sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025 - Paulo Roberto de Almeida, in: Livro do Nordeste II, org. André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar

Livro recebido com uma colaboração minha:
1615. “Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025”, in: André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar (orgs.), Livro do Nordeste II (Recife, PE: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025, p. 141-157; ISBN: 978-85-5726-003-0). Relação de Originais n. 4840
Um século de relações internacionais do Brasil,
1925-2025
Paulo Roberto de Almeida
in: André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar (orgs.), Livro do Nordeste II (Recife, PE: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025, p. 141-157; ISBN: 978-85-5726-003-0). Relação de Originais 4840; Publicados 1615.

Oliveira Lima e as relações internacionais do Brasil de 1825 a 1925
Aos cem anos da fundação do Diário de Pernambuco, o historiador pernambucano Oliveira Lima colaborou com a confecção do Livro do Nordeste – sob coordenação do jovem sociólogo pernambucano, Gilberto Freyre, recém retornado ao Brasil depois de vários anos de estudos nos Estados Unidos e na Europa – com um texto sobre as relações internacionais do Brasil desde 1825, examinando a trajetória exterior do país nos primeiros cem anos de vida do jornal. O grande historiador diplomático destacou os três grandes objetivos do país em sua política externa no século transcorrido até 1925:
... fixar as fronteiras com as nações herdeiras do domínio espanhol; salvar a economia de um golpe que se julgava de morte, vibrado pela abolição da instituição servil; sustentar a hegemonia no Prata, obstando a formação de outro império na costa oriental da América, para isso zelando um equilíbrio que n’outra face representava um desequilíbrio.
As fronteiras, escreveu ele, foram assentadas já na República, “pela erudição e habilidade do barão do Rio Branco, mas ampararam a sua especial competência a firmeza da diplomacia imperial e a segurança da anterior diplomacia portuguesa” (p. 9). Ele reconhece a política de intervenção platina – “o que lhe deu uma feição imperialista e provocou as duas guerras externas em que o Brasil se envolveu” –, mas entendia que “o maior erro diplomático do Império foi querer embargar o movimento centrípeto platino”, ou seja, a reconstituição do Vice-Reinado do Rio da Prata, sob o controle de Buenos Aires, ao mesmo tempo em que pretendia exercer sobre a Banda Oriental um “virtual protetorado”.
Na questão da escravidão, Oliveira Lima entendia que o império não foi muito efetivo na frente externa, “atraindo os raios britânicos do Bill Aberdeen”, mas que soube bem se conduzir na frente interna, levando o doloroso problema “gradualmente a cabo de modo ordeiro, honroso e modelar”, chegando mesmo a afirmar que, na questão abolicionista, “nunca contamos com partidários decididos da escravidão”. Termina por se referir aos principais casos diplomáticos das primeiras três décadas da República, celebrando a cordialidade das relações com os EUA.
A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática
Em 1925, o Brasil se preparava para encerrar, pouco gloriosamente, a sua primeira experiência de diplomacia multilateral: a retirada do país da Liga das Nações, ao não ter logrado obter o apoio das grandes potências, sequer dos países latino-americanos, para tornar-se membro permanente do seu Conselho Executivo, lugar que acabou sendo cedido à Alemanha, o país justamente punido pelo Tratado de Versalhes de 1919. A retirada resultou de um gesto desastrado do presidente Artur Bernardes, contra os argumentos do representante brasileiro em Genebra, embaixador Afrânio de Melo Franco, que depois seria o primeiro chanceler do governo provisório de Getúlio Vargas (1930-1934).
Esse curto experimento multilateral tinha começado quase duas décadas antes, na segunda conferência internacional da Paz, realizada na Haia, em 1907, na qual o Brasil tinha sido representado pelo baiano Rui Barbosa, que atuou brilhantemente em perfeito acordo com o chanceler Rio Branco. Na conferência, Rui e o barão – o único a ser conhecido por esse título nobiliárquico em plena República – defenderam o princípio que se converteria no eixo central do multilateralismo contemporâneo: a igualdade soberana dos Estados (embora, antes e depois da Liga, e na própria ONU, essa igualdade sempre foi mais teórica do que real). A saída da Liga não impediu que o Brasil continuasse a participar das conferências econômicas organizadas por ela, uma sobre comércio, em 1927, outra monetária e financeira, em 1934, ambas totalmente frustradas em seus objetivos liberalizantes e de coordenação de políticas comerciais e cambiais.
Na retração econômica e na ascensão do protecionismo que se seguiu à Grande Guerra, o Brasil negociou acordos bilaterais de comércio, com base numa aplicação recíproca da cláusula de nação-mais-favorecida, todos eles revistos nos anos 1930, depois da crise de 1929 e da Grande Depressão que se abateu sobre o mundo, com a quebra de grandes bancos nos países mais importantes. O mundo começava a se distanciar da preeminência da libra britânica e a absorver os capitais americanos de empréstimo e de investimento direto. A crise de 1929 provocou a retração generalizada dos mercados e precipitou falências bancárias em série. A queda dos preços do café marcou o final da República Velha no Brasil, abrindo espaço à contestação da “política do café-com-leite” das velhas oligarquias e à revolução da Aliança Liberal, levando, em outubro de 1930, ao governo provisório de Getúlio Vargas. A a crise de pagamentos levou à adoção de regimes especiais de compensações (com a Alemanha nazista, por exemplo), mas a dívida externa do Brasil teve de passar por difíceis negociações bilaterais, e o país ficou praticamente 15 anos sem receber um único centavo estrangeiro.
Numa conferência panamericana, em 1933, o Secretário de Estado americano anunciou uma política de “boa vizinhança”, depois de décadas de intervenções dos Estados Unidos no entorno imediato; ele propôs a adesão dos países ao Pacto Briand-Kellog, de 1928, de solução pacífica das controvérsias (que prescrevia a guerra como meio de ação política internacional), à qual o Brasil já tinha aderido em 1931. Oswaldo Aranha, depois de atuar como ministro da Justiça, em 1931, e ministro da Fazenda, até 1934, foi designado por Vargas embaixador em Washington, depois de negociar uma solução parcial às dívidas deixadas pela República Velha e pela inadimplência criada pelas crises de 1929-1931.
Um movimento insurrecional, com participação de militares e o apoio logístico da Internacional Comunista, teleguiada por Moscou, tentou tomar o poder em 1935, o que, após o fracasso da intentona, inaugurou uma política de Estado oficialmente anticomunista. Esposando tendências quase integralistas no início de sua carreira política, Aranha promoveu uma política de aproximação com os Estados Unidos. Em 1936, Aranha exibiu um desempenho de primeiro plano numa conferência interamericana de consolidação da paz, que deu início ao processo de multilateralização da doutrina Monroe (em prol da cooperação interamericana) e se esforçou, desde então, em acomodar os pruridos pró-autoritários da Argentina e do Chile, simpáticos às potências fascistas da Europa. Aranha colocou seu cargo de embaixador com o golpe do Estado Novo de novembro de 1938, mas tornou-se chanceler, em março de 1938, para contrapor-se a vários expoentes do regime, simpáticos às potências fascistas da Europa; sua ação foi decisiva nos quatro anos seguintes.
Uma conferência panamericana, nesse mesmo ano, discutiu a questão da segurança coletiva nas Américas (princípio da solidariedade continental, mas ainda não de defesa comum) e temas econômicos e comerciais; ela decidiu criar conferências consultivas dos chanceleres americanos, convocadas a partir do início da guerra europeia: no Panamá (1939), em Havana (1940) e no Rio de Janeiro, em janeiro de 1942, pouco depois do ataque japonês contra Pearl Harbor, no Havaí, o que colocou grandes desafios à postura inicialmente neutra do Brasil no que já era um conflito global.
A conferência do Rio de Janeiro tinha decidido pelo rompimento de relações com os países agressores; no mês de agosto seguinte o Brasil rompeu efetivamente com as potências do Eixo, mas a Argentina permaneceu neutra até o final do conflito. Com o torpedeamento de vários navios brasileiros nas águas do Atlântico e nas próprias costas do Brasil, em 1942-43, foram realizadas consultas militares entre os Estados Unidos e o Brasil, notadamente na conferência de Natal entre Roosevelt e Vargas (janeiro de 1943). O presidente brasileiro, instado por Oswaldo Aranha (chanceler de 1938 a 1944), decidiu associar o Brasil mais estreitamente ao esforço de guerra dos Estados Unidos: foi instalada uma base de apoio na costa do Nordeste, para abrir uma frente no norte da África, e o Brasil aderiu à Carta do Atlântico, uma declaração de princípios adotada por Roosevelt e por Churchill em 1941, que serviria de base para a futura declaração das Nações Unidas.
Já associado ao Exército americano, em combates contra as forças nazistas no teatro de operações da Itália, o Brasil participou da conferência de Bretton Woods, em julho de 1944, quando são criadas as duas principais organizações econômicas internacionais do pós-guerra, o FMI e o Banco Mundial. Uma última conferência consultiva americana se reuniu no México, no início de 1945, antes da conferência de San Francisco, convocada para aprovar a Carta das Nações Unidas. A Argentina não participou da conferência de Chapultepec, pois ainda mantinha relações com a Alemanha nazista (até abril de 1945). Na conferência de San Francisco, a delegação do Brasil protestou contra o privilégio concedido às cinco potências vencedoras de serem membros permanentes do Conselho de Segurança, ademais de lhes ser atribuído o abusivo direito de veto sobre qualquer resolução do principal órgão decisório da nova organização multilateral; ela solicitou que uma conferência de revisão fosse convocada, alguns anos à frente, para discutir novamente o assunto.
A diplomacia da República de 1946: o alinhamento pragmático da Guerra Fria
