Lincoln Gordon Dies at 96; Educator and Ambassador to Brazil
The New York Times, 21 December 2009
Lincoln Gordon, a diplomat, educator and political economist who was the American ambassador to Brazil in the Kennedy and Johnson administrations and the president of Johns Hopkins University in the late 1960s, died on Saturday at an assisted-living home near Washington. He was 96.
Dr. Gordon died at Collington Episcopal Life Care in Mitchellville, Md., where he had lived for the past two years, his son Robert said. He had been a Washington resident for many years and was still an active associate of the Brookings Institution there.
A scholarly, pipe-smoking economist who earned a doctorate at Oxford and was a Harvard professor for many years, Dr. Gordon was posted to Paris and London as an administrator of the Marshall Plan for European recovery after World War II. He served as the United States envoy to Brazil from 1961 to 1966 and was the president of Johns Hopkins from 1967 to 1971.
He was the author of books on government, the economy, energy and national security, foreign policy in Europe and Latin America, and Brazil's emergence from military dictatorships to partnership with the nations of North and South America. He also wrote many articles on North Atlantic Treaty Organization strategies, the integration of Europe and the Alliance for Progress in Latin America.
In a career split between academic appointments and government service, Dr. Gordon, a Democrat, taught business and international affairs at Harvard, served on the War Production Board during World War II and was later a consultant to the United Nations Atomic Energy Commission, a White House economics adviser and the assistant secretary of state for inter-American affairs.
Abraham Lincoln Gordon, who never used his first name, was born on Sept. 10, 1913, in New York to Bernard and Dorothy Lerner Gordon. His father was a lawyer and his mother moderated youth forums broadcast by NBC and for The New York Times on WQXR. He attended Ethical Culture schools, graduated with high honors from Harvard in 1933 and earned his doctorate as a Rhodes scholar in 1936.
In 1937, he married the former Allison Wright. She died in 1987. Besides his son Robert, of New Haven, he is survived by two daughters, Sally Gordon of Los Angeles and Amy Gordon of Gill, Mass.; another son, Hugh, of Ardmore, Pa.; seven grandchildren; and two great-grandchildren.
After the election of President John F. Kennedy in 1960, Dr. Gordon served on a task force that developed the Alliance for Progress, the program that provided aid intended to dissuade Latin America from revolution and socialism. Dr. Gordon took up the ambassadorship in Brazil in 1961 at a time of high inflation and just as a left-wing president, Joao Goulart, took office.
President Goulart was deposed in a right-wing military coup in 1964. Accusations that Dr. Gordon, his staff and the Central Intelligence Agency had been involved in the coup were repeatedly denied.
But in 1976, nearly a decade after stepping down as ambassador, Dr. Gordon acknowledged that the Johnson administration had been prepared to intervene militarily to prevent a leftist takeover of the government.
After returning from Brazil in 1967, Dr. Gordon, in addition to his State Department role, coordinated aid to Latin America through the Alliance for Progress. When he stepped down a year later to accept the Johns Hopkins presidency, President Lyndon B. Johnson praised his service as ''a rare combination of experience and scholarship, idealism and practical judgment.''
Dr. Gordon's four years at Johns Hopkins were dogged by deteriorating finances, faculty complaints over pay and academic priorities, and students rebellious over the ''relevance'' of their educations. He resigned in 1971.
From 1972 to 1975, Dr. Gordon was a fellow of the Woodrow Wilson International Center for Scholars at the Smithsonian Institution.
Later in the 1970s, he was associated with Resources for the Future, a research and policy organization in Washington, and since 1984 had been an economist with Brookings, which studies domestic and foreign policy issues.
His books include ''A New Deal for Latin America'' (1963), ''Growth Policies and the International Order'' (1979), ''Energy Strategies for Developing Nations'' (1981), ''Eroding Empire: Western Relations with Eastern Europe'' (1987) and ''Brazil's Second Chance'' (2001).
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Nota pessoal PRA:
Convivi com o Embaixador Lincoln Gordon durante todo o meu período em Washington, o "embaixador do golpe militar", como muitos o chamavam.
Independentemente dessa caracterização, que na verdade expressa apenas nossas próprias divisões políticas -- ainda não colmatadas, quase 50 anos após as crises políticas que desembocaram no movimento militar de 1964 --, eu o achava especialmente lúcido, ativo e muito simpático, sempre presente em todo e qualquer seminário que tratasse do Brasil.
Almoçamos muitas vezes juntos e aprendi a conhecê-lo.
Insisti muitas vezes para que ele terminasse suas memórias e ainda possuo em meu computador o esquema dessas memórias, quase seculares, como seria de se esperar. Ele me prometia terminar, mas acho que nunca o fez. Esperou demais.
Encaminhei-lhe mais de um pesquisador brasileiro, interessado nos eventos de 1961-64, quando sua vida profissional e a vida política do Brasil de então se cruzaram irremediavelmente. Muitos historiadores brasileiros o consideravam (e ainda o consideram) o principal "complotador" do golpe militar de 1964, o que é absolutamente ridículo. Não cabe negar que os EUA se interessavam ativamente pela política brasileira, e certamente não permitiriam, com sua habitual arrogância imperial, que aqui surgisse não uma nova Cuba, mas uma nova China comunista (pelas dimensões e importância do Brasil).
Gordon, que era um reformista sincero, um progressista do New Deal, quase um tecnocrata estatizante (como foi em grande medida toda aquela geração intervencionista, passavelmente keynesiana, e crente nas virtudes das políticas públicas para corrigir "erros de mercado"), ficou conhecido, assim, como um "embaixador do golpe", quando o golpe foi dado pelos militares brasileiros, sob o olhar vigilante do grande irmão americano. Era natural, nas circunstâncias da época.
Quando ele terminou seu livro "Brazil's Second Chance", eu lhe disse, sinceramemte, que achava o livro incompleto, que ele precisava tratar de sua participação, dos EUA queria dizer, no golpe de 1964 com maior grau de detalhe.
Ele então voltou à pesquisa, recolheu mais documentos confidenciais liberados pelo DOS e CIA na Biblioteca Benson da Universidade do Texas, tratando especificamente do envolvimento americano com o golpe, e publicou uma separata, um capítulo complementar ao seu livro editado.
Esse capítulo suplementar fez parte integral do livro em sua edição barsileira, que eu fiz traduzir e editar pela Senac.
Na introdução eu comparava Mr. Gordon ao personagem Mister Slang, de um dos livros de Monteiro Lobato. A capa da edição brasileira pode ser vista em meu site, neste link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/55GordonBook.html
Quem quiser ler a introdução basta me pedir que eu mando.
Eu teria gostado muito de ter lido as memórias de Mister Gordon. Infelizmente, creio que isso não será possível, mas ele deve ter deixado muitos papéis, que provavelmente serão encaminhados aos National Archives, e lá ficarão à disposição dos pesquisadores.
Good bye, Mister Gordon, vou escrever um pequeno texto em sua homenagem: um americano honesto, honrado, grande scholar, que defendeu os interesses de seu país e soube ser simpático à causa reformista e progressista no Brasil, infelizmente envolvido no turbilhão de nossas crises políticas e incompreendido como verdadeiro amigo do Brasil. A história lhe fará justiça...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 21.12.2009
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
1591) Novo Livro PRA: O Moderno Principe (Maquiavel revisitado)

Capa sobre tela de de Santi di Tito (ca. 1560-1600); © Archivo Iconografico, Corbis.
Tenho o prazer de informar sobre a publicação de meu mais recente livro:
O Moderno Príncipe
Maquiavel revisitado
Paulo Roberto de Almeida
Doutor em ciências sociais. Mestre em economia internacional. Diplomata.
(Rio de Janeiro: Freitas Bastos, edição eletrônica, 2009, 191 p.; ISBN: 978-85-99960-99-8)
Link para aquisição online: http://freitasbas.lojatemporaria.com/o-moderno-principe.html
R$ 12,00
Apresentação:
Se, por alguma fortuna histórica, Maquiavel retornasse, hoje, ao nosso convívio, com as suas virtudes de pensador prático, quase meio milênio depois de redigida sua obra mais famosa, como reescreveria ele o seu manual “hiper-realista” de governança política? Seriam os Estados modernos muito diversos dos principados do final da Idade Média?
Este Maquiavel revisitado, voltado para a política contemporânea, dialoga com o genial pensador florentino, segue seus passos naquelas “recomendações” que continuam aparentemente válidas para a política atual, mas não hesita em oferecer novas respostas para velhos problemas de administração dos homens.
Sumário:
Prefácio
Dedicatória
1. Dos regimes políticos: os democráticos e os outros
2. Das velhas oligarquias e do Estado de direito
3. Da variedade de Estados capitalistas
4. Do governo pelos homens e do governo pelas leis
5. Da transição política nos regimes democráticos
6. Da conquista do poder: a liderança política
7. Da eficácia do comando e da manutenção do poder
8. Da ilegitimidade política: da demagogia e da força
9. Das repúblicas democráticas e sua base econômica
10. Das forças armadas e das alianças militares
11. Do Estado laico e da força das religiões
12. Da profissionalização das forças militares
13. Dos gastos com defesa e da soberania política
14. Da preparação estratégica do líder político
15. Do exercício da autoridade
16. Da administração econômica da prosperidade
17. Do uso da força em política
18. Da mentira e da sinceridade em política
19. Da dissimulação como forma de arte
20. Da dissuasão e da defesa do Estado
21. Da construção da imagem: verdade e propaganda
22. Dos ministros e secretários de Estado
23. Dos aduladores e dos verdadeiros conselheiros
24. Da arte pouco nobre de arruinar um Estado
25. Do acaso e da necessidade em política
26. Da defesa do Estado contra os novos bárbaros
Carta a Niccolò Machiavelli
Recomendações de leituras
Todos os livros do autor
1590) Banco de imagens sobre o Brasil, Unesco-Library of Congress

Title: The Special Features of French Antarctica, Otherwise Called America, and of Several Lands and Islands Discovered in Our Time
Description: André Thevet (1516/17-92) was a Franciscan friar who traveled widely and, through his writings, helped to establish cosmographie--as geography was called at the time--as a science in 16th-century France. After making trips to Africa and the Middle East in the 1540s, he was appointed chaplain to the expedition of Nicolas Durand de Villegagnon, which set out from Le Havre in May 1555 to establish a colony in Brazil. The expedition landed near present-day Rio de Janeiro in November of the same year. In January 1556, Thevet fell ill and left Brazil for France. The following year, he published this account of his voyage. The work was highly popular and led to his appointment as royal cosmographer. Thevet’s account includes descriptions of the coast of Africa, the Canary Islands, and Madagascar, all of which he visited on the way to Brazil, as well as of Florida and Canada, which he may have visited on his return trip. His descriptions of the native peoples he encountered and their customs and beliefs, as well as of the plants and animals he saw, are written in a plain, factual style. The work is illustrated with woodcuts, many of which are highly inaccurate, but which nonetheless influenced works by later travelers such as Theodore de Bry.
