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domingo, 12 de maio de 2019

A Internacional olavista - Duda Teixeira (Crusoe)


A Internacional olavista
Como Olavo de Carvalho se encaixa no movimento global que tenta empurrar a direita para o populismo nacionalista
Marina Dias/Folhapress

Olavo de Carvalho cumprimenta Steve Bannon, em março, ao lado de Eduardo Bolsonaro 10.05.19

Crusoe, n. 54

O presidente Jair Bolsonaro recebeu das urnas um mandato para combater a corrupção e resolver o problema da segurança pública. O estado de devastação deixado pelos governos anteriores do PT, com seus gastos sem controle, também o levou a aceitar a prescrição de remédios ortodoxos, como as privatizações, a reforma da Previdência e a redução da máquina pública. No conjunto, esses pilares seriam mais do que suficientes para colocar o atual governo no campo da direita liberal, a exemplo de outros da região, como os da Argentina, do Chile e da Colômbia. A ideia era que o discurso mais conservador na área comportamental, muito utilizado durante a campanha eleitoral, fosse apenas moldura. Mas, pressionado pelo escritor Olavo de Carvalho, o presidente parece ter perdido o controle sobre a ala mais ideológica do seu governo.
Este grupo, que entrou em conflito aberto com os militares nas últimas semanas, é composto por dois filhos do presidente, Eduardo e Carlos, o assessor especial do presidente para assuntos internacionais, Filipe Martins, e o chanceler Ernesto Araújo. Ao emplacar diversas nomeações, a ala fincou raízes principalmente no Itamaraty e no Ministério da Educação. Seus integrantes destilam uma esperada ojeriza à esquerda, ao PT e ao suposto domínio marxista nas instituições brasileiras. Mas vão mais além ao incluir em suas reivindicações um fervor de natureza religiosa que tenta incluir a disputa política doméstica numa campanha mundial em prol de valores judaico-cristãos e ideais ultranacionalistas. No entendimento dos envolvidos, eles seriam os escolhidos para redimir o povo, que foi ludibriado e submetido pelas elites, pela imprensa, pelo sistema político e pelas organizações internacionais. É com essas bandeiras extras, de alcance menor na população, que a ala ideológica do governo brasileiro se incorpora à onda liderada pelo americano Steve Bannon, o ex-estrategista que trabalhou para Donald Trump durante sua campanha e depois, por oito meses, na Casa Branca.
Em janeiro de 2017, mês em que Trump tomou posse em Washington, Bannon e o advogado Mischael Modrikamen, fundador do Parti Populaire (Partido Popular) na Bélgica, registraram em Bruxelas a organização The Movement (O Movimento). O objetivo da dupla era apoiar grupos populistas e nacionalistas na Europa e no resto do planeta. São três os eixos principais do Movimento: mais soberania para as nações que fazem parte de mercados únicos, ênfase contra o radicalismo islâmico e uma política rígida de fronteiras. Em agosto desse mesmo ano, Bannon foi demitido por Trump. Depois de chorar e de implorar para manter o cargo, ele passou a se dedicar com mais fervor à sua causa nacionalista e populista. A América Latina, que de início mal aparecia em seu mapa, acabou virando uma das maiores surpresas.
Bolsonaro venceu as eleições de 2018 com quase 58 milhões de votos. Sua vitória fez com que os contatos que já estavam sendo feitos com Eduardo Bolsonaro se intensificassem em velocidade vertiginosa. “Durante a campanha de Jair Bolsonaro, Steve Bannon deu conselhos para equipe do brasileiro, da mesma forma como ele fez durante a campanha de Donald Trump”, disse a Crusoé Mischael Modrikamen, parceiro de Bannon. “O Movimento enxerga Bolsonaro como um líder populista chave e sua eleição como parte da insurreição populista que vimos no Brexit e na eleição de Trump”. Em janeiro de 2019, após a posse de Bolsonaro, Bannon visitou a casa de Olavo de Carvalho no estado americano da Virgínia. Os dois vivem a duas horas de distância. Conversaram sobre a situação do Brasil e ao que consideram ameaças ao Ocidente. No mês seguinte, Bannon nomeou o deputado Eduardo Bolsonaro para ser líder do Movimento na América do Sul. Na viagem de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, em março, o primeiro evento da agenda foi um jantar na residência oficial do embaixador brasileiro em Washington, Sergio Amaral. Olavo de Carvalho e Steve Bannon estavam entre os convidados à mesa. “Olavo é um dos maiores intelectuais conservadores do mundo. O que ele prega é o que eu chamo de evangelho da verdade”, disse Bannon, em vídeo compartilhado nas redes sociais.
