas do Sul Global que diabolizam o
Ocidente revelam uma incompreensão profunda das dinâmicas reais do poder mundial. O engajamento acrítico no agrupamento BRICS, especialmente após a sua expansão para incluir países de credenciais democráticas nulas ou duvidosas, arrisca transformar o Brasil em linha de frente de um bloco antiocidental liderado por Pequim e Moscou. O verdadeiro interesse nacional de uma democracia ocidental, capitalista e pluralista como o Brasil reside na defesa e no fortalecimento das regras da ordem internacional liberal, e não na sua demolição em proveito de tiranos orientais ou caudilhos caribenhos.


Considerações Finais: A Necessidade de um Realismo Iluminista
Em suma, o cenário geopolítico contemporâneo caracteriza-se por uma perigosa transição de poder sem que haja regras claras para arbitrar os conflitos emergentes. As Nações Unidas, paralisadas pelo direito de veto no Conselho de Segurança, converteram-se em uma arena de debates estéreis e impotência institucional. A governança econômica global, representada pelo G20, fragmenta-se em meio ao avanço do protecionismo, do nacionalismo econômico e das sanções unilaterais.
Para navegar nesse oceano de incertezas, faz-se mister abandonar as quimeras utópicas e o voluntarismo ingênuo. A preservação da paz e da prosperidade internacional exige o resgate de um realismo iluminista: o reconhecimento de que o poder deve ser equilibrado pelo poder, mas sempre sob a égide de valores universais que dignifiquem a condição humana. Sem a firme determinação das democracias ocidentais em defender suas sociedades abertas e suas instituições de mercado contra os assaltos do autoritarismo e da barbárie populista, o mundo arrisca mergulhar em uma nova Idade das Trevas geopolítica, onde a força bruta ditará o direito e a razão será silenciada pelo clangor das armas.


domingo, 9 de agosto de 2026

A eleição presidencial e o comércio exterior - José Eduardo Faria (Jota Eleições)

 RELAÇÕES INTERNACIONAIS

A eleição presidencial e o comércio exterior

Pleito deve definir como Brasil equilibrará relações com EUA e China

08/08/2026|05:30
governo lula venezuela
Palácio do Itamaraty. Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Os jornais têm noticiado que mais de 200 milhões de chineses deixaram o campo e foram para os centros urbanos, nos últimos anos, atraídos pelo crescimento industrial de seu país. A expansão econômica da China foi tão expressiva que levou ao surgimento de uma classe média emergente, com alto consumo de laticínios, carne e alimentos processados.

Sem alta disponibilidade de terras aráveis, a China optou pelo Brasil como seu principal exportador em matéria da proteína animal. Entre 2000 e 2024, as exportações agrícolas para esse país cresceram 20%. Em 2025, as exportações do agro brasileiro totalizaram US$ 55,3 bilhões. O principal produto exportado – soja e seus derivados – propiciou uma receita de US$ 34,6 bilhões.

O que diriam os dois principais candidatos à Presidência se, num debate frente a frente entre eles, fossem indagados sobre o que pretendem fazer nesse setor, se vierem a ser eleitos?

Comecemos com Flávio Bolsonaro. Conhecido por sua submissão à política americana unipolar proposta pela Casa Branca, em junho ele enviou carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, dizendo que está confiante de que será o vencedor e prometendo colocar uma equipe de transição à disposição do governo Trump.

“Nossas nações foram construídas sobre os princípios dos mercados livres, do respeito mútuo e da aliança estratégica a que nossos povos merecem”, escreveu. Com essa afirmação, o candidato revelou seu despreparo em matéria de relações internacionais. Mostrou não ter ideia da trajetória da política externa brasileira entre a segunda metade do século 20 e a década de 2010. E sequer sabe que, nesse período, o Brasil adotou uma exitosa política externa com o objetivo de diversificar o leque de compradores de produtos brasileiros e de reduzir sua dependência dos Estados Unidos na área comercial.

O acerto da chamada “Política Externa Independente”, que almejava equilibrar nossas relações internacionais mantendo portas abertas com diferentes polos de poder político e econômico por meio de alianças pragmáticas, levou o Brasil a ser visto como parceiro confiável. O desconhecimento desse fato por Flávio foi explicitado ainda mais pelo tarifaço imposto pela Casa Branca, justificada por Trump como resposta a “práticas comerciais negativas contra os interesses americanos”.

Em 2 de abril de 2025, que chamou de “dia da libertação”, Trump desorganizou a ordem comercial internacional ao impor altas tarifas de importação a dezenas de países. No caso do Brasil, os analistas apontam que, atualmente, só 12% de nossas exportações vão para os Estados Unidos. Por isso, o impacto do tarifaço sobre os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos teria sido menos desastroso quando comparado com o impacto causado em outros países.

Não passou pela cabeça de Flávio que, ao converter o comércio exterior em instrumento de pressão geopolítica, Trump enfraqueceu uma ordem internacional cooperativa forjada há décadas. Flávio também não entendeu que os tarifaços trumpistas só estimularão o Brasil a diversificar ainda mais a rede de mundial de importadores de produtos brasileiros. Ao enfatizar o que chamou de “princípios de mercados livres” e revelar a disposição de fazer do Brasil um “fiel aliado americano”, Flávio foi além do aulicismo.

Ele evidenciou não ter ideia de que o objetivo de uma política externa responsável é equilibrar relações diplomáticas, ampliar mercados e manter portas abertas com diferentes polos de poder no cenário mundial. Subserviente, a ponto de abrir caminho para que Trump interfira na eleição brasileira, Flávio chegou a pedir à Casa Branca que esperasse passar a eleição para impor mais tarifas a produtos brasileiros. Ao desprezar a China por motivo ideológico, Flávio também relegou o fato de que o Brasil mantém uma importante relação comercial com esse país, independentemente de seu regime político.

Em 2024, a China foi responsável por 28% das exportações brasileiras. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para esse país cresceram 22%, enquanto para o Estados Unidos recuaram 13%. Ainda que a pauta de exportações para os Estados Unidos envolva produtos de alta tecnologia e valor agregado, esses números revelam que o futuro do Brasil no comércio exterior dependerá de como o país vier a agir, tendo de lidar simultaneamente com Estados Unidos e China, dois países hostis um ao outro.

Neste ponto, Lula destacou-se por olhar para outros lugares do mundo e demonstrou bom senso ao não se deixar levar pelo alinhamento automático com os Estados Unidos. Sem colidir frontalmente com este país, como evidenciou em sua visita a Trump em maio, o presidente optou por buscar alianças estratégicas, aprofundando o relacionamento do Brasil com a China.

Se por um lado Lula carece de uma visão de mundo refinada, deixando-se levar por declarações de inspiração nacionalista e soberanista, por outro teve o bom senso de, em seu terceiro, de deixar o Itamaraty sob controle de diplomatas respeitados. E estes o persuadiram a rejeitar retaliações aos Estados Unidos, ao menos num primeiro momento.

Também o advertiram para as armadilhas da polarização. E ainda o lembraram dos riscos de um eventual acionamento da Lei de Reciprocidade, o que, longe de quebrar as patentes de empresas americanas no país, poderia agravar muito mais a situação. Ao mesmo tempo, estimularam Lula a valorizar negociações, priorizando interesses econômicos de médio prazo, sem dar maior ênfase aos interesses políticos de curto prazo.

