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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Bolsonaro tenta ser Janio 2.0 e divulga um texto IRRESPONSÁVEL - (Estadão)

Eu já desconfiava que estávamos sendo governados por uma família de loucos, ou de irresponsáveis, ou ambos. Agora tenho certeza. 
Apenas um irresponsável pode divulgar um texto (de um autor supostamente desconhecido, mas bem conhecido da BolsoFamiglia, que o recebeu, aceitou-o e o acolheu como seu), como o transcrito ao final desta matéria, e achar que fica tudo normal, que isso vai intimidar os "inimigos da democracia bolsonariana", e que o presidente voltará a ter, ou terá de fato, o poder de governar sem as demais instituições dos regimes democráticos.
Apenas um presidente incapaz divulga um "texto de autor desconhecido", altamente explosivo, declarando concordar com os seus termos.
O presidente quer dar um golpe? 
Não conseguirá!
O presidente quer se fazer de vítima?
Só consegue ser patético!
O presidente não consegue governar com o atual sistema partidário e de coalizão presidencial?
Tem a liberdade de propor uma reforma política, e submetê-la ao Congresso.
O presidente quer acabar com a "velha política"? 
Pode expor claramente ao Congresso e à sociedade o que entende por "nova política", e fazer a sua parte, praticando o que prometeu na campanha e ainda não cumpriu: reduzir os ministérios a quinze, acabar com a "TV Lula" e a comunicação de governo, privatizar amplamente, abrir o Brasil, etc.
O que não pode é ficar gestando confusão em cima de confusão, que foi o que mais ocorreu até aqui.
Desde o início do governo, toda a confusão vem sendo criada por sua própria família.
É o governo do "tiro no pé", como já disse alguém.
Volto a dizer: estamos sendo governados por um pequeno grupo de malucos, e o presidente atua como um IRRESPONSÁVEL!
Como sempre, assino embaixo do que afirmo.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 17 de maio de 2019



Bolsonaro divulga texto de autor desconhecido que fala num Brasil ‘ingovernável’ fora de conchavos

Mensagem no WhatsApp diz que o presidente está sofrendo pressões 

de todas as corporações, em todos os Poderes

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo
17 de maio de 2019 | 13h13


BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro distribuiu, na manhã desta sexta-feira,  17, em diversos grupos de WhatsApp um texto de “autor desconhecido” que trata das dificuldades que ele estaria enfrentando para governar. O texto diz que o presidente está sofrendo pressões de todas as corporações, em todos os Poderes e afirma que o País “está disfuncional”, não por culpa de Bolsonaro, mas que “até agora (o presidente) não fez nada de fato, não aprovou nada, só tentou e fracassou”.
Procurado pelo Estado para comentar sobre a mensagem, o presidente respondeu por meio do porta-voz: “Venho colocando todo meu esforço para governar o Brasil. Infelizmente os desafios são inúmeros e a mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que no passado se beneficiavam das relações pouco republicanas. Quero contar com a sociedade para juntos revertermos essa situação e colocarmos o País de volta ao trilho do futuro promissor. Que Deus nos ajude!”
Ao compartilhar o texto, o presidente escreveu:  “Um texto no mínimo interessante. Para quem se preocupa em se antecipar aos fatos sua leitura é obrigatória. Em Juiz de Fora (06/set/2018), tive um sentimento e avisei meus seguranças: Essa é a última vez que me exporei junto ao povo. O Sistema vai me matar. Com o texto abaixo cada um de vocês pode tirar suas próprias conclusões.”
Interlocutores do presidente ouvidos pelo Estado dizem não saber quantas pessoas receberam a mensagem, mas relatam pedido do presidente para que cada um replicasse o conteúdo. Bolsonaro, de acordo com um dos interlocutores, já começou a receber feedbacks, dizendo que ele “está falando a mais pura verdade”. No entanto, fontes ouvidas pelo Estado consideram o desabafo reproduzido como “muito grave” e “preocupante”.
Uma das fontes chegou a lembrar que o presidente está se deixando tomar pelas “teorias de conspiração”, que dominam os discursos em sua família e que, ao endossar o texto, ele pode provocar sim o que chamou de tsunami, na semana passada, e avisou que estava por vir.
O presidente Jair Bolsonaro desembarcou, nesta manhã, de uma viagem a Dallas, nos Estados Unidos, onde recebeu uma homenagem. Lá, em entrevistas, falou da sua indignação com os ataques aos seus filhos e disse que, se querem atingi-lo, que vão para cima dele.
Leia a íntegra do texto, da forma como o presidente compartilhou em grupos de WhatsApp:
TEXTO APAVORANTE - LEITURA OBRIGATÓRIA
Alexandre Szn
Temos muito para agradecer a Bolsonaro.
Bastaram 5 meses de um governo atípico, "sem jeito" com o congresso e de comunicação amadora para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado de acordo com o interesse dos eleitores. Sejam eles de esquerda ou de direita.
Desde a tal compra de votos para a reeleição, os conchavos para a privatização, o mensalão, o petrolão e o tal "presidencialismo de coalizão", o Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público.
Não só políticos, mas servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder. Os verdadeiros donos do orçamento. As lagostas do STF e os espumantes com quatro prêmios internacionais são só a face gourmet do nosso absolutismo orçamentário.
Todos nós sabíamos disso, mas queríamos acreditar que era só um efeito de determinado governo corrupto ou cooptado. Na próxima eleição, tudo poderia mudar. Infelizmente não era isso, não era pontual. Bolsonaro provou que o Brasil, fora desses conchavos, é ingovernável.
Descobrimos que não existe nenhum compromisso de campanha que pode ser cumprido sem que as corporações deem suas bênçãos. Sempre a contragosto.
Nem uma simples redução do número de ministérios pode ser feita. Corremos o risco de uma MP caducar e o Brasil ser OBRIGADO a ter 29 ministérios e voltar para a estrutura do Temer.
Isso é do interesse de quem? Qual é o propósito de o congresso ter que aprovar a estrutura do executivo, que é exclusivamente do interesse operacional deste último, além de ser promessa de campanha?
Querem, na verdade, é manter nichos de controle sobre o orçamento para indicar os ministros que vão permitir sangrar estes recursos para objetivos não republicanos. Historinha com mais de 500 anos por aqui.
Que poder, de fato, tem o presidente do Brasil? Até o momento, como todas as suas ações foram ou serão questionadas no congresso e na justiça, apostaria que o presidente não serve para NADA, exceto para organizar o governo no interesse das corporações. Fora isso, não governa.
Se não negocia com o congresso, é amador e não sabe fazer política. Se negocia, sucumbiu à velha política. O que resta, se 100% dos caminhos estão errados na visão dos "ana(lfabe)listas políticos"?
