quinta-feira, 30 de julho de 2026

A política externa de Lula 3 e as opções abertas à diplomacia brasileira - Paulo Roberto de Almeida (revista CEBRI online)

 

Análises de Conjuntura PT

A política externa de Lula 3

E as opções abertas à diplomacia brasileira

Padrões geométricos abstratos nas cores da bandeira do Brasil. Imagem: Shutterstock.

        As perspectivas para a política externa de Lula 3 apareciam como especialmente favoráveis, no imediato seguimento das eleições de outubro de 2022: o experimentado presidente brasileiro durante os oitos anos de seus dois primeiros mandatos (2003-2010), grande patrocinador da vitória de sua sucessora, em 2010 e em 2014, provável vencedor das eleições de 2018 – não fosse por um “veto” político imposto pelo alto comando das FFAA, daí ao STF – foi recebido, pela imprensa nacional e internacional, como o “restaurador” de uma diplomacia deformada e conspurcada pelos seguidores do antiglobalismo inspirado nas teorias lunáticas da extrema-direita, difundidas no âmbito da presidência de Trump 1 (2017-2020) e absorvidas pela governança errática que se instalou no comando do país entre 2019 e 2022 justamente. Ainda antes de tomar posse, Lula foi recebido entusiasticamente numa reunião da COP 27 (Cairo, dezembro de 2022) e transmitiu a todos seu engajamento com uma política brasileira decididamente comprometida com a transição energética, a proteção da Amazônia e outras metas estabelecidas no Acordo de Paris de 2015, que tinham sido deliberadamente rejeitadas no governo de Jair Bolsonaro. 

        Os prognósticos favoráveis ao retorno da “diplomacia ativa e altiva” dos seus dois primeiros mandatos foram ainda mais realçados quando, ainda nos primeiros meses de 2023, Lula decidiu convidar seus colegas sul-americanos para duas reuniões no Brasil: a primeira foi anunciada quase imediatamente à posse, destinada a reviver ou reestruturar a Unasul, criada sob os auspícios do Brasil e integrada pelos vizinhos continentais, a despeito mesmo de certas manipulações chavistas (ao retirar um possível secretariado no Rio de Janeiro, como proposto por Celso Amorim em 2004, no que era ainda a Comunidade Sul-Americana de Nações, e financiar, com os petrodólares venezuelanos, a construção de um belo edifício na capital do Equador, também bolivariano, de Rafael Correa). Antes mesmo de receber os chefes de Estado ou de governo em Brasília, Lula recebeu, em uma visita praticamente de Estado, o presidente Maduro, sucessor de Chávez, o que causou certo desconforto entre alguns dos demais convidados. O encontro não produziu os resultados esperados, mas, tão simplesmente, a decisão de remeter o “renascimento” da Unasul a um grupo de trabalho composto pelos chanceleres, que deveriam produzir um relatório em seis meses. O documento nunca surgiu.

        A segunda reunião, dos países membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), no início do segundo semestre, estava destinada a impulsionar objetivos potencialmente contraditórios: o atendimento de compromissos multilaterais de salvaguarda dos recursos naturais da Amazônia e da sua diversidade biológica, ao mesmo tempo em que seria coerente com a transição energética para fontes renováveis, mesmo com o potencial de riquezas imediatamente disponíveis nos velhos recursos fósseis (que aguardavam exploração pelo próprio Brasil nas cercanias da foz do Amazonas). O encontro terminou sem qualquer acordo coerente entre defensores de uma Amazônia preservada e pragmáticos apoiadores da exploração do ouro negro, o que resultou no mesmo insucesso do primeiro encontro.

