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quinta-feira, 9 de maio de 2019

A metafísica do antiglobalismo numa palestra no Instituto Rio Branco - Paulo Roberto de Almeida


Confirmado: política externa do bolsonarismo dominada pela paranoia dos antiglobalizadores metafísicos

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: resumo de palestra; finalidade: informação pública]


Realizou-se em 9 de maio de 2019, dia da rendição nazista às tropas da União Soviética, em 1945, palestra do assessor internacional da Presidência da República sobre o tema “Governança Global e autodeterminação popular”, realizada no Instituto Rio Branco, sob organização da Fundação Alexandre de Gusmão. Para quem esperava uma primeira oportunidade – sim, porque até o presente momento nunca houve tal possibilidade – de receber uma exposição sistemática e abrangente da “nova” política externa brasileira, sob o governo Bolsonaro, foi uma nova frustração, pois não ocorreu nenhum tratamento ou discussão da política externa, assim como nunca houve, sob qualquer aspecto que se examine, qualquer exposição, apresentação, explanação sobre todas as demais políticas setoriais ou sobre a política do governo, de maneira geral. Continuamos sem saber o que pensa o governo sobre sua estratégia global, sobre suas prioridades setoriais, suas preferências políticas ou inclinações práticas, a não ser pelos repentes que podem ser anunciados em torno de medidas enviadas ao Congresso pelo presidente e seus ministros. Assim continua também no caso da política externa.
Segundo a própria declaração inicial do assessor da Presidência da República para assuntos internacionais, sua palestra trataria de um “tema bastante específico, muito específico mesmo”, e que talvez não fizesse sentido, em suas palavras, “para certas pessoas” (talvez estivesse pensando em mim, mas não tenho certeza disso), que provavelmente se oporiam a suas opiniões. Em todo caso, para esse assessor, os temas são, provavelmente, os grandes temas da política internacional do século XXI, que estariam enfeixados na designação geral de “governança global”, supostamente oposta à “autodeterminação popular”, ambos conceitos jamais devidamente explicitados ao longo da palestra (e tampouco no subsequente debate com a audiência). A palestra foi subsidiada com a exibição de slides, na verdade apenas algumas fotos de líderes políticos, algumas frases em destaque de uns e outros – começando com o líder do Brexit britânico, depois passando a Trump e aos italianos da nova direita – e um ou outro esquema sobre as diferenças entre a globalização – processo julgado positivo – e o globalismo, supostamente a fonte de todo o mal.
Para o assessor bolsonarista, e olavista convencido, o mundo está em “desarranjo”, e a situação internacional parece ser “bastante confusa”, mas alguma coisa está mudando, justamente em função da vitória dos Brexiters, na Grã-Bretanha, do candidato Donald Trump, nos Estados Unidos, e de outros representantes da direita na Europa, agregando ao experimento já decenal de Viktor Orban na Hungria. Esses resultados podem estar ligados à crise econômica de 2008, mas não foi apresentada qualquer evidência para esse tipo de argumento. A vitória de Bolsonaro em outubro de 2018 também se inscreveria nessa trajetória de recusa dos povos da antiga “normalidade globalista”. A “explicação” dessa mudança foi apresentada por uma frase de Trump, como se ela encerrasse a chave explicativa dessa inclinação para a direita em diferentes países europeus e nas Américas: “We will no longer surrender this country, or its people, to the false songs of globalism”.
Sobre o globalismo, disse o assessor, existe muita especulação, e ele pretendia trazer uma nova abordagem desse conceito, para sustentar sua visão pessoal sobre esse “desarranjo” atual no mundo. Se no século XX, a grande luta foi entre a democracia liberal e o totalitarismo, no século XXI a luta seria entre a democracia liberal e o globalismo. Ele deu exemplo, em seguida, de grandes líderes “nacionalistas” do século XX, para sustentar sua defesa de um novo nacionalismo, que não se confundiria com o nacionalismo causador das grandes guerras globais cem anos atrás e até a metade do século XX: Thatcher, Reagan, Gandhi ou Ben Gurion. O nacionalismo, para o assessor, teria suas virtudes, inclusive a de não ser imperialista, o que é pelo menos estranho, no confronto de amplas evidências históricas. O nacionalismo também seria contrário a movimentos ou processos políticos centralizadores, outra asserção estranha, uma vez que suas ideias estariam difusas dentro da nação.
O ponto principal de sua argumentação, porém, é o de que as populações não mais querem um projeto globalizante, e sim um movimento conservador moderno. A causa do globalismo, que em nenhum momento recebeu comprovação empírica de sua existência concreta, estaria nas “elites pensantes”, todas elas comprometidas com a emergência, afirmação e consolidação de estruturas globais de governança, quando o que se manifesta agora é o desejo dos povos de retomar o controle sobre os processos decisórios nacionais. Não faltaram invectivas contra o Iluminismo, promotor de uma “mentalidade revolucionária” que teria operado “três inversões básicas”: a primeira seria de ordem cronológica, quando o passado se torna futuro, e passa a projetar ideias globalistas baseadas numa sociedade sem classes (marxista) ou dominada pela ideia de superioridade racial (não precisa dizer quem seria); a segunda seria uma “inversão moral”, de que se pode fazer de tudo para acelerar o futuro, com base numa “teoria” supostamente de fundo maquiavélico, segundo a qual os “fins justificam os meios” (pobre Maquiavel); a terceira inversão seria a do sujeito-objeto, cabendo então novas objeções aos promotores do Iluminismo, que desembocou no Diretório, e no Terror da Revolução francesa.
O globalismo seria exatamente um episódio da mentalidade revolucionária, segundo uma “teologia do progresso” (que seria o materialismo dialético de Marx). Existiriam muitas justificativas para o globalismo, entre elas nada menos que o bem-estar e a prosperidade, ademais de diversas outras, que levariam à “corrosão da tradição religiosa”, à “ditadura das organizações internacionais” e a imposição de “autoridades biônicas” (sic).
Felizmente, o governo Bolsonaro surgiu para, a exemplo de Trump e vários colegas, “defender a população do globalismo”, que opera uma “instrumentação político-ideológica” do processo de globalização, para efetuar a “transferência do eixo do poder para um corpo difuso de burocratas internacionais”. Como disse o presidente no seu discurso aos jovens diplomatas formandos no dia 3 de maio, eles não podem deixar que o Brasil seja definido de fora; os diplomatas têm de entender o Brasil, para impedir que ele seja “definido de fora, com base em ideias e interesses alheios”. Suponho que tenha sido o próprio assessor internacional quem escreveu esse discurso para o presidente, pois ele repetiu as mesmas ideias duas ou três vezes. Graças ao governo Bolsonaro, portanto, o Brasil estaria bem posicionado para se defender do globalismo, como também para entender e enfrentar o “mundo desarranjado”.
Na parte das perguntas e respostas, outras precisões foram introduzidas, como a confirmação da convergência do Brasil com alguns governos que possuem a mesma visão do mundo, nomeadamente a Itália e os países do grupo de Visegrad, com destaque para a Hungria de Viktor Orban (ironicamente com estudos numa universidade fundada por George Soros, atualmente o seu grande inimigo globalista). Aliás, graças a essa postura, os países do grupo de Visegrad “não enfrentaram a crise de 2008”.