Contudo, após ter seguido esses conselhos num primeiro momento, com o tempo o presidente retomou suas falas recorrentes. Falou em defesa da Nação. Criticou os traidores da pátria. Disse que “ninguém nos vencerá com mentiras”. Voltou a ressaltar a importância da aproximação com a Ásia. E, em ligação telefônica com o presidente chinês Xi Jinping, voltou a falar no fortalecimento dos Brics sem, contudo, ter ideia de que alguns países que compõem esse bloco nem sempre falam a mesma linguagem nem as mesmas ambições – pelo contrário, têm interesses próprios que, muitas vezes, são divergentes. Além disso, muitos desses países não constituem fontes de capital significativas nem mesmo para si próprios.

No caso específico de Flávio Bolsonaro, se ele for eleito o Brasil terá um presidente incapaz de avaliar o custo que o país terá de arcar em decorrência do alinhamento automático com os Estados Unidos. Recorrendo a mentiras como palavras de ordem, Flávio é incapaz de compreender o quanto o país precisa agir de modo responsável no cenário internacional, abrindo caminhos, ampliando espaços, multiplicando fontes de capital e diversificando fluxos de comércio.

Já no caso da reeleição de Lula, o problema será outro. Como sua visão da economia mundial é mais ideologizada do que analítica, muitas vezes ele tende a ser raso e dúbio. Após o novo tarifaço, a chancelaria preparou para Lula minutas de artigos moderados mas oportunos que foram publicados pela imprensa americana. Ao mesmo tempo, o Itamaraty e o Ministério da Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços agiram com sensatez ao enfatizar a importância de se identificar interesses comuns no cenário mundial.

Em termos concretos, porém, o presidente cogitou em tomar iniciativas perigosas, como a impetração de um recurso na OMC com base na Lei de Reciprocidade para “marcar posição”, esquecendo-se de que retaliações americana podem ter alto custos. De concreto, seu governo limitou-se até agora a lançar uma nova fase do controvertido Brasil Soberano, um programa concebido há um ano com para atender empresas brasileiras atingidas pelo tarifaço de 2025.

A verdade é que, além da falta de prudência e pragmatismo, o candidato incumbente carece de uma visão estratégica de médio e longo prazo para o país. Como advertiu o diplomata Rubens Barbosa, que foi embaixador em Washington entre 1999 e 2004, se nada for feito nesse sentido “o Brasil continuará administrando as influências externas sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas e tecnológicas em curso no cenário global”.

Barbosa está certo. É por isso que só um debate entre estes dois presidenciáveis pode abrir caminho para que a retórica seja substituída por uma discussão responsável e substantiva sobre um tema vital para o futuro do país.logo-jota

Os artigos publicados pelo JOTA não refletem necessariamente a opinião do site. Os textos buscam estimular o debate sobre temas importantes para o país, sempre prestigiando a pluralidade de ideias.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O evangelho de Samuel [Pinheiro Guimarães] - Sérgio Leo (Valor Econômico, dezembro de 2009)

Resgato, de uma postagem neste mesmo blog, mas de dezembro de 2009, este artigo do jornalista Sergio Leo relatando um almoço-conversa com o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, no momento em que ele deixava a SG do Itamaraty e começava a se encarregar dos "assuntos estratégicos", no governo Lula 2.

O evangelho de Samuel
Sérgio Leo, de Brasília
Valor Econômico, 23/12/2009

O que eu disse é que nem Jesus Cristo teve reconhecimento em sua própria terra, e olha que ele fazia milagres!
A leitura da Bíblia é fundamental para entender o pensamento dos neoconservadores nos Estados Unidos
Se nós tínhamos dificuldades em fazer planos para o Brasil, quanto mais pessoas que nunca moraram no país, sem experiência


"Jesus Cristo, segundo o evangelho de São Marcos, vai a Nazaré, sua cidade natal; as pessoas não acreditam nele, e diz: 'Ninguém é profeta em sua própria terra'." Esse é o ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, ex-secretário-geral do Itamaraty, sacando uma frase bíblica que hoje é lugar comum, ao responder por que é tão criticada, no país, a política externa da qual foi, até outubro, um dos formuladores e operadores.

A diplomacia da era Lula se compara a Jesus Cristo? "Não, não é isso", responde, enfaticamente, com expressão preocupada. E sorri. "O que eu disse é que nem Jesus Cristo teve reconhecimento em sua própria terra; e olha que ele fazia milagres!"

Milagres parecem mesmo estar em falta em algumas áreas da política externa brasileira. Por exemplo, para fazer levantar e andar o Mercosul, abalado economicamente pelo agravamento do protecionismo, com a crise financeira internacional, e, politicamente, por divergências internas e regionais. Com a entrada da Venezuela no bloco, então...

Mas o ministro, acostumado à polêmica despertada por suas opiniões incisivas sobre política externa, pede que o tema não seja servido neste "À Mesa com Valor". É pedido que faz, nas entrevistas e conversas, desde que, prestes a alcançar 70 anos de idade e deixar automaticamente o quadro do Itamaraty, trocou o segundo posto na hierarquia do Ministério das Relações Exteriores pelo comando do Ministério de Assuntos Estratégicos, sucedendo a Roberto Mangabeira Unger.

O veto aos temas internacionais não tem adiantado, até porque Pinheiro Guimarães adora falar do assunto. Há alguns meses, só aceitava dar entrevista se reproduzida na íntegra, no modelo pergunta e resposta; e pedia para ler o texto antes da publicação. Como ministro, está bem mais à vontade; chega descontraído e falante ao restaurante Villa Tevere, na Asa Sul de Brasília, local habitualmente escolhido por políticos e outros frequentadores que preferem o ambiente mais discreto e o cardápio bem mais sensato que o de outros restaurantes famosos da cidade.

Nos últimos dias, foi possível ler opiniões de Pinheiro Guimarães sobre Honduras ("O Brasil agiu certo abrigando o presidente deposto, Manuel Zelaya; errado seria aceitar tratos com os golpistas"), Venezuela ("Há liberdade de imprensa na Venezuela, basta ver as bancas de jornais e livrarias"), Irã ("Outros países não pautam o Brasil na escolha dos interlocutores na esfera internacional"), globalização ("A globalização é um fato; a adesão ao credo neoliberal não, tanto que está em dificuldades quem mergulhou no neoliberalismo"). A lista de assuntos polêmicos abordados pelo diplomata é inesgotável - assim como são antigas suas convicções e a disposição para defendê-las.

Em matéria de nacionalismo e ação política, Pinheiro Guimarães comprou a primeira briga no governo aos 25 anos, na década de 1960. E antes ainda botou banca.

Diplomata em início de carreira, foi indicado por um superior para dirigir a área internacional da então poderosa Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste. Foi convidado por um ex-assessor da Organização dos Estados Americanos, João Gonçalves de Souza, nomeado para a superintendência da Sudene e cearense como o presidente da época, marechal Humberto de Alencar Castelo Branco - o primeiro mandatário do que seria uma longa ditadura militar. "Eu disse: Aceito, se tiver carta branca", lembra Pinheiro Guimarães.

Com a carta que recebeu, o jovem Samuel infernizou assessores estrangeiros que queriam influir em programas do governo brasileiro. Eram os técnicos americanos, da Usaid, a agência de cooperação dos Estados Unidos.

Mas, antes, o jantar.
Pinheiro Guimarães diz que não quer vinho. "Não tenho tomado; acordo muito cedo; mas gosto de vinho argentino, Malbec", esclarece, e pede água, sem gás. O assessor do ministro, Walter Sottomayor, escolhe um modestíssimo Malbec argentino, da casa Tamari, safra 2008, a ser dividido solidariamente com o repórter, já que o fotógrafo também prefere água.