        Logo em seguida, o ataque do Hamas às localidades israelenses próximas da Faixa de Gaza, em outubro de 2023, deu início ao maior e mais grave conflito entre os apoiadores da causa palestina – entre eles o Irã, via Hezbollah do Líbano e os houthis do Iemen – e as Forças de Defesa de Israel, superando todos os enfrentamentos havidos desde praticamente as guerras dos anos 1960-1970 ou as ondas das diversas intifadas na sua sequência. Lula tomou o partido da causa palestina, como já tinha feito desde 2010 – ao reconhecer a Autoridade Palestina como Estado soberano, criando uma representação brasileira em Ramallah – o que gerou um choque com o governo Netanyahu, ao falar improvisadamente em “holocausto” e em “genocídio”. O Brasil ficou sem representação em Tel Aviv, e as relações diplomáticas bilaterais foram efetivamente rompidas desde então. Novo confronto, entre Israel e os EUA e a República Islâmica do Irã, surgiu na imediata sequência da guerra na Faixa de Gaza, ampliado por bombardeios iranianos contra Israel, seguidos por devastadores ataques contra o Irã e sua cúpula política. Lula, por diversos motivos políticos – entre eles a inclusão do Irã no bloco do BRICS+ –, não escondeu seu posicionamento político, o que, obviamente, criou novas arestas com o segundo governo de Donald Trump, que venceu as eleições de novembro de 2024, antes das quais Lula tinha declarado sua simpatia pela candidata Democrata. 

        O ano de 2025 viu Trump 2 ampliar o desmantelamento do sistema multilateral de comércio, começando com uma ofensiva tarifária dirigida contra praticamente todos os parceiros comerciais dos EUA, primeiro, em abril, numa “arquitetura” graduada segundo os déficits bilaterais – o que deixou o Brasil numa tarifa-base de 10% –, mas que foi em seguida agravada por novas sobretaxas abusivas, à medida que os atingidos relutavam em atender às imposições unilaterais do presidente americano.         No caso do Brasil, a ofensiva comercial se transmutou rapidamente em Blitzkrieg política – impulsionada pela família Bolsonaro – em meados do ano, quando Trump enviou uma carta pessoal a Lula exigindo a extinção do processo e da condenação dos golpistas responsabilizados pelos ataques de janeiro de 2023 aos três poderes federais do Brasil (muito similares aos ataques trumpistas de janeiro de 2021 contra o Capitólio), ao mesmo tempo em que impunha diversas sanções políticas a autoridades do Brasil, inclusive a aplicação da Lei Magnitsky contra o juiz do STF responsável pela condenação do ex-presidente Bolsonaro. As sobretaxas tarifárias alcançaram inacreditáveis 50% ad valorem, o que praticamente inviabilizaria novos fluxos comerciais.

        A nova frente de guerra política e comercial foi parcialmente contornada pela ação de empresários dos dois países envolvidos nos intercâmbios bilaterais e pela oportunidade criada pelo encontro aparentemente fortuito entre os dois mandatários à margem dos debates na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025. Um segundo encontro bilateral, realizado quando de uma reunião de cúpula da Asean, na Malásia, no mês de outubro, permitiu aliviar o conflito potencial, mas uma nova realidade dotada de maior impacto geopolítico se impôs quando da publicação de uma nova estratégia de segurança nacional dos EUA, anunciada pelo governo Trump no mês de novembro, com um foco especial na América Latina. Seus proponentes a equipararam equivocadamente à Doutrina Monroe, de 1823, quando ela não representou senão uma repetição canhestra do Corolário Roosevelt, de 1903.

        Seus efeitos práticos foram imediatamente transpostos em ataques totalmente ilegais contra barcos no mar do Caribe e no Oceano Pacífico, supostamente de traficantes de drogas, que responderiam a um imaginário Cartel de los Soles, cujo chefe seria ninguém outro que o próprio presidente venezuelano Nicolás Maduro, objeto de um imediato sequestro por forças americanas em Caracas (janeiro de 2026). Lula – que já tinha rompido com o ditador chavista na sequência das eleições fraudadas de meados de 2024 – proclamou a óbvia oposição da diplomacia brasileira a esse gesto inusitado nas relações interamericanas desde intervenções similares do governo Reagan em Granada e no Panamá, nos anos 1980. Na sequência, forças de Israel e dos EUA lançaram devastadores ataques contra o Irã, com o objetivo de derrubar o governo teocrático islamista, abrindo uma nova frente de guerra sem perspectiva de cessar-fogo ou de acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, foco de uma nova crise do petróleo, tão impactante quanto os dois choques dos anos 1970.

