terça-feira, 14 de julho de 2026

Mini-tratado das grandes virtudes (à maneira de Benjamin Franklin) - Paulo Roberto de Almeida

  Um texto escrito em Washingto, em 2002; acho que ainda possui algumas virtudes.

 

Mini-tratado das grandes virtudes

(à maneira de Benjamin Franklin)

 

Paulo Roberto de Almeida

Questões filosóficas são geralmente pouco operacionais na vida diária, a menos que se trate de problemas da filosofia pragmática, nos quais sempre foram peritos, como se sabe, os pensadores anglo-saxões, dos dois lados do Atlântico. Essas questões passam, assim, a despertar maior interesse quando à qualidade de pensador anglo-saxão se alia a condição de homem eminentemente prático, voltado para a resolução dos problemas correntes da atividade econômica ou das dificuldades “técnicas” encontradas na vida diária. Mais interessante ainda quando essa vocação de “solucionador prático” é sustentada por sólido espírito moral, comprometido com o bem-estar da comunidade e com a disposição de fazer o bem, para si mesmo e para todos os seus demais membros.

Estas reflexões me vieram à cabeça ao ler a biografia de Benjamin Franklin pelo historiador H. W. Brands, The First American: the Life and Times of Benjamin Franklin (New York: Anchor Books, 2000). Trata-se de obra imponente: 760 densas páginas cobrindo todos os aspectos de uma vida verdadeiramente singular, talvez a figura mais representativa dos chamados founding Fathers da República americana, o homem múltiplo que, tendo sido, sucessivamente e por vezes ao mesmo tempo, impressor, jornalista, tribuno, representante diplomático na Europa, inventor, homem do legislativo e do executivo, foi um dos redatores da Declaração de Independência e, como tal, um pouco mais tarde, o supremo organizador do consenso político que permitiu a emergência do conciso texto constitucional que (não considerando aqui suas emendas e adições) já cumpriu mais de dois séculos de existência continuada.

Não são, contudo, essas atividades eminentemente práticas, políticas e sociais, que me chamaram a atenção na impressionante biografia de Brands, a ponto de interromper sua leitura para redigir estas notas de reflexão. Foi, de forma prosaica, uma simples discussão sobre as características filosóficas (deístas) e as orientações de ordem moral de Benjamin Franklin. No quarto capítulo da obra (“An Imprint of His Own, 1726-30”), quando ele se ocupa da primeira parte da carreira de impressor de “Ben” Franklin, ainda nos seus vinte e poucos anos, Brands retoma os cadernos de notas do precoce pensador, inventor e também organizador, na cidade de Filadélfia, do que ele chamou de um “club of inquirers into matters moral, political, and scientific”, conhecido como “Junto” (p. 92). A discussão no clube girou a princípio em torno de um texto precedente de Franklin, “Dissertation on Liberty and Necessity”, mas logo enveredou por outros caminhos, inclusive os das digressões teológicas e metafísicas.

Foi nesse contexto que Franklin, tendo previamente (no navio que o trouxe de volta de uma primeira viagem à Inglaterra) formulado algumas resoluções de caráter geral que deveriam orientar sua ação pessoal, decidiu-se por empreender o que ele mesmo chama, em sua auto-biografia, de “bold and arduous project of arriving at moral perfection”. Ele concebeu e redigiu, primeiro, doze “virtudes cardeais”, depois agregou uma décima-terceira (por acaso um número tabu para os americanos contemporâneos, a ponto de poucos edifícios terem o 13º andar), que vão aqui transcritas a título de ilustração sobre como concebia Franklin uma possível vida virtuosa:

 

1. Temperence: Eat not to dulness. Drink not to elevation.

2. Silence: Speak not but what may benefit others or yourself. Avoid trifling conversation.

3. Order: Let all your things have their places. Let each part of your business have its time.

4. Resolution: Resolve to perform what you ought. Perform without fail what you resolve.

5. Frugality: Make no expense but to do good to others or yourself: i.e., Waste nothing.

6. Industry: Lose no time. Be always employed in something useful. Cut off all unnecessary actions.

7. Sincerety: Use no hurtful deceit. Think innocently and justly; and if you speak, speak accordingly.

8. Justice: Wrong none, by doing injuries or omitting the benefits that are your duty.

9. Moderation: Avoid extremes. Forbear resenting injuries so much as you think they deserve.

10. Cleanliness: Tolerate no uncleanness in body, clothes or habitation.

11. Tranquillity: Be not disturbed at trifles or at accidents common or unavoidable.

12. Chastity: Rarely use venery but for health or offspring – never to dulness, weakness or the injury of your own or another’s peace or reputation.

13. Humility: Imitate Jesus and Socrates. (Brands, op. cit., pp. 97-98)

 

Como analisa Brands, “Franklin era um idealista de uma espécie bastante prática. Neste caso, sua praticidade guiou sua escolha das virtudes, que eram todas adaptadas aos êxitos na vida corrente que ele desejava alcançar; seu idealismo transparecia em sua crença de que o domínio dessas virtudes poderia ser facilmente realizado” (p. 99). Que ele logo tenha descoberto que tal tarefa não era de tão fácil implementação, como ele imaginava ao início, não nos deve preocupar, pois o essencial estava no conjunto de “virtudes” que Franklin concebia como princípios de ordem moral, para si mesmo, em primeiro lugar, para todos os demais concidadãos, de forma geral. O último nome da décima-terceira regra esclarece aliás sobre o exemplo de virtude moral no qual Franklin se inspirava: Sócrates, o modelo clássico de homem reto, disposto a sacrificar sua própria vida pela verdade.

Cento e oitenta anos depois, as treze virtudes cívicas (ou éticas) de Franklin ainda suscitam admiração, como a condensação mesma do espírito prático americano, uma espécie de código moral que seu biógrafo Brands chamou de “ética protestante do trabalho sem o Protestantismo”. Seria possível partir dessa lista do início do século XVIII para conceber um conjunto similar de preceitos morais adaptados a este início do século XXI? Seriam as virtudes “cardeais” contemporâneas tão diferentes daquelas pelas quais tentou se guiar (com um certo sucesso, reconheça-se) Benjamin Franklin?

