segunda-feira, 13 de julho de 2026

Novo livro de Paulo Antônio Pereira Pinto: CHINA DE 1980 A 2025: da busca pelo Caminho Real ao multilateralismo chinês (2026)

Recebo, com imenso prazer, do meu amigo e colega Paulo Antonio Pereira Pinto, o anúncio de seu livro mais recente: China de 1980 a 2025: 

Com preocupações mais imediatas em outras partes do mundo, é possível notar recente recuo da “virada” (“pivot”) dos EUA em direção à Ásia. Como consequência da “menor interferência” de Washington na região, antagonismos históricos reemergiram, assim como formas seculares de convivência e negociação entre diferentes civilizações também voltaram a ser consideradas por atores regionais. Cabe observar, ademais, possíveis oportunidades nas relações asiáticas com outras áreas do planeta, com efeitos para o Brasil.
Em 14 de junho passado, publiquei texto no qual sugiro a reflexão sobre o fato de que, até a visita do Presidente Trump à China, em abril de 2026, a “Questão através do Estreito de Taiwan” era colocada no contexto da confrontação de nova “Guerra Fria” que oporia os EUA e a RPC quanto à soberania sobre aquela ilha. Em suma, a contradição entre Washington e Pequim era “simplificada” à escolha de qual destas capitais seria sede de melhor “forma de governança”, a ser adotada para um futuro formoso taiwanês.
Nessa perspectiva, acredito que os que buscavam entender a importância dos diferentes argumentos, sobre a reincorporação da ilha ao continente, julgavam que caberia avaliar se o alardeado estabelecimento de uma “democracia” em Taiwan constituiria uma “contradição principal”, que dificultaria a solução da disputa de soberania sobre aquela “província rebelde”, conforme se refere Pequim ao território administrado por Taipé.
Em 29 do mesmo mês de junho passado, sugeri em outro texto publicado que, tanto no plano interno, quanto no externo, identificam-se, na década de 1980, alterações resultantes de condicionantes históricas de forma de pensar chinesa, capazes de influenciar o cenário atual da RPC.
 Isto é, para o entendimento do momento presente naquele país, cabe abandonar raciocínios e equações, a partir de modelos fora do contexto cultural da China. Assim, o discurso chinês teria evoluído da imagem crítica de que, quando, na década de 1970, a PRC se inseria no cenário internacional, haveria “desordem sob os céus”, para atual devoção a um “multilateralismo com características chinesas”.
No exercício de reflexão a seguir, passo a apresentar argumentos publicados em meu livro mais recente, China de 1980 a 2025 – Da Busca pelo “Caminho Real” ao “multilateralismo chinês”, editado pela editora AGE em 2026, no qual busco escrever sobre a evolução recente da China, não de acordo com metodologia adotada por centros acadêmicos ocidentais, nem seguir orientação de formas de pensar o país seguindo lógica gerada fora de suas fronteiras.
Assim, a partir de vivência pessoal e da frequência a centros de estudos asiáticos, procuro mapear tendências e identificar atores que as conduziriam, no momento de inflexão histórico chinês, durante o “processo de modernização” ocorrido a partir do final da década de 1970.

DA BUSCA DO “CAMINHO REAL” À “MULTIPOLARIDADE COM CARACTERÍSTICAS CHINESAS” – O LIVRO.

Paulo Pinto
Embaixador do Brasil aposentado. Percursos diplomáticos diferenciados.
10 de julho de 2026

Quando cheguei à China, no início da década de 1980, para servir na Embaixada do Brasil em Pequim, costumava-se dizer que: ao aterrizar na capital chinesa, o visitante queria logo escrever um livro com o título “a China, hoje, ontem e amanhã”, pois achava que já entendera o país de história milenar, em apenas um dia; seis meses depois –  não existindo então o internet – o ainda recém chegado, já teria dificuldades de escrever uma carta de cinco páginas, pois começaria a perceber que se demora muito tempo para entender a China; ao final de um ano,  nem as três linhas de um “cartão postal” (lembram o que era isso, antes dos e-mails) o já “experiente observador” se animaria ainda a escrever.

Tendo servido 21 anos na área de influência cultural chinesa, me animo a efetuar exercício de reflexão sobre o cenário vigente naquele país, quando iniciei minha missão em Pequim.[1]

Meu sétimo livro, DA BUSCA DO “CAMINHO REAL” À “MULTIPOLARIDADE COM CARACTERÍSTICAS CHINESAS” é composto por artigos publicados no LinkedIn, durante o ano de 2025. Não busco, nestes ensaios, conforme já mencionado na introdução acima, escrever sobre a história da China, de acordo com metodologia adotada por centros acadêmicos ocidentais, ou seguir orientação de formas de pensar o país seguindo lógica gerada fora de suas fronteiras.

Isto é, procuro, inicialmente, mapear tendências e identificar atores que as conduziriam, no momento de inflexão histórico chinês, durante o “processo de modernização” ocorrido a partir do final da década de 1970.

Conteúdo do artigo

Para tanto recorro, principalmente, a experiências e interpretações pessoais, informações colhidas durante a participação de seminários ou visitas a Centros de Estudos na China e Sudeste Asiático, bem como à literatura por eles produzidas.

Tratava-se, então, de vivenciar a retomada chinesa do “Caminho Real”[2], como recomenda aquela civilização milenar.

