quarta-feira, 25 de março de 2026

A ideia do interesse nacional: O papel da ferramenta diplomática - Paulo Roberto de Almeida (Portal Interesse Nacional)

 A ideia do interesse nacional – O papel da ferramenta diplomática

Paulo Roberto de Almeida

A ideia de interesse nacional, alicerçada na democracia e na inserção internacional, revela-se essencial para o Brasil definir seu papel no mundo. Políticas que fragilizam esses valores, como o protecionismo econômico e a diplomacia partidarizada, ameaçam o desenvolvimento, a credibilidade e a capacidade do país de avançar em meio a desafios globais
Presidente Juscelino Kubitschek lança a pedra fundamental do Palácio Itamaraty em Brasília, em setembro de 1960 (Fonte: Arquivo Público do DF)

The Idea of National Interest foi o título que o grande historiador americano Charles Beard deu a um livro que publicou em 1934, em plena crise econômica e no início do New Deal, o programa de recuperação impulsionado por Franklin Roosevelt.

O livro oferecia uma reflexão histórica de longo prazo sobre a construção do projeto nacional americano pela vertente das relações exteriores, tanto assim que o seu subtítulo era An Analytical Study in American Foreign Policy. Ele abre a obra citando um dos Secretários de Estado dos anos 1920, que havia se pronunciado sobre o interesse nacional na política externa nestes termos:

As políticas externas não são elaboradas sobre a base de abstrações. Elas são o resultado de concepções práticas do interesse nacional que emergem a partir de alguns requerimentos imediatos ou de fundamentos essenciais, em perspectiva histórica. Quando mantidas por bastante tempo, essas concepções expressam as esperanças e os temores, os objetivos de segurança e de engrandecimento, que se tornaram dominantes na consciência nacional, transcendendo, assim, divisões partidárias e fazendo com que se atenuem as oposições que poderiam advir de certos grupos. (Discurso do Secretário de Estado Charles Hughes em 30/11/1923)

É possível que essas ideias tenham inspirado o célebre cientista político Hans Morgenthau – autor do clássico Politics Among Nations, publicado em 1948, o mesmo ano da morte de Charles Beard – a elaborar um outro livro, chamado justamente In Defense of the National Interest (1951), seguido, no ano seguinte, de um artigo sobre o mesmo tema: “What Is the National Interest of the United States?” (The Annals of the American Academy of Political and Social Science, julho de 1952).

O livro de Morgenthau sobre o interesse nacional americano foi republicado em 1982, e talvez tenha animado o famoso jornalista Irving Kristol a dar início, em 1985, à revista The National Interest, apoiada nos mesmos princípios da escola realista, identificada com a expressão política, econômica e militar do poder americano em escala global, mas cujos fundamentos devem sempre ser construídos internamente.

‘Qual seria o interesse nacional brasileiro, e que tipo de políticas e orientações econômicas melhor serviriam à sua defesa e consolidação? Difícil dizer, já que existem concepções muito diversas do que seja o interesse nacional’

Pode ser também que essa mesma revista e sua ideia central tenham inspirado o embaixador Rubens Barbosa a lançar, em 2008, a revista Interesse Nacional, fundada em concepções similares sobre as bases internas da expressão internacional do Brasil. Qual seria, então, o interesse nacional brasileiro, e que tipo de políticas e orientações econômicas melhor serviriam à sua defesa e consolidação? Difícil dizer, já que existem concepções muito diversas do que seja o interesse nacional, como já dizia o próprio Beard em 1934.

O editor da revista brasileira se encarregou, aliás, de expressar tal dificuldade em sua nota de apresentação:

Sendo necessariamente genérica, a noção de interesse nacional não tem uma definição precisa. De um lado, porque, sobre o que seja concreta e especificamente o interesse nacional, haverá sempre visões não coincidentes, apoiadas em valores e/ou interesses diferentes. De outro, porque a definição do interesse nacional requer um juízo informado, mas sempre político e não estritamente técnico, sobre riscos e oportunidades que se apresentam à realização dos valores e interesses de um país em cenários estratégicos de longo prazo. E estes serão, sempre, objeto de incerteza e controvérsia. (revista Interesse Nacional, número inaugural: https://interessenacional.com.br/edicoes/edicao-1/)

Mas o editorial acrescentava logo em seguida: “O interesse nacional é, pois, uma construção política”, o que pode ser uma constatação óbvia, mas que não nos ajuda muito na busca por uma definição mais precisa sobre qual seria o interesse nacional brasileiro.

Conceda-se, pois, que diferentes grupos políticos, e diferentes agregações de poder, representados pelas forças políticas temporariamente predominantes no sistema de governança, manifestem concepções diversas do chamado interesse nacional, e que eles defendam, portanto, suas orientações particulares, ou partidárias, com base numa legitimidade supostamente construída nas urnas, a cada escrutínio eleitoral.

Na impossibilidade de se chegar a uma definição consensual de quais seriam as expressões efetivas do interesse nacional, talvez seja o caso de trabalhar com exemplos concretos do que com definições abstratas, como afirmou em 1923 o secretário de Estado Charles Hughes. Quais seriam, no caso brasileiro, as balizas mínimas sobre o que o país pretende ser como nação e como sociedade. É preciso saber o que se quer, para rejeitar o que não serve a tal fim.

O editorial da revista Interesse Nacional nos fornece, mais uma vez, alguns dos parâmetros que podem ser aplicados ao caso:

A democracia e a inserção internacional são parte do interesse nacional brasileiro, aquela como valor, esta como objetivo. Se a democracia é um valor que queremos preservar, e se a inserção internacional é hoje, mais do que nunca, uma condição do desenvolvimento, resta perguntar como se inserir no mundo para fortalecer a democracia e promover o desenvolvimento. (nota editorial da Interesse Nacional)

Se concordarmos com essa “plataforma”, democracia e inserção internacional passam a ser as palavras-chaves do interesse nacional brasileiro. Então, qualquer ação nacional que vise a diminuir as bases da democracia representativa, que constitui a forma atual da governança política no Brasil, seria contrária e prejudicial ao interesse nacional brasileiro, como, por exemplo, quaisquer tentativas de golpes continuístas.

Da mesma forma, qualquer política ou medida que obstaculize a integração da economia nacional aos circuitos internacionais da interdependência econômica pode ser considerada como contrária ao interesse nacional, na medida em que diminui nossa capacidade de absorção de know-how e de tecnologias de ponta que são essenciais ao processo de desenvolvimento do país.

O protecionismo comercial representa, nesse sentido, uma postura irracional do ponto de vista econômico, uma espécie de “stalinismo para os ricos”, ou um projeto de “capitalismo num só país” que talvez ainda encante os arautos da burguesia industrial introvertida e alguns acadêmicos ingênuos.

‘A democracia brasileira e a inserção internacional da nação vêm sendo, por exemplo, afastados de nosso horizonte de realizações históricas’

A democracia brasileira e a inserção internacional da nação vêm sendo, por exemplo, afastados de nosso horizonte de realizações históricas, quando o objetivo estratégico do Mercosul, alimentado pela diplomacia brasileira nos anos 1990, assim como o projeto de incorporação do Brasil à OCDE, inicialmente formulado na mesma época, permanecem em um indefinido compasso de espera, sem qualquer atuação diplomática efetiva em favor desses dois grandes objetivos, talvez não coincidentes, no momento, com concepções partidárias determinadas.

Charles Beard, no capítulo de seu livro dedicado à “interpretation, advancement, and enforcement of national interest”, dizia que “By far the most important means used to advance and enforce national interest is the ‘system’, or institution, of diplomacy” (p. 341). Ele se referia, exatamente, à administração e ao funcionamento das atividades diplomáticas, bem como à “multitude of services performed by diplomatic agents in behalf of the citizens” (p. 347), ou seja, a cobertura que um país é capaz de dar aos seus cidadãos e às empresas nacionais presentes nos mais diversos cantos do mundo.

‘A ferramenta da política externa brasileira tem custado muito pouco à nação e tem prestado grandes serviços ao seu desenvolvimento’

Nesse particular, a ferramenta da política externa brasileira tem custado muito pouco à nação (menos de 1% do orçamento da União na maior parte de sua história) e tem prestado grandes serviços ao seu desenvolvimento. Não obstante, o Itamaraty tem sido muito pouco requisitado a conceber e a empreender iniciativas concebidas para integrar o Brasil ao mundo, segundo um objetivo estratégico de interdependência econômica com as grandes democracias de mercado.

O embaixador Rubens Barbosa tem alertado, em seus muitos artigos no jornal O Estado de S. Paulo e no próprio portal da revista Interesse Nacional, sobre a marginalização da diplomacia profissional de alguns dos temas mais relevantes da política econômica externa do país, e até de algumas das grandes definições estratégicas relativas ao conflagrado ambiente atual de desmantelamento do multilateralismo político e econômico, sem solução imediata.