Com a conclusão definitiva da guerra no Pacífico – a partir das bombas atômicas lançadas contra o Japão – abriu-se uma nova etapa nas relações internacionais, mas o fracasso de conferências diplomáticas entre as grandes potências inaugurou uma longa fase de Guerra Fria, entre 1947 e 1991. Superado o Estado Novo, o general Eurico Dutra foi eleito presidente do Brasil, quase simultaneamente à eleição do coronel Perón, na Argentina. Os Estados Unidos garantiram a recuperação da Europa através do Plano Marshall, ao passo que no Brasil foi assinado o tratado interamericano de assistência recíproca (TIAR), em 1947, que consagrou o princípio da segurança coletiva, base conceitual do futuro tratado de Washington (1949), que criou o Tratado da Organização do Atlântico Norte, eixo principal do sistema de segurança dos países ocidentais. Depois de estabelecer relações diplomáticas com a União Soviética em 1945 – rompidas em menos de dois anos –, o Brasil se alinhou à política americana nas décadas seguintes, mas a sua diplomacia continuou a defender a cooperação bilateral em favor de um processo de desenvolvimento econômico autônomo. Uma Comissão Econômica Mista Brasil-Estados Unidos (1949-51) recomendou a adoção de várias medidas em favor desse objetivo, inclusive a instituição de um banco de desenvolvimento (fundado em 1953) e de um banco central (que só seria criado em 1965 pelo regime militar).
Getúlio Vargas retornou ao poder pela via eleitoral em 1951, mas o seu governo foi agitado por lutas políticas e sindicais, culminando em crises político-militares que levaram o presidente ao suicídio em 1954. Um ano antes tinha sido assinado um tratado bilateral de assistência militar com os Estados Unidos, fortemente contestado pelos partidos de esquerda, mas que foi paradoxalmente denunciado pelo quarto governo da ditadura militar, por desavenças em matéria de direitos humanos. Um governo intermediário promoveu a abertura da economia aos capitais estrangeiros, política que foi ampliada no governo do presidente Juscelino Kubitschek, que promoveu a industrialização com ampla participação de investimentos diretos estrangeiros. Na frente externa, a guerra do Sinai, em 1956, provocada pela nacionalização do canal de Suez por Nasser, propiciou a primeira missão multilateral do Brasil, ao abrigo de uma operação de manutenção da paz entre o Egito e Israel (1957-1967).
A assinatura dos tratados de Roma entre seis países da Europa ocidental, criando um projeto de mercado comum em 1957, suscitou um movimento similar no continente latino-americano, do qual resultou a negociação do primeiro Tratado de Montevidéu (1960), que instituiu a Associação de Livre Comércio da América Latina; os esforços lograram apenas resultados parciais e, em 1980, a Alalc é substituída pela Aladi, visando a uma integração mais flexível, pelo segundo Tratado de Montevidéu. Com a revolução cubana em 1959, e sua inclinação socialista a partir de 1961, a região conheceu uma fase de golpes militares e de regimes autoritários de direita, que se estenderam por praticamente duas décadas. Ao mesmo tempo, tendências nacionalistas se propagaram por diversos países em desenvolvimento, com a criação de muitas estatais e da OPEP, a organização dos países exportadores de petróleo.
O primeiro exercício de política externa independente: um padrão consistente
A despeito das tendências ao não-alinhamento de países que buscaram a superação da bipolaridade ideológica e militar, e das fortes tendências neutralistas no próprio país, por ocasião da Política Externa Independente do início dos anos 1960, o Brasil não aderiu ao Movimento Não Alinhado, preferindo manter-se como observador nessa organização. 1960 é o ano de múltiplas independências africanas e da criação da OCDE, com sede em Paris. Para atrair os países da região, o gigante americano tinha proposto uma “Aliança para o Progresso”, mas recusou, mais uma vez, criar um Plano Marshall para a América Latina; em seu lugar foi criado o Banco Interamericano de Desenvolvimento. O governo Jânio Quadros restabeleceu relações com a União Soviética e com outros países socialistas, numa conjuntura de divisão do próprio movimento comunista internacional, com a denúncia do “revisionismo” na URSS de Kruschev pela China de Mao. O vice-presidente brasileiro João Goulart estava por sinal em visita oficial à China quando o presidente Jânio Quadros decidiu apresentar sua renúncia, em agosto de 1961, a meros seis meses após sua posse; na sequência de uma crise política de mais de duas semanas, motivada pelo descontentamento entre os militares, Goulart assumiu a presidência no quadro de um regime parlamentarista.
Numa conferência da OEA, realizada no Uruguai, em janeiro de 1962, o Brasil recusou a suspensão de Cuba do sistema interamericano, tal como desejado pelos Estados Unidos, mas o golpe militar levou mais adiante ao rompimento das relações diplomáticas com a ilha socialista. Em outubro eclodiu a crise dos foguetes soviéticos em Cuba, que ameaçou precipitar um enfrentamento nuclear entre os dois grandes contendores da Guerra Fria. O governo parlamentar de João Goulart foi sondado como intermediário de entendimentos entre Fidel Castro e o presidente John Kennedy, dada a ausência de relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba, mas uma repentina distensão entre os EUA e a URSS afastou o precipício de um confronto direto.
Em 1963 foi assinado um tratado proibindo testes nucleares na atmosfera; não obstante, os EUA assumiram a nova doutrina anticomunista do “dominó”, passando a intervir militarmente na guerra civil do Vietnã. No final do ano, ocorreu o assassinato do presidente Kennedy; seu sucessor, o vice-presidente Lyndon Johnson, endureceu as relações com o Brasil, o que culminou com o golpe de Estado de 31 de março de 1964. A queda do governo Goulart pode ser atribuída a circunstâncias políticas essencialmente nacionais, mas ela teve o apoio crucial do governo americano, preocupado com o “avanço do comunismo” na América Latina. O golpe ocorreu em meio a amplo movimento de reformas no sistema multilateral de comércio, com a convocação de uma conferência sobre comércio e desenvolvimento pelas Nações Unidas e a reforma do acordo geral de comércio e tarifas aduaneiras (Gatt): o texto recebeu uma parte IV, que introduziu maior flexibilização das regras de reciprocidade no intercâmbio entre países em desenvolvimento e países avançados.
Já no ano seguinte, os EUA decidiram intervir na guerra civil da República Dominicana, fazendo aprovar, pela OEA, uma “Força Interamericana de Paz”, que recebeu o apoio do novo governo militar do Brasil, com o envio de tropas de “pacificação” para a ilha. Na mesma conjuntura, o FMI ofereceu um crédito ao Brasil, no quadro de um programa de restruturação econômica, com grandes reformas empreendidas pelo regime tecnocrático-militar. A década foi marcada por intervenções militares dos dois lados do sistema bipolar: na América Latina, a Argentina conheceu novo golpe militar em 1966, ao passo que a União Soviética invadiu em 1968 a Tchecoslováquia, suspeita de fragilizar o bloco comunista com o seu experimento de “socialismo de face humana”. A China de Mao, por sua vez, depois do fracasso do “Grande Salto para a Frente”, lançado em 1959, e do rompimento com a União Soviética em 1961, ingressou na Revolução Cultural em 1965, que durou mais de dez anos. Cuba passou a apoiar movimentos armados na América Latina e na própria África.
Uma nova conferência interamericana em Punta Del Este, em 1967, confirmou os objetivos integracionistas entre os países latino-americanos, mas com poucos efeitos práticos. Na frente do desarmamento, o Brasil e o México lideraram uma iniciativa regional de não proliferação nuclear, que resultou no tratado de Tlatelolco. As três grandes potências no setor, EUA, URSS e Reino Unido concluíram um tratado de não proliferação nuclear, em vigor desde o ano seguinte, mas logo recusado pelo Brasil como sendo discriminatório (por admitir apenas os cinco membros permanentes do CSNU como legalmente nucleares). Em 1969 foi assinado o Tratado da Bacia do Prata, promovendo a cooperação entre os cinco países banhados pela bacia dos rios Paraná e Paraguai; ele foi complementado, uma década depois, pelo Tratado de Cooperação Amazônica, buscando os mesmos objetivos entre os nove países que partilham os imensos recursos da grande região amazônica. No mesmo ano, com a doença do segundo presidente do regime militar brasileiro e o crescimento da resistência armada à ditadura, uma Junta Militar assumiu o poder, em lugar do vice-presidente; com o endurecimento da repressão aos dissidentes; organizações humanitárias passaram a denunciar casos de tortura, desaparecimentos e assassinatos feitos pelas forças policiais e militares.
O Brasil proclamou um mar territorial de 200 milhas em 1970 e a seleção nacional de futebol se sagrou campeã mundial pela terceira vez na Copa do México, depois das conquistas na Suécia em 1958 e no Chile em 1962. Junto com o Paraguai, o Brasil estudou a construção de uma usina hidroelétrica binacional no rio Paraná, dando início a uma crise político-diplomática com a Argentina, pela exploração dos recursos hídricos da bacia, que só foi concluída no final da década, com a assinatura de um acordo tripartite. A construção da usina de Itaipu não contou com financiamento multilateral devido aos novos critérios ambientais dos bancos de fomente; na primeira conferência diplomática sobre meio ambiente e desenvolvimento, realizada em 1972 em Estocolmo, o Brasil defendeu uma abordagem desenvolvimentista, priorizando o crescimento, com a exploração dos recursos naturais, acima dos nascentes requerimentos sobre a preservação ambiental.
Em 1971, a República Popular da China foi admitida na ONU no lugar da República da China (Taiwan), com o voto contrário do Brasil, que continuou a manter relações com esta até 1974, quando finalmente decidiu reconhecer a China comunista. O general Médici visitou o presidente Richard Nixon, que proclamou a liderança do Brasil na América Latina, acirrando novamente a tensão com a Argentina, a despeito da cooperação entre os dois países na violenta repressão política contra os opositores a seus regimes militares. Em 1973, a ditadura militar brasileira cooperou com o governo americano na montagem do golpe militar contra o governo socialista de Salvador Allende no Chile, liderado pelo general Augusto Pinochet. No mesmo ano, uma nova guerra entre Israel e os países árabes sacudiu o Oriente Médio e o ex-presidente Perón retornou à Argentina, para iniciar breve período presidencial.