Creator: Thevet, André (1502-1590)
Printer: Plantin, Christophe (Around 1520-1589)
Date Created: 1558
Publication Information: Chez les heritiers de Maurice de la Porte, Paris
Language: French
Title in Original Language: Les singvlaritez de la France antarctiqve, avtrement nommée Amerique: & de plusieurs terres & isles decouuertes de nostre temps.
Time: 1500 AD - 1699 AD
Topic: America ; Brazil, French colony, 1555-1567 ; Discovery and exploration ; Thevet, André, 1502-1590
Book, Physical Description: 8 page leaves, 163 numbered leaves, 2 illustrated pages; 16 centimeters
Institution: Library of Congress
External Resource: http://hdl.loc.gov/loc.wdl/dlc.271
Digital World Library: a UNESCO’s gift for humankind
Free access: http://www.wdl.org
The link for the Brazilian section is:
http://www.wdl.org/en/search/gallery?ql=eng&a=-8000&b=2009&c=BR&r=LatinAmericaCaribbean
Na verdade, a maior parte das imagens pertence à Library of Congress.
1589) Doze bilhoes de dolares para Chavez "investir"
Abaixo, matéria em torno de comunicado do Banco Central da Venezuela, pela qual se lê que o BCV acaba de passar 12 bilhões de dólares (vocês leram bem: 12 bilhões) ao controle do Executivo (ou seja, do próprio Chávez), para que este possa usar a título de "reservas excedentárias" (haja excedente).
Acho que poucos Executivos no mundo, mesmo em países ricos, dispõem com tanta facilidade de 12 bilhões de dólares a título de "excedente"...
Isso é que é riqueza! Ou não?
Paulo Roberto de Almeida
Reservas internacionales venezolanas aumentan a 34.614 millones de dólares
Agencias, 19/12/09
Caracas, dic 19 - Las reservas internacionales de Venezuela subieron a 34.614 millones de dólares el jueves, lo que representa un incremento de 34 millones de dólares respecto a la semana anterior, informó este viernes el Banco Central (BCV).
De ese total, 33.784 millones de dólares se encuentran depositados en el BCV y 830 millones en el Fondo de Estabilización Macroeconómica (FEM), mecanismo creado para contrarrestar riesgos mayores en la economía.
Las reservas internacionales de Venezuela cerraron en 42.054 millones de dólares en 2008, según cifras del Banco Central.
En enero, el BCV transfirió unos 12.000 millones de dólares a un fondo especial que administra el Ejecutivo por concepto de "reservas excedentarias". De acuerdo con la reforma de una ley aprobada recientemente, el BCV podrá realizar esas transferencias de manera semestral y no anual, como sucedía hasta ahora.
Acho que poucos Executivos no mundo, mesmo em países ricos, dispõem com tanta facilidade de 12 bilhões de dólares a título de "excedente"...
Isso é que é riqueza! Ou não?
Paulo Roberto de Almeida
Reservas internacionales venezolanas aumentan a 34.614 millones de dólares
Agencias, 19/12/09
Caracas, dic 19 - Las reservas internacionales de Venezuela subieron a 34.614 millones de dólares el jueves, lo que representa un incremento de 34 millones de dólares respecto a la semana anterior, informó este viernes el Banco Central (BCV).
De ese total, 33.784 millones de dólares se encuentran depositados en el BCV y 830 millones en el Fondo de Estabilización Macroeconómica (FEM), mecanismo creado para contrarrestar riesgos mayores en la economía.
Las reservas internacionales de Venezuela cerraron en 42.054 millones de dólares en 2008, según cifras del Banco Central.
En enero, el BCV transfirió unos 12.000 millones de dólares a un fondo especial que administra el Ejecutivo por concepto de "reservas excedentarias". De acuerdo con la reforma de una ley aprobada recientemente, el BCV podrá realizar esas transferencias de manera semestral y no anual, como sucedía hasta ahora.
1588) Conflito Venezuela-Colombia: a visao chavista
Obviamente não existe um conflito Venezuela-Colômbia, mas o primeiro país se esforça por criá-lo, sob diferentes pretextos. As bases colombianas que serão usadas para abrigar soldados dos EUA que fazem parte do processo de qualificação do exército colombiano na lista contra a narco-guerrilha constituem, claramente, um excelente pretexto para o presidente da Venezuela Hugo Chávez agitar o perigo de guerra entre os dois países, ou melhor, da agressão americana contra a sua revolução, uma análise que é partilhada por muitoa observadores acadêmicos aqui mesmo no Brasil, que se referem a essa possibilidade como uma proxy war dos EUA contra a Venezuela (mais precisamente contra Chávez).
Seja lá como for, abaixo uma matéria do jornal La Jornada com a visão chavista desse problema. Não a considero isenta, mas vale a transcrição, para saber quais são os argumentos de uma das partes.
Não preciso dizer que essa visão encontra muitos seguidores no Brasi...
Paulo Roberto de Almeida
EUA, tras la tensión bélica entre Venezuela y Colombia
La Jornada, Lunes 21 de diciembre de 2009
Más temprano que tarde, como había sido advertido por múltiples voces en el continente, la cesión por parte de Colombia de bases militares a Estados Unidos ha desembocado en una escalada de tensiones bélicas en Sudamérica. Mientras que el gobierno que encabeza Álvaro Uribe Vélez anunció el despliegue de siete brigadas (más de mil soldados) en su frontera con Venezuela, el mandatario de este país, Hugo Chávez, denunció que Washington realiza vuelos de espionaje militar sobre el territorio venezolano mediante aviones no tripulados que despegan de aeródromos colombianos, y anunció que su país se prepara para defenderse de una eventual agresión armada lanzada desde el país vecino.
Una buena parte de los medios internacionales ha puesto la mira en las recientes adquisiciones venezolanas de armamento como supuesto detonador de una escalada bélica regional, pero han omitido algunos datos fundamentales: la República Bolivariana realizó tales compras bajo la presión de amenazas de agresión no muy veladas por el anterior gobierno de Estados Unidos, y que Colombia protagoniza, también, un proceso armamentista con el pretexto de combatir a las organizaciones guerrilleras que actúan en su territorio.
Por otra parte, el empeño de las autoridades de Bogotá en desoír las advertencias formuladas por diversos gobiernos de la región –entre ellos los de Argentina y Brasil– sobre los peligros de entregar siete bases militares al Pentágono, parece formar parte de un plan deliberado para agudizar las tensiones en la región y para internacionalizar los conflictos internos que afectan a Colombia. Un antecedente inequívoco, en este sentido, fue la sangrienta incursión ordenada por Uribe Vélez contra un campamento de las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC) en territorio ecuatoriano, lanzada el primero de marzo del año pasado, ataque en el que murieron el jefe guerrillero Raúl Reyes y otros integrantes de esa organización armada, y en el que los militares colombianos asesinaron a cuatro estudiantes mexicanos e hirieron a una connacional más, Lucía Morett.
Hasta ahora, el presidente colombiano había venido provocando incidentes fronterizos y diferendos con sus vecinos, y los había utilizado con el propósito de aumentar sus índices de popularidad. La cesión de bases a fuerzas militares de Washington, en cambio, no puede explicarse sino como el uncimiento programado de Colombia a una política estadunidense de hostigamiento contra Venezuela, Bolivia y Ecuador, países cuyos gobiernos se han enfrentado a los tradicionales afanes injerencistas de Estados Unidos en el subcontinente.
Una consideración que no debe pasarse por alto es que, a pesar de las buenas intenciones hacia Latinoamérica manifestadas por Barack Obama como candidato presidencial y en sus primeros meses como mandatario, el alineamiento de Washington con los golpistas que tomaron por asalto el poder en Honduras en junio pasado mostró de manera fehaciente las limitaciones de las promesas de la nueva administración estadunidense y exhibieron que el ocupante de la Casa Blanca no puede o no quiere enfrentarse a la continuidad de los designios necolonialistas dictados por los aparatos políticos de Washington y por el complejo militar, industrial y financiero de la superpotencia.
Hoy día, Washington sólo cuenta en Sudamérica con el alineamiento incondicional de los gobiernos colombiano y peruano, y con base en los antecedentes históricos y los patrones seguidos por más de un siglo, es previsible que busque atizar un conflicto regional con el propósito de hacerse de nuevas alianzas –o complicidades– en la zona. Tal es el telón de fondo de las tensiones entre Colombia y Venezuela. Corresponde a los otros estados de América Latina demandar a Uribe Vélez que ponga fin a la presencia militar estadunidense en territorio colombiano, porque es el detonador y el combustible principal de una escalada que podría llegar a extremos indeseables.
Seja lá como for, abaixo uma matéria do jornal La Jornada com a visão chavista desse problema. Não a considero isenta, mas vale a transcrição, para saber quais são os argumentos de uma das partes.
Não preciso dizer que essa visão encontra muitos seguidores no Brasi...
Paulo Roberto de Almeida
EUA, tras la tensión bélica entre Venezuela y Colombia
La Jornada, Lunes 21 de diciembre de 2009
Más temprano que tarde, como había sido advertido por múltiples voces en el continente, la cesión por parte de Colombia de bases militares a Estados Unidos ha desembocado en una escalada de tensiones bélicas en Sudamérica. Mientras que el gobierno que encabeza Álvaro Uribe Vélez anunció el despliegue de siete brigadas (más de mil soldados) en su frontera con Venezuela, el mandatario de este país, Hugo Chávez, denunció que Washington realiza vuelos de espionaje militar sobre el territorio venezolano mediante aviones no tripulados que despegan de aeródromos colombianos, y anunció que su país se prepara para defenderse de una eventual agresión armada lanzada desde el país vecino.
