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domingo, 7 de julho de 2019

Acordo MSul-UE: a visao do negociador principal - Caio Junqueira (Crusoe)

Hora do dever de casa

Marcos Troyjo, o secretário do Ministério da Economia encarregado de negociar o acordo comercial com a União Europeia, diz que o Brasil precisa aprovar as reformas para tirar o melhor proveito possível da parceria

Adriano Machado/Crusoe"O primeiro grande acordo comercial que o Brasil tem de fazer depois desse com a União Europeia é com ele mesmo"05.07.19
Quando o secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marco Troyjo, embarcou na semana passada para Bruxelas, na Bélgica, mesmo quem acompanha de perto o dia a dia da pasta não acreditava que ele poderia voltar de lá com um troféu importante. Com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, o chanceler Ernesto Araújo e representantes de países que integram o Mercosul, Troyjo sentou-se à mesa com comissários da União Europeia para tentar arrematar uma conversa iniciada havia duas décadas. Deu certo. O acordo comercial entre o Mercosul e o bloco de países europeus foi anunciado na tarde da última sexta-feira, 28, ao cabo de três dias de reuniões.
Basicamente, o acerto zera tarifas e prevê a liberalização do comércio de serviços dos dois lados. A expectativa é de que, a partir do que ficou definido no texto, que ainda precisará ser aprovado pelo Parlamento Europeu, pelos parlamentos de cada país da UE e pelos congressos dos quatro países do Mercosul, só o PIB brasileiro tenha um aumento de 500 bilhões de reais em dez anos. Economista, cientista político e diplomata, Troyjo observa que, para que os resultados apareçam, e os reflexos na economia brasileira sejam os melhores possíveis, é preciso que o país faça o seu dever de casa, a começar pela aprovação da reforma da Previdência e da reforma tributária. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Por que o Mercosul demorou tanto tempo para fechar um acordo comercial com a União Europeia?
Apesar da negociação ter começado 20 anos atrás, é um erro dizer que ela durou 20 anos. Houve vários períodos em que nada avançou. E agora avançou.
Por quê?
Primeiro, vamos ao ambiente externo. O que estávamos fazendo no Brasil em termos de comércio exterior? Vendendo mais para a China. Só que vieram as crises de 2008 e 2011 e houve uma desaceleração do crescimento chinês. Além disso, outros fornecedores começaram a entrar pesado no mercado mundial. Começou, então, a haver mais competição e voltou a conversa aqui de que precisávamos diversificar nosso mercado. Ocorreu, então, mais um fenômeno: o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia). Muitos avaliaram que geraria um efeito dominó por toda a Europa. Outros, o contrário: que haveria mais coesão no bloco europeu, o que, aparentemente, aconteceu. A União Europeia, para mostrar que estava viva após o Brexit, voltou à mesa de negociação de uma forma diferente. Foi importante também o próprio ciclo de governança da União Europeia. Em breve haverá uma sucessão no comissariado europeu (os representantes do bloco em Bruxelas) e isso levou a que houvesse mais boa vontade dos comissários que ainda estão lá para fechar esse capítulo com o Mercosul.
E a situação interna, favoreceu de que maneira?
O fator (Jair) Bolsonaro e (Paulo) Guedes foi determinante. Quais são as cinco prioridades econômicas para o Brasil neste governo? Reforma da Previdência, reforma tributária, reforma administrativa, privatizações e concessões, além de abertura comercial. E como se faz abertura comercial? Por meio de tratados internacionais, da facilitação do ambiente de negócios e de modernização tarifária. Ficou muito claro em determinado momento para nós que as razões pelas quais a gente não conseguia avançar do nosso lado nos últimos anos faziam parte do acervo do nacional-desenvolvimentismo. Estávamos negociando com a cabeça dos anos 1960. Nesse sentido, o fim do ciclo do lulopetismo no Brasil foi determinante. O término dessa coisa do Norte contra o Sul, de terceiromundismo. Aquela ideia de que o Mercosul serve para dar palpite sobre a Crimeia, sobre o Oriente Médio, sobre os fundos abutres (empresas que compram títulos de países quebrados). Deixamos isso para trás e dissemos: vamos ver se a gente consegue fechar algum acordo.
Adriano Machado/CrusoeAdriano Machado/Crusoe“Estávamos negociando com a cabeça dos anos 1960”
O acordo começou a ser negociado ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, no final dos anos 1990. Não é resultado desse processo mais longo?
