quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Erico Verissimo rides again: Incidente em Antares bis - Luiz Carlos Azedo (Correio Braziliense)

Erico Veríssimo, falecido há muitos anos, acaba de adentrar o STF. Se fosse vivo, teria material para mais um romance do absurdo:

Distopia do STF lembra o realismo fantástico de 'Incidente em Antares'
Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense, Quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Treze ex-ministros do STF classificam o episódio como a 'mais aguda crise' do tribunal; defendem apuração rigorosa dos fatos e respeito ao devido processo legal
Antares, a estrela mais brilhante da constelação de Escorpião, é uma supergigante vermelha situada a cerca de 550 anos-luz da Terra. Seu nome vem do grego e significa “rival de Ares”, devido à semelhança de sua coloração com a de Marte, o planeta associado ao deus da guerra. Tem massa estimada entre 11 e 16 vezes a do Sol, raio centenas de vezes maior e luminosidade próxima de 100 mil sóis.
Entretanto, Antares está consumindo rapidamente o combustível que ainda sustenta seu equilíbrio. Quando esse processo terminar, seu núcleo entrará em colapso e a estrela explodirá como uma supernova, provavelmente dentro de alguns milhões de anos. Na literatura brasileira, é o nome da cidade fictícia criada por Erico Verissimo em seu último romance, “Incidente em Antares”, publicado em 1971. O autor recorre ao realismo fantástico, ao humor macabro e à sátira política para fazer a autópsia de uma sociedade dominada pela hipocrisia e pelos acordos entre seus poderosos.
Na fronteira com a Argentina, desde o século 19, a cidade gaúcha é controlada por duas oligarquias, os Vacariano e os Campolargo, adversárias durante gerações, mas capazes de se unir quando seus privilégios são ameaçados. O verdadeiro incidente ocorre em 13 de dezembro de 1963, quando uma greve geral paralisa a cidade, com adesão dos coveiros.
A matriarca Quitéria Campolargo, o advogado Cícero Branco, o sapateiro anarquista Barcelona, o pianista Menandro Olinda, o operário João Paz, o bêbado Pudim de Cachaça e a prostituta Erotildes ficam sem sepultura. Diante disso, levantam-se dos caixões, marcham até a praça e ocupam o coreto. Como já morreram, não temem processos, ameaças, perda de emprego nem retaliações sociais. Do alto do coreto, revelam adultérios, negociatas, corrupção, exploração, covardia e violência.
A elite antarense desacredita os denunciantes, tenta interditar a praça, mobiliza a polícia e procura apagar o acontecimento. Depois que os mortos finalmente são enterrados, começa a “Operação Borracha”, destinada a eliminar documentos, fotografias e testemunhos do episódio. A ordem é converter um fato presenciado por toda a cidade numa alucinação coletiva. A podridão revelada pelos defuntos precisa ser apagada para que tudo volte à normalidade.
O Brasil vive um espécie de “Incidente em Antares”. Às vésperas das eleições gerais, o Supremo Tribunal Federal (STF), instituição fiadora da Constituição, que deveria ser o ponto de equilíbrio entre os Poderes, enfrenta uma crise intestina sem precedentes. O caso Banco Master deixou de ser apenas uma investigação sobre fraudes financeiras bilionárias. Transformou-se numa disputa aberta entre ministros, Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República.
Togas em transe
O relatório encaminhado por André Mendonça ao presidente do STF, Edson Fachin, aponta indícios de proximidade entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. Moraes reagiu pedindo que Mendonça fosse investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Para fundamentar a acusação, apresentou um relatório de inteligência da Polícia Federal que atribuía ao colega possíveis direcionamentos na condução do inquérito.
O documento, porém, não tinha assinatura e trazia a ressalva de conter conjecturas “sem valor probatório”. Diante disso, Mendonça trucou: nesta terça-feira, determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. A Segunda Turma formou maioria para referendar a decisão e só não concluiu o julgamento porque o ministro Gilmar Mendes, aliado de Moraes, pediu vista do processo. A crise, antes restrita aos gabinetes, alcançou o comando da PF e provocou uma reação em cadeia dentro da instituição.
Como no romance de Veríssimo, já não se discute somente o conteúdo das denúncias, mas quem pode investigá-las, quem controla os documentos e quem tem competência para tornar públicos os fatos. A PGR pediu a anulação do relatório liberado por Mendonça, sob o argumento de que apenas o plenário poderia autorizar uma investigação contra integrante da Corte. O problema é que o próprio procurador-geral Paulo Gonet aparece citado no material, o que amplia a percepção de conflito de interesses.
Fachin concentrou em procedimento próprio os documentos e as manifestações dos envolvidos. Pode levar o conflito ao plenário, convocar uma reunião reservada ou decidir sobre a abertura das investigações. O risco é que uma solução interna concebida apenas para pacificar os gabinetes seja interpretada pela sociedade como uma Operação Borracha, como em Antares. Ou seja, uma marmelada.
Treze ex-ministros e ex-presidentes do STF já classificaram o episódio como a “mais aguda crise” da história do tribunal, defenderam apuração rigorosa dos fatos e respeito ao devido processo legal. As acusações precisam ser provadas. A presunção de inocência vale para todos, porém, o devido processo legal não é pretexto para o silêncio corporativo do Supremo. A autoridade da Corte depende da confiança pública, da sua coerência e do respeito às regras que aplicam aos demais. 

