Eu comecei a ler Paul Krugman pelos seus livros de economia, e o achava um economista razoável, mesmo inventivo.
Logo em seguida ele começou a escrever para o New York Times, em algum momento do final dos anos 1990. Achei seus artigos mais políticos do que econômicos, mas ainda assim continuei a ler.
Desde o começo da era Bush -- que, reconheçamos, não é exatamente uma sumidade em economia -- passei a constatar que os artigos de Krugman no NYT eram inacreditavelmente politizados para um economista digno desse nome.
Ele nunca retrocedeu, mesmo depois de ter ganho o prêmio Nobel.
Seus artigos mais recentes são inacreditavelmente desonestos, no plano intelectual.
Não sou o único a achar isso, como prova este blogueiro e um ex-economista chefe do FMI.
Krugman criticism from Rajan
Super-Economy
Kurdish-Swedish perspectives on the American Economy
September 20, 2010
Paul Krugman is very smart, tremendously well-informed and a skilled writer. But he lacks wisdom, judgment and character. Thus he has become not only partisan, but also exceptionally dishonest as a debater.
There is a professional ethic among economists to be intellectually honest in debates. Krugman keeps violating this rule, with articles heavy on ad-hominem personal attacks, straw-man misrepresentations of the claims of his opponent, a refusal to ever admit that he is wrong, and ignoring fact and logic whenever it suits him just to appear stronger in the debate.
Everything is about maximizing the short run argument in favor of the policies that Krugman favors, rather than finding out the truth, which is what economists are supposedly supposed to do.
For example Krugman pretends that European policies do not harm economic performance by looking at growth rates, despite the fact that he knows perfectly well that established economic theory predicts that the costs of policies that dampen economic activity appear as different levels of output, not growth paths.
Krugman's audience are unsophisticated non-trained economists, which makes all his violations of the academic rule of conduct worse.
When the policies pushed by Krugman did worse than he promised, he does not update his views. He just becomes even louder, claiming that the lack of success of Krugmaonomics just proves we need more of the exact same Krugman-style economics.
Imagine Krugman's reaction if the Bush administration people argued that the failure of their foreign policy and economic policy just proves we need more of the exact same recipe.
One of Krugman's dubious and partisan claims is that government policies to increase home ownership among poor americans and minorities had nothing to do with the sub prime-mortgage bubble. Here star Raghuram Rajan, a University of Chicago professor takes Krugman to task. Read it carefully.
If I understand the history involved correctly, the government sponsored enterprises that we have all come to know and love in the last few years invented sub-prime mortgage backed securities (MBS), which gives them a part of the blame of the crisis even if they had done nothing after this (which they did).
So, go read it all. It´s good for you.
==============
Transcrevo apenas o início e o final do artigo de Rajan.
Leiam a integralidade neste link.
Reviewing Krugman
Fault Lines Official Blog, September 16
Paul Krugman and Robin Wells caricature my recent book Fault Lines[i] in an article in the New York Review of Books.[ii] The article, and their criticism, however, do have a lot to say about Krugman’s policy views (for simplicity, I will say “Krugman” and “he” instead of “Krugman and Wells” and “they”) which I have disagreed with in the past. Rather than focus on the innuendo about my motives and beliefs in the review, let me focus on differences of substance. I will return to why I believe Krugman writes the way he does only at the end.
First, Krugman starts with a diatribe on why so many economists are “asking how we got into this mess rather than telling us how to get out of it.” Krugman apparently believes that his standard response of more stimulus applies regardless of the reasons why we are in the economic downturn. Yet it is precisely because I think the policy response to the last crisis contributed to getting us into this one that it is worthwhile examining how we got into this mess, and to resist the unreflective policies that Krugman advocates.
(...)
There is also a matter of detail suggesting why we cannot only blame the foreigners. The housing bubble, as Monika Piazzesi and Martin Schneider of Stanford University have argued, was focused in the lower income segments of the market, unlike in the typical U.S. housing boom. Why did foreign money gravitate to the low income segment of the housing market? Why did past episodes when the U.S. ran large current account deficits not result in similar housing booms and busts? Could the explanation lie in U.S. policies?
My book suggests that many – bankers, regulators, governments, households, and economists among others – share the blame for the crisis. Because there are so many, the blame game is not useful. Let us try and understand what happened in order to avoid repeating it. I detail the hard choices we face in the book. While it is important to alleviate the miserable conditions of the long-term unemployed today, we also need to offer them incentives and a pathway to building the skills that are required by the jobs that are being created. Simplistic mantras like “more stimulus” are the surest way to detract us from policies that generate sustainable growth.
Finally, a note on method. Perhaps Krugman believes that by labeling other economists as politically extreme, he can undercut their credibility. In criticizing my argument that politicians pushed easy housing credit in the years leading up to the crisis, he writes, “Although Rajan is careful not to name names and attributes the blame to generic “politicians,” it is clear that Democrats are largely to blame in his worldview.” Yet if he read the book carefully, he would have seen that I do name names, arguing both President Clinton with his “Affordable Housing Mandate” (see Fault Lines, page 35) as well as President Bush with his attempt to foster an “Ownership Society” (see Fault Lines, page 37) pushed very hard to expand housing credit to the less-well-off. Indeed, I do not fault the intent of that policy, only the unintended consequences of its execution. My criticism is bipartisan throughout the book, including on the fiscal policies followed by successive administrations. Errors of this kind by an economist of Krugman’s stature are disappointing.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Jorge Castaneda sobre a politica externa do Brasil (2): reservas
Necessidade de uma política externa madura
JORGE G. CASTAÑEDA
O Estado de S.Paulo, 26 de setembro de 2010
Solidariedade descuidada limita influência global do Brasil
O primeiro turno das eleições presidenciais do Brasil, no dia 3, pode se revelar o único. Isso porque a sucessora escolhida a dedo pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, está muito perto de conquistar uma maioria absoluta dos votos.
O principal adversário de Dilma, o governador do Estado de São Paulo, José Serra, não ganhou tração junto ao eleitorado por causa de suas posições inconstantes - que variam de críticas ásperas à política externa de Lula ao total apoio a suas políticas sociais. Segundo algumas sondagens de opinião, Serra está mais de 20 pontos atrás.
Lula deixa o cargo com uma popularidade espantosa para um presidente latino-americano em segundo mandato. A economia está crescendo a uma taxa de dois dígitos, e a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 estão no horizonte.
Sob o comando de Lula, milhões de brasileiros saíram da pobreza, e a classe média tornou-se uma maioria - não obstante pequena. O Brasil adquiriu uma estatura internacional digna de seu tamanho e sucesso, embora, talvez, não de sua ambição. Sua democracia é próspera e vibrante, mas nem sempre efetiva ou livre de corrupção.
Mas, há motivos para algum ceticismo sobre o legado de Lula, e o fato de eles raramente serem mencionados não diminui o seu significado.
Primeiro, o crescimento econômico continua tendo como base, fundamentalmente, o consumo doméstico e a exportação de commodities. Não há nada de errado nisso desde que eles sejam sustentáveis no médio prazo e viáveis no longo prazo.
O problema é que a taxa de investimento total do Brasil permanece em torno de 16% do Produto Interno Bruto (PIB), bem abaixo do México ou da média da América Latina, para não mencionar a China (40%). Com essa taxa, a infraestrutura e a competitividade do País inevitavelmente declinarão.
A solução de Dilma é o investimento estatal em massa, financiado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em setores econômicos-chave (petróleo, carne processada, construção). Mas essa estratégia mais provavelmente reforçará a corrupção, que tem sido um apêndice da política brasileira há décadas - e melhorou pouco sob Lula.
Uma segunda questão é o muito alardeado programa Bolsa Família, que começou com o antecessor de Lula como Bolsa Escola, e foi idealizado originalmente pelo economista Santiago Levy no governo do presidente mexicano Ernesto Zedillo. Essas "transferências condicionais de dinheiro" tinham a intenção inicial de barrar a pobreza intergeracional, ajudando a assegurar que as crianças fossem corretamente alimentadas, escolarizadas e mantidas saudáveis. Mas, com Lula (e com Vicente Fox e Felipe Calderón no México, aliás) elas viraram um programa antipobreza direto, voltado para a atual geração de pobres.
Ninguém questiona a generosidade dessa mutação, mas não está nada claro que os quase 15 milhões de famílias que recebem o Bolsa Família conservarão seu nível de renda atual quando o benefício desaparecer, ou que ele possa ser sustentado indefinidamente. O Bolsa Família tem sido um espantoso sucesso eleitoral e, certamente, aumentou o consumo na base da pirâmide no Brasil. No entanto, persistem dúvidas sobre o que o programa pode conseguir no longo prazo para erradicar a pobreza.
Terceiro, as origens e a retórica de militante de esquerda de Dilma alimentam dúvidas sobre se ela dará prosseguimento às políticas econômicas e sociais centristas, pragmáticas, de Lula.
Preocupações. Suas credenciais democráticas são tão sólidas quanto as dele, mas há preocupações sobre seu aparente entusiasmo pela intervenção do Estado na economia - ela parece acreditar nas virtudes permanentes do estímulo fiscal keynesiano - bem como sua habilidade para controlar o Partido dos Trabalhadores, como Lula controlou.
A política externa tem sido o aspecto mais criticado do mandato de Lula, e Dilma mais provavelmente agravara as coisas.
Como adversário da ditadura militar que governou seu país anos atrás, Lula defendeu o respeito aos direitos humanos, eleições livres e limpas, e a democracia representativa. Mas deu pouca atenção a essas questões depois de assumir o cargo, depreciando preocupações sobre direitos humanos e democracia por toda a região e além, particularmente em Cuba, Venezuela e Irã.