Una buena parte de los medios internacionales ha puesto la mira en las recientes adquisiciones venezolanas de armamento como supuesto detonador de una escalada bélica regional, pero han omitido algunos datos fundamentales: la República Bolivariana realizó tales compras bajo la presión de amenazas de agresión no muy veladas por el anterior gobierno de Estados Unidos, y que Colombia protagoniza, también, un proceso armamentista con el pretexto de combatir a las organizaciones guerrilleras que actúan en su territorio.
Por otra parte, el empeño de las autoridades de Bogotá en desoír las advertencias formuladas por diversos gobiernos de la región –entre ellos los de Argentina y Brasil– sobre los peligros de entregar siete bases militares al Pentágono, parece formar parte de un plan deliberado para agudizar las tensiones en la región y para internacionalizar los conflictos internos que afectan a Colombia. Un antecedente inequívoco, en este sentido, fue la sangrienta incursión ordenada por Uribe Vélez contra un campamento de las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC) en territorio ecuatoriano, lanzada el primero de marzo del año pasado, ataque en el que murieron el jefe guerrillero Raúl Reyes y otros integrantes de esa organización armada, y en el que los militares colombianos asesinaron a cuatro estudiantes mexicanos e hirieron a una connacional más, Lucía Morett.
Hasta ahora, el presidente colombiano había venido provocando incidentes fronterizos y diferendos con sus vecinos, y los había utilizado con el propósito de aumentar sus índices de popularidad. La cesión de bases a fuerzas militares de Washington, en cambio, no puede explicarse sino como el uncimiento programado de Colombia a una política estadunidense de hostigamiento contra Venezuela, Bolivia y Ecuador, países cuyos gobiernos se han enfrentado a los tradicionales afanes injerencistas de Estados Unidos en el subcontinente.
Una consideración que no debe pasarse por alto es que, a pesar de las buenas intenciones hacia Latinoamérica manifestadas por Barack Obama como candidato presidencial y en sus primeros meses como mandatario, el alineamiento de Washington con los golpistas que tomaron por asalto el poder en Honduras en junio pasado mostró de manera fehaciente las limitaciones de las promesas de la nueva administración estadunidense y exhibieron que el ocupante de la Casa Blanca no puede o no quiere enfrentarse a la continuidad de los designios necolonialistas dictados por los aparatos políticos de Washington y por el complejo militar, industrial y financiero de la superpotencia.
Hoy día, Washington sólo cuenta en Sudamérica con el alineamiento incondicional de los gobiernos colombiano y peruano, y con base en los antecedentes históricos y los patrones seguidos por más de un siglo, es previsible que busque atizar un conflicto regional con el propósito de hacerse de nuevas alianzas –o complicidades– en la zona. Tal es el telón de fondo de las tensiones entre Colombia y Venezuela. Corresponde a los otros estados de América Latina demandar a Uribe Vélez que ponga fin a la presencia militar estadunidense en territorio colombiano, porque es el detonador y el combustible principal de una escalada que podría llegar a extremos indeseables.
1587) Um papa controverso: Eugenio Pacelli e os judeus na IIGM

Photo datée de 1955 du pape Pie XII.
Benoît XVI ravive la polémique sur le rôle de Pie XII durant la Shoah
LEMONDE.FR avec AFP, 21.12.09
Le pape Benoît XVI a rouvert une polémique, samedi 19 décembre, en proclamant "vénérable" le pape Pie XII, ce qui poursuit le processus de béatification de son prédécesseur. Elu pape le 2 mars 1939, Pie XII, Eugenio Pacelli de son vrai nom, est resté dans l'histoire comme le pape de la seconde guerre mondiale. Son attitude durant la Shoah suscite encore de nombreuses controverses. La communauté juive du monde entier a vivement réagi.
Le Consistoire central de France a exprimé dimanche soir sa "stupéfaction". Son président, Joël Mergui, juge dans un communiqué cette décision "des plus surprenantes au vu de l'attitude pour le moins troublante du pape Pie XII durant la seconde guerre mondiale et particulièrement son silence officiel alors que six millions de juifs étaient victimes de la Shoah durant son pontificat". "Afin de clarifier le débat quant à la position et au rôle exact du pape Pie XII", le Consistoire demande, comme l'a fait Israël dimanche, "l'ouverture publique des archives du Vatican à ce sujet avant tout processus d'élévation du pape Pie XII".
"Le processus de béatification ne nous regarde pas, c'est une question qui ne concerne que l'Eglise catholique. Quant au rôle de Pie XII, c'est aux historiens de l'évaluer et c'est pourquoi nous demandons l'ouverture des archives du Vatican durant la guerre", argumente le porte-parole des affaires étrangères israélien, Yigal Palmor. Les archives du Vatican devraient être disponibles au plus tôt en 2013. Les historiens continuent de fouiller le sujet, l'allemand Hubert Wolf s'est déjà penché sur des archives inédites.
BENOÎT XVI A PRIS LA DÉFENSE DE PIE XII
"Compte tenu du silence de Pie XII pendant et après la Shoah, je ne veux pas croire que les catholiques voient en Pie XII un exemple de moralité pour l'humanité, estime pour sa part le grand rabbin de France, Gilles Bernheim. J'espère que l'Eglise renoncera à ce projet de béatification et qu'elle fera ainsi honneur à son message et à ses valeurs." Selon le président du Conseil représentatif des institutions juives de France (CRIF), Richard Prasquier, interrogé par La Croix, cette décision de l'Eglise catholique est "prématurée" et témoigne d'une "négligence" du Vatican.
Samedi, la première réaction est venue d'Allemagne. Stephan Kramer, secrétaire général du Conseil central des juifs d'Allemagne, a estimé que Benoît XVI "réécrit l'histoire". Quant à la communauté juive de Rome, elle a exprimé une position "critique", demandant, elle aussi, l'accès aux archives vaticanes de l'époque et rappelant le départ en 1943 d'un train de déportés juifs vers Auschwitz "dans le silence de Pie XII".
Pie XII a été accusé dès la fin des années 1960 d'avoir eu une attitude passive face à l'Holocauste, ce qui a ralenti son processus de béatification amorcé en 1967. Mais depuis qu'il est devenu pape en 2005, l'Allemand Joseph Ratzinger, adolescent sous le nazisme, a pris sa défense à plusieurs reprises. Benoît XVI, s'appuyant sur des témoignages et archives (encore secrètes) est convaincu que Pie XII a sauvé de nombreux juifs en Europe, cachés dans des institutions religieuses, et qu'il se taisait pour ne pas aggraver leur sort.
Sur le même sujet
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Les faits Benoît XVI proclame "vénérables" Jean Paul II et Pie XII
Blog Bienheureux ceux qui se tairont
Découvrez les réactions des abonnés du Monde.fr à la lecture de cette information.
Christian R.
21.12.09 | 14h44
Ne confondons pas : que le chef de l'Eglise catholique romaine veuille honorer post-mortem des dignitaires catholiques romains est le moindre de ses droits, mais en revanche n'engage que l'Eglise catholique romaine. Les non-catholiques romains ont le droit d'appeler ces gens, canonisés ou non, comme elles le veulent. Notre appréciation sur l'activité politique de ces deux papes nous intéresse en ce que le Pape est une personnalité politique importante et un chef d'état.
michel.r
21.12.09 | 14h20
Il faudrait peut être comparer des papes comparables, ce qui est loin d'être le cas à des époques comparables qui ne le furent pas du tout. Le reste n'est que du vent politique.
Révoltant
21.12.09 | 14h13
Le "non rôle" de Pie XII pendant la Shoah pose effectivement question. Mais on oublie que Pie XII fut par ailleurs un soutien extrèmement fervent à Pétain, à Franco, à Mgr Tiso, à Pavelic, et qu'il s'est jamais vraiment fâché avec Mussolini. La dessus, il n'y a même pas débat, ce sont des faits avérés. Imaginons un seul instant Pétain au Panthéon ? C'est pourtant, en béatifiant Pie XII, ce que Monsieur Ratzinger s'apprête à faire... en quelque sorte. Ca veut tout dire non ?
PIERRE T.
21.12.09 | 14h08
Pour obtenir ce concordat malgré l'opposition de plusieurs évêques allemands il a sacrifié le "Zentrum", parti catholique d'opposition. Il était parfaitement au courant de la Shoah et n'a rien dit, ni fait. Le Juif était déicide ! Il a couvert le massacre des croates musulmans par les Oustachis, menés entre autres par un moine catholique. C'est accablant, mais l'Eglise ne veut rien reconnaître, elle se disqualifie définitivement en sanctifiant ce bonhomme. "Mit brennender Sorge" est de Pie XI !
PIERRE T.
21.12.09 | 14h03
Je vois que peu de gens ont lu le livre du journaliste britannique John Cornwell dont le titre est le "Pape et Hitler". Il s'agit là d'un réquisitoire sans appel contre Pacelli, travail basé sur les archives du Vatican et celles du 3ème Reich. L'on voit ici l'obsession maladive qu'il a eue d'obtenir coûte que coûte un concordat avec Hitler. Puis il s'est fait avoir comme un bleu quand ce dernier a interdit les mvts de jeunesse chrétienne. Son autre obsession était l'antibolchévisme.
Bertrand J.
21.12.09 | 14h02
L'Eglise n'a pas à rougir de son action de résistance face au nazisme.Par milliers des enfants et adultes juifs ont été accueillis et cachés dans les institutions catholiques.Nombreux sont les prêtres ou les simples croyants qui ont été déportés.Pie XII aurait certainement pu en faire plus,mais il y a loin entre sa prudence excessive et une complicité,même passive,avec les bourreaux et leur idéologie.Bien sûr le débat est trop beau pour éviter que les anticathos ne s'en saississent aveuglément!
ETIENNE V.
21.12.09 | 13h59
Pie XII a multiplié les démarches pour sauver la vie de nombreux juifs. C'est un fait attesté. C'est sa prudence qui est mise en cause. Fallait-il que le chef du petit Etat du Vatican risque une parole contre la puissance nazie? C'était un choix,et là le recul historique nous montre une erreur d'appréciation, et impose un arrêt du processus en cours...Notons que les mêmes qui exigent acutellement une parole de l'Eglise de Pie XII, la dénient le plus souvent à Benoit 16 aujourd'hui...