Depois de recusar o lombinho de cordeiro com crosta de ervas, sugerido pelo repórter, e cogitar um medalhão à Gianetti, ao vinho marsala e cogumelos shitake, acompanhado de risoto de açafrão com lascas de queijo tipo Grana, o embaixador, provocado por outro comentário do jornalista, escolhe o filetto della Mafia, com molho ao queijo brie, vinho tinto e bacon, acompanhado de fetucine - que ele picará sem piedade com a faca, antes de comer. Servida por engano pelo garçom, uma taça de vinho permanecerá invicta até o final da refeição, ao lado do prato.

"Para ter uma ideia do número de funcionários da Usaid, o tamanho do prédio deles era o mesmo do da Sudene", lembra o embaixador. Quando era diretor da Sudene, recusou-se a demitir pessoas de uma lista encaminhada pelo governo, e rechaçou as tentativas dos assessores americanos de participar da redação do plano de desenvolvimento do Nordeste. "Se nós tínhamos dificuldade em fazer planos para o Brasil, quanto mais pessoas que nunca moraram no país, sem experiência." Não convenceu os chefes, que o demitiram. Voltou ao Itamaraty, para cuidar de política comercial, menos de um ano depois de ter se mudado para Recife.

A carreira diplomática foi praticamente um desdobramento da atividade política, que começou na faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O nacionalismo é herança de família: também era nacionalista o pai, Samuel Pinheiro Guimarães Filho (o diplomata é Pinheiro Guimarães Neto, e o avô que lhe deu o nome surgirá logo adiante, na conversa com o Valor, entre um prato de buschettas, das quais ele come apenas metade, e a chegada do prato principal). Um tio, cunhado do pai, Aguinaldo de Freitas, era advogado e jornalista. Com coluna na "Última Hora" ("Coluna política importante, como as de hoje, como a da Dora Kramer"). Era quem o levava para assistir às sessões de comissões de inquérito, como o que resultou na encampação da Bond & Share britânica pelo governo Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul.
Pinheiro Guimarães Filho, carioca, foi despachante municipal, corretor de imóveis e dono de empresa de construção, na qual empregou o herdeiro como contínuo. Foi o primeiro emprego, aos 18 anos, do hoje ministro. Também marcante foi a influência política da avó de Samuel Pinheiro Guimarães Neto, dona Gabriela, sobrinha de um dos "pais" da República, Aristides Lobo, abolicionista e autor de famosa carta em que, ao contar a derrubada, por militares, do monarca Pedro II, descreve como o povo assistiu, "bestializado, atônito, surpreso", ao nascimento do novo regime político.

"Minha avó era uma pessoa interessante, muito politizada", recorda. A palavra "interessante" costuma ser convocada, com toda sua ambiguidade diplomática, para adjetivar a conversa de Pinheiro Guimarães Neto. Além da avó, são "interessantes" a teoria da modernização autoritária de Samuel Huntington, os amigos que conheceu na Cepal, como Maria da Conceição Tavares; a dimensão que a política externa ganhou no debate político interno; o salário que recebeu ao ser contratado como economista sênior de uma grande construtora, em uma passagem pelo setor privado; e até o filme "Eu Te Amo", de Arnaldo Jabor. Mas o cineasta e cronista, que o diplomata computa entre os amigos, entrará na conversa mais à frente, já quase na sobremesa.

O bisavô Francisco Pinheiro Guimarães foi deputado, alto oficial na Guerra do Paraguai, deputado e autor de teatro. Aristides Lobo foi tradutor de Rabelais. Não teriam os cromossomas marcado no diplomata alguma ambição literária? "Não penso em escrever ficção, exige talento", diz o autor dos livros de ensaio "Quinhentos Anos de Periferia" e "Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes" - que, em 2006, lhe valeu o prêmio Juca Pato, de Intelectual do Ano, pela União Brasileira de Escritores.

Solicitado a dizer quais os livros de sua preferência, Pinheiro Guimarães Neto sai-se com uma resposta vaga: os "clássicos". Repete "os clássicos" quando ouve a pergunta pela segunda vez, e, na terceira, cita "A Origem das Espécies", de Charles Darwin. Leu há oito anos a Bíblia, e, à parte as lições óbvias, diz que a leitura é útil até na política contemporânea. "Fundamental para entender o pensamento dos neoconservadores nos Estados Unidos", garante.

Entre os últimos livros que leu também não há romances. ("Leio menos do que gostaria, a maior parte ciências sociais, política internacional, para as aulas", diz. Ele leciona no Instituto Rio Branco, de formação de diplomatas). "O último que li, muito interessante, sobre a crise, chama-se 'One Trillion Dollar Crisis', que, na segunda edição, em poucos meses, tornou-se 'Two Trillion Dollar Crisis'".

"É de um ex-banqueiro, que conhece bem o mercado financeiro, e escreve para não especialistas." Está falando do elogiado livro "The Trillion Dollar Meltdown: Easy Money, High Rollers and the Great Credit Crash", do advogado, analista e historiador Charles R. Morris, publicado no Brasil como "O Crash de 2008 - Dinheiro Fácil, Apostas Arriscadas e o Colapso Global do Crédito". Morris, presidente de uma companhia de softwares para instituições financeiras, alertava, em 2007, quando escreveu a primeira versão do livro, para o rumo insustentável dos mercados financeiros mundiais.

Pinheiro Guimarães também leu recentemente "A Crise de 2008 e a Economia da Depressão", de Paul Krugman, e "The Rise of China and the Demise of the Capitalist World Economy", de Minqi Li, ex-preso político na China, hoje professor assistente de economia da Universidade de Utah. O livro, publicado por uma editora de esquerda americana, a Monthly Review Press, defende a tese de que, em lugar de abrir-se gradativamente à economia capitalista, a China vai levar o capitalismo ao colapso ao elevar os custos ambientais, do trabalho, do capital, na produção mundial. "É um livro interessante", resume Pinheiro Guimarães.

Foram dois livros de economia os responsáveis pela convicção desenvolvimentista do embaixador. Estava no primeiro ano da faculdade, nos anos 1960, quando ganhou de um amigo um exemplar de "Terceira Força", do escritor português Paulo de Castro, militante antifranquista, combatente contra o governo colaboracionista na França. Era um livro "extremamente interessante", que falava da Iugoslávia, da Argélia, de Israel dos kibutz e dos trabalhistas, e abriu os interesses do jovem estudante para o chamado Terceiro Mundo.

Nessa época, Pinheiro Guimarães passou a frequentar o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), criado nos anos 1950 por intelectuais de esquerda, que, até ser abatido pelo golpe de 64, reuniu algumas das cabeças mais brilhantes do pensamento nacionalista e desenvolvimentista. "Conheci muitas pessoas, o Cândido Mendes, o Roland Corbusier, grande Roland Corbusier", lembra, citando o intelectual e político (do PTB) que, como outros da época, começou carreira no integralismo.

O Iseb publicou outro livro considerado fundamental pelo diplomata: "Teoria Econômica e Regiões Subdesenvolvidas", de Gunnar Myrdal, economista, intelectual e político sueco. Pinheiro Guimarães recorda e descreve outro livro famoso de Myrdall, "Dilema Americano: O Problema do Negro e a Democracia Moderna". "Em qualquer sociedade, tem situações, comunidades que se desenvolvem e outras ficam no círculo vicioso da pobreza", resenha.