Lula acentuou a atitude brasileira tradicional de não se imiscuir em assuntos cubanos, ao ponto de viajar a Havana pouco depois que um dissidente em greve de fome morreu na prisão naquele país. Quando lhe perguntaram o que ele achava, Lula praticamente culpou o grevista pela própria morte.
Ele também recebeu o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad em Brasília e São Paulo quase como um herói meros três meses após Ahmadinejad ter vencido de maneira fraudulenta a eleição presidencial no Irã em 2009, o que resultou numa onda de repressão violenta. E, um ano depois da eleição, Lula viajou ao Irã.
O presidente brasileiro também fez vista grossa para a mão cada vez mais pesada de Hugo Chávez na Venezuela, jamais protestando ou questionando a prisão de adversários do líder venezuelano, suas repressões à imprensa, sindicatos e estudantes, ou a manipulação do sistema eleitoral.
Corporações brasileiras, especialmente construtoras, têm investimentos e contratos enormes na Venezuela, e Lula usou sua amizade com os irmãos Castro e Chávez para aplacar a ala esquerda de seu partido, que nunca ficou confortável com suas políticas econômicas ortodoxas.
A posição ambígua do Brasil sobre direitos humanos e democracia sob Lula caminha de mãos dadas com sua atitude ante a proliferação nuclear.
Um signatário nos anos 60 do Tratado de Tlatelolco - que baniu as armas nucleares da América Latina -, o Brasil desmantelou seu processo de enriquecimento e suas instalações de pesquisa durante os anos 90 e ratificou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) em 1998.
Acordo com o Irã. No entanto, em maio deste ano, Lula uniu-se à Turquia na proposta de um acordo com o Irã sobre seu programa nuclear (de troca de urânio por combustível para um reator de pesquisas médicas), que Teerã aceitou nominalmente, mas o restante do mundo não.
Enquanto Brasil e Turquia afirmavam que o acordo fora aceito pelos Estados Unidos e a Europa, Washington pediu - e obtive com o apoio de países europeus - novas e mais fortes sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, às quais só o Brasil e a Turquia se opuseram.
O Brasil está no limiar de um crescimento sustentável, de uma estatura internacional superior, e da consolidação de seu status de classe média. Mas, até ele desenvolver uma política externa madura que esteja adequada a suas aspirações econômicas - uma política externa com base numa liderança com princípios, e não numa solidariedade descuidada ao Terceiro Mundo - sua influência global será limitada.
TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
É EX-CHANCELER DO MÉXICO (2000-2003) E PROFESSOR DE POLÍTICA E ESTUDOS LATINO-AMERICANOS NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK
JORGE G. CASTAÑEDA
O Estado de S.Paulo, 26 de setembro de 2010
Solidariedade descuidada limita influência global do Brasil
O primeiro turno das eleições presidenciais do Brasil, no dia 3, pode se revelar o único. Isso porque a sucessora escolhida a dedo pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, está muito perto de conquistar uma maioria absoluta dos votos.
O principal adversário de Dilma, o governador do Estado de São Paulo, José Serra, não ganhou tração junto ao eleitorado por causa de suas posições inconstantes - que variam de críticas ásperas à política externa de Lula ao total apoio a suas políticas sociais. Segundo algumas sondagens de opinião, Serra está mais de 20 pontos atrás.
Lula deixa o cargo com uma popularidade espantosa para um presidente latino-americano em segundo mandato. A economia está crescendo a uma taxa de dois dígitos, e a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 estão no horizonte.
Sob o comando de Lula, milhões de brasileiros saíram da pobreza, e a classe média tornou-se uma maioria - não obstante pequena. O Brasil adquiriu uma estatura internacional digna de seu tamanho e sucesso, embora, talvez, não de sua ambição. Sua democracia é próspera e vibrante, mas nem sempre efetiva ou livre de corrupção.
Mas, há motivos para algum ceticismo sobre o legado de Lula, e o fato de eles raramente serem mencionados não diminui o seu significado.
Primeiro, o crescimento econômico continua tendo como base, fundamentalmente, o consumo doméstico e a exportação de commodities. Não há nada de errado nisso desde que eles sejam sustentáveis no médio prazo e viáveis no longo prazo.
O problema é que a taxa de investimento total do Brasil permanece em torno de 16% do Produto Interno Bruto (PIB), bem abaixo do México ou da média da América Latina, para não mencionar a China (40%). Com essa taxa, a infraestrutura e a competitividade do País inevitavelmente declinarão.
A solução de Dilma é o investimento estatal em massa, financiado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em setores econômicos-chave (petróleo, carne processada, construção). Mas essa estratégia mais provavelmente reforçará a corrupção, que tem sido um apêndice da política brasileira há décadas - e melhorou pouco sob Lula.
Uma segunda questão é o muito alardeado programa Bolsa Família, que começou com o antecessor de Lula como Bolsa Escola, e foi idealizado originalmente pelo economista Santiago Levy no governo do presidente mexicano Ernesto Zedillo. Essas "transferências condicionais de dinheiro" tinham a intenção inicial de barrar a pobreza intergeracional, ajudando a assegurar que as crianças fossem corretamente alimentadas, escolarizadas e mantidas saudáveis. Mas, com Lula (e com Vicente Fox e Felipe Calderón no México, aliás) elas viraram um programa antipobreza direto, voltado para a atual geração de pobres.
Ninguém questiona a generosidade dessa mutação, mas não está nada claro que os quase 15 milhões de famílias que recebem o Bolsa Família conservarão seu nível de renda atual quando o benefício desaparecer, ou que ele possa ser sustentado indefinidamente. O Bolsa Família tem sido um espantoso sucesso eleitoral e, certamente, aumentou o consumo na base da pirâmide no Brasil. No entanto, persistem dúvidas sobre o que o programa pode conseguir no longo prazo para erradicar a pobreza.
Terceiro, as origens e a retórica de militante de esquerda de Dilma alimentam dúvidas sobre se ela dará prosseguimento às políticas econômicas e sociais centristas, pragmáticas, de Lula.
Preocupações. Suas credenciais democráticas são tão sólidas quanto as dele, mas há preocupações sobre seu aparente entusiasmo pela intervenção do Estado na economia - ela parece acreditar nas virtudes permanentes do estímulo fiscal keynesiano - bem como sua habilidade para controlar o Partido dos Trabalhadores, como Lula controlou.
A política externa tem sido o aspecto mais criticado do mandato de Lula, e Dilma mais provavelmente agravara as coisas.
Como adversário da ditadura militar que governou seu país anos atrás, Lula defendeu o respeito aos direitos humanos, eleições livres e limpas, e a democracia representativa. Mas deu pouca atenção a essas questões depois de assumir o cargo, depreciando preocupações sobre direitos humanos e democracia por toda a região e além, particularmente em Cuba, Venezuela e Irã.
Lula acentuou a atitude brasileira tradicional de não se imiscuir em assuntos cubanos, ao ponto de viajar a Havana pouco depois que um dissidente em greve de fome morreu na prisão naquele país. Quando lhe perguntaram o que ele achava, Lula praticamente culpou o grevista pela própria morte.
Ele também recebeu o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad em Brasília e São Paulo quase como um herói meros três meses após Ahmadinejad ter vencido de maneira fraudulenta a eleição presidencial no Irã em 2009, o que resultou numa onda de repressão violenta. E, um ano depois da eleição, Lula viajou ao Irã.
O presidente brasileiro também fez vista grossa para a mão cada vez mais pesada de Hugo Chávez na Venezuela, jamais protestando ou questionando a prisão de adversários do líder venezuelano, suas repressões à imprensa, sindicatos e estudantes, ou a manipulação do sistema eleitoral.
Corporações brasileiras, especialmente construtoras, têm investimentos e contratos enormes na Venezuela, e Lula usou sua amizade com os irmãos Castro e Chávez para aplacar a ala esquerda de seu partido, que nunca ficou confortável com suas políticas econômicas ortodoxas.
A posição ambígua do Brasil sobre direitos humanos e democracia sob Lula caminha de mãos dadas com sua atitude ante a proliferação nuclear.
Um signatário nos anos 60 do Tratado de Tlatelolco - que baniu as armas nucleares da América Latina -, o Brasil desmantelou seu processo de enriquecimento e suas instalações de pesquisa durante os anos 90 e ratificou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) em 1998.
Acordo com o Irã. No entanto, em maio deste ano, Lula uniu-se à Turquia na proposta de um acordo com o Irã sobre seu programa nuclear (de troca de urânio por combustível para um reator de pesquisas médicas), que Teerã aceitou nominalmente, mas o restante do mundo não.
Enquanto Brasil e Turquia afirmavam que o acordo fora aceito pelos Estados Unidos e a Europa, Washington pediu - e obtive com o apoio de países europeus - novas e mais fortes sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, às quais só o Brasil e a Turquia se opuseram.
O Brasil está no limiar de um crescimento sustentável, de uma estatura internacional superior, e da consolidação de seu status de classe média. Mas, até ele desenvolver uma política externa madura que esteja adequada a suas aspirações econômicas - uma política externa com base numa liderança com princípios, e não numa solidariedade descuidada ao Terceiro Mundo - sua influência global será limitada.
TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
É EX-CHANCELER DO MÉXICO (2000-2003) E PROFESSOR DE POLÍTICA E ESTUDOS LATINO-AMERICANOS NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK
Politica externa do Brasil: reescrevendo a historia (para tras...)
Só pode ser para trás, para justificar o que veio depois.
"Para o ministro [Celso Amorim], o principal legado do governo do PT no Itamaraty é a "afirmação de uma política externa independente, não-subserviente"."