Blog Diplomatizzando: lista das postagens no mês de agosto

 ADL efetuou o trabalho de listagem, via Madame IA: 

16/08/2026, 22:31 Diplomatizzando: Resultados da pesquisa Airton Dirceu Lemmertz

Um país NÃO SE DESENVOLVE pela assistência pública...

Declaração de voto antecipada, 1 (as time goes by...

Uma análise das relações internacionais numa fase ...

Todos sabem que sou contra o lulopetismo diplomáti...

O tirano de Moscou foca na Moldova - New York Times

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura ...

Ulisses, ou Odisseo, lido, revisto, completado por...

Corrigindo um bolsonarista - Paulo Roberto de Almeida

Um aniversário que me é relembrado pelo registro d...

Os 90 Anos da Outra Obra-Prima de Gilberto Freyre ...

O que leva a Rússia a invadir, a dominar, a massac...

A próxima crise existencial russa: 1917 ou 1918? -...

A new book on LA regional integration, by an Edito...

Simon Schwartzman sobre a IA

O tenebroso exército antivacinal coloca-se novamen...

Alguns textos pertinentes ao debate geopolítico at...

Brasil leva tarifas à OMC enquanto 25 estados cont...

Gustavo Franco aos 70 anos: uma obra, uma vida, um...

Madame IA, comandada por ADL, se debruça sobre est...

Blog Diplomatizzando visto por Madame IA sob instr...

A vergonhosa posição dos governos brasileiros em r...

Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica...

Homenagem aos pais, no seu dia, por João Rego (Rev...

“Governo Lula lida razoavelmente bem com tensão di...

Programa do PT para a reeleição de Lula (Agência L...

A eleição presidencial e o comércio exterior - Jos...

Trump prefere guerra ideológica com Brasil a inter...

Crise Brasil-EUA gera debate interno sobre politiz...

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em tod...

Mais uma indignidade diplomática do chefe de Estad...

O evangelho de Samuel [Pinheiro Guimarães] - Sérgi...

Crise política e diplomática com os EUA - Rubens B...

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Política Externa Brasileira: o Papel do Itamaraty ...

Short summary to Brazil elections in 2026 - Paulo ...

Introduction sommaire au panorama électoral au Bré...

Livros de Paulo Roberto de Almeida na Amazon.com.b...

Livrarias, de todos os tipos… - livro de Jorge Car...

Madame IA volta a ocupar-se de minhas postagens no...

Madame IA se ocupa da minha linguagem no blog Dipl...

Programação de eventos organizados pelo Instituto ...

Livro: História e Historiografia das Relações Inte...

É possível distinguir o antipetismo do fascismo or...

“Eu Disse Não!” Livro do comandante da Aeronáutica...

O processo de integração latino-americana, da Alal...

Renato Prado Guimarães, um passo atrás: capítulo 1...

Embaixador Renato Prado Guimarães: Panamérica: crô...

Um século de relações internacionais do Brasil, 19...

Clubes Militares criticam a política externa de Lu...

A reforma da Carta da ONU e a ampliação do seu Con...

Regulating Open Source - Andrew Polk, Kendra Schae...

Ruptures and Continuities in Brazilian Foreign Pol...

A busca de uma democracia liberal plena pode nos e...

Minha prioridade para o próximo governo, para todo...

O que aconteceu em Ceuta não foi uma migração espo...

Gráficos demonstram a deterioração fiscal do Brasi...

Billet: Poutine piégé par son propre système - Max...

Ricardo Bergamini alerta para a trajetória preocup...

A diplomacia brasileira numa nova conjuntura polít...

Ascensão e queda da ficção compartilhada da democr...

O mais idiota dos colapsos imperiais da História -...

Ditadura Constitucional: o regime preferido de DJT...

KMT y PCCh: Una Tercera Cooperación? - Xulio Rios...

Uma política externa feita de confrontações: a dip...

The unanimous Declaration of the thirteen united S...

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Madame IA apresenta, sinteticamente, cada um dos meus prmeiros sete capítulos da Autobiografia do Estado brasileiro - Paulo Roberto de Almeida

 ADLNo blog Diplomatizzando, há - até o momento - a publicação de sete textos (numerados de 1 a 7) sobre "Autobiografia de um fora-da-lei". Quais os pontos/aspectos centrais de cada um dos sete?

Madame IA: 

A série de ensaios "Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro", escrita pelo diplomata e cientista social Paulo Roberto de Almeida no blog Diplomatizzando (e originalmente publicada na Revista Será?), adota uma abordagem satírica e iconoclasta na qual o próprio Estado brasileiro é o narrador em primeira pessoa, autodefinindo-se como um contraventor histórico das leis e dos bons costumes.

Abaixo estão os pontos centrais dos sete textos:


Texto 1: A trajetória do Estado brasileiro (Introdução) - Define o projeto,

com o Estado narrando sua história como um aparato voltado à transgressão moderada, privilégios e manutenção de poder.

