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domingo, 5 de julho de 2026

EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque - O Estado de S. Paulo

 EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque

Capa do video - EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque

O passado, o presente e o futuro da maior nação do mundo depois de dois séculos e meio de sua independência. 

O Estado de S. Paulo, 4/07/2026

https://www.estadao.com.br/internacional/eua-250-anos-o-sonho-americano-em-xeque/?srsltid=AfmBOoqUuIfvndK4j92y1Vgt-_eMazMBugnFKMY8OeiEAepL63X692qT

 

BRASÍLIA E SÃO PAULO — Esse é o momento mais grave das relações entre o Brasil e os Estados Unidos em mais de 200 anos. O assombro e a perplexidade com a aparente falta de diálogo, a aposta no unilateralismo e as mudanças provocadas pela presidência de Donald Trump, além do comportamento do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, estão entre os ingredientes dessa situação e são descritos por diplomatas entrevistados para o projeto Memórias da Diplomacia da Brasileira, uma parceira do Museu da Pessoa e da Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB).

O Estadão consultou uma dezena dessas entrevistas, feitas sob a curadoria do jornalista e historiador Mauro Malin. Os entrevistados, como o embaixador Rubens Ricupero, serviram nos EUA e contaram a sua experiência, bem como avaliaram a atual situação da relação entre os dois países após o tarifaço de Trump. “Em Washington, o êxito ou não do teu trabalho depende das condições do país que você representa e eu, quando era embaixador lá, já tinha começado no Brasil a investigação do impeachment do (presidente Fernando) Collor. E depois houve o agravamento da inflação; o Brasil estava muito mal”, disse Ricupero

Na época, segundo o diplomata, o país latino-americano mais festejado nos EUA era o México, em razão do acordo de livre comércio. “Depois, admiravam muito o Chile. A própria Argentina de (Carlos) Menem. O Brasil era visto como um país muito complicado”, contou. A solução para lidar com essa imagem foi procurar think tanks e organizar seminários na embaixada brasileira, em Washington.

“E foi uma experiência boa. Agora, eu acho que não, com esse presidente que eles têm hoje, o Trump, é o momento mais grave do relacionamento com o Brasil. Nunca vi nada parecido em 200 anos de relação”, afirmou. Para ele, não há nada que se assemelhe ao momento atual. “Porque mesmo no golpe de 1964, que eles participaram da conspiração, mas não eram ostensivos, eles faziam isso clandestinamente. Dessa vez, é público, notório, ostensivo, com declarações de apoio a (Jair) Bolsonaro. Se isso continuar, é muito grave, porque nós vamos chegar às eleições e eles vão querer influir sobre as eleições”, disse Ricupero.

Para ele, no entanto, o tiro vai sair pela culatra. “Porque vai ajudar mais o presidente Lula do que o Bolsonaro, mas é uma tensão muito grande na relação com o Brasil.” O embaixador lembrou outro momento grave das relações entre os dois países: os meses que antecederam o golpe de estado de 1964. Em dezembro de 1962, ele testemunhou a visita inesperada ao Brasil de Robert Kennedy. Irmão do presidente americano John Kennedy, Robert era o chefe do Departamento de Justiça.

“Ele veio para dar um aperto no (presidente João) Goulart, porque os americanos já estavam conspirando no Brasil contra o governo Goulart, que era um governo de esquerda.” Ricupero contou que já estava deitado, quando o ministro das Relações Exteriores, Hermes Lima, que estava no Rio, telefonou e disse: “Olha, vai chegar o Robert Kennedy, você convoca aí os automóveis da garagem e vai recebê-lo na base militar (de Brasília).”

Ricupero disse: “Mas, ministro, como é que eu vou? Eu sou terceiro-secretário, é a função mais modesta da carreira”. Lima respondeu: “Não, você diz que é o representante do governo brasileiro. Porque eu não posso, estou no Rio de Janeiro e não vou chegar a tempo”. Ricupero foi lá. Robert Kennedy chegou às 2 horas. O embaixador americano em Brasília, Lincoln Gordon, estava ali. De manhã, às 11 horas, Robert foi recebido por Goulart no Palácio da Alvorada.

“Eu nunca soube, aliás nunca ninguém soube o que aconteceu. Apenas agora, 50 anos depois, os americanos publicaram um memorando de 11 páginas em que o Lincoln Gordon conta a conversa, porque na conversa só estava o João Goulart, do nosso lado não tinha ninguém, nem intérprete. E do lado americano tinha o Robert Kennedy, o Lincoln Gordon e o intérprete americano (José de Seabra), que eu conheci até por acaso. Então ele conta, é um aperto enorme, que ele vem dizer: ‘Olha, se isso continuar, você não conta com a nossa ajuda’. Ele diz claramente, ele só não diz que iam dar o golpe, mas é bem próximo disso. É uma entrevista dramática. Eu estava do lado de fora, eu não assisti.”

A dramaticidade dos eventos lembrados por Ricupero foi traduzida para o presente pelo também embaixador Paulo Sérgio Traballi Bozzi. “Estamos enfrentando o leão da montanha. O cara (Trump) é muito poderoso, um homem que tem um porta-aviões que leva 6 mil sujeitos embarcados, e tem 160 aviões de todo tipo e tamanho e sai de casa com uma força-tarefa, um submarino nuclear. Não se pode brincar com esse cara, não dá para brincar com esse cara. Não estou dizendo que temos que nos submeter à vontade dele. Não é isso.”

Além do período que antecedeu a derrubada de Goulart, os diplomatas entrevistados para o registro da memória do Itamaraty lembraram outros momentos das relações entre o Brasil e os Estados Unidos e apontaram também o papel do Brasil nesses episódios. A embaixadora Débora Vainer Barenboim-Salej trabalhou em Washington no tempo em que a embaixador do Brasil na capital americana era Marcílio Marques Moreira. “A simpatia pelo Brasil era tanta que o diplomata do Departamento de Estado coava cafezinho, na mesa dele, para me servir um café quando eu chegava. Não é porque eu sou bonitinha, é porque o Brasil tinha um peso, que em algum momento deixou de ter nos EUA.”

Baremboim-Salej atribuiu essa situação ao que chamou de a “politização, a ‘petização’ da diplomacia, em particular da embaixada em Washington”. Para ela, houve muita “pisada de bola” do governo Lula, como o apoio à candidata democrata Kamala Harris nas eleições presidenciais de 2024, quando ela foi derrotada por Trump. Para ela, “não tinha nada que dizer que queria que a Kamala ganhasse as eleições". “Isso é um tipo de ingerência em outros países, que não faz parte da diplomacia brasileira, não podia ter falado e pesou; é um dos fatores que criou o começo do mal-estar com o atual governo Trump.”

O embaixador Sérgio Eduardo Moreira Lima trabalhava em Washington em outro momento importante da história do hemisfério: quando a Argentina decidiu invadir as Ilhas Malvinas, em 1982. “Essa questão do conflito das Malvinas foi muito importante, porque o Brasil tinha um acordo, que se chamava Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Isso significava que se você tivesse uma potência de fora do hemisfério, de fora das Américas, atacando algum país (das Américas), como aconteceu, todos os países das Américas deveriam se apoiar por esse tratado”, contou.

Mas os americanos não fizeram isso. Os EUA decidiram apoiar o Reino Unido e cederam a base da Ilha de Ascensão, no Atlântico Sul, para os britânicos. O Brasil não apoiou os argentinos, mas, de acordo com o diplomata, a decisão de Washington “abalou a confiança na própria liderança americana”. “E mostrou que nós teríamos que buscar um entendimento a respeito da segurança hemisférica.”

Moreira Lima conta que o episódio ajuda a “entender o funcionamento dos poderes, entender o jogo”. “Perceber que, de repente, existe um tratado, acredita-se naquilo e que os americanos iriam apoiar os países da região, mas eles concedem todo o apoio à Inglaterra. Foi interessante. Para o Brasil foi um enorme desafio”, concluiu.

Na época, o Itamaraty adotou uma postura equidistante e conseguiu se credenciar para cuidar dos interesses dos dois beligerantes. Quatro décadas depois, o diplomata se espanta com a situação atual da diplomacia. “Nunca imaginei que fosse viver esse momento, um momento em que estamos nos afastando de uma ordem que tinha seu fundamento no direito.” Segundo ele, de repente, o mundo entrou em um terreno do unilateralismo, que significa uma desconstrução de séculos de tudo que o Brasil contribuiu – até com ajuda dos americanos – para construir.

Mário Vilalva, que foi foi cônsul-geral em Boston (EUA) entre 1996 e 1999, realçou a importância da “facilidade de acesso” para o trabalho dos diplomatas. “Se você não tiver essa facilidade, não consegue nada. Veja hoje o que está se passando aí, que ninguém consegue conversar com o governo norte-americano no momento, não tem facilidade de acesso neste momento”, disse.