Ver a vocação tradicional da diplomacia brasileira para o exercício de uma plena autonomia decisória e imparcialidade diplomática em face de conflitos entre as grandes potências diminuída em função de escolhas pré-determinadas por interesses partidários de restrito alcance nacional, só pode atuar em detrimento da boa qualidade, do regular funcionamento e, sobretudo, da credibilidade e da respeitabilidade internacionais dessa ferramenta. Não parece, assim, ser a forma mais adequada de promover o interesse nacional.

É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil.

Colaboração com o portal Interesse Nacional: Esquema preliminar de colaborações (2025)

Colaboração com o portal Interesse Nacional

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Esquema preliminar de colaborações ao portal do embaixador Rubens Barbosa; possíveis temas e questões; com apenas duas páginas, uma vez por mês (2025)

1. Quais são os interesses nacionais? Suas variantes e principais elementos constitutivos
2. O Brasil e o mundo em 2025; quais são suas características mais importantes?
3. A economia mundial e o Brasil: qual nossa importância relativa?
4. Situação atual da política internacional: como ela afeta o Brasil?
5. Direitos humanos: quais são os principais desafios brasileiros?
6. Por que a América Latina não decola: alguma explicação plausível?
7. A marcha da integração na América do Sul: por que estacionou?
8. Cooperação internacional: como o Brasil se coloca nesse quesito?
9. Livre comércio: o Brasil vai algum dia aderir a essa ideia?
10. Distribuição de renda: pelos mercados ou pela ação do Estado?
11. Desigualdades e busca da equidade: quais os melhores caminhos?
12. O que os demais países poderiam ensinar ao Brasil?
13. Orçamentos públicos devem ser sempre equilibrados?
14. Por que o Brasil avança tão pouco: sumário das explicações possíveis
19. Como evoluiu a política externa brasileira no século XXI?
20. O que o Brasil pode oferecer ao mundo?

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4951, 13 junho 2025, 1 p.


Resenha – Celso Lafer: o pai fundador das relações internacionais no Brasil - Paulo Roberto de Almeida (revista Interesse Nacional)

Resenha – Celso Lafer: o pai fundador das relações internacionais no Brasil

Obra constitui um aporte fundamental para os estudiosos de diplomacia e de relações internacionais do Brasil, uma vez que reúne os relevantes escritos do mais importante intelectual desse campo, praticamente o fundador da disciplina no Brasil

Obra constitui um aporte fundamental para os estudiosos de diplomacia e de relações internacionais do Brasil, uma vez que reúne os relevantes escritos do mais importante intelectual desse campo, praticamente o fundador da disciplina no Brasil

Celso Lafer: Relações internacionais, política externa e diplomacia brasileira: pensamento e ação - Brasília: Funag, 2018, 2 vols., 1437 p.; lo. vol., ISBN: 978-85-7631-787-6; 762 p.; 2o. vol., ISBN: 978-85-7631-788-3, 675 p.; disponíveis na Biblioteca Digital da Funag; 1o volume ; 2o volume ).

Por Paulo Roberto de Almeida*

A obra em dois volumes reproduz meio século de ideias, reflexões, pesquisas, andanças e um exercício direto de responsabilidades à frente da diplomacia brasileira (em duas ocasiões, 1992 e 2000-2002) e, através dela, de algumas funções relevantes na diplomacia mundial, como a presidência do Conselho da OMC, assim como em outras instâncias da política global. Celso Lafer, professor emérito da USP, articulista consagrado, mestre de várias gerações de estudiosos de relações internacionais e de direito, esteve à frente de decisões relevantes em alguns foros decisivos para as relações exteriores do Brasil, na integração regional, no comércio mundial, nos novos temas do multilateralismo contemporâneo. A obra constitui um aporte fundamental para os estudiosos de diplomacia e de relações internacionais do Brasil, uma vez que reúne os relevantes escritos do mais importante intelectual desse campo, praticamente o fundador da disciplina no Brasil, com a vantagem de o autor ter sido o condutor da diplomacia brasileira em momentos significativos da história recente.

A trajetória intelectual do autor se confunde com a evolução dos estudos e da prática das relações exteriores do Brasil no último meio século, mas a obra reproduz apenas uma pequena parte de sua gigantesca produção acadêmica, profissional ou jornalística, deixando de integrar, por especialização temática nas áreas do título, uma outra parte essencial de suas atividades intelectuais, que cobrem os terrenos literário, cultural e mesmo de política doméstica. Percorrendo as páginas dos dois volumes é possível registrar alguns grandes nomes do estadismo mundial, com quem Celso Lafer interagiu ou conviveu ao longo dessas décadas. Ele discorre sobre líderes estrangeiros como Mandela, Shimon Peres, Koffi Annan, Antonio Guterres e, retrospectivamente, sobre o êmulo português do embaixador Souza Dantas, o cônsul Aristides de Souza Mendes, um justo entre os injustos do salazarismo. Dentre os diplomatas distinguidos do Brasil figuram os nomes de Saraiva Guerreiro e de Sérgio Vieira de Mello, para mencionar apenas dois. Comparecem vários colegas, intelectuais da academia ou da diplomacia, como José Guilherme Merquior, Sergio Paulo Rouanet, Gelson Fonseca Jr., Synesio Sampaio Goes, Rubens Ricupero, Gilberto Dupas, Celso Furtado, Miguel Reale, Fernando Henrique Cardoso, entre os brasileiros. Estudiosos estrangeiros aparecem sob os nomes de Karl Deutsch, Raymond Aron, Andrew Hurrell, Octavio Paz, Hans Morgenthau, Henry Kissinger e Raul Prebisch.

A decisão de compilar dezenas e dezenas de artigos dispersos, vários publicados em revista nem sempre disponíveis, partiu da própria Fundação Alexandre de Gusmão, e foi viabilizada pelo trabalho de revisão editorial do seu Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais.

Pronunciamento do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (Roque de Sá/Agência Senado)

Em seu conjunto, os dois volumes da obra, construídos ao longo de alguns meses de garimpo documental e de lapidação formal, a partir de uma mina repleta de pepitas preciosas que vinham sendo carregadas pelo fluxo heteróclito de publicações no decorrer de várias décadas, apresentam, finalmente, o que se espera seja uma obra de referência e uma contribuição essencial ao conhecimento da diplomacia brasileira e da vida intelectual em nosso país, a partir dos anos 1960 até aqui. Suas qualidades intrínsecas, combinando sólida visão global e um conhecimento direto dos eventos e processos que o autor descreve e analisa, representam um aporte fundamental a todos os estudiosos de diplomacia e de relações internacionais do Brasil, uma vez que reúne os relevantes escritos do mais importante intelectual desse campo, com a vantagem de Celso Lafer ter tido a experiência prática de conduzir a diplomacia brasileira em momentos significativos da história recente. As “questões polêmicas” da quarta parte reúnem alguns de seus artigos de jornal, nos quais exerceu um olhar crítico sobre a “diplomacia” implementada a partir de 2003, rompendo pela primeira vez a tradição secular da política externa brasileira, no sentido de representar o consenso nacional em torno dos interesses do país, para adotar o sectarismo míope de um partido que tentou monopolizar de forma canhestra (e corrupta) o sistema político.

Celso Lafer, herdeiro intelectual de grandes pensadores do século XX, combina destreza acadêmica e tino empresarial, que também já tinha caracterizado um de seus familiares, e antecessor à frente da diplomacia brasileira, seu tio Horácio Lafer, ministro da Fazenda e das Relações Exteriores na República de 1946. Celso Lafer construiu sua educação diplomática na observação direta do que foi feito por esse tio, antes como ministro da Fazenda do Vargas dos anos 1950, depois à frente do Itamaraty, numa segunda fase do governo JK.

A educação de Celso Lafer se fez, primordialmente, em intensas leituras e eventuais contatos, com grandes nomes do pensamento histórico, filosófico e político da tradição ocidental, desde mestres do passado remoto – Tucídides, Aristóteles, Grócio, Vico, Hume, Bodin, Hobbes Montesquieu, Kant, Tocqueville, Charles de Visscher e outros – até mestres do passado recente, inclusive alguns deles encontrados em carne e osso: Hans Kelsen, Carl Schmitt, Isaiah Berlin, Hanna Arendt, Norberto Bobbio, Raymond Aron, Hedley Bull, Martin Wight, Albert Hirschman, Stanley Hoffmann e muitos outros. Celso Lafer sempre foi um liberal doutrinal e filosófico, não obstante seu alinhamento pragmático com a socialdemocracia na política brasileira, no que, aliás, ele combina com um de seus mestres, o jurista e intelectual italiano Norberto Bobbio.