        Mais relevante do ponto de vista da diplomacia e da política externa do Brasil, assim como de sua própria política interna, consiste na ofensiva política do governo Trump, em parte conduzida pelo Secretário de Estado Marco Rubio, mas impulsionada pelo próprio presidente, no sentido de obter, por pressões abertas e veladas, vitórias eleitorais em diversos países latino-americanos, de molde a concretizar o projeto “Escudo das Américas”, uma espécie de coalizão de governos de direita alinhados explicitamente com o império trumpista. A ofensiva se conecta diretamente ao ambiente fortemente polarizado das próximas eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026, com o indisfarçável apoio de Trump à família Bolsonaro, não hesitando em mobilizar outros atores no seu empreendimento intervencionista (como foi o caso da participação do presidente argentino Javier Milei na convenção partidária que consagrou o candidato do PL, provocando a maior crise diplomática entre o Brasil e a Argentina desde o conflito dos anos 1970 em torno dos recursos hídricos do rio Paraná). Na sequência, o presidente Trump ainda anunciou uma nova ofensiva comercial contra o Brasil, poucos dias depois da imposição de novas sanções tomadas ao abrigo da Seção 301 da Lei Comercial norte-americana, todas elas politicamente motivadas, pois que alegando “comércio desleal” até para regulações brasileiras completamente independentes dos intercâmbios comerciais (como é o caso do sistema PIX de pagamentos, do suposto desmatamento na Amazônia, ou o uso de trabalho forçado no comércio do Brasil com terceiras partes).

        A postura da política externa brasileira no novo contexto de recrudescimento das ações ilegais e das imposições unilaterais do governo Trump contra a postura independente da diplomacia nacional no contexto hemisférico, assim como no quadro mais geral das relações regionais e extrarregionais do Brasil, deve ser vista num contexto desafiador que é relativamente inédito na situação democrática em que vive atualmente o país, talvez só comparável às difíceis escolhas que tiveram de ser feitas nos anos 1930, de ameaças externas e de confrontos provocados por potências expansionistas, cujo desenvolvimento sequencial, não controlado pela própria nação, levou ao envolvimento do país na mais terrível guerra conhecida até aquela conjuntura, de meados do século XX. O mundo vive, atualmente, uma situação de instabilidade nas relações internacionais talvez só comparável às condições prevalecentes naquela conjuntura, na qual os governantes brasileiros tinham de defender os interesses nacionais em face de potências mais poderosas do que as capacidades nacionais.

        Nesse contexto cabe examinar as condições sob as quais deveria ser idealmente definida e conduzida a política externa do país, em consonância com os fundamentos doutrinais da diplomacia brasileira e as possibilidades abertas à definição das principais diretrizes que devem guiar as relações exteriores no quadro da instabilidade criada precisamente pelas grandes potências, ou pelo menos por algumas delas, especificamente as duas grandes potências que estão na origem das guerras atualmente em curso em duas regiões do mundo, na Europa central e oriental e no Oriente Médio. Os fundamentos doutrinais da diplomacia nacional foram sendo cuidadosamente construídos ao longo dos estadistas do Império, depois aperfeiçoados e formalizados pelo trabalho reflexivo e pelas orientações práticas de diplomatas de altas qualidades intelectuais, entre os quais cabe reconhecer as figuras do Barão do Rio Branco e o jurista Rui Barbosa, ambos fornecendo o múnus substantivo com que trabalhou um outro estadista, Oswaldo Aranha, encarregado de definir a melhor condução que cabia imprimir às escolhas de política externa, nas horas mais sombrias dos anos 1930, situação extremamente desafiadora, tanto no ambiente internacional, quanto no ambiente interno, também marcado por profundas divisões ideológicas entre direita e esquerda, ademais de uma governança autoritária que obstou e impediu a ação de forças políticas centristas ou mais moderadas, em consonância com a estrutura social da nação.

