segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Desindustrialização, Brasil em Retrocesso (Estadão)

 

DESINDUSTRIALIZAÇÃO, PAÍS EM RETROCESSO!

O Estado de S. Paulo, 03/08/2022 

Completados dez anos de recuo da produção industrial, o Brasil continua firme na desindustrialização, sem uma política desenhada para recuperar e modernizar o setor. Só uma pessoa notavelmente desinformada confundiria com política industrial a mera redução – além de tudo, mal planejada e confusa – do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Política de desenvolvimento, geral ou setorial, envolve um trabalho muito mais complexo e muito distante das práticas observadas, em Brasília, a partir de 2019. Envolve definição de metas, elaboração de diagnósticos, fixação de etapas e uma clara identificação de recursos e de processos necessários. A indústria instalada no País fechou o primeiro semestre produzindo 18% menos que em maio de 2011, pico da série histórica em uso pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A reação ao tombo de 2020, quando o Brasil enfrentou a primeira fase da pandemia, logo se esgotou. A produção cresceu 3,9% em 2021, sem compensar o recuo de 4,5% ocorrido no ano anterior. A partir daí, a atividade prosseguiu de forma insegura. Em junho, o setor produziu 0,4% menos do que em maio, depois de quatro meses consecutivos de expansão, e 0,5% menos que em dezembro do ano passado. Além disso, ficou 1,5% abaixo do patamar pré-pandemia, em fevereiro de 2020. O balanço geral do semestre foi negativo, com produção 2,2% inferior à de um ano antes. Em 12 meses o recuo acumulado foi de 2,8% em relação ao período anterior.

Alguns poderão atribuir as dificuldades da indústria a circunstâncias especiais, como a guerra na Ucrânia e a pandemia de covid-19. A atividade tem sido realmente afetada, no Brasil e em vários outros países, por desarranjos na cadeia de suprimentos. Têm faltado insumos, os custos têm subido e as consequências são bem visíveis em vários segmentos industriais. Além disso, negócios têm sido prejudicados, em todos os setores, por problemas conjunturais, como a inflação interna, os juros altos e o consumo prejudicado pelo desemprego e pela erosão da renda familiar.

Todos esses desafios são reais, mas o enfraquecimento da indústria, no Brasil, começou muito antes da pandemia, da invasão da Ucrânia e do recente surto inflacionário internacional. Em seis dos dez anos entre 2012 e 2021 houve recuo da produção industrial, segundo o IBGE. Não houve apenas diminuição do volume produzido. Houve também estagnação da capacidade produtiva, da tecnologia e do potencial de inovação, por falta de investimento em capital físico, isto é, em máquinas, equipamentos e instalações. Excetuados alguns segmentos e grupos empresariais, competitivos e em permanente avanço, o panorama geral é de enfraquecimento da indústria.

O retrocesso começou com erros de política econômica. Protecionismo excessivo, desperdício de recursos com “campeões nacionais”, capitalização deficiente, crédito caro, insuficiente esforço de pesquisa, pouco empenho na qualificação de mão de obra, infraestrutura ineficiente, insegurança jurídica e tributação disfuncional são problemas listados, há muitos anos, em estudos de competitividade.

Governos petistas deram pouca atenção à eficiência competitiva. Depois, passada a recessão de 2015-2016, houve um esforço de recuperação econômica e algum empenho em modernização institucional, mas a atividade novamente se estagnou a partir de 2019 e as noções de planejamento, de modernização produtiva e de metas de desenvolvimento sumiram da pauta governamental. Alguns analistas parecem ter confundido o abandono das ideias de metas e planos com uma opção pelo liberalismo.

Com a desindustrialização do País, abandonam-se conquistas acumuladas em um século de esforços de ampliação e de modernização do sistema produtivo – importantes também, é preciso lembrar, para a consolidação de um agronegócio eficiente e competitivo. Talvez se possa retomar o caminho da modernização a partir de 2023, se o próximo governo for capaz de pensar nos interesses mais amplos do Brasil e de ir além do voluntarismo e do populismo.


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