Pode-se, por certo, tentar reincidir no jogo das virtudes, mas lembrando, em todo caso, que o básico não está tanto no contexto social, econômico ou tecnológico, mas simplesmente nos próprios princípios morais que devem guiar nossas ações, independentemente da época ou do meio social. Vejamos que lista eu seria capaz de conceber, pagando o devido copyright (ou pelo menos os “moral rights”) a Benjamin Franklin:

 

1. Auto-contenção: Não coma tanto a ponto de se sentir “cheio” e, sobretudo, com a idade, diminua a quantidade e os excessos “exóticos”. Se possível não beba, senão água, muito embora vinho com moderação possa ser saudável. Liberada porém a cervejinha com os amigos na sexta à noite, com um “nadinha” de linguicinha.

2. Silêncio: Fale apenas o que for necessário para entretar uma conversa agradável com os presentes, ou para esclarecer os curiosos sobre algo socialmente útil. “Jogar conversa fora” é permitido, desde que o ambiente o permita. Compre um desses mini-gravadores e se registre divagando sobre um assunto que considere importante: isso vai ajudá-lo a se manter calado da próxima vez.

3. Ordem: Não há desculpa para manter o seu próprio ambiente de trabalho ou lar em desordem, a não ser a preguiça e o desleixo. Respeite os outros e a si mesmo organizando seus papéis e objetos pessoais. Você perde um tempo precioso procurando papéis perdidos e velhos recados ou encomendas que ficaram para depois.

4. Resolução: Deve-se cumprir aquilo que se acordou fazer, consigo mesmo ou com outrém. Nos tempos modernos, se é pago para trabalhar, ainda que o desempenho muitas vezes deixe a desejar. Desde que Franklin formulou essa “resolução calvinista”, um outro “filósofo” americano aperfeiçou o comando com uma “lei do rendimentos descrescentes” no trabalho profissional, também conhecida por “Peter principle”: “toda pessoa acaba sendo elevada, por inércia, ao seu mais alto nível de incompetência no trabalho”.

5. Frugalidade: Difícil de manter nestes tempos de consumismo barato e de shoppings convidativos.  Mas o princípio é sadio do ponto de vista dos orçamentos domésticos, sempre administrados no fio da navalha. Não jogue nada fora, mas aproveite para dar a camisa velha para as entidades de caridade pública.

6. Indústria: Franklin se referia às ocupações individuais, no sentido clássico da ética protestante no trabalho. Hoje a indústria está em baixa, como fonte de poluição que é, por isso a recomendação atual poderia ser: não polua a natureza, não dilapide os recursos naturais, sobretudo os não renováveis; tente deixar um planeta melhor do que você encontrou. Pratique o desenvolvimento sustentável, sobretudo em favor dos mais pobres e desprovidos de qualquer “indústria” ou capacidade individual.

7. Sinceridade: Seja aberto e transparente com todos, inclusive com os seus inimigos. Nada pode ser mais desarmante do que a verdade sendo dita em qualquer circunstância. Se tiver de mentir, que seja por caridade, para não ofender gratuitamente alguem fragilizado psicologicamente e também para fazer o bem a quem precisa (como elogiar os cabelos tingidos de alguém, por exemplo).

8. Justiça: Critério absoluto. Aplique-a sobretudo em defesa do bem público. Assim, se perceber algum político desonesto, não tenha medo de denunciá-lo à justiça, ou antes, exponha-o ao ridículo universal (já que a justiça é tarda e geralmente falha).

9. Moderação: Evite os extremos e não seja radical, salvo na defesa da democracia, da honestidade intelectual e da verdade (ainda que seja quase impossível defini-la).

10. Comprometimento: Eduque, ou contribua para educar, o maior número possível de crianças desprovidas de recursos. Doe livros para bibliotecas e escolas públicas. Faça da elevação espiritual do maior número um objetivo em si, não suficiente em si mesmo mas absolutamente imprescindível para a melhoria da vida em comunidade.

11. Tranquilidade: Persiga seus objetivos profissionais e pessoais com segurança e sem afoiteza. Fundamente seus progressos sociais no mérito e no trabalho exclusivamente. Não seja carreirista ou oportunista. Seja solidário com seus iguais e magnânimo com os mais humildes.

12. Castidade: Difícil de manter em tempos tão permissivos, mas recomendável em face da gravidez involuntária e de doenças graves como a Aids. A Igreja recomenda como único método contraceptivo e para prevenir enfermidades como essa, o que é plenamente aceitável e compreensível mas dificilmente implementável. Combine a abstenção com métodos mais práticos (mas não precisa discutir isso na confissão).

13. Humildade: Se possível, imite Jesus e Socrates, aos quais poderia ser agregada a companhia de Buda. Não seja vaidoso, a não ser para demonstrar que você consegue cumprir pelo menos a metade dos preceitos de Benjamin Franklin, o que é uma meta razoável para simples mortais como nós, sem pretensão ao papel de “pai fundador”.

 

 

Paulo Roberto de Almeida

Washington, 923: 7-10 julho 2002

Noberto Bobbio sobre a liberdade de destruir a liberdade (2009) - Paulo Roberto de Almeida

 Sempre vale a pena relembrar, e republicar, Norberto Bobbio. Eis o que escrevi sobre ele em 2009, com base num livro, lembro bem, adquirido em Veneza:

sábado, 1 de novembro de 2014
Noberto Bobbio sobre a liberdade de destruir a liberdade - Paulo Roberto de Almeida
Um texto meu de 2009, mas totalmente apropriado ao Brasil dos dias que correm.