O que se pode depreender desse tipo de exposição autocongratulatória – afinal de contas, os diplomatas brasileiros deveriam agradecer aos novos dirigentes o fato de estarem salvando o Brasil, sua política externa e sua diplomacia dos males do globalismo – é que temos um grupo de alucinados no comando da política externa. Eles querem nos fazer crer, sem trazer qualquer evidência concreta, empiricamente fundamentada, de que existe um real perigo de o Brasil perder sua soberania sob os golpes conspiratórios das elites globalistas multilaterais e seus aliados nacionais. Não existem dúvidas nesse grupo de metafísicos antiglobalistas: o globalismo existe, estava sendo implementado, e quem não concorda com essa visão é porque é globalista, algo próximo a ser traidor da pátria. Trata-se de uma surpreendente inversão do ônus da prova, ou seja, nós, diplomatas normais, é que teríamos de provar a não existência dessa coisa nefasta que se chama globalismo.
Não tenho muito a acrescentar sobre o que eu mesmo penso da globalização e do globalismo, adicionalmente ao que já escrevi no final de 2017, num trabalho que se encontra disponível em meu blog: “Globalismo e globalização: os bastidores do mundo”, Brasília, 7/12/2017, 8 p. Notas preparadas para uma entrevista a um programa da série Brasil Paralelo, sobre os conceitos de globalização e de globalismo; blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2017/12/globalizacao-e-globalismo-como.html). Esse antiglobalismo paranoico tem sua origem em algumas ideias estapafúrdias daquele a quem já chamei de sofista da Virginia e de Rasputin de subúrbio, de quem o assessor presidencial se declarou um admirador confesso e devotado, além do próprio chanceler atual, que criou um blog deliberadamente contrário ao que ele também acusa de ser um complô mundial em favor do multilateralismo. Mas, estranhamente, o dito chanceler nunca havia demonstrado, em anos e anos de carreira diplomática mais ou menos normal, qualquer pendor para essas ideias bizarras do guru escatológico do governo atual, tendo a elas aderido de maneira oportunista, provavelmente para ganhar, justamente, o cargo de chanceler, no qual tem se mostrado, um seguidor fiel, embora desequilibrado, dessa mística antiglobalista, que me parece ser totalmente contrária ao sentido geral da atividade diplomática, ademais de ser, como já afirmado, um monstro metafísico totalmente desprovido de evidências fáticas.
Pode-se dizer, portanto, que a política externa brasileira continuará a ser dominada por essa paranoia surrealista de seguidores de um confuso personagem que conquistou corações e mentes entre as atuais lideranças políticas. Ou seja, infelizmente, continuaremos a ser objetos do ridículo universal (e não apenas por isso). Um dia isso tudo passa, mas até lá teremos de conviver com essa confusão mental confirmada pela palestra do assessor presidencial em assuntos internacionais.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 9 de maio de 2019

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