Em 1974, um movimento popular militar derrubou a mais longeva ditadura política na Europa, a do salazarismo em Portugal: dezenas de perseguidos políticos brasileiros afluíram no país. O Brasil, que até 1972 continuava a apoiar a política colonialista de Portugal, foi um dos primeiros países a reconhecer os novos governos de Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde e Moçambique, mais adiante São Tomé e Príncipe, que se tornaram independentes com o fim de um regime colonial igualmente longevo.
O ecumenismo responsável da política externa autônoma e orgulhosa de sê-la
A política externa brasileira ganhou novo estilo e substância com a assunção do quarto presidente militar, o general Ernesto Geisel, que a despeito de ser conservador, apoiou uma diplomacia ativista e terceiro-mundista; ao mesmo tempo ampliou o programa nuclear brasileiro, aprovando um acordo de cooperação com a Alemanha para fins energéticos, e criou a Nuclebrás, para o enriquecimento de material físsil. O primeiro choque do petróleo, no final de 1973, impôs severo custo ao Brasil, que era dependente da importação de petróleo estrangeiro a mais de 80% de suas necessidades; começou um ativo programa de apoio às exportações de manufaturados e fez restrições às mais diversas importações (lei do similar nacional). Geisel criou um programa nacional do álcool combustível e adotou uma política de contratos de risco na exploração de petróleo, sem grandes resultados, porém. No exterior, se encerrou a guerra do Vietnã e na fronteira do Brasil o Suriname ganhou sua independência. As mortes de Mao e de Perón deram início a transições nos dois países; na Argentina se tratou de um interlúdio: a viúva Isabel Perón se manteve por apenas dois anos, derrubada que foi por novo golpe militar, ainda mais repressivo.
A despeito de relações diplomáticas formalmente corretas, aumentaram as fricções entre o Brasil e os Estados Unidos: comércio de calçados, soja, informática, política nuclear e direitos humanos (em especial a partir do governo de Jimmy Carter). O governo militar respondeu cancelando o acordo de assistência militar de 1952, mas também revogou o Ato Institucional n. 5 e comemorou os 70 anos da imigração japonesa. O último presidente do regime militar foi “eleito” indiretamente, em meio a crescentes manifestações pela anistia, pelo fim da ditadura e pela convocação de eleições livres. Um novo choque do petróleo, depois da deposição do xá do Irã, em 1979, acarretou novos problemas econômicos ao Brasil, antecipando uma crise da dívida externa no começo dos anos 1980. Por outro lado, um acordo trilateral Brasil-Argentina-Paraguai (1979) pôs fim às desavenças sobre a utilização dos recursos hídricos da bacia Paraná-Paraguai e deu início à cooperação nuclear entre o Brasil e a Argentina, que tomou novo impulso com a redemocratização dos dois países.
Os primeiros dez anos do regime militar foram de reformas e crescimento, ao passo que a segunda década foi marcada por diversas crises, que se estenderam por todo o decorrer dos anos 1980, começando pelo segundo choque do petróleo e pela insolvência no setor cambial: o estrangulamento da dívida externa, em 1982, foi seguido pela aceleração inflacionária que se estendeu até a primeira metade da década seguinte. Uma constância deve ser registrada, porém: a política externa e a diplomacia, tanto no final do regime militar, quanto no retorno à democracia, foram consistentemente desenvolvimentistas, num contexto em que se reclamava uma “nova ordem econômica internacional”, por meio do “diálogo Norte-Sul”. Os grandes temas eram tradicionais na política externa brasileira desde o segundo pós-guerra: acesso comercial sem cláusulas de reciprocidade, o que foi obtido, desde 1964, pela reforma do Gatt e pela conferência sobre comércio e desenvolvimento (Unctad); política de transferência de tecnologia pela flexibilização dos regimes patentários; financiamento do desenvolvimento a custos adequados à fragilidade do balanço de pagamentos; investimentos estrangeiros com preservação da autonomia no controle dos recursos nacionais.
A quebra unilateral, pelos Estados Unidos, do regime de Bretton Woods (1971) e a flutuação generalizada das moedas, com aumento dos juros desde o início dos anos 1980, representaram desafios significativos para os países importadores de capitais. As dificuldades econômicas dos dois regimes militares, no Brasil e na Argentina – agravadas, nesse país, pela sua tresloucada aventura de tentar recuperar as ilhas Malvinas aos britânicos –, aceleraram a derrocada das suas respectivas ditaduras. A transição para regimes democráticos se afirmou, não apenas na América Latina, mas na própria Europa do Sul (Portugal, Espanha, Grécia).
A diplomacia da redemocratização: sem os tabus do regime militar
A partir da democratização, a política externa e a diplomacia do Brasil conheceram um processo sustentado de melhoria em sua capacidade de formulação e de aprimoramento operacional. O Itamaraty aproveitou o novo ambiente para lançar iniciativas nas esferas bilateral, regional e mundial. Sarney deu a partida, revigorando a integração a partir do Cone Sul; Collor deu continuidade à iniciativa, revisando a política comercial e convertendo esse processo em projeto de mercado comum regional; Fernando Henrique Cardoso ampliou o diálogo do Brasil com as potências mundiais e junto a países emergentes. O Itamaraty forneceu uma boa assessoria técnica a todas essas iniciativas de diplomacia presidencial.
O período que se abriu com a redemocratização nas duas margens do Prata foi marcado por impulsos inéditos no processo de integração econômica bilateral Brasil-Argentina, começando por um programa flexível de liberalização comercial (1986), logo em seguida passando a um tratado de integração (1988), com promessa de um mercado comum bilateral em dez anos. As repercussões dessa iniciativa no Cone Sul levaram a uma ampliação dos debates, seguindo-se a quadrilateralização do processo, com a assinatura do Tratado de Assunção (1991), visando à criação de um mercado comum em quatro anos, entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai (tendo a Bolívia e o Chile como associados).
O processo de integração, contudo, não foi além de uma união aduaneira incompleta e de uma zona de livre comércio com diversas exceções nacionais, ainda assim atraente ao ponto de suscitar o interesse da União Europeia por um acordo de associação. A marcha das negociações foi dificultada pelo projeto americano de uma “área de livre comércio das Américas”, lançado numa conferência hemisférica em Miami, em dezembro de 1994. O projeto, conduzido em marcha lenta pelas primeiras administrações diplomáticas brasileiras da Nova República, acabou sendo sabotado quando da chegada ao poder, em 2003, do Partido dos Trabalhadores. Depois de dois anos de percalços, a Alca hemisférica foi implodida pela ação combinada dos presidentes Lula, Chávez (Venezuela) e Kirchner (Argentina). Os Estados Unidos passaram a fazer acordos bilaterais com alguns países da América do Sul (Chile, Colômbia e Peru) e plurilaterais, no âmbito do Caribe e da América Central; os quatro do Mercosul e os países “bolivarianos” (Venezuela, Bolívia e Equador) ficaram de fora desses acordos de livre comércio.
Em outras vertentes da frente externa, a dinâmica diplomática brasileira foi bastante ativa: lançamento, em 1986, da Rodada Uruguai de negociações comerciais multilaterais, concluída em 1994 pela criação da OMC; segunda conferência da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento (Rio de Janeiro, 1992), distensão nuclear com a Argentina; abertura geral no cenário internacional, com o fim do socialismo e avanços na globalização. O Brasil aderiu a vários tratados de direitos humanos e sua diplomacia demonstrou exemplar protagonismo em diferentes conferências internacionais nessa década: população, direitos humanos, criança, desenvolvimento social, habitação, mulher, racismo etc. Um relato minucioso desse ativismo diplomático foi oferecido pelo embaixador José Augusto Lindgren Alves, ele mesmo formulador de várias das posições do Brasil e um dos principais negociadores.
Se, durante o regime militar, a diplomacia profissional foi relativamente livre e bastante ativa na área multilateral e nos grandes temas do desenvolvimento econômico e social, em contrapartida, na esfera regional e nos temas ainda demarcados ideologicamente durante o período da Guerra Fria, ela tinha de operar com cuidado nos chamados “temas-tabu” do período, obviamente vinculados ao comunismo internacional, a Cuba e aos movimentos guerrilheiros na América Latina. O retorno a um governo civil em 1985 representou uma liberação dessas amarras para os diplomatas, que passaram a atuar sem os constrangimentos políticos e culturais da ditadura.
Os governos Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique Cardoso projetaram o Brasil no mundo em todas as vertentes do jogo diplomático, com destaque para a já citada segunda conferência da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento, desta vez plenamente integrado à sustentabilidade. Um novo conceito passou a se firmar com Fernando Henrique Cardoso, o da diplomacia presidencial, que ganhou novos contornos a partir do primeiro governo Lula, com suas preocupações sociais e de superação das desigualdades de desenvolvimento entre o Norte e o Sul do planeta. Collor já tinha superado, desde 1990, algumas das amarras políticas e econômicas do regime militar: reforma aduaneira, enquadramento da política nuclear no espírito da Constituição de 1988 e distanciamento em relação ao terceiro-mundismo das diplomacias anteriores; FHC completou a distensão na área nuclear fazendo o Brasil aderir, em 1996, ao Tratado sobre Não Proliferação Nuclear, que tinha sido recusado durante três décadas (por desigual e discriminatório), desde 1968.
