sábado, 12 de setembro de 2026

As ideias e as práticas da política externa brasileira (incompleto) - Paulo Roberto de Almeida

Um trabalho feito no celular, que não tinha sido transposto para o computador:  

As ideias e as práticas da política externa brasileira 

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Texto incompleto de um trabalho iniciado, mas não terminado, encontrado numa postagem no Threads, com data de 11/08/2026 (21 Views), sem qualquer registro anterior nesta lista de trabalhos ou nos arquivos do computador.

  

Toda política de Estado, que não seja pura reação a fatos intervenientes que se infiltram de forma independente na agenda dos governantes de plantão, resulta sempre de alguma concepção própria que possua o chefe de Estado e de governo, junto com seus assessores imediatos e seus inspiradores indiretos, sobre como conduzir as principais políticas governamentais que respondam aos desafios da própria governança.

Governos inspirados por ideias gerais sobre como conduzir os mais importantes assuntos de Estado — economia, segurança pública e defesa externa, educação e saúde da população, infraestrutura e relações exteriores — retiram de sua própria experiência governativa anterior (nos munícipios, nos estados, na esfera legislativa) as principais diretrizes a serem aplicadas num mandato determinado (em democracias, pela via eleitoral), ou então buscam sugestões com base em estudos técnicos disponíveis e em propostas que lhes são submetidas por homens de ideias, ditos ideólogos, do momento presente, ou de etapas anteriores da trajetória do país.

Ideias movem o mundo pretendem intelectuais, mas o mais exato é que ideias, teorias, programas de governo resultem de uma interação entre ideias puras, ou seja, conceitos ideais, e necessidades e constrangimentos extraídos da vida como ela é, o turbilhão de processos, iniciativas e reações vindas de agentes internos e externos, produtores, consumidores, reguladores, governos e empresas estrangeiras interagindo com seus parceiros nacionais, públicos e privados.

Na economia, que é o núcleo central, e o mais relevante polo das políticas governamentais, o Brasil atual é o resultado de uma colonização extratora, com quatro séculos de regime de trabalho escravocrata que moldou boa parte da sociedade, adentrando na própria independência, ao lado da marginalidade estrutural dos setores livres da população dedicados à atividade agrícola de abastecimento e todos os demais serviços urbanos, primeiro artesanais, depois numa atividade manufatureira-industrial.

A forte imigração desde o final do século XIX e início do XX, sofisticou serviços, comércio e indústria, ao lado do estabelecimento de instituições de ensino nos diversos níveis, mas sempre com atraso relativo em relação a países mais avançados e vis-à-vis as próprias necessidades da sociedade nacional, que passa por rápidos processos de urbanização e de democratização social ao longo do século XX.

Na segunda metade do século XX, o Brasil já tinha uma feição econômica, politica e educacional relativamente similar à que temos atualmente, mas enfrentou, ao lado da modernização dinâmica que continuou moldando a sociedade e o Estado, ciclos inflacionários e de descontrole nas contas públicas que consolidaram e praticamente congelaram os altos índices de concentração de renda e de iniquidade social que exibia tradicionalmente.

O Brasil é uma sociedade moderna, mas com um número excessivamente elevado de pobres e de miseráveis, resultado de estruturas oligárquicas que sempre se mantiveram estáveis, nos diferentes formatos assumidos ao longo do tempo. Governos social-democratas ou de esquerda nas últimas três décadas não lograram corrigir esse lado mais deplorável da sociedade brasileira, que é uma desigualdade estrutural resiliente às transformações na sua base econômica— inclusive um agro bastante moderno, que enterrou a agricultura atrasada que se arrastou até os anos 1980-90 — e no próprio substrato industrial, em serviços e nas instituições de ensino. A marginalidade social e a exclusão política persistem nas grandes cidades e no campo brasileiro.

Passemos agora ao panorama das ideias e das práticas no terreno da política externa e da diplomacia.

(A continuar)

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5456: 12 setembro 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/as-ideias-e-as-praticas-da-politica.html)

Monica De Bolle discute alguns aspectos competição eleitoral no tocante à política externa

Monica De Bolle discute alguns aspectos competição eleitoral no tocante à política externa:

"Política externa e a submissão ao governo Trump como o tema real das eleições

O que mais me preocupa, e venho dizendo isso há meses nestas lives, é a postura brasileira em relação à sua própria política externa e o que os candidatos à Presidência estão oferecendo nesse terreno, se é que estão oferecendo alguma coisa. Acompanhei, por alto, o discurso do presidente Lula neste 7 de setembro. Gostei em parte do conteúdo, mas faltam esclarecimentos e visões sobre política externa num mundo que muda muito rapidamente e diante de uma política americana extremamente hostil à América Latina e, para usar um termo de que não gosto, desenvergonhadamente imperialista.

Entendo que política externa é um tema difícil para o eleitorado. Mas, neste instante, não é tão complicado explicar às pessoas que o Brasil precisa ter entre suas lideranças gente capaz de tratar com os Estados Unidos com a devida altivez. Isso significa que não podemos ter na Presidência e em outros altos cargos da República pessoas que queiram ser submissas ao governo Trump. Isso será péssimo para o Brasil, e esse péssimo não tem ideologia: atingirá a todos, a população como um todo e o próprio empresariado. Como estamos vendo há pelo menos vinte meses, o governo americano não é um parceiro confiável. Não tem aliados, não tem amigos, e entra para fazer valer os seus interesses a qualquer custo. Sabemos que há candidatos à Presidência que vão querer submeter o Brasil aos Estados Unidos, e não haverá tratamento amigável para um Brasil submisso. O Brasil será tratado como capacho, sobretudo na economia. Portanto, estas eleições também são sobre a capacidade do Brasil de ditar suas próprias regras, formular suas próprias políticas e conduzir o país sem a ingerência de terceiros.
 