Então ficamos assim: até o final de 2002, o Itamaraty era composto de dependentes e subservientes. Tivemos de esperar 2003, para inaugurar a era da independência.
Isso inclui todos os que trabalhavam lá antes, se supõe...
Paulo Roberto de Almeida
Amorim: fracassos não atrapalham novo papel na política externa
Eduardo Graça - de Nova York
Portal Terra, 20 de setembro de 2010
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou nesta segunda-feira, em Nova York, nos Estados Unidos, que os "fracassos" da política externa brasileira não "atrapalharam" o novo papel do Brasil no mundo. "A lista de fracassos da política externa brasileira no governo Lula é imensa. Mas todos, inclusive nossos críticos mais virulentos, reconhecem que o Brasil tem hoje um novo papel no mundo. Pode até não ser por conta da política externa, mas ela não atrapalhou", afirmou.
Em maio, Brasil e Turquia fecharam um acordo com o Irã para a troca de urânio pouco enriquecido por combustível nuclear, mas o Conselho de Segurança da ONU, três semanas depois, aprovou novas sanções contra o país. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, rejeita suspender o enriquecimento de urânio, material de uso militar e civil. A comunidade internacional não aprova o programa nuclear iraniano porque teme que o país tente fabricar armas nucleares.
"Criticavam nossa ênfase em relação aos países em desenvolvimento e à África. Hoje, leio nos EUA artigos dizendo que a África, em conjunto, tem um PIB equivalente ao de um Bric (g'rupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China), a importância é clara. Quem sabe agora a imprensa brasileira não valoriza nossa aproximação estratégica com a África?", disse Amorim, em entrevista coletiva após reunião da Comissão Interina para a Recuperação do Haiti, com a presença da secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Para o ministro, o principal legado do governo do PT no Itamaraty é a "afirmação de uma política externa independente, não-subserviente".
Segundo o chanceler, houve uma ênfase no incremento do processo de integração com os países latino-americanos, incluindo um aumento de comércio gigantesco com os países andinos. "Hoje, 47% da exportação manufatureira do Brasil vai para a região, um aumento de mais de 300% desde o início do governo Lula. Mas o maior ganho, para nós, é a paz na região, a manutenção da estabilidade democrática", disse.
Na quinta-feira, Amorim fará um balanço dos oito anos de política externa do governo Lula na abertura da Assembleia-Geral da ONU. O ministro também se reúne esta semana com os representantes dos membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde enfatizará a necessidade de se ajudar o Guiné-Bissau. "Não apoiamos nenhuma solução punitiva. O Brasil pode ajudar na reforma militar necessária em Bissau, mas precisamos do apoio financeiro da Comunidade Europeia. É preciso garantir um sistema de pensões, com a aposentadoria de oficiais, para que os militares se afastem da vida política de Bissau. Repito: uma atitude de isolamento político será infrutífera em relação a Bissau", afirmou.
Reforma no Conselho de Segurança
Na pauta de encontros do chanceler brasileiro estão conversas com lideranças compromissadas com a reforma do Conselho de Segurança da ONU, uma das grandes ambições da política externa do governo Lula. "A reforma é um processo. O que queremos agora é evitar um retrocesso. Há resistência tanto de membros do atual Conselho quanto de outros países que não concordam com o aumento de vagas. Mas não se pode manter uma estrutura que reflete a geopolítica de um mundo que existia há 65 anos. A credibilidade do Conselho de Segurança é maculada quando o órgão não representa mais a realidade internacional", disse. Na sexta-feira, o ministro se reúne com os chanceleres do G-4, que conta ainda com Alemanha, Índia e Japão, outros três países interessados em vagas permanentes no Conselho de Segurança da ONU.
"Um episódio que reflete como a defesa de um aumento das vagas não-permanentes não resolveria a reforma do Conselho de Segurança foi o das sanções contra o Irã. Eu soube da resolução por uma agência de notícias, enquanto os países do Conselho diziam que queriam nossa ajuda e da Turquia. É uma atitude desrespeitosa", afirmou.
Amorim também disse não "haver necessidade de explicação para a ausência do presidente Lula à Assembleia deste ano". "Não se trata de uma cúpula, e ele veio em todos os outros anos, sendo que em 2005 participou apenas das primeiras atividades. Com o calendário político brasileiro, é bastante natural a ausência do presidente. Sua presença no Brasil, agora, é muito importante", disse.
Recursos para o Haiti
O ministro disse ainda que, durante a reunião sobre o Haiti, a secretária Clinton parabenizou a liderança brasileira nos esforços de recuperação do país, devastado por um terremoto há pouco mais de nove meses. "Somos um dos poucos países que enviaram 100% dos recursos prometidos para o Haiti. Dos US$ 55 milhões, 15 já foram utilizados e gostaríamos que os 40 restantes fossem para o projeto da Barragem de Artibinite, que levará energia elétrica para mais de 1 milhão de haitianos. Obviamente, serão necessários mais recursos para finalizar a obra, quem sabe vindos do Canadá e dos EUA. Mas é fundamental enfatizar que a barragem foi um pedido de Porto Príncipe. O Haiti é um país soberano e não uma coleção de projetos", disse Amorim. Dos EUA, o ministro segue para a capital haitiana onde entregará o projeto da barragem especialmente ao presidente René Préval.
Amorim chegou a Nova York no domingo, vindo de Cuba, onde tratou de temas diversos, como a experiência do Brasil no fortalecimento de pequenas e médias empresas, fundamental para as novas diretrizes econômicas do governo Raúl Castro. "Foi um a atitude corajosa a de colocar 500 mil pessoas, 12% da força produtiva fora do serviço público. Mas não vou tratar de temas específicos aqui, como a questão dos dissidentes. Manifestei nosso agrado em relação à liberação recente de presos políticos. Temos um bom diálogo com o governo cubano, somos respeitados justamente por não enfatizarmos reações estridentes que não levam a nada", disse.
Comentários: 285 (21h45)
"Para o ministro [Celso Amorim], o principal legado do governo do PT no Itamaraty é a "afirmação de uma política externa independente, não-subserviente"."
Então ficamos assim: até o final de 2002, o Itamaraty era composto de dependentes e subservientes. Tivemos de esperar 2003, para inaugurar a era da independência.
Isso inclui todos os que trabalhavam lá antes, se supõe...
Paulo Roberto de Almeida
Amorim: fracassos não atrapalham novo papel na política externa
Eduardo Graça - de Nova York
Portal Terra, 20 de setembro de 2010
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou nesta segunda-feira, em Nova York, nos Estados Unidos, que os "fracassos" da política externa brasileira não "atrapalharam" o novo papel do Brasil no mundo. "A lista de fracassos da política externa brasileira no governo Lula é imensa. Mas todos, inclusive nossos críticos mais virulentos, reconhecem que o Brasil tem hoje um novo papel no mundo. Pode até não ser por conta da política externa, mas ela não atrapalhou", afirmou.
Em maio, Brasil e Turquia fecharam um acordo com o Irã para a troca de urânio pouco enriquecido por combustível nuclear, mas o Conselho de Segurança da ONU, três semanas depois, aprovou novas sanções contra o país. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, rejeita suspender o enriquecimento de urânio, material de uso militar e civil. A comunidade internacional não aprova o programa nuclear iraniano porque teme que o país tente fabricar armas nucleares.
"Criticavam nossa ênfase em relação aos países em desenvolvimento e à África. Hoje, leio nos EUA artigos dizendo que a África, em conjunto, tem um PIB equivalente ao de um Bric (g'rupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China), a importância é clara. Quem sabe agora a imprensa brasileira não valoriza nossa aproximação estratégica com a África?", disse Amorim, em entrevista coletiva após reunião da Comissão Interina para a Recuperação do Haiti, com a presença da secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Para o ministro, o principal legado do governo do PT no Itamaraty é a "afirmação de uma política externa independente, não-subserviente".
Segundo o chanceler, houve uma ênfase no incremento do processo de integração com os países latino-americanos, incluindo um aumento de comércio gigantesco com os países andinos. "Hoje, 47% da exportação manufatureira do Brasil vai para a região, um aumento de mais de 300% desde o início do governo Lula. Mas o maior ganho, para nós, é a paz na região, a manutenção da estabilidade democrática", disse.
Na quinta-feira, Amorim fará um balanço dos oito anos de política externa do governo Lula na abertura da Assembleia-Geral da ONU. O ministro também se reúne esta semana com os representantes dos membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde enfatizará a necessidade de se ajudar o Guiné-Bissau. "Não apoiamos nenhuma solução punitiva. O Brasil pode ajudar na reforma militar necessária em Bissau, mas precisamos do apoio financeiro da Comunidade Europeia. É preciso garantir um sistema de pensões, com a aposentadoria de oficiais, para que os militares se afastem da vida política de Bissau. Repito: uma atitude de isolamento político será infrutífera em relação a Bissau", afirmou.
Reforma no Conselho de Segurança
Na pauta de encontros do chanceler brasileiro estão conversas com lideranças compromissadas com a reforma do Conselho de Segurança da ONU, uma das grandes ambições da política externa do governo Lula. "A reforma é um processo. O que queremos agora é evitar um retrocesso. Há resistência tanto de membros do atual Conselho quanto de outros países que não concordam com o aumento de vagas. Mas não se pode manter uma estrutura que reflete a geopolítica de um mundo que existia há 65 anos. A credibilidade do Conselho de Segurança é maculada quando o órgão não representa mais a realidade internacional", disse. Na sexta-feira, o ministro se reúne com os chanceleres do G-4, que conta ainda com Alemanha, Índia e Japão, outros três países interessados em vagas permanentes no Conselho de Segurança da ONU.