A continuar tudo como está, as corporações vão comandar o governo Bolsonaro na marra e aprovar o mínimo para que o Brasil não quebre, apenas para continuarem mantendo seus privilégios.
O moribundo-Brasil será mantido vivo por aparelhos para que os privilegiados continuem mamando. É fato inegável. Está assim há 519 anos, morto, mas procriando. Foi assim, provavelmente continuará assim.
Antes de Bolsonaro vivíamos em um cativeiro, sequestrados pelas corporações, mas tínhamos a falsa impressão de que nossos representantes eleitos tinham efetivo poder de apresentar suas agendas.
Era falso, FHC foi reeleito prometendo segurar o dólar e soltou-o 2 meses depois, Lula foi eleito criticando a política de FHC e nomeou um presidente do Bank Boston, fez reforma da previdência e aumentou os juros, Dilma foi eleita criticando o neoliberalismo e indicou Joaquim Levy. Tudo para manter o cadáver procriando por múltiplos de 4 anos.
Agora, como a agenda de Bolsonaro não é do interesse de praticamente NENHUMA corporação (pelo jeito nem dos militares), o sequestro fica mais evidente e o cárcere começa a se mostrar sufocante.
Na hipótese mais provável, o governo será desidratado até morrer de inanição, com vitória para as corporações. Que sempre venceram. Daremos adeus Moro, Mansueto e Guedes. Estão atrapalhando as corporações, não terão lugar por muito tempo.
Na pior hipótese ficamos ingovernáveis e os agentes econômicos, internos e externos, desistem do Brasil. Teremos um orçamento destruído, aumentando o desemprego, a inflação e com calotes generalizados. Perfeitamente plausível. Claramente possível.
A hipótese nuclear é uma ruptura institucional irreversível, com desfecho imprevisível. É o Brasil sendo zerado, sem direito para ninguém e sem dinheiro para nada. Não se sabe como será reconstruído. Não é impossível, basta olhar para a Argentina e para a Venezuela. A economia destes países não é funcional. Podemos chegar lá, está longe de ser impossível.
Agradeçamos a Bolsonaro, pois em menos de 5 meses provou de forma inequívoca que o Brasil só é governável se atender o interesse das corporações. Nunca será governável para atender ao interesse dos eleitores. Quaisquer eleitores. Tenho certeza que esquerdistas não votaram em Dilma para Joaquim Levy ser indicado ministro. Foi o que aconteceu, pois precisavam manter o cadáver Brasil procriando. Sem controle do orçamento, as corporações morrem.
O Brasil está disfuncional. Como nunca antes. Bolsonaro não é culpado pela disfuncionalidade, pois não destruiu nada, aliás, até agora não fez nada de fato, não aprovou nada, só tentou e fracassou. Ele é só um óculos com grau certo, para vermos que o rei sempre esteve nu, e é horroroso.
Infelizmente o diagnóstico racional é claro: "Sell".
(Autor desconhecido)

domingo, 3 de fevereiro de 2019

The Unpredictable Rise of China - David Blumenthal (AEI)

O AEI é notoriamente conservador, no sentido clássico da palavra. Cabe ler, portanto, este ensaio com vários grãos de sal, talvez baldes de sal, pois representando o setor dos EUA que vê na China o grande rival do império americano.
Não creio, por exemplo, que:
"Beijing has viewed the United States as its chief geopolitical rival, yet official Washington has only recently awakened to this strategic competition."
Acredito no contrário: que são os EUA que veem na China o seu grande adversário estratégico, e a colocam como rival, competidora em alguma disputa pelo poder, ou mesmo um inimigo disposto a destruir as bases da supremacia americana.
A China e os dirigentes chineses querem apenas se colocar numa posição de força defensiva, e dissuasória, de maneira a que a China não seja nunca mais humilhada como ela foi desde meados do século XIX.
Mas cabe lembrar que os piores sofrimentos impostos ao povo chinês, o maior número de mortos provocado nos últimos dois séculos, foram devidos basicamente aos próprios dirigentes chineses, não inimigos externos, sem pretender minimizar as matanças impostas pelos vizinhos imperialistas, basicamente os japoneses, desde 1895, e depois em 1931 e 1937-45. A revolução Tai-Ping, em meados do século XIX, e o Grande Salto "para Trás", ordenado por aquele delirante imperador comunista, entre 1959 e 1962, provocaram, cada um, mais de 20 milhões de mortos, este último talvez 35 ou mesmo 45 milhões de mortos, por fome basicamente.
Se a China está economicamente em declínio, e politicamente sob tensão, não parece que ela venha a entrar em uma profunda crise desestabilizadora.
Em todo caso, cabe ler o ensaio de David Blumenthal.
Paulo Roberto de Almeida


The Unpredictable Rise of China

Xi Jinping seeks national rejuvenation, but his nation’s mounting power masks increased instability.