        Naquela conjuntura, sob a orientação do estadista Oswaldo Aranha, a diplomacia brasileira imprimiu uma condução às relações exteriores da nação que preservou ao máximo a autonomia decisória de uma política externa marcadamente presidencialista, até o limite no qual as diretrizes práticas conseguiram manter a neutralidade do país em face dos conflitos entre as grandes potências. No momento de maior perigo, quando ameaças externas se concretizaram mediante ataques diretos aos interesses nacionais, a diplomacia soube orientar a política externa para a postura necessária à preservação da independência da nação, indo até o engajamento pragmático nas ações voltadas para tais objetivos existenciais. 

        Na presente conjuntura, cabe uma reflexão sobre as melhores condutas e diretrizes para a política externa, comprometidas com a manutenção da autonomia decisória do país em face dos desafios já colocados à preservação dos interesses nacionais, em princípio, de maneira imparcial e independente vis-à-vis confrontos e choques entre as grandes potências, em função de objetivos vinculados a seus objetivos estritamente nacionais ou imperiais. Tais são as lições dos anos 1930-1940, tal como iluminadas por aqueles fundamentos doutrinais da diplomacia brasileira que ainda guardam consistência para os tempos presentes.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5415: 29 julho 2026

Recebido: 29 de julho de 2026

Aceito para publicação: 30 de julho de 2026

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Dependência ocidental da China no tocante a minerais críticos - Lily Ottinger (China Talk)

 Dependência ocidental da China no tocante a minerais críticos:

China's Other Minerals Monopoly: autonomous mining!
LILY OTTINGER
China Talk, JUL 30
Today’s guest post was authored by Nima Khorrami, a Stockholm-based Research Associate at the Arctic Institute, Centre for Circumpolar Security Studies.
After decades of neglect, Washington has adopted a coherent and “forceful” response to China’s dominance over critical minerals. China controls an estimated 91 percent of global rare earth refining, dominates the processing of a wide range of minerals, and has demonstrated repeatedly that it is willing to weaponise that position. The United States has responded through a range of initiatives and policy packages including Executive Order 14241, the One Big Beautiful Bill Act, and Pax Silica. Add bilateral deals with Australia, Japan, the DRC, and Saudi Arabia, and the result is undeniably a more aggressive and cohesive mineral strategy than the United States has attempted in decades.
The problem is not with any of these agreements and frameworks. Instead, it is with what is systematically absent from them. The entire architecture of American mineral strategy, and indeed the EU’s parallel effort under its Critical Raw Materials Act and RESourceEU, is built around two variables: where minerals are located and who processes them. What it consistently underweights is a third variable that will most likely prove equally consequential over the medium term: who controls the technology that operates the mines themselves. This constitutes the central strategic blind spot in the West’s mineral autonomy agenda because China is not just dominant in mineral processing. Beijing is also rapidly establishing dominance in the operational technology of extraction; the autonomous systems, industrial AI, connectivity infrastructure, and integrated machine intelligence that will define how the world’s future mines will run. Today, we’ll explore China’s dominance in autonomous mining technology and what to do about it.
If that dominance goes unchecked, the US and its allies could succeed in securing access to mineral deposits across friendly jurisdictions and still find those mines dependent on Chinese operational technology to function.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Foreign Policy and International Trade: responding to some questions from José Maihub - Paulo Roberto de Almeida

Foreign Policy and International Trade: responding to some questions

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomat, professor.

Responses to questions from José Maihub

 

Just over a year ago, I had the pleasure of meeting, virtually, and becoming friends with a young intellectual, José Maihub, who has a solid eclectic educational background. He interviewed me following an essentially personal, semi-biographical-intellectual script. The recorded testimony is available on YouTube under the title “Diplomatic Conversations: Paulo Roberto de Almeida’s Journey to Itamaraty,” according to the record I made at the time:

 

4983. “Interview with José Maihub,” Brasília, June 10, 2025, 2 pp. Questions prepared for the interview recorded online on July 2, 2025, from 2:30 p.m. to 5:30 p.m., available from July 11, 2025, on YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=lonmB0ZTvr4). Announced on the Diplomatizzando blog (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/07/entrevista-com-jose-maihub-paulo.html; reposted on January 1, 2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/entrevista-com-jose-maihub-paulo.html). List of Published Works No. 1614.

