Apenas uma reflexão sobre o grave momento que vivemos
Paulo Roberto de Almeida
A política brasileira em geral, mas também os três poderes da República, vivem atualmente uma grave crise MORAL, e também um IMPASSE INSTITUCIONAL, uma vez que a corrupção, a venalidade, a mentira e a desfaçatez, todas essas más qualidades de simples mortais, PENETRARAM as instituições e a própria prática da política, a da sua execução (o Executivo), da sua legalidade republicana (o Parlamento) e a do julgamento de eventuais crimes (o Judiciário), o que faz com que tudo isso e todas essas instituições da República encontram-se, e se revelam CONTAMINADAS por práticas delituosas, algumas já reveladas, outras ainda não. Daí muitas dúvidas, sinceras algumas, oportunistas e rasteiras, outras.
Em consequência, nós, simples observadores, pessoas civis, ou seja, as pessoas que assistem, que participam do processo como eleitores que são, assistimos, alguns estupefatos, outros incrédulos, outros assustados, a todo esse espetáculo deplorável de uma FALÊNCIA MORAL da nossa "Quinta República" (talvez mais), reagimos como simples cidadãos que somos, mas também como seres pensantes que somos, alguns mais à esquerda, outros à direita, muitos centristas ou moderados, ou apenas indiferentes ao mundo da política, cuidando dos nossos afazeres, mas AFETADOS por todos os agentes públicos que atuam nos três poderes e nos órgãos de controle e de segurança pública, todos somos levados a expressar a nossa opinião sobre essa CONFUSÃO GERAL que se instalou no país, e que ATINGE O VOTO de cada um de nós ao sermos chamados para a urna no começo de outubro, de maneira definitiva para os cargos representativos, ou de maneira provisória, em previsão do segundo turno, para cargos executivos (presidente e governadores).
Como simples observador da vida pública, mas também como ser pensante, modestamente participante, como emissor de opiniões pessoais sobre a política, a economia e as relações exteriores do Brasil, também estou imerso no espetáculo deplorável que se oferece todos os dias aos nossos olhos, e preocupado com os destinos do país, de nossos filhos e netos, com a imagem do país na comunidade internacional, sou levado a refletir essa realidade em meus canais de comunicação social (como assinante de certos meios oferecidos por entidades privadas da área, como administrador de um blog pessoal, o Diplomatizzando), com inevitáveis lapsos de informação, e com julgamentos pessoais, escolhas políticas, opções MORAIS, no que posso acertar ou me equivocar nos julgamentos e opiniões.
Tenho de tomar partido, escolher quem, quais serão os eleitos como Executivos (no país ou num estado) ou Representantes nos corpos legislativos, nacional ou estadual, para o próximo período subsequente às eleições de outubro (geralmente por quatro anos, 2027-2030, senadores por oito anos, o que acho um exagero).
As "ofertas" que temos não são as ideais, algumas no domínio do continuísmo, outras como "novidade", mas praticamente todas marcadas por graves deficiências morais, políticas ou até criminosas (até julgamento), algumas, poucas, como esperança de uma melhor condução dos assuntos públicos. Não tenho muita ilusão de que o Brasil vai melhorar dramaticamente nos próximos anos, naquilo que conta: o bem-estar dos simples cidadãos na vida diária, especialmente os mais modestos e necessitados de ajuda, a estabilidade e a prosperidade na vida econômica e financeira de cada um, a credibilidade e a correção da postura do país na comunidade internacional, vale dizer, a qualidade da nossa política externa e da nossa diplomacia (o que me concerne pessoalmente). Sem ilusão, portanto, creio que vamos ter de escolher aquelas figuras, aqueles candidatos que possam trazer, acarretar, produzir o MÍNIMO de prejuízos para a nação em todas essas esferas da vida.
