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terça-feira, 25 de agosto de 2026

O direito de ser Ucrânia - Bruno Fernando Riffel (ID)

O direito de ser Ucrânia

Em português, inglês e ucraniano



A Ucrânia ocupou um lugar central nos projetos políticos de Hitler e Stalin. O historiador Timothy Snyder ressalta esse aspecto ao examinar o século XX. Stalin via o território ucraniano como peça-chave da coletivização agrícola e da industrialização soviética. Hitler pretendia convertê-lo no celeiro de um império racial alemão. Projetos totalitários distintos fixaram ali suas ambições continentais e produziram morte em massa. De 1933 a 1945, poucos lugares no mundo foram tão hostis.

A invasão russa em larga escala, iniciada em fevereiro de 2022, retomou, sob condições históricas distintas, a disputa pela soberania ucraniana. Em agosto de 2026, novos ataques russos atingiram Kyiv, Kryvyi Rih e outras cidades, matando e ferindo numerosos civis. A Ucrânia precisa vencer, pois sua derrota legitimaria uma pretensão muito maior do que a conquista de territórios: o poder de uma potência definir o futuro político de um povo menor.

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A Ucrânia possui falhas institucionais, conflitos políticos e problemas internos, como toda democracia real. Nenhuma deficiência doméstica autoriza outro Estado a invadir seu território, redesenhar fronteiras ou escolher seu futuro. Na Rússia, o autoritarismo transforma cidadãos em súditos. No plano externo, o imperialismo procura submeter o povo ucraniano à sua submissão. 

A evolução recente do campo de batalha enfraqueceu a narrativa de uma derrota ucraniana inevitável, como demonstrou Anne Applebaum em artigo publicado pelo The Atlantic, em junho de 2026. O uso intensivo de drones, sensores e sistemas modernos de vigilância ampliou a capacidade ucraniana de detectar movimentos inimigos, dificultando avanços convencionais russos em vários trechos da frente. Além disso, a Ucrânia aprofundou ataques estratégicos contra refinarias, depósitos e infraestruturas vitais ligadas ao esforço de guerra do agressor. A Rússia conserva vantagens materiais e permanece capaz de causar destruição em larga escala; sua vitória definitiva, contudo, perdeu a aparência de desfecho inevitável.

Grande parte da resiliência ucraniana surgiu de baixo para cima, com empresas, engenheiros, programadores, voluntários e militares trabalhando em estreita colaboração. Regimes autoritários concentram decisões no topo de estruturas hierárquicas. Sociedades abertas, por sua vez, distribuem conhecimento, iniciativa e capacidade de adaptação. Essa diferença possui valor estratégico inestimável.

Por essa razão, a vitória precisa ser compreendida primeiro em termos políticos e, depois, territoriais. Se a Ucrânia continuar governada por suas próprias instituições, com liberdade para escolher alianças e orientação externa, o objetivo central da invasão russa terá fracassado. Putin pode ocupar parcelas do território pela força, sem adquirir autoridade legítima sobre a identidade política, a vontade coletiva ou o futuro do povo ucraniano.

Uma democracia pode começar a perder a guerra bem antes de uma derrota militar, caso seus aliados aceitem sua queda como inevitável. Esse aspecto altera a própria discussão acerca da paz. Um cessar-fogo pode tornar-se necessário no curto prazo, e uma linha de frente pode permanecer congelada por anos. Converter uma ocupação militar temporária em direito político permanente premiaria a agressão e abriria um precedente para novos conflitos.

Desde 1945, uma norma fundamental sustenta o direito internacional: fronteiras soberanas não devem ser redesenhadas pela força das armas. 

A Ucrânia tornou-se, assim, uma prova decisiva para a democracia liberal no século XXI. Nenhum povo livre deve ser privado do direito de escolher governo, alianças e futuro por decisão unilateral de uma autocracia. A Ucrânia precisa continuar sendo Ucrânia. Nisso consiste sua vitória.


THE RIGHT TO BE UKRAINE

Ukraine occupied a central place in the political projects of Hitler and Stalin. The historian Timothy Snyder emphasises this point in his examination of the twentieth century. Stalin regarded Ukrainian territory as a key element in agricultural collectivisation and Soviet industrialisation. Hitler intended to turn it into the breadbasket of a German racial empire. Distinct totalitarian projects fixed their continental ambitions there and produced mass death. From 1933 to 1945, few places in the world were as hostile to human life.

The full-scale Russian invasion, launched in February 2022, revived, under different historical circumstances, the struggle over Ukrainian sovereignty. In August 2026, new Russian attacks struck Kyiv, Kryvyi Rih and other cities, killing and injuring numerous civilians. Ukraine must prevail, because its defeat would legitimise a claim far greater than the conquest of territory: the power of a major state to determine the political future of a smaller nation.

Ukraine has institutional weaknesses, political conflicts and internal problems, as every real democracy does. No domestic failing entitles another state to invade its territory, redraw its borders or choose its future. In Russia, authoritarianism turns citizens into subjects. Abroad, imperialism seeks to subject the Ukrainian people to its rule.