 

By mid-2026, José Maihub contacted me again for a new interview, this time presenting some written questions, which I will try to answer as best I can, albeit briefly. What follows, therefore, are the questions and my tentative answers.

 

1) In our previous interview, we discussed at length the importance of the figure of Oswaldo Aranha, both in the domestic context and in the realm of international politics. For our English and American readers, as well as those from other countries, what was the significance of Oswaldo Aranha, particularly with regard to relations with what we call the Global North?

 

During the turbulent 1930s, serious challenges to Brazil's national interests, as well as to the autonomy of its foreign policy, were posed to the nation in the context not only of frictions but of conflicts among the great powers of the time: the European imperialisms, first and foremost; the fascist militarist states, secondly—Nazi Germany, Fascist Italy, and militarist Japan, all revisionist and expansionist regimes—and, in a still restrained and increasingly isolationist stance, the American giant. There was a struggle for power, influence, and access to strategic raw materials—including oil, critical minerals, industrial inputs, and food supplies for national consumption—within a framework of the virtual paralysis of normal exchanges between countries, given the scale of the economic crisis and the virtual collapse of payment systems resulting from the Great Depression in which the world was immersed. Brazil, like other Latin American countries, was one of the nations targeted by the powers supplying manufactured goods and demanding raw materials, as well as by those seeking still-available spaces for the transfer of labor, investment capital, and other market resources.

Oswaldo Aranha, one of the leaders of the 1930 Revolution that overthrew the sclerotic regime of the “Old Republic,” had served as Minister of Justice (1930–1931), Minister of Finance (1931–1934), and ambassador to Washington (1934–1937). He resigned from the latter position as soon as he learned of the establishment of the Estado Novo dictatorship in November 1937. Even so, to prevent the government from being occupied solely by representatives of the right sympathetic to the fascist regimes, he assumed leadership of Brazilian diplomacy beginning in March 1038, where he carried out an exceptional effort to establish strong ties between Brazil and the Western democratic regimes—those of Western Europe and, above all, the United States of Franklin D. Roosevelt, with whom he maintained a personal relationship of mutual trust and cooperation, regardless of the Estado Novo dictator's occasional leanings toward the fascist powers.

Oswaldo Aranha decisively inserted Brazil into the inter-American conferences of the interwar period and, with courage, decided to convene an extraordinary conference of the American foreign ministers immediately after the Japanese attack on Pearl Harbor in December 1941, with the European war already underway since September 1939 (and in China since the Japanese attacks of 1937), regarding which Brazil, following the lead of the United States, maintained strict neutrality. The conference, held in Rio de Janeiro in January 1942, immediately pledged solidarity to the nation that had been attacked—with some reservations from countries sympathetic to the Axis, such as Argentina and Chile—and launched a process that would continue throughout World War II, including the Lend-Lease Agreements, the deployment of Brazilian troops to the European theater of war, and cooperation during the final phase of the war: the Bretton Woods Conference on economic issues (1944), the Conference of Tlatelolco in January 1945 in Mexico to align the positions of Latin American countries in the postwar period, and the signing of the UN Charter in San Francisco in June of that same year. In all of these episodes, Oswaldo Aranha’s role, even after leaving the Vargas government in August 1944, was decisive in ensuring Brazil’s stance of close cooperation with the Western democracies.