Isso é triste de se reconhecer, de afirmar, pois significa que as opções são todas muito limitadas, uma vez que os candidatos são muitos, e neles, com eles, suas respectivas qualidades, ou falta delas, podem ser duvidosas ou até mentirosas. O que fazer? Não tenho nenhuma recomendação especial, nominal, a fazer, apenas o uso de minha inteligência e informação, nenhum interesse pessoal, tão somente o uso do tirocínio pessoal para escolher – considero a abstenção uma renúncia ineficiente – os candidatos que se aproximam de certos princípios morais e políticos que julgarmos os mais qualificados, ou os menos danosos para a continuidade da democracia de qualidade em nosso país.
Esta é apenas uma mensagem reflexiva. Talvez eu volte com algum pronunciamento mais engajado (já tenho opinião formada sobre vários candidatos), ou apenas formulando sugestões de escolhas bem informadas, numa escala de prioridades que julgo relevantes na vida nacional. Apenas antecipando: sou contra mentirosos e falsificadores de suas próprias "qualidades", contra os vendidos e cúmplices da venalidade, da soberania nacional e dos preceitos simplesmente republicanos, não tenho partido ou religião (usada muitas vezes de maneira sórdida), tenho apenas a consciência de que nossas escolhas são provisórias, até que a crise, as CRISES que nos abatem atualmente sejam resolvidas da melhor forma possível, do que tenho enormes dúvidas.
O Brasil caminha para as eleições mais dramáticas de sua história, não tanto pela falta de informação, mas por informações deformadas pelos próprios impasses que nos atingem atualmente. Temos menos de um mês para refletir e escolher, sabendo que essa escolha vai se refletir em nossas vidas nos próximos anos, para alguns um futuro já curto, para outros uma esperança relativamente duvidosa.
Espero poder contribuir para um futuro melhor, com os meios de que disponho, com a inteligência formada no estudo e na experiência de vida.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de setembro de 2026
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Apenas uma reflexão sobre o grave momento que vivemos - Paulo Roberto de Almeida
quarta-feira, 11 de outubro de 2023
Uma nova ópera dos três vinténs na Argentina - Paulo Roberto de Almeida
Um libreto porteño, sem qualidades
Paulo Roberto de Almeida
“Argentinos aceleram compra de dólares; para Milei, peso não vale nem um “excremento”.”
A Argentina se prepara atabalhoadamente para um salto no escruro. Quem tem dólares é a classe média, que ainda sobrevive. A imensa maioria da população não os tem, e vai ficar muito mais pobre com um governo Milei, que seria o caos completo.
Para o Brasil seria o fim do Mercosul e da possibilidade de qualquer liderança na América do Sul, menos ainda no diáfano Sul Global. Um fracasso partilhado com muitos outros vizinhos.
Para os argentinos, seria o labirinto do Minotauro sem qualquer fio de Ariadne.
Já se pode chorar antecipadamente pela Argentina, mas isso não vale nem um ópera de três vinténs.
Brasília, 11/10/2023
quinta-feira, 21 de setembro de 2023
Voltamos aos tempos da “clausura de los rios”? Argentinua continua se achando dona do pedaço…
Um dos conflitos do Prata, no Império, foi justamente causado pela ação argentina de tentar controlar os afluentes do Rio da Prata. Voltamos a isso?
quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
Kossovo: Brasil, com o BRICS, não reconhece a sua independência - GZero Signal Newsletter
GZero Signal Newsletter, Dec 27, 2022
Kosovo crisis escalates
Serbia has placed its military on high alert amid rising tensions between ethnic Serbs and the government in neighboring Albanian-majority Kosovo. Meanwhile, ongoing protests on Wednesday prompted Kosovo to shut its main border crossing with Serbia. The center of the action is the ethnically divided town of Mitrovica, in northern Kosovo. Earlier this year, Serbs there refused to adopt Kosovo license plates and set up barricades to keep Kosovar authorities out of their areas. In recent weeks, things have gotten worse with more roadblocks and exchanges of gunfire between Mitrovica Serbs and local police. Kosovo’s government says Serbia, with backing from its friends in Moscow, is deliberately stirring up trouble in the country. Belgrade says it’s merely protecting its ethnic kin across the border. The background? Serbs consider Kosovo their historical heartland, but for centuries the region has been populated chiefly by Albanians who consider it home. In 2008, Kosovo declared independence from Serbia after surviving a brutal 1998-1999 assault by Belgrade. The US and most Western European countries recognize that independence, but a number of countries, including Brazil, China, India, and Russia, do not. The EU has, as usual, called for an elusive calm. No one in Belgrade or Mitrovica seems to be listening.
domingo, 6 de fevereiro de 2022
Ucrânia-Rússia-OTAN: desenvolvimentos da crise e a opinião de George Kennan em 1997 (CNN)
Was the Ukraine crisis tragic and unnecessary?