Donald Trump meets with China's Vice Premier Liu He on January 31, 2019Jim Young / Reuters
Since the end of the Cold War, Beijing has viewed the United States as its chief geopolitical rival, yet official Washington has only recently awakened to this strategic competition. But as American observers start to see China’s ambitions more clearly, they have also begun to misdiagnose the challenges they pose. Political scientists are discussing “power-transition theory” and the “Thucydides Trap,” as if China were on the verge of eclipsing the United States in wealth and power, displacing it on the world stage. There are two contradictory problems with this view.
The first is that this is not how the Chinese themselves understand their rise. When Chinese President Xi Jinping calls for Chinese to realize the “China dream of national rejuvenation,” he is articulating the belief that China is simply reclaiming its natural political and cultural importance. China is not, as was once said of Imperial Germany after its unification, “seeking its place in the sun.” Rather, it is retaking its rightful place as the sun.
The second is that it’s an open question whether China will achieve rejuvenation in the face of both a seemingly stagnating economy and party factionalism. Xi is more powerful than his predecessors, but his rule is also more fragile. The Chinese Communist Party (CCP) has long faced a crisis of legitimacy, but Xi’s transformation of China into a high-tech police state may hasten this crisis. These factors combine to make China more dangerous in the short term but also less competitive in the longer term. This means that the People’s Republic of China perceives an opportunity for “great renewal” even as it will be less powerful than was expected.
A proper diagnosis of China, then, doesn’t lead to any easy categorization: Washington will have to deal with a powerful and wealthier China that is also experiencing probable economic stagnation and internal decay. This means that the PRC sees its chance at a “great renewal” even as it will be less powerful than was expected.
Xi does not sound like the leader of a country experiencing political decay or economic stagnation. In 2012, soon after he became secretary general of the CCP and president of the People’s Republic of China, he delivered the rejuvenation speech at a historical exhibition within China’s National Museum in Beijing. The exhibit, called “Road to Rejuvenation,” highlighted China’s “century of humiliation,” from the Opium Wars to the fall of the last Qing emperor in 1911. But while the exhibit featured China’s mistreatment by foreign powers, it also conveyed another message—that China was progressing towards a rebirth.
Xi reminded his audience that the CCP had long struggled to restore China to its historic centrality in international affairs. “Ours is a great nation,” he said, that has “endured untold hardships and sufferings.” But the Communist Party, he said, had forged ahead “thus opening a completely new horizon for the great renewal of the Chinese nation.”
And China is powerful. The People’s Liberation Army (PLA) is developing its capabilities at a rapid speed, changing the balance of power in Asia to its advantage. The Institute for International Strategic Studies estimates that, since 2014, the People’s Liberation Navy has “launched more submarines, warships, principal amphibious vessels and auxiliaries than the total number of ships currently serving in the navies of Germany, India, Spain, Taiwan and the United Kingdom.” Its shipbuilding program is outpacing that of the U.S. China is also spending vast sums on breakthrough technologies like artificial intelligence, hypersonics, and robotics, which could tilt the nature of warfare to its advantage. What the PLA has achieved since the end of the Cold War will one day be compared to what Meiji Japan achieved in the decades leading up to its victory in the Russo-Japanese war.
Moreover, China’s scale alone can be daunting for smaller countries even if its geo-economics initiatives are quite as large as they seem. For example, Xi’s signature initiative, the One Belt One Road (OBOR) is not the new geo-economic order he wants it to be. Nevertheless, for its smaller, less developed recipients, OBOR is still large in scope. What might be economically insignificant for the U.S. still has large geopolitical payoffs for China.
This is all to say that even a relatively weaker China than many imagine can change geopolitics and geo-economics. And Xi may slow down China’s growth even further. He has accelerated a political change in China that has focused the party more on “Stability Maintenance” (“WeiWen”), and less on growth.
The shift from “reform and opening” to “stability maintenance” predates Xi. It began once Deng Xiaoping’s successors Jiang Zemin and Zhu Rongji finished their work of reforming the economy and securing China’s accession to the World Trade Organization in 2001. Their successors, Hu Jintao and Wen Jiabao, could not withstand the attacks on “reform and opening” from the New Left—a coalition of unreconstructed Marxists and CCP conservatives—and Hu began to reverse key economic reforms. This allowed the state sector to reassert its dominance of China’s economy.
Still, the momentum of reform and opening obscured the halt in reforms. Exports grew 30 percent per year from 2001 to 2006, following its ascension to the WTO. The Chinese economy experienced an investment, real estate, and manufacturing boom. China needed more commodities to feed its construction and investment-led strategy for growth.
This boom in the early 2000s made it seem as though China was inexorably ascendant. It boasted a massive workforce, substantial capital investment, and big state-owned enterprises scouring the earth for resources and flooding Western markets with Chinese goods. What many observers missed at the time, though, was China’s accumulation of substantial debt, largely due to bad loans and unprofitable investments. This made the economy more dependent on domestic credit to finance investment and on foreign consumption to buy the goods produced by over- and misallocated investment.
China’s new economic model of debt-financed overinvestment was worsened by the financial crisis of 2008. At the time, most U.S. observers believed that China was poised to overtake the U.S. But these policy makers missed how panicked China was during this crisis: Its global export markets dried up, so it turned to domestic credit to prime the pump. China accumulated even more debt through a massive stimulus package. The experience seems to have convinced China’s leaders that time was no longer on their side, and that they had to make some quick gains. From the financial crisis onward, China’s assertiveness reflected not a confidence in its destiny, but rather, a basic insecurity. China’s muscular assertion of territorial claims grew from its economic troubles, political fractiousness, and the implementation of the wide-ranging Stability Maintenance regime.
Xi not only inherited a weakening economy, but also a fractured political elite. As the succession from Hu Jintao was unfolding in 2012, the CCP faced one of its biggest political crises. The charismatic leader of Chongqing Province, Bo Xilai, made an independent bid for CCP leadership. The party moved fast to remove him and punish his wife for corruption and murder. In the process, it exposed to public view the extraordinary levels of corruption within the CCP’s top ranks.
Xi’s answer to the dual economic and political crisis was a ferocious anti-corruption campaign meant to purge cadres in a manner unseen since Mao Tse-Tung. The organization of this campaign strengthens the WeiWen. This mass securitization of the Chinese state began in the late 1990s and early 2000s, as the CCP became more concerned about the effects of regime change in the Caucasus, the Middle East, Serbia, Iraq, and Afghanistan on its own longevity. As the legal scholar Carl Minzner argues, WeiWen has included “the rise in the bureaucratic stature of the police, [and] the emergence of social stability as a core element of cadre evaluation mechanisms.”
Xi has turned his anti-corruption campaign into an additional tool of social and political control. He went far beyond just targeting corrupt cadre and businessmen and called for the “thorough cleanup of three undesirable work styles—formalism, bureaucratism, and extravagance.” This expanded which cadre could be “disciplined,” mostly through extrajudicial means. Now party and bureaucratic functionaries have every incentive to avoid the implementation of policies, as any action can be interpreted as falling afoul of “anti-corruption” rules.