O embaixador comparou a crise a partir da chegada ao poder de Trump ao momento em que viveu nos Estados Unidos. Também, naquela época, era preciso levar aos atores políticos e econômicos dos EUA “o conhecimento sobre o que era o Brasil” com o objetivo de evitar que legislações americanas comprometessem as exportações brasileiras. “Hoje, passamos por uma situação muito parecida, em que há um presidente nos Estados Unidos (Trump) que conhece pouco o Brasil e, quando você conhece pouco, você se arrisca a tomar medidas que não são justas”.

O diálogo e a estratégia de levar conhecimento do Brasil aos EUA foi o que fez o embaixador Carlos Alberto Lazary Teixeira. “Fui diretor da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos da Flórida. Ali desenvolvemos um trabalho importante de projeção do Brasil, de participação em feiras, toda a área comercial”. Esse interesse depende não apenas da diplomacia, mas do momento do País.

Teixeira conta que, após o Plano Real (1994), o interesse dos americanos pelo Brasil cresceu. “Eu fazia oito palestras por ano. No momento em que houve o lançamento do Plano Real, eu fui convidado, no ano seguinte, a fazer mais de 50 palestras. O Brasil entrou no radar com o Plano Real.”

Além da economia, temas como a proliferação de armas atômicas no hemisfério também despertavam a atenção dos americanos. E foram motivo de atritos entre os países. O embaixador Paulo Roberto Almeida, que trabalhou entre 1999 e 2003 nos EUA, contou que, naquela época, o “grande inimigo do Brasil era John Bolton”, descrito por ele como o homem forte do Departamento de Estado. Era Bolton, segundo Almeida, quem proibia a exportação de qualquer material sensível ao Brasil.

“Não estou falando de materiais militares, mas sim de supercomputadores, por exemplo, que você usa para definir clima, ambiente. Você precisa de supercomputadores para fazer a previsão de chuvas. E o John Bolton achava que os supercomputadores seriam usados para simulações de explosões nucleares clandestinas. Então, vetava tudo.” Isso ocorrido, de acordo com Almeida, porque o Brasil não havia assinado o Tratado de Não Proliferação de armas nucleares.

A reação americana ao programas nuclear e aeroespacial brasileiros começou ainda nos anos 1970, quando, durante o regime militar, o País assinou um acordo de cooperação espacial com a França para o lançamento de foguetes, mas que, para os americanos, podia significar mísseis. A mesma oposição ocorreu quando o Brasil firmou o acordo nuclear com a Alemanha Federal, em 1975, para a construção de reatores nucleares, além das pesquisas sobre a tecnologia de enriquecimento de urânio.

“Os americanos fizeram enormes pressões sobre o Brasil em 1975, 1976 e 1977, sendo contrários a esse acordo Brasil e República Federal Alemã”, disse o diplomata. Essa foi uma das causas que levou o presidente Ernesto Geisel cancelar o acordo de cooperação militar que o Brasil mantinha com os Estados Unidos. “Era uma cooperação antiga, vinha da Segunda Guerra Mundial”, lembrou.

Para ele, é preciso que o Brasil se lembre que é uma potência média, que deveria manter uma posição “imparcial, neutra, autônoma, em relação aos conflitos entre grandes potências”. Mas, segundo ele, não é o que Lula fez. Primeiro com os Brics, quando se uniu à China e à Rússia. Depois, ao apoiar “todas as eleições dos seus colegas esquerdistas na América Latina, desde 2003″. “Ou seja, interferiu nos assuntos internos de outros Estados.”

Ele citou ainda a declaração de Lula de apoio à candidata democrata Kamala Harris. Tudo isso aumentaria os desafios da atual situação. “E o Brasil, como potência média, devia estar unido a outras potências médias contra as violações do direito internacional pelas grandes potências. Infelizmente, não é o que está acontecendo hoje”, afirmou.

Seu colega, Tadeu Nascimento Valadares, afirmou que os desafios estão além dos desencontros entre a gestão de Trump e a de Lula. “Os desafios são muito claros: o que nós estamos vivendo não é só um momento; estamos vivendo uma época de grandes riscos. E por quê? Simplificando a mais não poder, vivemos uma época que os historiadores da longa duração chamam de um momento de mudança de paradigmas ou de mudança de transição de hegemonias.”

E como esse processo atinge a América Latina? Para ele, a região continua sendo dominada pelos EUA na área militar, por meio da projeção de sua força, como ocorreu na Venezuela, mas, ao mesmo tempo a “hegemonia comercial de cooperação hoje, apesar das diferenças de regime, já é chinesa”. O diplomata lembrou que “transições de hegemonia foram sempre resultantes de enormes conflitos bélicos”. “Esse é o quadro geral dos grandes desafios da diplomacia brasileira”, concluiu.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

O acordo de cessar-fogo: EUA, Irã e Israel - Rubens Barbosa O Estado de S. Paulo

 Opinião: 

O acordo de cessar-fogo: EUA, Irã e Israel

O Irã é a única variável que pode impedir que a doutrina norte-americana seja implementada
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 23/06/2026

Pressionado por fatores internos (inflação, crescente oposição e baixíssimo nível de popularidade) e pelo impacto global do fechamento do Estreito de Ormuz nos custos de produção pelo aumento de preço do petróleo, os EUA chegaram a um acordo de cessar-fogo de 60 dias com o Irã. Trata-se de um avanço limitado, permitindo a abertura do Estreito de Ormuz e o desbloqueio dos portos iranianos. Como parte formal do acordo, ficou entendido que Israel deveria suspender os ataques ao Hezbollah e sair do sul do Líbano. Nesse período, as negociações serão retomadas sobre a questão do programa nuclear iraniano e as contrapartidas norte-americanas. O Memorando de Entendimento assinado por Trump será uma pausa temporária para permitir o atendimento das necessidades internas nos EUA, mas é muito provável que, findo o prazo, as ações bélicas sejam retomadas, em função das prioridades da Estratégia de Segurança Nacional e da radical posição de Israel.
A guerra com o Irã deve ser entendida como um desdobramento da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. A estratégia desenha um mundo dividido em esferas de influência, com dois objetivos: a defesa do território dos EUA e a contenção da China. A prioridade de Washington é o Hemisfério Ocidental, do Ártico à Antártica, passando pela Groenlândia e pelo Canal do Panamá, com a afirmação de que impedirá a presença na região de potências extra-hemisféricas, como a China, a Rússia e o Irã, e que as impedirá de manter reservas estratégicas.
O documento também prevê a existência de países-chave no resto do mundo para dividir as responsabilidades de manter a hegemonia norte-americana. Na região do Indo-Pacífico, os EUA se apoiariam no Japão, na Coreia do Sul, na Austrália e na Índia. Nas cadeias de ilhas do Pacífico, se apoiariam nas Filipinas para conter a China. Na Europa, os aliados são chamados a custear a sua defesa e, por enquanto, para uma reduzida forma de atrito com a Rússia, sem uma nova política de contenção militar. No Oriente Médio, a estratégia diminui a prioridade da região, rejeita a política de construção de nações (Palestina), e se compromete apenas com dois objetivos: proteger Israel e impedir que qualquer nação, “especialmente o Irã”, consiga tornar-se uma potência hegemônica na região.
Por esse desenho, os EUA delegam as outras áreas a nações regionais confiáveis. No Oriente Médio, o país-chave é Israel. A lógica é mútua, visto que Israel declara publicamente que pretende reformular a configuração estratégica regional e tornar-se a potência dominante (Grande Israel). Washington precisa de tal potência para que possa concentrar sua força para conter a China no hemisfério e no Pacífico, sem ter de envolver-se em novas guerras no Golfo.
Dentro desse quadro, a guerra contra o Irã é crucial para a concretização da estratégia dos EUA. O objetivo declarado inicial da guerra em 28 de fevereiro não foi a questão do urânio enriquecido, foi da mudança de regime, para eliminar a ameaça do Irã ao objetivo estratégico dos EUA. Um dos objetivos do Memorando de Entendimento foi abandonado pela reação israelense, apesar da concordância inicial em suspender as hostilidades contra o Hezbollah, por pressão de Trump.
Para tanto, deveriam ser retirados de Teerã o controle do Estreito de Ormuz, o corredor eurasiano e a possibilidade de produzir um artefato nuclear. O Irã controla um dos lados do estreito de Ormuz, passagem marítima em que transitam normalmente cerca de 20% do petróleo, do óleo liquefeito, do gás natural e dos fertilizantes globais. A capacidade de fechar, restringir ou mesmo ameaçar a passagem é uma arma estratégica, equivalente a uma dissuasão tática pelos impactos que acarreta. O corredor internacional norte-sul, criado em 2000, entre a Rússia, o Irã e a Índia se estende por cerca de 7,2 mil quilômetros, de Mumbai passando pelos portos do Irã até o Mar Cáspio e São Petersburgo. A linha ferroviária China-Irã liga Xi’an ao porto seco Aprin, no Irã , e rodovias ao redor do estreito de Málaca. Os dois corredores passam pelo território iraniano. O corredor é de grande importância para a China, pela compra de petróleo iraniano com desconto e pago em moeda chinesa, que, se perdido, representará um duro golpe à sua competitividade industrial.
A guerra, mais recentemente, ficou limitada ao controle iraniano do Estreito de Ormuz e ao bloqueio dos portos iranianos pela armada norte-americana e a ataques isolados aos corredores eurasianos, mas não em relação às centrifugas e aos locais de produção de armas, que agora serão objeto das negociações. Sem acordo, voltarão a ser atacados de forma mais pesada.
Tendo como objetivo estratégico dos EUA colocar Israel como potência principal no Oriente Médio, o Irã é a única variável que pode impedir que a doutrina norte-americana seja implementada. Com a recusa de Israel de aceitar as condições do memorando em relação ao Hezbollah e à saída do sul do Líbano e, muito menos, de atender à reivindicação dos países árabes do Golfo, liderados pela Arábia Saudita, de só aceitar normalizar as relações com Israel com a criação do Estado palestino, não haverá avanço num dos aspectos da Estratégia Nacional de Segurança e ficará ameaçada a vigência do memorando que estabeleceu o acordo temporário.