Does Vladimir Putin have a point?
The underlying cause of the Ukraine crisis is the Russian President’s belief that NATO, by expanding into former Warsaw Pact states in Eastern Europeafter the Cold War, is threatening the security of its old enemy Russia. As well as seeking a guarantee that Ukraine will never join the Western alliance, Putin wants NATO to pull troops and weapons out of states like Poland and Romania that were once behind the Iron Curtain. President Joe Biden has refused such demands since they would shatter the alliance’s core purpose, appease Russian aggression and desert nations that embraced democracy after decades under Soviet repression. He ordered US troops to both Poland and Romania last week.
Putin is right that NATO moved east after the Cold War, in a way that may almost have been guaranteed to anger Moscow. The bloc's assurances that it is a defensive alliance get no hearing in the Kremlin. Had Russia transformed into a western-style European democracy, this wouldn’t have been an issue. But starry-eyed optimists who held such hopes in the 1990s were always disregarding lessons of the country’s scorched-earth political history.
So did NATO’s triumphalism and stampede over Russian pride pave the way for where we are now? It was always a possibility that a future strongman in the Kremlin would use NATO expansion to spark a foreign policy crisis and as a nationalistic tool for his own legitimacy as Putin has done. George Kennan,the diplomat who in the 1940s coined the core US containment policy against an expansionist Soviet Union, predicted exactly this scenario after the Clinton administration decided to go ahead with NATO expansion.
“That the Russians will not react wisely and moderately to this decision of NATO to expand its boundaries to the Russian frontiers is clear,” Kennan wrote in his diary on January 4, 1997. He predicted a “strong militarization” of Russian politics and claims by Russia that it was an innocent victim of foreign aggressors. He predicted Moscow would seek to unite Iran and China to form an anti-Western bloc. “Thus will develop a wholly and even tragically unnecessary division between East & West and in effect a renewal of the Cold War," he wrote.
Twenty-five years later, the final plank of Kennan’s warning fell into place as Putin clinched a new strategic friendship Friday between China and Russia in his Olympian summit with President Xi Jinping in Beijing.
The case for NATO expansion

But what would have happened had NATO not expanded?
President Bill Clinton told historian Taylor Branch for his contemporary taped oral history of his administration that he spent a 1994 trip to Europe dancing between Russian fears of NATO expansion and NATO’s fear of Russia. He said then-German Chancellor Helmut Kohl worried about the possibility of Russian influence on the eastern border of his newly unified nation and also about the threat of authoritarianism in newly liberated post-Soviet Eastern Europe. Clinton also presciently noted that Poland’s move west would leave Ukraine isolated.
Critics of NATO expansion must also answer the question of why nations that had been suppressed, ruled by outsiders and even been wiped off the map at times, should not grasp the freedom denied them even before Soviet domination? And would a vacuum in Eastern Europe have already caused a resurgent, imperial Russia to move west once more and again threaten European democracies?
Biden’s actions have reaffirmed a 70-year American commitment to Western European security. US power allowed market democracies in Poland, the Czech Republic and the Baltics to grow and thrive, despite some political backsliding in recent years. But Putin also knows that US commitment is not a given in the long term. In a speech in Poland in 2017, then-President Donald Trump implied that the West was more threatened by the weakening of white culture and tradition through waves of outside immigration than it was by the Kremlin. His far-right populism and vision of national sovereignty is closer to Putin’s worldview than the traditional US creed. A new Trump presidency, should he run again in 2024, would raise new doubts about NATO’s purpose and his own affinity for Putin. Already, pro-Trump Republican senators are questioning Biden’s dispatch of more troops to Europe.