Mais de uma centena de textos comparecem nos dois volumes, organizados em cinco partes bem identificadas, embora algumas repetições sejam detectáveis aqui e ali. O conjunto dos escritos constitui, sem dúvida alguma, um completo curso acadêmico e um amplo repositório empírico em torno dos conceitos exatamente expressos no título da obra: Relações internacionais, política externa e diplomacia brasileira: pensamento e ação.

Os artigos, ensaios, conferências e entrevistas podem servir, em primeiro lugar, a todos os estudantes desses campos, não restritos, obviamente, aos próprios cursos de Relações Internacionais, mas indo ao Direito, Ciência Política, Filosofia, Sociologia, História, além de outras vertentes das Humanidades. Mas, os diplomatas profissionais e os demais operadores consolidados trabalhando direta ou indiretamente nessas áreas também encontrarão aqui um rico manancial de ideias, argumentos e, mais importante, “recapitulações” em torno de conferências, negociações, encontros bilaterais, regionais ou multilaterais que figuraram na agenda internacional do Brasil nas últimas décadas.

A diversidade de assuntos, inclusive em relação aos próprios personagens que aqui comparecem, em “diálogos”, homenagens, obituários ou relatos de encontros pessoais, possuem um inegável vínculo entre si, pois todos eles têm a ver, de perto ou de longe, com a interface externa do Brasil e com os voos internacionais do autor. Os textos não esgotam, obviamente, o amplo leque de interesses e de estudos do autor, que se estende ainda aos campos da literatura e dos assuntos culturais em geral, trabalhos que figuram em diversos outros livros publicados de Celso Lafer, vários monotemáticos e alguns na categoria de coletâneas, como por exemplo os três volumes publicados pela Atlas, em 2015, enfeixados sob o título comum de Um percurso no Direito do século XXI, mas voltados para direitos humanos, direito internacional e filosofia e teoria geral do direito. A sua produção variada, acumulada intensa e extensivamente em tão larga variedade de assuntos, permite o mesmo tipo de “assemblagem” ocasional efetuada na presente obra em dois volumes.

O percurso de Celso Lafer, no Brasil e no mundo, sua postura filosófica, de defensor constante dos direitos humanos e da democracia política, suas aulas na tradicional Faculdade de Direito (e em muitas outras conferências em universidades e várias instituições em incontáveis oportunidades), sua luta pela afirmação internacional do Brasil nos mais diversos foros abertos ao engenho e arte da diplomacia nacional, todos esses aspectos estão aqui refletidos em mais de uma centena de trabalhos carinhosamente reunidos sob a direção do próprio mestre e oferecidos agora ao público interessado. Não apenas o reflexo de uma vida dedicada a construir sua própria trajetória intelectual, esses textos são, antes de qualquer outra coisa, aulas magistrais, consolidadas numa obra unitária, enfeixada aqui sob a tripla dimensão do título do livro.

Mais do que uma garrafa lançada ao mar, como podem ser outras coletâneas de escritos dispersos oferecidos a um público indiferenciado, a centena de “mensagens laferianas” aqui reunidas constituem um útil instrumento de trabalho oferecido aos profissionais da diplomacia, ademais de ser uma obra de referência aberta à leitura dos pesquisadores, dos professores e dos estudantes dessas grandes áreas de estudos e de trabalho acadêmico. Ao disponibilizar essa massa de escritos da mais alta qualidade intelectual ao grande público, esta obra faz mais do que reunir estudos dispersos numa nova coletânea de ensaios conectados entre si: ela representa, também e principalmente, um tributo de merecido reconhecimento ao grande mestre educador que sempre foi, e continuará sendo, Celso Lafer.


* Paulo Roberto de Almeida é diplomata de carreira, doutor em ciências sociais pela Université Libre de Bruxelles, mestre em Planejamento Econômico pela Universidade de Antuérpia, licenciado em ciências sociais pela Université Libre de Bruxelles, 1975). Atua como professor de economia política no Programa de Pós-Graduação em direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub). É editor adjunto da Revista Brasileira de Política Internacional.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional. 

É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil

Prata da Casa, outubro 2018 janeiro de 2019; resenhas de livros dos diplomatas - Paulo Roberto de Almeida

Prata da Casa, outubro 2018 janeiro de 2019

Paulo Roberto de Almeida
(http://diplomatizzando.blogspot.com; pralmeida@me.com)

[Miniresenhas; Revista da ADB, Associação dos Diplomatas Brasileiros (ano XX, n. 99, outubro de 2018 a fevereiro de 2019; ISSN: 0104-8503)]

1) Christófolo, João Ernesto:
Princípios Constitucionais de Relações Internacionais: significado, alcance e aplicação (Belo Horizonte: Del Rey, 2019, 684 p.; ISBN: 978-85-384-0532-0)

Estudo absolutamente inédito na categoria dos estudos sobre o constitucionalismo brasileiro, pois enfocando, em mais de 650 páginas todos os princípios das relações internacionais do Brasil tal como inscritos na CF-88: independência nacional, prevalência dos direitos humanos, autodeterminação dos povos, não intervenção, igualdade entre os estados, defesa da paz, solução pacífica dos conflitos, repúdio ao terrorismo e ao racismo, cooperação entre os povos para o progresso da humanidade, concessão de asilo político. O trabalho é precedido por um estudo sistêmico e comparado dos princípios constitucionais de relações internacionais, assim como examina o tema no constitucionalismo brasileiro e sua construção na Assembleia Constituinte de 1987-88. O trabalho é impressionante pelo seu caráter exaustivo.

2) Barbosa, Rubens:
Um diplomata a serviço do Estado: na defesa do interesse nacional: depoimento ao Cpdoc (Rio de Janeiro: FGV Editora, 2018; 300 p.; ISBN: 978-85-225-2078-7)

Meio século de atividades diplomáticas – que ainda não terminaram – estão aqui reproduzidas, mediante o depoimento prestado pelo autor a Matias Spektor, no Cpdoc, consistindo numa descrição detalhada de sua participação nos temas mais relevantes da diplomacia brasileira desde meados dos anos 1960 até sua aposentadoria como embaixador em Washington, passando por chefia de divisões, chefia de gabinete (ministro Olavo Setúbal), representante junto à Aladi, coordenação do Mercosul e de temas econômicos e também embaixador em Londres. Agregam-se ao seu próprio relato depoimentos de colaboradores, como os diplomatas Eduardo Santos, Marcos Galvão e Paulo Roberto de Almeida. Seus arquivos já se encontram disponíveis na FGV-RJ, e comportam milhares de páginas abertas à pesquisa. Rubens Barbosa segue ativo.

3) Almeida, Paulo Roberto de (org.):
A Constituição Contra o Brasil: ensaios de Roberto Campos sobre a Constituinte e a Constituição de 1988 (São Paulo: LVM Editora, 2018; 448 p.; ISBN: 978-85-93751-39-4)

Estão aqui compilados 65 dos melhores artigos feitos pelo diplomata-economista, já na condição de Senador (pelo MT), constituinte derrotado na maior parte de suas propostas liberais e favoráveis à abertura econômica e integração do Brasil à economia mundial, precedidos por um ensaio do organizador, analisando o pensamento do grande estadista, e com um longo ensaio final destrinchando cada um dos dispositivos econômicos da Carta Magna. Incrível a capacidade premonitória de Roberto Campos ao antecipar que aqueles artigos generosos para todos e cada um acabariam inviabilizando um processo sustentado de crescimento econômico, ao comandarem o aumento contínuo dos gastos públicos; realista também sua postura contra o nacionalismo e o caráter intervencionista do Estado, tornando o Brasil um dos piores ambientes de negócios de todo o mundo.

4) Raffaelli, Marcelo:
Guerras europeias, revoluções americanas: Europa, Estados Unidos e a independência do Brasil e da América Espanhola (São Paulo: Três Estrelas, 2018; 380 p.; ISBN: 978-85-68493-54-0)

Uma história mundial das revoluções da independência das colônias ibéricas como nunca existiu na literatura publicada no Brasil, ou seja, no contexto internacional, desde 1792 (período do Terror na Revolução francesa, o que confirmava que não haveria retorno rápido às monarquias do passado), até 1828, quando finalmente termina a guerra entre Brasil e Argentina pelo pequeno Uruguai. A bibliografia confirma a manipulação de um número considerável de materiais primários e fontes secundárias, consultados diretamente nos National Archives e na Library of Congress, cuja maestria na seleção das melhores transcrições revela um historiador de altíssima qualidade. Já autor de um livro sobre as relações entre o Brasil e os EUA durante o Império (disponível na Biblioteca Digital da Funag), Raffaelli apresenta aqui uma história fascinante.