"Não há serviços públicos, as pessoas se alimentam mal, ficam doentes, têm dificuldade em sair da situação de subdesenvolvimento, de onde fogem os mais dinâmicos." O interesse em estudar economia o levou a ler David Ricardo, que mencionava Adam Smith, o qual, por sua vez, citava vários pensadores antigos. "A maior parte da tradição ocidental é de pensadores refutando anteriores; Aristóteles é refutação de Platão." Decidiu, por isso, "começar do começo". E passou a estudar Platão. "A leitura dos clássicos fora de ordem não é proveitosa, o melhor é que seja sistemática."

Sistemático, decidiu estudar economia, e, a conselho de um amigo, Márcio Rego Monteiro, pleiteou matrícula no mestrado da Universidade de Boston, cidade onde foi cônsul. Somada a temporada que passou depois na representação brasileira nas Nações Unidas, em Nova York, onde morou em um subúrbio com mulher e quatro filhos, Pinheiro Guimarães morou cinco anos e meio nos Estados Unidos.

Obteve o diploma de mestrado, fez as disciplinas do doutorado, mas não elaborou tese e, por isso, só inclui no currículo o mestrado por Boston. A partir dessa experiência, desenvolveu algumas teses antropológicas e sociológicas sobre a sociedade americana. "Coisa muito interessante, o sistema americano." As pessoas terminam o secundário e vão para a universidade, longe da cidade onde moram os pais, explica. O sistema de créditos, "implantado no Brasil depois de 64, para fraturar o movimento estudantil", dificulta a formação de turmas. "Quando termina a graduação, o sujeito, que se separa da família e só vê os país no Dia de Ação de Graças, se candidata a outra faculdade, em outro Estado. Há um estranhamento, ninguém sabe direito quem é quem. Você se torna um átomo, uma unidade do fator trabalho, o que garante mobilidade e, portanto, maior produtividade, maior eficiência."

A falta de uma rede de proteção familiar e de referências estáveis facilita a alocação de fatores de produção, mas fragiliza as pessoas e estimula o consumo de drogas e álcool, teoriza o diplomata, que teve poucos postos no exterior porque queria que o Brasil fosse uma referência forte para os quatro filhos - numerosos, porque via na família a importância de muitos parentes. "Na elite do poder isso ocorre, as famílias são maiores, frequentam os mesmos clubes, vão às mesmas universidades", diz, com um acento irônico na voz.

Livros puxam livros, e Pinheiro Guimarães resolve exigir dos subordinados, quando secretário-geral de Relações Exteriores, a leitura de três deles. Nega ter havido triagem ideológica. "Um era a vida do barão do Rio Branco; outro, do Moniz Bandeira, com prefácio elogioso de Rubens Ricupero; e o terceiro, de história do pensamento econômico, do Ricardo Bielschowsky, com prefácios do Roberto Campos e do Celso Furtado elogiando a imparcialidade." Ainda assim, as reclamações levaram o ministro Celso Amorim a determinar o fim da exigência de leitura. "Não me senti atingido, não; havia uma circunstância política que levou a isso, né?"

Mais de uma hora de conversa, sempre bebericando água, Pinheiro Guimarães resolve pedir algo mais forte. "Um suco de laranja, por favor." Beberá dois, até o cafezinho, que deixa de lado.

Circunstâncias. Outra palavra apreciada por Pinheiro Guimarães, que, no entanto, não cita o filosofo espanhol Ortega y Gasset, aquele para quem "o homem é ele e suas circunstâncias". Circunstancialmente, ao voltar ao Brasil, no governo Médici, foi recomendado por um amigo, Armando, irmão do economista Antônio Barros de Castro, à construtora Serete, para fazer estudos econômicos sobre os mercados de metais e o potencial da exploração madeireira na Amazônia. Circunstancialmente economista, escreveu artigos na revista "Visão", de Said Farhat. Também uma circunstância o levou, já separado, a conhecer a terceira mulher.

Militante do PT, documentarista da TV Senado, a socióloga e antropóloga Maria Maia sentou-se ao lado de Pinheiro Guimarães, ao voltar a Brasília, onde assistiram ao Festival de Cinema. Estão juntos há 12 anos. "Sempre tive enorme interesse em cinema, no Rio." Já quando militante estudantil, tornou-se amigo de cineastas também militantes, Leon Hirzmann e Cacá Diegues, que quase passou a ele a direção de um jornal secundarista. No Instituto Rio Branco conheceu Celso Amorim, uma turma adiante, e com ele conversava sobre cinema.

Quando Amorim dirigiu a Embrafilme, o hoje ministro foi seu segundo. Frequentador de cinema duas ou três vezes por semana, gosta de Fellini, anda apaixonado pelos cineastas argentinos e adorou "O Banheiro do Papa", do uruguaio Enrique Fernandez. Gosta do interessante "Eu Te Amo", do amigo Arnaldo Jabor.

Amigo? O Jabor desanca a política externa em suas colunas na imprensa e no rádio, lembra o repórter. "Encontrei-o recentemente, foi muito gentil." Ultimamente, Jabor "anda zangado", admite. Mas pode ser fita, puro personagem, concede.

Pinheiro Guimarães diz que não polemiza, que as críticas são bem-vindas, porque podem dar lugar a mudanças. Provocado, reluta em comentar recente nota de Élio Gaspari, que, escandalizado, reproduziu trecho de uma palestra na qual o ministro citou Alemanha e Japão como exemplos do alto preço pago por contestar a "hegemonia anglo-saxã".

"O nazismo não tem paralelo, um regime com perversão de valores, agressividade, absolutamente condenável", comenta, lembrando artigo de 2002, para a revista "Estudos Avançados", da USP, em que fala de nacionalismos, e cita a Alemanha de Hitler como exemplo negativo. "Porém, uma coisa é clara: a composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas foi decidida antes de se descobrirem as atrocidades dos campos de extermínio, o horror das experiências com humanos. A guerra não foi montada em torno dessa questão, mas de uma disputa de poder."

Depois de esquivar-se de algumas perguntas sobre política externa, Pinheiro Guimarães acaba fazendo defesa enfática da importância de um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas ("Eles têm o monopólio da força, e têm expandido a competência para vários temas, e, se estamos ali, podemos defender melhor nossos interesses, que têm se diversificado"). Fica animado quando, finalmente, o repórter lhe pergunta sobre o ministério.

Está empenhado na tarefa de elaborar um plano para 2022, requisitado pelo presidente Lula. Conversou com quase todos os ministros. Não com Dilma Rousseff, da Casa Civil, que estava em viagem. "Falei com a Erenice Guerra." Será um plano com metas previstas, e "para cada meta vão se estabelecer instrumentos quantificáveis".

Que tema o apaixona mais? "Um país se desenvolve quando aumenta o número e a variedade dos bens que produz, como nos Estados Unidos", responde. São necessários conhecimento tecnológico, e muitos recursos, inclusive humanos, complementa. "Daí a necessidade muito importante de formar quadros, engenheiros das mais diversas áreas." Para formar engenheiros, são necessários bons cursos, e, para isso, bons professores de matemática. "Os chineses fazem isso, temos de começar agora", diz ele, que ainda ficará, por alguns minutos, à porta do restaurante, sem pressa de ir embora, lembrando histórias de sua formação política. Telefonará, depois, ao repórter, para aclarar dúvidas e contar os nomes dos filhos e enteados. Perdão, embaixador, o espaço acabou.

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Transcrito no blog Diplomatizzando com este título: 

1614) O profeta Samuel (nao fui eu quem disse...) 