 

Oswaldo Aranha enjoyed immense prestige among the political class and the Brazilian people, and could, for example, have been chosen president by the Constituent Congress had Getúlio Vargas not sent him to Washington precisely to eliminate that possibility. Likewise, he might have been drawn into a presidential candidacy in 1938 if the electoral process had not been sabotaged by Vargas himself through the dictatorial coup of November 1937. He might also, under an optimistic scenario, have been chosen by the dictator during the final crisis of the Estado Novo to run for the presidency, but he was passed over in favor of one of the military officers most subservient to Getúlio Vargas. He could also have run in the 1950 presidential election, but once again he stepped aside for Vargas, whom he regarded as an “older brother.” Finally, he might also have entered the 1955 race, but the atmosphere of crisis following Vargas’s suicide in 1954, along with the intense political polarization already gripping Brazil between Vargas supporters and opponents, once again kept him out of the contest. By 1960, he was already in a more weakened condition to enter another race; he died that same year, surrounded by the admiration of the majority of the Brazilian population.

My personal speculation, with due respect to all these episodes, is that Brazil—its economy, its politics, and its place in the international system—might have followed very different, more successful trajectories if Oswaldo Aranha had happened to be elevated to the presidency on one of those occasions, even though the chances were, each time, remote or extremely difficult, owing to the erratic course of the political struggle among movements and currents of opinion that were deeply opposed to one another, a situation created by the Estado Novo itself and by the eight-year dictatorship that fundamentally reshaped the national landscape.

 

Curiously, the name of Oswaldo Aranha, the great statesman of the Vargas era and the Republic of 1946, became part of my life even before I acquired any political or international awareness, in my early youth. In 1962, after completing primary school, I began my secondary education at the Oswaldo Aranha State Vocational Junior High School, a new model of full-time education that had recently been established in São Paulo under the Carvalho Pinto administration (1958–1962), shortly after the death of the remarkable statesman in 1960. GEVOA was fundamental to my intellectual development, just as, in the immediately preceding years, the children's library I frequented had been, even before I learned to read. Once I became literate, I eagerly devoured every book during my childhood and early adolescence. Oswaldo Aranha Junior High School led me from children's books to adult reading, taking me directly to the great masters of Brazilian social theory: Caio Prado Junior, Celso Furtado, Florestan Fernandes, and many others. This was also because my teachers had studied under those leading scholars in São Paulo, and they took us to interview the historian Sergio Buarque de Holanda and others. Half a century later, I returned to Oswaldo Aranha Junior High School to give a lecture to the students about who the great statesman from Rio Grande do Sul was, what he accomplished, and what he might have accomplished, having begun as the star of the Revolution of 1930.

My lecture can be viewed through the following presentation delivered on that occasion:

4457. “Oswaldo Aranha: A Brazilian Statesman. The Significance of His Actions for Brazilian Diplomacy, 1930–1960,” Brasília, August 15, 2023, 20 slides. Presentation and lecture, as a member of the first class of the Oswaldo Aranha State Vocational Junior High School (1962–1965), for students of the Oswaldo Aranha School; Principal Maria Maio (+55 11 99866-7448), on August 31, 2023, at 10:30 a.m.

 

2) I believe we both agree that Brazilian diplomacy has not been on a particularly sound path for quite some time. However, we are now presented with a significant opportunity in the form of a historic agreement between the European Union and Mercosur. In your view, is there room for optimism in this scenario?

 

PRA: Yes, and no. The Mercosur–EU agreement was finally signed after 20 years of deadlock in the negotiations—and much of the delay was due to the PT, which in 2005 decided to torpedo the FTAA proposed by the Americans, causing the Europeans to back away—and it has now provisionally entered into force, still pending a favorable vote in the European Parliament and a review by the European Court of Justice regarding any constitutional impediments to the terms of the agreement. This does not, however, prevent new protectionist reactions from either side. On the European side, these have already been felt in the form of environmental conditionalities and a ban on imports of Brazilian beef, on the pretext that it does not meet certain sanitary requirements. On the Mercosur side, some restrictions may possibly arise in certain industrial sectors, or there may be a continued blockage to the full inclusion of government procurement within the scope of liberalization. At the same time, the EU has also signed a trade association agreement with India and may eventually conclude a new agreement with China and other major partners in the so-called Global South.