5) Villafañe G. Santos, Luís Cláudio:
    Juca Paranhos, o barão do Rio Branco (São Paulo: Companhia das Letras, 2018, 560 p.; ISBN: 978-85-359-3152-5)

Destinada a tornar-se clássica, depois dos precedentes de Álvaro Lins (1945) e Luiz Vianna Filho (1959), a biografia de Villafañe inova sobre os precedentes, ao retraçar, cuidadosamente, a vida privada, as dificuldades e as artimanhas do patrono da diplomacia brasileira, nas suas relações com a imprensa, no cuidado com o ambiente político do início da República, e basicamente sua mentalidade conservadora, no seguimento da longa dominação saquarema sobre a política imperial, seguida pelo sistema oligárquico das elites republicanas, apoiadas numa agricultura atrasada. As relações com as grandes potências e com a vizinha Argentina são especialmente estudadas, no contexto da geopolítica regional, numa fase de imperialismos europeus ainda agressivos. Os problemas familiares também são ressaltados adequadamente.

6) Lima, Sergio Eduardo Moreira; Farias; Rogério de Souza (orgs.):
A palavra dos chanceleres na Escola Superior de Guerra (1952-2012) (Brasília: Funag, 2018; 738 p.; ISBN: 978-85-7631-780-7; coleção Política externa brasileira)

Este pesado volume é uma obra de referência sobre a política externa brasileira ao longo de 60 anos, como o compêndio organizado por Seixas Corrêa para os discursos inaugurais do Brasil nas AGNU anuais, mas à diferença daqueles, o público aqui é interno, o que permite maior sinceridade e abertura sobre aspectos cruciais da diplomacia brasileira, tal como expostas pelos ministros na Sorbonne militar, aliás moldada segundo o National War College americano. A introdução, da lavra do historiador Rogério Farias, coloca esses discursos no contexto político nacional e no ambiente internacional a cada etapa dessa longa interação entre duas instituições que pensam o Brasil e contribuem para formar os tomadores de decisão. Do Vargas constitucional à presidente derrocada em 2016, uma memória da história diplomática.

7) Cardim, Carlos Henrique (editor):
Revista 200 do Grupo de Trabalho do Bicentenário da Independência (Brasília: Ministério das Relações Exteriores, n. 1, outubro-dezembro de 2018, 236 p.)

Excelente iniciativa do embaixador Cardim, enquanto coordenador adjunto desse GT, ao reunir materiais antigos e inéditos em torno de nossa história, cuja fase autônoma começa, na verdade, pelos debates nas Cortes de Lisboa, como retratado em sua capa. Um equilíbrio de estilos, de conteúdo altamente diversificado, esse número apresenta documentos históricos, análises de grandes historiadores do passado, ensaios do presente, por diplomatas e acadêmicos, colaborações de grande qualidade intercaladas por uma riquíssima iconografia, selecionada pelo exímio editor de revistas e livros que sempre foi Carlos Cardim. Ele sublinha que a revista está destinada a ser um “traço de união”, e destaca o papel fundador de Hipólito da Costa, aliás objeto de um ensaio de Paulo Roberto de Almeida, que o considera o “primeiro estadista do Brasil”.

8) Paiva, Maria Eduarda (editora-chefe):
Juca: diplomacia e humanidades (revista do curso de formação em diplomacia do IRBr, n. 10, 2018, 220 p.; ISSN: 1984-6800)

Em seu décimo aniversário, essa excelente revista dos alunos do Rio Branco apresenta um dossiê sobre os 30 anos da Constituição, aqui abordada por seus dispositivos econômicos, raciais e ambientais. Três entrevistas também dão o tom desse número: com o próprio chanceler Aloysio Nunes, com a deputada Benedita da Silva sobre a Constituinte e com o colega Silvio Albuquerque e Silva sobre os diplomatas negros. A memória diplomática tem matérias sobre Bertha Lutz, sobre as relações Brasil-EUA, a estratégia de Rio Branco na questão do Acre e as relações Brasil-Rússia em 1917. A editora-chefe traz um excelente artigo sobre o itinerário de Itaipu na tríplice relação com a Argentina e o Paraguai, na visão dos diversos diplomatas que se ocuparam da questão, desde Guimarães Rosa até Saraiva Guerreiro, passando por Gibson Barboza.

(9) Fortuna, Felipe:
O rugido do sol: poemas (Rio de Janeiro: Pinakotheke, 2018; 126 p.; ISBN: 978-85-7191-106-2)

Estes novos “poemas” de Felipe Fortuna se apresentam, antes de mais nada, como uma obra de arte visual. As aspas se justificam pois desde o Prefácio até a Lápide final (“Aqui giz”), esta talvez seja a obra mais rebuscada, stricto et lato sensi, de Felipe Fortuna, já autor de sete outros livros de poesia, três de crítica literária, dois de ensaios e duas traduções. O poema do título vem enclausurado numa bola escura, com duas páginas na cor vermelha, ressaltando o fogo da poesia, qual magma em fusão. Todos os poemas são construções gráficas, em letras maiúsculas, minúsculas, invertidas, tortuosas e torturadas, mas “o poeta pede desculpas” (p. 14) por apresentar brincadeiras com as palavras que nos obrigam a ler duas, três, quatro vezes, para apreciar essas troças com o leitor e consigo mesmo. Poesias curtas, telegráficas, mas todas altamente impactantes.

10) Lozardo, Ernesto:
OK, Roberto, você venceu: o pensamento econômico de Roberto Campos (Rio de Janeiro: Topbooks, 2018; 352 p.; ISBN: 978-85-7475-280-8)

O autor, ex-presidente do IPEA, não é diplomata, mas o sujeito de sua homenagem foi, certamente, um dos maiores estadistas do Brasil na segunda metade do século XX. Por racionalidade extrema, brigou muito com o Itamaraty, mas olhando retrospectivamente ganhou todas as partidas. Viu antes e mais longe que todos os diplomatas e bem mais que os homens públicos, mas perdeu a batalha em que se lançou desde cedo para tornar o Brasil uma nação próspera, por estupidez da maior parte dos dirigentes. A análise do pensamento econômico do homem que pensou o Brasil é complementada por depoimentos de personalidades que conviveram com ele: Fernando Henrique Cardoso, Henry Kissinger, Antonio Delfim Netto, João Carlos Martins e Ernane Galvêas. Campos foi uma grande referência na vida de Lozardo. Deveria ter sido de todos...

11) Merquior, José Guilherme:
    O Marxismo Ocidental (tradução Raul de Sá Barbosa; 1a edição; São Paulo: É Realizações, 2018, 352 p.; ISBN: 978-85-8033-343-5)

A edição original de Western Marxism é de 1985 e começa por uma cobrança ao próprio Marx, que teria, sem dúvida, como recomendado na undécima tese sobre Feuerbach, mudado a face do mundo, mas a sua interpretação desse mundo, na visão do maior intelectual diplomático brasileiro, foi intelectualmente insatisfatória. A obra parte do legado hegeliano e marxista, para depois dialogar com todos os marxistas ocidentais, desde Lukács e Gramsci até Habermas, passando pela Escola de Frankfurt, por Walter Benjamin, Sartre, Althusser e Marcuse. A obra vem enriquecida por depoimentos sobre o intelectual e sua obra, inclusive uma entrevista com o editor José Mário Pereira, e um importante arquivo de “fortuna crítica”, em torno dos debates que a obra suscitou desde seu primeiro aparecimento. Ela foi dedicada a um marxista brasileiro: Leandro Konder.

12) Temer, Michel:
    Brasil no mundo: abertura e responsabilidade: escritos de diplomacia presidencial (2016-2018) (Brasília: Funag, 2018, 409 p.; ISBN: 978-85-7631-791-3).