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/o-acordo-de-cessar-fogo-eua-ira-e-israel/

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Brasil – a verdadeira soberania - Carlos Alberto Di Franco (O Estado de S. Paulo + Madame IA)

Reproduzo, pelo significado de interesse nacional a exposição de Carlos Alberto Di Franco. Grato a Flavio Miragaia Perri a transcriçao deste artigo.


Brasil – a verdadeira soberania

Carlos Alberto Di Franco 

O Estado de S. Paulo, 22 de jun. de 2026

O Brasil atravessa um momento decisivo. O País vive uma perigosa combinação de paralisia institucional, radicalização política e ausência de um projeto nacional consistente. O debate público foi capturado pela lógica simplificadora da polarização. De um lado e de outro, multiplicam-se discursos inflamados, slogans vazios e disputas que alimentam ressentimentos, mas não oferecem soluções.

Ao mesmo tempo, cresce na sociedade um sentimento silencioso, porém cada vez mais perceptível: o desejo de uma liderança madura, equilibrada e capaz de olhar além do calendário eleitoral. O Brasil precisa reencontrar um rumo. Precisa recolocar o desenvolvimento, a segurança e a prosperidade no centro da agenda nacional.

O recente tarifaço imposto pelos Estados Unidos reacendeu, à direita e à esquerda, um debate superficial sobre soberania nacional. Mais uma vez, políticos transformaram um tema sério em instrumento de propaganda. A soberania passou a ser tratada como peça de marketing eleitoral. Discursa-se muito e governa-se pouco.

Mas a verdadeira soberania não se mede pela retórica. Ela se expressa na capacidade de uma nação proteger seus cidadãos, garantir sua segurança, explorar suas riquezas de forma responsável e criar condições para o crescimento econômico.

Sob essa perspectiva, o Brasil enfrenta dois graves problemas de soberania.

O primeiro é o avanço avassalador do crime organizado. Facções criminosas deixaram de ser apenas organizações dedicadas ao tráfico de drogas. Transformaram-se em estruturas sofisticadas de poder, com presença em diversas regiões do País, influência econômica crescente e capacidade de infiltração em setores do Estado. Em muitas localidades, o crime organizado já exerce funções que deveriam ser exclusivas do poder público.

O cidadão comum percebe essa realidade diariamente. A população convive com o medo, com a violência e com a sensação de abandono. A soberania de um país é profundamente ferida quando seus habitantes deixam de ser protegidos pelo Estado e passam a viver sob a ameaça permanente de organizações criminosas.

O segundo problema é o bloqueio sistemático ao desenvolvimento nacional. O Brasil tornou-se refém de uma burocracia sufocante, de um emaranhado regulatório irracional e da ação de grupos organizados que frequentemente atuam contra projetos estratégicos para o País.

Essa realidade se manifesta com especial intensidade na Amazônia. A região concentra riquezas minerais, energéticas e ambientais extraordinárias. Possui potencial para gerar emprego, renda, inovação tecnológica e desenvolvimento sustentável em larga escala. No entanto, sucessivos obstáculos ideológicos e burocráticos impedem que o Brasil aproveite plenamente suas próprias oportunidades.

Não se trata de defender devastação ambiental nem de desprezar a importância da preservação. Mas preservar não pode significar condenar milhões de brasileiros à pobreza, nem transformar a Amazônia num imenso santuário intocável administrado, na prática, por interesses externos.

O Brasil precisa exercer sua autoridade sobre o próprio território. A exploração responsável das riquezas minerais, a produção de energia, a abertura de infraestrutura logística, a ampliação da conectividade e a geração de empregos são instrumentos legítimos de soberania nacional. País algum se desenvolveu renunciando ao uso racional de seus recursos naturais.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. Nos últimos 14 anos, 111 países cresceram mais do que o Brasil. Estudos do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional mostram que, entre 123 países analisados, apenas 11 registraram desempenho inferior ao brasileiro. Em outras palavras, cerca de 90% do mundo avançou mais rapidamente do que nós.

O resultado está à vista. Crescemos pouco, investimos pouco e oferecemos poucas perspectivas às novas gerações. Milhões de jovens brasileiros olham para o futuro com insegurança. O País, que poderia ser uma potência global, contenta-se com desempenhos modestos.

O Brasil precisa de líderes que pensem grande, compreendam a complexidade nacional e sejam capazes de formular um projeto consistente de longo prazo. Governar não é administrar crises sucessivas. Governar é construir futuro.

O estadista não alimenta divisões artificiais. Não governa para as redes sociais nem para as próximas eleições. Governa para a próxima geração. Sabe que a prosperidade nasce da liberdade econômica, da segurança jurídica, da educação de qualidade e da valorização do trabalho.

O Brasil dispõe de território, recursos naturais, capacidade produtiva, talento humano e força empreendedora para ocupar posição muito mais relevante no cenário internacional. O que falta não são riquezas. Falta liderança.

A verdadeira revolução de que o País necessita não é ideológica. É uma revolução de responsabilidade, de competência e de visão estratégica. Uma revolução que enfrente o crime organizado com firmeza, liberte o potencial econômico da Amazônia e devolva aos brasileiros a confiança no futuro. O Brasil precisa de um estadista. •

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Comentários Madame IA: 

Brasil – a verdadeira soberania - Carlos Alberto Di Franco (O Estado de S. Paulo): 


Diagnóstico Crítico da Paralisia Nacional e a Ilusão da Retórica
O artigo do jornalista Carlos Alberto Di Franco, reproduzido no blog do embaixador Paulo Roberto de Almeida, apresenta um diagnóstico severo e estruturado sobre o atual estado de letargia em que o Brasil se encontra, chamando a atenção para a perigosa combinação de paralisia institucional, radicalização política e ausência de um projeto nacional consistente. A crítica central do autor foca em como o debate público nacional foi completamente sequestrado por slogans vazios e por uma polarização eleitoreira que atende a conveniências partidárias, mas falha gravemente em prover respostas aos dilemas estruturais do país. Nesse cenário de beligerância estéril, o conceito de soberania é frequentemente degradado, transformando-se em mero instrumento de propaganda ideológica e marketing político, tanto à esquerda quanto à direita, especialmente após eventos de impacto internacional como o recente tarifaço imposto pelos Estados Unidos. Di Franco contrapõe essa conduta demagógica à realidade pragmática, argumentando que a verdadeira soberania não reside no gogó diplomático ou em discursos nacionalistas inflamados, mas sim na eficiência real do Estado em proteger seus cidadãos, garantir segurança jurídica e promover um ambiente de prosperidade econômica sustentável. [1, 2, 3, 4]
O Avanço do Crime Organizado como Estado Paralelo
No topo das ameaças reais à soberania territorial e civil, a análise destaca o avanço avassalador das facções criminosas no território brasileiro, apontando que estas deixaram de atuar puramente como cartéis de tráfico para se converterem em estruturas sofisticadas de poder com capacidade de infiltração em setores do Estado. O texto adota uma postura contundente ao demonstrar que, em diversas regiões do território nacional, o crime organizado já assumiu funções que deveriam ser prerrogativas exclusivas do poder público, submetendo a população a uma rotina de medo, violência e completo desamparo. Esse fenômeno representa a falência da soberania na sua dimensão mais elementar, uma vez que o monopólio legítimo da força foi quebrado pelo crime, ferindo de morte o contrato social e a capacidade do governo de exercer autoridade efetiva sobre suas próprias fronteiras e comunidades. [1, 2, 3]
O Bloqueio Regulatório e o Potencial Sufocado da Amazônia
O segundo grande entrave à soberania nacional detalhado na publicação diz respeito ao bloqueio sistemático do desenvolvimento, gerado por uma burocracia sufocante, um emaranhado regulatório irracional e a ingerência de grupos ideológicos. O principal front desse embate é a região amazônica, detentora de um potencial gigantesco em recursos minerais, energéticos e ambientais. A crítica do autor direciona-se contra as correntes que, sob o pretexto da preservação, acabam por transformar a região em um santuário intocável que, na prática, é administrado por interesses externos, condenando milhões de habitantes locais à miséria extrema. Di Franco defende firmemente que o uso racional, tecnológico e sustentável dos recursos naturais é o caminho legítimo para afirmar a soberania sobre o território, uma vez que a vulnerabilidade socioeconômica abre margem para pressões internacionais geopolíticas indesejadas. [1, 2, 3, 4]
O Declínio Econômico Comparativo e a Urgência do Estadismo
Para fundamentar empiricamente o declínio do país, a análise recorre a dados alarmantes baseados em estudos do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, os quais revelam que nos últimos quatorze anos cerca de noventa por cento do mundo avançou mais rapidamente do que o Brasil. Esse fraco desempenho econômico crônico joga uma sombra de forte insegurança sobre o futuro das novas gerações de jovens, que se deparam com um mercado estagnado e sem perspectivas de mobilidade social. Di Franco conclui seu manifesto cobrando uma mudança profunda no perfil da governança nacional, afirmando que o país carece desesperadamente de um estadista que pense grande e governe voltado para a próxima geração, e não para as redes sociais ou para o próximo calendário eleitoral. A verdadeira transformação exigida não passa por revoluções de viés ideológico, mas sim por um choque de competência, liberdade econômica, segurança jurídica e responsabilidade estratégica de longo prazo. [1, 2, 3]