Recent developments on the battlefield have weakened the narrative of an inevitable Ukrainian defeat, as Anne Applebaum argued in an article published in The Atlantic in June 2026. The intensive use of drones, sensors and modern surveillance systems has increased Ukraine’s ability to detect enemy movements, making conventional Russian advances more difficult along several sections of the front. Ukraine has also intensified strategic attacks on refineries, depots and vital infrastructure linked to the aggressor’s war effort. Russia retains material advantages and remains capable of inflicting destruction on a vast scale; its ultimate victory, however, no longer appears to be an inevitable outcome.

Much of Ukraine’s resilience has emerged from the bottom up, with companies, engineers, programmers, volunteers and military personnel working in close collaboration. Authoritarian regimes concentrate decision-making at the top of hierarchical structures. Open societies, by contrast, distribute knowledge, initiative and the capacity to adapt. That difference has immense strategic value.

For this reason, victory must be understood first in political terms and only then in territorial ones. If Ukraine continues to be governed by its own institutions, free to choose its alliances and foreign-policy orientation, the central objective of the Russian invasion will have failed. Putin may occupy parts of its territory by force, but he cannot thereby acquire legitimate authority over the political identity, collective will or future of the Ukrainian people.

A democracy can begin to lose a war long before suffering military defeat if its allies come to regard its fall as inevitable. This changes the very terms of the discussion about peace. A ceasefire may become necessary in the short term, and a front line may remain frozen for years. To turn a temporary military occupation into a permanent political right would reward aggression and establish a precedent for future conflicts.

Since 1945, a fundamental principle has underpinned international law: sovereign borders must not be redrawn by force of arms.

Ukraine has therefore become a decisive test for liberal democracy in the twenty-first century. No free people should be deprived of the right to choose its government, its alliances and its future by the unilateral decision of an autocracy. Ukraine must remain Ukraine. That is what its victory means.

 

sábado, 25 de julho de 2026

O Leviatã sem rosto - João Francisco Lobato (Inteligência Democrática) + síntese por Madame IA

O Leviatã sem rosto

Alinhamento autocrático global, a metamorfose chinesa e a erosão da democracia liberal

João Francisco Lobato 



João Francisco Lobato, Inteligência Democrática (25/07/2026)

“É a própria banalidade do mal que o torna tão aterrorizante” — Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém

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Péter Magyar subiu na sacada às 23h47 do dia 12 de abril de 2026. Abaixo, a Praça da Liberdade era um mar de bandeiras azuis e flashes de celular. Dezoito meses antes, ele fundara o Tisza. Agora o partido acabava de conquistar 141 dos 199 assentos do parlamento húngaro — maioria de dois terços.

Viktor Orbán, o primeiro-ministro que durante dezesseis anos chamara seu regime de “democracia iliberal”, já havia fugido do palácio pela porta dos fundos. Sem discurso. Sem banda. Sem tanques.

Para muitos, a cena era a prova de que a democracia ainda podia vencer.

Mas a prova era local, não global.

O Leviatã do século XXI não tem rosto único. Não se encarna num Führer, nem num partido com ideologia definida, nem numa potência hegemônica com projeto imperial clássico. Manifesta-se como uma holding difusa — rede descentralizada de interesses cleptocráticos, vigilância algorítmica e alianças de conveniência, cuja força reside justamente em sua ausência de rosto.¹

O ensaio que segue investiga a metamorfose chinesa, a coordenação inédita entre regimes autoritários e os mecanismos pelos quais este sistema corrói as democracias liberais por dentro.

Uma virada de época

O que a cena húngara escondia, porém, era um cenário global que se movia na direção oposta. Em 2026, pela primeira vez desde 1978 — quando o V-Dem Institute iniciou sua série histórica — as autocracias superaram numericamente as democracias no planeta. O dado marca o fim simbólico do ciclo que se expandira a partir da “terceira onda” democratizante dos anos 1970. A novidade não é apenas numérica: pela primeira vez, esta superioridade vem acompanhada de coordenação inédita entre regimes — transferência de tecnologia de vigilância, alinhamento diplomático e militar.

O Democracy Report 2026 do V-Dem documenta 92 regimes autocráticos contra 87 democracias. Cerca de 74% da população mundial — 6 bilhões de pessoas — vive sob regime autoritário, o nível mais alto da série histórica. Apenas 7% da humanidade reside em democracias liberais. As autocracias respondem por 46% do PIB global. São números ponderados por população — distinção importante porque China e Índia, juntas, concentram mais de um terço da humanidade.²

A trajetória sepulta uma profecia. Durante décadas, a “teoria da modernização” — formulada por Seymour Martin Lipset em O Homem Político — sustentava que o desenvolvimento econômico levaria inevitavelmente à democratização. Przeworski e Diamond já a contestavam antes do “desmentido chinês”. Ela permanecia, ainda assim, uma narrativa de conforto: o futuro pertencia à liberdade.