"Um episódio que reflete como a defesa de um aumento das vagas não-permanentes não resolveria a reforma do Conselho de Segurança foi o das sanções contra o Irã. Eu soube da resolução por uma agência de notícias, enquanto os países do Conselho diziam que queriam nossa ajuda e da Turquia. É uma atitude desrespeitosa", afirmou.
Amorim também disse não "haver necessidade de explicação para a ausência do presidente Lula à Assembleia deste ano". "Não se trata de uma cúpula, e ele veio em todos os outros anos, sendo que em 2005 participou apenas das primeiras atividades. Com o calendário político brasileiro, é bastante natural a ausência do presidente. Sua presença no Brasil, agora, é muito importante", disse.
Recursos para o Haiti
O ministro disse ainda que, durante a reunião sobre o Haiti, a secretária Clinton parabenizou a liderança brasileira nos esforços de recuperação do país, devastado por um terremoto há pouco mais de nove meses. "Somos um dos poucos países que enviaram 100% dos recursos prometidos para o Haiti. Dos US$ 55 milhões, 15 já foram utilizados e gostaríamos que os 40 restantes fossem para o projeto da Barragem de Artibinite, que levará energia elétrica para mais de 1 milhão de haitianos. Obviamente, serão necessários mais recursos para finalizar a obra, quem sabe vindos do Canadá e dos EUA. Mas é fundamental enfatizar que a barragem foi um pedido de Porto Príncipe. O Haiti é um país soberano e não uma coleção de projetos", disse Amorim. Dos EUA, o ministro segue para a capital haitiana onde entregará o projeto da barragem especialmente ao presidente René Préval.
Amorim chegou a Nova York no domingo, vindo de Cuba, onde tratou de temas diversos, como a experiência do Brasil no fortalecimento de pequenas e médias empresas, fundamental para as novas diretrizes econômicas do governo Raúl Castro. "Foi um a atitude corajosa a de colocar 500 mil pessoas, 12% da força produtiva fora do serviço público. Mas não vou tratar de temas específicos aqui, como a questão dos dissidentes. Manifestei nosso agrado em relação à liberação recente de presos políticos. Temos um bom diálogo com o governo cubano, somos respeitados justamente por não enfatizarmos reações estridentes que não levam a nada", disse.
Comentários: 285 (21h45)
Caro leitor: voce esta pagando tudo isso...
Sinto trazê-lo à realidade, mas é assim. Seu bolso vai sentir, aos poucos, mesmo que você não sinta diretamente. Você está ficando mais pobre a cada dia, para alimentar esse exército de funcionários públicos e outros comissionados do partido no poder.
Aliás, não sei se o termo exército é adequado, pois geralmente este é disciplinado.
Não é exatamente o caso do atual: tem gente que faz negócios paralelos enquanto trabalha para o governo...
PRESIDENTE 40 ELEIÇÕES 2010
No governo Lula, Presidência concentrou poderes e multiplicou cargos e verbas
GUSTAVO PATU - DE BRASÍLIA
Folha de S.Paulo, 27.09.2010
Orçamento aumentou, em valores já corrigidos, de R$ 3,7 bi no final do governo FHC para R$ 8,3 bi neste ano
Quadro de pessoal da Presidência aumentou pelo menos 150% nos 8 anos de gestão petista no Palácio do Planalto
Ao longo de seus oito anos de mandato, Luiz Inácio Lula da Silva promoveu uma multiplicação sem precedentes de estruturas, cargos, verbas e poderes da Presidência da República, o que também ajuda a explicar por que escândalos se concentraram no Palácio do Planalto.
O orçamento da Presidência e dos órgãos sob seu comando direto somava, em valores já corrigidos pela inflação, R$ 3,7 bilhões no final do governo FHC. No final da administração petista, são R$ 8,3 bilhões -ou R$ 9,2 bilhões se contabilizado o Ministério da Pesca, que tem orçamento separado, mas é vinculado à Presidência.
A expansão, de 126% no cálculo mais comedido, superou com folga a do restante da máquina federal -de lá para cá, as verbas de ministérios, autarquias, fundações, Legislativo e Judiciário tiveram juntas aumento de 70%.
Mas é na distribuição interna dos recursos que estão os exemplos mais eloquentes da superpresidência de Lula.
Só o gabinete presidencial teve seus recursos multiplicados por cinco. Na classificação orçamentária, é onde está o núcleo central do poder palaciano, incluindo a Casa Civil da qual saíram José Dirceu, acusado de comandar o mensalão, Dilma Rousseff, para a campanha, e Erenice Guerra, após a revelação de que havia um esquema de facilitação de interesses privados no ministério.
É ainda onde foram concentradas todas as verbas da publicidade oficial, antes distribuídas entre os ministérios e hoje a cargo da Secretaria de Comunicação Social, entregue em 2007 ao jornalista Franklin Martins, que ganhou status de ministro.
Naquele ano foi criada uma estatal subordinada a Franklin, a Empresa Brasil de Comunicação, que substituiu a Radiobrás e tem hoje orçamento -separado do gabinete presidencial- equivalente a quase o quádruplo do contabilizado em 2002.
A cargo da secretaria e da empresa está o programa "Democratização do acesso à informação jornalística, educacional e cultural". Trata-se, principalmente, da produção e distribuição de reportagens sobre o governo.
Além de mais dinheiro, há mais gente no entorno presidencial. Sob Lula, o quadro de pessoal da Presidência aumentou acima dos 250%, enquanto no restante do Executivo civil a taxa foi de 13%.
É verdade que a maior parte desse aumento se deve à Advocacia-Geral da União, que, além de contratar novos funcionários por concursos, absorveu procuradores antes distribuídos em outros órgãos. Desconsiderada a AGU, o contingente cresceu 150%, para 7.856 pessoas em maio.
No gabinete do presidente, a grande maioria ocupa cargos e funções de confiança, sejam os de livre nomeação, sejam os reservados a servidores requisitados de outros órgãos -eram os casos, respectivamente, de Vinícius Castro e Stevan Knezevic, que deixaram a Casa Civil na esteira do caso Erenice.
A Presidência também cresceu com a criação de novas estruturas e a absorção de órgãos que anteriormente estavam em ministérios. No governo Lula, o Planalto passou a incluir as secretarias especiais de Portos, Direitos Humanos, Políticas para as Mulheres e Igualdade Racial.
A Controladoria-Geral da União ganhou orçamento próprio. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) saiu do Planejamento, teve mais verbas e fez o maior concurso de sua história.
Aliás, não sei se o termo exército é adequado, pois geralmente este é disciplinado.
Não é exatamente o caso do atual: tem gente que faz negócios paralelos enquanto trabalha para o governo...
PRESIDENTE 40 ELEIÇÕES 2010
No governo Lula, Presidência concentrou poderes e multiplicou cargos e verbas
GUSTAVO PATU - DE BRASÍLIA
Folha de S.Paulo, 27.09.2010
Orçamento aumentou, em valores já corrigidos, de R$ 3,7 bi no final do governo FHC para R$ 8,3 bi neste ano
Quadro de pessoal da Presidência aumentou pelo menos 150% nos 8 anos de gestão petista no Palácio do Planalto
Ao longo de seus oito anos de mandato, Luiz Inácio Lula da Silva promoveu uma multiplicação sem precedentes de estruturas, cargos, verbas e poderes da Presidência da República, o que também ajuda a explicar por que escândalos se concentraram no Palácio do Planalto.
O orçamento da Presidência e dos órgãos sob seu comando direto somava, em valores já corrigidos pela inflação, R$ 3,7 bilhões no final do governo FHC. No final da administração petista, são R$ 8,3 bilhões -ou R$ 9,2 bilhões se contabilizado o Ministério da Pesca, que tem orçamento separado, mas é vinculado à Presidência.
A expansão, de 126% no cálculo mais comedido, superou com folga a do restante da máquina federal -de lá para cá, as verbas de ministérios, autarquias, fundações, Legislativo e Judiciário tiveram juntas aumento de 70%.
Mas é na distribuição interna dos recursos que estão os exemplos mais eloquentes da superpresidência de Lula.
Só o gabinete presidencial teve seus recursos multiplicados por cinco. Na classificação orçamentária, é onde está o núcleo central do poder palaciano, incluindo a Casa Civil da qual saíram José Dirceu, acusado de comandar o mensalão, Dilma Rousseff, para a campanha, e Erenice Guerra, após a revelação de que havia um esquema de facilitação de interesses privados no ministério.
É ainda onde foram concentradas todas as verbas da publicidade oficial, antes distribuídas entre os ministérios e hoje a cargo da Secretaria de Comunicação Social, entregue em 2007 ao jornalista Franklin Martins, que ganhou status de ministro.
Naquele ano foi criada uma estatal subordinada a Franklin, a Empresa Brasil de Comunicação, que substituiu a Radiobrás e tem hoje orçamento -separado do gabinete presidencial- equivalente a quase o quádruplo do contabilizado em 2002.
A cargo da secretaria e da empresa está o programa "Democratização do acesso à informação jornalística, educacional e cultural". Trata-se, principalmente, da produção e distribuição de reportagens sobre o governo.
Além de mais dinheiro, há mais gente no entorno presidencial. Sob Lula, o quadro de pessoal da Presidência aumentou acima dos 250%, enquanto no restante do Executivo civil a taxa foi de 13%.
É verdade que a maior parte desse aumento se deve à Advocacia-Geral da União, que, além de contratar novos funcionários por concursos, absorveu procuradores antes distribuídos em outros órgãos. Desconsiderada a AGU, o contingente cresceu 150%, para 7.856 pessoas em maio.