Por outro lado, a maioria dos textos do livro foram reescritos, após a publicação no Linkedin, a partir do estímulo proporcionado pelo primeiro ano da atual administração do Presidente Donald Trump. Isto é, a superficialidade com que decisões do governo estadunidense com respeito à Ásia-Pacífico foram tomadas, neste período – sempre em busca de “deals” (negócios) - me incentivaram a recorrer a reflexões já publicadas, como resultado do impulso de procurar corrigir interpretações incompletas, segundo minha percepção.

O objetivo é, modestamente, contribuir para que se pense melhor a situação presente e cenários futuros da República Popular da China (RPC). Entre as evoluções consideradas possíveis, cabe registrar:

- A China estaria no caminho certo. Sua economia está florescendo e sua população ficando mais rica, o que levaria a reformas políticas e estabelecimento de regime de governo liberal e “democrático”;

- A RPC está “a caminho do desastre”, incluindo a falência de seu sistema econômico e desintegração política;

- E, a terceira hipótese, os chineses seriam capazes de manter seu crescimento econômico, enquanto seu sistema político continuaria autoritário, na forma atual, conduzida por partido único, com a mesma repressão a críticos, como acontece hoje. Isto é, economicamente, cresceria a “conectividade” com o resto do mundo, enquanto, internamente, o Partido Comunista Chinês (PCC) manteria seu rígido controle político sobre o país.

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No capítulo inicial, reflito sobre a possibilidade de que a experiência em curso, no começo da década de 1980, tenha contribuído, de forma significativa, para a atual inserção internacional chinesa.

Em capítulos seguintes, retorno a observações colhidas durante o período em que servi em Pequim e proponho reflexão sobre a abertura para o exterior da República Popular, enquanto seguia em seu processo de modernização.

Persisto na tese de que, tanto no plano interno, quanto no externo, identificam-se, na década de 1980, alterações resultantes de condicionantes históricas de forma de pensar chinesa, capazes de influenciar o cenário atual da RPC.

Isto é, para o entendimento do momento presente naquele país, cabe abandonar raciocínios e equações, a partir de modelos fora do contexto cultural da China. Assim, o discurso chinês teria evoluído da imagem crítica de que, quando se inseria no cenário internacional, haveria “desordem sob os céus”, para atual devoção a um “multilateralismo com características chinesas”.

Nessa perspectiva, dedico, no livro, diferentes textos à análise de que a cooperação atual e resolução de possíveis conflitos, entre a China e países do Sudeste Asiático, possam ser conduzidas e resolvidas no contexto de sua própria cultura.

A propósito, ressalto que é fundamental o protagonismo da ASEAN, que, no âmbito de herança cultural chinesa, disporia de mecanismos próprios para “construir um futuro de progresso compartilhado”.

Fundada em 8 de agosto de 1967, a ASEAN[3] foi entendida como a expressão de países que pretendiam apresentar-se ao Ocidente industrializado como área dedicada aos propósitos de uma economia de mercado. Além de não se situarem em região diretamente inserida na fronteira ideológica dos Estados Unidos da América - como acontecia com a Coréia do Sul, Taiwan e o então Vietnam do Sul - Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura e Tailândia não desejavam, tampouco, aparecer como promotoras de bloco militar semelhante à SEATO[4].

Nesse sentido, práticas agressivas e contrárias ao correto relacionamento diplomático, evidentes em 2025, incentivaram reflexões sobre o papel agregador que a ASEAN exerceu na evolução das relações entre o Sudeste Asiático e países da Ásia Pacífico, conforme procuram ressaltar artigos publicados no livro. Tal percurso foi repleto de contradições, quase todas superadas pelo conceito de “resiliência”.

Em artigo sobre o assunto, relato conclusões obtidas – sobre o conceito de “resiliência” - durante périplo que efetuei, por centros de estudos estratégicos, em países do Sudeste Asiático, China e Hong Kong, em 1994, por instruções recebidas do Itamaraty. Relembro, a propósito, conclusões trazidas dos diálogos com estes estabelecimentos de pesquisas quanto aos aspectos de segurança regional, que influenciam, ainda hoje - em minha opinião - decisões políticas tomadas naquelas cidades visitadas.

Texto específico trata das relações preferenciais entre Malásia e Singapura – dois países fundadores da Associação dos Países do Sudeste Asiático – com a República Popular da China, nos anos seguintes a seu estabelecimento, em 1949.

A complexidade do relacionamento entre a China e o Vietnã é tratada em capítulo seguinte.

Reitera-se, a propósito, que a estabilidade, hoje alcançada, na Ásia-Pacífico, deve-se à formulação de objetivos nacionais claros, tanto na China, quanto nos países ao Sul, e à coerência em sua implementação.

De sua parte, a ASEAN desenvolveu o conceito de “regional resiliance”, enquanto o Presidente Xi Jinping tem afirmado o compromisso da China com a construção de paz duradoura, com prioridade atribuída ao Sudeste Asiático. O conceito da “comunidade de destino da humanidade”, que Xi tem proposto, articularia a experiência chinesa “de convívio pacífico” e solução negociada de conflitos com sua própria retórica de cooperação econômica.

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Entre os artigos publicados no livro, há também os que tratam da “questão de Taiwan”, no contexto das relações da RPC com os Estados Unidos da América.

Incluo reflexão sobre diferenças na evolução das formas de convivência entre a República Popular da China e os chineses que incluem significativa população no Sudeste Asiático (“overseas chinese”), e as dificuldades nas relações da Rússia, com países vizinhos onde vivem, como herança da União Soviética, “russos do exterior próximo”.