Olha, claro que herdamos muita coisa, principalmente do governo passado (Michel Temer). Mas ainda havia muito por fazer. Praticamente todos os capítulos da negociação estavam abertos quando assumimos. O mérito pelo acordo é deste governo. Criamos um Ministério da Economia em que muitas das áreas mais protecionistas que encontraram no passado espaço na governança ficaram sem abrigo na atual configuração. Isso nos permitiu avançar. É como se a política comercial, ao contrário de todas as outras experiências que o Brasil teve, tivesse migrado para o coração da política econômica. E com outro viés. No lugar do protecionismo, a abertura. Antes, não podia fazer acordo internacional porque impactaria a política dos campeões nacionais (idealizada pelo ex-presidente Lula para incentivar financiamentos públicos a um grupo restrito de empresas). Mas é justamente uma política dessas que a gente não quer fazer. Há também um alinhamento de toda a equipe econômica e com outros ministérios, como o Itamaraty e a Agricultura.
Por que as negociações foram feitas sem grande alarde?
Negociações são assim. Não se dão à luz do dia. Mas se você olhar nos últimos seis meses, verá declarações de um lado e de outro de que estávamos mais perto do acordo. Uma das negociadoras europeias chegou a dizer que avançamos nesses quatro meses mais do que nos últimos 20 anos.
Qual foi o papel da Argentina nesse processo?
Essencial. A Argentina teve uma ascensão brutal no final do século 19. De 1875 até 1910, a Argentina cresceu mais do que a Califórnia. Mas, de 1875 até 2015, não teve nenhum governo liberal. Cresceu pouco. Foram 140 anos de protecionismo, peronismo, patrimonialismo. E, de repente, tem um governo liberal (o do presidente Maurício Macri). E ela teve de correr atrás também um pouco do prejuízo reputacional. É um país que deu calote, nacionalizou empresas.
Quando, na prática, os efeitos do acordo chegam para a população?
Muito rápido. A economia é fundamento, situação concreta, mas também é criação de expectativa, aquilo que está por acontecer. Quanto mais sustentável é essa expectativa, mais ela impacta a decisão dos atores que atuam na economia. O país passa a representar um elo naquilo que é um dos motores de tração do sucesso econômico dos últimos 30 anos: as cadeias globais de produção. Mais investimentos significam mais emprego e renda. Mas, veja, acordos internacionais não são uma panaceia. Se você não melhora as condições de competividade internas, pode ocorrer um fenômeno que alguns especialistas chamam de paradoxo mexicano.
Adriano Machado/CrusoeAdriano Machado/Crusoe“No caso da relação com os Estados Unidos, a relação comercial dos dois países está muito abaixo de onde deveria estar”
O que seria esse paradoxo?
O México fez o Nafta (acordo bilateral com os Estados Unidos) no começo dos anos 1990 e, depois, fez quase 50 acordos com outros países. Mas não fez as reformas internas. Por isso, acho que o primeiro grande acordo comercial que o Brasil tem de fazer depois desse com a União Europeia é com ele mesmo. Por meio de reformas institucionais. Se fizer a reforma da Previdência, a economia aos cofres públicos será equivalente a anos e anos de superávit comercial. Se simplificar a estrutura tributária, a sua capacidade de competir internacionalmente vai melhorar a vida do cara aqui.
Quais os próximos acordos em vista?
O próximo é com o grupo de países formado por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein. Depois deles, estão em negociação acordos com Canadá, Coreia do Sul e Japão.
Não é uma contradição não ter nada em vista com os Estados Unidos, o declarado grande parceiro geopolítico do presidente?
Se você pegar o discurso do presidente Bolsonaro no Congresso Nacional e no parlatório no dia da posse e algumas declarações dele desde então, verá que ele repete à exaustão: “Vamos fazer negócios com qualquer parte do mundo, sem viés ideológico”. No caso da relação com os Estados Unidos, além da conexão e empatia entre os presidentes, a relação comercial dos dois países está muito abaixo de onde deveria estar. O teto é muito mais alto, ainda mais se considerar que são as duas maiores democracias do Ocidente e as duas maiores economias do continente. Então, o que está ocorrendo é uma espécie de busca do tempo perdido em relação aos americanos, que é muito importante para os dois lados. Aliás, ao aprimorar a relação com os Estados Unidos, você dá mais incentivos que se afine ainda mais a relação com os europeus, e vice-versa.