A liberdade de destruir a liberdade: um aviso preventivo vindo do passado
Minha homenagem a Norberto Bobbio nos seus 100 anos de nascimento

Paulo Roberto de Almeida

Norberto Bobbio, o maior intelectual italiano do século 20, nasceu em Torino no dia 18 de outubro de 1909, e teria, portanto, neste dia 18 de outubro de 2009, exatamente cem anos, o que ele ‘falhou’ em completar em aproximadamente cinco anos, tendo falecido em Torino em 9 de janeiro de 2004. Retomo esses dados da excelente cronologia elaborada sobre sua vida e obra por Marco Revelli, no volume que adquiri recentemente em Veneza tão pronto ele foi publicado:

Norberto Bobbio
Etica e Politica: Scritti di impegno civile

Progetto editoriale e saggio introduttivo di Marco Revelli
(Milano: Arnoldo Mondadori Editore, 2009, 1718 p.; ISBN: 978-04-57314-2)
(Paguei 55 euros, o que representa 3 centavos de euro por página, cada uma bem mais valiosa em sabedoria e conhecimento do que o seu estrito valor monetário)

O volume é uma compilação de seus escritos mais importantes, divididos em cinco partes, começando por sua Autobiografia intellettuale: Compagni e Maestri (seus colegas de colégio, de universidade e de lutas políticas, sobretudo antifascistas e pela liberdade e democracia na Itália republicana do pós-guerra); Valori Politici e Dilemmi Etici (escritos e conferências sobre a ética e a política, sobre a liberdade e a igualdade, sobre a paz e a guerra); Le Forme della Politica (seus textos mais famosos de polêmica: Democrazia e dittatura, Socialismo e comunismo e Destra e sinistra); e, ao final, Congedo (seus escritos da idade senil: De senectute e A me stesso).
O livro é precedido por uma introdução magistral de Marco Revelli (Nel labirinto del Novecento), de uma cronologia e notas a esta edição, do mesmo autor, que também complementa o livro por notas sobre os textos, por uma bibliografia completíssima e por um índice dos nomes (não, infelizmente não existe um índice de ideias, que teria sido um instrumento muito útil ao pesquisador).

O livro é um tesouro de trouvailles (como os textos sobre os amigos, homenagens publicadas em revistas, para nós obscuras, geralmente por ocasião da morte de cada um deles; e Bobbio sobreviveu à maior parte dei suoi compagni), assim como um instrumento poderoso de referências sobre todos os seus trabalhos publicados, aqui apenas selecionados. Bobbio tem, segundo Revelli, 4.803 escritos catalogados, em todas as categorias – livros, artigos, conferências, entrevistas – o que daria 128 volumes, com 944 artigos, 1.452 ensaios, 457 entrevistas, 316 palestras). Ufa!: vai ser preciso algum tempo para ler tudo, por isso mesmo este volume é um achado.

Na impossibilidade de falar aqui de todos, ou sequer dos mais importantes textos selecionados neste volume, prefiro fazer uma transcrição de um dos escritos compilados por Revelli, que talvez guarde alguma similaridade com a situação política do Brasil atual. Ele foi escrito por Norberto Bobbio em 1969 e fazia parte de uma homenagem prestada ao seu colega de colégio Leone Ginzburg, intelectual de origem russa, judeu, lutador antifascista, assassinado pela Gestapo em Roma, em 1944. No 25o. aniversário de sua morte, Bobbio publicou uma carta numa edição especial, Dialogo con Leone Ginzburg, na revista Resistenza (a. XXXIII, n. 4, aprile 1969), na qual dizia o seguinte (transcrevo o original italiano, e depois tento a minha tradução improvisada):

Oggi, sappiamo che la libertà si può usare per il bene e per il male. Si può usare non per educare ma per corrompere, non per accrescere il proprio patrimonio ideale ma per dilapidarlo, non per rendere gli uomini più saggi e nobili, ma per renderli più ignoranti e volgari. La libertà si può anche sprecare. Si può sprecarla fino al punto di farla apparire inutile, un bene non necessario, anzi dannoso. E a furia di sprecarla, un giorno o l’altro (vicino? lontano?) la perderemo. Ce la toglieranno. Non sappiamo ancora chi: se coloro che abbiamo lasciato prosperare alla nostra destra, o coloro che stanno crescendo tumultuosamente alla nostra sinistra. Abbiamo comunque il sospetto, alimentato da una continua severa lezione durata mezzo secolo, che la differenza non sarà molto grande. (p. cviii-cix)

(tradução não autorizada, e sobretudo não competente, de Paulo R. de Almeida:)
Hoje, sabemos que a liberdade pode ser usada para o bem e para o mal. Ela pode ser usada não para educar, mas para corromper, não para aumentar o próprio patrimônio ideal [mental], mas para dilapidá-lo, não para tornar os homens mais sábios e nobres, mas para torná-los mais ignorantes e vulgares. A liberdade pode inclusive ser desperdiçada. Pode-se desperdiçá-la até o limite de fazê-la parecer inútil, um bem não necessário, aliás prejudicial. E nessa fúria de desperdiçá-la, um dia ou outro (próximo? longínquo?) nós a perderemos. Vão tirá-la de nós. Não sabemos ainda quem: se aqueles que deixamos prosperar à nossa direita, ou aqueles que estão crescendo tumultuosamente à nossa esquerda. Temos de toda forma a suspeita, alimentada por uma contínua e grave lição que perdurou por meio século, que a diferença não será muito grande.