domingo, 14 de junho de 2026

História, memória... e FHC - Pedro Malan (O Estado de S. Paulo)

História, memória... e FHC

Pedro Malan
O Estado de S. Paulo, 14/06/2026

Este artigo é uma homenagem aos 95 anos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e à sua contribuição para a modernização do Brasil. É também um apelo por uma resposta, com visão de futuro, para a situação econômica, social e político-institucional do Brasil nesta quadra difícil e perigosa em que se encontram nosso País e o mundo. Já o fizemos no passado. Será necessário voltar a tentar, e com sentido de urgência.
Em 13 de junho de 1993, menos de um mês depois de FHC ter assumido o Ministério da Fazenda, foi dado a público o Programa de Ação Imediata. Visto em perspectiva histórica, o documento representa um marco importante por razões que guardam relevância para a situação do Brasil de hoje. O programa abre com a seguinte frase: “Somente quatro países do mundo tiveram inflação superior a 1.000% (em 1992): a Rússia, a Ucrânia, o Zaire (Congo) e o Brasil.” O documento deixava claro que o fim da inflação não era objetivo que se esgotasse em si mesmo.
O desafio à frente era assim sintetizado: “1) O Brasil só consolidará sua democracia e reafirmará sua unidade como nação soberana se superar as carências agudas e os desequilíbrios sociais que infernizam o dia a dia da população; 2) A dívida social só será resgatada se houver ao mesmo tempo a retomada do crescimento autossustentado da economia; 3) A economia brasileira só voltará a crescer de forma duradoura se o País derrotar a superinflação que paralisa os investimentos e desorganiza a atividade produtiva; 4) A superinflação só será definitivamente afastada do horizonte quando o governo acertar a desordem das suas contas, tanto na esfera da União como dos Estados e municípios; e 5) E as contas públicas só serão acertadas se as forças políticas decidirem caminhar com firmeza nessa direção, deixando de lado interesses menores”.
Havia sentido de rumo, direção e visão de curto, médio e longo prazos, que foram reafirmados nos meses subsequentes, com a conclusão dos acordos da dívida externa com credores privados. E, fundamentalmente, com a Exposição de Motivos (EM) n.º 395, de dezembro de 1993, intitulada “Programa de Estabilização”.
O importante documento continha “um breve diagnóstico da crise fiscal brasileira e proposições relativas à estabilização da economia em três frentes de atuação: a) equilíbrio orçamentário no biênio 1994-1995; b) sugestões à revisão constitucional; c) reforma monetária”. Esta última consistia na criação da Unidade Real de Valor (URV), a que se seguiria a introdução da nova moeda, que naquele momento ainda não havia sido batizada de Real. Esse conjunto consubstanciou, no dizer preciso de Edmar Bacha, o que se convencionou chamar de Plano Real.
Sugestões à revisão constitucional eram, portanto, parte integrante do Programa de Estabilização. Ao justificar as emendas propostas, em parágrafo escrito pelo próprio ministro Fernando Henrique, que havia participado da Constituinte, a Exposição de Motivos dizia: “Faltou-nos (aos constituintes de 1988) a percepção realista dos mecanismos de financiamento do gasto social e faltou-nos a decisão de efetivamente reconstruir o Estado em bases de competência e eficiência.”
As palavras de FHC continuam expressando no Brasil de hoje, passados mais de 32 anos, necessidade, relevância e urgência. Estamos num desses momentos críticos para tal, no Brasil, como no mundo. Afinal, as três perguntas de Marcos Mendes continuam a reverberar como o “decifra-me ou te devoro” da esfinge milenar: 1) Por que o Brasil cresce pouco?; 2) Por que o Brasil é um país tão desigual?; e 3) Por que é tão difícil fazer reforma no Brasil (para lidar com as duas perguntas anteriores)? Entendamos os desafios, ou seremos vencidos por eles.
Toda sociedade precisa ter algum grau de consciência de seu passado para que, com base em seus acertos e desacertos, orgulho e autoestima, possa vislumbrar seus possíveis futuros. Iniciativas recentes do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), da Casa das Garças e do Movimento Brasil Adiante representam tentativas sérias que espero possam motivar parte relevante da sociedade a pensar o Brasil e seu futuro e melhorar a qualidade do debate público nesses meses que antecedem as eleições deste ano. Foi em outro mês de junho, em 2002, que o então candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva divulgou sua carta-compromisso ao povo brasileiro na qual afirmava que, se eleito fosse: “Faria o esforço fiscal necessário para estabilizar a relação dívida/PIB, comprometia-se a respeitar contratos, a preservar a inflação sob controle”. Quão bom seria se Lula reeditasse os seus compromissos de junho de 2002 neste conturbado junho de 2026.
“O passado não está morto, não é nem mesmo passado”, escreveu William Faulkner em Requiem for a nun. A bela frase lembra Borges, para o qual sempre haveria “o presente do passado, ao qual chamamos memória”. Um presente que sempre contém sonhos, desejos e expectativas – de pessoas e de países – sobre o por vir. E estes, quer se realizem, quer não, constituem o que Borges chamou de Memórias do futuro. O Brasil terá de se erguer à altura dos seus inúmeros desafios. Já o fizemos no passado.

terça-feira, 12 de maio de 2026

O Atlântico Sul como zona de paz e cooperação - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

O Atlântico Sul como zona de paz e cooperação
Nos próximos três anos, o Brasil estará na presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 28/04/2026