No gabinete do presidente, a grande maioria ocupa cargos e funções de confiança, sejam os de livre nomeação, sejam os reservados a servidores requisitados de outros órgãos -eram os casos, respectivamente, de Vinícius Castro e Stevan Knezevic, que deixaram a Casa Civil na esteira do caso Erenice.
A Presidência também cresceu com a criação de novas estruturas e a absorção de órgãos que anteriormente estavam em ministérios. No governo Lula, o Planalto passou a incluir as secretarias especiais de Portos, Direitos Humanos, Políticas para as Mulheres e Igualdade Racial.
A Controladoria-Geral da União ganhou orçamento próprio. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) saiu do Planejamento, teve mais verbas e fez o maior concurso de sua história.
Juizes inconstitucionais: o que fazer com eles?
Sim, existem juizes que criam suas proprias leis, sabemos disso. Eles abusam de suas prerrogativas de expedir liminares, obrigando autoridades a cumprir isso ou aquilo (geralmente para vedar acesso a informações que contrariam interesses políticos), sem que depois ocorra qualquer sanção em caso de atuação irregular. Simplesmente uma instância superior cassa a decisão do juiz maluco (ou mal intencionado) e a vida segue adiante, como se nada tivesse acontecido.
E, no entanto, algo aconteceu: a decisão do juiz maluco (ou desonesto) provocou, sim, perdas, se não de dinheiro (o que também pode ocorrer), pelo menos de tempo, e tempo é dinheiro, além de obrigar a parte prejudicada a recorrer, com gastos, obviamente, e a espera para ver se na fila superior tem um juiz menos maluco que simplesmente cumpra a lei.
Também tem juizes que enfrentam e afrontam diretamente a Constituição, como esse meliante do TRE de Tocantins, que proibiu dezenas de jornais de noticiar FATOS ocorridos naquele Estado, no qual parentes seus foram contemplados pelo governador corrupto desse Estado (criado artificialmente, anos atrás, para alimentar a voracidade corruptora de políticos).
Pois bem, minha questão aqui é a seguinte: o que fazer com juizes que declaradamente enfrentam a lei e a Constituição?
Eu, por exemplo, sou rigorosamente contrário a essa famosa frase que diz que "decisão de juiz não se discute, cumpre-se".
Eu sempre achei essa frase idiota, como se juízes fossem seres superiores, dotados de poderes incomuns, da onisciência, da onipotência, da clarividência, sei lá, de faculdades divinas, que obrigassem todos a cumprir suas ordens (decisões ou liminares), como se aquilo fosse o verbo divino, ou a palavra dos céus.
Sou contra tudo isso.
Decisão de juiz, QUALQUER DECISAO, deve vir fundamentada na lei, pois o juiz não pode criar a lei, apenas aplicá-la, se preciso, interpretando-a, mas justificando sua interpretação, que não pode ser arbitrária.
Uma decisão claramente arbitrária, como a que vai relatada abaixo, NÃO DEVERIA ser cumprida, e abre-se então a faculdade ao juiz de determinar a punição dos "infratores". Cabe-lhe, então, o ônus da prova, isto é, demonstrar que não está exorbitando e que os "infratores" de fato infringiram a lei, e ele precisa dizer qual é essa lei.
Se, ao contrário, o juiz não conseguir provar que os "infratores" descumpriram alguma lei, seria ele que teria de responder por sua decisão anterior.
Eu até diria que os atingidos nem precisariam processar o juiz, por abuso de autoridade, pois uma autoridade superior -- digamos o Conselho Nacional de Justiça, que está construindo um palácio para si em Brasília -- poderia processá-lo e puni-lo por abuso de autoridade e por infringir a lei, neste caso da censura a Constituição.
Eu proponho, por exemplo, que essas punições representem três meses de vencimentos integrais do juiz. Acredito que os próximos serão mais cautelosos ao expedir sentenças ou liminares ilegais.
Paulo Roberto de Almeida
Entidades protestam contra censura
Por Daniel Bramatti, no Estadão Online, 26.09.2010
Entidades representativas como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) protestaram ontem contra o novo episódio de censura determinado pela Justiça, desta vez no Tocantins.
“A liberdade de imprensa é um valor da sociedade, um bem jurídico, preceito constitucional de proteção ao Direito e à cidadania”, disse ao Estado o presidente da OAB, Ophir Cavalcante. “Quando se proíbe a divulgação de informações baseadas em fatos, está se ferindo o preceito constitucional de garantias ao Estado de Direito. É preciso repudiar essas atitudes.”
Ophir se referiu à decisão do desembargador Liberato Póvoa, do Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins, que decretou a censura ao Estado e a outros 83 veículos de comunicação. Jornais, emissoras de rádio e televisão e sites de internet foram proibidos de publicar informações a respeito da investigação que aponta o governador do Tocantins, Carlos Gaguim (PMDB), e o procurador-geral do Estado, Haroldo Rastoldo, como integrantes de suposta organização criminosa para fraude em licitações públicas.
Direito dos cidadãos. A ANJ divulgou nota oficial para protestar contra a medida determinada pelo desembargador. “A Associação Nacional de Jornais lamenta e condena a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins de proibir a divulgação - ‘de qualquer forma, direta ou indireta’ - de informações relativas ao governador do Estado e candidato à reeleição, Carlos Gaguim, ou a qualquer integrante de sua equipe de governo, em investigação feita pelo Ministério Público do Estado de São Paulo”, afirma o texto.
Para a entidade, a proibição de publicação de notícias “é uma afronta à Constituição brasileira, que veda qualquer tipo de censura prévia”. “A censura fere o direito dos cidadãos de serem livremente informados, especialmente nesse período que antecede as eleições. A ANJ espera que a própria Justiça revogue a proibição, em respeito aos princípios democráticos da Constituição.”
Primeira instância. Luís Roberto Antonik, diretor-geral da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), afirmou que a medida restritiva “fere frontalmente a Constituição”. “Vemos essas decisões da Justiça de primeira instância com extrema preocupação”, afirmou. “É um assunto de muita relevância, e a mídia fica impedida de divulgar até derrubar o veto em uma instância superior. Nesse processo, muitas vezes se perde o momento em que a divulgação da informação é mais importante. É uma mordaça.”
Para Cláudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil, organização não-governamental que promove o combate à corrupção, o TRE do Tocantins está agindo “de acordo com os interesses” do governador e candidato à reeleição Carlos Gaguim. “É evidente que a decisão foi tomada para beneficiar o governador”, afirmou. “Espero que a própria Justiça reverta a decisão.”
O juiz Marlon Reis, um dos coordenadores do Movimento de Combate à Corrupção, afirmou que ainda há no Judiciário a “falsa noção” de que o segredo de Justiça, imposto às autoridades relacionadas a investigações e julgamentos, também se aplica aos órgãos de comunicação. “Apenas os órgãos públicos estão sujeitos a essa norma”, destacou.
Reis observou que as medidas de censura costumam ocorrer na primeira instância da Justiça. Para ele, novos episódios poderiam ser evitados se houvesse uma súmula vinculante - espécie de orientação geral para todo o Judiciário - sobre esse tema. “O Supremo Tribunal Federal já tem uma posição muito clara sobre a questão.”
E, no entanto, algo aconteceu: a decisão do juiz maluco (ou desonesto) provocou, sim, perdas, se não de dinheiro (o que também pode ocorrer), pelo menos de tempo, e tempo é dinheiro, além de obrigar a parte prejudicada a recorrer, com gastos, obviamente, e a espera para ver se na fila superior tem um juiz menos maluco que simplesmente cumpra a lei.
Também tem juizes que enfrentam e afrontam diretamente a Constituição, como esse meliante do TRE de Tocantins, que proibiu dezenas de jornais de noticiar FATOS ocorridos naquele Estado, no qual parentes seus foram contemplados pelo governador corrupto desse Estado (criado artificialmente, anos atrás, para alimentar a voracidade corruptora de políticos).
Pois bem, minha questão aqui é a seguinte: o que fazer com juizes que declaradamente enfrentam a lei e a Constituição?
Eu, por exemplo, sou rigorosamente contrário a essa famosa frase que diz que "decisão de juiz não se discute, cumpre-se".
Eu sempre achei essa frase idiota, como se juízes fossem seres superiores, dotados de poderes incomuns, da onisciência, da onipotência, da clarividência, sei lá, de faculdades divinas, que obrigassem todos a cumprir suas ordens (decisões ou liminares), como se aquilo fosse o verbo divino, ou a palavra dos céus.
Sou contra tudo isso.
Decisão de juiz, QUALQUER DECISAO, deve vir fundamentada na lei, pois o juiz não pode criar a lei, apenas aplicá-la, se preciso, interpretando-a, mas justificando sua interpretação, que não pode ser arbitrária.
Uma decisão claramente arbitrária, como a que vai relatada abaixo, NÃO DEVERIA ser cumprida, e abre-se então a faculdade ao juiz de determinar a punição dos "infratores". Cabe-lhe, então, o ônus da prova, isto é, demonstrar que não está exorbitando e que os "infratores" de fato infringiram a lei, e ele precisa dizer qual é essa lei.
Se, ao contrário, o juiz não conseguir provar que os "infratores" descumpriram alguma lei, seria ele que teria de responder por sua decisão anterior.
Eu até diria que os atingidos nem precisariam processar o juiz, por abuso de autoridade, pois uma autoridade superior -- digamos o Conselho Nacional de Justiça, que está construindo um palácio para si em Brasília -- poderia processá-lo e puni-lo por abuso de autoridade e por infringir a lei, neste caso da censura a Constituição.
Eu proponho, por exemplo, que essas punições representem três meses de vencimentos integrais do juiz. Acredito que os próximos serão mais cautelosos ao expedir sentenças ou liminares ilegais.