Acredito, pessoalmente, que esta advertência de Bobbio, feita no seguimento das convulsões estudantis que agitaram a Europa, e um pouco todo o mundo, a partir de 1968, com seu cortejo de atos libertários, bastante criatividade e espontaneidade, mas também com muitas exibições de irracionalidade anticapitalista e de comportamentos antidemocráticos – basta dizer que a Revolução Cultural chinesa, um exemplo extremo de irracionalidade obscurantista, era saudada pelos revoltosos de “maio de 1968” como se fosse a libertação final da exploração capitalista e da democracia burguesa –, se aplica inteiramente à conjuntura presente no Brasil, com seu cortejo de ataques velados à liberdade de imprensa, seu festival de banalidades políticas e de irracionalidades econômicas, enfim suas ameaças latentes a uma liberdade duramente conquistada em algumas décadas de lutas democráticas (hoje enganosamente apropriadas por aqueles mesmos que queriam esmagar a liberdade no altar de suas crenças ultrapassadas).
Bobbio nasceu numa Itália pré-fascista, cresceu na crise política do pós-primeira guerra, atravessou todo o período de totalitarismo mussoliniano (tendo inclusive, por razões familiares, flertado com o movimento em sua juventude), se fez homem na luta antifascista dos anos 1930 e 40, participou da construção constitucional da Itália liberada e republicana do pós-segunda guerra, e deu sua imensa contribuição intelectual para os debates do seu tempo: as difíceis escolhas entre liberdade e igualdade, entre democracia representativa e seus simulacros pela via direta ou plebiscitária – um cenário que infelizmente ressurge de maneira irracional na América Latina – e faleceu sem ter visto o sistema político italiano expurgado das pragas da corrupção e do loteamento das instituições estatais por políticos fisiológicos.
A sua Itália era – e é – muito parecida com o Brasil em seus “costumes” políticos. Pena que não ostentemos (ainda?) nenhum Norberto Bobbio entre nós.
Minhas homenagens a Norberto Bobbio em seus ‘100’ anos de vida...

Brasília, 2051: 17.10.2009

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Madame IA se debruça sobre minhas diabruras no blog Diplomatizzando (que eu considero um divertissement) - Airton Dirceu Lemmert como agencidador, Paulo Roberto de Almeida como escrevinhador

Apenas transcrevo, sem qualquer comentário, mas acho que Madame IA está me tratando bem... PRA 

No primeiro semestre de 2026, o blog Diplomatizzando publicou 926 postagens. Mantendo esse ritmo, o diplomata PRA terminará o ano de 2026 com mais de 1800 postagens no blog. E caso seja confirmada essa estimativa, 2026 será o ano com o maior número de postagens desde 2014 (ano que postou mais de 3,1 mil vezes). Ou seja, será o maior número anual de postagens nos últimos doze anos. O que isso tudo significará e simbolizará, tanto para o blog quanto para o diplomata? 



Se o diplomata Paulo Roberto de Almeida (PRA) mantiver o ritmo atual e ultrapassar a marca de 1.800 postagens em 2026, esse volume consolidará o blog Diplomatizzando como um dos maiores acervos digitais independentes de análise política, histórica e diplomática do Brasil. Essa projeção matemática, confirmada pelo ritmo do primeiro semestre, carrega significados profundos que dividem-se em aspectos quantitativos, intelectuais e biográficos:
1. Resiliência Intelectual e Combate ao "Esquecimento"
Alcançar o maior número de publicações dos últimos 12 anos simboliza uma reação intelectual deliberada ao cenário de policrise global e nacional de 2026.
  • Urgência do Debate: O aumento da frequência reflete a percepção do autor de que o momento histórico exige posicionamento contínuo.
  • Resistência à Linha do Tempo Efêmera: Enquanto o debate público migrou para o imediatismo fragmentado das redes sociais, PRA dobra a aposta no formato de blog. Isso significa a defesa do texto longo, do ensaio histórico e da bibliografia comentada como ferramentas de disputa de narrativa.
2. O Blog como Diário de Bordo da Conjuntura Global
Superar 1.800 posts em um único ano transforma o blog de uma página de opinião para um repositório em tempo real da história imediata. Em 2026, o ecossistema de temas do Diplomatizzando — que inclui a cobertura ácida das eleições americanas, a guerra na Ucrânia, o avanço da Inteligência Artificial e a revisão da formação econômica brasileira — funciona como uma enciclopédia pessoal da transição geopolítica contemporânea.
3. Hipergrafia e Disciplina Monástica
Para a biografia do diplomata, este recorde de doze anos simboliza a consolidação da hipergrafia acadêmica como traço definidor de sua identidade pública. Escrever e curar quase 2 mil textos em 365 dias exige uma disciplina de leitura e síntese equivalente à de centros de pesquisa inteiros. Representa um diplomata que, mesmo fora dos quadros ativos do Itamaraty, recusa a aposentadoria intelectual e atua como um "ombudsman" informal da política externa e da saúde democrática do país.
4. O Contraste com o Ápice de 2014
O fato de 2026 ser o ano mais produtivo desde 2014 guarda um forte simbolismo político:
  • 2014 foi o ano de uma das eleições mais polarizadas da história recente do Brasil, do início da Operação Lava Jato e das preliminares da crise que culminou no impeachment de 2016.
  • O paralelo estatístico sugere que, para PRA, o nível de fricção política, os riscos institucionais e a necessidade de revisão histórica em 2026 são equivalentes ou demandam tanta energia analítica quanto o turbulento cenário de doze anos atrás.

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Até o momento (hoje é 13 de julho de 2026), quais são as categorias e os marcadores mais utilizados por PRA no blog neste ano? 