Encerro com texto sobre a parceria entre Pequim e Brasília. Isto porque a estonteante velocidade com que evolui a atual dinâmica das relações internacionais parece explicar o fato de que análises, sobre a inserção do Brasil no mundo, vejam o país apenas a partir de estímulos do exterior.

Pouca reflexão é feita iniciando-se com nossa mais próxima realidade nacional e regional. Nesse contexto, seria oportuna a recapitulação, inicialmente, da importância do Atlântico Sul, em cenário futuro de prosperidade compartilhada, entre Brasil e África, através deste oceano.

Em seguida cabe considerar como a África poderia ser incluída, em nossa parceria com a China.

A título de conclusão, reforço a proposta de que se deva olhar nossa inserção internacional, tanto com países asiáticos, quanto com os menos distantes, sempre com visão a partir do entorno imediato brasileiro.

Concluo com citação do Sr. Juri Ferrario, que tem sido um de meus interlocutores no intercâmbio de reflexões que venho publicando no LinkedIn. Segundo o Sr. Ferrario, “Talvez as rotas comerciais se transformem ao longo dos séculos, mas as ligações culturais, linguísticas e humanas tenham uma capacidade muito maior de atravessar o tempo.”

Nesse sentido - refiro-me ao texto que publiquei em 4 de fevereiro de 2026, sob o título de “REFLEXÕES SOBRE A INSERÇÃO INTERNACIONAL DE UM BRASIL TRI-OCEÂNICO E A PROSPERIDADE COMPARTILHADA ATRAVÉS DO ATLÂNTICO” - lembro que a busca pelo entendimento da evolução histórica de antigas civilizações, conforme compreendida por seus próprios povos e por vínculos que liguem o Brasil à África e à Ásia, possam contribuir não apenas para preservar heranças culturais compartilhadas, mas também para construir novas formas de diálogo e intercâmbio comercial entre sociedades que hoje enfrentam desafios semelhantes, embora em contextos atuais diferentes.

Título: CHINA DE 1980 A 2025: da busca pelo Caminho Real ao multilateralismo chinês; Autor: Paulo Antônio Pereira Pinto. Peso: 315 g. Páginas: 184.ISBN: 9786558634249. Amazon.com – Estante Virtual – Livraria Inovação – Livraria A Página (Paraná e São Paulo) – Leitura Livraria – Zamboni Books (São Paulo) – Livrarias Cameron (Porto Alegre) – Vanguarda (Pelotas RS).

[1] Esclareço que, após ter trabalhado durante seis anos e meio, na África, sucessivamente, em Libreville, Gabão; Maputo, Moçambique; e Pretória, África do Sul, entre 1976 e 1982; servi em Pequim, entre 1982 e 1985; fui subchefe da Divisão de Ásia do Ministério de Relações Exteriores, em Brasília, entre 85 e 86; trabalhei em Embaixadas no Sudeste Asiático, sucessivamente, Kuala Lumpur, Singapura e Manila, entre 86 e 95; fui designado para a Secretaria de Assuntos Estratégicos, da Presidência da República, entre 95 e 98; e nomeado diretor do Escritório Econômico e Comercial em Taipé, entre 1998 e 2006. Na sequência, fui designado o primeiro Cônsul-Geral em Mumbai, Índia; Embaixador em Baku, Azerbaijão; Representante do Ministério das Relações Exteriores no Estado do Rio Grande do Sul; e Embaixador em Minsk, Belarus. Aposentei-me em janeiro de 2019.

[2] A expressão “Caminho Real” na filosofia chinesa costuma ser mencionada como uma forma de traduzir ideias centrais de harmonia, conduta correta e via justa — especialmente no Confucionismo.

[3] A ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático, em inglês “Association of Southeast Asian Nations”). Local da fundação: Bangkok, Tailândia. Documento fundador: Declaração de Bangkok. Membros fundadores: Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia. Hoje, a ASEAN conta com 10 países-membros: os cinco fundadores mais Brunei (1984), Vietnã (1995), Laos (1997), Mianmar (1997) e Camboja (1999).

[4] A “Southeast Asia Treaty Organization” (SEATO) foi fundada, em 1954, logo após a retirada da França do Sudeste Asiático. Com o objetivo de conter “a expansão comunista” naquela região e foi integrada pelos Estados Unidos, Austrália, França, Grã-bretanha, Nova Zelândia, Paquistão, Filipinas e Tailândia”. Com sede em Bangkok, a Organização teve como principal objetivo legitimar a presença militar dos EUA no Vietnam, apesar da oposição francesa e paquistanesa. Foi extinta em 1977.

domingo, 12 de julho de 2026

Mafalda e a FIFA: uma reação incontrolável

Acho que a Mafalda teve um acesso de riso descontrolado (mas não por culpa dela). 


 

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro: publicados na série, de 1 a 5 - Paulo Roberto de Almeida

  

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro

Capítulos publicados na série, 2026, do n. 1 ao n. 5

  

Paulo Roberto de Almeida

Atualizada em 12 de julho de 2026


Capítulos já publicados:

1645. “Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p. Introdução a uma biografia sincera de um contraventor da lei e dos bons costumes: o Estado brasileiro, narrada, de forma inédita, na primeira pessoa. Revista Será? (ano xiv, n. 710, 15/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1-a-trajetoria-do-estado-brasileiro/); divulgado no Diplomatizzando (15/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1.html). Relação de Originais n. 5303.