Não é no mínimo curioso que o acordo tenha sido fechado por um chanceler que é crítico do globalismo?
Sinceramente, não tenho acompanhado muito a teoria de relações internacionais. O que posso dizer é que todos que participaram dessas negociações têm uma bússola muito importante que é a busca do interesse nacional. O que não significa nacionalismo. É interesse nacional.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Abertura comercial lenta e gradual - Marcos Troyjo (CB)

'Vamos promover a abertura comercial do Brasil', diz Marcos Troyjo

Secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia garante que governo vai abrir frentes negociadoras e tarifárias, além de simplificar processos e reduzir impostos

Marcos Troyjo participou do seminário Correio Debate: 'Desafios da Economia em 2019' (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
O Brasil é um país muito fechado comercialmente e o atual governo pretende promover “uma abertura responsável nos próximos quatro anos”. Foi o que garantiu o secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo, no painel A Importância do Comércio Internacional, realizado nesta terça-feira (5/02) durante o Correio Debate: "Desafios da Economia em 2019".

Troyjo fez um breve relato histórico para analisar os vários milagres econômicos observados no mundo nos últimos 70 anos. Segundo ele, os países que conseguiram mudar de patamar nesse período -- Alemanha, Japão, Chile, CHina, Espanha, Cingapura e Coreia do Sul -- conquistaram essa evolução com base nas relações internacionais. “Essas nações tiveram uma significativa parcela do seu PIB (Produto Interno Bruto) representada pela soma de exportações e importações. Esses países usaram o comércio exterior como trampolim”, destacou.
Enquanto isso, comparou Troyjo, outros países permaneceram “ensimesmados” com pequena parcela de comércio exterior, exportando e importando pouco. “No Brasil, se excluirmos os famosos ciclos da monocultura da exportação (café e cana), raramente veremos um momento em que o país tenha mais de 30% do PIB representado pelo comércio exterior”, ressaltou o secretário.
Segundo ele, a fatia que o Brasil ocupa em todo o comércio internacional também é pequena, oscila entre 1% e 1,3% entre tudo o que se compra e vende no mundo. “O Brasil é um país fechado e precisamos nos abrir. Mas o sucesso não é só pela abertura comercial. Precisa vir acompanhada de outras medidas”, assinalou.
Troyjo afirmou que é preciso considerar três compartimentos: conjuntura, estrutura e abertura. “Atualmente, as circunstâncias apontam para a disputa comercial entre as duas potências China e Estados Unidos. Há quem diga que existe uma guerra fria entre os dois, mas o fato é que existe um alto grau de interdependências entre as duas nações”, disse.
O secretário destacou que o Brasil precisa retomar o foco nas relações com os EUA. “Na nossa conjuntura, não podemos deixar de levar em consideração nossas relações comerciais com os EUA”, reiterou. Mas mercados como o Sudeste Asiático e o Mercosul também não podem ser ignorados. 
“O que precisamos fazer é nos estruturarmos para essa competição. Nossa agenda é de correção de equívocos do passado, que passa pelas reformas. Precisamos ter a capacidade de responder, qual nossa política comercial”, afirmou. A formulação da coordenação interna, destacou o secretário, reside em definir o interesse nacional e melhorar o nosso sistema multiagências.”
Sobre a abertura, Troyjo destacou que o país está fechado por barreiras tarifárias, regras e burocracia. “Vamos abrir o país nos próximos quatro anos. Seja pela frente negociadora ou tarifária, pela simplificação dos processos e pela queda de impostos, ou ainda pela exposição de setores brasileiros, a economia vai se abrir. Será muito mais integrada. Mas não vamos fazer isso de forma irresponsável e sim com sintonia e sincronia”, garantiu.

domingo, 5 de agosto de 2018

Marcos Troyjo: o Brasil precisa se inserir na economia global (IstoE)

MARCOS TROYJO, ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO  
O mundo está dando uma nova chance ao Brasil
Entrevista
MARCOS TROYJO, ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO
O mundo está dando uma nova chance ao Brasil 
Marco Ankosqui

Germano Oliveira
IstoÉ, Edição 03/08/2018 - nº 2537

O economista e cientista político Marcos Troyjo, professor da Universidade Columbia, em Nova York, avalia que o Brasil já teve inúmeras oportunidades para desenvolver sua economia e obter papel de destaque no comércio internacional, mas desperdiçou a maioria delas, sobretudo por não realizar reformas estruturais que tornassem o País mais atraente aos investidores estrangeiros, que hoje dispõem de enormes recursos para aplicar em países emergentes. Uma dessas oportunidades perdidas, segundo ele, aconteceu no governo Lula, período no qual as commodities agrícolas viveram um momento amplamente favorável, mas o petista preferiu adotar políticas populistas e protecionistas que afastaram grandes investimentos. Agora, contudo, de acordo com Troyjo, o mundo está dando “uma nova chance ao Brasil”, mas adverte:“o País não pode eleger um presidente que defenda o nacional-desenvolvimentismo como alternativa, como é o caso do PT, PCdoB, PSol e, às vezes, Ciro Gomes”. Especialista em política externa, Troyjo está finalizando o livro “Choque de Globalizações: o Brasil em Busca da Grande Estratégia”, que chega às livrarias em outubro.

O senhor diz no seu livro que a globalização vem perdendo força, sobretudo por causa do crescimento do populismo e da intolerância no mundo. Como isso está se dando?
Quando acabou a guerra fria, a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética, o mundo foi tomado de um grande entusiasmo no início da década de 90, com a vitória do Ocidente, dos países mais democráticos, com economias abertas, prevalecendo o livre mercado. Desse período até a grande crise do Lehman Brothers em 2008, vivemos um processo de globalização profunda. De 2008 para cá, os sinais se inverteram. O clima de livre comércio foi substituído por sinais do protecionismo e pelo mundo do cada um por si, devido ao populismo e intolerância. Eu chamo esse período dos últimos dez anos de desglobalização. O comércio internacional, por exemplo, começou a cair. A livre circulação de bens e de serviços, também começaram a cair. E ao mesmo tempo aumentaram as restrições no intercâmbio de universidades, no mercado de trabalho.

O que a desglobalização está provocando de malefícios para a humanidade?
Estamos tendo uma perda de eficiência da economia muito grande. Num momento em que uma empresa como a Starbucks tem que comprar o papel que envolve os canudinhos de uma fábrica em Ohio, em vez de comprá-los em uma fábrica na Tailândia, por uma fração do preço que paga nos Estados Unidos, isso gera desemprego no local onde anteriormente a empresa tinha sua operação. E isso onera a plataforma de custos das empresas, afetando seu balanço patrimonial. Na última sexta-feira 27, quando se anunciou o PIB americano, de 4,1% de expansão no trimestre, todo mundo ficou de olho arregalado, mas as bolsas caíram. E não foi só por causa do efeito das ações do Facebook e Twitter. Mas também porque há a idéia de que haverá uma adequação do PIB americano por conta da guerra comercial desenvolvida por Trump e essa é uma das facetas da desglobalização. Com a guerra comercial que vem por aí, quem perde mais são os países que tem grandes empresas transnacionais e nenhum país tem tantas empresas transnacionais como os EUA.