Oomu
21.12.09 | 13h40
le manquement moral de l'Eglise, c'est son silence absolu même après la guerre. - La réécriture de l'histoire devient trop facile du coup. Oui peut être, et peut être pas, le Pape n'a pas eu l'autorité morale de dire où était le mal. En tout cas, le christianisme échoua lamentablement en Allemagne dans les années 30 puis 40. Aucun dignitaire de l'Eglise de cette période ne peut être sanctifié. mais ce n'est pas le propos de la béatification : ce n'est que l'équivalent de médailles.
Jack LEGAULOIS
21.12.09 | 13h35
Que BEN 16 ouvre les archives et nous pourrons nous faire une idée de la qualité supposée de ce pape fort décrié ... C'est simple , facile ... , mais le gain est incertain !
Ph
21.12.09 | 13h23
Ce qui choque dans cette affaire, c'est de choisir d'associer dans ce processus de béatification, JP II et Pie XII. Je ne suis pas croyant, mais j'avais beaucoup de respect pour JP II, un homme de conviction, hors du commun, extrèmement courageux. Franchement, peut-on en dire autant de Pie XII ?
DOMINIQUE M.
21.12.09 | 13h23
Il semble que seul le porte-parole des affaires étrangères israélien ait une opinion sensée.
Clovis
21.12.09 | 13h17
Il est vrai que nombreux sont les couvents, monastères, presbytères ou même archevêchés comme celui de Toulouse qui cachaient des milliers de juifs. Comment alors imaginer que le Vatican, qui condamne le nazisme depuis l'encyclique Mit brennender Sorge de 1937, n'était pas au courant et ne préfère pas la résistance passive tandis que des milliers de prêtres sont internés à cette époque dans des camps de concentration ?
LUC d.
21.12.09 | 13h02
Il faut attendre le dernier paragraphe de l'article pour deviner que les réactions qui le précèdent ne sont peut-être pas l'exact reflet de ce qui s'est réellement passé. Il existe d'autres témoignages, publics, en aprticulier sous la plume d'au moins un rabbin italien, de ce qu'a été l'action -et non pas la réaction - de Pie XII pendant la guerre.
Bruno S.
21.12.09 | 12h46
Adolescent sous le nazisme ? Ou membre des jeunesses hitlériennes ? Et... non, pas comme tous les Allemands de son âge. Ca méritait d'être précisé. Quant au silence de Pie XII ou à son action secrète... Imaginez le poids d'un pape qui aurait condamné publiquement. Il aurait risqué sa vie ? Peut-être, mais un pape est là pour ça. Finir en martyr de la foi, c'est son job s'il le faut.
1586) Politica externa brasileira: um editorial contra
Jogando dinheiro fora
Editorial O Estado de S. Paulo, Segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Só a generosidade excessiva do governo do PT, fruto da ambição de seu chefe de tornar-se um líder regional a qualquer preço, pode explicar, mas não justificar, a concordância do Brasil em pagar mais US$ 1,2 bilhão pelo gás que compra da Bolívia.
Desde que, em 2006, decretou a nacionalização do setor de gás natural e colocou em risco o fornecimento regular, o governo bolivariano de Evo Morales vem pressionando o Brasil para pagar cada vez mais pelo produto. O governo Lula aceitou a pressão e, em 2007, assinou a Ata de Brasília, por meio da qual se comprometia a pagar mais pelas frações líquidas - propano, butano e gasolina natural - do gás da Bolívia. Trata-se de um mero jogo de palavras, pois o gás continuará sendo o de sempre, já que a Bolívia não tem condições de separar as frações. Por isso, a Petrobrás não aceitava pagar mais. Mas a resistência da Petrobrás chegou ao fim na semana passada, com a decisão de assinar, com a estatal boliviana YPFB, um termo aditivo ao contrato de importação de gás - cuja vigência se estenderá até 2019 - que assegura à Bolívia o pagamento adicional de cerca de US$ 100 milhões por ano com efeito retroativo a 2007.
Para a Bolívia é uma ótima notícia, pois o dinheiro extra vem no momento em que suas contas externas começam a registrar dificuldades em razão da baixa demanda de gás, do qual o Brasil é o grande comprador, e da queda da cotação do produto.
Pior para o Brasil. Ao aceitar pagar mais pelo mesmo produto, o governo Lula admite e reforça sua condição de refém da política de gás natural que o governo de Evo Morales lhe impôs. E faz isso num momento em que, afinal, o Brasil vai adquirindo as condições para livrar-se, de uma vez por todas, da dependência das idiossincrasias e da chantagem político-econômica de Morales.
Um dos efeitos da crise mundial sobre a produção industrial do Brasil foi a queda da demanda de gás natural. Além disso, as condições climáticas muito favoráveis reduziram a utilização do combustível para a geração de energia elétrica. De uma média de 59 milhões de m³/dia em 2008, o consumo da gás natural no Brasil caiu para cerca de 45 milhões de m³ em 2009.
Há cerca de quatro meses, o Brasil registrou a maior sobra de gás natural de sua história. No total, deixaram de chegar ao mercado 20,4 milhões de m³/dia, em média, volume comparável ao que o Brasil compra da Bolívia. Parte desse gás é retirada dos poços de petróleo, mas, não tendo como ser transportados para os centros de consumo, 8,7 milhões de m³ são queimados na atmosfera; outros 11,7 milhões de m³ são reinjetados nos poços, por falta de demanda ou de infraestrutura para transporte.
Do lado da produção e do transporte, o Brasil vai obtendo as condições para se tornar inteiramente autossuficiente em gás natural, mesmo que o mercado se reaqueça. Elaborado logo após a nacionalização dos hidrocarbonetos bolivianos, o Plano de Antecipação da Oferta de Gás Natural começa a apresentar resultados positivos. Em 2010 entrará em operação o gasoduto da Petrobrás que ligará a Bacia de Santos aos principais centros consumidores. Também em 2010 deverá entrar em operação o último grande projeto de produção de gás na Bacia de Santos, que injetará até 15 milhões de m³/dia na malha brasileira de gasodutos.
Por imposição contratual, o Brasil precisa pagar à Bolívia pelo menos o equivalente a 21 milhões de m³/dia. A Bolívia pode fornecer até 31 milhões de m³ diários. A resistência da área técnica da Petrobrás em aumentar o valor pago à Bolívia deve-se ao fato de que, por não haver uma explicação convincente para o aumento - visto que o produto comprado continuará o mesmo -, o termo aditivo acertado com a YPFB seja vetado pelo Tribunal de Contas da União. Afinal, aceitar um aumento nessas circunstâncias é jogar dinheiro fora.
Nas atuais condições do mercado, dificilmente a Petrobrás conseguirá repassar esse aumento para os consumidores. Nesse caso, perderão seus acionistas, milhares de brasileiros que investem sua poupança na empresa, e o próprio governo.
Editorial O Estado de S. Paulo, Segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Só a generosidade excessiva do governo do PT, fruto da ambição de seu chefe de tornar-se um líder regional a qualquer preço, pode explicar, mas não justificar, a concordância do Brasil em pagar mais US$ 1,2 bilhão pelo gás que compra da Bolívia.
Desde que, em 2006, decretou a nacionalização do setor de gás natural e colocou em risco o fornecimento regular, o governo bolivariano de Evo Morales vem pressionando o Brasil para pagar cada vez mais pelo produto. O governo Lula aceitou a pressão e, em 2007, assinou a Ata de Brasília, por meio da qual se comprometia a pagar mais pelas frações líquidas - propano, butano e gasolina natural - do gás da Bolívia. Trata-se de um mero jogo de palavras, pois o gás continuará sendo o de sempre, já que a Bolívia não tem condições de separar as frações. Por isso, a Petrobrás não aceitava pagar mais. Mas a resistência da Petrobrás chegou ao fim na semana passada, com a decisão de assinar, com a estatal boliviana YPFB, um termo aditivo ao contrato de importação de gás - cuja vigência se estenderá até 2019 - que assegura à Bolívia o pagamento adicional de cerca de US$ 100 milhões por ano com efeito retroativo a 2007.
Para a Bolívia é uma ótima notícia, pois o dinheiro extra vem no momento em que suas contas externas começam a registrar dificuldades em razão da baixa demanda de gás, do qual o Brasil é o grande comprador, e da queda da cotação do produto.
Pior para o Brasil. Ao aceitar pagar mais pelo mesmo produto, o governo Lula admite e reforça sua condição de refém da política de gás natural que o governo de Evo Morales lhe impôs. E faz isso num momento em que, afinal, o Brasil vai adquirindo as condições para livrar-se, de uma vez por todas, da dependência das idiossincrasias e da chantagem político-econômica de Morales.
Um dos efeitos da crise mundial sobre a produção industrial do Brasil foi a queda da demanda de gás natural. Além disso, as condições climáticas muito favoráveis reduziram a utilização do combustível para a geração de energia elétrica. De uma média de 59 milhões de m³/dia em 2008, o consumo da gás natural no Brasil caiu para cerca de 45 milhões de m³ em 2009.
Há cerca de quatro meses, o Brasil registrou a maior sobra de gás natural de sua história. No total, deixaram de chegar ao mercado 20,4 milhões de m³/dia, em média, volume comparável ao que o Brasil compra da Bolívia. Parte desse gás é retirada dos poços de petróleo, mas, não tendo como ser transportados para os centros de consumo, 8,7 milhões de m³ são queimados na atmosfera; outros 11,7 milhões de m³ são reinjetados nos poços, por falta de demanda ou de infraestrutura para transporte.
Do lado da produção e do transporte, o Brasil vai obtendo as condições para se tornar inteiramente autossuficiente em gás natural, mesmo que o mercado se reaqueça. Elaborado logo após a nacionalização dos hidrocarbonetos bolivianos, o Plano de Antecipação da Oferta de Gás Natural começa a apresentar resultados positivos. Em 2010 entrará em operação o gasoduto da Petrobrás que ligará a Bacia de Santos aos principais centros consumidores. Também em 2010 deverá entrar em operação o último grande projeto de produção de gás na Bacia de Santos, que injetará até 15 milhões de m³/dia na malha brasileira de gasodutos.