 

1647. "Autobiografia de um fora-da-lei, 2: o Estado visto por ele mesmo”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p.; revisão: 20/05/2026. Uma questão de método: como o Estado pode escrever sua própria biografia? Revista Será? (ano xiv, n. 711, 22/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o-estado-visto-por-ele-mesmo/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o.html). Relação de Originais n. 5304.

 

1650. “Autobiografia de um fora-da-lei, 3: do nascimento a tempos incertos”, Brasília, 6 maio 2026, 4 p. Das origens ao vice-reinado: uma trajetória colonial a serviço da metrópole. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 712, 5/06/2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do-nascimento-a-tempos-incertos/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do.html). Relação de Originais n. 5305.

 

1652. Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente”, Brasília, 6 junho 2026, 4 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro, para a revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de-colonia-a-reino-unido-ao-de-portugal-e-uma-promocao-merecida-a-imperio-independente/);  divulgado no blog Diplomatizzando (26/06/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de.html); resumo comentado por Demoiselle IA, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz, registrado sob n. 5379; divulgado no blog Diplomatizzando (28/06/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/a-autobiografia-do-estado-relida-e.html). Relação de Originais n. 5342.

 

1654. Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais”, Brasília, 9 junho 2026, 4 p.; revisão 8 julho 2026, 5 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 707, 10/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como-me-livrei-dos-portugueses-mas-acabei-ficando-com-os-oligarcas-nacionais/). Divulgado no blog Diplomatizzando (10/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html). Relação de Originais n. 5347.

  

Capítulos aguardando publicação:

 

5394. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República”, Brasília, 9 julho 2026, 4 p. Continuidade da série, desta vez fazendo um resumo reflexivo, antes de prosseguir.

 

5396. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados”. Brasília, 10 julho 2026, 4 p. Mais um capítulo da história de um transgressor moderado.

  

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12 julho 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-uma.html)

 

Madame IA seguiu atentamente, a mando de Airton Dirceu Lemmertz, as minhas postagens durante a semana que passou

 PRA: Eu até acho que ela está analisando e escrevendo melhor do que. Acho que vou contratar essa Demoiselle como assistente de escrevinhação: ela já absorveu todo o meu horror pelo bolsonarismo estúpido. 

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As participações de Madame IA no blog Diplomatizzando na recente semana (de 05 a 11/julho/2026), em ordem cronológica: 

Madame IA se dedica a desmantelar os quatro anos de bolsolavismo diplomático esquizofrênico: 

Semana de 28/06 a 4/07 no Diplomatizzando comentada por Madame IA - Paulo Roberto de Almeida: 

A crise mundial explicada por fatores contingentes que agravam os fatores estruturais pré-existentes a ela:- Paulo Roberto de Almeida: 

O trumpismo idiota é uma epidemia maligna que começa a se espalhar pelo hemisfério americano - Orlando Tambosi, Paulo Roberto de Almeida, Comentários de Madame IA: 

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?); + Madame IA refaz a história: 

Anatomia do Estado mafioso putinesco - Garry Kasparov (comentário inicial PRA) + Madame IA: 

Mal comparando… Quem manda na Máfia americana? - Paulo Roberto de Almeida + Madame IA: 

- "Uma semana com 7 participações de Gemini AI. Uma média de 1 participação por dia." (ADL). 

Um chamado à razão em face da "polarização política"; o perigo maior vem de uma direita reacionária: texto de Carmen Lícia Palazzo

Um chamado à razão em face da "polarização política" 

    Transcrevo abaixo um texto que considero importantíssimo, de Carmen Lícia Palazzo, sobre as escolhas que se nos apresentam na próxima eleição presidencial, ao qual faço esta breve introdução (PRA)

    Como a imensa maioria da população brasileira, especificamente do seu eleitorado, estou profundamente insatisfeito com a situação do Brasil, assim como das possibilidades que se nos apresentam como candidatos propositivamente viáveis

Há um certo desalento com a falta de estadistas que discutam questões cruciais, de segurança, de prosperidade econômica, de possibilidades educacionais e, sobretudo, de superação dessa divisão política estéril, mas que persiste.

Expresso em primeiro lugar uma preocupação com a recusa das escolhas, com a negação do voto, com a abstenção nas urnas, pois a ausência de definição redundará justamente na continuidade do que temos de mais paralizante: a indiferença em face de opções difíceis de serem tomadas. 

Já vimos em outros países, certamente nos anos 1930, e ainda agora, no país que se acredita o mais poderoso do mundo, como o apelo ao MEDO pode influenciar o voto de pessoas indecisas, provocando justamente o agravamento de problemas já existentes. 

O negacionismo vacinal, o retorno a um passado que se considera desejável, a submissão da política externa a uma potência estrangeira, a mentira sobre supostas "virtudes familiares", o apelo a uma falsa religiosidade de ocasião, o oportunismo rasteiro que esconde a desonestidade no uso dos recursos públicos, tudo isso deve servir de alerta contra uma volta ao passado recente, à mesma tropa de meliantes políticos que tentaram destruir a democracia no Brasil, assim como o vulgar dirigente da América do Norte está destruindo a da mais velha República do hemisfério, o que já se tornou realidade.

Recomendo a leitura atenta dos argumentos apresentados abaixo, seguida de uma reflexão ponderada sobre os maiores riscos à racionalidade e à governança do Brasil.