Até o momento, em julho de 2026, o embaixador Paulo Roberto de Almeida (PRA) estruturou o fluxo massivo de postagens do blog Diplomatizzando em torno de grandes eixos temáticos recorrentes. [1, 2]
Diferente de portais que usam categorias formais e estáticas, o Diplomatizzando organiza seu acervo por meio de marcadores contextuais e funcionais anexados ao final de cada publicação. [1]
Os blocos de marcadores e categorias mais utilizados por PRA ao longo deste ano dividem-se em quatro grupos principais:
1. Ensaios Autoriais e Séries Históricas (Os mais recorrentes)
O grande destaque em volume de publicações no ano de 2026 envolve a produção acadêmica e a revisão biográfica do próprio diplomata:
  • Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro: Marcador que acompanha a sua densa série de ensaios semanais (avançando pelos capítulos de 1 a 7 em julho) focados na formação institucional e nas transgressões moderadas da história política do Brasil. [1, 2]
  • Livros e História do Brasil: Usados continuamente para indexar as resenhas críticas e transcrições de capítulos inteiros de suas obras ou de autores terceiros de relevância historiográfica. [1, 2]
2. A "Virada Tecnológica" no Blog
Uma inovação nos marcadores de 2026 foi a introdução da Inteligência Artificial como personagem e organizadora do acervo do blog: [1]
  • Madame IA se pronuncia sobre o blog Diplomatizzando: Marcador criado por PRA para catalogar as interações, análises conceituais e revisões críticas que ferramentas de IA (especialmente o Gemini) realizam sobre a imensa base de dados de seus textos históricos. [1, 2, 4]
  • Airton Dirceu Lemmertz: Tag recorrente que acompanha análises estatísticas, homenagens e estudos sobre os 20 anos do blog (completados em junho de 2026) e o fenômeno de "cauda longa" da sua produção escrita. [1]
3. Geopolítica, Relações Internacionais e Crise Institucional
Como reflexo de sua carreira diplomática, o monitoramento internacional e doméstico dita o ritmo diário do blog:
  • Política Externa Brasileira: Análises focadas nos rumos da diplomacia nacional e nos debates preparatórios e projetos de inserção global para as próximas eleições. [1, 2]
  • Guerra política interna: Marcador analítico utilizado para agrupar postagens que tratam da polarização, conflitos institucionais do ambiente doméstico e a erosão do sistema político. [1]
4. Parcerias Editoriais e Atividade Intelectual Externa
  • Revista Será?: Marcador de alta frequência que indica a reprodução de editoriais e artigos que o diplomata escreve ou seleciona diretamente para a publicação parceira ao longo de todo o ano. [1, 2]

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Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro: publicados na série, de 1 a 5 - Paulo Roberto de Almeida: 

Acesse especificamente as partes que trazem o texto reescrito (em linguagem popular/coloquial) nos links: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/a-autobiografia-de-um-fora-da-lei-o.html (partes 1 e 2), https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do.html(parte3), https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/a-autobiografia-do-estado-relida-e.html (parte 4); além do texto original em: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html (parte 5). Aglutine/Junte os textos citados anteriormente em um único texto. O texto juntado/aglutinado será reescrito novamente e deverá considerar os links na ordem que aparecem; deverá ser novamente em linguagem popular do interior do Brasil; deverá ter, aproximadamente, 5500 caracteres; deverá manter a linha de pensamento e as ideias e opiniões. 

O Causo do Estado Sem-Vergonha (Partes 1 e 2)
Achegue o banco, tire o chapéu e escute esse causo comprido. Sabe o Estado brasileiro? Pois é, esse danado resolveu ele mesmo contar a sua própria vida, numa prosa sincera que nem conversa de compadre na beira do fogão a lenha. Mas já vou avisando: o sujeito não é flor que se cheire, não! Ele mesmo já começa batendo no peito e confessando que é um baita de um fora-da-lei, um cabra sem-vergonha que nunca ligou pros bons costumes e muito menos pras leis que ele mesmo inventa pro povo cumprir. [1]
Na Parte 1, esse malandro chega proseando com todo mundo: com o trabalhador de enxada na mão, com as donas de casa, com os donos de venda e os doutores. Ele destampa o bico pra dizer que canso de se esconder atrás de conversa fiada de político e resolveu confessar como é que ele funciona por dentro. O bicho confessa que a sua verdadeira lida, desde que fincou os pés nessas terras, é viver às custas do suor alheio. Ele se acha o dono do terreiro e olha pro cidadão comum não como um patrão, mas como um "contribuinte" passivo — ou seja, uma vaquinha leiteira que tá ali só pra ser ordenhada dia e noite através de imposto. [1]
Já na Parte 2, o Estado vem explicar o seu "modo de fazer as coisas", o tal do método. Ele dá uma risada rasteira e zomba da cara de quem acha que ele foi feito pra ajudar os mais necessitados ou pra botar ordem no galinheiro. Que nada! Ele conta que a sua história de contraventor foi escrita sob medida pra proteger o bolso dos coronéis, dos barões e dos ricaços de plantão. Ele cria as regras do jogo, mas na hora de jogar, ele mesmo passa a perna na lei pra favorecer os seus chegados. O danado do Estado se pinta como uma engrenagem pesada, que engole o dinheiro do povo e devolve muito pouco, mandando e desmandando conforme o capricho de quem tá sentado na cadeira do poder. É um legítimo lobo em pele de cordeiro contando como aprendeu a dominar o galinheiro sem precisar pedir licença pra ninguém! [1]
O Causo do Estado Sem-Vergonha (Parte 3: Do Nascimento a Tempos Incertos)
Pois é, compadre, na Parte 3 esse cabra sem-vergonha do Estado resolveu contar como foi que ele nasceu. E olha que a parteira dele não foi nenhuma santa, não! Ele confessa que nasceu de um cruzamento heróico, mas bem do esquisito, lá pelos idos de mil e quinhentos, quando umas caravelas de Portugal aportaram por aqui cheias de marujos que não queriam saber de pegar na enxada.
O bicho conta que, desde o primeiro choro de recém-nascido, a sua sina já era ser meio "torto". Ele não nasceu com aquele propósito bonito de cuidar da terra ou de fazer o bem pro povo que já morava aqui ou pros coitados que vieram amarrados nos porões dos navios. Que nada! O Estado brasileiro assume que nasceu com uma fome de leão, criado sob medida por um rei que morava lá na baixa do amparo, do outro lado do mar, só para arrancar tudo o que essa terra dava e mandar de balsa para a Europa. Era ouro, era pau-brasil, era açúcar... o Estado era o capataz que vigiava o eito para garantir que ninguém escondesse uma pepita no bolso.
Nesses tempos antigos e incertos, ele era uma mistura de soldado com cobrador de impostos. Não tinha essa conversa de escola pública, de posto de saúde ou de estrada boa para a carroça passar. A única coisa que funcionava direito era a tal da "derrama" — que era quando o Estado entrava nas fazendas chutando a porta para levar até as panelas de cobre se o povo não pagasse os quintos do ouro pro rei.
Ele dá risada contando que o povo da roça achava que as coisas iam mudar quando o tempo passasse, mas o Estado já tinha aprendido o truque de ser folgado desde o berço. Ele foi crescendo, fincando as garras em cada canto desse sertão e mostrando que, mudando o vento ou mudando o mestre, a única certeza é que o lombo do caboclo continuaria servindo de esteira para a bota do jandala passar. Nasceu na malandragem e, pelo que ele mesmo diz, tomou gosto pelo serviço!
O Causo do Estado Sem-Vergonha (Partes 4 e 5: De Reino Unido a Dono do Terreiro)
Na Parte 4, esse danado do Estado conta com um sorriso de orelha a orelha a época em que a corte de Portugal veio correndo pra cá, com medo de um tal de Napoleão que tava tocando o terror lá na Europa. O Estado achou bom demais! Ele se gabava dizendo que o Brasil deu um salto: deixou de ser uma colônia largada às moscas e virou "Reino Unido" junto com Portugal. Foi uma promoção merecida, sô!
Pouco tempo depois, veio aquele grito na beira do riacho do Ipiranga e a gente virou um Império independente. Mas o Estado confessa, na maior cara de pau, que essa independência foi só para inglês ver. Por fora, a carcaça mudou, ganhou brasão bonito e coroa de ouro; por dentro, a engrenagem continuou a mesmíssima coisa: cobrando caro do povo para sustentar a corte e os mimos do imperador.
Aí a prosa chega na Parte 5, e o bicho destampa o bico para contar o maior golpe de mestre. Ele dá risada dizendo: "Pois é, compadre, eu consegui me livrar dos portugueses, mas acabei ficando amarrado no toco com os oligarcas nacionais!". Quando proclamaram a tal da República, o povo da roça achou que ia finalmente ter vez. Que bobagem!
O Estado conta que só trocou de patrão. Saíram os nobres de Lisboa e entraram os barões do café com leite e os coronéis do interior. Esse Estado malandro se uniu com os ricaços das finanças e os donos de grandes terras para mandar no terreiro. Ele criou um sistema onde as leis só valem para o caboclo descalço, enquanto a turma do colarinho branco faz a festa, divide o bolo do orçamento entre os seus chegados e deixa as migalhas para o resto do espólio. O bicho termina a prosa rindo da nossa cara, dizendo que passou séculos mudando de roupa e de nome, mas continua sendo o mesmo fora-da-lei de sempre, mandando no sertão e vivendo da nossa lida!