A Venezuela como Estado-fantoche e o uso dos instrumentos do Pentágono

Não é difícil olhar para o entorno da América Latina e ver o que está acontecendo. O Brasil não é a Venezuela e é completamente diferente dela. Mas o dito acordo que o governo Trump acabou de fazer com o governo que instalou na Venezuela — o governo chavista e madurista de Delcy Rodríguez e adjacências — submete o petróleo, recurso soberano de um país, aos Estados Unidos. Desde a remoção de Maduro em janeiro, a Venezuela tem um governo que continua não democrático, sem legitimidade e autoritário, e que hoje está completamente nas mãos de Trump e de seu entorno. A Venezuela é hoje um Estado-fantoche dos Estados Unidos, o que significa que o termo “venezuelização”, tão usado no passado para denotar cenários de domínio da “extrema esquerda”, tem hoje outra conotação. “Venezuelização”, hoje, significa ser laranja do Laranjão, ser marionete do octogenário truculento que ocupa a Casa Branca. Há um candidato nessa corrida que já fez de tudo para dizer a todos que seu objetivo é venezuelizar o Brasil. O nome dele é Flávio Bolsonaro.

“Venezuelização”, hoje, significa ser laranja do Laranjão, ser marionete do octogenário truculento que ocupa a Casa Branca.

Há um aspecto institucional dessa história do petróleo venezuelano que vale a pena registrar. O uso de instrumentos do Pentágono para pôr as mãos no petróleo alheio vem ocorrendo sem qualquer governança. Os mecanismos internos do Pentágono que vêm sendo usados foram definidos pelo Congresso americano para empréstimos, e não para a aquisição de participação acionária direta em projetos. Ou seja, o próprio uso desses mecanismos não está de conformidade com a governança dos Estados Unidos. Há eleições legislativas aqui em novembro e, caso os democratas recuperem uma participação maior na Câmara e talvez no Senado, deve haver muita controvérsia em torno disso. Nós não precisamos herdar esse tipo de problema, tampouco criá-lo para nós mesmos. Já estamos criando problemas de magnitude suficiente com a crise institucional pré-eleitoral que se avoluma a cada dia.
 

Serra Verde, terras raras e o objetivo militar do investimento americano

Estava hoje escrevendo um artigo sobre a Venezuela e sobre o acordo recém-firmado com a Serra Verde, a empresa de Goiás que opera a mina de Pela Ema e que é hoje a única empresa fora da Ásia a fazer, ainda em pequena escala, algum processamento e refino de elementos de terras raras. Os antigos acionistas e fundos de private equity venderam-na à USA Rare Earth, uma empresa privada norte-americana. O ponto que ainda não chegou ao Brasil, sobretudo àqueles que repudiam o papel do Estado na economia, é que o governo Trump é extremamente intervencionista. Ele faz exatamente o que os críticos da intervenção estatal condenam. O governo americano é hoje acionista de uma porção de empresas, no setor de minerais críticos e em diversos setores, inclusive no de inteligência artificial. No caso da USA Rare Earth, o governo americano detém entre 8% e 16% do capital. Logo, o governo Trump é acionista da Serra Verde.

Além disso, tal como fez na Venezuela, o Pentágono criou um veículo de propósito específico, um special purpose vehicle, para direcionar recursos à extração de terras raras em Goiás. Os depósitos de Pela Ema contêm precisamente os elementos mais pesados, usados nos ímãs com os quais se fabricam mísseis guiados e outros armamentos. O investimento do Pentágono nessa empreitada tem um objetivo militar, assim como o investimento do Pentágono no petróleo venezuelano. Não há depósitos significativos de terras raras nos Estados Unidos, e esses elementos são estratégicos tanto para a indústria de defesa quanto para a de tecnologia e para o desenvolvimento de inteligência artificial. É por isso que o Brasil tem hoje essa importância para os Estados Unidos: temos recursos que eles querem e precisam.

Nós temos a oportunidade, se assim quisermos, de desenvolver esses setores de forma mais bem pensada, com mais possibilidades de gerar empregos e desenvolvimento econômico daqui a alguns anos, porque esses projetos são de longo prazo. Para isso, precisamos de parcerias reais, com países cujos interesses e objetivos estejam alinhados aos nossos. Os objetivos do governo Trump nada têm a ver com os nossos, e não pensem que ele tem qualquer interesse em reconstruir a economia da Venezuela. A questão da soberania nacional, que agora todo mundo joga para lá e para cá sem discuti-la a fundo, está, de fato, posta nestas eleições. Esse tema não está sendo pautado com a devida urgência por ninguém.
 

O que é soberania econômica e o que parcerias exigem

Como economista, meu entendimento de soberania limita-se ao ponto de vista econômico. Soberania é a capacidade de um país fazer suas próprias escolhas de acordo com seus interesses e implementar suas diretrizes de política pública e econômica, sem a interferência de outra nação nesse processo. Há discussões muito mais amplas sobre soberania na literatura de relações internacionais.

É muito importante não confundir parcerias com perda de soberania. Se o Brasil quiser fazer acordos com a China, com os europeus, com os australianos ou com quem for para exploração, refino e processamento de recursos naturais, ótimo, desde que existam instituições e marcos regulatórios e legais que garantam que isso ocorra de acordo com as nossas leis e com o que queremos para o país. Com a presença de instituições minimamente sólidas, as parcerias não comprometem a soberania econômica, pelo contrário. O problema é que os Estados Unidos atuam hoje na América Latina com completo desprezo pelas leis e pelos marcos regulatórios dos países em questão. Vimos isso nas negociações comerciais de agosto, quando, antes dos novos tarifaços aplicados sob a Seção 301 do Trade Act de 1974, os Estados Unidos pediram ao Brasil coisas que o país não podia entregar sem violar suas próprias leis. Esse é o tipo de parceria que o governo Trump oferece. Fazer parceria sem marco institucional é simplesmente submeter-se às exigências desse governo, e o que tipicamente acontece na ausência de institucionalidade e governança é corrupção, história que nós conhecemos muito bem.

