Mudança à força: entrevista de Paulo Roberto de Almeida para Revista Crusoé
Tinha até esquecido desta entrevista. Alguém acessou-a em minha página na plataforma Academia.edu, e assim pude recuperá-la de um esquecimento involuntário.
Mudança
à força: entrevista com Paulo Roberto de Almeida
Eduardo Teixeira
Revista Crusoé, edição 164, 18/06/2021
Um dos principais críticos da interferência petista e bolsonarista no
Itamaraty, o embaixador Paulo Roberto Almeida diz que as correções de
rumo na diplomacia brasileira só devem acontecer no atual governo por
pressão externa Eduardo Teixeira Crusoé, 18/06/2021 O diplomata Paulo
Roberto Almeida, de 71 anos, é conhecido por sempre dizer o que pensa.
Por causa disso, levou diversos puxões de orelha e teve a carreira
prejudicada. Na era petista, foi acusado de ser "neoliberal" e foi
relegado ao que, entre os diplomatas, é conhecido informalmente como o
DEC, departamento de escadas e corredores. Passou treze anos e meio sem
ocupar um cargo. Em 2016, no breve governo de Michel Temer, foi
reabilitado e assumiu a direção do Instituto de Pesquisa de Relações
Internacionais, o Ipri, vinculado ao Itamaraty.
(...)
Neste link de Academia.edu:
https://www.academia.edu/49299957/Mudanca_a_for%C3%A7a_entrevista_de_Paulo_Roberto_de_Almeida_para_Revista_Crusoe
Nota PRA 19/03/2026: Apenas uma parte pequena dessa entrevista, no site da revista Crusoé, está disponível, mas o conteúdo inteiro está reservado aos assinantes da revista. Em todo caso, deixo aqui o registro total deste trabalho, que resumiu minha entrevista ao jornalista Duda Teixeira, dileto amigo. Mais abaixo, transcrevo o conteúdo, tal como preservei na ocasião.
3930. “Sobre a política externa e a diplomacia brasileira: uma
entrevista”, Brasília, 16 junho 2021, 14 p. Respostas a questões do jornalista Duda Teixeira,
em formato de entrevista para a revista Crusoé sobre temas de diplomacia e de
política externa, seguida de entrevista oral, combinando os dois formatos em
matéria publicada na seção “Entrevista da Semana” da Revista Crusoé
(edição 164, 18/06/2021; link: https://crusoe.com.br/edicoes/164/mudanca-a-forca/0). Sobre a política externa e a diplomacia brasileira, disponível na plataforma
Academia.edu (link: https://www.academia.edu/49299957/MudancaaforçaentrevistadePauloRobertodeAlmeidaparaRevistaCrusoe). Parte relativa aos
militares, divulgada de forma independente, sob o título de “Existe algum risco
de golpe miliar no Brasil? Não, embora o capitão gostaria que ocorresse”, no
blog Diplomatizzando (18/06/2021; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2021/06/existe-algum-risco-de-golpe-militar-no.html). Relação de Publicados n. 1406.

Mudança à força
Um dos principais críticos da
interferência petista e bolsonarista no Itamaraty, o embaixador Paulo Roberto
Almeida diz que as correções de rumo na diplomacia brasileira só devem
acontecer no atual governo por pressão externa
Eduardo Teixeira
Crusoé, 18/06/2021
O diplomata Paulo Roberto Almeida, de
71 anos, é conhecido por sempre dizer o que pensa. Por causa disso, levou
diversos puxões de orelha e teve a carreira prejudicada. Na era petista, foi
acusado de ser “neoliberal” e foi relegado ao que, entre os diplomatas, é
conhecido informalmente como o DEC, departamento de escadas e corredores.
Passou treze anos e meio sem ocupar um cargo. Em 2016, no breve governo de
Michel Temer, foi reabilitado e assumiu a direção do Instituto de Pesquisa de
Relações Internacionais, o Ipri, vinculado ao Itamaraty. Três anos depois, já
no governo de Jair Bolsonaro, foi exonerado do posto após publicar em seu blog
textos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do embaixador Rubens
Ricupero e do ex-ministro Ernesto Araújo, discutindo a Venezuela. Os posts
irritaram os bolsonaristas, que não gostaram de ver tucanos criticando o atual
governo.