O presidente nunca foi diplomata, mas como foram os diplomatas de sua assessoria os responsáveis pela quase totalidade desses discursos, ao longo dos dois anos e meio do governo de transição, que retomou a diplomacia tradicional do Brasil, depois dos desvios lulopetistas, cabe registrar uma obra que marca, justamente, o retorno da política externa brasileira a padrões mais tradicionais de interação regional e mundial. São 68 discursos ou pronunciamentos ao longo de 30 meses, o que resulta em mais de dois discursos sobre temas internacionais por mês, desde as assembleias da ONU, as cúpulas regionais e as reuniões do Mercosul, até palestras para empresários, sem esquecer os temas bilaterais, ainda que mais reduzidos. Todos os grandes temas da diplomacia brasileira foram devidamente tratados por colegas competentes.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 20 de fevereiro de 2019

Chanceler acidental sofreu resistência dos diplomatas antes mesmo de tomar posse (19/12/2028) - (O Antagonista, Crusoé)

 Uma nota histórica (ou pré-histórica) 

Paulo Roberto de Almeida

Antes que o chanceler acidental tomasse posse, em dezembro de 2028, um grupo de diplomatas (obviamente não identificados) já se manifestava contra o submisso instrumento da política externa esquizofrênica do bolsolavismo diplomático, como relatado pelo Antagonista e pela revista Crusoé:

Crusoé, 20/12/2018; link: https://crusoe.com.br/diario/exclusivo-diplomatas-fazem-manifesto-em-defesa-do-itamaraty/

O Antagonista, 20/12/2018; link:
https://www.oantagonista.com/brasil/diplomatas-fazem-manifesto-contra-futuro-chanceler-de-bolsonaro/


Diplomatas fazem manifesto contra futuro chanceler de Bolsonaro

Brasil 20.12.18 18:32
Diplomatas da ativa e aposentados redigiram, sob anonimato, um manifesto "em defesa do Itamaraty" em que atacam Ernesto Araújo, informa Duda Teixeira em Crusoé...

Um manifesto em defesa do Itamaraty


Um grupo de diplomatas de diversas situações funcionais – da ativa e aposentados, de terceiros secretários a embaixadores, da Secretaria de Estado e de diversos postos no exterior – articulados em função de conhecimento pessoal, amizade de longa data, convivência ao longo dos anos e animados por um sentimento comum, decidem vir a público com vistas a externar sua desconformidade com os rumos preocupantes a que vem sendo levada a instituição para a qual fizeram concurso, em diferentes épocas, e à qual veem servindo, alguns desde décadas, outros há poucos anos, mas congregados por um sentimento comum de descontentamento, e até mesmo de repúdio, em função do cenário lamentável a que o Brasil e o próprio Itamaraty podem estar sendo conduzidos a partir da designação de um colega diplomata manifestamente despreparado para assumir o cargo de ministro de Estado das Relações Exteriores.
Vários dos que assinamos, apenas virtualmente, este manifesto, conhecemos pessoalmente esse diplomata, trabalhamos com ele, em épocas e postos diversos, e confessamos nossa apreciação por um profissional que sempre apresentou-se como um correto funcionário do Serviço Exterior do Brasil, que sempre foi invariavelmente correto e cordato no desempenho de suas funções, mas também confessamos nossa total surpresa com o conjunto de declarações ou escritos sob responsabilidade do eventual futuro chefe da diplomacia brasileira, uma vez que tais expressões de suas crenças e orientações não condizem em nada com o que acreditamos deva ser uma diplomacia correta, consensual, isenta de intromissões religiosas, desprovida de desvios políticos e de preconceitos ideológicos, que acreditamos devam estar completamente afastados do exercício da diplomacia do Brasil.
O fato de não assinarmos esta declaração se prende à convicção de que aqueles dentre nós que ainda estão ativos na carreira poderiam vir a sofrer retaliações indevidas no exercício de suas funções, algumas destas em nível de chefia, em diversos escalões, e também porque acreditamos que tal declaração não deveria existir, dados os critérios de profissionalismo que regulam nossa vida funcional. Apenas fomos levados a fazê-la dada a gravidade, para não dizer o ridículo, de algumas das manifestações do designado, que nos constrangem profundamente, quando não ofendem ao próprio Brasil, em vista do absurdo de algumas delas, misturando preconceitos que são completamente alheios à atividade diplomática e sentimentos pessoais, de natureza religiosa, que são estranhos à representação externa de um país secular, religiosamente diversificado, formado por um cadinho multirracial de povos das mais diversas origens, historicamente tolerante com as mais diversas manifestações políticas, tolerante no plano cultural e aberto as todas as ideias que se vinculam às nossas tradições democráticas e humanitárias.
Pelas manifestações já exaradas por esse colega diplomata, estamos apreensivos quanto à credibilidade internacional do Brasil em face de declarações que contrariam diversos valores e princípios que sempre caracterizaram a política externa do país e o exercício de sua diplomacia profissional. Não nos sentimos representados nem por tal colega, nem partilhamos das ideias que ele vem manifestando – aliás até de forma eticamente irresponsável desde a campanha eleitoral presidencial –, acreditando mesmo que as posições consensuais que o Brasil sempre defendeu em diversos foros internacionais, se substituídas pelas orientações maniqueístas, em certo sentido até fundamentalistas, por ele defendidas, que poderão vir a ser rejeitadas por grande número de parceiros com os quais trabalhamos tradicionalmente, quando não expostas ao ridículo de serem destoantes de tudo o que o Brasil sempre defendeu nesses foros.
Manifestamos, ainda que silenciosamente, nossa total desconformidade com essa designação esdrúxula a diversos títulos.
Somos numericamente pouco numerosos, neste momento, em função das circunstâncias que nos fizeram intercambiar cautelosamente e sigilosamente estas nossas ideias e posições, mas acreditamos que elas representam o sentimento de um conjunto bem mais amplo de colegas, que por respeito a práticas consagradas na Casa de Rio Branco, não pretendem expor-se diretamente no presente momento. Se outras fossem as condições, este manifesto acolheria, provavelmente, a aprovação quase unânime do Itamaraty.
Pretendemos manter nossas identidades preservadas no presente momento, mas o que nos leva a expressar publicamente, ainda que anonimamente, este manifesto é a convicção de que representamos a verdadeira força moral da Casa de Rio Branco, que nunca pretendeu trabalhar por partidos ou bancadas, apenas a serviço do Estado, pelo Brasil.

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Nota final: Apenas por honestidade, eu (PRA) não participei da redação desse manifesto. Eu já vinha fazendo criticas, formulando objeções bem antes, e publicando em meu blog Diplomatizzando, o que posso provar.

Prata da Casa - Boletim ADB: 1ro. trimestre 2013: Rubens Antonio Barbosa: Interesse Nacional & Visão de Futuro - resenha de Paulo Roberto de Almeida

 Prata da Casa - Boletim ADB: 1ro. trimestre 2013

Paulo Roberto de Almeida
Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros
(ano 20, n. 80, janeiro-fevereiro-março 2013, p. xx-xx; ISSN: 0104-8503)

1) Rubens Antonio Barbosa: Interesse Nacional & Visão de Futuro (São Paulo: Sesi-SP Editora, 2012, 328 p.; ISBN: 978-85-8205-059-0)

Nada do que é nacional, e do que é internacional, lhe é indiferente, ou seja, quase tudo. Consistente com o suposto de que, em face de tendências nefastas ao pensamento único, vindas de certas áreas, quem tem algo a dizer deve justamente se manifestar, o ex-embaixador na Aladi, em Londres e em Washington vem se expressando continuamente nas páginas do Estadão e do Globo desde que deixou a diplomacia ativa. São 76 artigos de jornal, mais quatro entrevistas e dois depoimentos no Senado, sobre a (des)ordem econômica global, o comércio exterior brasileiro, a política externa, a integração e o Mercosul, bem como sobre assuntos de defesa nacional. Um panorama importante do que vem ocorrendo nos governos Lula e Dilma, sempre sob a perspectiva do “Interesse Nacional”, que é, aliás, o nome da revista que ele edita desde 2008. Que fôlego!
(...)

Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade - Paulo Roberto de Almeida (Revista CNT Transporte Atual)

Uma entrevista a um jornalista da revista CNT Transporte Atual (ano xxxii, n. 356), sobre o acordo Mercosul-UE, publicada apenas parcialmente. Publico no blog Diplomatizzando a íntegra das minhas respostas ao jornalista Gustavo Falleiros, meu ex-aluno do Mestrado em Direito no Uniceub.
5214. “Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade”, Brasília, 12 fevereiro 2026, 7 p. Respostas a questões colocadas por Gustavo Falleiros, editor da revista da CNT. Publicado parcialmente na revista CNT Transporte Atual (ano xxxii, n. 356, março 2026, p. 57; link: https://www.cnt.org.br/revista-cnt ;
Divulgado integralmente no blog Diplomatizzando (25/03/20226; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/acordo-mercosul-uniao-europeia-questoes.html )

Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor
Respostas a questões colocadas por Gustavo Falleiros, editor da revista da CNT.
Publicado parcialmente na revista CNT Transporte Atual (ano xxxii, n. 356, março 2026, p. 57; link: https://www.cnt.org.br/revista-cnt). Divulgado integralmente no blog Diplomatizzando (25/03/20226; link: ). Relação de Publicados n. 1628.


1. Antes de tudo, o senhor poderia nos informar sobre a real estatura do que foi assinado em 17 de janeiro. É algo que impressiona, pelo tamanho ou pelas possibilidades, ou é mais modesto? Ainda demorará muito a produzir efeitos, dada a complexidade do processo de internalização dos termos por cada Estado Parte?