Afinados na ideologia, Olavo de Carvalho e Steve Bannon são personalidades com habilidades diferentes, mas complementares. “Minha impressão é a de que Olavo tem perfil mais intelectual, de professor, enquanto Bannon é, sobretudo, um operador político, um homem de ação”, diz o embaixador Rubens Ricupero. Há também uma distinção em relação aos interesses. Bannon olha muito mais para a Europa e para os Estados Unidos. Ele já afirmou que dedicaria 80% de seu tempo ao Velho Continente, que terá eleições para o Parlamento Europeu entre 23 e 26 de maio. Olavo de Carvalho, obviamente, tem os olhos voltados principalmente para o Brasil. “Ele tem a pretensão de promover uma revolução conservadora no país, que estaria dominado pelo marxismo cultural”, diz o especialista em relações internacionais Carlos Gustavo Poggio.
Nas batalhas retóricas dos últimos dias, o general Eduardo Villas Bôas, assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional que foi atacado por Olavo de Carvalho, chamou o escritor de “Trotski de direita” – uma comparação que, na verdade, se encaixaria muito mais ao figurino de Bannon do que ao do guru, cada vez mais identificado como o longa manus do plano mirabolante de Bannon na parte brasileira do Globo. “Bannon estaria muito mais próximo de Trotski, pois tem buscado mais ativamente a internacionalização de seu movimento através de uma espécie de revolução global permanente”, diz Poggio. “Olavo de Carvalho é apenas uma peça no xadrez do americano”. A  mais recente ofensiva do guru, que adora bater em Hamilton Mourão, teve como alvo o ministro da Secretaria de Governo, o general Carlos Alberto Santos Cruz. Sob a alçada do militar está a comunicação do Palácio do Planalto. Internamente, há quem veja nos ataques de Olavo de Carvalho um movimento orquestrado para que a ala mais ideológica do governo tome o controle não só da estrutura como da verba milionária da área. Vencer a resistência dos militares e passar a controlar o setor seria um atalho para amplificar, com dinheiro e organização, o ideário do grupo.
Para cumprir a missão que se atribuiu, o Movimento tem como proposta funcionar como um “clube”, abrigando sob o mesmo guarda-chuva líderes populistas para discutir e trabalhar juntos. “Os da esquerda e os globalistas já têm as suas plataformas: o Fórum de Davos, o Clube de Bildeberg, George Soros e sua Open Society Foundation e, em alguma medida, a União Europeia e as Nações Unidas”, diz Modrikamen. Mais do que promover reuniões, seus fundadores se propõem a prover estratégia de campanha, conexões e aconselhamento político para agremiações populistas nacionalistas dispostas a pagar pelos serviços. Para as eleições do Parlamento Europeu, o Movimento espera que esses partidos formem uma única bancada coesa dentro do Parlamento Europeu. “O grupo não seria chamado de Movimento, mas nós certamente o apoiaríamos”, diz o belga.
Com o objetivo de formar líderes populistas para o futuro, o Movimento iniciou na Itália outra empreitada. No Monastério de Trisulti, construído em 1204, Bannon pretende fundar a Academia do Ocidente Judaico-Cristão. Seria uma “escola de gladiadores para guerreiros culturais”, segundo seu coordenador, o inglês Benjamin Harnweel. O complexo histórico, que fica no alto de uma montanha, foi alugado por 100 mil euros por ano pela organização Dignitates Humanae Institute, de Harnweel. A localização, a duas horas de Roma, é simbólica. “Roma, além de Jerusalém e de Atenas, é o centro do Ocidente Judaico-Cristão”, diz Bannon. O primeiro curso piloto, que tem entre duas e quatro semanas de duração, está programado para este ano. As aulas devem incluir teologia, economia, história, filosofia e mídias digitais. Entre os professores, estaria Olavo de Carvalho. “Ele disse que seria uma honra juntar-se à universidade”, disse o americano ao jornal Financial Times. Para oferecer diplomas certificados de mestrado, Bannon está buscando uma parceria com uma universidade católica americana.
É na Itália que o Movimento mais tem obtido sucesso. Em agosto do ano passado, o vice-presidente e ministro do Interior, Matteo Salvini, assinou a entrada de seu partido, a Liga (ex-Liga Norte) no grupo de Bannon. A legenda está em franca ascensão. Das atuais seis cadeiras que ocupa no Parlamento Europeu, a Liga deve pular para 26. Outro partido de direita do país, a Fraternidade Italiana, de Georgia Meloni, também aderiu ao Movimento. Alinhado com Bannon, Salvini propôs a união de diversos partidos nacionalistas europeus em um único bloco no Parlamento Europeu, o Europa das Nações e Liberdade (ENF, na sigla em inglês). Entre os que já aderiram, está o francês Reunião Nacional, de Marine Le Pen. Juntos, os membros do ENF devem conseguir perto de 60 das 751 cadeiras do Parlamento em Bruxelas, cerca de 8% do total. Mas o Movimento também tem esbarrado em diversos obstáculos. No ano passado, o grupo divulgou que pretendia fazer uma convenção com vinte a trinta partidos populistas do mundo todo. O evento acabou adiado por falta de quórum.