Por imposição contratual, o Brasil precisa pagar à Bolívia pelo menos o equivalente a 21 milhões de m³/dia. A Bolívia pode fornecer até 31 milhões de m³ diários. A resistência da área técnica da Petrobrás em aumentar o valor pago à Bolívia deve-se ao fato de que, por não haver uma explicação convincente para o aumento - visto que o produto comprado continuará o mesmo -, o termo aditivo acertado com a YPFB seja vetado pelo Tribunal de Contas da União. Afinal, aceitar um aumento nessas circunstâncias é jogar dinheiro fora.
Nas atuais condições do mercado, dificilmente a Petrobrás conseguirá repassar esse aumento para os consumidores. Nesse caso, perderão seus acionistas, milhares de brasileiros que investem sua poupança na empresa, e o próprio governo.
1585) Politica externa brasileira: uma materia a favor
Só para contrariar
Sergio Leo
Valor Econômico, Segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
São tantos e tão violentos os ataques à política externa do governo que vale a pena buscar um meio termo entre os louvores que a diplomacia de Luiz Inácio Lula da Silva recebe no exterior e a litania dos que, oscilando do terror ao deboche, atribuem todas as ações do governo a um psicótico antiamericanismo entranhado nos assessores do presidente da República. Assentada em bases reais, a crítica à política externa corre, porém, risco de desmoralizar-se pelo exagero: recentemente, um conceituado articulista criticou o aumento do preço do gás da Bolívia, argumentando que a decisão era uma rendição do governo brasileiro a... Hugo Chávez, presidente da Venezuela.
Explica-se a lembrança disparatada do venezuelano, embora Chávez, personagem singular, tenha visto reduzir sua influência na América Latina. O governo brasileiro optou por não só manter boas relações com o venezuelano, como o incentiva com elogios frequentes, lembrando sempre que ele é resultado da falência - real - das elites políticas da Venezuela.
E essa política até dá bons resultados; a voz do bolivariano, ainda que frequente, tem sido ouvida com menos ênfase nos conflitos sul-americanos que envolvem o Brasil. Após bravatas iniciais, saiu do palco durante a crise de Honduras e hoje, quando até conservadores entre os presidentes eleitos no continente declaram ter Lula como paradigma, soa exótico lembrar que há pouco se especulava sobre uma perda de liderança regional para eloquente venezuelano. Aumentam exponencialmente as oportunidades de negócios para empresários brasileiros, que ocupam espaços tomados da Colômbia, antigo provedor preferencial dos venezuelanos.
Se, por um lado, os críticos da política externa não conseguem compreender como o Brasil tem se beneficiado do personalismo do chefe de Estado venezuelano, a visão política de Chávez, que imagina estar à frente de uma revolução de alcance continental - se não mundial - tem traços autoritários e centralizadores que ainda não receberam uma resposta adequada.
Curiosamente, aqueles que criticaram, na semana passada, a entrada da Venezuela no Mercosul, deixaram passar em branco um atentado à democracia cometido naquela mesma semana, quando Chávez ameaçou, em cadeia de TV, e a polícia venezuelana prendeu, uma juíza, Maria Lourdes Afiúni. O crime: ela, exercendo suas atribuições no Judiciário, deu habeas corpus a um empresário desafeto de Chávez, acusado de corrupção, preso preventivamente há quase três anos, sem julgamento. O Itamaraty tem evitado pronunciar-se sobre o caso, que é preocupante, e constrange os aliados de Chávez no Brasil.
A discussão sobre a política externa é capturada pelo debate político interno, no qual interessa aos opositores de Lula caracterizar o governo atual como nefasto aos verdadeiros interesses do país e ideologicamente atado aos projetos messiânicos de poder de governantes vizinhos. É uma descrição equivocada. Há simpatia evidente nos palácios do Planalto e do Itamaraty por governantes como Chávez, o boliviano Evo Morales, o paraguaio Fernando Lugo, e até os autoritários peronistas da linha Kirchner na Argentina. Mas a história da relação com esses governantes mostra que a retórica idealista do governo costuma dar lugar à atuação realista - no sentido que realismo tem nas relações internacionais, de uso dos recursos do poder do país para assegurar a posição crescentemente hegemônica no continente.
Descartada a guerra ou a pressão militar, que não fazem parte do leque de opções brasileiro desde a Guerra do Paraguai, o pragmatismo e a diplomacia têm sido usados quando estão em jogo interesses brasileiros na região. Quando os bolivianos nacionalizaram o gás, ameaçando o abastecimento de São Paulo, Brasília comandou negociações que incluíram ameaças (concretizadas) de corte de investimentos da Petrobras, e asseguraram o fornecimento, com preços bem abaixo dos patamares internacionais para o consumidor brasileiro. Quando o Equador, com quem o Brasil tem escassas relações econômicas, ameaçou calote em linhas do BNDES, o Brasil anunciou represálias e suspendeu todos os programas de cooperação e investimentos programados para país, deixando o presidente Rafael Correa explicar-se com os equatorianos - enquanto continua a pagar as dívidas ao Brasil.
Alguns críticos da política externa parecem não se dar conta do gigantesco peso do Brasil para as economias vizinhas, e a ameaça que o país representa na competição regional por investimentos externos, com seu populoso mercado consumidor, estabilidade jurídica e diversificada estrutura financeira e industrial. O Brasil não precisa gritar que o país merece respeito; isso é evidente, e é exatamente o que motiva um calado ressentimento contra a potência brasileira, em alguns palácios governamentais da América hispânica.
Foi o governo Fernando Henrique Cardoso, não o de Lula, quem tornou o Brasil dependente do gás da Bolívia, movido pela convicção de que é do interesse brasileiro viabilizar economicamente os países vizinhos. Após a nacionalização, o governo buscou alternativas e reduziu o consumo do gás boliviano, que, prevê a Petrobras, terá menos da metade da importância que tem hoje, daqui a três anos.
Estranhamente, nos balanços sobre os resultados da política externa que têm surgido ultimamente, sumiu o Paraguai. O ano de 2009 começou sob forte pressão paraguaia para uma renegociação do tratado de Itaipu, promessa de campanha do presidente Fernando Lugo e demanda estridente de forças políticas locais. O Itamaraty fez uma negociação que abre caminho suave para um futuro inevitável de menor dependência da energia de Itaipu - e menor vulnerabilidade aos apagões na usina, como o que escureceu o Brasil em novembro - e satisfez os paraguaios com promessas de maior flexibilidade e um reajuste que tem peso quase desprezível sobre a economia brasileira.
Foi tão bem sucedida a negociação que Paraguai e Itaipu, pelo menos por enquanto, saíram do radar dos especialistas em política externa. Voltaremos ao tema após o recesso de Natal.
Sergio Leo
Valor Econômico, Segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
São tantos e tão violentos os ataques à política externa do governo que vale a pena buscar um meio termo entre os louvores que a diplomacia de Luiz Inácio Lula da Silva recebe no exterior e a litania dos que, oscilando do terror ao deboche, atribuem todas as ações do governo a um psicótico antiamericanismo entranhado nos assessores do presidente da República. Assentada em bases reais, a crítica à política externa corre, porém, risco de desmoralizar-se pelo exagero: recentemente, um conceituado articulista criticou o aumento do preço do gás da Bolívia, argumentando que a decisão era uma rendição do governo brasileiro a... Hugo Chávez, presidente da Venezuela.
Explica-se a lembrança disparatada do venezuelano, embora Chávez, personagem singular, tenha visto reduzir sua influência na América Latina. O governo brasileiro optou por não só manter boas relações com o venezuelano, como o incentiva com elogios frequentes, lembrando sempre que ele é resultado da falência - real - das elites políticas da Venezuela.
E essa política até dá bons resultados; a voz do bolivariano, ainda que frequente, tem sido ouvida com menos ênfase nos conflitos sul-americanos que envolvem o Brasil. Após bravatas iniciais, saiu do palco durante a crise de Honduras e hoje, quando até conservadores entre os presidentes eleitos no continente declaram ter Lula como paradigma, soa exótico lembrar que há pouco se especulava sobre uma perda de liderança regional para eloquente venezuelano. Aumentam exponencialmente as oportunidades de negócios para empresários brasileiros, que ocupam espaços tomados da Colômbia, antigo provedor preferencial dos venezuelanos.
Se, por um lado, os críticos da política externa não conseguem compreender como o Brasil tem se beneficiado do personalismo do chefe de Estado venezuelano, a visão política de Chávez, que imagina estar à frente de uma revolução de alcance continental - se não mundial - tem traços autoritários e centralizadores que ainda não receberam uma resposta adequada.
Curiosamente, aqueles que criticaram, na semana passada, a entrada da Venezuela no Mercosul, deixaram passar em branco um atentado à democracia cometido naquela mesma semana, quando Chávez ameaçou, em cadeia de TV, e a polícia venezuelana prendeu, uma juíza, Maria Lourdes Afiúni. O crime: ela, exercendo suas atribuições no Judiciário, deu habeas corpus a um empresário desafeto de Chávez, acusado de corrupção, preso preventivamente há quase três anos, sem julgamento. O Itamaraty tem evitado pronunciar-se sobre o caso, que é preocupante, e constrange os aliados de Chávez no Brasil.
A discussão sobre a política externa é capturada pelo debate político interno, no qual interessa aos opositores de Lula caracterizar o governo atual como nefasto aos verdadeiros interesses do país e ideologicamente atado aos projetos messiânicos de poder de governantes vizinhos. É uma descrição equivocada. Há simpatia evidente nos palácios do Planalto e do Itamaraty por governantes como Chávez, o boliviano Evo Morales, o paraguaio Fernando Lugo, e até os autoritários peronistas da linha Kirchner na Argentina. Mas a história da relação com esses governantes mostra que a retórica idealista do governo costuma dar lugar à atuação realista - no sentido que realismo tem nas relações internacionais, de uso dos recursos do poder do país para assegurar a posição crescentemente hegemônica no continente.