Nos dias 8 e 9 de abril, o Brasil foi sede da 9.ª Reunião Ministerial e assumiu pela terceira vez a Presidência Pro Tempore da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas).
A Zopacas foi criada – por iniciativa do Brasil, apoiado pela Argentina – pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de promover a cooperação regional e a manutenção da paz e da segurança no entorno dos 24 países sul-americanos e da costa ocidental da África que aderiram ao projeto. Estabelecida em 27 de outubro de 1986, este fórum se propôs a ser o principal mecanismo de articulação, no Atlântico Sul (área compreendida entre o paralelo 16.° N e a Antártida), buscando promover uma maior cooperação regional para o desenvolvimento econômico e social, a proteção do meio ambiente, a conservação dos recursos vivos e não vivos e a segurança de toda a região, sob a perspectiva da integração multilateral, permeada pelo pano de fundo das iniciativas relacionadas à não proliferação de armas nucleares e de destruição em massa.
Em seus primeiros anos, a agenda política da Zopacas esteve voltada a projetos de cooperação para o desenvolvimento socioeconômico. As preocupações eram associadas à percepção de ameaça oriunda da confrontação entre as duas superpotências; e do regime sul-africano que, além de institucionalizar políticas discriminatórias, ocupava ilegalmente o território da Namíbia, influenciava a guerra civil angolana e perseguia um programa nuclear para fins militares, conflitante com a proposta de uma zona de paz livre de armas nucleares no Atlântico Sul. Com o fim da guerra fria e do regime do apartheid sul-africano, a Zopacas esgotou suas pautas principais, correndo o risco de avançar rumo à irrelevância. Em 1992, visando a recuperar o projeto regional de iniciativa brasileira, foi lançado o projeto de atualização da zona que propunha a inclusão da pauta de proteção do meio ambiente marinho como meio de mantê-la como um fórum relevante internacionalmente.
A partir dos anos 2000, com as descobertas de petróleo offshore em ambas as margens do Atlântico Sul, a Zopacas passou a se apresentar como um dos meios para governança deste espaço e para evitar ingerência externa e proteger os recursos energéticos. Em 2021, ficou decidida a convocação de reuniões anuais à margem da reunião da Assembleia-Geral da ONU e a necessidade de criação de um mecanismo de acompanhamento. Os principais objetivos da retomada das reuniões ministeriais foram: 1) reforçar a ideia do Atlântico Sul como zona de paz e cooperação, livre de armas de destruição em massa e de rivalidades e conflitos que lhe sejam alheios; 2) aumentar o engajamento dos membros africanos com o agrupamento; e 3) desincentivar a presença militar de Estados das demais regiões no Atlântico Sul.
Do ângulo brasileiro, a Zopacas passou a se integrar ao conceito de entorno estratégico, incluído na Política de Defesa Nacional desde 2005, mantendo-se nos documentos seguintes a prioridade do entorno estratégico, da América do Sul à Costa Ocidental da África, englobando o Atlântico Sul e a Antártida, já presente no texto desde a primeira versão. Dentro do novo quadro geopolítico, a instabilidade internacional e a reconfiguração de alianças observadas nos últimos anos reforçam a importância de fortalecimento da Zopacas como contrapeso ao aumento de pressões extrarregionais no Atlântico Sul. Ao mesmo tempo, ameaças à região e aos recursos marinhos nela existentes, incluindo a poluição do meio ambiente marinho, ameaças à segurança marítima, especialmente no Golfo da Guiné, o crime organizado transnacional, a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada, dentre outros, demandam respostas coletivas e estreita coordenação regional.
Nos últimos 20 anos, o governo brasileiro assinou acordos-quadro de cooperação em defesa com alguns dos Estados-membros da Zopacas, sendo África do Sul; Guiné-Bissau; Namíbia; Angola; Guiné Equatorial; Nigéria; São Tomé e Príncipe; Senegal; Uruguai; Cabo Verde; e Benin. Foram igualmente assinados o Acordo Operacional entre o Centro de Controle de Área Atlântico e o Centro de Controle de Área Abidjan (2010) e um Memorando de Entendimento entre a Marinha do Brasil e a Marinha Nacional de Camarões (2018).
Caso a Zopacas não seja capaz de responder a essas demandas, outras iniciativas e atores podem se impor à região. É oportuno lembrar que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mudou sua doutrina ampliando seu raio de ação para o Atlântico Sul e mais recentemente para “as áreas de interesses dos países membros”, referência indireta ao mar do Sul da China.
A 9.ª Reunião Ministerial apresentou como resultados uma declaração política com compromissos sobre a manutenção da paz e segurança e cooperação para o desenvolvimento sustentável no Atlântico Sul, a apresentação de uma estratégia de cooperação entre os países participantes, cobrindo a governança dos oceanos, segurança e defesa marítima e desenvolvimento sustentável do meio ambiente e uma convenção sobre proteção do meio ambiente no Atlântico Sul. Nos próximos três anos, o Brasil estará na presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico.
 
Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)
 

sábado, 25 de abril de 2026

Dez anos do impeachment de Dilma - Rogerio Werneck (O Estado de S. Paulo)

 Essa mulher continua viva e exilada no Banco dos BRICS. Imagino o quanto custa ao país mantê-la nessa situação, e por quanto tempo… Walmyr Buzatto

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Dilma, dez anos depois

Rogério Werneck

O Estado de S. Paulo24 de abr. de 2026

Uma década após o impeachment, o desastroso mandato e meio de Dilma Rousseff continua a ser um trauma mal resolvido a assombrar o PT. Aferrados ao negacionismo, o presidente Lula e seu partido jamais conseguiram desenvolver uma narrativa apresentável do que ocorreu entre 2011 e 2016. Para efeito externo, Lula continua a se comportar como se o governo Dilma jamais tivesse existido. Um período a ser desconsiderado e, de preferência, jamais mencionado.

Ao mesmo tempo, com a sutileza que a preservação de seu autoengano exige, Lula sempre fez o possível para se dissociar do calamitoso desempenho de Dilma Rousseff. Mas a verdade é que tal dissociação nunca lhe foi fácil. Por pelo menos duas razões.

De um lado, é mais do que sabido que foi de Lula, e só dele, a ideia de alçar Dilma Rousseff à Presidência da República. Um desatino que, em face de tenaz resistência do PT, teve de ser enfiado goela abaixo do partido.

De outro, é preciso ter em conta que Dilma não governou sozinha. Nem errou sozinha. Sua administração foi tripulada de ponta a ponta pelo PT, inclusive com a preservação quase integral da equipe econômica de Lula. Não há como negar que, entre 2011 e 2016, o País foi governado pelo partido.

Como é esse mesmo PT que, desde 2023, voltou a tripular os cargos mais importantes do governo, e voltará a tripulá-los num possível Lula 4, é natural que haja grande apreensão com os nomes que poderão ser escalados e as ideias que acabarão prevalecendo.

O mais grave é que, diante da extensão do comprometimento do PT com o que ocorreu no governo Dilma, o que acabou se impondo foi a aposta no pacto de manter o partido coeso, com olhos fechados para erros e excessos cometidos, em amnésia coletiva, sem recriminações e autocríticas.

Assombrado pelo passado, Lula viu seu terceiro mandato como uma oportunidade para insistir em políticas caras ao PT, certo de que isso o redimiria das pechas que lhe foram imputadas na esteira da devastação deixada por sua sucessora. Deixou-se levar pela ilusão de que, ao insistir nas mesmas ideias, poderia convencer a si mesmo e ao País de que, no fundo, não havia nada de errado com elas.

Deu no que deu. Não é por acaso que o grau de descontrole fiscal que agora se vê no Lula 3 já se assemelha ao que se viu no governo Dilma. Se, desta vez, as consequências não chegaram a ser tão dramáticas, foi porque Lula agora defrontouse com um Banco Central autônomo, que já não lhe deixou mais espaço para ser tão vastamente irresponsável como Dilma Rousseff. 

“O mundo de Celso Amorim”, Marcelo de Paiva Abreu (2016)

O economista historiador Marcelo de Paiva Abreu acaba de publicar uma coletânea de seus artigos publicados no Estado de S. Paulo, de 1995 a 2016, num livro que já apresentei neste mesmo espaço, cuja capa ilustra esta postagem. Selecionei um de seus artigos sobre o então ex-ministro das relações exteriores (assim em minúsculas) dos dois primeiros mandatos do presidente Lula. Conheço bem os detalhes de cada um dos argumentos, mas não vou apresentá-los aqui para não estender esta introdução. Outros artigos selecionados seguirão.


Marcelo de Paiva Abreu:
“O mundo de Celso Amorim”
O Estado de São Paulo, quarta-feira, 25/05/2016
In: Da Gávea: Ensaios sobre o Brasil e a economia mundial, 1995-2016 (RJ: Eco-PUC-Rio, 2026), p. 43-44