 

 

Crise política e diplomática com os EUA - Rubens Barbosa Portal Interesse Nacional

Crise política e diplomática com os EUA

O governo, a classe política e os empresários precisam entender qual o real desafio no cenário internacional e procurar discutir e implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado, e estratégias de médio e longo prazo

Rubens Barbosa

Portal Interesse Nacional, 7/08/2026 

As relações bilaterais com os Estados Unidos se deterioraram desde o início do governo Trump, em especial, depois das restrições protecionistas globais com as sucessivas medidas do tarifaço e das investigações comerciais mais pesadas contra o Brasil.

A crise política e diplomática surgiu e tende a se intensificar com base em dois fatores: a prioridade (pela primeira vez na história) do Hemisfério Ocidental (América Latina) como área de influência da administração Trump e a interferência no processo eleitoral de outubro próximo. Além das medidas comerciais que afetaram o Brasil e provocaram reações em nível técnico e político do governo Lula, desde abril de 2025 até julho de 2026, começaram a surgir evidências de uma crise política e diplomática que está sendo gradualmente agravada pelo componente ideológico dos dois lados. 

‘A Lei de Segurança Nacional dos EUA estabelece que os países da região devem escolher se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos ou em um mundo paralelo’

A Lei de Segurança Nacional dos EUA estabelece que “a escolha que todos os países da região devem enfrentar é se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos, com países soberanos e economias livres, ou em um mundo paralelo no qual são influenciados por países do outro lado do mundo. Recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que estejam amplamente alinhados com nossos princípios e estratégia. Mas não devemos ignorar governos com perspectivas diferentes, com os quais, ainda assim, compartilhamos interesses, e que desejam trabalhar conosco”. 

A preocupação com a China está presente quando o documento acentua que “qualquer tipo de ajuda dos EUA deve estar condicionado à redução gradual da influência externa adversária – instalações militares, portos, infraestrutura e mesmo aquisição de ativos estratégicos, entre outros”. 

‘A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo secretário da Guerra)’

A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo secretário da Guerra). O Corolário Trump da Doutrina Monroe cria grandes desafios para a política externa do PT, levando em conta a dependência comercial da China e o forte viés antiamericano expresso pelos governos Lula e Dilma, ao longo dos 20 anos em que o partido ocupou o poder. 

Por outro lado, essas medidas são influenciadas por motivações ideológicas prevalentes no Departamento de Estado contra governos de esquerda, como Cuba, Nicarágua, Venezuela e agora inclusive o Brasil, considerados países “não amigos dos EUA”, no dizer de Marco Rubio. 

Em um ano e meio, houve significativos avanços e crescente influência do governo Trump na região: no Panamá, na Venezuela, na Argentina, em Cuba, no combate à imigração ilegal e ao crime organizado, nas eleições presidenciais, nas propostas de criação de um grupo para minérios estratégicos e do Escudo das Américas. 

‘O Brasil foi o único país a criticar e a não aceitar pressão para zerar as tarifas para bens industriais, químicos e automotriz e a questionar o tarifaço na OMC’

O Brasil foi o único país a criticar e a não aceitar pressão para zerar as tarifas para bens industriais, químicos e automotriz e a questionar o tarifaço na OMC. O governo brasileiro colocou-se contra a classificação de grupos criminosos como terroristas e não está representado no grupo sobre minérios, nem no Escudo das Américas, nem no Conselho de Paz. 

Em artigo do último dia 26 no Washington Post, Lula foi duro e direto ao afirmar que “dividir o mundo em áreas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos. Ninguém vai nos derrotar por mentiras (acusação de que o Brasil estava espionando o espaço em favor da China e outras relacionadas com o tarifaço). A América Latina não precisa de porta-aviões patrulhando suas águas, nem de tarifas punitivas”. 

‘O segundo fator da crise – a interferência externa nas eleições presidenciais – está escalando gradualmente’ 

O segundo fator da crise – a interferência externa nas eleições presidenciais – está escalando gradualmente, como parte da missão atribuída por Trump ao secretário de Estado, Marco Rubio, de redesenhar politicamente e ideologicamente a região. 

A escalada retórica entre os dois governos começou com a postagem de Rubio afirmando que “as tarifas foram decididas como forma de retaliação ao governo Lula” e que “o Brasil não estava negociando de boa fé com os EUA e que Lula colocou seu próprio ego a frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”. E a resposta de Mauro Vieira rechaçando o “ataque de forma grosseira e arrogante contra um chefe de Estado de um país amigo e afirmando que o Brasil não vai se curvar às pretensões desmedidas e demandas irrazoáveis”.  

O atrito continuou com uma série de declarações de confronto. O desafio público do presidente para que Rubio crie um comitê para apoiar Flávio Bolsonaro foi respondido em Nota do Departamento de Estado em que reafirma “o interesse histórico e global dos EUA na liberdade de expressão e na integridade dos processos democráticos em todo o mundo, inclusive no Brasil”. 

A declaração de Vieira de que a classificação dos grupos criminosos como terroristas abriria caminho para o uso da força militar norte-americana no Brasil, recebeu resposta imediata do Departamento de Estado considerando “absurda” essa declaração. 

Ao prorrogar tarifa de 50% (sem efeito prático), com base na legislação suspensa pela Suprema Corte, Trump disse que “o Brasil interferiu na economia dos EUA, violou a livre expressão de cidadãos norte-americanos e minam os interesses dos EUA em proteger seus cidadãos e empresas”. 

‘Caso o governo brasileiro decida aplicar a lei de reciprocidade e eventuais retaliações às tarifas, a reação de Washington poderá escalar rápida e violentamente’

Caso o governo brasileiro decida aplicar a lei de reciprocidade e eventuais retaliações às tarifas, a reação de Washington poderá escalar rápida e violentamente, como ocorreu com o Canadá, com consequências imprevisíveis para a economia interna e a relação política e diplomática. 

A escalada continuou com a negação de visto para o assessor de Trump e para dois altos funcionários do Departamento de Estado que viriam ao Brasil para questionar o sistema eleitoral brasileiro, segundo o Washington Post, o que foi negado oficialmente pelo Departamento de Estado. 

‘A forma como ocorreu a designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, aliado de Trump é mais um ato ideológico do Departamento de Estado’

A forma como ocorreu a designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, aliado de Trump é mais um ato ideológico do Departamento de Estado. Anunciado e sabatinado pelo Senado dos EUA, antes do pedido de agrément ao governo brasileiro, a concessão do agrément deverá ocorrer somente depois das eleições. No dia 3, práticas diplomáticas foram mais uma escalada na crise. 

Em nota do Departamento de Estado foi explicado que o visto da embaixadora do Brasil em Washington foi revogado em razão da demora na concessão do agrément para o novo embaixador dos EUA e o cancelamento de vistos de três altos funcionários norte-americanos. 

Em resposta o Planalto emitiu dura nota chamando de faltas as alegações de Washington e Lula, de irresponsáveis, em mais uma escalada da crise. A confirmação por Lula de que o agrément ao embaixador não vai ser concedido antes das eleições pelo receio de interferência no processo eleitoral deverá agravar as tensões bilaterais com novas retaliações contra o Brasil.

‘A influência ideológica e partidária de todos os lados na política externa está apresentando soluções inusitadas, quebrando séculos de práticas diplomáticas’

Uma coisa não se pode ignorar, a influência ideológica e partidária de todos os lados na política externa está apresentando soluções inusitadas, quebrando séculos de práticas diplomáticas. Com o crescente afastamento dos diplomatas dos centros de decisões é de esperar-se novas e criativas soluções para tornar ainda mais inesperadas as crises políticas e diplomáticas.