The campaign is, by its nature, political, in that it is run by and accountable only to party organs. Xi has institutionalized this new politics by strengthening the Central Commission for Discipline Inspection (CCDI) and placing disciplinary cells throughout the party’s national and regional organs. The party then codified its mass purges with a new “National Supervision Law” appointing a commission that ranks above the Supreme People’s Court and oversees the conduct of the more than 90 million CCP members, as well as managers of state-owned enterprises, and a broad swath of institutions from hospitals to schools.
Xi has also enacted the National Security Law of 2015, to address what Xi called “the worst security environment China has ever faced.” This new law codified Xi’s extremely broad view of security, which includes everything from the seabed to the internet to space. It calls for the CCP’s “firm ideological dominance” and to continue “strengthening public opinion guidance” as well as “carrying forth the exceptional culture of Chinese nationality.” The CCP also enacted the “State Council Notice concerning Issuance of the Planning Outline for the Construction of a Social Credit System.” The Notice establishes a comprehensive database of all Chinese citizens through AI and other high-technology tools, and is grading them based on their loyalty to the CCP. The system will affect people’s applications to schools and jobs, and their access to housing and bank loans.
The new political and institutional arrangements make it very difficult for China to return to market-based reforms. Reforms require less control over the flow of information, ideas, people, and capital. Changes to the cadre-evaluation system are key as well; if cadres are evaluated on the basis of stability maintenance over hitting high-growth targets, there are fewer incentives for market reform.
These policies are not the work of a flourishing Chinese Communist Party. Quite the opposite. The party appears to feel more besieged and under threat than at any time since Tiananmen Square. And Xi has potentially further destabilized the system by crowning himself with ten titles, including head of state, head of military, general secretary of the CCP, and leader of the new “leading groups” to oversee Internet policy, national security, military reform, and Taiwan policy. He has effectively taken over the courts, the police, and all the secret internal para-military and other agencies of internal control. This means that all successes and failures are Xi’s alone. There is no doubt that he has made powerful enemies among the elites who stand at the ready to undermine him should the opportunity arise.
Despite China’s weakening economy and growing political problems, in 2012 Xi claimed the country was entering a “new horizon for the great renewal of the Chinese nation.” Xi’s speech placed the CCP firmly within the history of China’s 5,000-year-old civilization and established its purpose as continuing the struggle for China’s great renewal after the fall of the Qing Empire. The CCP had always struggled with how to address the imperial past of China, which was usually governed by a Confucian ethical and political order. Mao, for example, had led a revolution partly against the feudalism of this past order. While Xi has not abandoned Maoist tactics, he has thrown out this interpretation of history. Instead, he has presented the CCP not as revolutionary, but instead as a part of the long, continuous history of a China that has made “indelible contributions to the progress of human civilization.” Xi is thus more willing than his predecessors to highlight China’s natural geopolitical centrality.
Xi’s signature aspiration in this regard is the Belt and Road Initiative (BRI), which Chinese leaders like Wang Yi tout as advancing China’s “international standing as never before,” as “the Chinese nation, with an entirely new posture now stands tall and firm in the East.” The main goal of the BRI is to expand Chinese global political and economic networks and to secure a more active position in “global governance” without waiting for the West to give China more roles and responsibilities in existing institutions.
Yet the actual monies associated with BRI are far below what was expected. The BRI may help China diversity its energy sources, and offer a more fulsome expression of a long-standing Chinese desire to avoid encirclement by buying influence in Pakistan, Bangladesh, and Central Asia. However, the BRI will fall short of its grandiose goal of linking Asia with Europe, as China does not have the foreign-exchange reserves to invest in so many unprofitable deals. Even so, the scale with which China in coordination with its global propaganda machinery has indeed made China more central geopolitically.
As part of his effort to sell renewal, Xi has pushed to reclaim previous Qing-dynasty holdings and expand its maritime claims to secure key supply lines. Xi has built islets, militarized the South China Sea, and kept up the pressure on Japan in the East China Sea. Even as Xi oversees the mass securitization of Chinese domestic policy and directs the CCP to spend money on its continental neighbors through BRI, China has accelerated its maritime turn. Xi announced in 2012 that China is a “great maritime power” and conditioned its success in achieving the “China dream” on becoming a more global maritime power. China’s extensive maritime forces conduct daily missions to push Chinese interests in the South and East China Seas as well as around Taiwan.
Xi and Hu’s great geopolitical legacy will be that they directed China, a continental empire, whose current maps look very similar to those of the Qing, to turn to the sea. China has an area of 3,700,000 square miles and has 14 land borders more than any other country—including with Russia, India, Vietnam and Korea, all of whom have been military enemies in the 20th century. It now effectively claims the entirety of the South and East China Seas. If China were to consolidate control over these bodies of water, it would broaden its geographical expanse from the far west borders with Tajikistan to the northeast maritime reaches of Japan southward to the approaches to Indonesia. Given its continued troubles in its west and its horrifying responses to what it characterizes as Uighur and Tibetan unrest, and its continued rivalry with other states on its land borders, China’s turn to the sea may yet prove as devastating to the world as was Imperial Germany’s decision to enter into a naval competition with England. A decaying China could hasten this process for any number of reasons, including its desire to rebuild national legitimacy.
As China’s economy slows and its politics are consolidated around a new high-tech police state, the party cannot sustain all of these ambitions. WeiWen and anti-corruption efforts will exhaust the bureaucracy as the party eats its own. And Washington can make it very difficult for a continental empire to also succeed at sea. Moreover, while Xi’s political approach may have addressed the short-term crisis, it has compounded China’s political risks in the long term. Xi has done away with Deng’s institutional reforms, which maintained some stability in the CCP governance system.
China has seen many dynasties rise and fall in its history. The last empire fell for a complex set of reasons, including imperial overstretch, drawing the ire of the West, fighting back a succession of massive internal challenges including a civil war and Muslim uprising, its failure to deal with a worsening economy, foreign-policy humiliations, and the belief that the emperors had lost the “mandate of heaven” (what, in today’s terms, we would call ideological vacuity).
As policy makers and scholars stand in awe of what China has accomplished since 1978, they must also continue to examine the internal workings of the system for signs of trouble ahead. In 1993, in a special National Interest edition entitled “The Strange Death of Soviet Communism,” the scholar Charles Fairbanks warned that many had missed the Soviet Union’s long decay because they had not focused on the Soviet Union’s loss of ideological legitimacy among the Communist Party’s elite.
China today is making up for the absence of attractive political principles or ideologies by creating a new empire of fear, and offering increasingly strident appeals to an imperialist nationalism. That is not to say that China will collapse, but Xi has changed the nation’s internal dynamics. The result is a far less predictable course for the Middle Kingdom than materialist political-science theories might predict.