 

The fact is that the dismantling of the multilateral trading system by Mr. Trump, along with the violations of political multilateralism and international law by Mr. Putin, have created very serious factors of instability and uncertainty in international relations, with the law of force once again prevailing over the force of law. There are echoes of the 1930s in the air, although a third global conflict is unlikely in light of the nuclear factor, which did not exist until the mid-20th century. China has already made it clear to Russia that it will not, under any circumstances, tolerate the use of nuclear weapons in its war of aggression against Ukraine, which already constitutes a reassuring factor amid the current turbulence generated by two autocrats who disdain international law.

Under these circumstances, Brazil needs to strengthen itself economically, which means overcoming the bottleneck of low-quality mass education, a major obstacle to productivity gains and higher levels of competitiveness in the process of integrating more deeply into the global economy by adopting OECD standards for macroeconomic and sectoral policies, especially in the areas of education and public administration.

 

3) What are your principal intellectual references in international trade? You may include both economists and political scientists.

 

PRA: I began my intellectual learning in the field of economics by trying to understand Marxist economics, which in any case seemed insufficient to me, since I already understood that the countries that followed the Marxist economic prescription—socialism moving toward communism—were major failures in terms of economic and social development. During my European exile, after earning a degree in Social Sciences, I completed a master's degree in economic development policies, finishing with a dissertation on foreign trade. It was then that I studied economics more seriously, as well as trade policies, investment, and finance, examining, for example, the impact of the first oil shock (1973) on Brazil and its trade policies. That was when I began studying international trade theory, coming to reject, for example, the unequal exchange hypotheses proclaimed by developmentalist economists from the ECLAC school.

Among the economists I have most admired in the field of international trade is Paul Krugman, who, incidentally, won the Nobel Prize in Economics for his new theory of international trade; it is presented in his book Rethinking International Trade (Cambridge, Mass.: The MIT Press, 1990). But I also returned to Adam Smith and David Ricardo, the father of the theory of comparative advantage, an advance over Adam Smith's theory of absolute advantage. My major work of historical research is The Formation of Economic Diplomacy in Brazil: International Economic Relations in the Empire (2001; 2005; 2017), much of which is devoted to Brazil's foreign trade, an area in which we have never ceased to be protectionist.

 

4) In recent years, a major debate has emerged over whether Brazil should pursue a more traditional diplomatic path aligned with the Western world, for example by deepening its engagement with the OECD, or whether it should instead prioritize greater involvement with the BRICS in order to align more closely with China. In your view, given your extensive experience, what course should Brazil adopt?

 

PRA: I became a socialist at an early age, but I also abandoned the economic illusions of socialism very early on, first embracing a kind of light socialism, and later adopting much of the prescription of social liberalism—that is, a liberal economic orientation tempered by social inclusion policies based on strengthening public education in the early stages of schooling through high-quality instruction. This is the only way to truly develop the nation.

In the field of international economics, I also came to prioritize economic openness and trade liberalization, with full integration into the international economy. It seems obvious that the best way—though not the only one—to achieve sound macroeconomic and sectoral policies is to follow an OECD-style pattern of economic development, even though China has pursued a somewhat different path. It is also a market economy, but one in which the state plays a major guiding role. Yet it is clear that the Chinese cultural tradition—which early on gave rise to a kind of “Weberian state,” based on the rigorous selection of mandarins, that is, public officials engaged in public administration through merit and dedication—greatly helped China in the post-Mao reconstruction of its economy. Although China is governed by a Leninist party, it is in fact a high-quality technocracy refined over decades, during which Marxism played only a very superficial role with respect to the population as a whole, which has remained deeply devoted to hard work and eager to restore the former prestige of the Middle Kingdom, which for centuries was an economy and a society that was highly developed by comparison with European standards before the scientific and industrial revolutions of the seventeenth and eighteenth centuries.