Descartada a guerra ou a pressão militar, que não fazem parte do leque de opções brasileiro desde a Guerra do Paraguai, o pragmatismo e a diplomacia têm sido usados quando estão em jogo interesses brasileiros na região. Quando os bolivianos nacionalizaram o gás, ameaçando o abastecimento de São Paulo, Brasília comandou negociações que incluíram ameaças (concretizadas) de corte de investimentos da Petrobras, e asseguraram o fornecimento, com preços bem abaixo dos patamares internacionais para o consumidor brasileiro. Quando o Equador, com quem o Brasil tem escassas relações econômicas, ameaçou calote em linhas do BNDES, o Brasil anunciou represálias e suspendeu todos os programas de cooperação e investimentos programados para país, deixando o presidente Rafael Correa explicar-se com os equatorianos - enquanto continua a pagar as dívidas ao Brasil.
Alguns críticos da política externa parecem não se dar conta do gigantesco peso do Brasil para as economias vizinhas, e a ameaça que o país representa na competição regional por investimentos externos, com seu populoso mercado consumidor, estabilidade jurídica e diversificada estrutura financeira e industrial. O Brasil não precisa gritar que o país merece respeito; isso é evidente, e é exatamente o que motiva um calado ressentimento contra a potência brasileira, em alguns palácios governamentais da América hispânica.
Foi o governo Fernando Henrique Cardoso, não o de Lula, quem tornou o Brasil dependente do gás da Bolívia, movido pela convicção de que é do interesse brasileiro viabilizar economicamente os países vizinhos. Após a nacionalização, o governo buscou alternativas e reduziu o consumo do gás boliviano, que, prevê a Petrobras, terá menos da metade da importância que tem hoje, daqui a três anos.
Estranhamente, nos balanços sobre os resultados da política externa que têm surgido ultimamente, sumiu o Paraguai. O ano de 2009 começou sob forte pressão paraguaia para uma renegociação do tratado de Itaipu, promessa de campanha do presidente Fernando Lugo e demanda estridente de forças políticas locais. O Itamaraty fez uma negociação que abre caminho suave para um futuro inevitável de menor dependência da energia de Itaipu - e menor vulnerabilidade aos apagões na usina, como o que escureceu o Brasil em novembro - e satisfez os paraguaios com promessas de maior flexibilidade e um reajuste que tem peso quase desprezível sobre a economia brasileira.
Foi tão bem sucedida a negociação que Paraguai e Itaipu, pelo menos por enquanto, saíram do radar dos especialistas em política externa. Voltaremos ao tema após o recesso de Natal.
1584) Fraude e falsidade na ciencia: a proposito do "climategate"
Fraude e falsidade
JOSÉ CARLOS DE ALMEIDA AZEVEDO
Folha de São Paulo, Domingo, 20 de dezembro de 2009
Vários e-mails trocados entre integrantes do IPCC indicam a manipulação de dados para ocultar a queda de temperatura na Terra
O LIVRO "Betrayers of the Truth - Fraud and Deceit in the Halls of Science" ("Traidores da Verdade - Fraude e Falsidade nos Umbrais da Ciência"), de W. Broad e N. Wade, analisa casos de fraude e falsidade na comunidade científica e como elas permanecem não detectadas durante anos.
Ptolomeu, por exemplo, considerado o maior astrônomo da Antiguidade, não teria feito observações astronômicas, mas adaptado para a cidade de Alexandria as feitas por Hiparco na ilha de Rodes, o que gerou distorções identificáveis. O caso Ptolomeu é analisado em detalhes no livro de R. Newton, "The Crime of Claudius Ptolemy", e por J. Rawlins, no "Journal of the History of Astronomy".
Falsidades cometidas por Galileu, Newton, Dalton, Mendel, J. Bernoulli -que tomou de seu filho a equação que leva o seu nome- e outros são analisadas por Broad e Wade.
Essas observações vêm a propósito da divulgação ("climategate") pela internet de 1.079 e-mails e 79 documentos dos computadores do Centro de Pesquisas Climáticas da Universidade East Anglia (CRU, na sigla em inglês), órgão de referência mundial sobre o clima. Vários e-mails trocados entre integrantes do IPCC indicam a manipulação de dados para ocultar a queda de temperatura na Terra.
Paul Chesser, correspondente do Heartland Institute, revelou que M. Mann -que fraudou dados sobre o clima dos últimos mil anos para levar à crença de que há o aquecimento global antropogênico- recebeu US$ 6 milhões por seus artigos e projeções.
Mann está sob investigação pela Universidade Estadual da Pensilvânia.
P. Jones, diretor do CRU, afastou-se ou foi afastado do cargo e há suspeita de ter recebido dinheiro para fraudar dados. E o Senado dos EUA, por iniciativa do senador J. Inhofe, abriu investigação sobre o "climategate", que ele considera ser a maior fraude científica dos tempos modernos.
A leitura de vários e-mails robustece a antiga suspeita de que há fraude na manipulação de dados do CRU, que sempre se recusou a revelá-los, contrariando procedimento salutar e usual da comunidade científica.
Até agora, nada disso foi objeto de consideração na reunião em Copenhague, que parece cuidar mais de pancadarias e passeatas, na melhor tradição da juventude nazista, como lembrou o visconde Monckton.
Parece que não há previsão sobre as conclusões da reunião, dita científica, e que a fantástica soma de US$ 300 bilhões/ano pleiteada para "combater o aquecimento" ficará aquém disso.
I. Plimer é um respeitado geólogo da Universidade de Adelaide, Austrália, editor e coautor da "Encyclopedia of Geology", um trabalho de fôlego com cinco volumes, 2.750 páginas e 320 colaboradores.
Plimer publicou recentemente o livro "Heaven and Earth: Global Warming - the Missing Science" ("Céu e Terra: Aquecimento Global - a Ciência que Falta"), com 2.311 referências científicas que convalidam o que diz o livro, que é uma crítica fundamentada ao IPCC e às projeções feitas por computador, que não têm valor porque a ciência do clima não existe.
O IPCC não consegue explicar o que ocorreu nos últimos mil anos nem por que, no final da última glaciação, o Norte dos EUA, acima do paralelo de Washington, a Europa e a Ásia estavam sob camada de geleiras cuja espessura variava de 2 km a 5 km.
Esse gelo derreteu, o nível dos oceanos subiu 130 m e atingiu o nível atual. Nessa ocasião -e em nenhuma Era Glacial anterior- houve CO2 "antropogênico" para derreter geleiras. Sobre isso o IPCC nada diz.
O livro de Plimer é leitura recomendada a todos os que se interessam pelos aspectos científicos do clima e procuram saber o que há por trás dessa algaravia global, que consome bilhões de dólares, faz reuniões pseudocientíficas e nunca chega a nenhum resultado.
A maior ameaça à humanidade não é o aquecimento antropogênico. Afinal, a Terra está esfriando e se aproxima de um novo período glacial -isso é comprovado por vários fatores, incluindo a inexistência de manchas solares, que desapareceram há quase um ano. O que a ameaça a humanidade é a intromissão, na vida das pessoas e das nações, de órgãos sem mandato eletivo e de grupos econômicos, além da ONU. Eles querem nos governar e determinar às nações o que podem fazer, quanto podem crescer e consumir e se podem ser livres e independentes.
JOSÉ CARLOS DE ALMEIDA AZEVEDO , 77, é doutor em física pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, EUA). Foi reitor da Universidade de Brasília (1976 a 1985).
JOSÉ CARLOS DE ALMEIDA AZEVEDO
Folha de São Paulo, Domingo, 20 de dezembro de 2009
Vários e-mails trocados entre integrantes do IPCC indicam a manipulação de dados para ocultar a queda de temperatura na Terra
O LIVRO "Betrayers of the Truth - Fraud and Deceit in the Halls of Science" ("Traidores da Verdade - Fraude e Falsidade nos Umbrais da Ciência"), de W. Broad e N. Wade, analisa casos de fraude e falsidade na comunidade científica e como elas permanecem não detectadas durante anos.
Ptolomeu, por exemplo, considerado o maior astrônomo da Antiguidade, não teria feito observações astronômicas, mas adaptado para a cidade de Alexandria as feitas por Hiparco na ilha de Rodes, o que gerou distorções identificáveis. O caso Ptolomeu é analisado em detalhes no livro de R. Newton, "The Crime of Claudius Ptolemy", e por J. Rawlins, no "Journal of the History of Astronomy".
Falsidades cometidas por Galileu, Newton, Dalton, Mendel, J. Bernoulli -que tomou de seu filho a equação que leva o seu nome- e outros são analisadas por Broad e Wade.
Essas observações vêm a propósito da divulgação ("climategate") pela internet de 1.079 e-mails e 79 documentos dos computadores do Centro de Pesquisas Climáticas da Universidade East Anglia (CRU, na sigla em inglês), órgão de referência mundial sobre o clima. Vários e-mails trocados entre integrantes do IPCC indicam a manipulação de dados para ocultar a queda de temperatura na Terra.
Paul Chesser, correspondente do Heartland Institute, revelou que M. Mann -que fraudou dados sobre o clima dos últimos mil anos para levar à crença de que há o aquecimento global antropogênico- recebeu US$ 6 milhões por seus artigos e projeções.
Mann está sob investigação pela Universidade Estadual da Pensilvânia.
P. Jones, diretor do CRU, afastou-se ou foi afastado do cargo e há suspeita de ter recebido dinheiro para fraudar dados. E o Senado dos EUA, por iniciativa do senador J. Inhofe, abriu investigação sobre o "climategate", que ele considera ser a maior fraude científica dos tempos modernos.
A leitura de vários e-mails robustece a antiga suspeita de que há fraude na manipulação de dados do CRU, que sempre se recusou a revelá-los, contrariando procedimento salutar e usual da comunidade científica.
Até agora, nada disso foi objeto de consideração na reunião em Copenhague, que parece cuidar mais de pancadarias e passeatas, na melhor tradição da juventude nazista, como lembrou o visconde Monckton.
Parece que não há previsão sobre as conclusões da reunião, dita científica, e que a fantástica soma de US$ 300 bilhões/ano pleiteada para "combater o aquecimento" ficará aquém disso.
I. Plimer é um respeitado geólogo da Universidade de Adelaide, Austrália, editor e coautor da "Encyclopedia of Geology", um trabalho de fôlego com cinco volumes, 2.750 páginas e 320 colaboradores.
Plimer publicou recentemente o livro "Heaven and Earth: Global Warming - the Missing Science" ("Céu e Terra: Aquecimento Global - a Ciência que Falta"), com 2.311 referências científicas que convalidam o que diz o livro, que é uma crítica fundamentada ao IPCC e às projeções feitas por computador, que não têm valor porque a ciência do clima não existe.