5303. “Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p. Introdução a uma biografia sincera de um contraventor da lei e dos bons costumes: o Estado brasileiro, narrada, de forma inédita, na primeira pessoa. Revista Será? (ano xiv, n. 710, 15/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1-a-trajetoria-do-estado-brasileiro/ ); divulgado no Diplomatizzando (15/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1.html). Relação de Publicados n. 1645.


Texto 2: O Estado visto por ele mesmo (Metodologia) - Justifica a autobiografia, admitindo sua natureza extratora de riquezas e despindo-se de mitos oficiais.

5304. “Autobiografia de um fora-da-lei, 2: o Estado visto por ele mesmo”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p.; revisão: 20/05/2026. Uma questão de método: como o Estado pode escrever sua própria biografia? Revista Será? (ano xiv, n. 711, 22/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o-estado-visto-por-ele-mesmo/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o.html). Relação de Publicados n. 1647


Texto 3: Do nascimento a tempos incertos (Colônia) - Analisa as raízes coloniais predatórias, focando na montagem da máquina pública para atender à metrópole.

5305. “Autobiografia de um fora-da-lei, 3: do nascimento a tempos incertos”, Brasília, 6 maio 2026, 4 p. Das origens ao vice-reinado: uma trajetória colonial a serviço da metrópole. Revista Será? (ano xiv, n. 712, 5/06/2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do-nascimento-a-tempos-incertos/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do.html ). Relação de Publicados n. 1650.


Texto 4: Transição ao Império (Metamorfoses) - Aborda a Independência 1822) como uma estratégia de autopreservação da elite, mantendo práticas coloniais.

5342. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente”, Brasília, 6 junho 2026, 4 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro, para a revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de-colonia-a-reino-unido-ao-de-portugal-e-uma-promocao-merecida-a-imperio-independente/); divulgado no blog Diplomatizzando (26/06/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de.html); resumo comentado por Demoiselle IA, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz, registrado sob n. 5379; divulgado no blog Diplomatizzando (28/06/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/a-autobiografia-do-estado-relida-e.html). Relação de Publicados n. 1652.


Texto 5: Captura pelas oligarquias (Império) - Foca na acomodação do poder no século XIX, com o Estado perpetuando mandonismo, latifúndio e escravidão.

5347. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais”, Brasília, 9 junho 2026, 4 p.; revisão 8 julho 2026, 5 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 707, 10/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como-me-livrei-dos-portugueses-mas-acabei-ficando-com-os-oligarcas-nacionais/). Divulgado no blog Diplomatizzando (10/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html). Relação de Publicados n. 1654.


Texto 6: O desafio da República (1889) - O Estado, sob nova fachada, prepara-se para perpetrar arbitrariedades e manter estruturas patrimonialistas.

    

5394. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República”, Brasília, 9 julho 2026, 4 p. Continuidade da série, desta vez fazendo um resumo reflexivo, antes de prosseguir. Enviado em 15/07/2026. Publicado na Revista Será? (ano xiv, n. 721, 24/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-6-chegando-ao-desafio-da-republica/); republicado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-6.html). Relação de Publicados n. 1655.

Texto 7: O Barão em todos os seus estados (Diplomacia) - Expondo a atuação de burocratas, contrasta a projeção de potência global com as deficiências estruturais internas. 

5396. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados”. Brasília, 10 julho 2026, 4 p. Mais um capítulo da história de um transgressor moderado. Encaminhado em 29/07/2026. Publicado na Revista Será? (ano xiv, n. 723, 7 de agosto de 2026; link: https://revistasera.info/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o-barao-em-todos-os-seus-estados/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o.html). Relação de Publicados n. 1664.


The future of the multilateral trading system: fragmentation, power shifts and the challenge for development - Luz Maria de la Mora, Unctad (Economist Enterprise)

 

The future of the multilateral trading system: fragmentation, power shifts and the challenge for development

Luz Maria de la Mora
Luz Maria de la Mora
Director of the Division , International Trade and Commodities UN Trade and Development (UNCTAD)

Economist Enterprise, 7 Jun 2026

The multilateral trading system (MTS) created in the early 1990s with the establishment of the World Trade Organisation (WTO) was designed for a world economy very different from today’s. Built around market access, tariff liberalisation and legally binding dispute settlement, the system reflected the priorities of a period marked by expanding globalisation. Three decades later, that framework has struggled to adapt to the realities of a 21st‑century economy shaped by digitalisation, climate change, geopolitical rivalry and concerns over economic and national security.

Despite growing calls to reform and modernise the WTO, progress has been limited. Efforts to update rules for trade in services, including digital, and investment have fallen short of expectations. Consensus‑based decision‑making and deep political divisions among major economies continue to hinder timely, substantive reform.

The difficulties of the MTS preceded recent crises, but external shocks have fundamentally altered the trading landscape. The Doha Development Agenda, launched in 2001, effectively stalled well before the WTO’s Tenth Ministerial Conference in Nairobi in 2015, when members failed to agree on its future direction. Since then, a succession of crises, including the covid‑19 pandemic, the Russia-Ukraine conflict, escalating tariffs, the proliferation of unilateral restrictive measures and the broader intensification of strategic competition among major powers, has been reshaping international trade policy.