O senhor diz ainda no seu livro que o Brasil também teve um grande um ciclo populista e protecionista. Como foi esse processo? 
Tivemos um ciclo populista e protecionista de 2003 a 2016, durante os governos do PT. E por que esse período foi lamentável? Em primeiro lugar, porque o mundo esteve muito bom para o Brasil e não se aproveitou as chances que nos foram dadas. Se levarmos em consideração o grande ciclo favorável das commodities, os grandes estoques de liquidez disponíveis no mundo para serem aplicados em países com pouca poupança, como era o caso do Brasil, e também as vantagens comparativas que temos em produtos como a soja, poderíamos ter aproveitado esse vento de cauda para ter feito as reformas estruturais e nós não as fizemos. E não fizemos por quê? Porque o governo teve a sensação de que os bons tempos iriam perdurar para sempre. E isso fez com que os governos petistas não mexessem em problemas cruciais, como a Previdência e as questões trabalhistas, o que nos deixou em continuado atraso, vivendo esse grande ciclo populista.

E o ciclo protecionista?
Também durante os governos petistas vivemos o renascimento das antigas teses de substituição de importações, com a idéia de desenvolver uma cadeia de produção vertical em todo o território nacional e que, para isso, deveríamos dar incentivos aos chamados campeões nacionais. O Brasil voltou a adotar uma estratégia econômica parecida com a que foi adotada nos anos 40 ou 50, ou mesmo no período nacional-desenvolvimentista do regime militar. É muito parecida a filosofia econômica do PT com a adotada pelo governo militar. E um dos legados disso foi ver como o Brasil diminuiu sua participação no fluxo do comércio internacional. Tudo o que o Brasil exporta e importa — e que chegou ser de 2,5% do comércio mundial — agora é de 1%. Se fizermos uma radiografia do nosso comércio, vamos perceber que tudo o que o Brasil importa, somado ao que exporta, dá 22% do nosso PIB. Das 15 maiores economias do mundo, é o menor contingente em relação ao PIB.

O período petista representou, então, um retrocesso?
Foi uma oportunidade desperdiçada. Deveríamos ter feito as reformas internas e, sobretudo, a reforma na nossa inserção internacional. Reforma que levasse nosso comércio ao patamar de 35% a 40% do PIB, com a adoção de uma política voltada para a ampliação das exportações e importações, assinando novos acordos comerciais.

Dos candidatos a presidente que estão aí, quem ameaça o nosso melhor desempenho internacional?
Quem continua defendendo o nacional-desenvolvimentismo como alternativa é o PT, PCdoB, PSol e às vezes Ciro Gomes, que tem um discurso um pouco pendular. A não ser que ele esteja utilizando a estratégia do violino: pega com a esquerda, mas toca com a direita. Já o Meirelles, o Alckmin e o Bolsonaro/Paulo Guedes, têm adotado uma retórica mais liberal de inserção internacional. Eles entendem melhor as necessidades do dinamismo do nosso comércio.

O senhor afirma que, além dos Estados Unidos na era Trump, também a Europa tem se tornado mais protecionista. De que forma isso está acontecendo?
O protecionismo da Europa é mais sofisticado. As tarifas na União Européia até estão caindo, mas eles têm muitas barreiras fitossanitárias e barreiras técnicas, que acabam funcionando como protecionistas. Vou dar um exemplo. Exportação de carne de gado. Eles exigem a rastreabilidade, desde o momento do nascimento do animal, com chip subcutâneo, para o acompanhamento em real-time da sua saúde. Fazem exigências enormes. Ou então eles dão subsídios para seus produtores e isso torna os produtos dos concorrentes quase que inviáveis.

Nos próximos dois anos e meio, essa guerra travada por Trump trará mais benefícios do que malefícios para o Brasil

O senhor avalia que a tendência é da China se tornar a maior economia do mundo, superando os EUA. Então o Brasil deveria se aproximar ainda mais da China?
Já estamos muito próximos da China. É o nosso principal parceiro comercial e provavelmente vamos fechar 2018 com exportações para a China que representam quase o dobro das nossas exportações para os EUA. Para a China, vendemos muita soja, minério de ferro, petróleo. Mas é importante perguntar para os candidatos a presidente que estão aí qual é sua política para a China? Além de parceiro comercial, a China cada vez mais é fonte de investimento estrangeiro direto. Nesses processos de fusões e aquisições, os chineses estão comprando muita coisa no Brasil. Ainda é um dos poucos países do mundo que podem atuar como fonte de empréstimo governo a governo, porque isso quase não existe mais no mundo. Existia nos anos 70 e 80, quando o governo americano e o governo japonês faziam empréstimos-ponte. Isso só os chineses fazem hoje. E como os chineses precisam ter garantias para seu processo alimentar, é natural que seus investimentos também venham mais para o Brasil. Os candidatos a presidente precisam saber lidar com a China.