Paulo Roberto de Almeida
Entidades protestam contra censura
Por Daniel Bramatti, no Estadão Online, 26.09.2010
Entidades representativas como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) protestaram ontem contra o novo episódio de censura determinado pela Justiça, desta vez no Tocantins.
“A liberdade de imprensa é um valor da sociedade, um bem jurídico, preceito constitucional de proteção ao Direito e à cidadania”, disse ao Estado o presidente da OAB, Ophir Cavalcante. “Quando se proíbe a divulgação de informações baseadas em fatos, está se ferindo o preceito constitucional de garantias ao Estado de Direito. É preciso repudiar essas atitudes.”
Ophir se referiu à decisão do desembargador Liberato Póvoa, do Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins, que decretou a censura ao Estado e a outros 83 veículos de comunicação. Jornais, emissoras de rádio e televisão e sites de internet foram proibidos de publicar informações a respeito da investigação que aponta o governador do Tocantins, Carlos Gaguim (PMDB), e o procurador-geral do Estado, Haroldo Rastoldo, como integrantes de suposta organização criminosa para fraude em licitações públicas.
Direito dos cidadãos. A ANJ divulgou nota oficial para protestar contra a medida determinada pelo desembargador. “A Associação Nacional de Jornais lamenta e condena a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins de proibir a divulgação - ‘de qualquer forma, direta ou indireta’ - de informações relativas ao governador do Estado e candidato à reeleição, Carlos Gaguim, ou a qualquer integrante de sua equipe de governo, em investigação feita pelo Ministério Público do Estado de São Paulo”, afirma o texto.
Para a entidade, a proibição de publicação de notícias “é uma afronta à Constituição brasileira, que veda qualquer tipo de censura prévia”. “A censura fere o direito dos cidadãos de serem livremente informados, especialmente nesse período que antecede as eleições. A ANJ espera que a própria Justiça revogue a proibição, em respeito aos princípios democráticos da Constituição.”
Primeira instância. Luís Roberto Antonik, diretor-geral da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), afirmou que a medida restritiva “fere frontalmente a Constituição”. “Vemos essas decisões da Justiça de primeira instância com extrema preocupação”, afirmou. “É um assunto de muita relevância, e a mídia fica impedida de divulgar até derrubar o veto em uma instância superior. Nesse processo, muitas vezes se perde o momento em que a divulgação da informação é mais importante. É uma mordaça.”
Para Cláudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil, organização não-governamental que promove o combate à corrupção, o TRE do Tocantins está agindo “de acordo com os interesses” do governador e candidato à reeleição Carlos Gaguim. “É evidente que a decisão foi tomada para beneficiar o governador”, afirmou. “Espero que a própria Justiça reverta a decisão.”
O juiz Marlon Reis, um dos coordenadores do Movimento de Combate à Corrupção, afirmou que ainda há no Judiciário a “falsa noção” de que o segredo de Justiça, imposto às autoridades relacionadas a investigações e julgamentos, também se aplica aos órgãos de comunicação. “Apenas os órgãos públicos estão sujeitos a essa norma”, destacou.
Reis observou que as medidas de censura costumam ocorrer na primeira instância da Justiça. Para ele, novos episódios poderiam ser evitados se houvesse uma súmula vinculante - espécie de orientação geral para todo o Judiciário - sobre esse tema. “O Supremo Tribunal Federal já tem uma posição muito clara sobre a questão.”
Direitos humanos: criticas a posicao diplomatica do Brasil
O pior dos mundos
Marcelo Coutinho
O Globo, 27.09.2010
Desde o início do governo Lula, o Brasil adotou um padrão novo de posicionamento em questões relacionadas aos direitos humanos, passando a votar a favor de países como Irã e Coreia do Norte.
Não foi a primeira vez que o Brasil beneficiou regimes de força, mas a partir de então consolidou uma política que destoou cada vez mais das nações democráticas. Houve um acentuado declínio nos valores da civilização na nossa política externa, embora os últimos meses de 2010 possam ser de regeneração benigna.
A partir do fim de 2008, a diplomacia brasileira recrudesceu seu novo comportamento, amplamente criticado pelos movimentos de defesa dos direitos humanos. Supostamente em nome de mais diálogo e menos politização, o governo passou a liderar um processo de revisão dos procedimentos na ONU, sugerindo que o mundo parasse de censurar os violadores contumazes.
Embora o discurso oficial se contradiga e oscile entre os ideais wilsonianos de paz e o pragmatismo amoral da realpolitik, a política externa está mais para a mal engendrada weltpolitik, caracterizada pela maior assertividade e pressa com que busca a projeção mundial.
No afã de aparecer como ator independente e garantir um lugar ao sol, o governo acabou inconfessadamente se associando a ditaduras, ainda que não tenha trazido qualquer vitória internacional ou ganho concreto ao Brasil.
O governo Lula defendeu que países da periferia saiam do jugo dos EUA. Fez isso com a pretensão de expandir a influência brasileira no mundo mediante a relação especial que desenvolveu justamente com os desafetos de Washington, em sua maioria governos repressores de todo tipo. Para a diplomacia comandada pelo ministro Celso Amorim, os EUA de algum modo atrapalham a plena ascensão do Brasil, querendo limitálo à América do Sul.
As grandes potências temem que nações emergentes minem a ordem internacional na qual já ocupam posição privilegiada.
Tanto quanto os EUA e a Europa, na prática China e Rússia não gostariam que o Brasil ascendesse como uma potência mundial. Não é estranho, portanto, que o Brasil tenha ficado isolado no Conselho de Segurança da ONU, no qual as cinco potências se alinharam contra Ahmadinejad, incluindo a França, com quem estabelecemos parceria estratégica e passamos a importar material bélico fundamental, por exemplo, para a defesa do pré-sal.
Se o Brasil almeja de fato um assento permanente no principal foro de decisão político-militar do mundo, não seria conveniente polarizar com as potências que, ao final, podem vetá-lo. Não só isolados, podemos acabar também sendo excluídos de uma nova balança de poder. A ONU comemorará 70 anos em 2015. Seria uma excelente oportunidade para fazer as reformas multilaterais, desde que tenhamos uma estratégia diplomática mais consistente, capaz de explorar as brechas do sistema mediante propostas flexíveis.
Por sua vez, quando o governo avança em territórios longínquos acaba por descuidar-se da própria região. Colômbia e Venezuela tensionaram suas relações já bastante complicadas, e o Brasil não exerceu o mesmo empenho pela mediação se comparado à polêmica nuclear iraniana. Não podemos pretender uma liderança global sem exercê-la regionalmente, onde ela é mais possível.
Basta observar a evolução da ordem internacional para ver que um sistema de relações entre países não funciona bem, e pode acabar muito mal, quando se abdica da liderança política.
Evidentemente, o Brasil não deve alardear sua liderança, pois isso costuma gerar efeitos contrários. Mas tampouco devemos permitir ficar com o pior dos mundos, isto é, aumento da instabilidade regional, desgaste no campo dos direitos humanos e deterioração na qualidade das exportações.
Lembremos as sucessivas quedas no saldo da balança comercial, que em nada se coadunam com uma diplomacia realmente pragmática e interessada no pleno desenvolvimento do país.
Em vez de mandar carta aos países da ONU pedindo para aliviar a vida dos tiranos, o Itamaraty deveria considerar os efeitos perversos de longo prazo, relacionados a uma política externa que de algum modo apoia regimes de força.
A infeliz frase “negócios são negócios” pode um dia ser usada contra o Brasil, um país sem grande poder militar, com riquezas tão vastas quanto as suas vulnerabilidades.
Um mundo sem princípios não é do nosso interesse.
MARCELO COUTINHO é professor de Relações Internacionais da UFRJ.
Marcelo Coutinho
O Globo, 27.09.2010
Desde o início do governo Lula, o Brasil adotou um padrão novo de posicionamento em questões relacionadas aos direitos humanos, passando a votar a favor de países como Irã e Coreia do Norte.
Não foi a primeira vez que o Brasil beneficiou regimes de força, mas a partir de então consolidou uma política que destoou cada vez mais das nações democráticas. Houve um acentuado declínio nos valores da civilização na nossa política externa, embora os últimos meses de 2010 possam ser de regeneração benigna.
A partir do fim de 2008, a diplomacia brasileira recrudesceu seu novo comportamento, amplamente criticado pelos movimentos de defesa dos direitos humanos. Supostamente em nome de mais diálogo e menos politização, o governo passou a liderar um processo de revisão dos procedimentos na ONU, sugerindo que o mundo parasse de censurar os violadores contumazes.
Embora o discurso oficial se contradiga e oscile entre os ideais wilsonianos de paz e o pragmatismo amoral da realpolitik, a política externa está mais para a mal engendrada weltpolitik, caracterizada pela maior assertividade e pressa com que busca a projeção mundial.
No afã de aparecer como ator independente e garantir um lugar ao sol, o governo acabou inconfessadamente se associando a ditaduras, ainda que não tenha trazido qualquer vitória internacional ou ganho concreto ao Brasil.
O governo Lula defendeu que países da periferia saiam do jugo dos EUA. Fez isso com a pretensão de expandir a influência brasileira no mundo mediante a relação especial que desenvolveu justamente com os desafetos de Washington, em sua maioria governos repressores de todo tipo. Para a diplomacia comandada pelo ministro Celso Amorim, os EUA de algum modo atrapalham a plena ascensão do Brasil, querendo limitálo à América do Sul.
As grandes potências temem que nações emergentes minem a ordem internacional na qual já ocupam posição privilegiada.