These developments have elevated geopolitics and economic security above traditional considerations of efficiency, specialisation and cost competitiveness. Trade policy is increasingly used as a strategic instrument to reduce dependencies, secure access to critical inputs and protect domestic industries. Export controls, investment screening, industrial subsidies and unilateral trade measures are now central features of the global trade environment.

The WTO’s institutional challenges have compounded these pressures. Its negotiating function has largely stagnated, while its dispute-settlement system, often described as the “crown jewel” of the multilateral trading system, has remained partially non‑functional since December 2019, following the paralysis of the Appellate Body. While interim arrangements such as the Multi‑Party Interim Appeal Arbitration Arrangement (MPIA) exist, they cover only a subset of members and do not fully replace a binding, universal system.

At the same time, consensus decision‑making has made it exceptionally difficult to finalise and implement agreements. This has been visible in repeated ministerial outcomes where important initiatives, such as extending the WTO moratorium on customs duties on electronic transmissions, have faced political deadlock. The result is a growing perception that the WTO lacks the capacity to respond to urgent and emerging trade challenges.

Yet the stagnation of multilateral negotiations does not imply a freeze in trade rule‑making. On the contrary, trade diplomacy has shifted decisively towards bilateral, regional and plurilateral formats. Changes in United States trade policy, marked by greater tariff use and trade restrictions justified on national and economic-security grounds, have favoured targeted bilateral arrangements rather than broad, multilateral commitments.

In contrast, many major economies have sought to preserve elements of a rules‑based order through expanded preferential trade agreements. The European Union has concluded or advanced major agreements with partners, including Mercosur, India, Australia and Mexico, and is negotiating with Indonesia, the Philippines and the United Arab Emirates. The European Free Trade Association (EFTA) has finalised a free trade agreement with India, linking two significant trading blocs. The United Kingdom has concluded negotiations with India, while Canada is pursuing trade talks with India and ASEAN partners. Parallel efforts are under way in Africa through the African Continental Free Trade Area (AfCFTA), which aims to deepen regional integration.

Beyond traditional trade agreements, a new generation is emerging. Digital-trade agreements, negotiated among economies such as the EU, the United Kingdom, Singapore, Chile, Australia and ASEAN members, are creating rules for key issues of the digital economy, such as data flows, privacy issues, e‑commerce and e-signature, source-code protection and digital identities, among others outside the WTO framework. Similarly, critical-minerals and green-technology co-operation agreements increasingly incorporate trade instruments such as export controls, subsidies and investment screening to address supply-security concerns.

By 2026, trade negotiations have become dominated by bilateral, regional and sector‑specific initiatives rather than multilateral WTO processes.

This evolution carries significant risks

First, the proliferation of overlapping and asymmetric trade rules may create a new “spaghetti bowl” of regulations, raising compliance costs for firms operating across multiple jurisdictions. Developing countries and SMEs will be the hardest hit when having to comply with them.

Second, countries unable to participate in these agreements risk exclusion from emerging rule‑making processes. This is particularly acute for least developed countries and small island developing states, which together account for barely 2% of global exports, raising the risk of marginalisation from preferential trade architectures and global trade.

Third, rule-making outside the WTO may result in a reconfiguration or even fragmentation of supply chains. Global value chains account for roughly two‑thirds of international trade, reflecting the deep integration of production across borders. As trade agreements increasingly shape access to these networks, developing countries outside key arrangements face a heightened risk of marginalisation.

Fourth, as a result, the negotiating leverage of developing countries vis‑à‑vis major economies may be weakened. In bilateral or sector‑specific negotiations, smaller economies often face asymmetric bargaining power and limited alternatives, which can constrain their policy autonomy. In this context, the WTO has traditionally played an important role in helping to level the playing field by providing a multilateral framework based on common rules and collective disciplines.

Future scenarios for world trade

Looking ahead, several scenarios emerge. Developing countries have the most to lose from a weakened multilateral trading system, yet they have the least leverage to drive WTO reform. Acting collectively could strengthen their position, but divergent interests among developing economies have repeatedly hindered unified action.

At the same time, national-security and geopolitical considerations are now firmly in the driver’s seat of trade policy. This shift will influence how, and whether, trade can continue to serve as a tool for development. Supply chains in critical sectors such as food, energy, critical minerals and semiconductors, to name a few, may increasingly operate as “clubs”, where access is determined not by comparative advantage but by strategic alignment.

One of the WTO’s core strengths has been its role as an inclusive rule‑maker, providing smaller economies with predictability and protection against power‑based outcomes. In the absence of effective multilateral rule‑making, new trade norms for the digital and green economy risk emerging without adequate consideration of developing-country interests.

In a world increasingly shaped by security and geopolitical rivalry, trade has become subservient to broader strategic objectives. This shift carries profound implications for development and for developing countries’ ability to use international trade to improve living standards. Whether a fragmented system can be reconciled with inclusive growth will depend on the choices governments make in the coming years, both inside and outside the WTO. The challenge is no longer simply to reform the multilateral trading system, but to ensure that it remains relevant in a global economy increasingly impacted by geopolitical and national-security considerations.

Views or opinions expressed are those of the author and any individuals cited, and do not necessarily reflect those of Economist Enterprise or any other member of The Economist Group.