Um dos legados da política nacionalista dos governos do PT foi ver que a participação do Brasil no comércio mundial caiu de 2,5% para os atuais 1%

Nessa guerra comercial que os EUA começam a fazer, o Brasil pode sair como perdedor?
Pelo contrário. Nos próximos dois anos e meio, a guerra comercial travada pelo Trump trará mais benefícios do que malefícios para o Brasil. Trará benefícios porque hoje os chineses compram R$ 14 bilhões por ano em soja dos EUA. E se os chineses retaliarem os americanos na soja, o produto tem que ir de algum lugar. E pode ser do Brasil e da Argentina.

Então os cenários são favoráveis ao Brasil?

O mundo não está ruim para o Brasil. Há uma demanda aquecida por commoditeis e há um grande estoque de dinheiro no mundo sedento por aplicações em mercados emergentes. Os grandes centros internacionais de liquidez, como China, Japão e países Árabes, querem diversificar seus investimentos. Temos espaço agora para correr atrás na atração desses capitais. Provavelmente, teremos que intensificar nosso processo de privatizações e de projetos de parcerias-público-privadas. Uma das características umbilicais desse nocivo processo de desenvolvimento nacionalista do governo petista entre 2003 e 2016 foi a de cultivar a idéia de que poderíamos fazer tudo por meio da liderança do Estado.

O que o novo presidente pode fazer para melhorar a inserção do Brasil no comércio internacional?
É indispensável uma maior promoção do Brasil no exterior. Nossa presença física em vários mercados é inadiável. Ter agências de promoção de negócios em Cingapura, Xangai, Londres. Poderíamos aproveitar melhor nosso patrimônio no exterior. O Brasil tem um imóvel gigantesco em Nova York, na rua 79. E para o que serve aquilo? Para o embaixador dormir. A embaixada deveria ser uma agência de promoção do Brasil.

E não podemos repetir erros do passado, certo?
O mundo está, mais uma vez, dando uma chance para o Brasil. O que poderia ser negativo, como a guerra comercial, nos dará oportunidades para novos negócios. Eu não digo que estamos entrando num dia de sol perfeito, mas estamos com boas chances de crescer no comércio internacional e alavancar nossa economia. Já tivemos várias oportunidades e perdemos quase todas. Vamos perder mais uma chance ou vamos aproveitar que nossas commodities serão valorizadas e que há um grande volume de recursos para investir nos países emergentes? Não podemos perder essa nova chance.

sábado, 28 de abril de 2018

Incerteza global: Como uma guerra comercial entre EUA e China pode afetar a economia do Brasil e do mundo? - Marcos Troyjo, Paulo Roberto de Almeida e Sérvulo Dias (Instituto Millenium)

Incerteza global: Como uma guerra comercial entre EUA e China pode afetar a economia do Brasil e do mundo?

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: responder a questões colocadas por jonalista; finalidade: Hangout do Instituto Millenium]
Link disponível para a entrevista: https://youtu.be/wuQZokgpOV4.

Introdução
Fui convidado, em meados de abril, para uma entrevista conjunta com o economista Marcos Troyjo em torno da chamada “guerra comercial China-EUA”, um título jornalístico legítimo, pois é isso o que aparece nas chamadas da mídia, mas pouco apropriado à verdadeira natureza do problema, que deriva dos posicionamentos irrefletidos, absolutamente esquizofrênicos, do atual presidente dos EUA, que pretende governar a sua grande nação, e instruir o mundo, através de tweets, um meio original, certamente espetaculoso, mas totalmente inadequado a uma governança responsável. Esse hangout realizou-se em 26 de abril, sob a coordenação do jornalista Sérvulo Dias.
O ponto de partida foi dado pelo anúncio de salvaguardas à importação de aço e alumínio nos EUA, adotadas em nome de uma suposta “segurança nacional” americana, o que é totalmente falso, no plano objetivo, e que representa uma distorção completa das regras do GATT e da OMC na boa condução do sistema multilateral de comércio. A tal “guerra comercial”, mais propalada do que efetivamente implementada até o momento, consiste na seleção da China como alvo principal dessas medidas, e no anúncio, por representantes chineses, de contramedidas retaliatórias, sob a forma de diversas salvaguardas – ou seja, sobretaxas a importações de diferentes linhas tarifárias – a serem eventualmente aplicadas a produtos de origem americana (mas que podem vir de quaisquer outros países). Ou seja, a insanidade de Trump consegue provocar um imenso distúrbio em fluxos de importações e exportações ao redor do mundo, podendo inclusive prejudicar o Brasil. 
Depois de uma introdução feita pelo jornalista Sérvulo Dias, que já foi postada por mim no meu blog Diplomatizzando(neste link: https://diplomatizzando.blogspot.com.br/2018/04/guerra-comercial-eua-china-hangout-do_26.html), fui levado a responder às seguintes perguntas: 
1) Essa guerra comercial seria majoritariamente uma guerra bilateral entre China e EUA ou a tendência é que se espalhe por todos os continentes? Quais as consequências?
2) O parlamento chinês aprovou em Março uma emenda constitucional que elimina os limites do mandato presidencial, permitindo que o presidente Xi Jinping permaneça no cargo por tempo indefinido, num modelo de mandato vitalício. Tal ampliação no poder do presidente parece indicar total respaldo do Partido Comunista para poder retaliar comercialmente os Estados Unidos à altura. Esse poder ampliado do lado chinês não configura um elemento adicional de preocupação? A China estaria disposta a levar a retaliação comercial às últimas consequências?