Paulo Roberto de Almeida

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Agora a postagem de Carmen Lícia Palazzo

“Sou, obviamente, contrária a toda e qualquer ditadura, seja ela de esquerda ou de direita. No entanto, no mundo atual, já ficou mais do que evidente que o grande risco é semelhante ao que ocorreu na Europoa antes da II Guerra, o de uma direita fascizante estar se esgueirando pelas frestas de todos os descontentamentos, até que alcance o poder e instaure o que de mais abjeto e horrendo já se viu no passado.

É sob o disfarce de "valores de família", de "controle de uma juventude imoral" e outras bandeiras semelhantes que o que há de pior vai ganhando espaço. Não se busca nenhum benefício para os deserdados do mundo, não haverá nenhum avanço em áreas sociais, mas apenas a mais total e completa barbárie repressiva, que se imiscui incluive nas vidas privadas de cada um.

Fico pasma de ver a desonestidade de alguns ditos intelectuais comparando negativamente Xi Jinping e Trump. É ignorância? Não, da parte de gente inteligente é má fé mesmo. O que a China tem alcançado em matéria de avanços que são compartilhados com a maioria da sua imensa população, os cuidados na saúde e o empenho para que a Educação alcance efetivamente a todos é o oposto do que o sujeito monstruoso, imoral que governa os EUA deseja e faz. Ter colocado o Kennedy na Saúde, estar em queda livre na taxa de vacinas e com doenças que estavam erradicadas retornando é crime. Isso sem falar em suas barbáries internacionais.

E, aqui dentro, na nossa política, só pessoas igualmente desonestas ou de extremo desconhecimento de tudo e, quem sabe, com graves problemas pessoais que as impedem de ver com clareza a situação, é que podem, ainda agora, dar apoio a políticos do PL e ao bolsonarismo. No entanto, o que vejo e que me assusta, é muitos supostamente neutros e que se dizem desencantados com a política em geral, agindo com o famoso "passar pano" nesse tipo de gente, abrindo espaço para que cheguem inclusive ao Congresso, criaturas como os apadrinhados do Valdemar, do Bolsonaro e agora da tal nova ala das "mulheres da Michelle". 

Não se iludam, tudo isso é assustador. Não é engraçado, não é motivo para chacota, não é circo. Circo é arte. É decente. Essa gente é o "fascismo eterno" retornando em roupagens modernas. Essa gente é perigosa e está em diversos setores. Essa gente tentou tomar o MEC e a Saúde, duas áreas cruciais e de dificílima administração, em qualquer país do mundo. Raramente atuam muito bem e têm problemas graves (não só no Brasil), mas nada, absolutamente nada é mais perigoso do que ter fascistas na Educação e na Saúde. E pior ainda quando eles manipulam a população mais simples e menos informada.

Grandes especialistas (estudo o assunto, não falo sem conhecimento, leio muito, muitíssimo) estão mostrando que, no século XXI, o pensamento fascizante se apoia em  lideranças supostamente religiosas. Não era o caso do nazi-fascismo do século XX, que tinha um discurso sobre valores da família, mas sem apoio formal de igrejas, até porque não havia tal disseminação das tais "igrejas"como atualmente. No entanto, nos EUA, católicos e protestantes, tantos os chamados de históricos quanto os neopentecostais, não estão apoiando o Trump. Por lá, igrejas como a Católica, a Presbiteriana e várias outras denominações protestantes têm demonstrado a maior DIGNIDADE e CORAGEM, inclusive em defesa dos imigrantes contra a horrenda e criminosa atuação das milícias do ICE. Infelizmente aqui, com a proliferação de "igrejas" em cada esquina e grande parte delas com discursos assustadoramente preconceituosos, muita gente que ignora o que elas representam ainda participam de suas atividades e seguem seus líderes.  E mesmo que a cada dia um desses líderes, dito religioso, se revele desonesto, assediador, mau caráter e milionário à custa de falcatruas bem mais rentáveis para eles do que os famosos dízimos. E, no entanto, muitas dessas "igrejas"continuam repletas de "fiéis".

A situação é grave, mesmo que o Flávio não vá se eleger. E é grave porque essa gente fascizante está tomando o Congresso Nacional. Não minimizem os riscos como sendo apenas casos de piada, de ignorância, de pessoas que vemos como "toscas". Essa extrema-direita pode até ser realmente tosca, mas tem muito dinheiro, já ganhou o apoio de algumas pessoas de formação técnica em certas áreas, que falam de "eficiência", de "reformas", de "limpeza", no entanto estão é promovendo um extremismo retrógrado e assustador.

Como há gente que não se dá conta disso?

Estudaram mal a História?

Não entenderam tudo o que a Europa já passou?

O texto é enorme, mas achei necessário, e foi motivado por que me dei conta de que ainda há muitas pessoas que eu conheço e que, sendo supostamente defensoras de um dito futuro melhor para o Brasil, estão apoiando o que há de mais vil, de mais ignóbil. E, se não os apoiam abertamente, abrem espaço para que tais criaturas ocupem cada vez mais espaços. Em breve pautas importantes sobre as mulheres, as crianças, a diversidade, a laicidade serão DESTRUÍDAS em nome da tal "limpeza", da tal "moralização" e outros "motes"bradados por eles, mas que nada têm a ver com a verdadeira decência.

CUIDADO!

Discursos supostamente bonitos, bem estruturados e que apelam aos SENTIMENTOS da população e também aos seus MEDOS podem ser PERIGOSÍSSIMOS.""