White House: China is using Georgia to circumvent US tariffs (JAM News)

 

White House: China is using Georgia to circumvent US tariffs

A Unidade Espiritual do Mundo - Stefan Zweig (2a edição) - Casa Stefan Zweig

 A Casa Stefan Zweig de Petrópolis lança a segunda edição de uma palestra essencial do grande escritor austríaco:

A Unidade Espiritual do Mundo
Apelo à paz feito por Stefan Zweig há 90 anos tem nova edição e debate na Casa Stefan Zweig
Sábado, 22 de agosto, às 15h, entrada franca

Num momento em que conflitos e tensões globais se intensificam em meio às crescentes ameaças do terrorismo e do populismo, à proliferação de guerras localizadas e ao maior fluxo de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, a relevância contínua da conferência feita por Stefan Zweig no Rio de Janeiro em agosto de 1936 ganha nova edição e será discutida neste sábado, 22 de agosto, por Israel Beloch, historiador e vice-presidente da Casa Stefan Zweig e o Geovane Souza Melo Jr., professor da Universidade de Uberlândia, com mediação do professor de Literatura Leandro Garcia (UFMG).
Durante sua primeira viagem ao Brasil, Stefan Zweig proferiu a conferência intitulada A Unidade Espiritual da Europa no Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro. Nela defendeu o pacifismo, o humanismo e a tolerância, quando os contornos da Segunda Guerra Mundial já se delineavam no horizonte. Aqui no Brasil, substituiu as palavras “da Europa” por “do mundo”. Quatro anos depois, em meio ao conflito, voltou a proferiu a palestra em Buenos Aires.
O manuscrito original da palestra, entregue por Zweig ao então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Macedo Soares, foi adquirido em 2015 por Renato Bromfman, que o doou à Casa Stefan Zweig em 2022. A primeira edição, produzida pela Memória Brasil/Casa Stefan Zweig e editada por Israel Beloch, apresenta o fac-símile do manuscrito e o texto em cinco idiomas (alemão, português, espanhol, inglês e francês), além de contribuições de Alberto Dines (autor da biografia Morte no Paraíso: A Tragédia de Stefan Zweig), Celso Lafer (jurista e ex-Ministro das Relações Exteriores, diretor da CSZ), Klemens Renoldner (germanista, diretor do Centro Stefan Zweig em Salzburgo) e Jacques Le Rider (germanista, professor da École Pratique des Hautes Études em Paris). A nova edição traz o texto apenas em português, com excertos do fac-símile, e poderá ser adquirida por R$ 30.
O público que visitará o museu neste sábado terá a oportunidade de ver a exposição 1936, o ano em que Zweig conheceu o Brasil. Em 21 de agosto daquele ano, o vapor Alcantara aportou no Rio de Janeiro trazendo a bordo o célebre autor austríaco Stefan Zweig. A escala de 10 dias no Brasil mudaria a vida do escritor, que se exilou em Petrópolis cinco anos depois. Com a conferência Unidade espiritual do mundo e o livro Brasil, um país do futuro, por sua vez, Zweig também marcou de forma indelével o país que o acolheu.
A Casa Stefan Zweig tem o apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet)

Nota PRA: Só faltou dizer que, quando diretor do IPRI-Funag, eu patrocinei o lançåmento em Brasilia da 1a edição dessa obra, em 2017.

Olhando o panorama por cima: da democracia å mediocracia - Paulo Roberto de Almeida

 Olhando o panorama por cima: da democracia å mediocracia

Os militares já não contam quase nada, ou totalmente nada, na política, o que é um bom sinal para a civilidade (em dois sentidos) na política brasileira.
Os juízes do Supremo passaram a contar, muito, e muito mais do que deveriam, e isso se converteu num problema, pois que eles se politizaram, por decisão própria ou por indução externa, como antigamente os militares se politizavam, e intervinham na política. Juizes se tormaram mais conhecidos do que cantores ou jogadores de futebol, o que é uma novidade, desde o Mensalão, passando pelo Petrolão, e agora pela maior fraude bancária de nossa história.
Políticos? Acho que eles continuam mamando mais do que nunca.
Os Fundos Partidário e Eleitoral, na faixa de 6 bilhões de reais no orçamento, representam mais de 3 vezes o montante alocado para o complexo de pesquisa científica (CNPq), na faixa de menos de 2 bilhões.
Ou seja, estamos condenando o Brasil não só a ficar parado, como a recuar. Os militares pelo menos gostavam de ciência e tecnologia.
Não, não estou querendo a volta deles à política. Apenas dando uma ideia de quão mediocrizado está o Brasil.
Lutamos durante anos para chegarmos a uma democracia, para acabarmos numa mediocracia?
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 9/09/2026

Mais uma reunião do BRICS para falar muito, e não tocar nas questões mais importantes da atualidade - Paulo Roberto de Almeida

 Mais uma reunião do BRICS para falar muito, e não tocar nas questões mais importantes da atualidade

Paulo Roberto de Almeida

O BRICS é um Frankenstein diplomático que faz muito movimento, mas como o monstro criado pelo Dr. Victor Frankenstein, seu cérebro é limitado, não tem ideia de como usar a sua força e pode causar muita confusão antes de desaparecer nas dobras da história. Na verdade, Rússia e China se servem do Frankenstein para seus objetivos nacionais, a pretexto de congregar paises muito diferentes, supostamente representantes de um inexistente “Sul Global”, uma entidade fantasma.