A ingerência não poupa países amigos dos Estados Unidos. Contei na live anterior, às férias, a propósito do artigo sobre o Mercosul que publiquei com Philip Yang, o caso de uma empresa argentina de fibra ótica que havia firmado um acordo com a Huawei. O embaixador americano na Argentina mandou uma mensagem de WhatsApp ao dirigente da empresa, dizendo que, caso o acordo não fosse desfeito, os vistos dos dirigentes seriam revogados. O visto para os Estados Unidos tornou-se mais um instrumento de coerção em matéria de soberania econômica. Qualquer movimentação dos Estados Unidos no nosso entorno, no Paraguai ou na Venezuela, é preocupante para nós, e nada disso está sendo feito às escondidas. É feito com base na truculência transparente, pois é assim que Trump opera.

Os Estados Unidos, que durante tantos anos quiseram exportar ao mundo seus modelos de governança e institucionalidade, resolveram dizer que não estão mais interessados em governança em lugar algum, inclusive em casa. Para países de instituições frágeis como o Brasil, isso cria uma situação praticamente sem precedentes: não há hoje nenhuma liderança no mundo defendendo regras e instituições como deveriam ser defendidas. Tenho dito aos meus colegas no Peterson Institute for International Economics que o que está acontecendo aqui é uma latino-americanização dos Estados Unidos. Nós, que já temos uma situação ruim, queremos mesmo piorá-la ficando submissos a isso?
 

O exemplo canadense e a organização dos exportadores de nióbio

O Canadá é a economia mais dependente dos Estados Unidos do planeta, mais do que o México, e, ainda assim, resolveu enfrentar o governo Trump. Não foi à toa. O Canadá tem muitos recursos naturais, e Trump começou o mandato, no início de 2025, dizendo que ia anexar o país. O que Trump diz tem de ser levado a sério. Os canadenses entendem que baixar a cabeça é um perde-perde na certa, e formaram um consenso político e social interno para o enfrentamento. As atitudes de Mark Carney na atual guerra comercial receberam apoio, inclusive, de adversários políticos, gente que tinha alguma simpatia pelo trumpismo antes de Trump começar a agredir o Canadá. O Brasil não precisa fazer exatamente o que o Canadá faz, porque os países e os interesses são diferentes, mas precisa de uma visão um pouco mais clara sobre si mesmo e sobre o que quer, e isso é para ontem.

No Brasil, não há consenso sobre nada, porque tudo é movido pelos interesses de cada um. Quando Philip Yang e eu propusemos a retaliação por meio de um imposto de exportação, as críticas vieram sobretudo de pessoas vinculadas a setores produtivos com interesses próprios. A partir do momento em que todo mundo tem agenda e defende sua própria posição, perde-se a noção de país. Poderíamos adotar outra atitude se tivéssemos uma consciência coletiva que transcendesse essas agendas privadas.

Durante as férias, lendo sobre o dia em que a equipe canadense interrompeu as negociações com a equipe americana, e pensando no artigo que Philip Yang, Robert Muggah e eu publicamos no The Hill Times, publicação muito lida por parlamentares canadenses, propondo que Brasil e Canadá unissem forças nesse enfrentamento, ocorreu-me que os dois países bem poderiam fundar a OPEN, a Organização dos Países Exportadores de Nióbio, nos moldes da OPEP. Brasil e Canadá detêm, juntos, a totalidade da produção global de nióbio. Com isso, a indústria de defesa dos Estados Unidos seria estrangulada. Claro que seria bem complicado do ponto de vista das reações americanas, mas é uma divagação praiana que não deixa de ser relevante para esta discussão.

(Em tempo, OPEN é a sigla em português. Em inglês, seria ONEC – Organization of Niobium-Producing Countries)."

Monica De Bolle, 10/09/2026

China and the Rule of Law - Leonidas Zelmanovitz, Law & Liberty (Liberty Fund)

China and the Rule of Law
Leonidas Zelmanovitz
2026, Law & Liberty
Liberty Fund, September 8, 2026

https://www.academia.edu/175255097/China_and_the_Rule_of_Law?email_work_card=view-paper

Abstract:
China's growth is not the result of command. China’s political system remains authoritarian. Yet in important economic domains, its reform era enlarged the space for spontaneous coordination.

Paper details
China_and_the_Rule_of_Law_LZZ_Sep0826.pdf
Property Rights, Comparative Political Economy, Knowledge Problem