Noticia-se que Lula está buscando conversa telefônica direta com Trump para tratar da convocação de encontro dos líderes das principais potências para a busca de uma saída para os conflitos atuais. Nesse sentido, já teria falado com Putin e com Xi. Mais uma vez em busca de protagonismo, se a conversa ocorrer, como será tratada a crise bilateral? 

O telefonema de Lula a Xi Jinping no domingo, 26 de julho, e o apoio público do governo de Pequim contra ingerência externa no Brasil reforçam a percepção de Washington da crescente influência chinesa.

‘A questão crítica em jogo para o país, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica’

A questão crítica em jogo para o país, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica. O governo, a classe política e os empresários precisam entender qual o real desafio no cenário internacional e procurar discutir e implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado, e estratégias de médio e longo prazo. 

Se isso não for feito, o Brasil continuará a reboque da história, administrando as influências externas, sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas, tecnológicas em curso e sujeito a crescentes pressões de Washington no contexto da política de área de influência sobre a América Latina. Dependendo do resultado da eleição presidencial, ficará decidido o próprio conceito de soberania e interesse nacional.

Em outra frente, em nova decisão inovadora na diplomacia, o Brasil decidiu unilateralmente ”rebaixar” suas relações com a Argentina e nesse sentido ainda pediu que o embaixador argentino volte para casa enquanto o representante brasileiro em Buenos Aires permanecer no Brasil.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Ruptures and Continuities in Brazilian Foreign Policy, 1985-2023: Vicissitudes of diplomacy in Brazil - Paulo Roberto de Almeida (Revista do CEBRI)

O CEBRI me informa que a versão em inglês do meu texto "Rupturas e continuidades na política externa brasileira, 1985-2023" (Brasília, 4215: 7 agosto 2022), foi publicado no site do CEBRI (https://cebri.org/revista/en/artigo/54/ruptures-and-continuities-in-brazilian-foreign-policy-1985-2023):


Ruptures and Continuities in Brazilian Foreign Policy, 1985-2023

Vicissitudes of diplomacy in Brazil

Paulo Roberto de Almeida

THE LONG AND SLOW CONSTRUCTION OF AN AUTONOMOUS FOREIGN POLICY UNDER THE MILITARY REGIME

Of all the public policies defined and implemented during the military regime from 1964 to 1985, foreign policy was possibly the one that suffered the fewest disruptions during the transition from dictatorship to democracy in that last year. This was due to several reasons, not all of them political or ideological, since there was already a long tradition of close cooperation between the Ministry of Foreign Affairs and the Armed Forces since the Paraguayan War, a cooperation that was significantly reinforced during the Baron's era and in special periods, such as the two global conflicts of the first half of the 20th century and during the bipolarity of the post-World War II era. Professional diplomacy naturally incorporated the technocratic and nationalist vision of the military establishment, and even reinforced the foundations of a development diplomacy that was almost the "official ideology" of Itamaraty from the Estado Novo until practically the present day.

Despite the anti-communist paranoia and obsessions typical of the Cold War, in the 1950s and early 1960s, diplomats became far more progressive and alternative than the military, flirting with non-alignment and enthusiastically embracing the concepts introduced by the Independent Foreign Policy (IFP), even before it was known by that name, as seen in the proposal for Operation Pan-America made in the second half of Juscelino Kubitschek's government. Decolonization, the promises of détente, and even the defense of a legally sound position at the Punta del Este conference (1962; when the Americans pressured for Cuba's expulsion from the OAS - Organization of American States) were very well received by the young diplomats, who soon found themselves frustrated by the coup and the beginning of a regime that declared itself to belong to "Western and Christian civilization," as a motto to align Brazil with American positions during an initial (and short) phase. 

The first major break with the typically non-ideological, and basically developmentalist, patterns of foreign policy from 1951-1964 was precisely the "diplomacy of concentric circles" announced by General Castelo Branco, the first president of the dictatorship, to the graduates of the Rio Branco Institute in 1964. Little by little, however, this "deviation" from more independent stances was gradually reversed during the second general-president, when the basic principles of the IFP (Independent Foreign Policy) practically returned, albeit obviously without the name: non-acceptance of the Nuclear Non-Proliferation Treaty, a demanding stance at the United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) and other UN negotiating meetings, when the alleged (by the Americans) "Third-Worldism" of Itamaraty (the Brazilian Ministry of Foreign Affairs) began in its defense of theses that hardly coincided with Washington's worldview. 

Already under the fourth president of the dictatorial cycle–notwithstanding a kind of "shielded diplomacy" towards leftist regimes in South America, such as the support given in 1973 to General Pinochet's coup in Chile and the understandings with hardline military officers in Argentina, Uruguay, and Bolivia–the "continuity" with the line of autonomy in foreign policy was completed, with the establishment of diplomatic relations with communist China and the recognition of the new regimes that emerged from the independence of the former Portuguese-speaking African colonies. The convergence of military and diplomats was based on mutual trust, so much so that three diplomats succeeded one another at the head of Itamaraty, starting with the third military President, not to mention some less prestigious "missions," such as the surveillance of exiled leftist militants abroad. For the rest, foreign policy was practically determined by the Ministry of Foreign Affairs, with the few exceptions of the taboo subjects of the military era (Cuba, threats of foreign cooperation with guerrillas in the country, in short, world communism).

Thus, with the beginning of the "New Republic," one cannot properly speak of a rupture in diplomatic patterns, or even in foreign policy, which continued to follow the canons of that time: multilateralism, developmentalism, UNCTADism, defense of access to technologies and markets of Northern countries, adherence to the New International Economic Order, in short, all the demands of the G77 and the Latin American Group (such as the theses of the Cartagena Consensus on the renegotiation of the region's external debt).

FEW DISCONTINUITIES IN THE FOREIGN POLICY AND DIPLOMACY OF THE NEW REPUBLIC

The basic principles and major guidelines of foreign policy established during the Sarney administration, largely continuing the approach adopted during the previous decade and regime, remained practically intact in the following decades, except for the deepening of trends already present previously–such as regional integration and the priority given to relations with neighboring countries–, the “developmentalist ideology”, the active participation in economic negotiating forums–especially in international trade and finance–, the insistence on disarmament, but with new stances regarding issues that had “peculiarities” under the military governments: human rights and the environment, above all. The second government of the democratic era, that of Fernando Collor, innovated in several areas of substantive importance, such as the great impetus given to integration in the Southern Cone–with a much more open vision than the traditional economic dirigisme followed until then–and, above all, the updating of Brazilian “environmental diplomacy,” with the hosting of the second Conference on Environment and Development in Rio de Janeiro in 1992. The nuclear issue also advanced, both domestically–including through provisions enshrined in the 1988 Constitution–and internationally, in building trust with Argentina, in the full entry into force of the Treaty of Tlatelolco (on the non-introduction of nuclear weapons in Latin America), in the establishment of ABACC (the Argentine-Brazilian binational agency for accounting and control of nuclear material), and in the quadripartite treaty between this agency, the two countries, and the International Atomic Energy Agency. 

In human rights and social issues, free from the constraints of the dictatorial period, diplomats were able to express fully, in multilateral forums and major international diplomatic conferences, the new stance of a foreign policy fully engaged in advancing problems and proposals compatible with this progressive vision: racism and discrimination, women's and minority rights, torture, humanitarian law, housing, health, etc. It can be said that there is a continuous upward trend in Brazil's active participation in all areas relevant to the objectives of economic growth and social development debated in international forums, making Brazil a major player in all these discussions, especially international trade, health, and disarmament; in the rounds of the General Agreement on Tariffs and Trade (GATT) and in the meetings of the World Trade Organization, Brazil has become indispensable.