        PRA: O acordo é complexo, ambicioso, e coroa um relacionamento de praticamente 30 anos entre os dois blocos, como eu já estudei num longo artigo terminado ainda antes da assinatura definitiva do acordo: “Mercosul e União Europeia: a longa marcha da cooperação à associação”, Brasília, 4829: 18 janeiro 2025, 21 p. Revisão e atualização do trabalho 4322 (15 fevereiro 2023), para submissão, em 18/01/2025, à revista Monções, Revista de Relações Internacionais da UFGD; não publicado por exigências de revisão. Disponibilizado via Academia.edu (12/2025): https://www.academia.edu/145502682/4829_Mercosul_e_Uniao_Europeia_a_longa_marcha_da_cooperacao_a_associacao_Mercosur_and_European_Union_the_long_march_from_cooperation_to_association_Mercosur_y_Uni%C3%B3n_Europea_la_larga_marcha_de_la_cooperaci%C3%B3n_a_la_asociaci%C3%B3n_2025_ ); blog Diplomatizzando (21/12/2025; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/mercosul-e-uniao-europeia-longa-marcha.html).
        Trata-se de um tema que eu venho seguindo praticamente desde o início, como aliás revelado no artigo acima citado. Outros trabalhos meus podem ser conferidos nesta lista também divulgada em meus canais de informação: “Lista atualizada de trabalhos sobre o Mercosul e a integração regional”, Brasília, 5034: 18 agosto 2025, 33 p. Atualização da lista 4655, de 06/05/2024, incorporando os trabalhos ulteriores. Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/143507026/5033_Lista_atualizada_de_trabalhos_sobre_o_Mercosul_e_a_integracao_regional_2025_); informado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/08/lista-atualizada-de-trabalhos-sobre-o.html).
        Se ele demorou tanto tempo para ser definitivamente assinado, a despeito de ser relevante no plano das relações comerciais do Brasil e do Mercosul, bem como para a inserção econômica internacional do bloco e a de seus países membros, a “razão” está justamente no fato de que a diplomacia lulopetista, por preconceito anacrônico e irracional contra o “imperialismo americano”, sabotou (até implodir) o processo negociador da Área de Livre Comércio das Américas, proposto pelo governo Bill Clinton em dezembro de 1994, na cúpula das Américas em Miami, recusada pelos petistas por implicações puramente ideológicas, o que ocorreu na cúpula de Mar del Plata, em novembro de 2005, por pressão conjunta de Lula, de Chávez e de Kirchner.         Retirada a “concorrência” americana, pelo mercado do Mercosul, os europeus contiveram seu entusiasmo e o assunto se arrastou durante 20 anos, até que a guerrilha comercial entre os EUA e a China, desde o primeiro mandato de Trump, induziu novamente a UE e o Mercosul a retomarem as negociações finais. Uma primeira versão do acordo tinha sido finalizada em Bruxelas, em junho de 2019, mas ficou carente de apoio europeu desde as primeiras horas, basicamente em função das políticas antiambientais de Bolsonaro e seu total desprezo pelo multilateralismo, assim como por outros componentes essenciais da associação entre Mercosul e União Europeia, nos terrenos sociais e de direitos humanos.
        O acordo é importante, mas o fato de intervir mais de duas décadas após os primeiros acenos recíprocos por essa interação entre os dois blocos deixa de lado alguns importantes desenvolvimentos (não só comerciais) ocorridos no sistema econômico internacional desde o início do século, notadamente a acessão da China ao Gatt-1994 e pela sua inserção no sistema multilateral de comércio, ademais de novos fenômenos no espectro mais amplo da economia mundial, como a enorme ascensão da Ásia Pacífico ao primeiro plano dos grandes intercâmbios mundiais. Isso é particularmente verdade para o Brasil, que tem na China o seu principal parceiro comercial desde 2009, com a qual existe um turnover comercial superior ao que existe com os dois outros principais parceiros, isto é, Estados Unidos e União Europeia justamente.
        Ele é relevante, e quando foi assinado definitivamente, em dezembro de 2025 na capital paraguaia, foi anunciado como o maior acordo comercial do mundo, pelas suas dimensões de população, de PIB e de comércio conjuntamente, apenas para ser suplantado, um mês depois, pelo acordo concluído entre a UE e a Índia, também em virtude do novo protecionismo americano. O protecionismo é, aliás, uma pedra no sapato desses dois mega-acordos, como em geral em diversos outros acordos do mesmo tipo entre diferentes países ou blocos. Depois da década otimista com a globalização, na implosão do socialismo e na integração dos ex-países socialistas à OCDE, à própria UE e a outros esquemas existentes nos planos econômico e político (Otan, por exemplo), os países reverteram o processo, primeiro conduzindo uma “desglobalização” moderada, depois retrocedendo ao near-shoring, ou mesmo à produção puramente doméstica, sobretudo depois da pandemia e dos problemas revelados com a segurança no abastecimento interno de materiais críticos.
        O acordo Mercosul-UE, por mais relevante que ele possa ser para a economia de ambos os blocos, não deixa de “pagar um imposto” às forças protecionistas internas de cada um deles, geralmente no terreno da produção primária (agricultura e pecuária) do lado europeu, e no da indústria e serviços no caso dos países do Mercosul (sobretudo da parte dos dois grandes, Brasil e Argentina). Assim, restrições continuam a existir, assim como cláusulas especiais de proteção, em caso de “desequilíbrio nas trocas”, o que é naturalmente esperado quando se colocam na linha de frente assimetrias produtivas e diferenças de competitividade em virtude das dotações naturais e adquiridas de cada um dos lados.
        Em decorrência desses “cuidados protecionistas” o acordo tardará certo tempo – pelos prazos de phasing-out e outras disposições retardatárias e quantitativamente limitadoras – para produzir efeitos plenos nos terrenos da abertura econômica e da liberalização comercial, que podem continuar limitadas em diversas áreas. Quando os prazos vierem finalmente a termo se poderá verificar que as condições de mercado se terão alterado em algumas áreas de maneira significativa, em virtude, por exemplo, de pressões competitivas vindas da Ásia Pacífico.

2. Quando cobri este assunto em 2019 (tratado de associação), falava-se muito em impulso ao agro brasileiro. Desta vez, ouço que itens brasileiros de valor agregado podem ter melhor desempenho. É isso mesmo? Nesse caso, nossa combalida indústria poderá florescer em alguns segmentos?

        PRA: Existem diferenciais de competitividade nos diversos setores da economia de cada parte, tanto na agricultura, quanto na indústria e nos serviços, e isso não se dá apenas pelos efeitos macro dos termos do acordo, mas em virtude das capacidades micro de cada ramo econômico e, por vezes, de cada unidade produtiva nos diversos países. A indústria brasileira, talvez mais do que a da Argentina, poderá também se beneficiar em setores específicos, mas muito vai depender da modernização e incorporação de novas tecnologias e capitais vindas da Europa, ou até de outros países, como a China, por exemplo, que já passou de simples comerciante principal com o Brasil, para uma das principais potências investidoras em muitos ramos de nossa economia.

3. No longo prazo, fala-se em “integrar cadeias de valor”. Não é um objetivo demasiado ambicioso?


        PRA: Aparentemente sim, tendo em vista que o Brasil é um país ferozmente protecionista praticamente desde os tempos coloniais, mas sobretudo desde o segundo reinado e intensamente durante todo o período republicano, quando os principais vetores da industrialização tardia foram o fechamento do mercado e o protecionismo explícito e implícito. O Brasil foi o campeão absoluto em tarifas altas durante toda a história da nação independente, preservando ainda tais características, a despeito de algumas reformas comerciais nos últimos 40 anos, em especial devido ao Mercosul, precisamente. O Brasil, o Mercosul e outros países da América do Sul estão singularmente ausentes dos “mapas” de cadeias de valor existentes em outras partes do mundo, e as poucas existentes se devem justamente aos investimentos estrangeiros diretos em setores notoriamente associados a esses investimentos, como a indústria automotiva, a eletrônica e poucas outras.
        Uma das principais virtudes desse acordo seria justamente estimular e concretizar a inserção de empresas do Mercosul em cadeias internacionais de valor, e não apenas as europeias, pois elas tendem geralmente a ser multinacionais em sua essência. O fator principal seria que a condução das etapas seguintes da entrada em vigor do acordo inter-blocos seria fazer com que ele transbordasse dos simples intercâmbios comerciais, para associações empresariais visando os mercados globais, não apenas os recíprocos.

4. O que podemos esperar em termos de cooperação técnica e transferência de tecnologia? E ainda, de controle fitossanitário e boas práticas ambientais?