A China demonstrou que esta correlação não é uma lei da história, mas uma contingência. Crescer a taxas elevadas por quatro décadas enquanto se aperfeiçoam o controle político, a vigilância em massa e a repressão de toda dissidência — o “capitalismo autoritário” chinês criou um polo de atração para quem prefere ordem sem liberdade ao que percebe como o caos da democracia.

A Freedom House, em Freedom in the World 2026, registra o vigésimo ano consecutivo de declínio da liberdade global. O número de países classificados como “livres” está no menor nível desde 1973.

O V-Dem chama de “episódios de autocratização” os processos em que regimes se tornam progressivamente menos democráticos por erosão gradual — não por golpe súbito. Em 2025, 62 países estavam em transformação de regime, a maioria no sentido autocrático. Seis dos dez novos países em autocratização estão na Europa e na América do Norte: Itália, Reino Unido, Croácia, Eslováquia, Eslovênia e Estados Unidos. O Liberal Democracy Index dos EUA caiu 24% em um ano (de 0,75 para 0,57), fazendo o país perder seu status de democracia liberal — deterioração que os pesquisadores suecos descrevem como sem precedentes para uma democracia ocidental consolidada.

Houve reversões, também. A Polônia reverteu o retrocesso do PiS em 2023; o Brasil reverteu o autoritarismo pela via eleitoral sem ruptura; a Hungria seguiu caminho similar em 2026. O quadro não é um colapso linear, mas uma contração em ondas.

O que se observa não é acidental nem cíclico. É a emergência de uma rede autoritária global coordenada, que erode as democracias liberais por dentro e por fora — por guerra híbrida, coerção econômica, desinformação em massa, exportação de tecnologias de vigilância e sedução intelectual de um modelo alternativo de governança. É neste cenário que a ascensão chinesa adquire seu significado mais profundo: não apenas como potência econômica, mas como principal expoente desse sistema autocrático.

A metamorfose chinesa: como o partido abraçou o capitalismo sem abandonar a ditadura

As reformas de Deng Xiaoping, no final dos anos 1970, marcam o ponto de inflexão. Deng entendeu o comunismo econômico não como pilar de sustentação do Partido, mas como obstáculo. A estratégia foi engenhosa: abandonar o socialismo na economia, preservar o monopólio político.

A “economia de mercado socialista” é uma contradição que a retórica oficial nunca resolveu. A agricultura foi descoletivizada; empresas estatais foram privatizadas em massa — o premier Zhu Rongji demitiu mais de 30 milhões de trabalhadores entre 1998 e 2002. O capital estrangeiro foi recebido em larga escala. Emergiu uma classe de bilionários privados — uma das mais prósperas do mundo.

Yasheng Huang (MIT), em Capitalism with Chinese Characteristics, demonstra que a China adotou a economia de mercado mais rapidamente que muitas nações que sempre se consideraram liberais — com a diferença de que seu modelo é político: o Estado e o Partido mantêm controle sobre os setores estratégicos. Minxin Pei, em China’s Crony Capitalism, argumenta que o país desenvolveu uma vertente de compadrio na qual as conexões políticas determinam o sucesso econômico. O Partido não é mais o representante do proletariado; tornou-se a própria burguesia.

Por que ainda se chama “comunista”? O nome é uma âncora de legitimidade histórica, não uma descrição do programa econômico. O PCC deriva sua legitimidade da revolução que trouxe unidade e soberania à China após um século de humilhação colonial. Abandonar o nome seria abandonar esta fonte de legitimidade — e abrir espaço para questionamentos sobre seu monopólio do poder. “Socialismo com características chinesas” é uma fórmula propositalmente vaga, que acomoda qualquer transformação econômica sem jamais enfrentar a questão democrática. Martin Wolf observa que o PCC aprendeu a lição da queda da URSS com clareza implacável: o erro de Gorbachev foi a abertura política, não a reforma econômica. A China faria o oposto: reforma econômica total, controle político absoluto. O nome “comunista” é o penhor de que o capitalismo chinês jamais se tornará democrático.

Evitemos, no entanto, um essencialismo: Pequim opera como revisionista seletiva. Em tecnologia, governança digital, Tibete e Taiwan, busca mudar as regras; em comércio, clima e saúde global, aceita e depende das regras existentes. A China opera dentro da OMC, do FMI e de mecanismos multilaterais — sua economia depende dos mercados ocidentais. Esta dualidade — cooperativa em algumas dimensões, conflitiva em outras — torna a resposta ocidental complexa.