Dr. Zelmanovitz has been under employment of Liberty Fund Inc, an Educational Foundation established in Indianapolis, Indiana, U.S. since September 2001, first as a visiting scholar, next, as the manager of their publishing programs in Portuguese and Spanish, and since January 2006, as a fellow. In 2016 he became a Senior Fellow. In the Fall of 2023, he got a temporary position as a Research Associate of the Bush School of Business of the Catholic University of America teaching economics; and in the Spring of 2024 he became a part-time Lecturer on Economics and Finance at Hillsdale College. Since his first attendance to a Liberty Fund colloquium in 1990, Dr. Zelmanovitz has participated in different capacities in more than two hundred colloquia. Predominantly, the conferences he has put together are academic ones, on law, money, finances, corporate governance, urban issues, and Latin-American economic and political history. He has also managed the edition of dozens of books. Before that, Dr. Zelmanovitz was a businessman in Brazil, while also volunteering in the classical liberal movement. After a career in law, public service, lobby, real estate development, both as an entrepreneur and as an executive, his last activity in that capacity was at a financial company called Mercúrio D.T.V.M. S.A. specialized in raising capital in capital markets to fund real estate investments in Brazil. He founded the company in 1994, and was its CEO until the company was sold to another financial group in 2001. Dr. Zelmanovitz has a Law degree earned in 1982 from the Federal University in Porto Alegre, Brazil, a Master degree in Austrian Economics earned in January 2010 from the Universidad Rey Juan Carlos in Madrid, Spain, and a PhD in Economics earned in December 2011 from the same university. Dr. Zelmanovitz many academic articles and book chapters on monetary and capital theory may be found through Academia.edu and Researchgate.net. In 2016, Rowman & Littlefield, in the United States, published his book “The Ontology and Function of Money.” Union Editorial published a Spanish edition of that book in 2018 in Spain. Dr. Zelmanovitz’s second book, on “The Representational Theory of Capital” was published also by Rowman & Littlefield in 2021. Dr. Zelmanovitz was born in Brazil in 1961; he is married, and has a son and a daughter.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Uma nova cúpula do BRICS+: estou aguardando uma nova declaração lacunar, capciosa, mentirosa - Paulo Roberto de Almeida

 

O Brasil participa da cúpula do BRICS+ na Índia, como informado na nota do Itamaraty, reproduzida abaixo. Estou aguardando uma nova Declaração tão lacunar, capciosa e mentirosa como a de 2025, cúpula no RJ, que analisei no ano passado, postagem novamente feita hoje, às vésperas da cúpula de Nova Delhi: 
 
Do PRA, 11/09/2026:
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Exame circunstanciado da Declaração do Brics de 2025 - Paulo Roberto de Almeida 
 
 
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Do Itamaraty:
"NOTA À IMPRENSA Nº 290
Cúpula de Líderes do BRICS - Nova Delhi, 12 e 13 de setembro de 2026
Publicado em 10/09/2026 11h53
O Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, representará o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Cúpula de Líderes do BRICS, em Nova Delhi, nos dias 12 e 13 de setembro. A Cúpula concluirá a presidência indiana do BRICS.
Durante os dois dias de evento, o Ministro Mauro Vieira participará de duas sessões de trabalho. Na tarde do dia 12, em sessão restrita aos países membros do BRICS, os líderes debaterão o tema “Governança Global Inclusiva e Fortalecimento do Multilateralismo”. A segunda sessão, no dia 13, contará com a participação dos países membros, dos 10 países parceiros e dos 16 países convidados que integram o chamado “segmento ampliado”. O tema será “Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade: Moldando o Futuro para um Crescimento Global Inclusivo”.
Em um cenário internacional marcado por conflitos armados, pela crise do multilateralismo e por profundos desequilíbrios econômicos e na arquitetura de governança global, o BRICS apresenta-se como foro central para a articulação de posições conjuntas entre países em desenvolvimento, com vistas à construção de uma ordem global mais justa e inclusiva."

A Convenção contra a Corrupção da OCDE e um ministro corrupto da Suprema Corte do Brasil - Vladimir Aras, Paulo Roberto de Almeida

As decisões monocráticas delituosas de certo personagem que NUNCA poderia ter sido aceito para a Suprema Corte do país.

 
Nota preliminar: Vladimir Aras foi meu aluno no mestrado do Uniceub e fui eu quem, como chefe da Divisão de Política Financeira e Desenvolvimento do Itamaraty, providenciou para que o Brasil aderisse à Convenção Anticorrupção da OCDE, em 1997, mesmo sem que o Brasil fosse parte da OCDE. PRA 

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Vladimir Aras 🇧🇷. (Dr. Direito, Prof. UnB, IDP, Procurador Federal)
@VladimirAras
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10 de set 2026
CASO ODEBRECHT

Em setembro de 2023, o ministro Dias Toffoli, do STF, tomou uma decisão inusitada.

Monocraticamente e com base em informações incorretas passadas pelo governo, ele anulou todas as provas obtidas por meio de acordo de leniência no caso Odebrecht. Essas provas estavam no exterior, na Suíça e na Suécia.

Agora, 30 organizações da sociedade civil de 21 países enviaram uma carta ao Grupo de Trabalho sobre Suborno da OCDE (WGB) no 3º aniversário dessa decisão.

A carta das ONGs destaca que a decisão monocrática de Toffoli barrou a cooperação com autoridades estrangeiras, beneficiando indevidamente ao menos 28 pessoas ou empresas de 8 países, inclusive ex-presidentes peruanos.

As entidades globais anticorrupção pedem ao WGB que, como órgão de monitoramento da Convenção, solicite ao STF o julgamento pelo plenário dos três recursos pendentes, interpostos pela PGR, pela ANPR e pelo MPSP.

Pedem também que o WGB consulte os Estados membros da OCDE sobre impactos dessa morosidade em casos em curso.

Por fim, solicitam que o WGB recomende a continuidade de investigações baseadas nos HDs da Odebrecht, podendo os Estados valer-se de cooperação com países que possam oferecer provas oriundas de fontes independentes (como a Suíça).

Embora o Brasil não seja parte da OCDE, nosso País é membro do WGB, por haver ratificado a Convenção Anticorrupção de 1997 (OECD Anti-Bribery Convention).

 

Apenas uma reflexão sobre o grave momento que vivemos - Paulo Roberto de Almeida

Apenas uma reflexão sobre o grave momento que vivemos
Paulo Roberto de Almeida

A política brasileira em geral, mas também os três poderes da República, vivem atualmente uma grave crise MORAL, e também um IMPASSE INSTITUCIONAL, uma vez que a corrupção, a venalidade, a mentira e a desfaçatez, todas essas más qualidades de simples mortais, PENETRARAM as instituições e a própria prática da política, a da sua execução (o Executivo), da sua legalidade republicana (o Parlamento) e a do julgamento de eventuais crimes (o Judiciário), o que faz com que tudo isso e todas essas instituições da República encontram-se, e se revelam CONTAMINADAS por práticas delituosas, algumas já reveladas, outras ainda não. Daí muitas dúvidas, sinceras algumas, oportunistas e rasteiras, outras.