Almeida foi então transferido para a
Divisão de Arquivos, no segundo subsolo do Itamaraty, onde não há wifi nem
sinal de celular. “Enquanto os petistas não me colocaram em lugar algum, os
bolsonaristas quiseram me humilhar”, diz o embaixador. Mesmo assim, ele não se
intimidou e, desde 2019, publicou cinco livros. O último deles, Apogeu e
Demolição da Política Externa, acaba de seguir para a última revisão.
O diplomata avalia que a nomeação de
Carlos França para o cargo de chanceler melhorou o clima internamente. Como
França consulta os colegas e segue os processos decisórios normais, as chances
de erros diminuem. Contudo, Almeida afirma que ainda paira sobre o Itamaraty a
influência de Jair Bolsonaro, seus filhos e assessores, o que pode resultar em
constrangimentos – um exemplo é a indicação do ex-senador e ex-prefeito do Rio
Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal, para a embaixada na África do Sul.
“Isso demonstra, mais uma vez, que o presidente não hesita em tomar atitudes
que prejudicam a imagem e os interesses do Brasil quando se trata de defender
seus interesses eleitoreiros”, diz. Eis a entrevista.
Que avaliação o sr. faz da gestão de
Carlos França, substituto de Ernesto Araújo no cargo de ministro das Relações
Exteriores?
A chegada dele foi um alívio. A
personalidade de França é o inverso da do Ernesto Araújo, que era rejeitado
quase que unanimemente pelos profissionais. França sempre foi um excelente
diplomata, com um trabalho impecável. É reconhecido pelo seu jeito afável e
pela sua cordialidade sincera. Tem um modo de ser transparente, simples e
modesto. Apenas a sua chegada já representou uma melhoria de 200% na gestão dos
assuntos internos do Itamaraty. Além disso, ele retomou o processo decisório, o
que é muito bom.
Como?
Isso acontece em todo lugar, nas
empresas, nas organizações. Os funcionários de cada área, que estão na base,
fazem relatórios em suas áreas de especialização. Essas informações sobem pela
hierarquia até chegar à cúpula, onde as decisões são tomadas. No Itamaraty,
quando se trata de algo muito importante, o assunto vai parar na Presidência da
República. No governo militar, que tinha uma estrutura muito rígida, com
planejamento e metas, eu era uma dessas pessoas trabalhando na base, em
assuntos específicos. Quando o papa João Paulo II foi escolhido, em 1978, eu
fiz um longo memorando sobre o que isso significava. O texto foi muito elogiado
e possivelmente foi para a Presidência. Sempre tínhamos de produzir esses
textos. Quando o balé Bolshoi, da Rússia, vinha para o Brasil, os militares
sempre achavam que vinha um monte de espião comunista, e nós precisávamos
escrever sobre aquilo. Algumas vezes, os relatórios de três ou quatro páginas
voltavam com a rubrica “de acordo”, o que significava que o Itamaraty tinha
feito uma exposição para o presidente, que tinha concordado com o conteúdo. Em
outros momentos, vinha com a orientação para consultar outros ministérios. Foi
assim com o Ernesto Geisel, com o Figueiredo. Foi assim também com o Fernando
Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique. Uma mudança aconteceu com Lula. Em
seu governo, ele pediu para que o Itamaraty mostrasse relatórios mais breves,
com no máximo uma página.
E como era com o Ernesto Araújo?
Araújo tomava decisões trancado em seu
gabinete, sem consultar diplomatas ou ler qualquer coisa. Despachava de um
bunker, auxiliado apenas pelo deputado Eduardo Bolsonaro, pelo Filipe Martins,
assessor de assuntos internacionais da Presidência, e pelo Olavo de Carvalho.
As notas que o Araújo soltava nada tinham a ver com a tradição do Itamaraty.
Nenhum diplomata seria capaz de escrever aqueles absurdos. Os textos não faziam
nenhuma referência ao direito internacional e traziam uma linguagem estropiada,
com português mal escrito.
O que acontece quando não se respeita
esses processos?