O retrato do Leviatã chinês seria incompleto sem suas rachaduras internas. A bolha imobiliária — a maior da história — deixou um rastro de dívidas podres (Evergrande, Country Garden) que o Partido administra com injeções controladas de liquidez, sem resolver a causa. A população chinesa encolheu pela primeira vez em 2022 — o primeiro declínio desde a fome do Grande Salto Adiante — e, em 2024, registrou o terceiro ano consecutivo de queda (2022, 2023 e 2024); a força de trabalho diminui enquanto a pirâmide etária se inverte. O 20º Congresso do PCC (outubro de 2022) eliminou os últimos contrapesos internos ao poder de Xi Jinping — o que estabiliza o regime no curto prazo, mas o torna refém de uma única liderança sem sucessão desenhada. Em Xinjiang, o maior programa de vigilância étnica do mundo produziu eficiência repressiva e isolamento diplomático. A contradição do modelo chinês é esta: para sustentar a estabilidade que vende como produto, o regime precisa de um crescimento que não consegue mais garantir. O Leviatã chinês é forte enquanto a economia cresce. Quando desacelera — e os sinais estão todos ali — a holding descobre que controle político não substitui produtividade.

Autocracia, Inc.: a rede de sobrevivência mútua

Anne Applebaum publicou em 2024 o livro Autocracia, Inc.: Os Ditadores Que Querem Governar o Mundo. A tese central: as autocracias contemporâneas não operam isoladamente; formam uma holding integrada que compartilha técnicas de repressão, transfere recursos, vende tecnologia de controle social e se protege mutuamente em organismos internacionais. “Uma autocracia que observa outra autocracia sendo derrubada por uma revolução democrática sabe que pode ser a próxima”, escreve Applebaum. Esta consciência da vulnerabilidade compartilhada cria uma solidariedade negativa que transcende diferenças ideológicas, culturais e históricas.

O livro não está imune a críticas. A tese da coordenação consciente pode superestimar o quanto há de estratégia centralizada e subestimar o quanto há de simples difusão por imitação — software de vigilância não precisa de conspiração para se espalhar; basta mercado. Tampouco a perspectiva pós-colonial encontra espaço na análise: para muitos países do Sul Global, a “exportação de democracia” soa como repetição de uma ingerência histórica, não como ruptura. Isto não legitima as autocracias — ajuda a explicar por que o discurso antiliberal encontra audiência onde o Ocidente queimou sua credibilidade.

Apesar das ressalvas, a intuição central permanece. Se o poder autocrático clássico tinha um rosto (o ditador, o partido, a ideologia), o contemporâneo opera como holding sem presidente visível, cujas subsidiárias atuam em mercados diferentes, mas compartilham o balanço. A China fornece o capital e a tecnologia de vigilância; a Rússia, as operações de desinformação; o Irã, a desestabilização regional; a Coreia do Norte, a proliferação de armas; Venezuela e Cuba, a retórica antiamericana e os votos multilaterais. Juntos, formam um sistema autoritário que se retroalimenta.

Esta rede não é nova — a URSS e a China já se coordenavam contra o Ocidente. A novidade é a escala, a complexidade tecnológica e a ausência de competição ideológica clara. Durante a Guerra Fria, o conflito era entre dois sistemas de crenças. Hoje, a coalizão autocrática não oferece ideologia positiva: oferece apenas a negação — antiliberalismo, antiocidentalismo, antipluralismo. O denominador comum não é uma visão do que o mundo deve ser, mas um consenso sobre o que não deve ser. É esta ausência de ideologia positiva que torna o Leviatã contemporâneo escorregadio: não se pode derrotá-lo no campo das ideias porque ele não oferece ideias — oferece interesses e ressentimentos.

O alinhamento CRINK e a arquitetura do poder autocrático

A queda de Orbán foi real — e foi local. O quadro global, no mesmo instante, seguia na direção oposta. Analistas geopolíticos cunharam o acrônimo CRINK — China, Rússia, Iran, North Korea — para designar o núcleo duro deste bloco. “Eixo” é impreciso: sugere coordenação formal tipo Pacto de Varsóvia. Mais preciso é falar em alinhamento tático — coordenação bilateral e temática entre países com agendas próprias, frequentemente divergentes. Estudos do CSIS e do CNAS (2025) documentam o aprofundamento do alinhamento em múltiplas dimensões.

Na dimensão militar: exercícios conjuntos, transferência de tecnologia — drones iranianos para a Rússia, mísseis norte-coreanos para o Irã, componentes chineses para a indústria de defesa russa — e compartilhamento de inteligência. A guerra da Ucrânia, já no quarto ano em 2026, catalisa o processo: a Coreia do Norte enviou projéteis e cerca de 11 mil soldados; o Irã forneceu centenas de drones Shahed; a China forneceu componentes eletrônicos e mercado de exportação.

Na economia: sistemas de pagamento alternativos ao SWIFT — o CIPS chinês, o SPFS russo. O comércio bilateral China-Rússia atingiu US$ 228 bilhões em 2025, com queda de 6,9% em relação a 2024 — a primeira contração desde 2020, sugerindo tetos estruturais.

Na diplomacia: coordenação de votos na ONU, com “veto cruzado” no Conselho de Segurança. Cada país vota segundo seus interesses — que coincidem, mas não são idênticos.