Em consequência, nós, simples observadores, pessoas civis, ou seja, as pessoas que assistem, que participam do processo como eleitores que são, assistimos, alguns estupefatos, outros incrédulos, outros assustados, a todo esse espetáculo deplorável de uma FALÊNCIA MORAL da nossa "Quinta República" (talvez mais), reagimos como simples cidadãos que somos, mas também como seres pensantes que somos, alguns mais à esquerda, outros à direita, muitos centristas ou moderados, ou apenas indiferentes ao mundo da política, cuidando dos nossos afazeres, mas AFETADOS por todos os agentes públicos que atuam nos três poderes e nos órgãos de controle e de segurança pública, todos somos levados a expressar a nossa opinião sobre essa CONFUSÃO GERAL que se instalou no país, e que ATINGE O VOTO de cada um de nós ao sermos chamados para a urna no começo de outubro, de maneira definitiva para os cargos representativos, ou de maneira provisória, em previsão do segundo turno, para cargos executivos (presidente e governadores).

Como simples observador da vida pública, mas também como ser pensante, modestamente participante, como emissor de opiniões pessoais sobre a política, a economia e as relações exteriores do Brasil, também estou imerso no espetáculo deplorável que se oferece todos os dias aos nossos olhos, e preocupado com os destinos do país, de nossos filhos e netos, com a imagem do país na comunidade internacional, sou levado a refletir essa realidade em meus canais de comunicação social (como assinante de certos meios oferecidos por entidades privadas da área, como administrador de um blog pessoal, o Diplomatizzando), com inevitáveis lapsos de informação, e com julgamentos pessoais, escolhas políticas, opções MORAIS, no que posso acertar ou me equivocar nos julgamentos e opiniões.

Tenho de tomar partido, escolher quem, quais serão os eleitos como Executivos (no país ou num estado) ou Representantes nos corpos legislativos, nacional ou estadual, para o próximo período subsequente às eleições de outubro (geralmente por quatro anos, 2027-2030, senadores por oito anos, o que acho um exagero).

As "ofertas" que temos não são as ideais, algumas no domínio do continuísmo, outras como "novidade", mas praticamente todas marcadas por graves deficiências morais, políticas ou até criminosas (até julgamento), algumas, poucas, como esperança de uma melhor condução dos assuntos públicos. Não tenho muita ilusão de que o Brasil vai melhorar dramaticamente nos próximos anos, naquilo que conta: o bem-estar dos simples cidadãos na vida diária, especialmente os mais modestos e necessitados de ajuda, a estabilidade e a prosperidade na vida econômica e financeira de cada um, a credibilidade e a correção da postura do país na comunidade internacional, vale dizer, a qualidade da nossa política externa e da nossa diplomacia (o que me concerne pessoalmente). Sem ilusão, portanto, creio que vamos ter de escolher aquelas figuras, aqueles candidatos que possam trazer, acarretar, produzir o MÍNIMO de prejuízos para a nação em todas essas esferas da vida.

Isso é triste de se reconhecer, de afirmar, pois significa que as opções são todas muito limitadas, uma vez que os candidatos são muitos, e neles, com eles, suas respectivas qualidades, ou falta delas, podem ser duvidosas ou até mentirosas. O que fazer? Não tenho nenhuma recomendação especial, nominal, a fazer, apenas o uso de minha inteligência e informação, nenhum interesse pessoal, tão somente o uso do tirocínio pessoal para escolher – considero a abstenção uma renúncia ineficiente – os candidatos que se aproximam de certos princípios morais e políticos que julgarmos os mais qualificados, ou os menos danosos para a continuidade da democracia de qualidade em nosso país.

Esta é apenas uma mensagem reflexiva. Talvez eu volte com algum pronunciamento mais engajado (já tenho opinião formada sobre vários candidatos), ou apenas formulando sugestões de escolhas bem informadas, numa escala de prioridades que julgo relevantes na vida nacional. Apenas antecipando: sou contra mentirosos e falsificadores de suas próprias "qualidades", contra os vendidos e cúmplices da venalidade, da soberania nacional e dos preceitos simplesmente republicanos, não tenho partido ou religião (usada muitas vezes de maneira sórdida), tenho apenas a consciência de que nossas escolhas são provisórias, até que a crise, as CRISES que nos abatem atualmente sejam resolvidas da melhor forma possível, do que tenho enormes dúvidas.

O Brasil caminha para as eleições mais dramáticas de sua história, não tanto pela falta de informação, mas por informações deformadas pelos próprios impasses que nos atingem atualmente. Temos menos de um mês para refletir e escolher, sabendo que essa escolha vai se refletir em nossas vidas nos próximos anos, para alguns um futuro já curto, para outros uma esperança relativamente duvidosa.

Espero poder contribuir para um futuro melhor, com os meios de que disponho, com a inteligência formada no estudo e na experiência de vida.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de setembro de 2026

O economista Marcelo Guterman passa um pito irônico no econonmista Felipe Salto

 

Sem alarmismo

O economista Felipe Salto reclama do “alarmismo” de certos analistas econômicos, que estariam inflando artificialmente as taxas de juros. Como se os traders do mercado fossem crianças assustadiças, que se impressionam com histórias de bicho-papão. A narrativa, e não os fatos, seria a culpada pelo nível de taxa de juros. Patético.