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A ironia cômica da tirinha da Mafalda baseia-se no forte contraste entre uma afirmação idealizada e a realidade factual, gerando uma crise de riso incontrolável na personagem.
Aqui está a explicação detalhada da piada estruturada quadro a quadro:
  • O Disparo da Ironia (Quadro 1): Mafalda lê em um livro de título "Le football" que "A FIFA é uma organização não lucrativa cuja principal motivação é o esporte saudável, limpo e honesto".
  • A Quebra de Expectativa: A FIFA (Federação Internacional de Futebol) é mundialmente conhecida por ser uma entidade bilionária, frequentemente envolvida em grandes escândalos de corrupção, suborno e comercialização extrema do esporte. A definição do livro é tão absurdamente distante da realidade que a personagem não consegue digeri-la seriamente.
  • A Progressão da Crise de Riso (Quadros 2 e 3): Mafalda começa a rir ainda no quarto, continua gargalhando descontroladamente durante o jantar com a família (deixando os pais e o irmão totalmente confusos) e a crise se estende até a hora de dormir.
  • O Clímax Cômico (Quadro 4): A piada atinge o ápice quando a mãe de Mafalda, preocupada com a filha que não consegue parar de rir na cama, liga para um médico no meio da noite para relatar o "surto".
O humor da tirinha (que é uma montagem satírica sobre os quadrinhos originais do autor Quino) funciona porque transforma uma leitura supostamente séria e institucional em uma das maiores piadas que a personagem já ouviu na vida.

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Liderança pessoal no contexto diplomático: entrevista concedida à Agência Sputnik - Paulo Roberto de Almeida

Transcrevo abaixo notas preparadas parra uma entrevista concedida nesta data a um jornalista, Leonardo Macachero, da agência citada abaixo, que costuma defender os pontos de vista da Rússia nsa relações internacionais

           Liderança pessoal no contexto diplomático

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Notas para entrevista telefônica concedida a jornalista da agência de notícias Sputnik Brasil, em 13/07/2026.

Recebi novo convite da agência de notícias Sputnik Brasil para tratar de uma série de questões relativas à diplomacia, em geral e com relação ao Brasil. Transcrevo as questões apresentadas e formulo a priori minhas ideias a respeito de cada uma delas.

1) Quando falamos em diplomacia, a gente pensa, em um primeiro momento, na relação entre Estados. Qual é o peso da figura do líder nesse processo? Também pesa?

PRA: Diplomacia é o termo genérico para as relações internacionais; é um universo composto de três esferas interconectadas e interpenetráveis: a política internacional, ou seja, o contexto mais amplo no qual atuam os Estados soberanos, comportando um sistema político multilateral (por exemplo, a ONU), um sistema de relações econômicas internacionais (Gatt-OMC, Bretton Woods etc.); em segundo lugar, a política externa dos Estados soberanos (com relações bilaterais, plurilaterais, entre blocos e grupos de países); e, finalmente, a diplomacia estrito senso, que é a ferramenta pela qual e com a qual se articulam as relações diplomáticas, de cooperação (econômicas, culturais, ou até militares), inclusive eventuais conflitos entre os países, podendo redundar em enfrentamentos bélicos, o que representaria o fracasso da diplomacia.