Carmen Lícia Palazzo

 

Na morte de José Van Den Besselaar - Francisco José dos Santos Braga

Transcrevo, do blog do eminente estudioso de São João del-Rei, Francisco José dos Santos Braga, uma postagem do maior interesse para os estudos históricos do Brasil, no que concerne o Padre Antonio Vieira e um dos seus maiores estudiosos holandeses, começando justamente pela sua nota de divulgação:

"Prezad@, 

Em janeiro de 2024, transcrevi no Blog de São João del-Rei o 6º capítulo, A MESTRA DA VIDA, do livro INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS, uma obra do holandês JOSÉ VAN DEN BESSELAAR. O título do capítulo é um dos epítetos que Marco Túlio Cícero costumava atribuir à HISTÓRIA. 
Besselaar viveu entre nós de 1949 a 1961 contribuindo com diversas obras para abordar e incentivar os estudos clássicos como grande latinista, filólogo, historiador e lusitanista que era. Com todas essas habilidades que possuía, deixou obras de inestimável valor, especialmente sobre Pe. António Vieira. 
Vejamos aqui o que nos tem a dizer um aluno de Besselaar, FRITS SMULDERS, sobre o seu mestre. Sua página foi publicada pela prestigiada revista Colóquio/Letras publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa e aqui é republicada com a finalidade de reforçar a importância de exaltarmos os grandes mestres da literatura brasileira e portuguesa.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/07/na-morte-de-jose-van-den-besselaar.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei"

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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Na morte de JOSÉ VAN DEN BESSELAAR

 
Por FRITS SMULDERS *

Transcrevemos, com a devida vênia da revista COLÓQUIO/Letras. Letras em Trânsito, matéria publicada no nº 125/126, Jul. 1992, p. 336.
 
A 20 de Junho de 1991 faleceu com a idade de 75 anos, na cidade de Nijmegen, onde residia, o lusitanista holandês José van den Besselaar. Com uma obra conhecida tanto em Portugal como no Brasil, o seu nome será o mais das vezes associado, e com razão, ao estudo da obra de António Vieira. Contudo, o investigador assinou dezenas de publicações em numerosas outras áreas. 
José van den Besselaar nasceu a 17 de Março de 1916 em Valkenswaard, no Sul da Holanda. Em 1940, já durante a ocupação alemã, formou-se em Estudos Clássicos na Universidade de Nijmegen. A tese de doutoramento  sobre o monge e político romano Cassiodorus Senator  estava pronta em 1943, mas teve de esperar o fim da guerra para ser defendida. As suas publicações dos anos seguintes mostram-no um defensor dos Estudos Clássicos. Traduz sermões de, entre outros, Leandro de Sevilha e Martinho de Braga, e escreve um desenvolvido curso de Grego. 
Em 1950, toma uma resolução que seria decisiva na sua vida: parte para o Brasil, com o propósito de ensinar línguas clássicas numa colônia holandesa de São Paulo. O fim de sua estada de onze anos no Brasil vê-lo-ia catedrático de Filologia Latina em Assis, após uma carreira de docente de línguas clássicas noutras universidades. Data de 1956 a publicação de uma Introdução aos Estudos Históricos ¹, que viria a ter em 1980 quinta edição. Esta obra metodológica teve continuação, ainda nos anos 50, nos dois volumes de As Interpretações da História através dos Séculos. A esta mesma época se reporta um curso de morfologia e sintaxe latina, Propylaeum Latinum ² (São Paulo, 1961). A sua expressão em língua portuguesa já então prima por notória transparência e propriedade, qualidades que haverão de intensificar-se. 
De regresso à Holanda, José van den Besselaar torna-se o primeiro docente de língua e literatura portuguesa da Universidade de Nijmegen. Catedrático em 1967, pronuncia uma lição inaugural sobre "António Vieira e a Holanda", publicada em 1971 na Revista da Universidade de Lisboa. Seguem-se inúmeras publicações de interesse clássico ou relativas a temas brasileiros e, cada vez mais, portugueses. Ficará célebre o vasto estudo Brazilië: ontwakende reus in de tropen (Brasil: Gigante que Desperta nos Trópicos), de 1963, que viria a conhecer em seguida duas edições alemãs. O vivo interesse pelo Brasil e a capacidade de olhá-lo de perto animam o autor a não ocultar, onde necessário, aspectos incômodos da sua experiência brasileira. 
António Vieira vai ocupar, desde então, intensamente Van den Besselaar. E não só Vieira  o escritor, o diplomata, o missionário, o teólogo, o militante social  como também o mundo em que estava imerso, particularmente o do profetismo, temática que sobre todas o atrai. O melhor de si põe-no na prestigiosa edição da História do Futuro (Münster, 1976). O primeiro volume contém o texto do "Livro Anteprimeiro', com aparato crítico e uma introdução histórico-textual. O segundo é um extenso comentário onde o excelente conhecedor da antiguidade latina e cristã localiza exaustivamente fontes e referências de Vieira. Deste estudo sairá mais tarde, em 1983, uma editio minor, aos cuidados da Biblioteca Nacional de Lisboa. Para público menos especializado, escreveu ainda o volume da Biblioteca Breve António Vieira: o Homem, a Obra, as Ideias, com que pretende prosseguir a obra, que aliás admira, de João Lúcio de Azevedo, a impressionante História de António Vieira
A sua actividade universitária, encerrou-a em 1984 com uma última lição que intitulou "Bandarra, Sapateiro e Profeta de Trancoso". Aí afirmava:
O profetismo é uma tentativa de dar sentido à história dum povo ou da humanidade. Sempre me interessou examinar como é que essa tentativa tomou forma na história cultural do Ocidente.
E o crente José van den Besselaar finalizava:
Desejo terminar esta lição com uma variante a uma afirmação de Vieira. Passando a vista sobre o que foi a minha vida, acho nela razões para rir ou para chorar, para me espantar ou para me embravecer, mas sobretudo para estar grato a Deus por todo o bem que me deu. Com o subir dos anos, cresce de fato o meu convencimento de que quase tudo numa vida humana é graça, bem pouco mérito próprio.