Sem nomear ninguém especificamente, Salto acusa alguém indeterminado de espalhar que o Estado brasileiro caminha para a insolvência. “Diz-se” e “afirma-se” são os tempos verbais usados. Trata-se do velho truque de eleger um falso espantalho para vencer uma discussão que não está sendo travada. Desafio Salto a indicar um analista sério que esteja falando de insolvência. O que se fala sim é que a trajetória da dívida é insustentável, e que a saída mais provável, se nada for feito, será um surto inflacionário que “queime” a dívida. Daí o prêmio de risco nos juros, que nada mais é do que um seguro contra a inflação. Se houvesse realmente receio de um calote, não haveria taxa de juros suficiente para a colocação da dívida. 

Não Salto, não é o “alarmismo” que provoca as altas taxas de juros. É o justo oposto: são as altas taxas de juros que provocam o acionamento dos alarmes nas mesas de operações. E o que provoca as altas taxas de juros? A possibilidade de reeleição de um governo que “não vê problema” na alta dívida pública e no déficit primário, é isso que provoca as altas taxas de juros.

Salto acusa analistas genéricos de causarem pânico com suas “avaliações catastrofistas, descoladas da realidade”, ao invés de “colaborar com a construção de saídas inteligentes”. Vamos aqui deixar de lado a contradição em termos de um raciocínio que, a um só tempo afirma que “não temos um problema” e “precisamos construir uma solução para o problema”. Vou apenas constatar a sabujice do economista, que exige dos analistas uma colaboração com o governo, naquilo que o governo que ele sempre apoiou jamais foi capaz de entregar. Ora, quem tem que aparecer com “saídas inteligentes” é o governo, não os analistas. É o governo que tem a responsabilidade política de resolver os problemas. Os analistas não fazem parte do governo, ainda que Salto desejasse muito.

Como nota final, a bandeira do aumento da meta de inflação, abraçada por Salto e outros economistas ligados ao governo, é também um dos fatores que pressionam as taxas de juros. Os agentes do mercado não são idiotas, e vendo essa discussão crescer, já colocam no preço dos ativos a perspectiva de uma inflação estruturalmente mais alta no futuro. Salto, portanto, colabora para que tenhamos taxas de juros mais altas. Sem alarmismo.

Blog do Marcelo Guterman é uma publicação apoiada pelos leitores.

Exame circunstanciado da Declaração do Brics de 2025 - Paulo Roberto de Almeida

Procedi a pequenas observações contraditórias sobre as posições contraditórias do BRICS em sua reunião de 2025. Vale mais o que não é dito do que o que é dito: 

Destaques curiosos da Declaração do Rio de Janeiro do Brics+, 2025

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Ressaltando certas afirmações incongruentes da dita declaração, com pequenas observações contrarianistas.

 

Parto da “Declaração do Rio de Janeiro” da reunião de cúpula do Brics+, emitida em 6 de julho de 2025, apenas destacando o que me pareceu mais curioso dentre as dezenas de afirmações, promessas, compromissos do referido documento. Minhas observações seguem em meio ao texto, entre colchetes, ou ao final de cada frase destacada, sempre em itálico, atendendo à sua numeração. Três quintos, talvez mais, dos 126 parágrafos da declaração, cobrem todos os campos possíveis da cooperação internacional, bilateral, plurilateral, regional, multilateral e setorial, esgotando todas as possibilidades humanas e sociais, no mais perfeito mundo ideal dos sonhos de todos os internacionalistas, globalizadores e promotores do bem-estar coletivo e da felicidade geral dos povos. Vários deles contêm muita hipocrisia, ou mentiras flagrantes, como a tentativa de obscurecer a responsabilidade primordial da Rússia de Putin pelas ameaças à paz e a segurança internacionais, facilmente detectáveis pelas lacunas mais flagrantes dessa super-declaração, da qual vou destacar apenas as contradições mais chocantes.

 

 

[0. Título: “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global...”

PRA: Curioso que Rússia e China estejam incluídas no Sul Global, cujos contornos geográficos e convergência de propósitos são altamente incertos.]

 

2. Reafirmamos nosso compromisso com o espírito do BRICS de respeito e compreensão mútuos, igualdade soberana, solidariedade, democracia, abertura, inclusão, colaboração e consenso. (...) aprimorar nossa parceria estratégica em benefício de nossos povos por meio da promoção da paz, ...

PRA: Vou destacar tão somente os conceitos mais eloquentemente bizarros, em função da realidade da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia.

 

5. (...) reafirmamos nosso compromisso com o multilateralismo e a defesa do direito internacional, incluindo os Propósitos e Princípios consagrados na Carta das Nações Unidas (ONU), em sua totalidade e interconexão como seu alicerce indispensável, e o papel central da ONU no sistema internacional, (...) assegurar a promoção e a proteção da democracia, dos direitos humanos e liberdades fundamentais para todos, bem como da cooperação baseada na solidariedade, no respeito mútuo, na justiça e na igualdade. ...

PRA: Tudo isso seria válido se não fosse por uma única realidade: a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia.

 

6. (...) apoio às aspirações do Brasil e da Índia de desempenhar um papel mais relevante nas Nações Unidas, incluindo o seu Conselho de Segurança.

PRA: Isso foi tudo o que Rússia e China, que se opõem, como os demais membros do CSNU, a essa acessão ao CSNU, consentiram em afirmar, hipocritamente, como se estivessem fazendo uma concessão ao Brasil e à Índia, sabendo que nada será concretizado.

 

7. (...) reiteramos nosso compromisso em dotar as Nações Unidas com todo o suporte necessário para cumprir seu mandato.

PRA: Como se pode ver, é o que a Rússia vem fazendo desde que Putin assumiu o poder, mas tudo ao contrário.