With all this in mind, the current standoff is hardly remarkable. It’s perhaps surprising that all the post-Cold War forces that have precipitated the crisis took so long to hit boiling point.
Ukraine’s plight is part of a broader crisis. It's about whether individual nations have the chance to choose their own political destiny or whether they must live in the sphere of influence of a greater, hostile power. And whether the US still has the stomach to serve as Europe’s security guarantor nearly a century after the political madness that caused World War II and forged the modern world.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2021
Erdogan, o sultão está nu, dizem seus opositores - Anthony Faiola (The Washington Post)
Um antigo correspondente na América Latina se ataca a um típico ditador latino-americano, com a peculiaridade dele ser turco...
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segunda-feira, 8 de novembro de 2021
A crise energética no Brasil e no mundo: entrevista de Paulo Roberto de Almeida ao jornal A União, da Paraíba
Na semana passada, dei uma entrevista ao jornalista Luiz Carlos Nascimento Sousa, do jornal A União, da Paraíba, sobre crise energética no Brasil e no mundo. Acabo de receber um arquivo pdf do jornal, com minha entrevista resumida, publicada neste domingo 7 de novembro de 2021.
Reproduzo apenas as partes que interessam ao tema selecionado pelo jornalista que tratou apenas de energia, mas nem tudo o que eu disse foi integrado nesta seleção.
Paulo Roberto de Almeida
sexta-feira, 5 de novembro de 2021
O multilateralismo em crise - Ngaire Woods
The Telegraph, Londres – 5.11.2021
Is Multilateralism a Fig Leaf?
International organizations must manage a constant tension between the interests of their most powerful member states and those of the rest. Three factors – leadership, effective internal processes, and transparency – are crucial to managing these strains.
Ngaire Woods
Oxford - International organizations are currently plagued by allegations of powerful states wielding undue influence over outcomes. These include recent revelations about Australia, Japan, Saudi Arabia, and other countries pushing back against the United Nations on climate change, suggestions that senior World Bank officials intervened to boost China’s ranking in the Bank’s Doing Business index, and suspicions that China influenced the World Health Organization’s approach to the COVID-19 pandemic.
Underlying all these controversies is the simple reality that powerful countries exert great influence over multilateral organizations. But their clout does not render multilateralism impossible. Rather, it is a force that must be actively managed and counterbalanced.
The undue influence of some countries in multilateral institutions is of course not new, but the shifting global balance of power has brought it back into focus. For example, the recent Doing Business fracas prompted arguments implying that otherwise technocratic and evidence-based institutions such as the World Bank were at risk of being led by managers too attentive to China’s concerns. As Anne Krueger writes, “Like Caesar’s wife, IMF and World Bank leaders must be well above suspicion in overseeing these institutions’ work and safeguarding the integrity of the data on which that work relies.”
But history tells a different story. The United States has long dominated the World Bank, in both its formal and informal governance. In the 1960s, it was said that the US hardly needed to exercise its formal powers over the organization, because its staff worked with one eye constantly trained on the preferences of the US government, a few blocks away in the center of Washington, DC. As the historian Catherine Gwin noted, “The result was a strong and enduring American imprint on all aspects of the Bank, including its structure, general policy direction, and the manner of granting loans.”
The US government has typically channeled its preferences through the World Bank’s senior management. In 2006, an independent panel commissioned by the Bank to evaluate its research criticized the way in which “research was used to proselytize on behalf of Bank policy, often without taking a balanced view of the evidence, and without expressing appropriate skepticism.” Moreover, “[i]nternal research that was favorable to Bank positions was given great prominence, and unfavorable research ignored.” The panel lamented that, “when the Bank leadership selectively appeals to relatively new and untested research as hard evidence that its preferred policies work, it lends unwarranted confidence to the Bank’s prescriptions.”
Other powerful countries also exercise influence over international organizations’ senior management and staff. In the International Monetary Fund’s 2014 surveillance review, for example, staff noted the “additional internal pressure and scrutiny associated with surveillance of systemic economies.” And in a background paper on evenhandedness for the review, nearly 60% of IMF mission-chief respondents who worked on advanced economies acknowledged “pressure to dilute the candor of staff reports in order to avoid upsetting the country authorities.”