Na tecnologia — e aqui a abstração ganha carne — a cena se passa num escritório da Huawei em Daca. Um engenheiro mostra ao ministro do Interior bengali o painel que identifica rostos em tempo real. O software custou 12 milhões de dólares. O ministro sorri.

A cena se repete em mais de 700 cidades em mais de 100 países. O Strauss Center (China’s Authoritarian Exports, 2025) documenta que a Huawei fornece “soluções de cidade segura” que incluem reconhecimento facial, censura algorítmica, firewalls nacionais e bancos biométricos para Rússia, Irã e dezenas de outros regimes. As agendas de cada membro seguem direções próprias — a sobreposição é parcial, o que torna o alinhamento tático, não duradouro.³

Na fronteira entre Índia e China, os soldados não precisam de permissão dos generais para se enfrentar. Desde 2020, em passes de alta altitude no Himalaia — Galwan, Depsang, Gogra —, eles trocam golpes de barra de ferro, pedras e cassetes. Não há tiros — os dois lados sabem que uma escalada real fugiria ao controle. O que há são ossos quebrados, dedos amputados pelo frio, e o silêncio diplomático de Pequim e Nova Déli, que preferem não nomear o que acontece lá em cima. É o CRINK por dentro: a China e a Índia são parceiros no BRICS e adversários na crista do mundo, e a holding não tem mecanismo para resolver a contradição.

A América Latina costuma ser subestimada na literatura sobre o CRINK. Cuba, Venezuela e Nicarágua — o “triângulo autoritário” latino-americano — funcionam como satélites diplomáticos do bloco.

A Fundação Pulaski (Varsóvia, 2025) documenta no relatório The Axis of Upheaval como a guerra da Ucrânia aprofundou o alinhamento: a Rússia isolada voltou-se para a China como fonte de crédito e tecnologia; a China extraiu concessões da dependência russa; o Irã tornou-se fornecedor de drones em troca de tecnologia nuclear e caças Sukhoi; a Coreia do Norte trocou mísseis por alimentos, combustível e tecnologia espacial.

A USCC, em seu relatório anual de 2025, denominou o fenômeno Axis of Autocracy.

A este núcleo somam-se círculos concêntricos de diferentes graus de adesão. No círculo mais próximo, satélites consolidados: Bielorrússia, satélite russo; Cuba, Venezuela e Nicarágua; Síria; Mianmar, Laos e Vietnã. Num segundo círculo, regimes que oscilam entre o bloco autocrático e o Ocidente conforme a conveniência — entre eles, as monarquias do Golfo (Arábia Saudita, Emirados), além de Egito e Argélia. São autoritários em casa — e dependem de alianças ocidentais para segurança e comércio, o que os torna parceiros táticos do CRINK, não satélites permanentes. Na África, Angola, Uganda, RDC, Ruanda e Guiné Equatorial. Na Ásia Central, Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão e Tajiquistão. Na Europa, a Turquia de Erdoğan atua como cavalo de Troia do autoritarismo dentro da OTAN.

A queda de Orbán foi um revés para a coalizão autocrática, mas não alterou a trajetória do núcleo CRINK.

O BRICS como arena diplomática

A principal ferramenta de articulação política do bloco autocrático é o BRICS, que passou por expansão dramática a partir de 2024. Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados tornaram-se membros plenos em janeiro daquele ano; a Indonésia aderiu em 2025.

O bloco representa 49,5% da população mundial, cerca de 40% do PIB global (em PPP) e 26% do comércio internacional. Números que pedem cautela: em PIB nominal e tecnologia avançada, o bloco é menor que sua retórica sugere — a China sozinha responde por mais da metade do PIB do BRICS em PPP. Dos onze membros plenos, nove são regimes abertamente autoritários. As duas únicas democracias — a África do Sul e o Brasil — são democracias eleitorais sob forte tensão. O Brasil vive em clima permanente de polarização que contamina cada decisão de política externa. Sob Lula (2023-2026), o país ocupa uma posição ambivalente: participa do BRICS ao lado de autocracias sem romper as alianças ocidentais que parte expressiva do eleitorado e do Congresso defende com fervor. A aposta no multilateralismo pragmático é real; a coesão interna para sustentá-la, frágil.

O BRICS funciona menos como bloco coeso do que como arena diplomática. As divergências internas são profundas: Irã e Arábia Saudita competem por hegemonia no Oriente Médio; Egito e Etiópia disputam os recursos do Nilo.⁴

A desdolarização tem realização modesta — o comércio intrabloco ainda usa o dólar em mais de 80% das transações.

O “Sul Global” é o nome novo de uma realidade que o Ocidente chamava de Terceiro Mundo — o rebranding trocou a definição pela carência por uma identidade geopolítica. Hoje, esta retórica tornou-se o véu ideológico do realinhamento autoritário. Para Applebaum, o clube tornou-se, para muitos de seus membros, não um projeto de libertação — um negócio.