A segunda metade dos anos 1990 foi, contudo, estremecida pelas crises financeiras dos países emergentes, entre eles a Argentina – que abandonou seu programa de equiparação do peso ao dólar – e o próprio Brasil, que chegou a negociar três acordos de sustentação de suas reservas externas com o FMI, entre 1998 e 2002. Esse também foi o ano a partir do qual a diplomacia ganhou novos contornos “metodológicos”, com a introdução de elementos partidários no que tinha sido, até então, uma conjugação conceitual entre uma política externa perfeitamente institucional, apoiada numa diplomacia profissional autoconfiante: a partir de 2003, uma visão sindicalista e esquerdista do mundo se projetou em termos de novas alianças com parceiros não ocidentais e visivelmente antiocidentais, a começar por regimes autoritários na América Latina e no ainda não chamado “Sul Global” (apenas um novo nome para o antigo Terceiro Mundo).
Os anos 2000 também representaram a conversão explícita do Brasil de país receptor da cooperação estrangeira – que ainda se mantém, contudo, em setores específicos – em um país provedor de assistência internacional ao desenvolvimento em benefício de países periféricos, especialmente na África, notadamente através da Agência Brasileira de Cooperação, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores. Dotado de uma agricultura tropical especialmente pujante e competitiva, de uma boa capacitação técnica na formação de recursos humanos – em saúde, na indústria e serviços em geral –, o Brasil passou a ser visto como um provedor eficiente de cooperação Sul-Sul, à margem e independentemente dos esquemas habituais, Norte-Sul, do Comitê OCDE de Assistência ao Desenvolvimento.
Os três governos (e meio) do Partido dos Trabalhadores – Lula, de 2003 a 2010, e Dilma Roussef, de 2011 a 2016 –, representaram, justamente, essa construção de novas frentes de trabalho com parceiros “alternativos” ao universo político habitual da diplomacia brasileira, alegadamente no sentido Sul-Sul, mas marcadamente antiamericano na América Latina (criação da Unasul, por exemplo). Uma primeira iniciativa com dois outros parceiros em desenvolvimento, Índia e África do Sul, resultou na criação do IBAS, complementado mais adiante por um BRIC – juntando os dois primeiros países a dois outros “impérios” não ocidentais, nomeadamente China e Rússia –, quase imediatamente convertido em Brics, com a incorporação da África do Sul, que passou a ser o foco central da futura construção de uma “nova ordem global multipolar”, ainda incipiente, até o início da terceira década do século.
Essa política externa de contornos partidários foi interrompida pelo impeachment de Dilma Rousseff, em meio ao seu segundo mandato, em 2016. O governo do presidente Michel Temer representou um retorno aos padrões habituais do Itamaraty e de sua diplomacia profissional, mas as eleições de 2018 se fizeram num cenário de divisão do país, redundando na escolha de um presidente sem qualquer conhecimento de política externa. Seguiram-se quatro anos de adesão esquizofrênica a um projeto “antiglobalista” e antimultilateralista, identificado com a extrema-direita americana. A política externa do presidente Jair Bolsonaro se revelou caudatária dos interesses dos Estados Unidos, mais especificamente submissa ao presidente Donald Trump (nos anos 2019 e 2020), o que representou uma espécie de “demolição” da política externa, com amadores despreparados na condução da diplomacia.
Após um novo embate polarizado nas eleições de 2022, a diplomacia lulopetista retornou ao comando da política externa, a partir do terceiro governo Lula, em 2023. Mas o mundo, a América Latina e o próprio Brasil já não eram os mesmos do início do século, quando a excepcional demanda chinesa pelas exportações brasileiras havia garantido grande espaço econômico para uma diplomacia presidencial ativa e empreendedora de várias iniciativas nos circuitos de um emergente Sul Global. A partir da invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, em 2014, e, sobretudo, da guerra de agressão russa contra a Ucrânia, a partir de fevereiro de 2022, novos desafios se apresentaram num contexto geopolítico marcadamente diferente daquele predominante no pós-Guerra Fria.
O terceiro mandato de Lula teve início, assim, em meio a desafios nunca enfrentados pelo Brasil nas décadas anteriores, mesmo no contexto da primeira Guerra Fria, quando a diplomacia havia mantido uma política de neutralidade e de autonomia decisória em face dos conflitos entre as duas grandes potências do período, mas preservando o foco essencial da política externa na defesa dos interesses nacionais de desenvolvimento econômico e de amplo diálogo com quase todos os parceiros externos. Essa situação parece estar sendo alterada não apenas em função de um ambiente já caracterizado como o de uma segunda Guerra Fria, mas igualmente em função de preferências partidárias no âmbito da política externa que podem comprometer os padrões habituais de trabalho da diplomacia profissional do Brasil.
As relações internacionais do Brasil numa era de fragmentação geopolítica
A divisão bipolar do planeta durante a Guerra Fria iniciada em 1947 parecia ter sido superada em 1992, quando os presidentes dos Estados Unidos, George Bush, e da Rússia, Boris Ieltsin, proclamaram a emergência de uma “nova ordem mundial”. O otimismo quanto à convergência de interesses entre os grandes atores geopolíticos se manteve durante alguns anos, chamados de “pós-Guerra Fria”, mas depreciativamente caracterizados como sendo o de um “momento unipolar”, isto é, o da hegemonia dos Estados Unidos. A Rússia de Putin ainda se encontrava empenhada numa difícil reconstrução econômica (e militar) e a China, recém-admitida na OMC em 2001, ainda ensaiava sua extraordinária expansão comercial e tecnológica das décadas seguintes, que a levou a se afirmar, em poucos anos, como a segunda maior potência econômica do planeta e a primeira no domínio do comércio mundial. Em 2009 ela já tinha substituído os Estados Unidos como primeiro parceiro comercial do Brasil, depois de um domínio americano de mais de 150 anos nos nossos intercâmbios externos.
Analogias históricas são sempre enganosas, mas observa-se uma tendência, entre os analistas internacionais, no sentido de caracterizar o atual cenário geopolítico internacional como sendo o de uma “segunda Guerra Fria”, ao início com características mais econômicas e tecnológicas, no período recente mais marcadamente geopolíticos. Ela coloca, em dois campos opostos, o império americano, de um lado, ainda hegemônico no plano militar, e, de outro, dois novos contendores, Rússia e China, unidos por uma “aliança sem limites” a partir de fevereiro de 2022, pouco antes da invasão da Ucrânia pela Rússia.
A similaridade de situações pode não se dar exatamente nos moldes da “primeira” Guerra Fria, quando o que predominou foi o chamado “equilíbrio do terror nuclear”; mas eventuais desenvolvimentos, nesta nova fase, podem desembocar num cenário ainda mais preocupante, que foi o que prevaleceu no “Norte Global” dos anos 1930, colocando em confronto aberto as democracias de mercado do Atlântico Norte– então com vários pacifistas no comando das principais potências – e as potências fascistas, expansionistas e belicistas, que se opunham a esse poderio geopolítico e que pretendiam contestar pela força das armas essa hegemonia. O confronto desembocou na maior conflagração militar da história, com dezenas de milhões de mortos e a conformação de uma nova ordem global a partir de 1945, um cenário mundial construído principalmente pelos Estados Unidos e que seguiu sendo caracteristicamente ocidental, em virtude da mediocridade econômica do universo comunista e das tribulações internas da China durante maior parte do período.
No pós-guerra, em face da grande divisão do mundo, a da Guerra Fria geopolítica e das contendas interimperiais do período 1946-1989, o Brasil construiu, com hesitações ao início, uma postura diplomática de neutralidade e de real autonomia na política externa. Isto foi positivo para os objetivos prioritários da nação, o do crescimento econômico e o do seu desenvolvimento social. Não parece mais ser o caso no período recente, desde quando o candidato Lula, ainda em 2022, e o agora presidente, a partir de 2023, já proclamou várias vezes sua preferência pessoal – ou seja, ainda não uma escolha da diplomacia brasileira – pela construção de uma “nova ordem global multipolar”, nos mesmos termos vagos que vem sendo anunciados pelo presidente russo Vladimir Putin, secundado pelo líder chinês Xi Jinping. Esse objetivo pode ser encampado pelo foro Brics, em fase de ampliação para o Brics+, com a incorporação de mais de uma dezena de países associados a partir de 2023.
De maneira já evidente, o que se assiste em 2025 – quando o Brasil responde pela presidência interina do Brics+, acolhendo a sua reunião de cúpula – é a uma nova fratura entre as grandes potências, como não se via desde o entre guerras. A preeminência de fato de uma ordem ocidental, construída nos estertores da Segunda Guerra Mundial, vem sendo ativamente contestada pelo novo poderio econômico e militar das duas grandes potências declaradamente adversárias dessa ordem. A Rússia de Putin, em especial, parece repetir os descaminhos diplomáticos dos impérios centrais na fase preliminar à Grande Guerra, assim como as aventuras bélicas das potências fascistas agressivas dos anos 1930. Naquela conjuntura, o Brasil tentou manter, tanto quanto conseguiu, sua neutralidade em face dessas disputas imperiais, mas soube escolher o seu campo no momento decisivo, graças ao tirocínio esclarecido de um estadista, Oswaldo Aranha, nutrido nos ensinamentos do barão do Rio Branco e na doutrina jurídica construída pelo jurista Rui Barbosa.
A fragmentação geopolítica da atual conjuntura internacional, que vem sendo chamada – sem muita originalidade histórica – de “segunda Guerra Fria”, ameaça assim se converter em guerra quente, talvez em conflagração direta, pela agressividade bélica de uma das duas potências autocráticas, declaradamente opostas à ordem ocidental “hegemônica”. É nesse contexto que o presidente Lula, em clara ruptura com os padrões tradicionais da diplomacia brasileira, de afirmada autonomia em relação às contendas políticas das grandes potências e de neutralidade em face dos conflitos interimperiais, parece ter escolhido o seu “campo”, que é o dos promotores de uma largamente indefinida “nova ordem global multipolar”, sem que isso constitua, ainda, uma nova doutrina para a diplomacia brasileira. No primeiro semestre de 2025, o desvio em relação aos fundamentos conceituais da política externa e da diplomacia brasileira permanecia ainda no terreno das hipóteses.
[Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4 de fevereiro de 2025]