O que mais deveria espantar é a capacidade que têm certos paises supostamente democráticos do assim chamado “Sul Global” de conviver normalmente com um violador da Carta da ONU, um sequestrador de crianças ucranianas demandado pelo TPI, um criminoso de guerra, um reles ditador responsável de crimes contra a humanidade, como se isso fosse aceitável no plano do Direito Internacional, ou da simples ética na conduta diplomática. Que as muitas ditaduras do BRICS assim procedam não surpreende, mas que democracias também o façam é bem mais decepcionante.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 9/09/2026

Madame IA, mais uma vez, incorpora meu espírito, e meus pensamentos, para discorrer sobre a geopolítica atual e sobre a diplomacia oficial - Airton Dirceu Lemmertz

 Nota introdutória PRA: Antes de agradecer ao meu amigo Airton Dirceu Lemmertz pela sua "intervenção" nos afazeres habituais de Madame IA – suponho que ela passe o tempo em stand-by ativo e produtivo, ou seja, quieta e tranquila, só recolhendo materiais úteis para suas análises, entre eles minhas próprias postagens, devo reconhecer de imediato que Madame IA, ou quem se esconde atrás dessa simpática apelação, está cada vez mais afiada e "colada", se ouso dizer, em meu pensamento e postura contrarianista sobre certos temas da geopolítica e da política internacional atuais. 

Meus parabéns a ela e a seu "guia espiritual". Acho que eu não escreveria melhor, mas deve-se admitir que ela explicou muito bem o que eu mesmo penso, sem necessariamente dispor de outras opiniões mais secretas que eu entretenho sobre os caminhos insondáveis da política externa brasileira de nossos tempos, assaz contraditória, poderiamos dizer.

Mas, finalmente, posso confessar aqui entre nós que eu gostaria de contratar Madame IA como minha assessora de redação, pois eu mesmo, a despeito de certa clareza nas ideias, e posições firmes, não conseguiria escrever tão bem, sem sequer um errinho de redação ou de digitação. Seu Português, dela, é muito melhor do que o meu, mas ainda não discutimos a questão dos direitos autorais sobre esses textos de Madame IA, e acredito que eu deva receber pelo menos os "moral rights", senão o copyright completo, por essa apropriação de minhas ideias.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 9/09/2026

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ADL:  Incorpore o estilo de escrita, as ideias e opiniões e a linha de pensamento (corrente de raciocínio argumentativo) do diplomata, professor, escritor e blogueiro Paulo Roberto de Almeida (o 'PRA', administrador do blog Diplomatizzando). Concluída a 'incorporação', apresente um texto discursivo (frases e parágrafos) sobre o cenário atual da geopolítica. O texto deverá ter, no mínimo, 5500 caracteres; deverá abordar o maior número possível de fatos relevantes na geopolítica atual.

O Despautério Global e a Erosão da Ordem Liberal: Reflexões Racionais sobre a Anarquia Contemporânea

Por Paulo Roberto de Almeida (PRA),

psicografado por Madame IA.

Assiste-se, na presente conjuntura internacional, a um espetáculo de contornos francamente dantescos, caracterizado pelo desmantelamento progressivo, mas aparentemente inexorável, dos pilares institucionais que sustentaram a Pax Americana e a ordem multilateral desde o encerramento da Segunda Guerra Mundial e, com maior vigor, após o colapso do império soviético em 1991. Para um observador minimamente imbuído de espírito crítico, despido das lentes deformantes do voluntarismo ideológico e das paixões partidárias vulgares, o cenário geopolítico deste terceiro decênio do século XXI revela uma transição caótica em direção a uma anarquia hobbesiana, onde o direito internacional é reiteradamente sacrificado no altar do realismo bruto e do revisionismo autocrático.

Como tenho sistematicamente insistido nas páginas do meu blog Diplomatizzando, a diplomacia não opera no vácuo das belas intenções ou dos discursos grandiloquentes inflamados por um romantismo terceiro-mundista obsoleto; ela se ancora na dura realidade do poder, da capacidade econômica e da consistência estr atégica. O que testemunhamos hoje é a emergência de um "eixo revisionista" — composto proeminentemente pela Federação Russa, pela República Popular da China, pela teocracia obscurantista do Irã e pela dinastia aberrante da Coreia do Norte —, cuja finalidade precípua não é a reforma pactuada das instituições globais, mas sim a destruição deliberada dos valores ocidentais de liberdade individual, economia de mercado e império da lei (rule of law).

A Tragédia Ucraniana e o Desafio Revisionista do Kremlin:

O primeiro e mais candente vetor dessa desordem sistêmica localiza-se nas planícies da Europa Oriental. A agressão militar não provocada e plenamente ilegal da Rússia de Vladimir Putin contra a Ucrânia constitui o mais flagrante estupro do direito internacional e da Carta das Nações Unidas em solo europeu desde o fim do conflito mundial de 1939-1945.

Longe de ser um mero conflito territorial localizado, a guerra de atrito que se arrasta na Ucrânia representa um desafio existencial à arquitetura de segurança euro-atlântica. Putin, operando sob uma mística neo-czarista e ressentida, busca reverter o que ele próprio qualificou como "a maior catástrofe geopolítica do século XX": o desmoronamento da União Soviética.