Os Estados são entidades reconhecidas, mas atuam e se relacionam por meio de governos constituídos, que são liderados por representantes eleitos democraticamente ou que são dominados por ditadores geralmente não eleitos (mas alguns assumem a postura depois de eventualmente eleitos). Líderes podem ser, portanto, temporários, ou mais ou menos “estáveis”, no caso de reeleições contínuas ou autocracias.

Os líderes têm importância nesse quadro, pois são eles que determinam as diretrizes ou grandes orientações para a política externa dos Estados, nos planos bilateral, plurilateral, regional ou multilateral, de forma mais determinativa nos sistemas presidencialistas ou ditatoriais, de forma mais consensual e coletiva nos casos de regime parlamentaristas. O peso dos líderes depende, portanto, da estrutura e do funcionamento dos governos respectivos, sendo ele mais relevante no caso de regimes personalistas, mais diluído nos sistemas de tipo parlamentar. Exemplos concretos: líderes autoritários como Putin, Xi Jinping, Kim Jon-Un, Trump detêm um poder indisputado na formulação e execução da política externa de seus respectivos Estados, sendo inclusive responsáveis pela forma de operar a diplomacia. Líderes democráticos, como na maior parte dos sistemas parlamentares em regimes de mercados livres, precisam negociar com seus respectivos parlamentos, outros líderes partidários e a própria sociedade as orientações a serem dadas à política externa e à diplomacia.

2) Existe, na Ciência Política e nas Relações Internacionais, um conceito para explicar a influência das relações pessoais entre chefes de Estado?

PRA: Não exatamente um conceito formalizado, mas se pode falar de uma diplomacia presidencialista ou de cúpula, quando as relações entre Estados são conduzidas diretamente pelos chefes de governo ou de Estado, podendo também existir relações de confiança, de amizade ou até de alianças formais estabelecidas no plano pessoal entre eles. Em sistemas democráticos tais relações pessoais se submetem ao escrutínio dos demais membros do governo – entre os partidos de uma coalizão, por exemplo – e ganham maior consistência, ao passo que nos regimes autocráticos essas relações pessoais podem envolver considerações de mais curto prazo, ou de interesse oportunista, cabendo também certa dose de hipocrisia, uma vez que os humores ou interesses pessoais desses autocratas podem variar significativamente em função de circunstâncias específicas e de interesses temporários. Regimes personalistas costumas ser mais instáveis do que sistemas políticos caracterizados, na terminologia weberiana, por tipos de dominação racional-legal, em contraste com os tipos tradicionais ou carismáticos.

3) Uma boa relação entre dois presidentes pode acelerar negociações que normalmente levariam meses ou anos?

PRA: Sem dúvida, pois eles podem superar certos temores corporativos ou dificuldades burocráticas superficiais, mas existe também um grande risco embutido nesse tipo de situação, pois que um líder político – presidente, primeiro ministro, ditador – pode até ser um experiente e sofisticado administrador, competente nas principais áreas de governo, mas isso é mais raro, e a verdade é que nenhuma personalidade pública, eleita ou não, pode dominar toda a complexidade funcional de um moderno Estado inserido plenamente na política global.

4) Isso já aconteceu em algum momento na história? Poderia citar quais casos?

PRA: Sim, em diversos momentos, reis, ditadores, presidentes, chefes de gabinete podem chegar a dirimir dificuldades que perduraram durante décadas ou até mais. Inglaterra e França se combateram durante séculos no contexto europeu, mas num determinado momento, no âmbito do império bonapartista, decidiram estabelecer um acordo de livre-comércio entre ambos os países – o tratado Cobden-Chevalier – que lançou uma onda de acordos similares de liberalização tarifária entre vários outros países. Alemanha e França se combateram em três grandes guerras, uma exclusiva, duas conflitos globais, entre 1870 e 1945: em 1950, o Memorando Schuman lançou a semente do primeiro tratado supranacional entre os dois Estados, envolvendo ainda Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e Itália, o Tratado de Paris de 1951 criando a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, base dos tratados ulteriores de Roma, em 1957, criando o Mercado Comum Europeu e outras instituições baseadas no mesmo princípio da supranacionalidade. Mais tarde, De Gaulle e Ludwig Erhard, a despeito de diferentes visões políticas, consolidaram a construção das comunidades europeias.

Outro exemplo, de caráter ainda mais pessoal, foi a relação de confiança construída entre Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt, no contexto do enfrentamento contra as potências fascistas militaristas e expansionistas, com a assinatura da Carta do Atlântico (em agosto de 1941), que estabeleceu a base doutrinal da futura Carta das Nações Unidas.

5) Até onde vai a influência da afinidade pessoal? Ela pode superar divergências ideológicas ou interesses estratégicos? 

PRA: Eventualmente sim, dependendo da gravidade dessas divergências, que podem ser de origem personalista, ou da extensão dos interesses estratégicos, que dependem de fatores mais estruturais, portanto, menos contingentes. Churchill era um liberal, Roosevelt um socialdemocrata; o Reino Unido fazia discriminação comercial contra os EUA e mantinha um império fechado ao comércio e investimentos americanos, o que não os impediu de construir uma relação especial que se manteve durante décadas, sendo terminada mais recentemente, por obra do unilateralismo trumpista. Na redemocratização argentina e brasileira dos anos 1980, a confiança entre Alfonsin e Sarney em muito contribuiu para acelerar o processo de integração entre os dois países. Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso mantiveram uma amizade pessoal que permitiu superar certos entraves diplomáticos e militares entre os dois países, inclusive um acordo para o uso da Base de Alcântara, depois sabotada no âmbito do Congresso brasileiro (mas também visto com desconfiança pelos “falcões” de Washington. Personalidades que se conheceram durante guerras e conflitos entre seus respectivos países podem criar pontes de confiança e de amizade que depois frutificam em situações de normalidade democrática (inclusive entre colonizador e colonizado, por exemplo). 