But international organizations need the backing of powerful countries in order to be effective, and they have historically secured that backing by giving these countries special rights. For example, whereas the US stayed out of the League of Nations in the 1920s, it was persuaded to join the UN, the IMF, and the World Bank after World War II. This was not least because the US gained a say over these organizations’ leadership, hosted their headquarters, and had outsize decision-making power (a veto in the UN Security Council and weighted voting power in the IMF and World Bank). China’s leading position within the Asian Infrastructure Investment Bank today reflects similar considerations.
At the same time, powerful countries must accept some constraints in order to persuade and co-opt others to participate in multilateral institutions. For this reason, strong states create organizations that give votes to other states, with formal decision-making arrangements that (however weakly) limit their power to decide unilaterally what the institution does.
The result is a constant constructive tension between the interests of the most powerful and those of everyone else. Three factors are crucial to managing the inevitable strains.
First, leadership is vital. The role of any multilateral institution’s leader includes not only “speaking truth to power,” but also mobilizing smaller countries to ensure their voices are heard in counteracting the influence of the powerful. Yet, such offsetting influence will be muted as long as powerful states control the appointment and reappointment of organizations’ senior leadership – as the US and the European Union(and increasingly China) do at the World Bank and the IMF. As matters stand, the heads of these institutions are implicitly accountable to the leading powers.
Second, in principle, formal governance arrangements guaranteeing the representation of all members, rules about staffing and funding, and decision-making processes permit all member states to hold an institution to account. But the effective operation of such mechanisms requires attention, information, and experience. Currently, too many countries are represented in multilateral institutions by officials who serve brief terms and have little access to information. This makes them easy to outmaneuver. Less powerful countries need to train and equip their representatives appropriately to serve on the boards of international organizations, so that they can hold their own and constrain the undue influence of the more powerful.
Lastly, transparency is crucial. The trend toward open evaluations conducted by independent evaluation offices, and the increased publicity surrounding efforts by some countries to influence international organizations, are uncomfortable for all participants, but they are vital in the pursuit of effective cooperation.
Given today’s heightened geopolitical tensions, complaints about some countries’ supposedly excessive sway in multilateral institutions may become more frequent. More accountable leadership, effective representation, and transparency are the best tools for counteracting, detecting, and mitigating it.(P.S.)
Ngaire Woods is Dean of the Blavatnik School of Government at the University of Oxford.
domingo, 24 de outubro de 2021
Cidades fantasmas? Aldeias Potenkim? Assim é EverGrande
Jurong, la ville chinoise dans laquelle « personne n’habite »
Assis autour de petites tables rondes, les agents immobiliers d’Evergrande passent le temps : certains discutent, cigarette aux lèvres, quand d’autres sont penchés sur leurs smartphones. Derrière sa façade de fausses maisons à colombages, style conte de fées, la grande salle d’exposition du promoteur immobilier le plus endetté du monde compte bien quelques clients, mais ils sont venus régler des problèmes administratifs.
Hu Cui, la trentaine, tailleur bleu, tend une série de contrats à une femme un peu plus âgée à lunettes rondes. La cliente, venue signer, fait grise mine : il y a un an, elle a payé la totalité de son appartement un peu plus de 9 000 yuans (environ 1 212 euros) du mètre carré. Maintenant, Evergrande brade certains appartements du même complexe à 6 000 yuans le mètre carré… « Mais, même à ce prix-là, personne n’en veut », précise l’agent immobilier. L’appartement de cette cliente devait être livré en mai. Mais les ouvriers ont déserté les dizaines d’immeubles en construction qui jouxtent un gigantesque projet de parc d’attractions, à Jurong, une petite ville à l’est de Nankin, dans le Jiangsu.
Etranglé par une dette équivalant à 260 milliards d’euros, le promoteur Evergrande est aux abois depuis deux mois. Vendredi 22 octobre, le groupe a évité de peu le défaut de paiement formel en payant in extremis 83,5 millions de dollars (environ 71,2 millions d’euros) à des investisseurs étrangers, après avoir manqué une échéance un mois plus tôt.