        PRA: Cooperação técnica, controle fitossanitário e práticas ambientais dependem, talvez, dos governos e dos administradores do acordo, mas transferência de tecnologia é um catch-word para acesso a tecnologias de ponta, o que depende basicamente de iniciativas no plano micro, isto é, puramente privadas, portanto empresariais. Esse aspecto depende essencialmente das próprias empresas abertas às interações recíprocas.

5. O factsheet divulgado retrata o acordo como um contraponto ao “crescente protecionismo e unilateralismo comercial”. Esse acordo tem o dom de despertar esse tipo de esperança? O senhor poderia falar um pouco sobre o contexto anterior, que envolvia a Alca?

        PRA: O acordo representa, de fato, uma resposta, ao desmantelamento do sistema multilateral de comércio protagonizado pelo atual presidente americano, unilateralista ao extremo. O protecionismo parece ser uma “virtude” partilhada por setores menos competitivos em várias regiões do mundo e existe em variadas circunstâncias em quase todos os países do mundo, menos impulsionado por governos específicos e mais por lobbies setoriais – da indústria, agricultura, serviços – que existem em consonância com a união do poder econômico com interesses políticos, o que viabiliza certos poderes regulatórios, geralmente existentes no parlamento, que nas democracias se rendem ao protecionismo por pressão desses interesses corporativos. O unilateralismo comercial pode existir nas grandes economias, as únicas em condições de impor suas regras a um número amplo de países, seja no âmbito do sistema multilateral de comércio (Gatt-OMC), seja diretamente nas relações comerciais à margem desses acordos amplos.
        A Alca encarnava ambos os aspectos das políticas comerciais dos grandes atores da economia mundial: foi uma oferta do governo americano sob Bill Clinton, em 1994 (mas partia da Iniciativa das Américas de George W. Bush, em 1990), que visava o livre comércio nas Américas, pela via das negociações de boa fé e a conclusão de um acordo abrangente. Não pôde ser concluído pela sabotagem de três líderes antiamericanos, nacionalistas e protecionistas: Lula, Chávez e Kirchner. Não teria sido um acordo perfeitamente igualitário, em direitos e obrigações (dado o grande poder intrínseco dos EUA), mas teria sido, se concluído, um bom exercício de globalização administrada no hemisfério, e teria também oferecido a oportunidade, à União Europeia, de competir, do seu lado, oferecendo condições tão “vantajosas” quanto as da Alca, para não perder um mercado tão relevante para suas empresas quanto o da América Latina. Infelizmente, não foi o caso, e por causa de três antiamericanos anacrônicos, o hemisfério perdeu uma dupla oportunidade de figurar entre as regiões de maior inserção econômica mundial, competindo com a Ásia Pacífico. Ou seja, a ignorância, o preconceito ideológico e o antiamericanismo primário impediram um primeiro exercício, certamente difícil na prática, não necessariamente equânime em vantagens e obrigações, mas interessante, de globalização econômica quando isso ainda podia ser feito. Perdeu-se, e essa chance não vai voltar mais.

6. Da parte do Mercosul, que tipo de dever de casa precisa ser feito para o bloco ser funcional (Brasil x Argentina)?


        PRA: Existem dezenas de coisas que os países membros deveriam fazer para viabilizar o bloco do Mercosul, se isso ainda pode ser feito, o que é duvidoso no momento atual e nos próximos anos. Os países deveriam simplesmente tratar de colocar em vigor as obrigações do Tratado de Assunção que estão no Artigo 1º: zona de livre comércio efetiva, sem maiores restrições, uma união aduaneira efetiva e funcional, sem as exceções nacionais que fazem da TEC uma colcha de retalhos, e sobretudo os requerimentos da convergência macroeconômica e nas políticas setoriais, o que parece impossível nas circunstâncias atuais. Brasil e Argentina são os maiores “pecadores” nessas muitas inadimplências, e não parecem existir condições para que os dois grandes se entendam numa agenda de reconstrução do Mercosul.
        A opção seguinte seria a preparação de uma conferência diplomática, com vistas a fazer o Mercosul retroceder a uma simples zona de livre comércio, o que já é difícil, na prática, e não se sabe se o acordo inter-regional com EU sobreviveria a essa mudança. Em suma, o cenário de futuro imediato e mediato (ou de médio prazo) para o Mercosul permanece indefinido, sobretudo em virtude do acordo de livre comércio entre a Argentina de Milei e os EUA de Trump (que não se sabe se será efetivamente implementado). Esse acordo “bilateral”, puramente político, mas com efeitos econômicos e comerciais, contrariando a postura pelo menos formalmente mercosuliana do Brasil, promete ter algum impacto dentro e fora do bloco do Mercosul.

7. O senhor enxerga alguma implicação do acordo para a cadeia logística global, por exemplo, alterando o fluxo de contêineres (chineses hoje têm preferência de rotas) ou reduzindo certas dependências (componentes eletrônicos, chips, certos minérios etc.)?

        PRA: A China já é a grande parceira da América do Sul e dos seus principais países, e o acordo pode afetar alguns ramos industriais, que é onde essa interface intervém, mas não mudará a atratividade da China para as exportações agropastoris do Brasil e da Argentina, sem contar investimentos do gigante asiático na exploração dos grandes recursos naturais dos dois países. O acordo UE-Mercosul será uma pequena concorrência aos fortes laços existentes com a China, mas tudo se jogará nos demais aspectos de integração industrial, de extração mineral, de acordos de financiamento. Difícil prever todas as consequências, em virtude do caráter errático das políticas comerciais dos grandes atores, como impulsionado pelo unilateralismo comercial dos EUA sob Trump: não sabemos se haverá uma reversão depois que ele se for.

8. Algo importante ficou descoberto?

        PRA: Sim, as implicações do acordo de “livre comércio” da Argentina de Milei com os EUA de Trump: ainda não sabemos suas implicações efetivas e reais, sobretudo em termos de rompimento com a cláusula de nação mais favorecida e o total abandono das regras de política comercial estabelecidas no âmbito do sistema multilateral de comércio e seus efeitos sobre acordos existentes: o do próprio Mercosul (TA) e o que deve entrar em vigor entre este e a UE.
Muitos outros aspectos permanecem no limbo, pois o cenário atual do comércio mundial pode mudar pelo efeito de medidas políticas adotadas pelos EUA e outros grandes parceiros.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5214: 12 fevereiro 2026, 7 p.
1628. “Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade”, Brasília, 12 fevereiro 2026, 7 p. Respostas a questões colocadas por Gustavo Falleiros, editor da revista da CNT. Enviado via WhatsApp. Publicado na revista da CNT (vol. xxxii, n. 356, março 2026, p. 57). Relação de Originais n. 5214.









Mensagens presidenciais do regime militar (Geisel e Figueiredo, 1975-1985) - Paulo Roberto de Almeida (Interesse Nacional)

Mensagens presidenciais do regime militar (Geisel e Figueiredo, 1975-1985) – A diplomacia profissional no seu momento de apogeu

Paulo Roberto de Almeida

Interesse Nacional, 25/03/2026

https://interessenacional.com.br/portal/mensagens-presidenciais-do-regime-militar-geisel-e-figueiredo-1975-1985-a-diplomacia-profissional-no-seu-momento-de-apogeu/

De forma geral, as ambiciosas diretrizes de política externa dos governos Geisel e Figueiredo, conduzidas operacionalmente pelos chanceleres Azeredo da Silveira e Saraiva Guerreiro, com o concurso conceitual e prático de brilhantes diplomatas, expressam a consistência e a continuidade de padrões de excelência aperfeiçoados ao longo de décadas nessa área estratégica para o desenvolvimento nacional, numa linha apartidária e pragmática que deita raízes nos ensinamentos e doutrinas de grandes representantes e pensadores das relações internacionais do Brasil

Geisel transmite a faixa presidencial ao seu sucessor, general João Baptista Figueiredo (Foto: CPDOC JB)

Assim como ocorreu no governo Médici, a gestão de Ernesto Geisel (1974-1979) foi dominada por dois temas essenciais: a repressão ao chamado “terrorismo”, ou seja, os movimentos armados que combatiam o regime militar, já bastante enfraquecidos desde o governo anterior, e a decisão, fortemente impregnada de intervencionismo estatal, de levar adiante, contra ventos e marés (da economia internacional, sobretudo), os ambiciosos planos de crescimento econômico, de conformidade com sua visão “bismarckiana” do processo de desenvolvimento, von Oben, ou pelo alto.

Na primeira “tarefa”, Geisel foi impiedoso, mandando eliminar até os “pacíficos” membros do Partidão, o histórico PCB, que teve vários de seus dirigentes vivendo na clandestinidade eliminados pela máquina de repressão do regime. Na segunda missão, ele legou um grau de estatização na economia nacional que perdurou por décadas, e até serviu de paradigma para outros governos intervencionistas. 