The process of macroeconomic stabilization achieved, after successive failed plans, under the Finance Minister, later President for two terms, Fernando Henrique Cardoso, projected a new image of Brazil, not only in its dialogue with developed countries, but also with large emerging countries of the South, especially towards South America, which became the defining concept of Brazil's new regional diplomacy, replacing the previous relatively vague term of Latin America. One of its initiatives, the accession to the treaty on the Non-Proliferation of Nuclear Weapons, enshrined Brazil's adherence to one of the central canons of the international security system, but in rupture with the previous stance of diplomacy–and the Armed Forces–of not accepting discriminatory treaties, contradicting one of the doctrinal bases of Brazilian diplomacy, the sovereign equality of States. In practice, the issue was already covered by a constitutional provision and represented a concession in exchange for greater unimpeded access to cutting-edge technologies and cooperation in sensitive areas. 

THE SMALL RUPTURE OF THE LULA ERA: THE COMMITMENT TO FIGHTING HUNGER AND POVERTY

The three and a half governments of the Workers' Party, especially the two terms of President Lula, represented more of a conceptual than a practical "rupture," at least in relation to almost all the themes and working methods mobilized by professional diplomacy in defending the almost permanent themes of the Brazilian foreign policy agenda: national development policies, combating inequalities between countries, strong support for multilateralism and regional integration, constructive dialogue between advanced and developing countries, progressive social policies, and new activism in human rights and the environment. New developments emerged in the creation of regional and plurilateral forums of interest to this diplomatic activism, in the pursuit of strategic partnerships to achieve a more emphasized objective during this period–the "democratization of international relations," through the reform of the UN Charter and the expansion of its Security Council, including the G4 alliance with India, Japan, and Germany–and in the priority reaffirmation of the fight against poverty and hunger in the world, which led to the conquest of the leadership of the Food and Agriculture Organization of the United Nations.

Strategic partnerships have developed both towards countries in the North–especially with European countries–and in the establishment of links and new consultation and coordination groups towards the so-called Global South: the India-Brazil-South Africa Dialogue Forum (IBAS), the Union of South American Nations (UNASUR), BRICS, the Community of Latin American and Caribbean States (CELAC), forums convened by Brazil bringing together presidents of South America and their African (AFRAS) and Arab (ASPA) counterparts, as well as greater engagement in international cooperation for development and in UN peacekeeping missions (among them, emphatically, MINUSTAH, for the stabilization of Haiti). Brazil's participation has increased both qualitatively and in volume in all forums that rewarded the ingenuity and skill of a diplomacy of great technical sophistication and excellent intellectual preparation, even if some issues were more influenced by the PT's "partisan diplomacy"–as acknowledged by the President himself–than by the official channels of professional diplomacy (especially relations with Cuba and the "Bolivarian" countries).

One area that grew enormously in the last two decades of this century was assistance to Brazilians abroad. This represented a significant effort by professional diplomats in consular work, generally less prestigious in previous times, but which began to receive special attention from Itamaraty, as Brazil ceased to be a country of immigration and became an "exporter" of its own workforce, initially poorly qualified, but in the recent period even involving specialized personnel and highly trained staff. Overall, the so-called Lula-era diplomacy preserved the basic lines of traditional foreign policy–especially regarding the central methods of multilateralism–but innovated considerably in its style, as reflected in the triumphalist slogan of "South-South diplomacy". In this vein, relations with South American, African, and Middle Eastern countries, as well as the major emerging economies that were part of IBSA and later BRICS, received the most attention from the PT governments. This cannot be seen exactly as a break from previous patterns, but rather as a reinforced emphasis on the old "Third Worldism" so often criticized by American partners. Indeed, the leaders at the head of Lula's PT diplomacy were keen to link the PT's foreign policy to the Independent Foreign Policy of the early 1960s. 

ON THE ROAD TO A MAJOR RUPTURE: DISAFFECTION WITH THE PT AND THE RISE OF AN EXTREME RIGHT WING

The third government of Lula's Workers' Party was a disaster, especially in the economic field, but also an operational setback given the great international prominence of Lula's presidential diplomacy. Dilma Rousseff did not hide her dislike for Itamaraty, nor her weariness with dialogue with foreign partners, even though professional and parallel–"partisan"–diplomacy continued to defend the major themes of the PT's foreign policy: South American protagonism–a leadership contested and, in part, challenged by other regional leaders, including Chávez and Néstor Kirchner–, plurilateral projection through BRICS–which established a "development bank" and a contingent reserve mechanism at the Fortaleza summit in 2014–and great leadership on social and environmental issues. However, the massive corruption revealed by Operation Lava Jato, which began in 2014, as well as the largest economic crisis and recession in Brazilian history in 2015-2016, precipitated popular disaffection and discord between the President and her congressional base, culminating in impeachment in the middle of this year. 

The new government led by then-Vice President Michel Temer represented a slight break with the immediately preceding foreign policy, but simply a return to more traditional standards followed by the professional diplomacy of the years before Lula's Workers' Party, without the resounding appeals to a vaguely defined "Global South," and especially in the field of regional foreign policy, in which the parallel diplomacy of alliances with the "Bolivarian" countries and with Cuba disappeared. Chavista Venezuela, which had been opportunistically incorporated into Mercosur (and even illegally, since it did not meet any of the bloc's formal requirements, including adherence to the Common External Tariff), ended up being suspended from the integration scheme, just as Temer's Brazil and Macri's Argentina decided to withdraw from Unasur, which had been practically controlled by the "Bolivarians." 

The "great rupture" actually occurred during the 2018 presidential campaign, when, for the first time in republican history, a government openly aligned with the far right, which was already making progress internationally, managed to secure enough support from the electorate to initiate a government and a foreign policy never before seen in the annals of the independent state. For the first time in almost two hundred years of history, a government broke with patterns normally accepted by all previous administrations by acting pragmatically with neighbors and the international community, regardless of any political orientation of the countries with which formal diplomatic relations were maintained. The government program of candidate Bolsonaro, officially announced in August 2018, stated that he would carry out a small revolution in foreign policy and diplomacy, even if its wording was as schizophrenic as possible. The announced break with all the standards and guidelines of previous foreign policies and diplomacy was so explicit that its basic lines, contained in the document delivered to the Superior Electoral Court (2018, 79)–probably written by complete amateurs in international affairs–deserve to be transcribed in full (and that was all): 

  1. We will stop praising murderous dictatorships and despising or even attacking important democracies like the US, Israel, and Italy. We will no longer make spurious trade agreements or hand over the patrimony of the Brazilian people to international dictators. 
  2. In addition to deepening our integration with all our Latin American brothers and sisters who are free from dictatorships, we need to redirect our focus on partnerships. 
  3. Countries that sought closer ties but were overlooked for ideological reasons have much to offer Brazil in terms of trade, science, technology, innovation, education, and culture. 
  4. Emphasis on bilateral relations and agreements. 