“Esses partidos não precisam de Bannon para seguir adiante”, diz a socióloga Mabel Berezin, professora da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e estudiosa da política francesa e italiana. O Movimento não tem uma lista oficial de membros próprios, mas afirma ter feito acordos com três siglas. Além da Liga, de Salvini, e do Fraternidade Italiana, apenas um desconhecido partido de Montenegro, Movimento por Mudanças, integra a lista. “Bannon costuma exagerar a influência que de fato exerce na Europa. É certo que contatos ocorreram, mas ele não participa ativamente das campanhas. Bannon se comporta muito mais como um conselheiro informal”, diz o cientista político italiano Lorenzo Pregliasco, professor da Universidade de Bolonha e autor do livro O Fenômeno Salvini.
As especificidades da política europeia, bem mais heterogênea que a americana, também deve inviabilizar o crescimento do bloco de partidos nacionalistas, como gostaria o Movimento. Salvini e Le Pen, do ENF, têm tentado atrair o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, cujo partido, o Fidesz, pertence a outro bloco de direita, o Partido do Povo Europeu (EPP, na sigla em inglês). Orbán tem resistido a aceitar a proposta. Os poloneses do Partido Lei e Justiça também não pretendem se unir a Salvini e Le Pen. Isso porque ambos são próximos do russo Vladimir Putin, o que naturalmente causa desconfiança na Polônia. O Movimento 5 Estrelas, que governa a Itália em coalizão com a Liga de Salvini, também tem preferido ficar longe de Bannon e integrar outro bloco com o inglês Ukip. Os nacionalistas, ao final, deverão estar fragmentados em três blocos no Parlamento Europeu. A maior parte deles acha até contraditória a proposta de uma frente “internacional”. O fato de o Movimento ser liderado por um americano e ter a sede em Bruxelas, a cidade que é o símbolo da União Europeia, só piora as coisas.
A Academia do Ocidente Judaico-Cristão também se viu obrigada a redimensionar os seus planos. Para alugar o mosteiro, a organização ligada a Bannon alegou que tinha experiência na administração de museus, o que se provou falso. A Dignitates Humanae Institute não estava, ainda, legalmente registrada à época da negociação com o governo italiano — o que contraria a legislação. Moradores locais, anarquistas e ambientalistas têm protestado contra a chegada do Movimento. Eles alegam que Bannon, seus professores e alunos desvirtuariam o local, até então dedicado à paz e à contemplação. As finanças são outro buraco no caminho. O prefeito da vila medieval de Collepardo, aos pés da montanha, aplicou um imposto de 80 mil euros por ano aos novos locatários. Não há qualquer garantia de que conservadores do mundo inteiro se sentirão atraídos a estudar na Academia do Ocidente Judaico-Cristão, pagando entre 40 mil e 50 mil euros por curso. Bannon não convenceu outros patrocinadores a investir na instituição. Até agora, tudo tem saído do seu próprio bolso.
“Nossa perspectiva de crescimento é global”, diz o belga Modrikamen. “Vemos muito potencial em países como Japão, Israel, Paquistão, Estados Unidos e, claro, Brasil”, diz ele. O cumprimento desse objetivo, contudo, dependerá da habilidade de vencer barreiras. No Brasil, o papel de pedra no caminho tem sido desempenhado pelos militares, avessos à ideia de uma “internacional  nacionalista”. Daí os ataques constantes de Olavo de Carvalho aos integrantes das Forças Armadas que integram o governo. Em uma postagem no Facebook no dia 5 de maio, o general Paulo Chagas mandou um recado para a ala ideológica que se reúne em torno de Olavo de Carvalho. “Vejo o deslumbramento e o radicalismo da parte dos aliados que se julga a única representante e responsável por estes novos tempos que podemos vir a desfrutar. São, em sua maioria, pessoas bem intencionadas, mas que se tornaram pacientes de um processo de submissão passional e intelectual que as impede de entender a importância, a sensibilidade e a complexidade deste momento”, escreveu Chagas. “Que, pelo menos, nos motivemos para pensar sobre isto antes de pôr em risco a melhor oportunidade que já tivemos para alcançar o tal futuro que há tantas gerações estamos a perseguir’.

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