 

8. ... Destacamos a importância do Sul Global como motor de mudanças positivas, especialmente diante de significativos desafios internacionais, incluindo o agravamento das tensões geopolíticas, ... Acreditamos que os países do BRICS continuam a desempenhar um papel central na ... promoção de uma ordem internacional mais justa, sustentável, inclusiva, representativa e estável, com base no direito internacional.

PRA: Não poderia ser mais contrário às realidades.

 

9. Recordando que 2025 marca o octogésimo aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial..., manifestamos nosso pleno apoio [às] Nações Unidas, concebida para proteger as gerações futuras do flagelo da guerra.

PRA: Apoio inclusive da Rússia?

 

13. O sistema multilateral de comércio está há muito tempo em uma encruzilhada. A proliferação de ações restritivas ao comércio, seja na forma de aumento indiscriminado de tarifas e de medidas não-tarifárias, seja na forma de protecionismo sob o disfarce de objetivos ambientais, ameaça reduzir ainda mais o comércio global, interromper as cadeias de suprimentos globais e introduzir incerteza nas atividades econômicas e comerciais internacionais, potencialmente exacerbando as disparidades econômicas existentes e afetando as perspectivas de desenvolvimento econômico global. Expressamos sérias preocupações com o aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais que distorcem o comércio e são inconsistentes com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Nesse contexto, reiteramos nosso apoio a um sistema multilateral de comércio baseado em regras, aberto, transparente, justo, inclusivo, equitativo, não discriminatório e consensual, com a OMC em seu núcleo, com tratamento especial e diferenciado (TED) para seus membros em desenvolvimento.

PRA: Por uma vez, uma declaração absolutamente correta, inclusive porque o grande culpado é o presidente atual dos EUA.

 

14. Condenamos a imposição de medidas coercitivas unilaterais contrárias ao direito internacional ... Reafirmamos que os estados-membros do BRICS não impõem nem apoiam sanções não autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU.

PRA: Cabe registrar que as sanções introduzidas por um punhado de países amantes do Direito Internacional, contra a Rússia, em virtude de sua guerra de agressão à Ucrânia, ilegal, portanto, são plenamente consistentes com a letra e o espírito da Carta das Nações Unidas, e respondem a um de seus artigos relativos ao apoio a ser prestado POR TODOS OS MEMBROS, à parte agredida.

 

16. Reconhecemos que a Inteligência Artificial (IA) representa uma oportunidade singular para impulsionar o desenvolvimento rumo a um futuro mais próspero. (...) Para apoiar um debate construtivo em direção a uma abordagem mais equilibrada, lançamos a Declaração dos Líderes do BRICS sobre Governança Global da Inteligência Artificial, que visa a promover o desenvolvimento, a implantação e o uso responsáveis de tecnologias de IA para o desenvolvimento sustentável e o crescimento inclusivo ... e respeitando a soberania dos estados.

PRA: O vezo intrusivo, intervencionista e regulatório por via estatal combina com as políticas nacionais da maior parte dos Brics+, se não for de todos. Imaginemos que na primeira revolução industrial a Inglaterra tivesse decidido regular o uso e aplicação das caldeiras a vapor e tecnologias correlatas, ou que só o Estado inglês pudesse investir em ferrovias e locomotivas a carvão.

 

18. Notamos o atual contexto global de polarização e desconfiança e encorajamos ação global para fortalecer a paz e a segurança internacionais. Conclamamos a comunidade internacional a responder a esses desafios e às ameaças à segurança associadas por meio de medidas político-diplomáticas para reduzir o potencial de conflitos e enfatizamos a necessidade de engajamento em esforços de prevenção de conflitos, inclusive por meio do enfrentamento de suas causas profundas.

PRA: Parte da comunidade internacional já está respondendo aos desafios, ajudando a Ucrânia a se defender de uma grave ameaça cuja “causa profunda” à sua segurança provém da agressão russa unilateral. Registre-se que a expressão “causas profundas” é uma exigência russa na declaração, querendo sinalizar que só atacou a Ucrânia porque a “causa profunda” era uma suposta ameaça ucraniana ou da Otan à sua segurança.

 

19. ... Condenamos veementemente todas as violações do direito internacional humanitário, incluindo ataques deliberados contra civis e bens de caráter civil, incluindo infraestrutura civil, bem como a negação ou obstrução do acesso humanitário e o direcionamento de ataques contra o pessoal humanitário. Ressaltamos a necessidade de assegurar a responsabilização por todas as violações do direito internacional humanitário.

PRA: Puxa! Quanta preocupação com o direito humanitário. Os Brics já registraram onde são perpetradas as piores violações a esse direito atualmente? Por que esconder os exemplos mais “veementes”?

 

21. Condenamos os ataques militares contra a República Islâmica do Irã desde 13 de junho de 2025, que constituem uma violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, e expressamos profunda preocupação com a subsequente escalada da situação de segurança no Oriente Médio. Expressamos ainda séria preocupação com os ataques deliberados contra infraestruturas civis e instalações nucleares pacíficas sob totais salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em violação ao direito internacional e a resoluções pertinentes da AIEA.

PRA: A seletividade dos Brics é um caso estarrecedor: nenhuma palavra a respeito dos ataques militares contra a República da Ucrânia, inclusive sítios nucleares.

 

22. Recordamos nossas posições nacionais em relação ao conflito na Ucrânia, expressas nos fóruns apropriados, incluindo o CSNU e a AGNU.

PRA:Posições nacionais” é um escape para a Rússia sequer admitir que atacou a Ucrânia unilateralmente.

 

34. Expressamos nossa firme condenação a quaisquer atos de terrorismo, considerados criminosos e injustificáveis, independentemente de sua motivação, quando, onde e por quem quer que os tenha cometido. (...) Reafirmamos nosso compromisso com o combate ao terrorismo em todas as suas formas e manifestações, incluindo o movimento transfronteiriço de terroristas, o financiamento do terrorismo e os locais de refúgio para terroristas.