O programa todo, incluindo a apresentação do jornalista e as perguntas respondidas por meu amigo Marcos Troyjo, encontra-se agora livremente disponível no site do Instituto Millenium (neste link: https://www.institutomillenium.org.br/recentes/imil-promove-hangout-incerteza-global-nesta-quinta/), sendo que o vídeo gravado aparece imediatamente (link: https://youtu.be/wuQZokgpOV4).
Espero que apreciem...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 28 de maio de 2018

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Guerra comercial EUA-China: hangout do Instituto Millenium - Marcos Troyjo, Paulo Roberto de Almeida

Participei, em 26 de abril de 2018, de um hangout com meu amigo Marcos Troyjo, animado por Sérvulo Dias, jornalista, organizado pelo Instituto Millenium, sobre a propalada "guerra comercial" entre os EUA e a China (que não vai ocorrer, a despeito das escaramuças). Foi bastante animado, e sobretudo sem controvérsias, pois ambos aprofundamos os argumentos um do outro.
Não vou dizer o que eu teria dito em particular sobre o iniciador dessa guerra comercial, mais retórica do que efetiva, pois em público não caberia expressar certas ideias "íntimas", digamos assim...
Abaixo, o excelente roteiro preparado pelo Sérvulo Dias para ordenar as questões entre nós, mas, dada a limitação de tempo, não foi possível abordar todas os temas em profundidade.
Em breve postarei o link da conversa a três.
Paulo Roberto de Almeida

Addendum com os links anunciados, mas não deixem de ler a matéria do jornalista abaixo.

Site do Instituto Millenium com a matéria sobre a "guerra comercial" (neste link: https://www.institutomillenium.org.br/recentes/imil-promove-hangout-incerteza-global-nesta-quinta/), aqui para o vídeo gravado (link: https://youtu.be/wuQZokgpOV4).

Hangout do Instituto Millenium: "Incerteza global: Como uma guerra comercial entre EUA e China pode afetar a economia do Brasil e do mundo?"

Orientações gerais para o hangout:
- O evento será aberto ao público e transmitido ao vivo através de nosso canal no Youtube, Facebook, site e redes sociais; 

Biografia dos participantes:
Marcos Troyjo
É graduado em ciência política e economia pela Universidade de São Paulo (USP), doutor em sociologia das relações internacionais pela USP e diplomata. É integrante do Conselho Consultivo do Fórum Econômico Mundial, diretor do BRICLab da Universidade Columbia, pesquisador do Centre d´Études sur l´Actuel et le Quotidien (CEAQ) da Universidade Paris-Descartes (Sorbonne), fundador do Centro de Diplomacia Empresarial e conselheiro do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). É colunista do jornal "Folha de S.Paulo".

Paulo Roberto de Almeida
É doutor em Ciências Sociais (Université Libre de Bruxelles), mestre em Planejamento Econômico (Universidade de Antuérpia), licenciado em Ciências Sociais pela Université Libre de Bruxelles) e diplomata. Serviu em diversos postos no exterior e exerceu funções na Secretaria de Estado, geralmente nas áreas de comércio, integração, finanças e investimentos. Foi professor de Sociologia Política no Instituto Rio Branco e na Universidade de Brasília (1986-87) e atualmente leciona no Centro Universitário de Brasília (Uniceub). 

Sérvulo Dias
E economista formado pela FEA/USP, administrador de empresas e especialista em marketing de serviços pela FIA. Ocupou posições executivas na área comercial e de desenvolvimento de novos negócios em empresas nacionais e multinacionais de grande porte. Atuou em projetos de inovação e redefinição de modelos de negócio na indústria química, embalagens, papel e celulose e fotografia/varejo. 

Alguns pontos no hangout:

1) Nessa retórica protecionista do presidente Trump, que tem alicerce num conjunto de políticas agrupadas sob o mantra "America First", quem são os perdedores e ganhadores de uma eventual guerra comercial?

2) O presidente Trump tem capital político para de fato executar essa política comercial protecionista, dado que parte do seu eleitorado poderia ser altamente prejudicado caso a China decida retaliar, notadamente os grandes exportadores de grãos do "yellow belt" americano?

3) E no caso brasileiro, quais são as oportunidades e ameaças numa iminente guerra comercial?

4) Essa guerra comercial seria majoritariamente uma guerra bilateral entre China e EUA ou a tendência é que se espalhe por todos os continentes?

5) Na semana passada o presidente anunciou sua "disposição" em rever o tema da saída dos EUA da aliança Tratado Transpacífico, numa clara tentativa de "negociar" termos mais favoráveis mas não deixar de vez o tratado. Não seria mais uma vez o estilo de Trump, que sempre "marca" posições radicais e extremas no início das negociações e depois abranda o diálogo para posições mais moderadas? 