(…)
Artigo reservado aos assinantes…
quarta-feira, 31 de março de 2021
Ditadura militar: nota zero em democracia, e zero também em economia - Felippe Hermes
Não há pontos positivos na ditadura – nem mesmo a economia no período
Período marca o início de um intervencionismo sem fim, responsável por produzir a ilusão, que reina até hoje, de que gerou evolução ao país, ao menos no campo econômico
Poucas coisas são tão definidoras do estado de confusão permanente que é o Brasil quanto o prédio situado na Avenida República do Chile número 65. É ali, no centro do Rio de Janeiro que situa a sede da Petrobras.
Eleito um dos prédios mais feios do mundo em votação popular, a sede disfuncional, que aparenta faltar pedaços, tal qual o Brasil, o prédio é a primeira grande obra da Odebrecht fora da Bahia, e que a catapultou como uma das maiores construtoras do país. O ano de construção é sintomático, 1969, o 5º do regime militar, também o ano em que a ditadura “endureceu”.
Assim como o crescimento das torturas e perseguições políticas do regime militar, que saltaram de pouco de 100 em 1968 para mais de 700 em 1969, após a promulgação do AI-5 (O 5º dos 17 Atos Institucionais da ditadura e que ampliava os poderes do presidente fechando o congresso), o período marca o início de um intervencionismo sem fim, responsável por produzir a ilusão, que reina até hoje, de que gerou evolução ao país, ao menos no campo econômico.
A política definida por Delfim Neto, o mais jovem e poderoso ministro da Fazenda que o Brasil já teve, como “fazer o bolo crescer para depois dividir”, é também sintomática, como as obras fraudadas que levaram nossas empreiteiras a despontarem no Brasil e no mundo.
Para Delfim, o crescimento econômico era uma soma de dois fatores: capital e trabalho, e por capital, leia-se, máquinas e equipamentos. Não passava pela cabeça do ministro, como jamais passou pela cabeça de qualquer assessor econômico em qualquer regime ditatorial, que o capital pudesse ter outra forma que não vultosas somas de recursos definidas em Brasília.
Durante o período da ditadura, nossa educação patinou com média de tempo de escolaridade de 2,4 anos para homens no início e 2,6 ao final dos anos 70. A média é cerca de ⅓ da atual, na ainda sucateada educação brasileira. Sem grandes avanços na educação, também não há qualquer notícia de que o povo tenha sido chamado para definir o crescimento do país. Não há grandes empreendedores na época fora do círculo do poder, há obras e mais obras, muitas delas, o suficiente para alimentar e engordar um cartel inteiro de empreiteiras.
O chamado milagre econômico, o período no qual chegamos a crescer 14% em um ano, desprezava a criatividade do empreendedor brasileiro e o investimento em educação. Durante o período os gastos com educação diminuíram de 7,8% para 5% do PIB.
No mesmo período, apenas para ficarmos em um exemplo, o Brasil viu a Coreia do Sul saltar de menos da metade do nosso PIB per capita para uma riqueza média 50% maior do que a nossa, em um processo fortemente calcado em educação.
Com o mundo em plena Guerra Fria, linhas de crédito eram uma maneira segura de manter próximos países em desenvolvimento, e foi ali que baseamos nosso crescimento. Usando o cartão de crédito para reformar a casa. Durante o período de 1975 a 1983 apenas, os Estados Unidos colocaram US$ 315 bilhões em empréstimos para a América Latina (US$ 1,57 trilhão em valores atuais), ou cerca de 50% do PIB da região.
No Brasil, nossa dívida externa saltou de US$ 3 bilhões para US$ 102,7 bilhões, ou 53,4% do PIB. Se mantida a proporção sobre nossa economia, a dívida herdada da ditadura equivaleria a US$ 1,1 trilhão. Para lhe situar melhor, nossa dívida hoje está em R$ 4,45 trilhões, ou US$ 870 bilhões em uma conversão nominal.