Esta crítica, no entanto, corre o risco de soar tão unilateral quanto a retórica que combate. Intelectuais como o camaronês Achille Mbembe e o indiano Pankaj Mishra lembram que o Ocidente liberal tem um histórico real de intervenções militares, golpes patrocinados e hipocrisia diplomática — do Iraque à Líbia, do apoio a ditaduras anticomunistas à seletividade com que aplica seus próprios valores. Este histórico não justifica o autoritarismo: explica por que o discurso antiliberal encontra audiência no Sul Global. Ele não vence pelo mérito intrínseco, mas porque explora mágoas reais. Ignorar esta camada é fazer uma análise tão empobrecedora quanto a que reduz o mundo a “democracia versus tirania” sem perguntar quem financiou os tiranos.

Reconhecer a hipocrisia ocidental, no entanto, não é o mesmo que absolver o autoritarismo. É precisamente esta zona de ambiguidade moral que o bloco autocrático explora: enquanto o Ocidente se enreda em suas próprias contradições, a erosão avança por dentro das democracias — por mecanismos que não dependem de justificação moral para operar.

A arquitetura da erosão

O sistema autocrático não precisa conquistar as democracias pela força militar. A estratégia mais eficaz é a erosão molecular das instituições democráticas por dentro.

Levitsky e Ziblatt, em Como as Democracias Morrem (2018), mostraram que as democracias contemporâneas não morrem com tanques nas ruas, mas pela eleição de líderes autoritários que usam o aparato democrático para desmantelá-lo. Desse processo, quatro mecanismos merecem destaque.

O primeiro é a exportação de tecnologia de vigilância e censura. Polyakova e Meserole (Brookings) chamam o fenômeno de “autoritarismo digital”. Huawei, ZTE e Dahua vendem sistemas para mais de 100 países. O software Pegasus, da NSO Group, é vendido a regimes que o usam contra opositores, jornalistas e ativistas.

O segundo é a captura cognitiva por plataformas digitais. Num prédio sem placa em São Petersburgo, a Agência de Pesquisa da Internet ocupa um andar inteiro de concreto cinzento — cortinas sempre fechadas, ar-condicionado ligado mesmo no inverno siberiano, o zumbido baixo de servidores e monitores. Dentro, duzentas pessoas dividem turnos de doze horas numa sala de luz fluorescente que não vê o sol. Cada uma opera dezenas de perfis falsos: fotos roubadas de perfis reais de Oregon e Ohio, biografias copiadas de cidadãos que nunca saberão que existem num banco de dados russo. Escrevem comentários, fabricam indignação, semeiam discórdia entre americanos que discutem vacinas, imigrantes, eleições. O algoritmo do TikTok e do X faz o resto: amplifica, viraliza, polariza. O produto final não é uma mentira específica — é a destruição da própria categoria de verdade. O objetivo não é convencer ninguém de coisa alguma; é tornar impossível saber no que acreditar. Timothy Snyder capturou a lógica: “A pós-verdade é pré-fascismo.” Este ecossistema de desinformação, porém, não opera no vácuo — encontra nas big techs ocidentais um amplificador involuntário, mas estrutural, que constitui o terceiro mecanismo.

O terceiro é o papel das big techs ocidentais — capítulo que a literatura sobre erosão democrática frequentemente ignora. As plataformas sediadas no Vale do Silício são cúmplices objetivas do fenômeno que descrevem: seus algoritmos de engajamento maximizam a indignação, não a informação; seu modelo de negócio remunera a viralização da mentira; sua moderação errática oscila entre o laissez-faire e a censura arbitrária. Não se trata de má-fé — trata-se de arquitetura. O design das plataformas acelera a erosão que regimes autocráticos exploram, com ou sem coordenação direta. Um ensaio sobre a morte lenta da democracia que olha apenas para Pequim e Moscou está contando metade da história; a outra metade está num escritório em Menlo Park cujo produto é a atenção radicalizada. Big techs ocidentais e aparelhos de desinformação autocráticos não precisam de coordenação — o resultado é o mesmo: a morte lenta da democracia por dentro.

O quarto mecanismo é a sedução intelectual do “modelo chinês”: crescimento acelerado, ordem social estável, ausência de conflitos políticos. Opera por demonstração, não por conspiração.

O que funciona: democracia como resiliência

A força do Leviatã sem rosto é também sua fragilidade. Uma holding difusa não tem lealdade — tem conveniência. Quando os interesses divergem — e divergem, como demonstram os golpes de barra de ferro na fronteira indochinesa e a competição saudita-iraniana — a coordenação se desfaz mais rápido que se formou. O CRINK não sobreviveria a uma crise que exigisse sacrifício real de seus membros: a China quer expansão comercial; a Rússia quer segurança territorial; o Irã quer influência regional; a Coreia do Norte quer a sobrevivência do regime. São quatro agendas que se cruzam, mas não se fundem. O Leviatã sem rosto é forte enquanto ninguém lhe pedir que mostre o rosto.