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domingo, 28 de outubro de 2018

O Brasil e seu interminavel aprendizado politico - Paulo Roberto de Almeida

O Brasil e seu interminável aprendizado político

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 28 de outubro de 2018, 12:00hs.
 [Objetivo: revisão histórica; finalidade: esclarecimento de caráter didático]


Aparentemente se trata de uma recorrência recorrente, se me permitem a redundância: o Brasil, a cada 30 anos, ou seja, o espaço político de pouco mais de uma geração, se despede de um determinado arranjo político para tentar uma nova fórmula de acomodação dos interesses divergentes na sociedade. Entre um e outro podem ocorrer rupturas mais acentuadas, com golpes, revoluções, ditaduras, mas depois tudo volta a se encaixar num novo esquema de mandonismo político, que mais adiante será contestado por novas elites sequiosas de também conquistarem o poder.
Tem sido assim praticamente desde a emergência do Estado independente, na terceira década do século XIX. Os arranjos que estavam sendo feitos na primeira Constituinte foram rapidamente colocados de lado por um imperador impetuoso, que, ademais de centralizar o poder, legou uma carta razoavelmente liberal, como eram os ventos que corriam desde a revolução francesa, em prol de uma monarquia constitucional. Aspectos variados desse arranjo foram contestados rapidamente, e tivemos a abdicação do primeiro chefe de Estado – bem mais, talvez, pelos desacertos de sua pátria-mãe do que pelas controvérsias no Brasil –, assumindo um novo grupo de oligarcas ilustrados. As contestações entre luzias e saquaremas ocuparam as duas décadas seguintes, até que a presidência do gabinete e o Conselho de Estado trouxeram um pouco de paz no contexto do cenário político sempre mutável do Segundo Reinado (o imperador se encarregava de facilitar a alternância pelo uso do Poder Moderador, e o Brasil talvez tenha sido o único país a inscrever essa proposta de Benjamin Constant em sua constituição). Mas o Segundo Reinado também vivia em crises políticas constantes, seja pela oposição normal entre liberais e conservadores, seja pelo problema da abolição ou em torno de diversas mini-crises setoriais (questões religiosa e militar). 
Na fase seguinte, é o Exército quem exerce, na prática, o poder moderador, a começar pela derrocada da monarquia e a implantação da República. Depois de uma primeira década turbulenta, por revoltas, sedições, inflacionismo e endividamento excessivo, o Brasil conhece três décadas de alternâncias civilizadas entre as várias oligarquias regionais, com alguma preeminência da dupla café-com-leite, ou seja, presidentes de Minas e de São Paulo. A quebra desse padrão por um presidente paulista – que pretendia eleger um outro paulista, à revelia dos mineiros, e dos gaúchos – coloca mais uma vez o Exército no comando da alternância, depois de vários exercícios improvisados dos tenentes revoltosos, como representantes de uma nova classe média desejosa de também participar do jogo político. 
Serão mais três décadas de profundas transformações dos cenários políticos e do quadro econômico nacional, com uma ditadura e uma nova república liberal no meio das contestações normais de uma sociedade em crescimento. O agravamento das oposições, com o surgimento de um polo de esquerda contestador da dominação oligárquica, mais o agravamento da situação econômica por uma presidência inepta, trarão os militares de volta ao poder, desta vez para ficar um pouco mais do que um simples período de acomodação. O regime militar de 1964 representou o mais profundo processo de modernização da sociedade brasileira, mas também o aprofundamento da dominação estatal sobre várias esferas da vida econômica e até política. As duas décadas da ditadura podem ser perfeitamente divididas em duas fases claramente distintas pelo desempenho econômico: uma primeira fase de reformas e de crescimento acelerado, uma segunda fase de desarranjos econômicos e de crise estrutural do sistema.
Com a reconstitucionalização do país em 1988, tivemos mais três décadas de confrontos “normais” na esfera política, e resultados medíocres no campo econômico, com alternância de políticas de estabilização e de aceleração não sustentável de políticas redistributivas, e uma nova polarização da sociedade em torno de projetos distintos de organização política e econômica. O que se assistiu, vindo da classe média, a partir de 2013, foi uma rejeição muito clara do sistema política “carcomido” – como se dizia, em 1930, da República logo apelidada de “velha” –, projeto frustrado em 2014, mas retomado com ímpeto, a partir de diversas alavancas (nem todas “puras”) nos três anos seguintes. O impeachment de 2016 foi uma espécie de “golpe parlamentar” sancionado pelas ruas, como já tinha sido o caso de Collor em 1992: ele permitiu restaurar um começo de ajuste econômico, infelizmente não conduzido a termo pelos “malfeitos” da própria equipe do poder, enredada no jogo “normal” da velha corrupção política. 
Trinta anos depois da promulgação da Carta de 1988, ouviram-se sugestões ou de uma nova Constituinte – praticamente impossível pela não ruptura de regime – ou de profundas mudanças nas orientações principais das políticas públicas. A maior demanda da classe média é pelo fim da corrupção, e por maior eficiência do Estado, enquanto os restos das elites que foram sendo consolidadas na redemocratizam tentam se manter em meio aos reclamos da sociedade por mudanças ainda mais relevantes no papel do Estado e no controle dos recursos públicos. O Brasil ainda não decaiu, economicamente ou politicamente, o suficiente para que reformas mais radicais do que o provavelmente factível sejam introduzidas nesta nova fase que se abre ao país. A sociedade rejeita o que existe, mas ainda não existe um consenso razoável sobre o sentido dessas reformas.
Provavelmente vamos atravessara os próximos quatro anos no caminho de meias reformas e arranjos temporários, inclusive porque a divisão na sociedade percorre linhas não apenas de ordem prática, mas de natureza ideológica, ou mental. Não creio que possamos atingir o consenso necessário para essas reformas mais ousadas – necessariamente liberais e de abertura econômica – no período que se abre. Vamos continuar tateando em direção ao futuro. Não existe mais poder moderador, e o Judiciário, que poderia exercer esse papel, encontra-se fragmentado não apenas no plano das ideias, mas também no plano dos egos individuais de seus membros nas mais altas esferas. É a receita ideal para a paralisia e para a estagnação.
Espero não estar sendo muito pessimista.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 28 de outubro de 2018, 12:00

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O Brasil dividido, com escolhas mais divisivas ainda - Revista Crusoe

A revista Crusoé, feita por jornalistas sensatos, e sobretudo bem informados, diz o seguinte, em sua edição de 13 de setembro (transcrevo excertos): 

(...)

O atual processo de sucessão presidencial desponta como o mais frenético e indefinido da história brasileira.
Se por um lado temos um oceano de indecisos que torna impossível antecipar o desfecho destas eleições…
Por outro, não resta a menor dúvida: apenas um desses caminhos irá selar o seu destino pelos próximos anos:
1— Ou o país retoma as rédeas do crescimento, com a aprovação das reformas estruturais necessárias para resgatar a economia do limbo;
2— Ou retrocede à antiga matriz populista, responsável pelas atuais mazelas como desemprego, inflação, falência da indústria e total desajuste nas contas públicas.

(...)

Às vésperas da reeleição de Dilma Rousseff, em outubro de 2014, as verdadeiras intenções da ex-presidente não eram plenamente conhecidas.
E o resultado foi catastrófico:
O que Dilma prometeu em outubro de 2014
Impacto na economia até o impeachment
Baixar a conta de luz
Apagão e tarifaço
Retomada do crescimento
O PIB despencou e chegou a 3,85% negativos
Controlar a inflação
A inflação saltou de 6,40% para 10,67%
Não elevar juros
A Selic chegou a 14,25%
Geração de emprego
A taxa de desemprego cresceu 90%

