sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Argentina: pagando o preco da moratoria unilateral de 2002

Em 2002, lembro-me de ter "discutido" com alguns colegas, amigos ou correspondentes, a propósito da moratória unilateral da Argentina sobre sua imensa dívida externa. Os "progressistas", ou antineoliberais, invariavelmente apoiavam a "corajosa" medida argentina, achando que era isso mesmo que era necessário e imprescindível, para que a Argentina pudesse voltar a crescer em bases mais sãs, e desprovidas da ameaça, e da obrigação contratual concreta, de remessa de milhões de dólares anuais a título de serviço da dívida (juros) e da amortização do principal.
Eu, que nunca fui neoliberal, ou algo do gênero, sempre argumentei que a Argentina pagaria um alto preço pelo calote unilateral imposto aos milhares de credores, muitos dos quais tiveram de aceitar o desconto humilhante imposto pelo governo argentino (apenas 30 centavos de dólar, por cada dólar da dívida contraída).
Pois bem, a despeito do spread altíssimo que a Argentina teria de pagar se quisesse retornar aos mercados financeiros, fui "desmentido" durante anos pelas taxas realmente robustas do crescimento da economia argentina, em parte mera recuperação das perdas de 2001-2001, em outra proporção, os estímulos temporários criados por vários anabolizantes ministrados a partir de sua introversão econômica dos anos K.
Mas, a economia nunca falha e, como diria um filósofo, as consequências sempre vêm depois. A Argentina está agora pagando o preço de seu enfrentamento com os mercados, com os tribunais, com os credores, com a simples realidade.
Só posso ser, nestas circunstâncias, um profeta do apocalipse: não haverá meios de evitar um desastre, e uma nova crise é o que desponta no futuro próximo do país.
Paulo Roberto de Almeida 

Argentina é condenada a pagar Credores

Justiça de NY determina que governo quite dívida de US$ 1,3 bilhão com fundos

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires 
O Estado de S.Paulo, 22 de novembro de 2012

BUENOS AIRES - O juiz federal americano Thomas Griesa, da Justiça de Nova York, determinou que a Argentina pague até 15 de dezembro US$ 1,3 bilhão aos credores da dívida pública do país que optaram por ficar de fora das duas reestruturações dos bônus, realizadas em 2005 e 2010 pelos governos de Néstor e Cristina Kirchner. A decisão de Griesa deve piorar a abalada imagem financeira do país no exterior.
Cristina Kirchner diz que não pretende pagar credores - Efe
Efe
Cristina Kirchner diz que não pretende pagar credores
Cristina considera esses credores, chamados de holdouts, "fundos abutres". Segundo ela, tratam-se de fundos de investimentos, assessorados por experientes times de advogados, que compram títulos a preços baixos para especular com esses bônus nos mercados e nos tribunais para obter melhores preços. A presidente argentina diz que não pretende pagá-los.
Era previsto que a Argentina pagasse US$ 3,14 bilhões aos credores dos títulos reestruturados em dezembro. Mas esse pagamento só pode ser feito, segundo a Justiça americana, depois que o governo deposite os US$ 1,3 bilhão em uma conta para os "abutres". Assim, embora conte com fundos para pagar os credores reconhecidos, a Argentina ficaria à beira de um calote técnico.
"A Argentina deve isso e o deve agora", declarou o juiz. Na terça-feira, o ministro da Economia da Argentina, Hernán Lorenzino, disse que, caso seja necessário, o governo Kirchner apelará à Corte Suprema dos EUA.
Fragata
Além dos problemas com o juiz Griesa, a Argentina vive um impasse jurídico com Gana, país da Costa da Guiné onde está retida a fragata Liberdade, o navio-escola argentino.
A embarcação foi detida há dois meses e meio - em plena viagem com seus cadetes - no porto de Tema, Gana, a pedido do fundo americano NLM-Elliot, que pediu o embargo desse ativo do Estado argentino como forma de pressionar pelo pagamento dos títulos em estado de calote.
Segundo o tribunal ganense, a fragata somente será liberada com o pagamento de um depósito de US$ 20 milhões. No entanto, a presidente Cristina declarou que não pagaria um centavo aos credores envolvidos. Além disso, Cristina exige que Gana indenize a Argentina e o pequeno país do Golfo da Guiné peça desculpas publicamente. 
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