 

* Editor, nasceu em 1959. Estudou Português e Direito Internacional na Universidade Católica de Nijmegen e Direito Holandês na Universidade Católica de Tilburg. Autor da tese de doutoramento apresentada à Universidade Católica de Nijmegen, Holanda, intitulada ANTÓNIO VIEIRA: Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, que teve como orientador José van den Besselaar e com a qual obteve o grau de doutor. Trabalhou como tradutor e revisor para a União Europeia em Bruxelas e, atualmente, ocupa um cargo de gestão no Instituto Europeu de Pesquisa Ferroviária da União Internacional de Ferrovias, em Utrecht, nos Países Baixos.

 
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS do gerente do Blog
 
¹ Possuo a 4ª edição revista e ampliada (São Paulo: EDUSP, 1974, 340 p.) 

² Possuo o Propylaeum Latinum (São Paulo: Editora Herder, 1960) que se compõe de dois volumes: o primeiro (abrangedo a sintaxe latina superior com 442 páginas) e o segundo, leitura-exercícios-vocabulário com 304 páginas. Nesta obra, Besselaar adaptou uma vertente germânica da gramática latina tradicional e utiliza noções e procedimentos oriundos da linguística histórico-comparativa para a didática do Latim.

 

III. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BECCARI, Alessandro: José van den Besselaar (1916-1991) e seu Propylaeum Latinum, Curitiba: Revista Letras, UFPR, nº 104, pp. 125-144, jul/dez 2021
Link: https://revistas.ufpr.br/letras/article/view/80236/45501

BRAGA, Francisco J.S.: A MESTRA DA VIDA, texto retirado do capítulo VI do livro Introdução aos Estudos Históricos, 4ª edição, São Paulo: EDUSP, 1974, pp. 103-114 e publicado no Blog de São João del-Rei, em 24/01/2024
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2024/01/a-mestra-da-vida.html

FREIRE, José Geraldes: In memoriam de José van den Besselaar (1916-1991), in NOTÍCIAS E COMENTÁRIOS - Universidade de Coimbra (disponível na Internet)

SMULDERS, Frits: Na Morte de José van den Besselar, in Revista Colóquio | Letras. Letras em Trânsito, nº 125/126, Jul 1992, p. 336.

 

sábado, 11 de julho de 2026

China diminui distância dos EUA no design de chips, mas ainda tropeça na fabricação (The Economist)

China diminui distância dos EUA no design de chips, mas ainda tropeça na fabricação
The Economist, 10jul26

Taipei (Taiwan) 