Economia não admite experiências de laboratório. Erros cobram seu preço e as consequências podem se estender por gerações.
Acrescento (PRA):
 Se chegarmos às eleições com o país dividido entre dois extremos, e com os dois lados, eventualmente vencedores, contestando o resultado das eleições, com acusações de fraudes, estaremos no olho do furacão, inclusive porque militares (da ativa e da reserva) se pronunciam abertamente sobre o panorama eleitoral e político.
Em qualquer hipótese, o país permanecerá dividido, com possível crescimento da contestação política, manifestações mais do que ruidosas, e instabilidade agregando à deterioração da situação econômica.
Ou seja, o pior dos mundos...
Como muitos eleitores bem informados e ponderados, não tenho nenhuma via muito clara à nossa frente, e tampouco tenho soluções para o impasse.
Meu temor é o de que nos arrastemos penosamente no pântano político e na mediocridade econômica pelos próximos quatro anos, chegando moralmente debilitados ao segundo centenário de nossa independência, em 2022.
O Brasil não terá sido o único país na região a decair, em todos os quesitos, num continente que já carrega exemplos espetaculares de decadência, de crise e até de tragédia.
Espero que consigamos, ao menos, preservar instituições de governança para uma recuperação mais adiante.
Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 17 de setembro de 2018

quinta-feira, 24 de maio de 2018

A Italia fabricando uma nova crise europeia - Sebastian Mallaby (WP)

Italy’s new government could be the force that finally breaks Europe

Europe has weathered so many shocks — the near breakup of the euro zone, the chaotic influx of 2.5 million refugees, the Brexit referendum — that it is tempting to dismiss the latest existential crisis unfolding in Rome. But Italy’s emerging radical-populist government could be the force that finally breaks the continent’s cohesion. When the man proposed as Italy’s new finance minister declares that “Germany has not changed its vision of its role in Europe since the end of Nazism,” it is time to wake up.
Whether or not Paolo Savona gets the finance job, there is no doubt that he represents the populists’ outlook — one that could have a devastating effect on Europe’s financial position. The two halves of Italy’s new coalition — the right-populist League and the left-populist Five Star Movement — disagree on many issues, but they are united in blaming Italy’s problems generally on the European Union and specifically on the Germans. After Savona’s outburst was published in an Italian newspaper this week, Matteo Salvini, the League’s leader, took to a Roman rooftop and announced on Facebook Live that Savona is “an economist, an expert recognized in Italy and the whole world . . . His only fault? He dared to say that this E.U. — as it is — doesn’t work.” 
This growling cannot be dismissed because, if shorn of the gratuitous reference to Nazism, it contains much truth. The European Union comprises one brilliant success (a single market that facilitates trade not just in goods but also in services); a series of useful collaborations (in policing, scientific research, student exchanges and so on); one brave but politically risky principle (the free movement of people); and one outright catastrophe (the common European currency). Britain is crazy to leave the European Union, because it is not in the currency zone and its flexible labor market allows it to absorb European immigrants effectively. But Italy is different. 
Indeed, Italy is the poster child for the flaws in Europe’s construction. It has amassed terrifying government debts not because it has the privilege of printing the world’s reserve currency (as the United States does); nor because it has a national central bank that can be relied upon to suppress borrowing costs (as Japan does); nor yet because it hid its borrowing behind Wall Street financial engineering and fake statistics (as Greece did). Rather, Italy has been plainly and openly reckless, because such were the incentives created by Europe’s monetary system. 
Europe’s policy mix acknowledges this problem. A single central bank with a single interest-rate policy links the borrowing costs of weak and strong countries, so that the weak can run up debts too easily. Recognizing this temptation, Europe has imposed caps on government borrowing, but these have failed in two ways. First, they have ensured that the main word that national politicians hear from Brussels is “no!” — no to government pensions, no to infrastructure spending, no to teacher pay raises. Second, because any budget rule is arbitrary, the caps have not been enforced in practice. They combine maximum friction with minimum effectiveness. 
Meanwhile, other European policies have actively promoted recklessness. The European Central Bank treats German government debt and Italian government debt equally, boosting the demand for Italian bonds that would otherwise be considered riskier. The central bank also encourages the presumption that, in a crisis, it would rescue Italy, dampening market discipline further. To get investors to believe Italy could plausibly default one day, Europe would have to break the “doom loop” between government and the banking system, so that the government could go bust without the banking system imploding. But that would require European-wide bank backstops. Despite much earnest discussion about centralized euro zone deposit insurance and a euro zone bond that banks could hold instead of dubious national bonds, neither is in the cards. 
In the absence of both political discipline and market discipline, Italy has — guess what — borrowed. When the euro was launched in 1999, Italy had a public debt to gross domestic product ratio of 105 percent; today it is 133 percent. The same incentives are evident elsewhere: In France, for example, the debt ratio has gone from 59 percent to 97 percent. When Italy’s newly elected populists promise to cut taxes and raise spending, they are merely extending the pattern. Their principal innovation is to be brazen about it — and to compare modern Germans to Nazis even as they flout German-backed deficit caps. This will only harden Northern European opposition to centralized bank backstops and so paradoxically entrench the doom loop that perpetuates those incentives for the Italian government to borrow.
How does this game end? In the short term, Europe’s economy is enjoying a cyclical upswing and the central bank is buying bonds via its quantitative easing program, so a crisis is unlikely. But in the longer term, Italy’s debt ratio seems headed into the stratosphere. When the next downturn comes, Europe may find itself dealing with a basket case many times the size of Greece during the last crisis. Greece was small enough to be containable. Italy will be too big to fail, and perhaps too big to save.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Reformas no Brasil, pela razao ou pela violencia - Bolivar Lamounier