Terras raras e soberania - Rubens Barbosa Interesse Nacional

Terras raras e soberania
Rubens Barbosa
Interesse Nacional, 6/02/2026
https://interessenacional.com.br/portal/terras-raras-e-soberania/

A política externa de Lula terá o desafio de alinhar-se ou não a um claro movimento anti-Pequim, promovido por Trump e, tendo em mente a dependência em relação à China, manter uma posição de independência entre os EUA e a China

As terras raras tornaram-se um tema central na política externa e de segurança nacional dos Estados Unidos, com vistas a reduzir a dependência da China, que controla cerca de 90% do refino desses materiais. A administração Trump, em 2026, intensificou essas ações com projetos bilionários e a busca de parcerias internacionais.

Nesta semana, o governo dos EUA convocou reunião sobre terras raras em Washington com o objetivo de construir uma aliança contra a China. Quarta-feira passada, cerca de 55 países foram convidados para encontro liderado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, com a presença do alto escalão norte-americano, inclusive do vice-presidente Vance. O objetivo do encontro é a negociação de um acordo que crie um sistema de controle de preços, a garantia de que barreiras não serão estabelecidas e que seja permitido o acesso às reservas do país que aceite o entendimento com a Casa Branca.

O Mexico, a União Europeia, o Japão e a Argentina já concordaram e assinaram o acordo.

‘A iniciativa de Trump visa reduzir a dependência dos EUA em relação à China’

A iniciativa de Trump visa reduzir a dependência dos EUA em relação à China para materiais essenciais a veículos elétricos, sistemas de defesa e tecnologia avançada.

Nesse contexto, Trump anunciou o plano para construir um estoque estratégico de minerais críticos, avaliado em US$ 12 bilhões. A proposta, conhecida como Projeto Vault, lançará um estoque estratégico inédito de minerais críticos. O plano soma US$ 1,67 bilhão em capital privado com um empréstimo de US$ 10 bilhões do Banco de Exportação e Importação dos EUA.

O governo brasileiro aceitou convite da Casa Branca para participar do encontro que incluiu os países do G7, além da Austrália, Coreia do Sul, Índia, entre outros. A representação brasileira ficou a cargo da embaixada do Brasil em Washington, que se limitou a receber a proposta e encaminhá-la a Brasília. Surpreendentemente, o governador do Goiás, Ronaldo Caiado também esteve presente.

‘Membros do Departamento de Estado norte-americano relatam ainda que estão tendo dificuldades para ter acesso aos tomadores de decisão no Brasil para consolidar uma agenda sobre o tema de terras raras’

Segundo se informa, membros do Departamento de Estado norte-americano relatam ainda que estão tendo dificuldades para ter acesso aos tomadores de decisão, principalmente no Ministério de Minas e Energia, para consolidar uma agenda sobre o tema de terras raras. O ministro das Minas e Energia confirmou as reuniões com representantes do governo de Washington. Segundo o ICL Notícias apurou, contatos estão sendo feitos entre diplomatas americanos e governos estaduais, como o de Minas Gerais e Goiás.

A busca por um mapeamento de onde existiriam reservas importantes e atores que poderiam estabelecer um diálogo também foi iniciada. O trabalho de identificação não ocorre por acaso. Em documentos, a Casa Branca ainda instruiu a CIA a mapear na América Latina onde estariam as reservas de recursos naturais que poderiam ser vitais para os EUA nas próximas décadas. Não seria surpresa se drones externos já estejam detectando reservas de terras raras na Amazônia e em outras partes do território nacional. A embaixada dos EUA em Brasília está organizando um seminário sobre minérios críticos em São Paulo em março com a presença de mineradoras que atuam no Brasil e o IBRAM.

‘O governo brasileiro deverá atuar com cautela e informar o governo de Washington que qualquer acesso de empresas dos EUA ou de empresas de outros países às terras raras nacionais deve incluir um compromisso de investimentos no país para a geração de maior valor agregado’

Segundo o Itamaraty, não houve ainda um convite formal para integrar o grupo. O governo brasileiro deverá atuar com cautela e informar o governo de Washington que qualquer acesso de empresas dos EUA ou de empresas de outros países às terras raras nacionais deve incluir um compromisso de investimentos no país para a geração de maior valor agregado, conforme legislação aprovada recentemente pelo Congresso. Por isso, o melhor seria tratar da matéria de forma bilateral e não oferecer uma resposta imediata para aguardar a visita presidencial aos EUA na primeira semana de março.

O tema de terras raras deve, assim, entrar na agenda bilateral do encontro de Lula com Trump, incluído pelo lado americano, e poderá servir de base de negociação para a eliminação das tarifas de 50% sobre 22% das exportações brasileiras para os EUA. A preocupação do governo brasileiro tem de ver com eventuais condicionantes comerciais, riscos de exclusividade e possíveis impactos sobre a autonomia da política comercial, da necessidade de compatibilizar o convite com outros acordos e parcerias estratégicas em curso.

‘A China se manifestou oficialmente contrária à proposta de Washington, insinuando consequências para quem participar’

No mesmo dia do encontro sobre terras raras, Trump conversou com Xi Jinping para tratar do acordo comercial que ainda não foi aprovado, para conversar sobre Taiwan e a guerra da Ucrânia. Nas informações sobre a conversa, não há referência a política de isolamento da China nas terras raras, mas certamente de alguma maneira o tema deve ter sido tratado. Trump anunciou que, na questão comercial, a China vai comprar 20 milhões de toneladas de soja em 2026 e 25 mil em 2027. Depois da conversa com Trump, a China se manifestou oficialmente contrária à proposta de Washington, insinuando consequências para quem participar.

A política externa de Lula terá o desafio de alinhar-se ou não a um claro movimento anti-Pequim, promovido por Trump e, tendo em mente a dependência em relação à China, manter uma posição de independência entre os EUA e a China. Tudo isso, terá de ser sopesado pelo governo brasileiro para ver o que será mais favorável aos interesses do governo e do setor privado.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

O mundo marcha para a direita? Retornamos cem anos no passado? - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

 O mundo marcha para a direita? Retornamos cem anos no passado?

Extremismos

Extremismos

Considerações sobre o retrocesso autoritário no mundo.

 

Paulo Roberto de Almeida

Considerações sobre o retrocesso autoritário no mundo.

Observando a ascensão de expressões autoritárias em governos de diferentes regiões do mundo, tem-se a impressão de que o mundo realmente marcha para o fenômeno que se convencionou chamar de iliberalismo. A América Latina já foi abundante nos experimentos autoritários, sobretudo de expressão militar, atualmente também sob o formato do populismo de direita. Não se trata de algo novo, embora exista bastante diversidade nas manifestações desse fenômeno, com respeito, por exemplo, ao que se observou cem anos atrás.

O século XX, sobretudo na sua primeira metade, e especialmente na Europa e na América Latina, foi, no dizer de vários historiadores, o século dos extremismos ideológicos, dos totalitarismos expansionistas, tanto à esquerda – o bolchevismo, o comunismo, a III Internacional, o socialismo do planejamento centralizado nos anos do pós-Segunda Guerra –, quanto à direita, sob a forma dos fascismos dos anos entre guerras, os nacionalismos autoritários. Esses fatores foram, aliás, responsáveis pela nova “Guerra de Trinta Anos”, como designou Winston Churchill essa fase de guerras contínuas entre 1914 e 1945.

Depois do término de várias ditaduras de direita – geralmente militares – em países do Terceiro Mundo (na América Latina especialmente) e até mesmo na Europa (países ibéricos, Grécia, Turquia e alguns impulsos em outros países (como o renascimento do fascismo na Itália e na Alemanha), ocorreu, meio século atrás, uma espécie de “onda democratizante”, saudada por acadêmicos e líderes políticos. Mas, impulsos autoritários, tanto à esquerda quanto à direita, voltaram a se manifestar, embora não mais na forma dos antigos golpes de Estado por militares do Terceiro Mundo, e sim sob as novas formas de autoritarismo, geralmente associado ao populismo e, novamente, tanto à esquerda quanto à direita.

Diferentes observadores – revistas como a Economist, entidades como a Freedom House, think tanks e ONGS voltados para esse tipo de estudo – já publicaram estudos qualitativos e quantitativos sobre os avanços do que foi chamado de iliberalismo, até orgulhosamente admitido por um desses autocratas, o primeiro-ministro Viktor Orban, da Hungria, que, efetivamente, designa seu regime como sendo uma “democracia iliberal”. Esses relatórios identificam, mais recentemente, uma redução dos governos plenamente democráticos ao redor do mundo, depois da reversão do autoritarismo nos anos 1980 – caso da América Latina e da Grécia –, ou seja, de ruptura com antigos regimes autoritários, como o salazarismo e o franquismo na península ibérica, processo seguido, no curso dos anos 1990, pela implosão do socialismo de tipo soviético na Europa central e oriental. Junto com a implosão do socialismo e a expansão do globalismo, parecia que uma nova onda democrática poderia se estender a todos os continentes. Que não se culpe Fukuyama por esse tipo de ilusão, pois o seu “fim da história” se referia bem mais ao fim das alternativas equivocadas às economias de mercado do que ao derretimento dos regimes antidemocráticos (seu artigo, aliás, foi escrito bem antes da queda do muro de Berlim e da implosão do comunismo).

Em que os iliberalismos ou autoritarismos recentes diferem das modalidades anteriores, ou seja, os fascismos do entre guerras e as ditaduras militares na América Latina, na África e na Ásia? A diferença, muito clara no caso do chavismo preservado na Venezuela, está em que não existe mais uma ruptura golpista violenta, como nas modalidades clássicas de ditaduras emergindo a partir de golpes de Estado, e sim ocorre uma erosão gradual dos mecanismos, dos princípios e valores democráticos, por meio de pequenas alterações ou “inovações” no funcionamento e na composição das principais instituições de Estado e na forma de atuação dos governos. Geralmente se começa pelo aparelhamento do Estado e do governo com os próprios partidários do dirigente democraticamente eleito, depois se passa pela chantagem, suborno e pressões sobre os meios de comunicação independentes, se alcança os partidos políticos e o próprio parlamento – por meio de cargos, subsídios, transferências de recursos –, assim como a composição e a forma de atuação de órgãos judiciais, inclusive, quando houver, as instituições que cuidam diretamente das eleições. Essas são as principais modalidades.