The foreign policy "program" for the "new Itamaraty" may seem bizarre, and even ridiculous, but incredibly, it was followed in its entirety, if not in letter, at least in the spirit of its outlandish recommendations, by the first foreign minister appointed by the government that took office on January 1, 2019. In the weeks following his victory in October 2018, he had already announced that he would withdraw Brazil from the 2015 Paris Agreement on climate change, that he would disassociate the country from the Global Compact on Migration, that he would move the Brazilian embassy in Israel from Tel Aviv to Jerusalem, that he would promote a reassessment of bilateral relations with China–denounced by the candidate himself for wanting to "buy Brazil" after visiting Taiwan–and, above all and especially, that he would form a close alliance with the American government (in reality, a policy of near submission to everything President Trump wanted, with emphasis on the overthrow of the Chavista government in Venezuela). In fact, the foreign policy ordered by the President–​​assisted by a bunch of amateurs and a chancellor visibly subservient to this "lunatic fringe"–was much worse than what was outlined in the "program" registered with the Superior Electoral Court, which was characterized by hostility towards progressive governments in Latin America and even personal disagreements with European leaders whose only stance had been to express legitimate concern about the truly disastrous anti-environmental policy that has become Brazil's negative international trademark since the first days of the new government. 

The succession of confrontations, both regionally and globally, led by the President himself, as well as by members of the "lunatic fringe," has built an international isolation for Brazil never before seen in the annals of our diplomacy, not even during the military dictatorship, when news about political repression, censorship, and the elimination or "disappearance" of political opponents frequented the pages of major international newspapers. Some truly embarrassing, even surreal, episodes, from the point of view of professional diplomacy, have become frequent in Brazilian and international news, such as the diatribes of the President and the accidental chancellor against the Chavista dictatorship, against the new Peronist President of Argentina, against European leaders, and against the "communist dictatorship" of China, as done on several occasions by the President's own son, Congressman Eduardo Bolsonaro, the virtual (and real) boss of the merely formal chancellor. Alongside and in opposition to these confrontations, the only relationships desired and sought by the avowedly right-wing government in Brazil were those with leaders of the small illiberal and anti-multilateralist arc of countries, namely President Trump (the subject of a virtually servile declaration: "I love you Trump"), the far-right leader of Italy, Matteo Salvini (later removed from a new coalition government), the Prime Minister of Hungary, Viktor Orban, and a few other representatives of this right wing proud of being so. 

Brazil's international isolation was engineered by the President himself and his government, including the foreign minister, who even acknowledged that the country had become a "pariah" in the world community, in one of the most embarrassing episodes for diplomats, which occurred on "Diplomat's Day" in 2020. The foreign minister's growing disagreements with congressional leaders led to his resignation in March 2021, which, while providing some relief from the diplomats' perspective, did not significantly alter the President's posture or statements. He continued to provoke discord both domestically and internationally through a completely anti-diplomatic stance and a foreign policy that followed the same ideological line as before, albeit mitigated by a virtual distancing of the head of state from international meetings, except for formal speeches prepared by Itamaraty and his most responsible advisors. 

In the first weeks of 2022–already amidst escalating disagreements with ministers of the Supreme Federal Court and the Superior Electoral Court regarding the electronic voting system, likely motivated by an intention to ignite the electoral process–another disagreement arose between the Ministry of Foreign Affairs, supported by presidential advisors, and the President himself, concerning a planned visit to Russian President Vladimir Putin, who was demonstrably preparing a military invasion of neighboring Ukraine. Bolsonaro insisted on visiting even after numerous warnings issued by American leaders. The trip cemented yet another of the President's disastrous initiatives, as it prompted a declaration of "solidarity" with the Russians that caused further embarrassment to professional diplomacy, shortly before the war of aggression launched by the Russian leader against Ukraine. This was another break with the prudent and pragmatic diplomacy of Itamaraty, traditionally conducted with strict respect for International Law and the UN Charter, flagrantly violated by Russia, even though this same indifferent stance towards established principles and values ​​of international law had already been recorded in the invasion, by the same Russia, of the Ukrainian peninsula of Crimea, an act of aggression ignored at the time, in 2014, by President Dilma Rousseff.

A NEW “DIPLOMATIC RUPTURE” IN 2023? 

In early August 2022, electoral polls pointed to a likely victory in the first or second round of the October presidential election for former president Lula, with "diplomatic" statements already made by him and his former foreign minister, and possible future presidential advisor, Celso Amorim. The rupture, obviously, is first and foremost with Bolsonaro's diplomacy, an exotic and disastrous accident in two hundred years of foreign policy characterized by certain basic traits that not even dictatorships or exceptional episodes dared to contest, but which were terribly deformed during four years of ignorant amateurism and primitive instincts close to a very rustic extreme right. However, it could also represent a new break with established patterns of foreign policy and diplomacy that have been invariably followed throughout almost the entire trajectory of the independent state: pragmatism, balance in bilateral relations, respect for international law, the avoidance of ideological or partisan considerations in conducting the state's external actions, the emphasis on multilateralism, and the universalism of diplomatic relations. Not that a future PT (Workers' Party) government will break with such patterns and methods of work, but, based on the record of previous experience, a return to a certain geographical determinism–represented by this myopia of the Global South–and a preference for deepening plurilateral relations within the BRICS framework is possible. This group is currently increasingly manipulated by China, and now by Russia, to serve its strictly national and anti-Western objectives and interests. 

Both former President Lula and his main advisor on international affairs have stated that the United States and the North Atlantic Treaty Organization (NATO), if not the Ukrainian President himself, bear some responsibility for the crisis that resulted in what is called a "conflict" between Russia and Ukraine, but which is in reality simply a war of aggression by a militarily powerful neighbor against a weaker country, sanctioned as such by the UN Charter and the most elementary principles of International Law. This, incidentally, is a point of convergence–practical, not doctrinal–with Bolsonaro's diplomacy, which has also clearly manifested a stance of not censuring Russia, of not following in any way the sanctions imposed against it by "Western" countries, as well as resolutely opposing the supply of weapons and military equipment for the defense of Ukraine against its aggressor. 

In the absence of defined prospects for the regional diplomacy of a likely Workers' Party government–​​given that political and ideological fragmentation is a reality in South America–as well as for the phantom "Global South," torn apart by the pandemic and the war in Ukraine, the stance of Brazil's future diplomacy in relation to the most serious conflict that has unexpectedly arisen on the international agenda should be the main challenge for this government, in addition to its own policy regarding a BRICS that is quite different from its initial format and objectives.

In the absence of defined prospects for the regional diplomacy of a likely Workers' Party (PT) government–​​given that political and ideological fragmentation is a reality in South America–as well as for the phantom "Global South," torn apart by the pandemic and the war in Ukraine, the stance of Brazil's future diplomacy regarding the most serious conflict that has unexpectedly arisen on the international agenda should be the main challenge for this government, in addition to its own policy regarding a BRICS that is quite different from its initial format and objectives. The rupture, in this case, would not even be in relation to the Bolsonaro government or the traditional standards of Itamaraty, but with respect to the very principles of International Law, seriously compromised by the current war of aggression waged by a "partner" of Brazil in one of the groups privileged by Lula's PT diplomatic policies, contradicting stances that even the Estado Novo (New State) did not dare to transgress (by refusing to recognize the legitimacy of the violent invasion of Poland by Nazi forces and the invasion and incorporation of the three Baltic countries by the Soviet Union). Yet another rupture in the long history of Brazilian diplomacy...

References

Tribunal Superior Eleitoral. 2018. O Caminho da Prosperidade - Proposta de Plano de Governo. TSE - Tribunal Superior Eleitoral. https://divulgacandcontas.tse.jus.br/candidaturas/oficial/2018/BR/BR/2022802018/280000614517/proposta_1534284632231.pdf.

Received: August 7, 2022

Accepted for publication: September 26, 2022

Translation published: July 22, 2026

* Translated by Theo Pereira with the support of digital machine translation tools: Google Translate (initial draft), Grammarly (grammatical and syntactic revision), and ChatGPT (selective phrasing refinements). Reviewed by the author.

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