6) É possível que dois países tenham divergências importantes, mas mantenham uma boa cooperação graças à relação entre seus líderes? 

PRA: Perfeitamente possível, mas os impulsos pessoais precisam ser muito fortes para superar barreiras burocráticas ou situações geopolíticas contrastantes. As relações entre a França e a Alemanha, por exemplo, sempre foram muito difíceis, dado um passado de guerras e até um presente com visões divergentes sobre a união europeia, enquanto projeto de caráter supranacional, e os compromissos atlantistas de cada um dos países; mas, as reuniões de consulta, institucionalizadas, desde muito tempo permite aos respectivos líderes se entenderem sobre a agenda a ser apresentada aos demais membros da União Europeia. Nem sempre isso é possível: o Reino Unido se esforçou durante décadas por ingressar nas CEE, mas as péssimas relações entre os líderes britânicos (desde Margaret Thatcher) e os demais europeus o mantiveram fora do projeto de moeda comum e, subsequentemente, criaram a decisão de se retirar do projeto comunitário.

7) Donald Trump afirmou recentemente que tem "química" com Lula. Em termos diplomáticos, uma declaração como essa tem algum significado prático ou é apenas um gesto político? 

PRA: Não tem nenhum significado prático, nem se trata de um gesto político; é pura hipocrisia, de ambas as partes, para fingir que as coisas podem ir bem entre os dois líderes, a despeito de um oceano de distância entre ambos, radicalmente opostos em tudo, menos talvez no populismo, do qual são ambos adeptos, embora de tipos e por motivos diferentes. Essa suposta “química” não tem nenhuma consistência, pois o personalismo de cada um supera quaisquer outros fatores de possível aproximação. A hostilidade entre os dois presidentes subjaz a quaisquer posturas que pretendam assumir publicamente, para consumo da mídia.

8) Ao mesmo tempo, Trump mantém uma relação próxima com Jair Bolsonaro e sua família. Como isso pode influenciar a relação entre Washington e Brasília? 

PRA: Trump não mantém nenhuma relação próxima com Bolsonaro, apenas pretende usar a predisposição à submissão do brasileiro para seus objetivos pessoais, aliás sempre confusos e sem uma estratégica clara ou eficiente de liderança hemisférica. Trump não tem nenhum respeito por qualquer líder estrangeiro, a não ser de forma suspeita em relação a Putin (por motivos que talvez algum dia venham a público) e em relação a Xi Jinping, pois se trata de um “cachorro muito grande” para impor sua dominação, como tenta fazer com todos os demais líderes democráticos. Portanto, estamos falando de um líder egocêntrico, que só pretende a submissão dos Bolsonaros, envolvendo não a relação institucional entre os dois países, mas negócios nos quais Trump e sua tropa possam tirar vantagens exclusivas. Trump não trabalha para os Estados Unidos, mas para si próprio, o que é exatamente o caso da família subserviente que busca agradá-lo, envolvendo o Brasil nessa relação assimétrica.

9) Essa proximidade com Bolsonaro pode criar algum constrangimento para a diplomacia brasileira ou o governo tende a separar as relações institucionais das relações pessoais? 

PRA: Difícil dizer, pois Trump e Bolsonaro não atuam como estadistas, mas sim como chefes de gangues políticas motivadas por interesses pessoais, não nacionais. As duas diplomacias corporativas são constrangidas de forma constante pelo arbítrio pessoal dos dois autocratas, o primeiro bem mais poderoso, obviamente, do que foi o segundo por ocasião de seu horroroso mandato: teve de recuar várias vezes na sua hostilidade para com a China, no seu endeusamento de Israel e em diversos outros dossiês da agenda externa, pois que estava prejudicando os interesses de importantes setores da economia brasileira. Bolsonaro, por exemplo, foi praticamente obrigado a demitir o seu primeiro chanceler acidental porque ele estava prejudicando os interesses do agronegócio nas relações com a China. Personalidades autocráticas como Trump e Bolsonaro (e seu rebento candidato) ignoram por completo as relações institucionais de cada um dos países, assim como o impacto do arbítrio pessoal sobre as respetivas diplomacias nacionais. Governos personalistas, e arbitrários, como no caso dos dois autocratas em sistemas formalmente democráticos, costumam justamente misturar e confundir as relações de Estado a Estado com suas relações pessoais esquizofrênicas.

10) O Itamaraty costuma trabalhar justamente para evitar que mudanças de governo ou afinidades pessoais comprometam a política externa? 

PRA: Pode tentar, mas por vezes é difícil. Bolsonaro atuou em favor de Trump durante a contestação que este fez contra a vitória de Biden nas eleições de 2020, inclusive no triste episódio do 6 de janeiro de 2021, com a invasão do Capitólio (que provavelmente serviu de exemplo e modelo para a preparação do putsch tentativo de 8 de janeiro de 2023 contra os três poderes em Brasília). Nunca pretendeu enviar um telegrama de cumprimentos pela vitória de Biden e não tinha nenhuma intenção de reconhecer sua presidência: o Itamaraty, já sem o fanático olavista da primeira fase, envidou o máximo esforço para evitar maiores constrangimentos nas relações entre os dois Estados e governos. O mesmo ocorreu já sob Lula, que cometeu a impropriedade – e tremendo equívoco constitucional – de declarar seu apoiou à candidata democrata nas eleições de 2024, o que o Itamaraty jamais recomendaria. Ou seja, Trump já começou o seu segundo mandato com uma disposição negativa em relação a Lula, o que seria totalmente dispensável se o presidente fosse melhor instruído pelo corpo diplomático profissional. Diplomacias excessivamente personalistas, como são, ou foram, as três – Trump, Bolsonaro e Lula – sempre causam problemas, seja à direita ou à esquerda.


Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5397, 11 julho 2026, 6 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (13/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/lideranca-pessoal-no-contexto.html).

 

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