Em 2008, em Genebra, Celso Amorim, então ministro das Relações Exteriores, criou intenso mal-estar entre os parceiros comerciais do Brasil ao citar a frase de Joseph Goebbels de que uma mentira repetida muitas vezes se toma verdade. Fazia referência à postura dos países desenvolvidos quanto à liberalização agrícola. Seu artigo publicado na Folha de São Paulo (22/5) revela que o ex-chanceler desenvolveu certo fascínio pelo aforisma. Repete com insistência manifestações distorcidas feitas no passado. O ex-ministro já se havia notabilizado pelo embelezamento autobiográfico ao arrepio dos registros escolares, deixando prosperar a ideia de que seria doutor pela London School of Economics, com formação similar aos “especialistas” que tenta ironizar em seu artigo.
Depois de ter perpetrado, em parceria com seu alter ego no Palácio do Planalto, uma política externa desastrosa, permitiu-se uma crítica marcada pela fantasia e pela disciplina partidária aos primeiros movimentos de José Serra como ministro das Relações Exteriores. A resposta do Itamaraty às reações destemperadas e equivocadas de Bolívia, Costa Rica, Cuba, Equador, Venezuela e da Unasul com relação ao início do processo de impeachment foi objeto de censura, quando parecia ser a única reação possível a intromissões inoportunas em processo legal que transcorre estritamente de acordo com a Constituição e os ritos definidos pelo Supremo Tribunal Federal.
Amorim sugere que, por “prudência, ou temor do sócio maior dessa entidade”, a nota à Organização dos Estados Americanos (OEA) não usou palavras tão duras. Luis Almagro, secretário-geral da OEA, ex-ministro de relações exteriores do Frente Amplio uruguaio, mostrou destempero em manifestações sobre o impeachment no Brasil. De fato, seria perfeitamente razoável se o Brasil chamasse de volta seu embaixador na OEA, a exemplo do que fez o governo petista, baseado em razões menos graves.
No terreno econômico, a “mala leche” persiste: questionar a união aduaneira, como fará o Itamaraty, seria retirar o coração do Mercosul. Nenhuma referência às dificuldades de celebrar acordos de livre-comércio em vista da resistência de parceiros durante o período kirchnerista. A ojeriza de Serra à TEC, por extrema que possa parecer, tem sólidas razões no retrospecto.
Amorim curiosamente passa ao largo da Organização Mundial do Comércio, a menos de uma menção ao G-20, criado em Cancún em reação às propostas indecorosas sobre agricultura dos EUA e da União Europeia. Não há referência ao fracasso em Genebra em 2008, talvez para evitar menção às resistências indianas com que não contava. Poucos esquecerão o contraste, no relato do fracasso, entre Amorim, citando o G-20, e o indiano Nath, mencionando o G-33, coalizão de economias subdesenvolvidas contrárias à liberalização agrícola. E, contudo, foi o ponto alto de sua gestão no Itamaraty.
O ex-ministro aproveita a oportunidade para vangloriar-se da fracassada gestão brasileira no Irã, com direito a referência a exaltações, inclusive nos EUA (aqui desaparece o ranço anti EUA). Nas palavras do saudoso Luiz Felipe Lampreia, tratou-se de operação de alto risco e com poucas chances de êxito. Deixou o Brasil chupando o dedo e meditando sobre os riscos inerentes ao protagonismo excessivo.
Finalmente, deve ser registrada a tentativa do ex-ministro de etiquetar o seu sucessor como direitista e, presume-se, a si mesmo como esquerdista. Para registro: enquanto Serra estava exilado no Chile e, depois, nos EUA, Celso Amorim progredia na carreira diplomática durante os anos de chumbo. É fácil hoje se arvorar monopolista das ideias progressistas com referências a guinada à direita e defender teses esdrúxulas como a de que “artistas e intelectuais interpretam, de maneira intuitiva, a alma do povo”.
O governo do PT arruinou o País não só no plano econômico, mas também quanto à política externa. Chegou o momento de identificar os responsáveis e evitar empulhações.
(seguirão mais artigos...)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Opinião: As FFAA e a política no Brasil - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião: As FFAA e a política no Brasil

A prisão de militares de alta patente marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no País
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 14/04/2026

A prisão de militares de alta patente, inclusive de um ex-presidente, ex-ministro da Defesa e comandantes das forças singulares, marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no Brasil. Foram 27 militares que participaram de uma tentativa de golpe, de acordo com a acusação do Supremo Tribunal Federal (STF), todos tornados réus e condenados.
Como consequência das prisões, o Superior Tribunal Militar (STM) julgará se todos os oficiais e o presidente perderão seus postos e patentes por serem considerados indignos do oficialato ou com ele incompatíveis. O resultado é incerto e poderá tornar-se controvertido.
A reação da instituição militar ao julgamento mostra que houve uma mudança significativa no comportamento das Forças Armadas (FFAA), comprovada pela atuação fora da política (com poucas exceções individuais) desde 1985, apesar das tentativas de atraí-las para o cenário político no governo anterior. E agora, depois do julgamento e do início do cumprimento das penas, não se ouviu nem se leu qualquer manifestação contra a condenação e as penas impostas aos que tentaram desafiar a democracia e as regras do jogo democrático. Com 40 anos, desde 1985 até hoje, nunca houve um período tão longo na história brasileira, sem uma intervenção dos militares na vida política nacional.
Depois de 14 intervenções militares na política nacional, desde a deposição do imperador Pedro II em 1889, até o golpe de Estado de 1964, pela primeira vez, os articuladores e líderes desses movimentos contrários à democracia foram indiciados, julgados e condenados. A anistia, sempre concedida a todos os participantes das insurreições anteriores, pela primeira vez, não foi aplicada, pelo menos, até aqui.
Pesquisa recente da AtlasIntel/Estadão sobre o nível de confiança da sociedade nas instituições – talvez influenciada pelo que ocorreu no governo anterior – colocou o Exército e as FFAA com 60% de desconfiança, em penúltimo lugar, só perdendo para o Congresso. Corrigir essa percepção é uma das principais razões para virar mais uma página de nossa história.
A virada de página dos militares seria um marco na história política brasileira e, espera-se, poderá ter profundos impactos na evolução e fortalecimento da democracia no Brasil e no papel das FFAA na sociedade brasileira.
No debate interno sobre o papel das FFAA, a tendência é sempre discutir o papel constitucional dos militares, a submissão dos militares ao poder civil, deixando de lado, no Congresso e na sociedade civil, aspectos relevantes, como a formulação de uma nova política de Defesa, a modernização operacional e logística das FFAA, a necessidade de investimentos na Defesa, a interação com a Base Industrial de Defesa e sobretudo a previsibilidade das questões orçamentárias. Na verdade, os civis – os políticos e a academia – são os grandes ausentes no exame isento e objetivo dos problemas da organização das Forças Armadas e da Defesa nacional.
O Congresso daria uma relevante contribuição para reafirmar a supremacia do poder civil, caso decidisse examinar questões que dizem respeito à participação de militares da ativa no Executivo e sobre a designação do ministro da Defesa. A chefia do Ministério da Defesa, normalmente civil, somente poderia ser ocupada por oficial militar se o indicado estiver na reserva por pelo menos sete anos e, caso não preencha esse requisito, com a expressa autorização do Congresso, como ocorre nos EUA. Duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) encontram-se paradas no Congresso.
A primeira é a PEC que estabelece que a indicação de militares da ativa para cargos civis no governo deveria seguir norma pela qual qualquer representante das Forças Armadas e da Polícia Militar que aceitar convite para integrar o Executivo, em qualquer nível, deveria passar automaticamente para a reserva. Adicionalmente, o Congresso deveria votar a PEC que proíbe a participação de militares da ativa nas eleições. O texto, que dorme há três anos no Congresso, prevê a transferência para a reserva de integrantes das Forças Armadas que optarem por entrar na política, uma medida importante para proteger as tropas da politização.
Para encerrar um período complexo da história nacional, o Congresso deveria também examinar outra PEC prevendo a mudança no artigo 142 da Constituição federal, que dispõe: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos Poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Seria eliminada a parte final (“a garantia dos poderes constitucionais e por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”) para deixar bem claro que as FFAA não ganharam, pelo texto atual, um poder moderador para arbitrar crises políticas internas no Brasil, conforme decisão do STF sobre o assunto.
Com essas medidas, seria virada uma página sensível dos 137 anos de história de participação ativa dos militares na vida política nacional, dando-se ênfase à subordinação das FFAA às leis e à Constituição.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/as-ffaa-e-a-politica-no-brasil/

segunda-feira, 30 de março de 2026

A Previdência, rumo ao colapso - Celso Ming (O Estado de S. Paulo)

 A Previdência, rumo ao colapso

Celso Ming
O Estado de S. Paulo, domingo, 29 de março de 2026

É como rompimento de barragem. O rombo da Previdência Social vai crescendo inexoravelmente. Se nada se fizer para estancar o vazamento, até mesmo antes de 2030 faltarão recursos para pagamento das aposentadorias.

Em uma década, o déficit anual, que era de R$ 272 bi em 2015, passou a R$ 442 bi em 2025, crescimento de 62,5%.

Um punhado de fatores explica essa esticada. O aposentado está vivendo cada vez mais, o que empurra por mais tempo as despesas com aposentadoria. O brasileiro optou por ter menos filhos, o que vem produzindo encolhimento da oferta de trabalho e das contribuições para a Previdência. De quebra, as empresas também aumentaram o uso de robôs e de outras tecnologias, o que as dispensa de contribuições da parcela do empregador. As grandes transformações do mercado de trabalho levaram o pessoal da ativa a preferir cada vez mais o trabalho autônomo ou a criação de MEIs (Microempreendedores Individuais), cuja contribuição ao INSS, quando é cumprida à risca, é apenas uma fração da contribuição comum.

Em consequência de políticas populistas, o salário mínimo, que corrige as aposentadorias, vem aumentando acima da inflação e, assim, multiplica as despesas da Previdência. Este e governos anteriores vêm sendo mais complacentes na concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que paga salário mínimo para pessoas com deficiência que comprove renda baixa. Essas pressões mostram que a reforma de 2019 não passou de gambiarra destinada a empurrar com a barriga um problema enorme.