6) O primeiro-ministro chinês agora passa a ter mandato vitalício, o que parece indicar total respaldo do Partido Comunista para poder retaliar os EUA à altura. Esse poder ampliado não configura um elemento adicional de preocupação?

Links Relacionados:




CONSIDERAÇÕES INICIAIS DO JORNALISTA SÉRVULO DIAS

O Presidente Trump começou sua retórica polêmica antes mesmo de ser eleito presidente dos Estados Unidos. Já na campanha eleitoral, o então candidato republicano lançou o slogan “America First”, que indicava um conjunto de medidas que sempre colocaria os interesses dos Estados Unidos à frente de qualquer outro interesse. 

No primeiro ano de governo, muitos foram os assuntos polêmicos nos quais o presidente Trump se envolveu, sendo os principais:
·      a demissão de James Comey, então diretor do FBI, sob a alegação de que houve mal condução no caso da investigação sobre o uso de um servidor pessoal por parte da ex-candidata democrata Hillary Clinton
·      o apoio declarado aos supremacistas brancos depois dos enfrentamentos violentos em Charlottesville (Virginia), evento no qual foram mortos 3 manifestantes e outros 34 foram feridos 
·      em Setembro de 2017, o insulto aos atletas da NFL (Liga Nacional de Futebol Americano) que se recusavam a permanecer de pé durante a execução do hino nacional em uma forma de protesto às políticas racistas de Washington
·      todo o imbróglio que rodeia o caso da interferência russa nas eleições americanas, o possível conflito de interesses entre Trump e seus aliados em negócios escusos com oligarcas russos, o que gerou a investigação independente coordenada pelo então nomeado conselheiro especial Robert Mueller, que pode ter um desfecho inesperado para o presidente Trump
·      além de todos os escândalos sexuais envolvendo o presidente Trump, desde as acusações de assédio até os casos mais graves que envolvem a atriz pornô Stormy Daniels e a ex-modelo da Playboy Karen McDougal

Do lado das relações internacionais, podemos citar:
·      a promessa de construção de um muro que separaria o México dos Estados Unidos
·      a rejeição ao tema do aquecimento global e o descaso total com o Acordo de Paris
·      os temas ligados às leis anti-imigração americanas, com uma crescente tendência ao fechamento e o desejo de abortar programas tradicionais, como é o caso do DACA
·      todo o tema da troca de ameaças contra a Coréia do Norte e o líder Kim Jong-um, o qual Trump chegou a chamar de “homem-foguete” pelo Twitter
·      o desejo de alterar o Acordo Nuclear com o Irã, firmado ainda no governo de Barak Obama
·      a questão da participação americana na guerra civil da Síria e o potencial escalonamento do conflito, já que adiciona elementos à já complicada geopolítica do Oriente Médio

Especificamente do lado do comércio internacional, podemos citar:
·      a exigência pela renegociação dos termos do NAFTA, o qual o presidente Trump classificou como uma “catástrofe”
·       assinou o decreto que retira os Estados Unidos da Parceria Transpacífica (TPP)
·      por fim, e o que mais nos interessa para a discussão de hoje, a declaração aberta de uma guerra comercial contra a China, com o anúncio de medidas protecionistas que geram uma sobretaxa de US$ 153 bilhões a uma lista de 1.300 produtos chineses, dentre os quais ferro, alumínio e bens de capital
·      do lado Chinês, já foi anunciado um pacote retaliatório que impactaria as exportações americanas no montante de US$ 50 bilhões, sendo que a sobretaxa impacta 234 produtos americanos exportados aos chineses (soja, algodão, carne bovina e alguns ícones americanos tais como as motocicletas da marca Harley Davidson) 

Nesse contexto, gostaria então de dar início ao debate com a primeira pergunta, que dirijo ao nosso convidado Marcos Troyjo:

1) Nessa retórica protecionista do presidente Trump, que tem alicerce num conjunto de políticas agrupadas sob o slogan "America First", quem são os perdedores e ganhadores de uma eventual guerra comercial com a China?

Passemos então para a segunda pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Paulo Roberto de Almeida:

2) Essa guerra comercial seria majoritariamente uma guerra bilateral entre China e EUA ou a tendência é que se espalhe por todos os continentes? Quais as consequências?

Passemos então para a terceira pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Marcos Troyjo:

3) O presidente Trump tem capital político para de fato executar essa política comercial protecionista, dado que parte do seu eleitorado poderia ser altamente prejudicado caso a China decida retaliar, notadamente os grandes exportadores de grãos do "yellow belt" americano assim como os grandes produtores e exportadores de proteína animal? A título de curiosidade, a China compra dos Estados Unidos aproximadamente ¼ da safra de grãos de soja. Vale lembrar também que as medidas anti-imigratórias anunciadas por Donald Trump no início do seu mandato irritaram o setor agrícola americano, ainda dependente da mão-de-obra de imigrantes para o plantio e colheita de algumas culturas. Os críticos afirmavam que as medidas causariam uma redução na oferta de mão-de-obra e o consequente aumento dos salários médios no setor agrícola. O presidente Trump inclusive já foi advertido das consequências políticas que podem resultar das suas medidas protecionistas: a retaliação chinesa sobretaxando as importações de soja provenientes dos Estados Unidos afetaria fortemente a economia de estados tais como Iowa, Kansas, Missouri, Minnesota, Indiana e Dakota do Norte, estados nos quais haverá uma corrida eleitoral altamente competitiva entre Republicanos e Democratas para as cadeiras no Senado. Sendo assim, você acredita que o presidente Donald Trump vai manter a retórica da guerra comercial com a China e assim arriscar apoio político doméstico?  