Tanto quanto os EUA e a Europa, na prática China e Rússia não gostariam que o Brasil ascendesse como uma potência mundial. Não é estranho, portanto, que o Brasil tenha ficado isolado no Conselho de Segurança da ONU, no qual as cinco potências se alinharam contra Ahmadinejad, incluindo a França, com quem estabelecemos parceria estratégica e passamos a importar material bélico fundamental, por exemplo, para a defesa do pré-sal.
Se o Brasil almeja de fato um assento permanente no principal foro de decisão político-militar do mundo, não seria conveniente polarizar com as potências que, ao final, podem vetá-lo. Não só isolados, podemos acabar também sendo excluídos de uma nova balança de poder. A ONU comemorará 70 anos em 2015. Seria uma excelente oportunidade para fazer as reformas multilaterais, desde que tenhamos uma estratégia diplomática mais consistente, capaz de explorar as brechas do sistema mediante propostas flexíveis.
Por sua vez, quando o governo avança em territórios longínquos acaba por descuidar-se da própria região. Colômbia e Venezuela tensionaram suas relações já bastante complicadas, e o Brasil não exerceu o mesmo empenho pela mediação se comparado à polêmica nuclear iraniana. Não podemos pretender uma liderança global sem exercê-la regionalmente, onde ela é mais possível.
Basta observar a evolução da ordem internacional para ver que um sistema de relações entre países não funciona bem, e pode acabar muito mal, quando se abdica da liderança política.
Evidentemente, o Brasil não deve alardear sua liderança, pois isso costuma gerar efeitos contrários. Mas tampouco devemos permitir ficar com o pior dos mundos, isto é, aumento da instabilidade regional, desgaste no campo dos direitos humanos e deterioração na qualidade das exportações.
Lembremos as sucessivas quedas no saldo da balança comercial, que em nada se coadunam com uma diplomacia realmente pragmática e interessada no pleno desenvolvimento do país.
Em vez de mandar carta aos países da ONU pedindo para aliviar a vida dos tiranos, o Itamaraty deveria considerar os efeitos perversos de longo prazo, relacionados a uma política externa que de algum modo apoia regimes de força.
A infeliz frase “negócios são negócios” pode um dia ser usada contra o Brasil, um país sem grande poder militar, com riquezas tão vastas quanto as suas vulnerabilidades.
Um mundo sem princípios não é do nosso interesse.
MARCELO COUTINHO é professor de Relações Internacionais da UFRJ.
domingo, 26 de setembro de 2010
Uma cidade sustentavel no deserto - Masdar
In Arabian Desert, a Sustainable City Rises
By NICOLAI OUROUSSOFF
The New York Times, September 25, 2010
ABU DHABI, United Arab Emirates — Back in 2007, when the government here announced its plan for “the world’s first zero-carbon city” on the outskirts of Abu Dhabi, many Westerners dismissed it as a gimmick — a faddish follow-up to neighboring Dubai’s half-mile-high tower in the desert and archipelago of man-made islands in the shape of palm trees.
Designed by Foster & Partners, a firm known for feats of technological wizardry, the city, called Masdar, would be a perfect square, nearly a mile on each side, raised on a 23-foot-high base to capture desert breezes. Beneath its labyrinth of pedestrian streets, a fleet of driverless electric cars would navigate silently through dimly lit tunnels. The project conjured both a walled medieval fortress and an upgraded version of the Magic Kingdom’s Tomorrowland.
Well, those early assessments turned out to be wrong. By this past week, as people began moving into the first section of the project to be completed — a 3 ½-acre zone surrounding a sustainability-oriented research institute — it was clear that Masdar is something more daring and more noxious.
Norman Foster, the firm’s principal partner, has blended high-tech design and ancient construction practices into an intriguing model for a sustainable community, in a country whose oil money allows it to build almost anything, even as pressure grows to prepare for the day the wells run dry. And he has worked in an alluring social vision, in which local tradition and the drive toward modernization are no longer in conflict — a vision that, at first glance, seems to brim with hope.
But his design also reflects the gated-community mentality that has been spreading like a cancer around the globe for decades. Its utopian purity, and its isolation from the life of the real city next door, are grounded in the belief — accepted by most people today, it seems — that the only way to create a truly harmonious community, green or otherwise, is to cut it off from the world at large.
Mr. Foster is the right man for this kind of job. A lifelong tech buff who collaborated with Buckminster Fuller, he talks about architecture in terms of high performance, as if his buildings were sports cars. And to some extent his single-minded focus on the craft of architecture — its technological and material aspects — has been a convenient way of avoiding trickier discussions about its social impact. (It’s hard to imagine Mr. Foster embroiled in the kind of public battles over modern architecture that his former partner, Richard Rogers, has fought with the traditionalist Prince Charles in London.)
Not that Mr. Foster doesn’t have ideals. At Masdar, one aim was to create an alternative to the ugliness and inefficiency of the sort of development — suburban villas slathered in superficial Islamic-style décor, gargantuan air-conditioned malls — that has been eating away the fabric of Middle Eastern cities for decades.
He began with a meticulous study of old Arab settlements, including the ancient citadel of Aleppo in Syria and the mud-brick apartment towers of Shibam in Yemen, which date from the 16th century. “The point,” he said in an interview in New York, “was to go back and understand the fundamentals,” how these communities had been made livable in a region where the air can feel as hot as 150 degrees.
Among the findings his office made was that settlements were often built on high ground, not only for defensive reasons but also to take advantage of the stronger winds. Some also used tall, hollow “wind towers” to funnel air down to street level. And the narrowness of the streets — which were almost always at an angle to the sun’s east-west trajectory, to maximize shade — accelerated airflow through the city.
With the help of environmental consultants, Mr. Foster’s team estimated that by combining such approaches, they could make Masdar feel as much as 70 degrees cooler. In so doing, they could more than halve the amount of electricity needed to run the city. Of the power that is used, 90 percent is expected to be solar, and the rest generated by incinerating waste (which produces far less carbon than piling it up in dumps). The city itself will be treated as a kind of continuing experiment, with researchers and engineers regularly analyzing its performance, fine-tuning as they go along.
But Mr. Foster’s most radical move was the way he dealt with one of the most vexing urban design challenges of the past century: what to do with the car. Not only did he close Masdar entirely to combustion-engine vehicles, he buried their replacement — his network of electric cars — underneath the city. Then, to further reinforce the purity of his vision, he located almost all of the heavy-duty service functions — a 54-acre photovoltaic field and incineration and water treatment plants — outside the city.
The result, Mr. Foster acknowledged, feels a bit like Disneyland. “Disneyland is attractive because all the service is below ground,” he said. “We do the same here — it is literally a walled city. Traditional cars are stopped at the edges.”
Driving from downtown Abu Dhabi, 20 miles away, you follow a narrow road past an oil refinery and through desolate patches of desert before reaching the blank concrete wall of Masdar and find the city looming overhead. (Mr. Foster plans to camouflage the periphery behind fountains and flora.) From there a road tunnels through the base to a garage just underneath the city’s edge.
Stepping out of this space into one of the “Personal Rapid Transit” stations brings to mind the sets designed by Harry Lange for “2001: A Space Odyssey.” You are in a large, dark hall facing a row of white, pod-shaped cars lined up in rectangular glass bays. (The cars’ design was based on Buckminster Fuller’s proposal for a compact urban vehicle, the D-45, which helps explain their softly contoured, timelessly futuristic silhouettes.) Daylight spills down a rough concrete wall behind them, hinting at the life above.
The first 13 cars of a proposed fleet of hundreds were being tested the day I visited, but as soon as the system is up, within a few weeks, a user will be able to step into a car and choose a destination on an LCD screen. The car will then silently pull into traffic, seeming to drive itself. (There are no cables or rails.)
It’s only as people arrive at their destination that they will become aware of the degree to which everything has been engineered for high-function, low-consumption performance. The station’s elevators have been tucked discreetly out of sight to encourage use of a concrete staircase that corkscrews to the surface. And on reaching the streets — which were pretty breezy the day I visited — the only way to get around is on foot. (This is not only a matter of sustainability; Mr. Foster’s on-site partner, Austin Relton, told me that obesity has become a significant health issue in this part of the Arab world, largely because almost everyone drives to avoid the heat.)
The buildings that have gone up so far come in two contrasting styles. Laboratories devoted to developing new forms of sustainable energy and affiliated with the Massachusetts Institute of Technology are housed in big concrete structures that are clad in pillowlike panels of ethylene-tetrafluoroethylene, a super-strong translucent plastic that has become fashionable in contemporary architecture circles for its sleek look and durability. Inside, big open floor slabs are designed for maximum flexibility.
The residential buildings, which for now will mostly house professors, students and their families, use a more traditional architectural vocabulary. To conform to Middle Eastern standards of privacy, Mr. Foster came up with an undulating facade of concrete latticework based on the mashrabiya screens common in the region. The latticework blocks direct sunlight and screens interiors from view, while the curves make for angled views to the outside, so that apartment dwellers never look directly into the windows of facing buildings. Such concerns are also reflected in the layout of the neighborhood. Like many Middle Eastern university campuses, it is segregated by sex, with women and families living at one end and single men at the other. Each end has a small public plaza, which acts as its social heart.
Still, one wonders, despite the technical brilliance and the sensitivity to local norms, how a project like Masdar can ever attain the richness and texture of a real city. Eventually, a light-rail system will connect it to Abu Dhabi, and street life will undoubtedly get livelier as the daytime population grows to a projected 90,000. (Although construction on a second, larger phase has already begun, the government-run developer, the Abu Dhabi Future Energy Company, refuses to give a completion date for the city, saying only that it will grow at its own pace.)
But the decision of who gets to live and work in Masdar, as in any large-scale development, will be outside the architect’s control. That will be decided by the landlord, in this case, the government.