O risco maior é tomar decisões que vão
contra os interesses nacionais. Uma delas foi o anúncio de transferir a
embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Isso seria desastroso para o
agronegócio brasileiro. Se o governo tivesse deixado a empresa chinesa Huawei
de fora do leilão de tecnologia 5G, a China teria imposto retaliações maciças
ao Brasil. Os processos decisórios também são importantes na elaboração dos
discursos oficiais, como aqueles que são feitos em foros internacionais. O
embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, que é sogro do Ernesto Araújo, fez um
livro, em três tomos, sobre as posições do Brasil na ONU. Há 70 anos, o Brasil
inaugura as sessões da Assembleia Geral, o que foi uma forma de compensar o
país por não ter entrado no Conselho de Segurança. Esses discursos mostram como
o Brasil tradicionalmente pensa em diversos temas. Está tudo ali. Há uma
unidade muito clara. Mas provavelmente não haverá uma quarta edição. O primeiro
discurso de Bolsonaro na ONU em setembro de 2019 foi muito estranho, e o
segundo foi um pouco menos ruim. Faltou consultar os demais diplomatas.
Na prática, algo já mudou na diplomacia
brasileira?
Acho que as mudanças ainda estão por
vir. Elas devem chegar principalmente como resultado de pressão externa, que
pode vir do agronegócio, do Senado, das empresas, da opinião pública ou de
outros países. Não necessariamente virão da vontade do presidente e dos seus
assessores. Por enquanto, olhando para algumas votações em Genebra, na área de
direitos humanos, ainda não voltamos ao padrão anterior. Permanece aquela visão
contra o aborto da Damares Alves (ministra da Mulher, da Família e dos Direitos
Humanos). É uma visão ainda desconfiada de temas que possam levar a direitos da
mulher e a direitos reprodutivos. O evento mais recente, ainda não resolvido, é
essa indicação absolutamente estranha do bispo Marcelo Crivella, da Igreja
Universal do Reino de Deus, para ser o embaixador na África do Sul. Na verdade,
o assunto dele é Angola, onde há pendências entre as autoridades locais e sua
instituição religiosa. Sabe-se que há muita lavagem de dinheiro com destino à
África do Sul. Isso foi revelado porque um dos brasileiros que trabalhavam em
Luanda teve um acidente na estrada. A polícia encontrou 60 milhões de dólares
no seu automóvel. Então, é comum que carros atravessem a Namíbia levando
dinheiro para a África do Sul. Claro, o Crivella gostaria que o governo desse
uma cobertura total para os negócios da Universal. Ele não poderia ir para
Angola, porque há uma pendência judicial contra ele. Então Bolsonaro fez algo
muito estranho, que é designar um bispo que não pode sair do Brasil, que foi
preso em dezembro, para ser o embaixador na África do Sul, onde ele poderia
atuar. Mas a África do Sul é a base financeira dos negócios de lavagem de
dinheiro na África, que envia dinheiro para paraísos fiscais. Seria muito
estranho ter um embaixador não do Brasil, mas da Igreja Universal, na África do
Sul.
Acredita que a indicação pode ser
aprovada pelo Senado?
Acho pouco provável. A Comissão de
Relações Exteriores do Senado vai achar muito estranha essa designação. Mesmo
assim, seria preciso aguardar a aceitação do país africano. Se acontecer, seria
muito complicado para o Brasil. Crivella poderia se envolver nos negócios
africanos da Universal, com o potencial de gerar novos escândalos. Isso
demonstra, mais uma vez, que o presidente não hesita em tomar atitudes que
prejudicam a imagem e os interesses do Brasil quando se trata de defender seus
interesses eleitoreiros. A candidatura para a OCDE (o clube dos país mais ricos
do mundo), por exemplo, poderia ser prejudicada porque ela exige cooperação nas
operações contra lavagem de dinheiro e contra a corrupção.
Ainda soa estranho um político ser
indicado para um cargo em embaixada?
A diplomacia petista estreou com a
indicação de pessoas de fora da carreira diplomática. Lembro do caso do Tilden
Santiago. Ele era formado em jornalismo e filosofia, e foi um dos fundadores do
Partido dos Trabalhadores. Santiago tentou uma candidatura ao Senado por Minas
Gerais em 2002, mas perdeu a eleição. Lula o mandou para a embaixada em Cuba,
porque ele era admirador do Fidel Castro. Foi um dos poucos não diplomatas a
serem enviados para embaixadas no exterior. Celso Amorim, depois, estabeleceu
que todos os chefes de embaixadas deveriam ser diplomatas de carreira.
O clima sombrio que havia dentro do
Itamaraty melhorou?