Sempre que a situação da Previdência fica insustentável, aparecem sugestões para que se substitua o atual regime de repartição simples – em que o trabalhador da ativa paga as aposentadorias em curso – pelo regime de capitalização – em que a aposentadoria corresponderá tão somente às contribuições feitas pelo trabalhador somadas ao rendimento obtido por sua aplicação no mercado financeiro. Mas esse é um sistema complicado, que exige boa administração financeira e que deixa a descoberto a remuneração dos já aposentados e dos que já contam prazo no sistema de repartição. Não deu muito certo no Chile e foi abandonado pela Argentina.

Outra ideia é adotar regime misto, com a capitalização apenas para camadas mais altas. É mais ou menos o que já acontece hoje: as famílias de renda mais alta adotam esquemas de aposentadoria complementar (PGBL e VGBL) à aposentadoria convencional. Mas esse arranjo não traz solução para o problema principal.

A próxima administração do País terá de escolher entre adotar nova reforma da Previdência e continuar adiando a solução. Independentemente disso, quem já recebe aposentadoria ou quem a espera para os próximos anos tem de saber que essa renda, em pelo menos parte dela, corre alto risco de ser caloteada.

Um novo Oriente Médio Denis Lerrer Rosenfield O Estado de S. Paulo

Um novo Oriente Médio 

Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo, 

segunda-feira, 23 de março de 2026

O projeto teocrático de uma grande potência regional dominando o Oriente Médio foi por água abaixo

O Oriente Médio mudou após o ataque americano-israelense e a reação da teocracia iraniana. Nada voltará a ser como antes, goste-se ou não desta nova realidade. O Irã se apresentava com uma grande potência regional, caminhando para deter a produção de bombas nucleares, almejando a destruição pura e simples do Estado de Israel. Utilizava-se, para isso, de seus satélites: Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah e Houthis. Com exceção dos últimos, enfraquecidos, os outros já foram derrotados militarmente. Graças à guerra atual, o Irã já está militarmente vencido, contentando-se com atacar as nações árabes, inclusive xiitas como o Catar, procurando criar o caos no Estreito de Ormuz e forçar um aumento do preço do petróleo e do gás em escala mundial. Só os simpatizantes do Irã e do terror islâmico resistem a reconhecer a nova correlação geopolítica de forças, a esquerda mundial satisfazendo-se com a areia do ódio que a teocracia lança nos seus olhos.

Torna-se, aqui, necessário fazer a distinção entre os objetivos militares e políticos da guerra, pois a confusão entre essas duas perspectivas pode distorcer a análise dos fatos.

Os objetivos militares de israelenses e americanos são praticamente os mesmos, apesar de algumas nuances. Israel tem no Irã um inimigo existencial, voltado para a sua aniquilação, algo declarado pela teocracia e seus satélites. Sob a ótica militar, os objetivos estão praticamente consumados: destruição da defesa antiaérea do Irã, com todo o seu sistema de radares e armamentos; aniquilação de seus instrumentos e condições de produção de uma bomba nuclear e erradicação dos depósitos, estoques, fabricação e lançamento de mísseis balísticos.

Os americanos, em particular, acrescentaram a destruição da Marinha e Israel, a morte das lideranças políticas e militares. Segundo cada um desses itens, todos alcançando praticamente acima de 80%, pode-se dizer que em poucas semanas essa proporção aumentará, dando a guerra como finalizada. Ocorre, porém, que o presidente Trump falou de uma mudança de regime, enquanto os israelenses mais prudentes declararam que buscariam criar apenas as condições para isso, cabendo ao povo iraniano, violentamente oprimido pela teocracia, levar a cabo essa missão. Esse seria um objetivo propriamente político, que não poderia ser realizado militarmente, salvo com o emprego maciço de forças terrestres, algo fora de questão. Politicamente, a tarefa cabe aos iranianos.

Os líderes iranianos, cientes disso, apesar de seu discurso belicoso, segundo o qual irão destruir a coligação americano-israelense, mostram por suas ações que já perderam. Atacam os países árabes, inclusive bombardeando-os mais do que a Israel. A guerra deslocou-se de Israel e das bases americanas para esses países, almejando assim algum ganho propriamente político, uma espécie de porta de saída, com a vitória militar já completamente afastada. Sobra somente a narrativa voltada para os incautos, que ainda acreditam no que a liderança teocrática vocifera. O fato maior, todavia, é o seguinte: o projeto teocrático de uma grande potência regional dominando o Oriente Médio foi por água abaixo.

O Irã, se não houver uma sublevação de seu próprio povo, continuará a ser brutalmente oprimido pelo que restará da Guarda Revolucionária e dos paramilitares da polícia política Basij – diga-se de passagem, que são objetos de ataques israelenses sistemáticos. Pode perfeitamente acontecer que preservem o seu poder, embora não tenham doravante nenhuma importância geopolítica. Tal situação pode ser perfeitamente acomodada tanto pelos israelenses quanto pelos americanos, apesar de ser desejável o estabelecimento de uma democracia nesse país.

Os EUA, por sua vez, mostram que são uma potência mundial incontrastável. A esquerda mundial que tanto fala do declínio americano deve estar mordendo a língua. Os russos não conseguem nem vencer a Ucrânia, quanto mais a Europa em seu conjunto, contra forças alemãs, francesas, inglesas, polonesas e italianas. Os chineses contentaram-se com contestações diplomáticas, nada arriscando. Como é de seu feitio, resguardam com afinco os seus interesses, os seus businesses. Os países árabes, por causa da retórica do ódio da teocracia iraniana, atacando inclusive suas instalações de infraestrutura e civis, irão se alinhar diretamente ou indiretamente aos EUA e Israel. São sua proteção e sua existência que estão agora em questão.

Os israelenses surgem vencedores como grande potência regional. Nenhum Estado da região lhe é comparável em superioridade científica, tecnológica e de indústria de defesa, com uso intensivo de inteligência artificial e guerra cibernética. Ademais, o uso sincronizado de todos esses instrumentos entre Marinha, Exército e Força Aérea faz de seu poderio um poder incontornável.

Saliente-se, ainda, que esse tipo de coordenação com as forças americanas mostra como a guerra do século 21 perfila-se no horizonte, mostrando desde já a sua presença.

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma nova política de Defesa - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

Uma nova política de Defesa

Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, terça-feira, 24 de março de 2026

A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo

Em janeiro passado, o presidente Lula convocou uma reunião com o ministro da Defesa, os comandantes das três Forças e o chefe do Estado-Maior Conjunto para analisar as vulnerabilidades do Brasil no caso de uma ameaça externa. A preocupação, oportuna neste momento, mas muito atrasada do ponto de vista da defesa da soberania, tem de ser também entendida pela sociedade e pela classe política, distantes desse problema, cada vez mais urgente diante das incertezas globais e pela insegurança interna.

O sinal de alerta foi dado ao se constatar que o País hoje é indefeso. No encontro com Lula, os militares ofereceram um quadro realista e preocupante. Foi dado como exemplo o fato de o Brasil não dispor de uma capacidade de defesa antiaérea que sirva como dissuasão para qualquer ameaça externa. Evidentemente, o Brasil e qualquer outro país da região estão longe de dispor da capacidade de dissuasão para impedir a ação militar de uma superpotência como os EUA. A defasagem dos equipamentos bélicos disponíveis não poderá ser corrigida nem a curto nem a médio prazo, inclusive porque o Brasil depende, na sua quase totalidade, de equipamentos dos EUA e da Europa.

Um plano de investimentos na área de Defesa para o longo prazo foi apresentado pelo ministro José Múcio. O plano prevê investimentos de R$ 800 bilhões em 15 anos, sendo R$ 456 bilhões para projetos do Exército e R$ 250 bilhões para a Marinha e o restante para a Força Aérea. O valor é bem superior ao programa de defesa nacional de cerca de R$ 15 bilhões aprovados para 2026 e aos R$ 30 bilhões nos próximos seis anos para projetos estratégicos de defesa nacional.

O conflito no Oriente Médio começou a ser estudado pelo Exército para identificar riscos e impactos críticos para a Defesa a partir da ação e estratégia aplicadas no conflito. Como era de se esperar, os resultados apontaram para as deficiências e vulnerabilidades brasileiras nessa área. A nacionalização dos componentes e a diversificação dos fornecedores para os programas estratégicos e para a produção de munição, blindados e o desenvolvimento de um sistema de comunicações nacional foram algumas das conclusões alcançadas. Como uma das primeiras medidas para fortalecer a Defesa, o Exército tornou a artilharia antiaérea um projeto estratégico a ser desenvolvido de imediato.

Não será fácil nem rápido, o trabalho para ajustamentos internos de hábitos e práticas para a definição de uma nova política de Defesa.