And even if it were to become a perfect little urban melting pot, Masdar would have only limited relevance to the world most people live in. Mr. Foster’s inspired synthesis of ancient and new technologies could well have applications elsewhere; it should be looked at closely by other architects. But no one would argue that a city of a few million or more can be organized with such precision, and his fantasy world is only possible as a meticulously planned community, built from the ground up and of modest size.
What Masdar really represents, in fact, is the crystallization of another global phenomenon: the growing division of the world into refined, high-end enclaves and vast formless ghettos where issues like sustainability have little immediate relevance.
That’s obviously not how Mr. Foster sees it. He said the city was intended to house a cross-section of society, from students to service workers. “It is not about social exclusion,” he added.
And yet Masdar seems like the fulfillment of that idea. Ever since the notion that thoughtful planning could improve the lot of humankind died out, sometime in the 1970s, both the megarich and the educated middle classes have increasingly found solace by walling themselves off inside a variety of mini-utopias.
This has involved not only the proliferation of suburban gated communities, but also the transformation of city centers in places like Paris and New York into playgrounds for tourists and the rich. Masdar is the culmination of this trend: a self-sufficient society, lifted on a pedestal and outside the reach of most of the world’s citizens.
By NICOLAI OUROUSSOFF
The New York Times, September 25, 2010
ABU DHABI, United Arab Emirates — Back in 2007, when the government here announced its plan for “the world’s first zero-carbon city” on the outskirts of Abu Dhabi, many Westerners dismissed it as a gimmick — a faddish follow-up to neighboring Dubai’s half-mile-high tower in the desert and archipelago of man-made islands in the shape of palm trees.
Designed by Foster & Partners, a firm known for feats of technological wizardry, the city, called Masdar, would be a perfect square, nearly a mile on each side, raised on a 23-foot-high base to capture desert breezes. Beneath its labyrinth of pedestrian streets, a fleet of driverless electric cars would navigate silently through dimly lit tunnels. The project conjured both a walled medieval fortress and an upgraded version of the Magic Kingdom’s Tomorrowland.
Well, those early assessments turned out to be wrong. By this past week, as people began moving into the first section of the project to be completed — a 3 ½-acre zone surrounding a sustainability-oriented research institute — it was clear that Masdar is something more daring and more noxious.
Norman Foster, the firm’s principal partner, has blended high-tech design and ancient construction practices into an intriguing model for a sustainable community, in a country whose oil money allows it to build almost anything, even as pressure grows to prepare for the day the wells run dry. And he has worked in an alluring social vision, in which local tradition and the drive toward modernization are no longer in conflict — a vision that, at first glance, seems to brim with hope.
But his design also reflects the gated-community mentality that has been spreading like a cancer around the globe for decades. Its utopian purity, and its isolation from the life of the real city next door, are grounded in the belief — accepted by most people today, it seems — that the only way to create a truly harmonious community, green or otherwise, is to cut it off from the world at large.
Mr. Foster is the right man for this kind of job. A lifelong tech buff who collaborated with Buckminster Fuller, he talks about architecture in terms of high performance, as if his buildings were sports cars. And to some extent his single-minded focus on the craft of architecture — its technological and material aspects — has been a convenient way of avoiding trickier discussions about its social impact. (It’s hard to imagine Mr. Foster embroiled in the kind of public battles over modern architecture that his former partner, Richard Rogers, has fought with the traditionalist Prince Charles in London.)
Not that Mr. Foster doesn’t have ideals. At Masdar, one aim was to create an alternative to the ugliness and inefficiency of the sort of development — suburban villas slathered in superficial Islamic-style décor, gargantuan air-conditioned malls — that has been eating away the fabric of Middle Eastern cities for decades.
He began with a meticulous study of old Arab settlements, including the ancient citadel of Aleppo in Syria and the mud-brick apartment towers of Shibam in Yemen, which date from the 16th century. “The point,” he said in an interview in New York, “was to go back and understand the fundamentals,” how these communities had been made livable in a region where the air can feel as hot as 150 degrees.
Among the findings his office made was that settlements were often built on high ground, not only for defensive reasons but also to take advantage of the stronger winds. Some also used tall, hollow “wind towers” to funnel air down to street level. And the narrowness of the streets — which were almost always at an angle to the sun’s east-west trajectory, to maximize shade — accelerated airflow through the city.
With the help of environmental consultants, Mr. Foster’s team estimated that by combining such approaches, they could make Masdar feel as much as 70 degrees cooler. In so doing, they could more than halve the amount of electricity needed to run the city. Of the power that is used, 90 percent is expected to be solar, and the rest generated by incinerating waste (which produces far less carbon than piling it up in dumps). The city itself will be treated as a kind of continuing experiment, with researchers and engineers regularly analyzing its performance, fine-tuning as they go along.
But Mr. Foster’s most radical move was the way he dealt with one of the most vexing urban design challenges of the past century: what to do with the car. Not only did he close Masdar entirely to combustion-engine vehicles, he buried their replacement — his network of electric cars — underneath the city. Then, to further reinforce the purity of his vision, he located almost all of the heavy-duty service functions — a 54-acre photovoltaic field and incineration and water treatment plants — outside the city.
The result, Mr. Foster acknowledged, feels a bit like Disneyland. “Disneyland is attractive because all the service is below ground,” he said. “We do the same here — it is literally a walled city. Traditional cars are stopped at the edges.”
Driving from downtown Abu Dhabi, 20 miles away, you follow a narrow road past an oil refinery and through desolate patches of desert before reaching the blank concrete wall of Masdar and find the city looming overhead. (Mr. Foster plans to camouflage the periphery behind fountains and flora.) From there a road tunnels through the base to a garage just underneath the city’s edge.
Stepping out of this space into one of the “Personal Rapid Transit” stations brings to mind the sets designed by Harry Lange for “2001: A Space Odyssey.” You are in a large, dark hall facing a row of white, pod-shaped cars lined up in rectangular glass bays. (The cars’ design was based on Buckminster Fuller’s proposal for a compact urban vehicle, the D-45, which helps explain their softly contoured, timelessly futuristic silhouettes.) Daylight spills down a rough concrete wall behind them, hinting at the life above.
The first 13 cars of a proposed fleet of hundreds were being tested the day I visited, but as soon as the system is up, within a few weeks, a user will be able to step into a car and choose a destination on an LCD screen. The car will then silently pull into traffic, seeming to drive itself. (There are no cables or rails.)
It’s only as people arrive at their destination that they will become aware of the degree to which everything has been engineered for high-function, low-consumption performance. The station’s elevators have been tucked discreetly out of sight to encourage use of a concrete staircase that corkscrews to the surface. And on reaching the streets — which were pretty breezy the day I visited — the only way to get around is on foot. (This is not only a matter of sustainability; Mr. Foster’s on-site partner, Austin Relton, told me that obesity has become a significant health issue in this part of the Arab world, largely because almost everyone drives to avoid the heat.)
The buildings that have gone up so far come in two contrasting styles. Laboratories devoted to developing new forms of sustainable energy and affiliated with the Massachusetts Institute of Technology are housed in big concrete structures that are clad in pillowlike panels of ethylene-tetrafluoroethylene, a super-strong translucent plastic that has become fashionable in contemporary architecture circles for its sleek look and durability. Inside, big open floor slabs are designed for maximum flexibility.
The residential buildings, which for now will mostly house professors, students and their families, use a more traditional architectural vocabulary. To conform to Middle Eastern standards of privacy, Mr. Foster came up with an undulating facade of concrete latticework based on the mashrabiya screens common in the region. The latticework blocks direct sunlight and screens interiors from view, while the curves make for angled views to the outside, so that apartment dwellers never look directly into the windows of facing buildings. Such concerns are also reflected in the layout of the neighborhood. Like many Middle Eastern university campuses, it is segregated by sex, with women and families living at one end and single men at the other. Each end has a small public plaza, which acts as its social heart.
Still, one wonders, despite the technical brilliance and the sensitivity to local norms, how a project like Masdar can ever attain the richness and texture of a real city. Eventually, a light-rail system will connect it to Abu Dhabi, and street life will undoubtedly get livelier as the daytime population grows to a projected 90,000. (Although construction on a second, larger phase has already begun, the government-run developer, the Abu Dhabi Future Energy Company, refuses to give a completion date for the city, saying only that it will grow at its own pace.)
But the decision of who gets to live and work in Masdar, as in any large-scale development, will be outside the architect’s control. That will be decided by the landlord, in this case, the government.
And even if it were to become a perfect little urban melting pot, Masdar would have only limited relevance to the world most people live in. Mr. Foster’s inspired synthesis of ancient and new technologies could well have applications elsewhere; it should be looked at closely by other architects. But no one would argue that a city of a few million or more can be organized with such precision, and his fantasy world is only possible as a meticulously planned community, built from the ground up and of modest size.
What Masdar really represents, in fact, is the crystallization of another global phenomenon: the growing division of the world into refined, high-end enclaves and vast formless ghettos where issues like sustainability have little immediate relevance.
That’s obviously not how Mr. Foster sees it. He said the city was intended to house a cross-section of society, from students to service workers. “It is not about social exclusion,” he added.
And yet Masdar seems like the fulfillment of that idea. Ever since the notion that thoughtful planning could improve the lot of humankind died out, sometime in the 1970s, both the megarich and the educated middle classes have increasingly found solace by walling themselves off inside a variety of mini-utopias.
This has involved not only the proliferation of suburban gated communities, but also the transformation of city centers in places like Paris and New York into playgrounds for tourists and the rich. Masdar is the culmination of this trend: a self-sufficient society, lifted on a pedestal and outside the reach of most of the world’s citizens.
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