Passemos então para a quarta pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Paulo Roberto de Almeida:

4) O parlamento chinês aprovou em Março uma emenda constitucional que elimina os limites do mandato presidencial, permitindo que o presidente Xi Jinping permaneça no cargo por tempo indefinido, num modelo de mandato vitalício. Tal ampliação no poder do presidente parece indicar total respaldo do Partido Comunista para poder retaliar comercialmente os Estados Unidos à altura. Esse poder ampliado do lado chinês não configura um elemento adicional de preocupação? A China estaria disposta a levar a retaliação comercial às últimas consequências?

Passemos então para a quinta pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Marcos Troyjo:

5) E no caso brasileiro, quais são as oportunidades e ameaças numa iminente guerra comercial entre Estados Unidos e China? Seria essa uma oportunidade de maior aproximação com o bloco comercial da União Européia, por exemplo? Seria também uma chance de estreitar ainda mais as relações comerciais com a China?
Passemos então para a sexta pergunta, a qual dirijo para o nosso convidado Paulo Roberto de Almeida:

6) No dia 16 de Abril, nosso colega Júlio Netto do Instituto Millenium escreveu um artigo muito interessante com o título “Guerra Comercial ou Jogo de Cena?”. No artigo, Júlio Netto relembra dois fatos recentes interessantes sobre a postura do presidente americano Donald Trump sobre o tema da Guerra Comercial. No primeiro desses fatos, datado de 23 de Março, o presidente americano Donald Trump colocou o mundo em suspense ao anunciar a sobretaxação de 25% para as importações de aço e 10% para as de alumínio. Muitos foram os protestos, com os países mais afetados ameaçando com represálias ou mesmo apelando à OMC. Passados alguns dias, Trump foi “amaciando” seu discurso e anunciou que países como os da União Europeia, México, Canadá, Japão e inclusive o Brasil estariam isentos desta taxação, pelo menos temporariamente. Depois disso, em outra evidência de “amaciamento” no seu discurso, o presidente Trump anunciou, no início de Abril, sua "disposição" em rever o tema da saída dos Estados Unidos da Parceria Transpacífica, numa clara tentativa de "negociar" termos mais favoráveis mas não deixar de vez o tratado. Não seria mais uma vez o estilo de Trump, que sempre "marca" posições radicais e extremas no início das negociações e depois abranda o diálogo para posições mais moderadas?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É sempre bom retomar a história e aprender com os erros e acertos do passado. Entre Republicanos e Democratas dos estados que compõem o cinturão agrícola americano, há um consenso de que a política comercial de Trump vai ser um replay do fracassado embargo à União Soviética imposto pelo presidente Jimmy Carter em 1980, como retaliação pela invasão dos russos no Afeganistão. Na ocasião, o então presidente americano Jimmy Carter limitou as exportações de grãos para a União Soviética e conclamou que outros países tomassem as mesmas medidas. Na época, o então candidato à presidência da Casa Branca, o republicano Ronald Reagan, criticou severamente o embargo com base no argumento de que o mesmo fazia com que os agricultores americanos arcassem injustamente com o fardo da política externa dos Estados Unidos. Vale lembrar que os Democratas sofreram perdas massivas nas eleições daquele ano. Trump parece agora correr o mesmo risco, quase quarenta anos depois. Para piorar a situação, tudo isso acontece no mesmo ano em que o presidente Trump aprovou cortes profundos no orçamento do Departamento de Agricultura, aguçando ainda mais o sentimento de que as medidas de Trump contra os chineses tem o potencial de causar fortes impactos econômicos em sua própria base política.


A série de barreiras comerciais anunciadas pelo presidente americano Donald Trump têm o potencial de causar grandes danos à economia americana e mundial. Em cadeias produtivas globalizadas e interconectadas ao extremo, especialmente no caso dos países desenvolvidos, barreiras comerciais costumam traduzir-se em custos mais elevados para as empresas domésticas, gerando ainda mais pressão inflacionária (de custos). Pior do que isso, a guerra comercial iniciada por Trump tem o potencial de criar um clima de total incerteza nos mercados. Robert Shiller, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Economia de 2013, advertiu em Março que a guerra comercial em curso pode criar uma atitude de “esperar pra ver” nos agentes econômicos. Tal atitude pode ser potencialmente ainda mais danosa do que as próprias tarifas comerciais, pois impactaria a confiança para a tomada das decisões de investimento, acentuando ainda mais a recessão.

LINKS PARA O PROGRAMA: 

Site do Instituto Millenium com a matéria sobre a "guerra comercial" (neste link: https://www.institutomillenium.org.br/recentes/imil-promove-hangout-incerteza-global-nesta-quinta/), aqui para o vídeo gravado (link: https://youtu.be/wuQZokgpOV4).