O instinto nos salva

*Bolívar Lamounier
O Estado de S.Paulo, 25/02/2018

A ideia é aterradora e absurda, mas, no momento, tudo indica que o Brasil está perdendo a capacidade de equacionar seus problemas de maneira racional e civilizada, pela via da política. Nessa marcha, só o instinto de sobrevivência nos salvará. 
No falatório sobre a intervenção, sobre as candidaturas presidenciais, sobre o funcionamento das instituições, o tom predominante é um desânimo furibundo, e até mais que isso, uma vontade meio doida de achar uma solução fácil, rápida e definitiva, ainda que o preço seja a quebra da ordem civil. No limite, é como se todos quisessem que metade (sua metade) da população matasse a outra, presumindo que a metade sobrante se dedicaria sinceramente à realização dos valores que elegeu como os mais altos. Isso vem por todos os lados, não é privilégio de nenhum partido ou grupo ideológico. 
E o pior, infelizmente, é que por trás dessa fumaça realmente há muito fogo. Tal desorientação não chega a surpreender, pois estamos mal e mal saindo da pior recessão de nossa História e tomando consciência da metástase de corrupção que se difundiu por quase todo o sistema institucional do País. Dispenso-me de elaborar este ponto, limitando-me a observar que o cartel das empreiteiras botou no bolso praticamente toda a estrutura partidária de que dispúnhamos: quatro ou cinco organizações com algum potencial e umas trinta obviamente inúteis. Hoje vemos esvair-se até aquele elementar sentimento de lealdade sem o qual a vida interna de um partido se torna inviável. Na mais alta Corte de Justiça do País, salta aos olhos que alguns juízes trabalham sorrateiramente para livrar o sr. Luiz Inácio Lula da Silva, um corrupto notório, já sentenciado a 12 anos e um mês de prisão. No Senado e na Câmara, só quem mantém as estatísticas em dia sabe quantos parlamentares estão indiciados, acusados ou já na condição de réus. 
A intervenção federal no sistema de segurança do Rio de Janeiro pôs em alto-relevo a questão da corrupção nos corpos militares e policiais, que inclui a entrega de armas potentes ao narcotráfico e à bandidagem em geral. Noves fora, então, a ressalva que se há de fazer diz respeito à competência e à seriedade da equipe econômica, da equipe liderada pelo juiz Sergio Moro e pela Polícia Federal, graças às quais o País não descarrilou por completo. 
No culto da irracionalidade, a esquerda ganha por duas cabeças. Na questão da intervenção no Rio de Janeiro, por exemplo, ela aposta no fracasso com base em seus tradicionais cálculos eleitorais, ou num requintado cinismo, “esquecendo”, por exemplo, no tocante à concessão de mandados coletivos, as posições que a ex-presidente Dilma Rousseff defendeu em 2016. Não só a esquerda, mas ampla parcela do Congresso recusou-se a aprovar a reforma da Previdência, embora consciente da precariedade fiscal em que nos encontramos e de que o sistema brasileiro de seguridade é campeão mundial em transferir renda dos pobres para os ricos. 
Não me sinto no direito de aborrecer os leitores me estendendo sobre a deterioração em que se encontra nossa capacidade de conduzir racional e civilizadamente as operações de governo, mas há uma questão mais ampla, que transcende todas as já mencionadas, para a qual me vejo obrigado a chamar a atenção. Refiro-me ao médio prazo, ou seja, ao futuro de nosso país dentro de uma ou duas décadas. Nessa referência de tempo, se não recuperarmos a capacidade de raciocinar e colaborar, realmente, só o instinto de sobrevivência nos salva. 
O quadro que me esforcei por esboçar é em si mesmo sinistro, mas é brincadeira de criança se o colocarmos num horizonte de 20 anos. Já me referi outras vezes a esse ponto e temo ter de voltar a ele muitas vezes nos próximos meses, ainda mais em se tratando de um ano eleitoral. A incapacidade da política acarreta uma progressiva liquefação do próprio Estado. O País perde sua stateness, ou seja, a presença efetiva da máquina de governo. Ninguém ignora que diversas áreas do Rio de Janeiro já há muito tempo se tornaram inacessíveis à autoridade pública. O que muitos talvez não saibam é que os Correios já não entregam correspondência em quase metade dos endereços da Cidade Maravilhosa. Refiro-me a ela porque é lá que a perda da “estatalidade” se tornou mais perceptível, mas em maior ou menor grau o processo se manifesta no País inteiro. Com um fator agravante: temos agora um vizinho, a Venezuela, onde o Estado atingiu um estágio avançado de putrefação, forçando centenas de milhares de cidadãos a buscarem refúgio em Roraima. 
Com a contração causada pela recessão engendrada pelo lulopetismo, nossa renda anual por habitante deve ser atualmente metade da correspondente à Grécia e bem inferior à de Portugal. Se, recuperando a economia, lograrmos crescer 3% ao ano, o que não é trivial, precisaremos de mais de 20 anos para alcançar os dois países citados, e lá chegaremos com uma distribuição de renda muito pior, com uma situação educacional claramente inferior, com as condições de saneamento que conhecemos e possivelmente com índices ainda muito mais altos de violência. Isso significa que o debate público dos últimos anos nem sequer arranhou a superfície dos verdadeiros problemas, que são a velocidade do crescimento e a profundidade das reformas de que necessitamos. 
Escusado dizer que não me estou referindo à antiga ladainha do “governo forte”, pedra de toque da retórica fascista, que por aqui vicejou vigorosamente à época da ditadura getulista. Refiro-me ao óbvio: o imperativo de quebrar a resistência dos grupos corporativos e encetar um esforço reformista muito maior. As reformas virão, de um jeito ou de outro: pelo caminho mais ou menos civilizado da política ou por sucessivas ondas de anarquia e violência. 

*Cientista político, sócio-diretor da Augurium Consultoria, é autor do livro ‘Liberais e Antiliberais’ (Companhia das Letras, 2016)