PRA: Aparentemente, os ataques diários da Rússia contra alvos civis na Ucrânia não são considerados pelos Brics como atos de terrorismo.

 

35. Condenamos nos termos mais fortes os ataques contra pontes e infraestrutura ferroviária que visaram deliberadamente civis nas regiões de Bryansk, Kursk e Voronezh, na Federação Russa, em 31 de maio e 1º e 5 de junho de 2025, resultando em várias vítimas civis, incluindo crianças.

PRA: Neste parágrafo, os Brics chegaram ao limite da desfaçatez vergonhosa e da seletividade imoral, ademais de registrarem uma mentira deslavada. A Ucrânia tem atingido basicamente alvos militares, ao contrário da Rússia, atacando deliberadamente hospitais, escolas e creches. Como diplomata brasileiro sinto vergonha pelo fato da delegacão do Brasil ter consentido num parágrafo vergonhoso como esse.

 

38. Expressamos preocupação com os crescentes riscos de perigo e conflito nuclear.

PRA: Parece incrível que nenhum dos Brics tenha registrado as constantes, reiteradas ameaças de recurso à arma nuclear na guerra de agressão à Ucrânia, direta e expressamente feitas pelo próprio Putin e seu presidente de conveniência.

 

42. Saudamos os resultados alcançados pela “Estratégia para a Parceria Econômica do BRICS 2025”.

PRA: Não existem resultados nessa área até o momento, apenas declarações de intenções e expressão de desejos. Não existe nenhum acordo de liberalização comercial, ou acordos de proteção de investimentos entre os países membros.

 

45. À medida que o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) se prepara para embarcar em sua segunda década de ouro de desenvolvimento de alta qualidade, reconhecemos e apoiamos seu crescente papel como um agente robusto e estratégico de desenvolvimento e modernização no Sul Global. (...) Apoiamos plenamente a liderança da Presidente Dilma Rousseff, cuja recondução recebeu forte apoio de todos os membros...

PRA: O NDB é apenas mais um banco de fomento, como existem vários no mundo, e com processos de avaliação de projetos muito técnicos e seguros com respeito à análise de custos e benefícios. Se o banco dos Brics for leniente na análise dos projetos, apenas para prover recursos aos países membros sem o devido rigor técnico, pode-se antecipar futuras inadimplências e crises de endividamento, como já registrado no passado em outras esferas.

 

49. Saudamos o foco do Mecanismo de Cooperação Interbancária do BRICS (ICM em inglês) em facilitar e expandir práticas financeiras inovadoras e abordagens para projetos e programas, incluindo a busca por mecanismos de financiamento em moedas locais aceitáveis. Saudamos o diálogo contínuo entre o ICM e o NDB.

PRA: Persiste entre os Brics, especialmente provocada pelo presidente Lula, essa ideia artificial – pois que apenas politicamente sustentada – de substituir o dólar nas transações internacionais, começando pelos próprios Brics, num desconhecimento total do funcionamento do sistema multilateral de pagamentos, e dos interesses dos comerciantes privados de adotarem os meios mais eficientes e baratos. Não é o caso, atualmente, de nenhuma das moedas nacionais do Brics, menos ainda de um novo instrumento criado politicamente para tal finalidade, sem considerar custos e desvantagens associadas a um novo meio de pagamento sem sustentação em bases econômicas reais.

 

53. Saudamos o progresso em relação ao Arranjo Contingente de Reservas (CRA em inglês), incluindo o consenso alcançado pela equipe técnica sobre a revisão do tratado e regulações.

PRA: Se o CRA é mera cópia dos mecanismos existentes no FMI ele é redundante; se ele for mais permissivo, pode estimular maiores posições de risco e possível esgotamento dos recursos em algum momento do futuro.

 

55. Saudamos a iniciativa da presidência brasileira de lançar o Seminário do BRICS sobre Compras Governamentais Sustentáveis como uma plataforma para troca de conhecimentos e cooperação Sul-Sul.

PRA: Parece mais um outro nome para a continuidade de reservas de mercado nacionais, ou seja, custos mais altos e ineficiências.

 

65. Notamos que altos níveis de endividamento de alguns países reduzem a margem fiscal necessária para enfrentar desafios atuais ao desenvolvimento, agravados por efeitos de transbordamento de choques externos, particularmente de oscilações em políticas financeiras e monetárias em algumas economias avançadas, assim como os problemas inerentes à arquitetura financeira internacional.

PRA: Nenhuma potência financeira internacional, ou órgão financeiro multilateral, empurrou qualquer um dos países membros, e outros, a altos níveis de endividamento, que resulta de um comprometimento soberano com empréstimos externos excessivos.

 

70. Enfatizamos a importância de assegurar a segurança alimentar e nutricional, bem como de mitigar os impactos da volatilidade aguda dos preços dos alimentos e de crises abruptas de abastecimento, incluindo a escassez de fertilizantes.

PRA: Uma das principais ameaças à segurança alimentar no mundo foi (ainda é) a iniciativa russa de bloquear a exportação de grãos a partir dos portos do Mar Negro. Sobre isso, a declaração do Brics não tem nada a dizer.

 

 

126. Estendemos total apoio à Índia em sua presidência do BRICS em 2026 e na realização da XVIII Cúpula do BRICS na Índia.

PRA: Boa sorte! Trump talvez ainda esteja desvairado nos tarifaços contra os Brics.

 

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 13 julho 2025, 5 p.

Disponível Academia.edu (link: https://www.academia.edu/136882058/4988_Destaques_curiosos_da_Declaracao_do_Rio_de_Janeiro_do_Brics_2025); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/07/4988-destaques-curiosos-da-declaracao.html).

 

 

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