Muitos desses mecanismos estão descritos em livros de acadêmicos, como Timothy Snyder, sobre as novas formas de tirania, e Yasha Mounk, sobre o “povo contra a democracia”, entre vários outros autores. Vale a atenção, especialmente, para o trabalho impecável do V-Dem, um instituto multidisciplinar da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, as Varieties of Democracy, com relatórios anuais sobre a erosão democrática no mundo: https://www.v-dem.net/democracy_reports.html.

O Brasil também conheceu essas expressões do novo autoritarismo, provavelmente estimulado pelo primeiro governo Trump (2017-2020), mas também como resultado das crises políticas pós-2013 e o impeachment do quarto governo do PT (2016). Não existe a menor dúvida de que Bolsonaro emergiu a partir de velhas e novas tendências do pensamento e das práticas autoritárias. Ele foi, com seus patrocinadores na direita militar, um agregador, sem ser doutrinário ou sequer pensador (o que seria de toda forma impossível), de diversas correntes de direita e conservadores que estavam mais ou menos retraídas durantes os anos do tucanato (governos FHC, de 1995-2002) e do lulopetismo (2003-2016), ambos representantes da socialdemocracia, mas possuindo o PT diversas conexões com as ditaduras de esquerda na América Latina, dada a composição do partido com muitos egressos dos movimentos de oposição armada à ditadura militar nos anos 1960-70.

No caso de Bolsonaro, ele foi um representante repugnante não apenas dos autoritários do regime militar, mas daquela categoria que Elio Gaspari chamou de “tigres”, ou seja, a fração mais totalitária e repressiva da ditadura, os homens das catacumbas, os torturadores e assassinos, militares e civis, engajados na eliminação dos “comunistas” daqueles tempos. Ele próprio confessou admirar o “representante-modelo” da tortura e da repressão daquele momento, o coronel Carlos Brilhante Ustra, um dos mais bárbaros integrantes da “tigrada” das catacumbas do regime. Na verdade, Bolsonaro nunca teve alguma ideologia definida, além dessa adesão ao extremismo de direita, mas atendendo rusticamente a seus instintos primitivos, não a alguma doutrina anticomunista formalmente organizada e racional. Ele próprio confessou, certa vez, admirar o coronel Hugo Chávez, mostrando uma propensão a seguir seu exemplo de asfixiamento progressivo da democracia política.

O Brasil sempre teve impulsos autoritários muito evidentes desde o advento da República – um mero golpe militar improvisado, segundo vários historiadores –, impulsos que acabaram se concretizando em governos ditatoriais: o Estado Novo (1937-1945), tentativas de golpes antes e depois disso, nos anos 1950, finalmente a ditadura tecnocrática de 1964 a 1985. Mas, mesmo nos momentos democráticos, o regime democrático sempre foi de muito baixa qualidade, geralmente sob controle das oligarquias rurais, na primeira metade do século XX, depois crescentemente sob a influência das elites industriais e, também, as do setor primário. Só nos tornamos uma democracia de massas a partir da reconstitucionalização de 1988, com a admissão do voto dos analfabetos, e ainda assim com as inclinações elitistas conhecidas (segundo a CF-1988, só ficam na cadeia comum os desprovidos de um canudo qualquer). As elites políticas expressam geralmente o poder do dinheiro, ou seja, os interesses das elites dominantes, os dos donos do capital, mas também houve uma progressiva evolução para uma representação política mais conforme aos diferentes estratos sociais da população.

Na República Velha, observou Gilberto Amado, as eleições eram falsas, mas a representação era verdadeira, ou seja, eram eleitos representantes cosmopolitas das elites educadas. Na democracia de massas do período atual, pode-se dizer que as eleições são verdadeiras, mas a representação pode ser parcialmente falsa, expressando o corporativismo crescente na sociedade, com muitos representantes de grupos de interesse, sindicalistas de diversas categorias profissionais, lobbies setoriais (bancada ruralista, evangélicos, etc). Muitos desses grupos setoriais são inegavelmente autoritários, sem serem totalitários, já que não existem mais condições de se defender um regime de extrema-direita atendendo perfeitamente aos impulsos fascistas dos partidos dessa vertente. O presidente Bolsonaro foi um representante especialmente inepto dessas correntes, pois sequer teve condições de conduzir o Brasil a um golpe militar classicamente putchista, ou a um populismo autoritário ao estilo chavista. Nem o seu conservadorismo era verdadeiro, pois sempre partilhou os mesmos instintos estatistas e estatizantes de grande parte da esquerda atrasada da América Latina. Na Europa do pós-guerra, diversos partidos socialistas e comunistas caminharam no sentido de adotar a visão reformista da economia de mercado (como o SPD alemão desde os anos 1950; os socialistas franceses nos anos 1980 e até o New Labour de Tony Blair, nos anos 1990). Por outro lado, vários partidos comunistas, anteriormente plenamente stalinistas, começaram a aceitar, no curso dos anos 1980, as práticas democráticas, como no caso do “eurocomunismo” (PCI italiano, PCE espanhol e outros, menos o de Portugal).

No caso de Bolsonaro, seria duvidoso identificá-lo na mesma categoria dos líderes iliberais dotados de doutrina, pois que ele nunca teve condições intelectuais mínimas para dirigir um movimento programaticamente estruturado na direita brasileira. Ele foi apenas o representante confuso desses instintos autoritários saudosistas da ditadura militar, sem qualquer doutrina formal. O restante da direita é fundamentalmente oligárquico, mas, dada a confusão ideológica reinante no antipetismo militante, até liberais econômicos acabaram se juntando aos radicais da direita. Isso demonstra que, no caso do Brasil, trata-se de um fenômeno maleável das diversas tendências conservadoras, não de um movimento fascista no conceito classicamente europeu.

O trumpismo, na sua segunda versão (2025-202?), é bem mais agressivo nas suas tendências autoritárias, sendo que o seu mais famoso bilionário faz campanha aberta em favor dos movimentos mais extremistas na Europa, financiando partidos radicais que também acabam apoiando a Rússia no seu conservadorismo extremado (e são por ela apoiados). Trump ascende perigosamente, com ajuda até da Suprema Corte, no limiar de quebras constitucionais e legais no seu novo furor autoritário, depois de parcialmente contido no primeiro mandato. Mas, no caso de Bolsonaro, agora “engaiolado”, a extrema-direita mais estúpida já não mais poderá se beneficiar da pregação da extrema-direita conservadora americana, como ocorreu em 2018, o que nos dispensa, pelo menos na vertente da política externa e da diplomacia, de uma recaída nas piores vergonhas que o Brasil atravessou entre 2019 e 2022 no plano internacional.

Como diplomata não convencional, censurado sob o tucanato, levado ao ostracismo funcional sob o lulopetismo, depois expurgado com raiva no bolsolavismo esquizofrênico, contemplo com um pouco de alívio nossas tendências persistentes, e competitivas, ao conservadorismo oligárquico de direita ou ao populismo estatizante de esquerda. São reduzidas as chances de um novo iliberalismo autoritário no Brasil. Olhando ao redor, concluo que existem coisas piores ocorrendo no mundo…

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5138, 9 dezembro 2025, 4 p. Revisto 13/12/2025

O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo - Paulo Roberto de Almeida | Revista Será?

 

O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo

O astrônomo - Vermeer

O astrônomo – Vermeer

No conjunto de assuntos relevantes que ocuparam o Brasil em 2025 e que continuarão a fazê-lo em 2026 – temas econômicos, sociais, domésticos, regionais e internacionais – cabe um destaque especial para o cenário eleitoral, que já foi aberto neste ano, mas que assumirá especial importância em 2026, com destaque para as eleições gerais e presidenciais. As eleições gerais serão, por sinal, bem mais impactantes do que a própria eleição presidencial, uma vez que, independentemente da escolha do próximo presidente, as eleições para o Congresso (2/3 para o Senado Federal e a totalidade da Câmara dos Deputados), tendem a confirmar o peso decisivo da representação parlamentar na agenda política, social e econômica do Brasil, com uma relevância menor na política externa. Conflitos entre os poderes são inevitáveis, com destaque para a continuidade dos inquéritos – da PF e do STF – sobre as emendas parlamentares, o principal foco de desvios do orçamento para as benesses, consigo próprios, dos “representantes do povo”, ou seja, as emendas fraudulentas.

O primeiro turno das eleições presidenciais em 4 de outubro de 2026, colocará em disputa o atual presidente, Lula 3 – que já confirmou, às vésperas de completar 80 anos, que será, como se houvesse alguma dúvida disso, o candidato do PT, aspirando um quarto mandato, algo inédito na história política do país –, contra, presumivelmente, o designado pela família Bolsonaro, que se refugiou na solução familiar do senador Flávio Bolsonaro (pelo menos até março de 2026). O PSD, aquele partido que não é nem de esquerda, nem de direita, sequer de centro, já passou a apoiar o filho sênior do clã, sugerindo o governador de MG, Romeu Zema, como seu candidato a vice. É cedo ainda para qualquer especulação, menos ainda quaisquer previsões, mas parece consistente afirmar, desde já que, a persistir tal polarização, as consequências para as orientações econômicas e sociais, assim como para a política externa serão contrastantes, quando claramente opostas. Voltaremos ao assunto no decorrer do ano eleitoral.

Dentre os eventos internos mais relevantes no ano 2025, a “palma de ouro” – se é o caso do exagero retórico – fica com o conjunto de processos condenatórios dos diversos núcleos da tentativa golpista bolsonarista, que começou praticamente ao início do governo, em 2019, com maior ímpeto a partir de 2021 e culminou na depredação dos três poderes em janeiro de 2023. Pela primeira vez na história republicana, na história do país independente tout court, golpistas fracassados ou bem-sucedidos não são objeto de anistia, mas condenados a prisão efetiva (ainda que as pressões para anistia persistam). De certa forma, o Brasil se firmou no cenário internacional da fragilização das democracias como o país que superou as ameaças reais à continuidade da sua, o que se deveu inteiramente ao trabalho do STF (ainda que vilipendiado não só por golpistas, mas por estratos significativos da área conservadora).