A queda de Orbán não foi acidental, nem produto de fatores externos. O regime húngaro implodiu pelo mesmo mecanismo que o sustentara por dezesseis anos: a concentração de poder. Ao eliminar todos os contrapesos, Orbán tornou o Estado refém de seu próprio desempenho — e quando a economia desacelerou e os escândalos se acumularam, não havia instituição que o protegesse. A Polônia em 2023 e o Brasil no mesmo ano ensinaram a mesma lição: a via eleitoral funciona quando a sociedade civil, o judiciário e a imprensa resistem o suficiente para que o voto ainda signifique alguma coisa. A Ucrânia sob invasão mostrou algo mais profundo: democracias mobilizam lealdade voluntária; autocracias extraem obediência forçada. Uma sustenta exércitos; a outra, exércitos de vigilância.

O Brasil, em particular, é um caso que merece atenção. Em 2023, o país reverteu um projeto autoritário em curso pela via eleitoral — e, diferentemente de outras democracias que enfrentaram retrocesso semelhante, fê-lo sem ruptura institucional, sem intervenção militar, sem mediação internacional. O Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral funcionaram como contrapesos que grande parte da literatura de ciência política, muitas vezes cética quanto ao papel do Judiciário em democracias jovens, não previa (exceções como Tom Ginsburg e Diana Kapiszewski à parte).⁵ Essa atuação, porém, não esteve isenta de controvérsias: constitucionalistas como Conrado Hübner Mendes e Oscar Vilhena Vieira apontam que o STF adotou postura ativista, extrapolando competências constitucionais em decisões monocráticas e na interpretação de regras eleitorais, alimentando o discurso de deslegitimação que dizia combater. O contraponto institucional funcionou — mas o preço foi a judicialização da política e o tensionamento adicional entre os Poderes. A democracia brasileira não saiu fortalecida do processo — mas não sucumbiu. O que, em 2026, já é uma forma de vitória.

Applebaum oferece três frentes de resposta. A primeira é cognitiva: nomear o fenômeno não como “competição entre potências”, mas como confronto entre sistemas políticos fundamentalmente distintos. A segunda é estratégica: reconstruir uma política de contenção. A terceira é doméstica: reconstruir a democracia em casa. Martin Wolf, por sua vez, lembra que a maior ameaça à democracia liberal não vem de fora, mas de dentro — e que nenhuma política externa de contenção substitui a saúde das instituições domésticas.

A holding difusa se desfaz quando alguém pede que ela mostre o rosto. O que estava em jogo na Praça da Liberdade em Budapeste, na madrugada de 12 de abril de 2026, não era apenas a derrota de Orbán. Era a demonstração de que sociedades livres, quando lembram o que são, ainda podem vencer. Resta saber se esta geração terá memória — e, mais do que memória, instituições à altura do que está sendo lembrado.

Notas

¹ O Leviatã, na obra de Hobbes (1651), é a metáfora do Estado como gigante artificial. O uso aqui é deliberadamente irônico: o Leviatã contemporâneo não é uno, mas difuso. O autor escreve de dentro da tradição democrática liberal ocidental, e esta posição tem limites que reconhece: leitores de outras tradições — pós-coloniais, realistas, não ocidentais — podem identificar pressupostos que não estão aqui explicitamente problematizados.

² Os dados do V-Dem e da Freedom House, embora criticados por possível viés eurocêntrico, permanecem como os padrões mais rigorosos disponíveis.

³ Cada membro do CRINK persegue objetivos próprios que frequentemente colidem — a sobreposição é parcial, o que torna o alinhamento tático, não duradouro.

⁴ A classificação da Índia como autocracia eleitoral pelo V-Dem é controvertida: o país mantém eleições competitivas, judiciário atuante e imprensa vibrante — características que muitos classificariam como democracia imperfeita.

⁵ A literatura especializada não é unânime no ceticismo: autores como Tom Ginsburg (University of Chicago) e Diana Kapiszewski (Georgetown University) estudaram o papel contramajoritário do Judiciário em democracias jovens e em transição, oferecendo contraponto ao diagnóstico predominante que o texto descreve.

Referências

APPLEBAUM, Anne. Autocracia, Inc.: Os Ditadores Que Querem Governar o Mundo. Lisboa: Bertrand Editora, 2024.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

HUANG, Yasheng. Capitalism with Chinese Characteristics. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

LIPSET, Seymour Martin. O Homem Político. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

PEI, Minxin. China’s Crony Capitalism. Cambridge: Harvard University Press, 2016.

POLYAKOVA, Alina; MESEROLE, Chris. “Exporting Digital Authoritarianism”. Brookings Institution Policy Brief, 2019.

SNYDER, Timothy. Sobre a Tirania. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

WOLF, Martin. A Crise do Capitalismo Democrático. Lisboa: Gradiva, 2023.

Relatórios

CSIS. A New CRINK Axis of China, Russia, Iran and North Korea? 2025.

CNAS. The Axis of Upheaval: Military Cooperation Among Russia, China, Iran, and North Korea. 2025.

FREEDOM HOUSE. Freedom in the World 2026: The Growing Shadow of Autocracy. 2026.