Em parte. Depois de se desentender com
os senadores, principalmente com a Katia Abreu, Ernesto Araújo foi forçado a se
demitir no dia 29 de março. No dia seguinte, o boletim do Itamaraty publicou a
lotação dele na Subsecretaria Geral de Administração. Essa é a secretaria que
cuida do que podemos chamar de “cozinha” do Itamaraty, da administração da
casa. Ele estava tentando colocar seu chefe de gabinete como o subsecretário
geral de administração. Pensei na época que o objetivo era construir um
Ministério de Relações Exteriores do B. Eles seriam responsáveis por uma
diplomacia paralela, com todo apoio do presidente, filhos e assessores. Mas o
Ernesto Araújo não conseguiu o que pretendia e tirou uma licença de três meses.
Se o PT voltar em 2022, o sr. não teme
ser novamente afastado?
Acho que vou me aposentar no final de
2022, talvez antes. Mas posso dizer que fui prejudicado tanto na era petista
como na bolsonarista. Há uma grande diferença entre elas: os bolsonaristas são
vingativos e mesquinhos. O PT me deixou fora do Itamaraty por treze anos e
meio. Fui vetado e enviado para o departamento de escadas e corredores. Fiquei
no limbo. Por dez anos, fiquei sem nenhum cargo na Secretaria de Estado. O
Celso Amorim, ex-chanceler, tinha horror a mim, porque eu publicava e dizia o
que pensava. Ele vetou uma promoção minha. Os petistas diziam que eu era
‘neoliberal’. Em 2014, eu publiquei o livro Nunca Antes na Diplomacia, com uma
crítica pesada ao petismo. Com o bolsonarismo foi distinto. Em 2019, quando eu
publiquei no meu blog um artigo do Fernando Henrique Cardoso, um do Rubens
Ricupero e outro do Ernesto Araújo, eles me demitiram das funções que exercia.
Mas, enquanto os petistas não me colocaram em lugar algum, os bolsonaristas
quiseram me humilhar. Eles me mandaram para a Divisão de Arquivos. Então eu
fiquei lá na biblioteca, sem função. Em 2019, eu publiquei um pequeno livro
intitulado Miséria da Diplomacia: a Destruição da Inteligência no Itamaraty.
Decidiram me retaliar. Sem que eu soubesse, eles foram computando minhas
faltas. Em muitas delas, eu estava em bancas acadêmicas em São Paulo, em
Curitiba, dando palestras. Uma vez, eu estava com o próprio Ernesto Araújo, no
Ministério da Defesa, e eles me deram falta. Eu justifiquei e não aceitaram.
Mais recentemente, passaram a me cobrar por horas não trabalhadas. Já tive um
prejuízo de mais de 40 mil reais com eles. Só não conseguiram me demitir por
justa causa porque veio a pandemia.
O Itamaraty, afinal, falhou na compra
de vacinas?
Não, o Itamaraty, como instituição, não
falhou na aquisição de vacinas pela simples razão que nunca lhe foi dada essa
atribuição. O problema foi a oposição do presidente a uma ação vigorosa nessa
frente. Araújo apenas se submeteu a isso. O governo falhou por inteiro em todas
as fases, etapas e configurações de um enfrentamento sério da pandemia. O
quadro de miséria moral existente nesse setor está na origem da tragédia
acumulada em número de mortos e outras vítimas da Covid-19, por uma indiferença
perversa. Tanto o Itamaraty não falhou que o novo chanceler proclamou, em seu
conciso e objetivo discurso de posse, que sua primeira preocupação será com uma
diplomacia da vacina, colocando os postos a serviço dessa meta.
Isso pode fazer diferença no combate à
pandemia no Brasil?
Ainda estamos numa situação diferente
da dos demais países, onde o combate à pandemia recebe o inteiro apoio dos
chefes de governo ou de estado. Isso não é uma realidade no Brasil. Bolsonaro
segue com a mesma indiferença perversa. Na verdade, em temas de interesse
global – meio ambiente, desenvolvimento, cooperação regional, comércio
internacional, direitos humanos, novas fronteiras dos direitos coletivos –, o
Itamaraty sempre exerceu um protagonismo digno de nota, sendo conhecido pelos
seus esforços de mediar interesses de países avançados e em desenvolvimento,
num esforço notável em foros multilaterais. Não fosse este governo, o Brasil
teria provavelmente liderado uma iniciativa de coordenação global contra a
pandemia, unindo cooperação bilateral, regional, multilateral, em todos os
foros e instâncias abertas ao engenho e à arte de nossa diplomacia.
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