O IPCC não consegue explicar o que ocorreu nos últimos mil anos nem por que, no final da última glaciação, o Norte dos EUA, acima do paralelo de Washington, a Europa e a Ásia estavam sob camada de geleiras cuja espessura variava de 2 km a 5 km.
Esse gelo derreteu, o nível dos oceanos subiu 130 m e atingiu o nível atual. Nessa ocasião -e em nenhuma Era Glacial anterior- houve CO2 "antropogênico" para derreter geleiras. Sobre isso o IPCC nada diz.
O livro de Plimer é leitura recomendada a todos os que se interessam pelos aspectos científicos do clima e procuram saber o que há por trás dessa algaravia global, que consome bilhões de dólares, faz reuniões pseudocientíficas e nunca chega a nenhum resultado.
A maior ameaça à humanidade não é o aquecimento antropogênico. Afinal, a Terra está esfriando e se aproxima de um novo período glacial -isso é comprovado por vários fatores, incluindo a inexistência de manchas solares, que desapareceram há quase um ano. O que a ameaça a humanidade é a intromissão, na vida das pessoas e das nações, de órgãos sem mandato eletivo e de grupos econômicos, além da ONU. Eles querem nos governar e determinar às nações o que podem fazer, quanto podem crescer e consumir e se podem ser livres e independentes.
JOSÉ CARLOS DE ALMEIDA AZEVEDO , 77, é doutor em física pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, EUA). Foi reitor da Universidade de Brasília (1976 a 1985).
domingo, 20 de dezembro de 2009
1583) A partidarizacao da Politica Externa brasileira - Celso Lafer
Partidarização da política externa
Celso Lafer
O Estado de São Paulo, Domingo, 20 de Dezembro de 2009
A política externa tende a ser, no Brasil e em outras nações, uma política de Estado, e não de governo ou de partido - como vem ocorrendo na Presidência Lula -, em função de certas regularidades da inserção internacional de um país. Essas regularidades contribuem para dar, com as adaptações devidas à mudança das circunstâncias, uma dimensão de continuidade à ação diplomática. É isso que explica por que a política externa tende a ser uma política de Estado.
No caso do Brasil são exemplos esclarecedores de regularidades: a localização geográfica na América do Sul; a menor proximidade dos focos de tensão presentes no cenário internacional; a escala continental que dá relevância ao nosso país na vida internacional; a importância de um pacífico relacionamento com dez vizinhos; a natureza do contexto regional latino-americano, que é distinto de outros; os cuidados no gerenciamento da forte presença dos EUA nas Américas e no mundo; as realidades das assimetrias de poder; o desafio do desenvolvimento.
A dimensão de continuidade confere coerência à ação diplomática e contribui para a credibilidade da política externa do Estado. Continuidade, no entanto, não é imobilismo, pois o objetivo da política externa como política pública é traduzir necessidades internas em possibilidades externas. Mudanças assim ocorrem seja em função da identificação de novas necessidades internas, seja por conta da avaliação de novas possibilidades ou dificuldades externas, provenientes das transformações do sistema internacional. A construtiva interação continuidade/mudança tem feito, no correr dos tempos, da política externa brasileira, como política de Estado, uma "obra aberta", continuamente enriquecida no seu repertório por aquilo que cada governo e cada chanceler, em distintas conjunturas, acrescentam de relevante à inserção internacional do País.
É natural que a política externa leve em conta, na sua execução, além da avaliação do cenário internacional, os dados da política interna de um governo. No caso, por exemplo, das mudanças promovidas na Presidência Geisel, uma dimensão importante foi a de fazer dela um componente do processo de distensão e de encaminhamento da redemocratização. Esta dimensão, aperfeiçoada na gestão do chanceler Saraiva Guerreiro, propiciou, com a redemocratização, um consenso em torno da política externa como política de Estado. À existência deste consenso referiu-se Tancredo Neves em novembro de 1984. Evidentemente, ele pretendia acrescentar uma nota própria à diplomacia brasileira. Por isso, na sua viagem ao exterior, como presidente eleito, no começo de 1985, indicou que ia inserir na agenda externa brasileira a democracia e os direitos humanos em consonância com os dados internos, provenientes da redemocratização.
O empenho na manutenção de um consenso em torno da política externa como política de Estado foi uma das notas dos governos dos presidentes do Brasil democrático - de Sarney a FHC. Hoje esse consenso não existe mais, como vem apontando Rubens Ricupero. O esgarçamento crescente desse consenso é fruto da inédita partidarização da política externa promovida pelo governo Lula. Explicita-se pela desconsideração do que foi feito antes, por meio da asserção de um marco zero diplomático. É o tema do recorrente "nunca jamais em tempo algum na História desse país", denegador dos méritos da política externa como política de Estado.
A partidarização tem como um dos seus componentes a indicação do professor Marco Aurélio Garcia como assessor diplomático do presidente. Com efeito, este, como prócer do PT, que sempre cuidou das relações externas do partido, se incumbiu de zelar por essa partidarização, que a cúpula do Itamaraty incorporou nas suas práticas diplomáticas, a elas atribuindo, com preponderância, a nota de uma política de governo.
A partidarização vem crescendo, nos últimos tempos, facilitada pelas boas condições da presença do Brasil no cenário internacional e pela positiva imagem do presidente no mundo. Um símbolo da partidarização é a recente filiação do chanceler Celso Amorim ao PT.
A partidarização responde a três objetivos. O primeiro e o mais óbvio, desde o início, foi e é o de dar uma satisfação ideológica aos segmentos mais radicais da base de apoio do presidente para compensá-los pelos elementos de continuidade da responsável política econômica do governo FHC. O segundo foi e é o de identificar no PSDB o inimigo político com o qual cabe travar, ao modo de Carl Schmitt, em todos os campos, uma guerra pública. O terceiro, que se vincula ao anterior, é o de glorificar o presidente Lula, desconstruindo politicamente FHC, conferindo também ao seu significativo legado diplomático a característica de uma "herança maldita".
A consequência dessa postura instigará, no debate eleitoral que se inicia, um forte componente partidário no campo da política externa, em detrimento da sua dimensão de política de Estado.
Do ponto de vista da condução da política externa, a partidarização vem levando a equívocos da gestão diplomática. O mais clamoroso é a desmedida de uma ilusão voluntarista empenhada em realçar o papel da liderança do presidente no mundo e a sua capacidade de encaminhar, a partir do Brasil, todos os grandes problemas da vida internacional - da paz no Oriente Médio à não-proliferação nuclear militar do Irã, passando pelos problemas de Honduras, pela alteração da geografia econômica do mundo e pelo término planetário da fome. O ativismo voluntarista contribuiu, inter alia, para os insucessos das candidaturas brasileiras a postos internacionais.
Os antigos diziam que a diferença entre o remédio e o veneno é a medida. A falta de medida é o veneno da atual partidarização da política externa. Propicia, na incessante busca de prestígio, a inconsequência de muita agitação para poucos resultados.
Celso Lafer, professor titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras, foi ministro das Relações Exteriores no governo FHC
===========
Comentários dos leitores:
*
Marcos Borges Viana em 20/12/09 ás 17:54
Não é uma liderança política é uma marca para vender qualquer coisa. De revolução comunista a capitalismo produzido na China. Marca forte mas como tal, coisa.
*
Fernando Correia em 20/12/09 ás 15:43
Excelente artigo. Gostei da sugestão que ficou no ar do que a partidarização da política externa representa para a política interna no país hoje; dos pontos de regularidade. Ver Lula ao lado de Ahmadinejah para promover a diversidade é valor insustentável para o que o Brasil e seus governos vem preparando para os brasileiros. Tanto Lula quanto FHC gozaram de prestígio internacional ímpares. Claro que FHC e Lula são diferentes. Mas o que impressiona é que o momento por que passamos em 2009 foi único. O Brasil foi convidado pelo mundo a entrar no time dos grandes para reorientar a economia mundial após a crise que, digasse de passagem, só foi menor que a de 1929. Ao inves de se interessar mais pela natureza do espaço que o mundo abriu, o presidente se incumbiu de ocupar esse espaço de qualquer jeito para promover a diversidade, como se a diversidade que há para promover aqui no Brasil, por medidas administrativas, fossem poucas. O mundo é frágil e não tem a capacidade de inventar outro Brasil para ocupar o espaço da crise. Resta nós enxergarmos a responsabilidade que recai sobre nós para evitar o que a crise de 29 desenrolou.
Países emergentes com mercado interno forte é o norte.
*
AUREO TORRES DE OLIVEIRA JUNIOR em 20/12/09 ás 14:45
Quem tem ou teve a curiosidade de estudar história geral sabe que os lamentos e as críticas dos comentaristas ainda estão longe de se aproximar das consequências da diplomacia gramscista do governo Lula.A continuar como está, com um professor totalmente despreparado para a função, não seRia exagêro lembrar o livro dos livros, a Bíblia.Relembremos OS MILHÕES DE MORTOS por Stalin, Lenine,PolPot,e o idolatrado Fidel,sem radicalismos.Ou temos que acreditar no inconciente coletivo, admitindo que por aqui será diferente?
*
Sergio Bragatto em 20/12/09 ás 13:18
PRIVATIZAÇÃO DO ESTADO
- Talvez a maior conquista do século XX, após os fracassos e os muitos genocídios causados pelas ideologias enraizadas em Hegel e Marx, tenha sido o reconhecimento do valores da democracia, se bem aplicada em um Estado forte e enxuto.
Mas em um regime realmente democrático, a pergunta "Quem serão nossos líderes?" não é a mais importante, e deve empalidecer face a outra, que é a que realmente importa: "Como eles devem ser controlados?"
Ou seja, as Instituições democráticas precisam ser tais que um líder isolado, por mais que faça, não possa causar grandes prejuízos à Nação.
O contrário resulta nos famosos autoritarismos, a partir de governos populistas, como Fidel, Chávez, e Lula na América Latina. Sim, entre nós as tentativas são muitas e visíveis, em particular em relação à liberdade de imprensa. O que está acontecendo com o jornal O Estado de São Paulo? Qual o significado das propostas da recente Confecom? E para onde vamos com agências reguladoras aparelhadas e castradas?