Em suma, terminamos o regime militar devendo até a alma, e chegamos a 1985 prestes a declarar moratória, pedindo “arrego” aos bancos internacionais (fato que ocorreu em 1987). Por ano o país gastava US$ 11 bilhões apenas em juros (números de 1982), o equivalente a 6% de toda a riqueza produzida no Brasil.
O resultado que seguiu a essa explosão de endividamento tem um nome marcante, importado do México, que passava por problemas similares, resumidos como “Década perdida”.
Os anos 80 foram bem mais que uma série de tentativas frustradas de conter a inflação durante a presidência de um proeminente político da ditadura, agora travestido de civil, José Sarney. Passamos anos, ao menos 9 para sermos mais precisos, lutando para controlar a inflação herdada do regime militar.
Nos tornamos graças à leniência do período o país com maior inflação da história do ocidente sem termos passado por uma guerra civil.
Como mostraram Simonsen e Cysne, a inflação era parte do orçamento da união, como um imposto escondido e cobrado justamente dos mais pobres. Não por um acaso o período ficou conhecido como um grande arrocho salarial. Não apenas Delfim alegava que os mais pobres deveriam esperar o bolo crescer para então dividir, como também acaba por arrematar parte dos salários dos mais pobres. Entre 1964 e 1985, o salário médio caiu de R$ 1024 para R$ 620 em valores de hoje.
Nos tornamos um dos países mais desiguais do planeta, com uma elevada concentração de renda, tudo para permitir um milagre de crescimento que alimentava uma elite industrial. E aqui, cabe um pequeno parênteses. Se você é um liberal, ou conservador, daqueles que admira Thatcher, não tente enganar a si mesmo dizendo que “desigualdade não importa, o que importa é a pobreza”. A desigualdade que fez Bill Gates o homem mais rico do mundo após criar um sistema adotado por bilhões de seres humanos e torná-los mais produtivos, não é a mesma desigualdade criada para alimentar a Odebrecht ou Camargo Corrêa. Essa, além da desigualdade também gera pobreza.
Nem só de roubar os mais pobres via inflação e endividar o país vinha o crescimento brasileiro do “milagre econômico” porém. Durante o período, o êxodo rural foi fortemente incentivado. Talvez não seja tão simples enxergar onde entra o crescimento nisso, mas imagine que você pegue hoje um trabalhador rural do Crato, no Ceará, e o coloque para operar um trabalho manual na Siderúrgica do Pecém, também no Ceará. Se na zona rural este trabalhador produzia R$3 mil/ano, na siderúrgica, com o capital acumulado e o ganho de eficiência da indústria, este trabalhador irá produzir R$50 mil (em valores abstratos, claro).
Nosso ganho demográfico também colaborou e muito, para gerar este crescimento. Como qualquer ditadura, não houve incentivos para o aumento produtividade, fator essencial para o crescimento de longo prazo. Desde os anos 70 nossa produtividade segue na mesma, sem qualquer sinal de que vá melhorar.
Outro fato legado pelo êxodo rural, além das mortes no campo, foi um aumento na criminalidade das cidades, inchadas e sem qualquer planejamento. Em São Paulo por exemplo, os homicídios subiram de 6 por 100 mil habitantes para 35 por 100 mil entre 1960 e 1985.
Se você ainda tem dúvidas de que a desigualdade não era acidental, mas um projeto, foque nos números. Durante o período os 5% mais ricos da população aumentaram sua participação na renda nacional em 9,6% do PIB, enquanto os 80% mais pobres perderam 9,3%.
Também naquela época o funcionalismo público ganhava destaque. Em algumas estatais, como a Eletrobras, a prática de distribuir lucros mesmo quando havia prejuízo já existia – prática revertida apenas em 2019, conforme esclarecimento prestado pela assessoria da empresa*-, e muitos funcionários recebiam até 17 salários por ano.
Como escreveu o jornalista Ricardo Kotscho em 1976, época em que a censura começou a diminuir, ministros contavam com até 28 empregados em casa, gastos com aluguel, energia, água e telefonia arcados pela união, e claro, voavam em jatinhos da FAB. Os que não tinham cargos tão relevantes para utilizar aviões da FAB, podiam sempre requisitar lugares em aviões da Varig, a Viação Aérea Rio-Grandense, empresa símbolo do regime e que contava com monopólio bem assegurado pelo regime.