PULASKI FOUNDATION. The Axis of Upheaval: Russia, PRC, DPRK, and Iran. 2025.

STRAUSS CENTER. China’s Authoritarian Exports. Austin, 2025.

USCC. “Axis of Autocracy”. Relatório Anual, nov. 2025.

V-DEM INSTITUTE. Democracy Report 2026: Unraveling The Democratic Era? 2026.

Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores.

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Reescreva o texto do link https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/o-leviata-sem-rosto-inteligencia.html ("O Leviatã sem rosto - João Francisco Lobato (Inteligência Democrática)") usando, no máximo, 4400 caracteres. 

Abaixo está a versão condensada do ensaio "O Leviatã sem rosto", de João Francisco Lobato, mantendo o rigor conceitual em menos de 4400 caracteres:
O Leviatã sem rosto: Alinhamento autocrático e a erosão da democracia liberal
Em 12 de abril de 2026, Péter Magyar assumiu o parlamento húngaro após o Tisza conquistar dois terços dos assentos, forçando a fuga de Viktor Orbán, o ideólogo da "democracia iliberal". O episódio deu a ilusão de vitória da democracia, mas o cenário global move-se na direção oposta. Em 2026, pela primeira vez desde 1978, as autocracias superaram numericamente as democracias. O Democracy Report 2026 do V-Dem documenta 92 autocracias contra 87 democracias, abrigando 74% da população mundial. Apenas 7% da humanidade reside em democracias liberais. [1, 2, 3, 4]
O Leviatã contemporâneo não possui o rosto de um Führer ou de um império clássico; atua como uma holding difusa de interesses cleptocráticos, vigilância algorítmica e alianças de conveniência. Esse avanço sepulta a teoria da modernização de Seymour Martin Lipset, que atrelava o desenvolvimento econômico à democratização inevitável. A China provou o contrário: o "capitalismo autoritário" gerou forte crescimento mantendo controle político absoluto. O PCC trocou o socialismo econômico pelo livre mercado, mantendo o rótulo comunista apenas como âncora de legitimidade histórica e monopólio do poder. Aprendendo com o colapso da URSS, Pequim implementou reforma econômica total com controle político absoluto. [1, 2, 3, 4, 5]
Contudo, o modelo exibe rachaduras estruturais: a bolha imobiliária insolvente (Evergrande), o encolhimento demográfico e a centralização radical sob Xi Jinping, eliminando contrapesos sucessórios. [1]
Autocracia, Inc. e o Alinhamento CRINK
Em Autocracia, Inc. (2024), Anne Applebaum aponta que os ditadores modernos operam em rede para sobrevivência mútua. No núcleo duro está o alinhamento tático CRINK (China, Rússia, Irã e Coreia do Norte). Não há um pacto formal, mas sim uma coordenação temática espelhada na Guerra da Ucrânia: mísseis e tropas norte-coreanas, drones iranianos e componentes eletrônicos chineses abastecem o esforço de guerra russo. [1, 2, 3]
Economicamente, criam alternativas ao sistema ocidental, como os mecanismos de pagamento SPFS e CIPS. Tecnicamente, a China exporta o "autoritarismo digital" por meio de empresas como a Huawei, fornecendo inteligência artificial e reconhecimento facial para mais de 100 países. [1, 2]
A principal arena política desse bloco é o BRICS ampliado. Reunindo quase metade da população mundial, nove de seus onze membros são regimes autoritários. O Brasil ocupa posição ambivalente sob Lula: integra o bloco ao lado de autocracias sem romper com as alianças ocidentais, operando sob forte polarização doméstica. [1, 2, 3]
Mecanismos de Erosão e Resiliência
Conforme Levitsky e Ziblatt (Como as Democracias Morrem), a erosão atual ocorre por vias legais internas. Destacam-se: [1]
  1. Autoritarismo digital: Exportação de softwares espiões (Pegasus) e firewalls estatais.
  2. Guerra de Desinformação: Fábricas de trolls russas que fabricam indignação algorítmica para destruir a noção de verdade factual.
  3. Cumplicidade das Big Techs: Plataformas ocidentais cujo modelo de negócios monetiza o engajamento radicalizado e a polarização. [1, 2, 3]
Apesar do avanço autocrático, o sistema exibe fragilidades. Como aliança de pura conveniência comercial e de segurança, o CRINK carece de coesão ideológica ou sacrifício real mútuo. Exemplos como a Polônia e o Brasil demonstram que as instituições democráticas e a sociedade civil conseguem reverter projetos autoritários por vias eleitorais. [1]
No caso brasileiro, o STF e o TSE agiram como contrapesos cruciais, embora juristas apontem controvérsias no ativismo judicial e na extrapolação de competências monocráticas. Em 2026, a sobrevivência institucional do Brasil configura uma vitória contra o retrocesso. A holding autocrática se desfaz quando as sociedades livres resgatam a memória e a saúde de suas instituições domésticas. [1, 2]

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