No domínio externo, o principal evento “brasileiro” em 2025 foi a organização da COP30, realizada na capital paraense – para sinalizar o comprometimento do Brasil com a agenda da sustentabilidade e da transição energética, ambos temas desafiados por decisões do próprio governo Lula 3 no sentido de impulsionar a exploração petrolífera na região. No plano concreto, a reunião, em si, terminou sem qualquer acordo para um phase-out do uso de combustíveis fósseis – o que já vinha sendo o caso nas duas COPs anteriores, e será ainda o tom das próximas COPs – e sem qualquer compromisso de financiamento compatível com os esforços de descarbonização por parte dos países avançados (sendo que os dois principais poluidores, China e EUA, ademais dos demais do “Norte Global”, tampouco se alinharam com às metas prometidas no Acordo de Paris, COP21, de 2015). Os cientistas continuam a antecipar, quase em desespero de causa, que o mundo não será capaz de ficar abaixo do limite de 1,5 graus centigrados acima dos níveis pré-industriais. Nesse capítulo, o Brasil está absolutamente tranquilo, quanto à sua matriz energética, mas continua a exibir a fragilidade do desmatamento, que é o principal fator das emissões de carbono neste caso concreto.

No plano multilateral global, o Brasil é um participante costumeiro, como convidado, das reuniões do G7 (deixou de ser no intervalo esquizofrênico do bolsonarismo diplomático). É um membro oficial do G20 financeiro, embora tenha deixado de figurar entre as dez maiores economias do planeta, mas se trata de simples efeito cambial. Mas, em nenhuma das reuniões de 2025 cabe registrar qualquer convergência geral em torno dos grandes temas da conjuntura, que continuaram a ser a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia e a guerra de destruição de Israel contra o território palestino de Gaza. Curiosamente, a postura de Lula 3 (já implícita em posições registradas sob Lula 1 e 2) se situa nas antípodas do que seria uma diplomacia coerente e conectada, não apenas a seus valores tradicionais, mas também aos grandes princípios do Direito Internacional: o governo Lula condena, com razão, os ataques atrozes de Israel contra a população civil palestina, mas permanece silente em relação aos ataques maciços contra alvos civis na Ucrânia, o que é incompreensível no plano mais elementar da agenda internacional, como por exemplo, sua abstenção na resolução do Conselho de Direitos Humanos sobre as crianças ucranianas sequestradas pela Rússia.

A razão dessa contradição (vergonhosa para a diplomacia brasileira) tem nome, mas não endereço: trata-se do BRICS, que não tem estatuto, nem existência formal, a não ser um simples acordo quanto a reuniões anuais de cúpula, das quais resultam declarações grandiosas e extensíssimas, mas que nos últimos encontros realizaram a proeza de falar de tudo e mais um pouco, ignorando completamente o maior conflito militar existente na Europa desde a Segunda Guerra. Cabe não se enganar: Lula já apoiava, e de forma entusiasta, esse vínculo (inédito) do Brasil com duas grandes autocracias, assim como, desde 2023, passou a apoiar objetivamente a agressão da Rússia contra a Ucrânia, aumentando exponencialmente, por exemplo, as importações brasileiras de combustíveis e de fertilizantes russos (sob a falsa alegação de atender às necessidades nacionais, quando existem alternativas comerciais).

O atual BRICS+ não tem nada a ver com o BRIC original (2006-2011), nem com o BRICS (ao incorporar, pelas mãos da China, a África do Sul), redundando no “inchamento” do bloco com novos membros e associados, em geral críticos, para não dizer opositores, dos países do Ocidente, em especial dos Estados Unidos e da UE, conformando uma espécie de antiG7 e anti-OCDE. Ao lado dos cinco tradicionais, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, as duas autocracias conseguiram agregar – contra a vontade do Brasil e da Índia – o Irã, a Etiópia, o Egito e os Emirados Árabes Unidos, ademais da Arábia Saudita (que ainda não confirmou seu ingresso), sendo que Indonésia foi admitida como novo membro a convite do Brasil (ingressou na cúpula realizada no Brasil em 2025), que também tinha convidado a Argentina (mas a dos peronistas), num gesto imediatamente recusado pelo presidente Milei.

Uma das realizações mais exitosas do BRICS em 2025 foi uma reunião com a Apec (Asia Pacific Economic Cooperation), realizada no Vietnã, evento ao qual o presidente Lula compareceu, embora não exista perspectiva de algum acordo prático no terreno da abertura comercial, por exemplo, evolução que, aliás, jamais existiu no âmbito do BRICS, pois que os intercâmbios comerciais continuam a ser feitos ao abrigo do sistema multilateral de comércio (que é amplamente abrangente para acomodar o intenso comércio bilateral do Brasil com a China, assim como com os demais países do bloco e com todos os outros). O Brasil continua recusando, por outro lado, ingressar formalmente no programa chinês do BRI, o famoso “cinturão e rota”, que já incorporou dezenas de outros países do chamado “Sul Global” e da própria América Latina; o BRI promete ultrapassar várias vezes o famoso “Plano Marshall” de reconstrução da Europa do pós-guerra (mas que incluía também generosas doações americanas em alimentos e insumos diversos, ademais do apoio financeiro ao retorno da Europa à conversibilidade monetária). A China continuará a ser o parceiro econômico e comercial mais importante do Brasil, mas junto disso vêm outros compromissos políticos.

Um dos elementos dramaticamente mais relevantes do ano que finda foi a “desordem geopolítica” iniciada pelo presidente Trump 2, não só representada pela guerra de agressão tarifária generalizada contra aliados e competidores, mas também pelas ameaças imperialistas contra o vizinho Canadá (“sugestão” de se tornar o 51º estado dos EUA), contra o Panamá (retomada do canal, “devolvido” em 1999), contra a Dinamarca (ao pretender incorporar compulsoriamente o “território autônomo” da Groenlândia à soberania dos EUA) e outras demonstrações de unilateralismo extremo, sobretudo e principalmente contra a Ucrânia, uma vez que Trump e seus assessores subservientes adotam consistentemente os desejos imperiais de um outro candidato a imperador do mundo, Putin, do qual o presidente americano parece servir como assistente solícito. Trump praticamente desmantelou tudo aquilo que os EUA tinham construído desde Bretton Woods (1944) e San Francisco (1945), ou seja, o sistema multilateral de comércio e o multilateralismo político, e se empenha em construir um novo sistema imperial tripartite – China no controle da Ásia-Pacífico, Rússia na Eurásia e os próprios EUA no hemisfério americano, como aliás demonstrado pela sua nova Estratégia de Segurança dos EUA (analisada neste mesmo veículo por Hubert Alquéres no número 688, 19/12/2025, e por este autor, no número 687, 12/12/2025).

A guerra tarifária contra o Brasil, ao início moderada (apenas 10% de sobretaxa adicional), converteu-se no meio do ano, por razões unicamente políticas (“solidariedade” à família Bolsonaro), em extorsão direta, à altura de 50% ad valorem contra alguns produtos essenciais da dieta americana: café, carne, suco de laranja, frutas, além de sapatos, móveis, maquinário e todo o mais. Como nos demais casos, o efeito inflacionário das tarifas fez com que o economicamente ignorante e desequilibrado dirigente as reduzisse posteriormente. O lado mais impactante da “estratégia trumpista” para o reordenamento mundial (se o termo se aplica) é um retorno à política das grandes potências do século XIX, assim como sua meta de “reindustrialização dos EUA” nada mais representa do que uma volta aos padrões produtivos da segunda revolução industrial. O presidente Lula, em todo caso, parece muito satisfeito com a sua política externa, talvez o lado mais criticável de seu terceiro governo: viajou a dezenas de países e promete continuar ativo nessas peregrinações. Não parece perto, contudo, de conjurar a ameaça mais visível no plano regional: o ataque trumpista à Venezuela do ditador Maduro, assim como não conseguiu firmar sua liderança na América do Sul.

Paulo Roberto de Almeida

[Brasília, 5153, 22 dezembro 2025, 4 p.; revisão: 23/12/2025]

Uma revolução no pensamento internacional brasileiro, Resenha crítica dos livros de Dawisson Belém Lopes, Elizeu Santiago, e Luiz Feldman - Christian Lynch (revista Pernambuco, CEPE)

 

Uma revolução no pensamento internacional brasileiro

Livros de Dawisson Belém Lopes, Elizeu Santiago, e Luiz Feldman produzem uma refundação da literatura diplomática brasileira

O ano de 2025 assistiu à publicação de três livros que, tomados em conjunto, representam uma inflexão decisiva na maneira de compreender a política externa brasileira – não apenas enquanto prática estatal, mas enquanto problema intelectual. São eles: De Bonifácio a Amorim, de Dawisson Belém Lopes, Formação do pensamento internacional brasileiro, de Elizeu Santiago, e Sobre Hemisférios, de Luiz Feldman. O que une essas obras não é um método comum nem uma escola compartilhada, mas o fato de operarem, cada uma a seu modo, uma crítica sistemática à literatura diplomática oficial consolidada e às interpretações estabilizadas do lugar do Brasil no mundo. Mais do que revisões pontuais, esses livros produzem uma verdadeira refundação do campo, permitindo falar, com justiça, no surgimento de um pensamento internacional brasileiro, distinto tanto do pensamento político brasileiro clássico quanto da historiografia diplomática tradicional.

Dois aspectos gerais merecem destaque. O primeiro diz respeito à redefinição do objeto; o segundo, à mudança de horizonte histórico e normativo que informa essa redefinição.