‘Geisel decidia, ele mesmo, quais iniciativas tomar em política externa, inclusive contrariamente, por vezes, às sugestões do Itamaraty’

À diferença, porém, de Médici que enviou cinco mensagens parcas, ao extremo, em exposições mais detalhadas sobre as atividades governamentais, em especial na política externa, aquelas preparadas sob a gestão do penúltimo ditador do regime foram copiosas na descrição das políticas e medidas ativistas, com destaque, precisamente, para a política externa, conduzida por uma diplomacia excepcionalmente ativa, sob a direção do chanceler Azeredo da Silveira. Geisel decidia, ele mesmo, quais iniciativas tomar em política externa, inclusive contrariamente, por vezes, às sugestões do Itamaraty, como no caso do famoso “voto sionista” na ONU, que equiparou o sionismo ao racismo (postura revogada mais tarde).

 Concretamente, as mensagens continham relatórios relativamente abrangentes das políticas governamentais, em curso ou planejadas, mesmo se concentradas igualmente no binômico “desenvolvimento com segurança”, mas a política externa ascendeu com atenção redobrada, já em 1975, como revelado nestes poucos exemplos, inclusive pelo tom pessoal adotado na mensagem, compatível com sua postura de estadista: 

A POLÍTICA EXTERNA [em maiúsculas no original] praticada pelo Governo merece particular registro.

Desde os primeiros dias declarei que ela deveria ser construtiva, pragmática, responsável e ecumênica. 

A essas diretrizes de conduta, ajuntei que as prioridades para a ação diplomática se orientariam com vistas à expansão econômica e ao progresso social do país, salientando as responsabilidades especiais do nosso relacionamento com as nações vizinhas de aquém e de além-mar. (…)

Sobre a base de compromissos inequívocos de respeito mútuo e não-ingerência, estabelecemos relações diplomáticas com a República Popular da China, país com o qual já iniciamos promissor intercâmbio no plano comercial. (…)

Por outro lado, adotamos posições explícitas quanto à situação no Oriente Médio, declarando-nos contrários à ocupação territorial pela força e prestando nosso apoio aos reclamos do povo palestino, no sentido da autodeterminação e de sua soberania. Assim fazendo, fundamo-nos no melhor da tradição diplomática brasileira e nos precedentes de nossa posição original sobre o assunto.

Sem sombra de dúvida, nossa diplomacia vem prestando concurso apreciável à consecução dos objetivos de desenvolvimento, além de projetar o Brasil, no exterior, de maneira marcadamente positiva, como interlocutor válido das nações mais influentes na condução dos problemas cruciais do momento. (p. 183-84)

Em 1978, novamente, a política externa volta a ocupar lugar de destaque na mensagem encaminhada ao Congresso, com nada menos de sete densas páginas (num total de 16), com questões externas sendo ainda tratadas nas seções econômica e financeira. 

Menciona-se, por exemplo, o acordo nuclear com a Alemanha, objeto de intensas pressões por parte dos Estados Unidos, assim como a visita de Rosalynn Carter, esposa do presidente americano, mas sem mencionar as divergências a respeito dos direitos humanos ou a denúncia do acordo bilateral de assistência militar, ambas ocorridas em 1977. 

Da mesma forma, a última mensagem de Geisel, de 1979, mas correspondendo ao ano anterior, também foca em diferentes questões na área externa, voltando à baila o conceito de “diplomacia pragmática, responsável e ecumênica”, mas com o cuidado de “evitarmos alinhamentos automáticos” (p. 233). Tampouco se evitou de falar da questão da “atualização e dinâmico reajustamento” nas relações com os EUA, “dentro de um espírito de amizade e franqueza”: 

É natural que o crescimento da presença internacional do Brasil seja acompanhado por dificuldades em nosso relacionamento, até com países que nos são próximos. Por isso mesmo, o Governo procurou dispensar, às complexas relações que mantemos com os Estados Unidos da América, um tratamento que ensejasse a identificação mais fluente das áreas de coincidência e que permitisse o diálogo aberto, mas sereno, sobre questões onde houvesse divergência. (p. 235) 

A conclusão da seção dedicada à política externa, bastante extensa e praticamente completa na sua cobertura geográfica bilateral, regional e no multilateralismo expressa uma postura de certa forma permanente na cultura diplomática nacional, tendente a pronunciar-se, “com insistência, em favor do estabelecimento de uma ordem econômica internacional mais justa e equitativa” (p. 237). O tema continua na agenda “aspiracional” do Brasil.

‘As mensagens de João Figueiredo revelam um grau de sofisticação da burocracia governamental raramente visto nas mensagens anteriores’

As cinco mensagens do último presidente do regime militar, João Figueiredo (1979-1985), foram todas publicadas pela Imprensa Nacional, estando disponíveis na Rede Virtual de Bibliotecas, e se apresentam sob a forma de cinco grossos volumes, cuidadosamente editados pela Biblioteca da Presidência da República. Todas elas revelam um grau de sofisticação da burocracia governamental raramente visto nas mensagens anteriores, de qualquer período republicano registrado historicamente, não apenas examinando cada uma das políticas governamentais (macro e setoriais), assim como grandes seções para as Forças Armadas, presença obrigatória nesses anos, como em todos os outros, mas discutindo também, o teor e as implicações de cada uma das medidas propostas. 

A política externa e a diplomacia brasileira são examinadas à exaustão, obviamente objeto de relatórios autocongratulatórios dos diplomatas profissionais, administrados de forma competente por Ramiro Saraiva Guerreiro, apenas um “empregado do Itamaraty”, como ele modestamente se intitulou em suas “lembranças” (livro de 1992).

 Figueiredo não possuía, obviamente também, as qualidades de estadista exibidas por Geisel, e por isso a política externa marchou quase por conta própria, concebida, administrada e conduzida pelo corpo burocrático da instituição. Não ocorreram propriamente iniciativas deliberadas dessa administração profissional, mas um seguimento profissional das crises herdadas do governo anterior – Itaipu, por exemplo, resolvida em seis meses por um acordo tripartite – ou surgidas incidentalmente na agenda internacional: Malvinas, crise da dívida externa, forte participação nos órgãos multilaterais, econômicos e políticos etc. 

A leitura completa das cinco mensagens vale por uma pequena história oficial das políticas econômicas, institucionais e diplomáticas do Brasil, sendo o relato destas últimas feito no “diplomatês” correto e comedido dos burocratas do Itamaraty. 

Essa seção possui, invariavelmente, a mesma estrutura em quase todos os anos: começar pela América Latina, passa aos Estados Unidos e Canadá, segue pelas duas Europas da época (a ocidental e a oriental, isto é, dominada pela União Soviética), passa à Ásia e Oceania, para chegar a uma seção bastante longa dedicada às organizações do multilateralismo político e econômico, tocando também, antes de chegar na cooperação científica e tecnológica, em temas de promoção comercial, pois que o Brasil fazia grandes avanços, então, na exportação de manufaturados, conquistando novos mercados. 

A leitura pode ser aborrecida, mas é altamente instrutiva do ativismo do Itamaraty, quando este ainda dominava quase que por completo a formulação e a execução da política externa, algo que se diluiu na democratização.

‘As ambiciosas diretrizes de política externa dos governos Geisel e Figueiredo expressam a consistência e a continuidade de padrões de excelência aperfeiçoados ao longo de décadas nessa área estratégica para o desenvolvimento nacional, numa linha apartidária e pragmática’

De forma geral, as ambiciosas diretrizes de política externa dos governos Geisel e Figueiredo, conduzidas operacionalmente pelos chanceleres Azeredo da Silveira e Saraiva Guerreiro, com o concurso conceitual e prático de brilhantes diplomatas, expressam a consistência e a continuidade de padrões de excelência aperfeiçoados ao longo de décadas nessa área estratégica para o desenvolvimento nacional, numa linha apartidária e pragmática que deita raízes nos ensinamentos e doutrinas de grandes representantes e pensadores das relações internacionais do Brasil, desde os dois Rio Branco, o visconde e o barão, o jurista Rui Barbosa e estadistas como Oswaldo Aranha e San Tiago Dantas, para ficar nos nomes mais conhecidos numa história a todos os títulos meritória. 

Ao encerrar-se o longo período da ditadura militar, ao final do governo do general Figueiredo, o candidato da oposição nas eleições indiretas de 1985, Tancredo Neves, podia acertadamente proclamar, na transição para o retorno à democracia, que a política externa era o grande ponto de consenso suprapartidário no contexto nacional. Continuou a ser assim durante boa parte do período de redemocratização, até que rupturas partidárias e ideológicas viessem abalar os padrões de excelência da diplomacia nacional.

É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil

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