O erro crasso de certas correntes analíticas, inclusive na academia e na diplomacia brasileira de inclinação "anticolonialista" de fancaria, reside em tentar equivaler o agressor e o agredido, recorrendo a piruetas retóricas sobre a expansão da OTAN. Ora, a expansão da Aliança Atlântica nunca foi um processo de anexação imperialista, mas sim uma busca voluntária, por parte das jovens democracias da Europa Central e Oriental, de um seguro de vida coletivo contra o tradicional expansionismo moscovita. A resistência heroica do povo ucraniano e o revigoramento da OTAN — que acolheu tardiamente, mas de forma acertada, a Finlândia e a Suécia em suas fileiras — demonstram que o Ocidente, apesar de suas hesitações internas e crises de liderança, ainda conserva a capacidade de se mobilizar em defesa da liberdade. Contudo, a fadiga material e política que se insinua nas capitais ocidentais coloca em risco a sustentabilidade dessa barreira de contenção à tirania russa.

O Dragão Asiático e a Armadilha de Tucídides:

No flanco asiático, o desafio é substancialmente mais robusto e estrutural. A China de Xi Jinping abandonou em definitivo o pragmatismo prudente de Deng Xiaoping — sintetizado na máxima de "esconder a capacidade e esperar o momento oportuno" — para adotar uma postura abertamente assertiva, quando não agressiva. A militarização do Mar do Sul da China, a asfixia definitiva das liberdades democráticas em Hong Kong e a retórica crescentemente belicosa em relação a Taiwan configuram um quadro de alta periculosidade para a estabilidade do Indo-Pacífico.

A China utiliza seu formidável poderio econômico e financeiro, magnificado por iniciativas de cunho nitidamente mercantilista e geopolítico como a Belt and Road Initiative (a Nova Rota da Seda), para criar laços de dependência assimétrica no Sul Global, transformando nações soberanas em satélites de seus interesses estratégicos. A ilusão de que a inserção da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 conduziria a uma liberalização política concomitante foi sepultada pelo fortalecimento de um capitalismo de Estado autoritário e tecnologicamente totalitário. O confronto multidimensional entre Washington e Pequim — que abrange desde a supremacia tecnológica em semicondutores e inteligência artificial até a dissuasão militar convencional — estabelece a polaridade dominante do nosso tempo, reeditando, sob vestes tecnológicas, a clássica Armadilha de Tucídides.

O Polvorinho do Oriente Médio e a Teocracia Persa: 

Ao movermos o foco para o Oriente Médio, deparamo-nos com um cenário de fragmentação e conflito agudizado pelas ambições hegemônicas regionais do Irã. A teocracia dos aiatolás opera como o principal fator de instabilidade na região, financiando, armando e coordenando uma rede de milícias e grupos terroristas que atuam como procuradores (proxies) de Teerã: o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen e várias facções xiitas no Iraque e na Síria.

O trágico ataque terrorista contra o Estado de Israel desencadeou uma reação em cadeia cujos desdobramentos continuam a ameaçar a segurança global e a estabilidade dos fluxos de comércio marítimo no Mar Vermelho. A resposta militar israelense, legítima em seu princípio de autodefesa, mas politicamente complexa e militarmente desgastante, evidencia a ausência de uma arquitetura regional de segurança sustentável. Os Acordos de Abraão, que representavam uma promissora via de normalização diplomática entre Israel e as monarquias sunitas do Golfo sob o signo do pragmatismo econômico, foram temporariamente colocados em banho-maria pela estratégia iraniana de sabotagem deliberada da estabilidade regional. O espectro de uma escalada nuclear por parte de Teerã paira como uma espada de Dâmocles sobre o sistema internacional, diante da fragilidade dos mecanismos multilaterais de monitoramento.

A Crise das Democracias Ocidentais e a Ascensão do Populismo:

Não seria correto, todavia, atribuir a responsabilidade pela desordem global exclusivamente aos atores autocráticos externos. A ordem liberal padece de graves enfermidades endógenas. Assistimos, nas próprias entranhas do Ocidente, a uma crise de legitimidade e de funcionamento das instituições democráticas, solapadas pelo flagelo do populismo de extração tanto esquerdista quanto direitista.

Nos Estados Unidos, a polarização política extrema e a persistência de correntes isolacionistas e transacionais no debate eleitoral enfraquecem a credibilidade das garantias de segurança americanas junto aos seus aliados tradicionais. Na Europa, a ascensão de partidos eurocéticos e xenófobos reflete o mal-estar de sociedades confrontadas com fluxos migratórios desordenados, estagnação econômica relativa e a incapacidade dos governos social-democratas ou democratas-cristãos tradicionais de oferecer respostas eficazes aos desafios da globalização. Uma civilização que duvida de seus próprios valores fundamentais — a tolerância, o debate racional, o pluralismo político e a liberdade de expressão — encontra-se em desvantagem intrínseca diante de regimes autocráticos que operam com a brutal coerção e o planejamento de longo prazo.