Assim como o crédito e o endividamento das famílias, que crescia 23% ao ano entre 74-79, época do “milagre”, o número de estatais se multiplicava. Foram 247 ao longo dos 21 anos da ditadura, cerca de 1 nova estatal todo mês.
Durante o período país mantinha a lei de nacionalização do petróleo criada por Vargas e que impedia investimentos privados no setor, o que só foi derrubado em 1997. Apesar disso, a Petrobras mantinha-se pouco atuante. Nos tornamos dependentes de importação do petróleo, que representava 40% da matriz energética brasileira, e dependia de importação para suprir 81% da demanda, contra 51% no início do regime militar.
A bomba armada pelo peso do Estado na regulação e pela atuação nula para expandir a produção, foram cruciais para deixar o país vulnerável durante o choque do petróleo. Sob um dirigismo estatal, lançamos o pró-álcool para tentar amenizar, mas o fato é que mesmo este era um movimento que monopolizava as decisões em Brasília.
Sem tribunais de controle externo e com a censura instaurada na imprensa, a corrupção ficava debaixo do tapete. Para as viúvas da ditadura, os militares morreram pobres, para os fatos, além das inúmeras benesses pagas até hoje, muitos foram os que enriqueceram graças ao festival de obras públicas.
Voltando ao caso da Odebrecht, a empreiteira baiana era uma mera construtora regional durante as grandes obras de Juscelino Kubitschek, e só foi se tornar relevante durante o regime militar, não apenas com a já citada sede da Petrobras, como também pela construção de duas obras cruciais do regime: o aeroporto do galeão e a usina nuclear de Angra dos Reis.
Anos mais tarde, a empresa levaria a construção de Angra II e III, sem licitação, parte do processo que levaria Emílio Odebrecht a depor em uma CPI no senado, em 1979, sobre denúncias de desvios de verba. O resumo da CPI, que terminou abafada, você confere aqui.
Para um país de democracia frágil como o Brasil, acostumados ao descontentamento com a classe política, a história pode parecer um refúgio, em especial quando reescrita. Prezar pela verdade dos fatos e evitar romancear eventos como as ditaduras brasileiras (não apenas o regime militar, mas também o ainda aclamado Getúlio Vargas), é uma maneira de garantirmos que o futuro não repetirá erros do passado.
Não há atalhos para o desenvolvimento e para construir um país justo e próspero para toda sua população. Trata-se de um caminho longo, que deve, em essência, partir da criatividade e empreendedorismo de seus indivíduos, jamais do autoritarismo de alguns.
*Correção – ao contrário do afirmado anteriormente no texto, que apontava que a Eletrobras pagava PLR mesmo quando havia prejuízo, a companhia informou, através de sua assessoria, que houve mudança nas práticas a partir de 2019.
Confira a seguir: “Informamos que a Participação nos Lucros ou Resultados (PLR) da Eletrobras era paga, até 2019, de forma proporcional ao alcance dos indicadores econômico-financeiros e operacionais, o que permitiu em algumas ocasiões distribuir a parcela referente ao alcance dos resultados operacionais mesmo em situação de prejuízo. Porém, diferente do que aponta a reportagem, em linha com as melhores práticas de mercado e em consonância com o contexto atual, a prática vigente de PLR na Eletrobras, já pactuada inclusive com os sindicatos, prevê que só pode haver pagamento de PLR aos empregados no caso de a companhia apresentar lucro. Logo, em caso de prejuízo, nenhum valor é desembolsado.”
Felippe Hermes
Felippe Hermes é jornalista e co-fundador do Spotniks.com
Postagem em destaque
Os trabalhos de Paulo Roberto de Almeida mais citados em Academia.edu nos 30 dias passados
Os trabalhos de Paulo Roberto de Almeida mais citados em Academia.edu nos 30 dias passados Link: https://www.academia.edu...
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