Quando a elite da indústria de chips desembarcou em Taipei no mês passado para a Computex, feira anual do setor, dois temas dominaram as discussões. O primeiro foi a inteligência artificial, que transformou os semicondutores em uma das indústrias mais lucrativas do mundo. O segundo foi a China. Os fabricantes chineses estavam ausentes, mas sua sombra era longa.
O fascínio pela China é fácil de explicar. Uma semana antes da Computex, a Huawei, campeã chinesa em hardware tecnológico, revelou uma técnica que empilha camadas de circuitos em um chip para obter melhor desempenho sem depender das mais recentes ferramentas de fabricação ocidentais.
Os investidores também estão sinalizando confiança no país. Os preços das ações de empresas de semicondutores na bolsa de Hong Kong subiram 140% no último ano, superando um índice americano comparável. Alibaba e Baidu, dois gigantes chineses da internet, pretendem desmembrar seus negócios de design de chips. A CXMT, fabricante de chips de memória, está preparando uma oferta pública de ações.
O potencial da China para autossuficiência na fabricação de chips é uma das maiores questões da indústria. A resposta importa porque o "compute" —os processadores e memórias que treinam e executam modelos de IA— tornou-se a moeda do poder tecnológico.
No final de 2025, a China tinha apenas cerca de um sétimo da capacidade de computação dos Estados Unidos. Fechar essa lacuna exige dominar duas atividades muito diferentes: projetar chips e fabricá-los. A China fez progressos notáveis na primeira. Na segunda, ainda tem um longo caminho a percorrer.
A China costumava estar muito atrás no design de chips. Até 2023, a americana Nvidia, que domina o mercado de chips de IA, atendia cerca de 90% da demanda chinesa. Os controles de exportação mudaram isso. Desde que os EUA restringiram as vendas de chips avançados para a China em outubro de 2022, a política americana tem oscilado. A resposta da China, por outro lado, não vacilou: os reguladores têm consistentemente distanciado as empresas domésticas dos chips estrangeiros, mesmo quando são legalmente obtidos.
O resultado foi um mercado interno protegido. Alibaba e Baidu estão projetando processadores internamente, enquanto startups como a Cambricon prosperaram com concorrência limitada. Projeta-se que os designers domésticos capturem cerca de quatro quintos dos gastos na China com chips de IA este ano. Qingyuan Lin, da corretora Bernstein, brinca que os EUA fizeram mais para fortalecer a indústria de semicondutores da China do que o próprio governo do país.
O mercado chinês é grande o suficiente para sustentar uma indústria. Espera-se que os gigantes locais de nuvem gastem mais de US$ 400 bilhões em infraestrutura de IA nos próximos três anos, grande parte em computação. Também há rumores de que o governo está planejando outros US$ 295 bilhões em gastos com data centers ao longo de cinco anos.
A China também tem muitas pessoas com as habilidades certas. Muitos designers de chips chineses ganharam experiência trabalhando para empresas americanas como Nvidia e AMD. Kyle Chan, do Brookings Institution, avalia que atualmente há tantas opções no mercado que até pequenas startups conseguiriam recrutar equipes inteiras de design.
E os designers talentosos estão encontrando maneiras de avançar mesmo em meio às sanções. Uma saída é usar a força bruta. O sistema CloudMatrix da Huawei conecta 384 processadores Ascend da empresa para desafiar os mais recentes sistemas de IA da Nvidia (embora consuma quatro vezes mais energia).
Outra é a integração mais estreita de hardware e software. Em abril, a DeepSeek lançou um modelo de linguagem grande ajustado para o silício da Huawei. Os designers chineses também estão adotando o FP8, um formato de dados de menor precisão que ajuda os modelos a rodar eficientemente em chips menos potentes.
A Huawei também está trabalhando para minar a vantagem da Nvidia com o CUDA, software amplamente utilizado na indústria. Sua plataforma própria, a CANN, foi projetada para facilitar a transição de chips da Nvidia.
Mas tal engenhosidade só pode levar a China até certo ponto. A Bernstein observa que o chip top de linha da Huawei, o Ascend 910C, entrega apenas quatro quintos do desempenho do H100 da Nvidia, lançado há quase quatro anos. Os chips nacionais competem principalmente com os processadores ultrapassados que a Nvidia é autorizada a vender na China. Eles também estão majoritariamente confinados à "inferência" —executar modelos existentes— em vez da tarefa muito mais exigente de treinar IA de fronteira do zero.
Com os avanços de design, a distância que resta entre as duas nações está na esfera da fabricação. Processadores mais rápidos exigem linhas de produção mais avançadas. Os designers chineses estão proibidos de usar os processos mais recentes de foundries (fábricas especializadas que produzem os chips para outras empresas inserirem em seus produtos) como a TSMC.
As foundries domésticas, impedidas de comprar equipamentos de litografia ultravioleta extrema (EUV) da holandesa ASML, não conseguem produzir em massa de forma confiável chips com transistores menores que sete nanômetros (o estado da arte é de 3 nanômetros para baixo). Mesmo para chips menos avançados, a capacidade é limitada.
Consequentemente, a demanda da China por processadores de IA supera em muito o que ela consegue obter. Um analista da empresa de pesquisa Citrini, Zephyr (nome fictício) diz que as empresas chinesas compensam a escassez alugando capacidade de nuvem no exterior ou contrabandeando chips.
A memória avançada é outro gargalo. Quase toda a memória de alta largura de banda (HBM) necessária para IA é fabricada por três empresas: a americana Micron e as sul-coreanas Samsung e SK Hynix.
Os chineses estão gastando muito para tentar alcançar seus pares ocidentais. Desde 2019, as importações anuais de equipamentos de fabricação de chips triplicaram para US$ 39 bilhões, cerca de 40% da demanda global. Grande parte dessa fatia é destinada para produção de chips mais antigos, mas uma fração está sendo usada para fabricação avançada.
Ao mesmo tempo, empresas locais como Naura e AMEC agora oferecem alternativas competitivas para ferramentas em etapas críticas como deposição química, corrosão e limpeza de wafers. A China está até avançando em HBMs. A empresa de pesquisa SemiAnalysis espera que a participação da CXMT na produção global de HBM suba de quase nada hoje para cerca de 12% até 2028.
Ainda assim, apesar de todo o progresso, o impulso de autossuficiência da China esbarra em um muro com a litografia EUV, essencial para imprimir circuitos minúsculos. Apesar de anos de acesso às máquinas de ultravioleta profundo (DUV) mais antigas da ASML, a China ainda não produziu um equivalente doméstico.
A maioria das estimativas da indústria coloca um EUV fabricado na China a cerca de uma década de distância, embora o departamento de comércio dos EUA acredite que o país pode ter obtido uma máquina ilicitamente.
Sem essas impressoras avançadas, os fabricantes de chips chineses estão buscando soluções alternativas para extrair mais desempenho das máquinas DUV. Uma opção é o "multi-patterning", que expõe repetidamente um único wafer de silício a múltiplas passagens de uma ferramenta de litografia. Isso grava características menores, mas eleva custos, desacelera a produção e aumenta a chance de defeitos.
Outra é o empacotamento avançado, que conecta múltiplos chips feitos com tecnologia mais antiga em um único sistema. O anúncio da Huawei antes da Computex sinalizou que a empresa estava buscando se aproximar do desempenho de ponta usando ferramentas DUV mais antigas.
Embora a China ainda esteja a alguma distância da fronteira tecnológica da fabricação de chips, seu progresso não deve ser ignorado. Basta olhar para a Apple: em meio a uma piora na escassez de chips de memória, a dona do iPhone está buscando permissão do governo americano para comprar memória de geração anterior da CXMT.
Se obtiver aprovação, uma empresa americana estará ajudando a financiar justamente a indústria que seu governo passou anos tentando conter.


THE ECONOMIST

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