O descenso no advento Lula é uma autêntica e contínua tentativa de privatizar o Estado.
Parabéns ao Prof. Celso Lafer pelo artigo.
*
Braz dos Santos em 20/12/09 ás 10:23
É lamentável o que vem ocorrendo na política externa brasileira. A partidarização é coisa de gente pequena. como celso Amorim, por exemplo.
*
Saulo Mundim Lenza Lenza em 20/12/09 ás 10:19
Excelente o texto do professor.
É preciso separar pensamentos ideológicos e interesses partidários da politica externa do Brasil. Coisa que infelizmente não ocorre nos dias de hoje.
*
Sebastiao Adorno em 20/12/09 ás 05:26
Parabéns professor por seus comentários, de fato, política de Estado não se confunde com política partidária e muito menos personificação de um representante. O Estado (Brasil) deve ser o foco da política externa e nunca um partido muito menos uma pessoa.
Celso Lafer
O Estado de São Paulo, Domingo, 20 de Dezembro de 2009
A política externa tende a ser, no Brasil e em outras nações, uma política de Estado, e não de governo ou de partido - como vem ocorrendo na Presidência Lula -, em função de certas regularidades da inserção internacional de um país. Essas regularidades contribuem para dar, com as adaptações devidas à mudança das circunstâncias, uma dimensão de continuidade à ação diplomática. É isso que explica por que a política externa tende a ser uma política de Estado.
No caso do Brasil são exemplos esclarecedores de regularidades: a localização geográfica na América do Sul; a menor proximidade dos focos de tensão presentes no cenário internacional; a escala continental que dá relevância ao nosso país na vida internacional; a importância de um pacífico relacionamento com dez vizinhos; a natureza do contexto regional latino-americano, que é distinto de outros; os cuidados no gerenciamento da forte presença dos EUA nas Américas e no mundo; as realidades das assimetrias de poder; o desafio do desenvolvimento.
A dimensão de continuidade confere coerência à ação diplomática e contribui para a credibilidade da política externa do Estado. Continuidade, no entanto, não é imobilismo, pois o objetivo da política externa como política pública é traduzir necessidades internas em possibilidades externas. Mudanças assim ocorrem seja em função da identificação de novas necessidades internas, seja por conta da avaliação de novas possibilidades ou dificuldades externas, provenientes das transformações do sistema internacional. A construtiva interação continuidade/mudança tem feito, no correr dos tempos, da política externa brasileira, como política de Estado, uma "obra aberta", continuamente enriquecida no seu repertório por aquilo que cada governo e cada chanceler, em distintas conjunturas, acrescentam de relevante à inserção internacional do País.
É natural que a política externa leve em conta, na sua execução, além da avaliação do cenário internacional, os dados da política interna de um governo. No caso, por exemplo, das mudanças promovidas na Presidência Geisel, uma dimensão importante foi a de fazer dela um componente do processo de distensão e de encaminhamento da redemocratização. Esta dimensão, aperfeiçoada na gestão do chanceler Saraiva Guerreiro, propiciou, com a redemocratização, um consenso em torno da política externa como política de Estado. À existência deste consenso referiu-se Tancredo Neves em novembro de 1984. Evidentemente, ele pretendia acrescentar uma nota própria à diplomacia brasileira. Por isso, na sua viagem ao exterior, como presidente eleito, no começo de 1985, indicou que ia inserir na agenda externa brasileira a democracia e os direitos humanos em consonância com os dados internos, provenientes da redemocratização.
O empenho na manutenção de um consenso em torno da política externa como política de Estado foi uma das notas dos governos dos presidentes do Brasil democrático - de Sarney a FHC. Hoje esse consenso não existe mais, como vem apontando Rubens Ricupero. O esgarçamento crescente desse consenso é fruto da inédita partidarização da política externa promovida pelo governo Lula. Explicita-se pela desconsideração do que foi feito antes, por meio da asserção de um marco zero diplomático. É o tema do recorrente "nunca jamais em tempo algum na História desse país", denegador dos méritos da política externa como política de Estado.
A partidarização tem como um dos seus componentes a indicação do professor Marco Aurélio Garcia como assessor diplomático do presidente. Com efeito, este, como prócer do PT, que sempre cuidou das relações externas do partido, se incumbiu de zelar por essa partidarização, que a cúpula do Itamaraty incorporou nas suas práticas diplomáticas, a elas atribuindo, com preponderância, a nota de uma política de governo.
A partidarização vem crescendo, nos últimos tempos, facilitada pelas boas condições da presença do Brasil no cenário internacional e pela positiva imagem do presidente no mundo. Um símbolo da partidarização é a recente filiação do chanceler Celso Amorim ao PT.
A partidarização responde a três objetivos. O primeiro e o mais óbvio, desde o início, foi e é o de dar uma satisfação ideológica aos segmentos mais radicais da base de apoio do presidente para compensá-los pelos elementos de continuidade da responsável política econômica do governo FHC. O segundo foi e é o de identificar no PSDB o inimigo político com o qual cabe travar, ao modo de Carl Schmitt, em todos os campos, uma guerra pública. O terceiro, que se vincula ao anterior, é o de glorificar o presidente Lula, desconstruindo politicamente FHC, conferindo também ao seu significativo legado diplomático a característica de uma "herança maldita".
A consequência dessa postura instigará, no debate eleitoral que se inicia, um forte componente partidário no campo da política externa, em detrimento da sua dimensão de política de Estado.
Do ponto de vista da condução da política externa, a partidarização vem levando a equívocos da gestão diplomática. O mais clamoroso é a desmedida de uma ilusão voluntarista empenhada em realçar o papel da liderança do presidente no mundo e a sua capacidade de encaminhar, a partir do Brasil, todos os grandes problemas da vida internacional - da paz no Oriente Médio à não-proliferação nuclear militar do Irã, passando pelos problemas de Honduras, pela alteração da geografia econômica do mundo e pelo término planetário da fome. O ativismo voluntarista contribuiu, inter alia, para os insucessos das candidaturas brasileiras a postos internacionais.
Os antigos diziam que a diferença entre o remédio e o veneno é a medida. A falta de medida é o veneno da atual partidarização da política externa. Propicia, na incessante busca de prestígio, a inconsequência de muita agitação para poucos resultados.
Celso Lafer, professor titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras, foi ministro das Relações Exteriores no governo FHC
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Comentários dos leitores:
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Marcos Borges Viana em 20/12/09 ás 17:54
Não é uma liderança política é uma marca para vender qualquer coisa. De revolução comunista a capitalismo produzido na China. Marca forte mas como tal, coisa.
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Fernando Correia em 20/12/09 ás 15:43
Excelente artigo. Gostei da sugestão que ficou no ar do que a partidarização da política externa representa para a política interna no país hoje; dos pontos de regularidade. Ver Lula ao lado de Ahmadinejah para promover a diversidade é valor insustentável para o que o Brasil e seus governos vem preparando para os brasileiros. Tanto Lula quanto FHC gozaram de prestígio internacional ímpares. Claro que FHC e Lula são diferentes. Mas o que impressiona é que o momento por que passamos em 2009 foi único. O Brasil foi convidado pelo mundo a entrar no time dos grandes para reorientar a economia mundial após a crise que, digasse de passagem, só foi menor que a de 1929. Ao inves de se interessar mais pela natureza do espaço que o mundo abriu, o presidente se incumbiu de ocupar esse espaço de qualquer jeito para promover a diversidade, como se a diversidade que há para promover aqui no Brasil, por medidas administrativas, fossem poucas. O mundo é frágil e não tem a capacidade de inventar outro Brasil para ocupar o espaço da crise. Resta nós enxergarmos a responsabilidade que recai sobre nós para evitar o que a crise de 29 desenrolou.
Países emergentes com mercado interno forte é o norte.
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AUREO TORRES DE OLIVEIRA JUNIOR em 20/12/09 ás 14:45
Quem tem ou teve a curiosidade de estudar história geral sabe que os lamentos e as críticas dos comentaristas ainda estão longe de se aproximar das consequências da diplomacia gramscista do governo Lula.A continuar como está, com um professor totalmente despreparado para a função, não seRia exagêro lembrar o livro dos livros, a Bíblia.Relembremos OS MILHÕES DE MORTOS por Stalin, Lenine,PolPot,e o idolatrado Fidel,sem radicalismos.Ou temos que acreditar no inconciente coletivo, admitindo que por aqui será diferente?
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Sergio Bragatto em 20/12/09 ás 13:18
PRIVATIZAÇÃO DO ESTADO
- Talvez a maior conquista do século XX, após os fracassos e os muitos genocídios causados pelas ideologias enraizadas em Hegel e Marx, tenha sido o reconhecimento do valores da democracia, se bem aplicada em um Estado forte e enxuto.
Mas em um regime realmente democrático, a pergunta "Quem serão nossos líderes?" não é a mais importante, e deve empalidecer face a outra, que é a que realmente importa: "Como eles devem ser controlados?"
Ou seja, as Instituições democráticas precisam ser tais que um líder isolado, por mais que faça, não possa causar grandes prejuízos à Nação.
O contrário resulta nos famosos autoritarismos, a partir de governos populistas, como Fidel, Chávez, e Lula na América Latina. Sim, entre nós as tentativas são muitas e visíveis, em particular em relação à liberdade de imprensa. O que está acontecendo com o jornal O Estado de São Paulo? Qual o significado das propostas da recente Confecom? E para onde vamos com agências reguladoras aparelhadas e castradas?
O descenso no advento Lula é uma autêntica e contínua tentativa de privatizar o Estado.
Parabéns ao Prof. Celso Lafer pelo artigo.
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Braz dos Santos em 20/12/09 ás 10:23
É lamentável o que vem ocorrendo na política externa brasileira. A partidarização é coisa de gente pequena. como celso Amorim, por exemplo.
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Saulo Mundim Lenza Lenza em 20/12/09 ás 10:19
Excelente o texto do professor.
É preciso separar pensamentos ideológicos e interesses partidários da politica externa do Brasil. Coisa que infelizmente não ocorre nos dias de hoje.
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Sebastiao Adorno em 20/12/09 ás 05:26
Parabéns professor por seus comentários, de fato, política de Estado não se confunde com política partidária e muito menos personificação de um representante. O Estado (Brasil) deve ser o foco da política externa e nunca um partido muito menos uma pessoa.
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