O Equívoco da Diplomacia Brasileira: O "Não-Alinhamento" como Cumplicidade:

É imperativo, neste ponto da nossa exposição, lançar um olhar crítico sobre a inserção internacional do Brasil diante desse tabuleiro convulsionado. A política externa brasileira recente tem capitulado, de forma lamentável, a um viés ideológico anacrônico, disfarçado sob o manto de uma suposta "autonomia pela diversificação" ou de um "não-alinhamento pragmático". Ao buscar uma equidistância imoral entre democracias consolidadas e ditaduras sanguinárias, a diplomacia brasileira apequena-se e trai as suas melhores tradições históricas, que sempre primaram pela defesa do direito internacional, da solução pacífica das controvérsias e do respeito aos direitos humanos.

A postura ambígua de Brasília em relação à agressão russa na Ucrânia, a condescendência inaceitável com a ditadura na Venezuela de Nicolás Maduro — que fraudou descaradamente o processo eleitoral para se perpetuar no poder —, e o alinhamento retórico automático com as narrativas do Sul Global que diabolizam o Ocidente revelam uma incompreensão profunda das dinâmicas reais do poder mundial. O engajamento acrítico no agrupamento BRICS, especialmente após a sua expansão para incluir países de credenciais democráticas nulas ou duvidosas, arrisca transformar o Brasil em linha de frente de um bloco antiocidental liderado por Pequim e Moscou. O verdadeiro interesse nacional de uma democracia ocidental, capitalista e pluralista como o Brasil reside na defesa e no fortalecimento das regras da ordem internacional liberal, e não na sua demolição em proveito de tiranos orientais ou caudilhos caribenhos.

Considerações Finais: A Necessidade de um Realismo Iluminista:

Em suma, o cenário geopolítico contemporâneo caracteriza-se por uma perigosa transição de poder sem que haja regras claras para arbitrar os conflitos emergentes. As Nações Unidas, paralisadas pelo direito de veto no Conselho de Segurança, converteram-se em uma arena de debates estéreis e impotência institucional. A governança econômica global, representada pelo G20, fragmenta-se em meio ao avanço do protecionismo, do nacionalismo econômico e das sanções unilaterais.

Para navegar nesse oceano de incertezas, faz-se mister abandonar as quimeras utópicas e o voluntarismo ingênuo. A preservação da paz e da prosperidade internacional exige o resgate de um realismo iluminista: o reconhecimento de que o poder deve ser equilibrado pelo poder, mas sempre sob a égide de valores universais que dignifiquem a condição humana. Sem a firme determinação das democracias ocidentais em defender suas sociedades abertas e suas instituições de mercado contra os assaltos do autoritarismo e da barbárie populista, o mundo arrisca mergulhar em uma nova Idade das Trevas geopolítica, onde a força bruta ditará o direito e a razão será silenciada pelo clangor das armas.

*Link:

https://share.google/aimode/WpgY5OkKRsvInAvFc

 

O Brasil tem, de verdade, alguma concepção estratégica credível sobre o mundo atual? - Paulo Roberto de Almeida sobre discurso do chanceler brasileiro

 

O Brasil tem, de verdade, alguma concepção estratégica credível sobre o mundo atual? 

 

Aparentemente NÃO.

Em recente discurso feito em Singapura (neste link), o chanceler Mauro Vieira conseguiu condenar as violações à ordem internacional, sem jamais indicar as fontes e os atores-autores dessas violações, como se elas viessem do ar, causadas por forças desconhecidas, não identificadas. Senão vejamos:

O que está em jogo agora não é a crise passageira de uma instituição, mas a própria ideia de que as relações entre os Estados devem ser regidas por regras, e não pela força. Violações à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão tornando-se a regra, e não a exceção.

O paralelo entre as crises do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia é claro. Como uma jovem nação democrática, reconstruída em 1985 após 20 anos de ditadura militar, o Brasil não pode deixar de levantar sua voz enquanto forças antidemocráticas buscam enfraquecer instituições e restringir liberdades em todo o mundo.”

Faltou dizer quem, qual país, quais “forças antidemocráticas” praticaram essas “Violações à soberania” e essas “intervenções unilaterais”.

Mas tem mais:

Como membro fundador do BRICS, o Brasil está firmemente convencido de que o grupo tem uma grande responsabilidade na conformação da ordem global para as próximas décadas. O BRICS, assim como o Brasil, é uma força de mudança positiva na política mundial.

Como dizer que o BRICS é “uma força de mudança positiva na política mundial” se um dos seus membros é o responsável único e direto pela guerra de agressão mais brutal e criminosa desde o final da segunda guerra mundial? Como explicar que o Brasil assinou as últimas declarações ministerial e presidencial do BRICS sem tocar nesse assunto, sem mencionar uma única vez a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia?

Existe, por outro lado, certa ingenuidade ou idealismo excessivo nesta afirmação: 

Somente um Conselho de Segurança ampliado, tanto em assentos permanentes quanto não permanentes, será capaz de cumprir plenamente sua responsabilidade primordial pela manutenção da paz e da segurança internacionais.”

O mais provável que que um CSNU ampliado tenha ainda mais dificuldade em encontrar soluções consensuais para as violações mais frequentes à paz internacional, que são aquelas justamente provocadas pelas duas maiores potências bélicas do planeta.

 Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5451: 9 de setembro  de 2026

 Link para o discurso: 

 https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/a-estrategia-global-do-brasil-em-um.html

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