As deficiências da Defesa não se limitam apenas ao orçamento reduzido e a insuficiente compra de equipamento bélico no exterior. A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas (FFAA) tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo. Ao Ministério da Defesa cabe a liderança de uma ampla discussão interna corporis – seguida de negociação com outros ministérios relevantes e o Congresso Nacional – sobre a reestruturação do sistema de Defesa para implementar mudanças estruturais, como a implantação de uma carreira civil, a redução gradual dos encargos com o pessoal ativo e inativo e a modernização do modus operandi das três Forças, inclusive com a criação da Base Logística de Defesa – difícil de ser aceita pelas FFAA – para coordenar as aquisições militares, a diversificação das fontes de suprimento dos equipamentos (Índia e Turquia) e o estímulo à indústria nacional, com o gradual aumento das compras de empresas nacionais. Um primeiro passo nessa direção pode ser a unificação e, no futuro, extinção dos escritórios de compras das três Forças no exterior e o fortalecimento da Secretaria de Produtos de Defesa (Seprod).

A Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Conselho de Governo (Creden), órgão de assessoramento ao presidente da República nas áreas de relações exteriores e defesa nacional, poderá melhorar a coordenação dentro do governo e ter maior interação com a sociedade civil, conforme previsto no decreto de institucionalização. A Creden poderá discutir e acompanhar políticas públicas na sua área de competência, em articulação com os demais órgãos responsáveis; promover a articulação e acompanhar a implementação de programas e ações interministeriais, incluindo temas como Defesa e relações exteriores.

O acompanhamento dos temas de Defesa no contexto dos interesses mais amplos do País e levando em conta os desafios globais e nacionais indicaria que o primeiro assunto a ser discutido pela Creden deveria ser a vulnerabilidade da segurança interna e externa do Brasil e como reforçar a Base Industrial de Defesa.

Em ano eleitoral, é difícil que temas que não tenham um efeito imediato ou que não sejam prioritários para os eleitores sejam focados pelo Congresso e pelo governo. Nesse sentido, os primeiros passos para a implementação das atribuições da Creden, pelo próximo governo, deveriam ser dados ainda este ano para que o futuro governo possa elaborar uma política de curto, médio e longo prazo para a Defesa nacional.

A discussão desses temas tão relevantes para o interesse nacional não deveria estar fora dos debates eleitorais em que os candidatos se comprometam com um projeto de Estado para as questões relacionadas com a segurança externa e interna do País.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Atoleiro no Irã enfraquece Imagem dos EUA no mundo - Daron Acemoglu (O Estado de S. Paulo)

Atoleiro no Irã enfraquece Imagem dos EUA no mundo
Daron Acemoglu
O Estado de S. Paulo, 23/03/2026


BOSTON – Sob a presidência de Donald Trump, a política externa dos EUA atingiu um novo patamar de decadência. A guerra de sua administração contra o Irã, que ocorre logo após o sequestro do ditador venezuelano, prejudicará os Estados Unidos e mudará a forma como o resto do mundo enxerga o poder americano.

É claro que esta não é a primeira vez que os EUA realizam uma intervenção malfadada e mal planejada no exterior. Uma das mais significativas, dado o contexto atual, foi a derrubada do primeiro-ministro eleito democraticamente do Irã, Mohammad Mossadegh, em 1953, pela CIA, após a nacionalização da indústria petrolífera iraniana, então controlada pelos britânicos.
Embora seja um exagero dizer que a deposição de Mossadegh tenha causado a Revolução Iraniana de 1979, não há dúvidas de que a intervenção descarada da CIA moldou a forma como muitos iranianos viam a monarquia absolutista que os EUA instalaram em seu lugar.
É por isso que tantos segmentos da população iraniana – incluindo comunistas, conservadores e liberais – inicialmente apoiaram a derrubada do Xá. Tragicamente, o aiatolá Ruhollah Khomeini estava longe de ser um líder consensual. Ele rapidamente se voltou contra seus antigos aliados e estabeleceu o regime teocrático extremamente repressivo que permanece no poder até hoje.
A lição é que as intervenções dos EUA tendem a ter muitas consequências imprevistas. Elas não apenas criam ressentimentos duradouros, como também moldam o poder brando (o poder de persuasão e atração) que os Estados Unidos sempre usaram para manter unida sua rede global de alianças e convencer outros de que sua hegemonia é benigna, contribuindo para a estabilidade e previsibilidade internacionais.

Isso é importante, porque a maioria das pessoas naturalmente se opõe quando a potência hegemônica se comporta como um valentão. Demonstrações frequentes e gratuitas de poder coercitivo tendem a corroer o poder brando, especialmente quando uma intervenção carece de uma justificativa coerente. Durante a Guerra Fria, os EUA ao menos tinham o objetivo primordial de impedir a disseminação do comunismo, que era uma ameaça real.
Pior ainda para o poder brando de um país é uma campanha mal planejada que demonstra total desrespeito pela vida das pessoas afetadas. É isso que estamos testemunhando agora no Oriente Médio. A guerra impulsiva de Trump certamente levará o poder brando dos EUA a um nível historicamente baixo, e ninguém em seu governo se importa em reconstruir o que foi perdido. Longe de valorizar o poder brando, esta Casa Branca vê ameaças e negociações bilaterais como substitutos para conquistar os corações e as mentes de líderes e públicos estrangeiros.

É verdade que o regime iraniano tem sido singularmente cruel e repressivo. A maioria dos iranianos não nutre simpatia pelo novo líder supremo, Mojtaba Khamenei (filho do líder supremo anterior), nem pela Guarda Revolucionária Islâmica. Mas isso não significa que o regime irá ruir, muito menos que a intervenção dos EUA trará paz e estabilidade à região.
O mais notável sobre esta guerra é o quão mal planejada ela foi – mesmo em comparação com algumas das intervenções mais desastrosas da CIA durante a Guerra Fria. Os militares dos EUA e de Israel tinham muitos alvos bem definidos e bombas de precisão, mas nenhuma estratégia de saída aparente.

Deveria ter sido óbvio que o regime iraniano não entraria em colapso imediatamente, mesmo que sua cúpula fosse decapitada. E era previsível que a retaliação do Irã visasse desestabilizar a região e aumentar os preços do petróleo. Todos sempre souberam que o Estreito de Ormuz é o trunfo do regime. No entanto, o governo Trump parece ter ignorado essas considerações, pelo menos a julgar pelas declarações recentes de altos funcionários.

Como resultado, o regime iraniano pode ter chegado à conclusão de que detém a vantagem. Sabe que os americanos não têm interesse em uma guerra prolongada e está preparado para suportar o bloqueio atual e reprimir a população pelo tempo que for necessário para garantir a sobrevivência da República Islâmica. A crescente consternação dos mercados globais reflete isso.

Num momento em que a economia já parecia frágil – refletida nas discussões generalizadas sobre uma bolha do mercado de inteligência artificial – a turbulência no setor de energia e o aprofundamento da incerteza global podem representar um problema. O forte aumento dos preços do petróleo irá desacelerar o investimento e o crescimento econômico, além de pressionar os preços para cima. O consequente aumento do desemprego e da inflação será custoso para os governos em exercício, incluindo aqueles na Europa que enfrentam desafios de populistas de direita (embora a maioria dos líderes europeus se oponha à guerra, rejeitando categoricamente o apelo de Trump para enviar navios de guerra para ajudar os EUA a reabrir o estreito).
No âmbito interno, é razoável supor que Trump deva pagar um alto preço político por sua guerra nas eleições de meio de mandato de novembro. Mas Trump é o suposto líder anti-establishment, e se seus apoiadores mais fervorosos culparem o establishment, em vez dele, pela deterioração da economia, isso poderá polarizar ainda mais o país e enfraquecer suas instituições.

É provável que o próprio Trump jogue lenha na fogueira, tentando polarizar republicanos e democratas – e talvez promovendo ações domésticas ainda mais incendiárias. Afinal, as instituições americanas já estão fragilizadas, com muitas das normas e mecanismos de controle que deveriam limitar o poder presidencial tendo deixado de funcionar. Isso beneficia a agenda de Trump, e ele aproveitará qualquer oportunidade para enfraquecer ainda mais as instituições.

Resta saber quanto mais danos a democracia e o soft power dos EUA sofrerão por causa dessa aventura estrangeira mal concebida. Mas uma coisa parece certa: serão os americanos que pagarão o preço, e será maior do que podemos imaginar. A ameaça à democracia, à estabilidade social e à resiliência econômica dos EUA é agora maior do que em qualquer outro momento da nossa história recente.

Daron Acemoglu, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2024 e professor do Instituto de Economia do MIT, é coautor (com Simon Johnson) de “Power and Progress: Our Thousand-Year Struggle Over Technology and Prosperity” (PublicAffairs, 2023).

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