Em sentido forte, as três obras representam uma inflexão estrutural no campo do pensamento político brasileiro aplicado às relações internacionais. Essa inflexão opera uma dupla ruptura. De um lado, no plano do conteúdo, rompe-se com uma longa monomania interpretativa que marcou o pensamento político brasileiro: a centralidade quase exclusiva da questão da identidade nacional – verdadeira, necessária ou frustrada – em detrimento das representações do Brasil no sistema internacional. O Brasil foi pensado obsessivamente como problema interno, como formação social incompleta ou Estado inacabado, enquanto sua inserção no mundo aparecia como derivação quase automática dessas carências. De outro lado, esses livros também ultrapassam os limites do que, mais recentemente, passou a ser chamado de pensamento diplomático brasileiro. Essa literatura, embora meritória ao deslocar o foco da dimensão interna para o plano externo, acabou por se fixar quase exclusivamente nos discursos e formulações produzidos por diplomatas profissionais, tomando o Itamaraty como locuspraticamente exclusivo da reflexão internacional. A noção de pensamento internacional brasileiro, tal como emerge nesses três trabalhos, vai além. Ela incorpora não apenas diplomatas, mas também políticos, intelectuais públicos, juristas, sociólogos e teóricos sociais que, em diferentes momentos, contribuíram de maneira decisiva para a elaboração das imagens do Brasil no mundo – frequentemente com impacto igual ou superior ao dos próprios operadores diplomáticos. Trata-se, portanto, de uma ampliação simultânea do objeto, dos atores e dos registros intelectuais considerados legítimos.

O segundo aspecto comum às três obras diz respeito ao horizonte histórico que as informa. Elas são representativas do esgotamento da era liberal da globalização como chave interpretativa da política externa brasileira. A partir desse esgotamento, torna-se possível – e necessário – reler o passado internacional do Brasil sem os filtros normativos que naturalizavam certas continuidades, supostas tradições e consensos imaginários. Subvertem-se, assim, vários clichês duradouros: a historiografia diplomática excessivamente centrada no Prata, no Barão do Rio Branco ou na República; a ideia de uma política externa consensual, tecnocrática e imune ao conflito ideológico; e uma narrativa frequentemente inofensiva, anedótica ou autorreferente, produzida por diplomatas sobretudo para consumo interno. A consequência mais profunda dessa virada é a recuperação da distinção intelectual entre partidos e correntes ideológicas na formulação da política externa. Questiona-se o Rio Branco como fiat lux – foi ele um começo ou um fechamento? – e recupera-se o século XIX como terreno de disputas intelectuais reais. Ao mesmo tempo, rompe-se o monopólio diplomático sobre o tema, recolocando a política externa no campo mais amplo das políticas públicas e do pensamento social. Nada disso é feito por curiosidade erudita. A preocupação dos autores é eminentemente prática: trata-se de mostrar como interpretações consolidadas do passado continuam a informar, muitas vezes de maneira acrítica, as concepções contemporâneas de política externa. A mesa está posta não para uma história anedótica, mas para uma reflexão sociológica, histórica e teoricamente informada sobre os cânones vigentes.

Professor do Departamento de Ciência Política da UFMG, Dawisson Belém Lopes reúne em De Bonifácio a Amorim um conjunto de trabalhos que opera uma crítica consistente à visão insulada, burocrática e estatista da formação da política externa brasileira. Seu ponto de partida é a recusa da ideia de que a política externa possa ser compreendida como produto quase exclusivo de uma racionalidade técnica ou de uma tradição corporativa do Itamaraty. O autor trabalha com uma perspectiva de sociologia histórica, interessada em mostrar como a política externa refletiu – e, em certa medida, continua refletindo – representações de interesses oligárquicos ou elitistas da sociedade brasileira, projetadas ao longo do tempo para além do plano estritamente interno. Um de seus méritos centrais é recolocar o papel das ideias no centro da análise da política externa brasileira. Dawisson identifica sucessivas formas de bovarismo internacional – o europeísmo, o americanismo e, mais recentemente, o bricsanismo– marcadas pela disparidade recorrente entre aquilo que o Brasil aspira a ser e aquilo que efetivamente pode ser no sistema internacional. A política externa aparece, assim, como espaço privilegiado de manifestação dessa tensão estrutural entre aspiração e realidade, frequentemente resolvida por meio de projeções simbólicas que excedem as capacidades materiais do país. Ao fazê-lo, o autor abre o campo da política externa à análise das ideologias, das autoimagens e das crenças coletivas, afastando-se tanto do institucionalismo estrito quanto de leituras economicistas ou sociologizantes que tendem a reduzir o político a mero epifenômeno.

Professor do Cefet e atual presidente do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Elizeu Santiago apresenta, em Formação do pensamento internacional brasileiro, um trabalho de natureza eminentemente histórica, baseado em extensa e minuciosa pesquisa de arquivo. Seu alvo principal é o lugar-comum segundo o qual a política externa do Império teria se baseado na conciliação partidária, no consenso entre elites ou na neutralização ideológica – interpretação associada a autores como Amado Cervo e José Honório Rodrigues, e frequentemente mobilizada para justificar a ideia de que apenas a política externa republicana, a partir do Barão do Rio Branco, mereceria exame substantivo. Contra essa leitura, Santiago demonstra que o século XIX brasileiro foi marcado por um campo intelectual intensamente disputado, no qual partidos e correntes divergentes formularam projetos internacionais distintos e, por vezes, incompatíveis. A política externa não foi simples consequência automática de vícios sociais ou de pressões estrangeiras — tanto que figuras como o Visconde do Uruguai desejavam que assim fosse, precisamente porque não era. Ao longo do tempo, ela se liberaliza, se ideologiza e se pluraliza, acompanhando as transformações do próprio Estado imperial. O autor identifica dois grandes paradigmas de política internacional no século XIX, antecipando em quase um século a linguagem normalmente reservada ao período republicano. De um lado, o paradigma saquarema, centrado na unidade nacional, na centralidade política do Estado e no intervencionismo circunstancial; de outro, o paradigma luzia, associado ao americanismo, ao federalismo, ao normativismo jurídico, ao pacifismo doutrinário e à primazia de soluções comerciais e jurídicas. Com isso, Santiago desmonta a ideia de monolitismo e devolve densidade histórica ao Império, recolocando-o como momento decisivo da formação do pensamento internacional brasileiro.

Deixo de aqui me aprofundar na análise dos dois trabalhos. O livro de Dawisson Belém Lopes já foi objeto de exame extensivo em resenha publicada recentemente em revista especializada, o que dispensa retomá-lo neste espaço. Quanto ao livro de Elizeu Santiago, tive ocasião de discutir seus argumentos centrais no prefácio que escrevi para a obra, ao qual remeto o leitor interessado.

Enquanto o livro de Dawisson tem inclinação mais sociológica, e o de Elizeu, histórica, Sobre Hemisférios, de Luiz Feldman, embora também recorra à História, apresenta de forma mais nítida uma dimensão própria da teoria política. No interior desse registro, adota uma visão objetiva e realista da política no campo das relações internacionais, mais ajustada à aspereza do mundo atual do que os moralismos dominantes da já defunta época da última globalização. Esse realismo, ademais, aplica-se a uma concepção das relações internacionais pensadas espacialmente – daí o subtítulo do livro: Capítulos de geopolítica brasileira.

Ao contrário, porém, do que possa parecer à primeira vista, essa geopolítica nada tem a ver com o pensamento geopolítico brasileiro do século XX associado à Escola Superior de Guerra, de Eduardo Backheuser ao general Meira Mattos. Não se trata de produzir um pensamento geopolítico brasileiro como doutrina a ser seguida, mas de torná-lo visível por meio do recurso à história do pensamento internacional produzido em ato pela política externa brasileira ao longo dos últimos 180 anos. Também não estamos diante de uma história geral e desinteressada desse pensamento. O propósito do autor é desmontar a interpretação hegemônica segundo a qual o Brasil possuiria uma identidade internacional fixa e duradoura, erigida por seus cultores ao patamar de “tradição diplomática”, supostamente seguida de forma estável e coerente por ícones da nossa política externa, como o Barão do Rio Branco, Oswaldo Aranha, Santiago Dantas e Araújo Castro. Essa leitura tende a frisar a escassez de excedente de poder do Brasil e a necessidade invariável de recorrer à brandura como princípio orientador da política externa.

Pois bem. Luiz Feldman pretende desmentir essa interpretação por meio do recurso rigoroso à historiografia contextualista da chamada Escola de Cambridge, com o objetivo de evidenciar, ao contrário, o caráter equivocado e ideológico de semelhante construção. Para tanto, reconstrói, com grande erudição, os debates travados no âmbito político e diplomático desde o reinado de Dom Pedro II até o governo Castelo Branco, mostrando que jamais houve constância na forma pela qual a política externa brasileira respondeu ao desafio de pensar o Brasil no mundo, articulando, de um lado, o interesse nacional e, de outro, os constrangimentos da ordem internacional – e demonstrando que essa suposta identidade brasileira, na verdade, sempre esteve em disputa. Para se desincumbir dessa tarefa, ao longo dos quatro capítulos do livro, o autor subverte deliberadamente o referido cânone “oficial” dos estadistas e formuladores da política externa: em lugar do Barão do Rio Branco, o Visconde do Uruguai; em vez de Oswaldo Aranha, Joaquim Nabuco; no lugar de Santiago Dantas, Gilberto Freyre; em substituição a Araújo Castro, Afonso Arinos de Mello Franco.

Não se trata de reduzir a importância daqueles personagens, mas de evidenciar a existência de outros, até hoje mantidos na sombra, que se revelam tão relevantes para a formulação de nossa política externa quanto os primeiros – que, aliás, também comparecem na obra, embora em posição secundária e igualmente submetidos à reinterpretação. Cada um dos autores examinados em cada capítulo teria avançado, ao longo do tempo, em diferentes momentos da história, bem como do desenvolvimento brasileiro, na formulação de um tipo específico de paradigma da política externa brasileira: Uruguai, como aquele que fixou a América do Sul como espaço privilegiado de atuação do Brasil para a preservação de sua grandeza; Nabuco, como aquele que definiu a América, ou o hemisfério (latitude), em aliança com os Estados Unidos; Freyre, como aquele que estabeleceu o espaço tropical, lusófono, em articulação com o império português ou com seu sucessor; por fim, Afonso Arinos, como o responsável pela fixação do Sul, ou hemisfério sul (longitude), entendido como Terceiro Mundo ou, no jargão atual, o Sul Global.


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