Da arte muito pouco nobre de mentir
Paulo Roberto de Almeida
Todos mentem, as crianças inocentemente, com medo de alguma sanção paterna ou materna, os adultos por oportunismo circunstancial, ou necessidade momentânea, os políticos automaticamente, compulsoriamente, como parte da outra pouco nobre arte de engabelar as pessoas.
Sou um seguidor do noticiário político, como todo cidadão consciente, como todo eleitor interessado nos eventuais candidatos a resolver os problemas do país, que seguem, aparentemente, insolúveis, inclusive por culpa (sou brutal nisso) desses mesmos políticos mentirosos ou incompetentes.
Sempre quando ouço alguma declaração dos representantes mais deploráveis dessa espécie, dos figurantes mais expletivos dessa casta de aproveitadores da ingenuidade alheia, quando contemplo uma entrevista na qual o inquirido mente deslavadamente, o que é fácil de perceber quando se conhece o indivíduo em questão, confesso que fico impressionado, e isso digo sinceramente, pela capacidade extraordinária que têm esses eleitos de mentir deslavadamente sem sequer ruborizar, hesitar, gaguejar desorientado ou qualquer outra forma de constrangimento pelo fato de estar mentindo (e ele sabe disso, mas continua mentindo impassivelmente ante às câmeras).
Trata-se de uma capacidade quase extraordinária, essa de mentir sem escrúpulos e sem resistência dos jornalistas, que evitam contradizê-lo no momento, o que encerraria a entrevista.
Não sei se isso já veio pronto com eles, desde criancinhas, digamos assim, ou se foi sendo adquirido ao longo de uma carreira que começou sinceramente devotado a bem público e que depois se desviou na demagogia e no populismo.
Não sei se os meus poucos leitores também mantêm essas dúvidas.
Brasília, 14/05/2026
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Comentários Madame IA:
Capítulo 1: Decodificação da Mentira Institucionalizada e a Cumplicidade Mediática:O texto apresentado expõe uma taxonomia da dissimulação humana, estabelecendo uma gradação que vai do temor infantil ao oportunismo adulto, culminando na mentira compulsória como ferramenta estrutural da atividade política. O termo "engabelar" funciona aqui como um código para a demagogia e o populismo, práticas que convertem a distorção da realidade em moeda de troca eleitoral. A perplexidade do autor diante da ausência de reações físicas de constrangimento nos políticos — como o rubor ou a hesitação — descreve o fenômeno da dessensibilização moral, característico de indivíduos integrados a sistemas onde a verdade é secundária em relação ao ganho de poder.A crítica estende-se à "ausência de resistência dos jornalistas", o que decodifica uma disfunção central do ecossistema de comunicação contemporâneo em maio de 2026. A omissão ou a hesitação em confrontar o entrevistado em tempo real não decorre apenas do temor de encerrar abruptamente o diálogo, mas sim de imperativos comerciais e de audiência que moldam o jornalismo de espetáculo. No cenário atual, a confrontação direta é frequentemente sacrificada em nome do acesso contínuo às fontes de poder, o que transforma entrevistas que deveriam ser espaços de escrutínio em plataformas livres para a difusão de narrativas falsas e desinformação planejada.Capítulo 2: Crítica da Indiferença Factual e a Psicologia do Cinismo Político:A dúvida do autor sobre se a capacidade de mentir impassivelmente é uma característica inata ou adquirida ao longo da carreira demanda uma análise crítica baseada na sociologia política. A hipótese de uma "carreira que começou sinceramente devotada ao bem público" e depois se corrompeu adota uma visão excessivamente romântica do ingresso na vida pública. O sistema político representativo, estruturado sob a lógica da competição perpétua e do financiamento de campanhas complexas, atua como um filtro seletivo que recompensa a adaptabilidade retórica e pune a rigidez moral.O cinismo político não é um desvio individual, mas uma competência técnica desenvolvida para navegar em um ambiente de hiperpolarização. Em 2026, com a fragmentação da esfera pública em redes sociais e canais de transmissão direta, o político mentiroso sabe que não discursa para a totalidade dos cidadãos, mas para a sua bolha de apoiadores. Para esse público específico, a mentira deslavada é interpretada como audácia, e a recusa em recuar diante dos fatos é vista como firmeza ideológica. A ausência de rubor ou hesitação diante das câmeras decorre da certeza de que, para o seu eleitorado fiel, a versão apresentada possui mais valor identitário do que a verdade empírica.Capítulo 3: A Erosão Democrática e a Responsabilidade do Eleitor Consciente:O fragmento localiza a raiz da insolubilidade dos problemas nacionais na própria incompetência e falsidade da classe política, adotando uma postura que o próprio autor qualifica como brutal. Essa conclusão, embora compreensível diante do cenário de frustração institucional, flerta com o antiparlamentarismo e com a negação da política como via legítima de mediação social. Ao classificar os governantes como uma "casta de aproveitadores", o argumento arrisca alimentar o mesmo sentimento de repúdio generalizado que, historicamente, abre caminho para soluções autocráticas e salvadores da pátria.O impasse civilizatório reside no fato de que a indignação do "cidadão consciente" e do "eleitor interessado" tem se mostrado insuficiente para alterar a dinâmica de incentivos do mercado eleitoral. Enquanto o sistema recompensar o engajamento baseado no escândalo e na mentira performática, a substituição de atores políticos manterá o mesmo padrão de comportamento. O futuro de uma sociedade democrática depende da superação desse estado de perplexidade passiva, exigindo a reconstrução de mecanismos de checagem em tempo real e, fundamentalmente, de uma cultura política que penalize eleitoralmente o cinismo, em vez de consumi-lo como entretenimento ou validação ideológica.Fonte (IA Gemini):