BRICS is a diplomatic Frankenstein that serves primarily the national political interests of the two great autocratic empires of the present day, but it does not constitute, strictly speaking, a model of society and governance suited to Brazil’s needs—a society firmly committed to a Western democratic model. The bloc may offer Brazil some specific opportunities, but it cannot, or at least should not, be the centerpiece of its international engagement, especially since Brazil ends up shaping part of its diplomatic posture around the interests of Russia, a repeated violator of international law and one of the main causes of the current geopolitical instability.

 

5) In your view, Professor Paulo Roberto de Almeida, are we witnessing a new “end of history”? In other words, are we facing a failure of political liberalism, rather than of socialism, as suggested in Fukuyama’s classic thesis?

 

PRA: The “end of History” is an interesting academic debate, but it has little to do with the actual evolution of national political formations and the general patterns of governance throughout the real historical development of concrete societies. There is no failure of political liberalism, since it constitutes an ideal model of political governance, which does not always correspond to the actual trajectory of modern and contemporary societies. Alongside institutional factors that may develop in the political trajectory of certain states—generally those within the civilizational arc of the European Enlightenment—there are also other contingent factors linked to the “passions and interests” of political leaders, to use the title of one of Albert Hirschman's books. In fact, for an excellent book on political sociology about the divergent paths of democracy and dictatorship in major societies over the past centuries, I would recommend reading Barrington Moore Jr.'s Social Origins of Democracy and Dictatorship: Lord and Peasant in the Making of the Modern World.

Regarding Francis Fukuyama's thesis—do not forget the question mark at the end of his article's title—I wrote an article years ago discussing this issue: “The End of History, by Fukuyama, Twenty Years Later: What Remains?” (Brasília, January 13, 2010, 15 pp. Reflections on Francis Fukuyama's thesis and the end of alternatives to liberal market economies.) Published in Meridiano 47 (no. 114, January 2010, pp. 8–17; Academia.edu:https://www.academia.edu/5949002/2101_O_Fim_da_Historia_de_Fukuyama_vinte_anos_depois_o_que_ficou_2010_).

 

6) In your article “Da Geopolítica da Desordem à Opção pelo Caos: um ano de destruição da ordem mundial”, published in Será?, you refer to three “Napoleons.” Who are these three figures? Furthermore, how do the insights of Raymond Aron continue to provide valuable tools for a more cautious and nuanced interpretation of foreign policy?

 

PRA: The three Napoleons correspond to the three autocrats leading today's powerful empires: Putin of Russia, Xi Jinping of China, and Trump of the United States, the latter an autocrat with a fixed term within which to complete his project of dismantling American democracy, which will prove resilient enough to prevent the United States from becoming a true autocracy.

Raymond Aron remains relevant to the discussion not only of the dilemmas of peace and war in the contemporary world, but also of the challenges of maintaining democratic regimes under the pressure of economic, political, demographic, and cultural factors—today even more acutely because of advances in communications and transportation in a truly globalized world. One of my books was conceived with reference to his posthumously published work, Les Dernières Années du Siècle (1983), namely: The First Years of the Twenty-First Century: Brazil and Contemporary International Relations (2002).

 

 

7) Looking back on your intellectual and diplomatic career, what do you feel most proud of?

 

PRA: I came from an extremely modest background, within my family environment, and I essentially developed myself as a committed autodidact, a “bookworm” who learned a great deal from books at first, then through travel and constant study, culminating in the full range of academic degrees earned through great effort and dedication. Regardless of a diplomatic career that occupied me professionally for more than four decades, I can say that I have essentially been a teacher—someone who studied, read, and taught throughout life—and I take great pride in that. I can also say that I willingly give back to society everything I have received from it in terms of learning opportunities: formally, through educational institutions; practically, through the performance of my diplomatic duties; and academically, through scholarly pursuits. My work is widely disseminated and freely available through my information channels.

 

Professor Paulo Roberto de Almeida, I would like to express my sincere gratitude for our intellectual exchanges and for your extensive body of work. It is an honor to have the opportunity to speak with you once again.

 

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5416, July 30, 2026, 8 p.

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Madame IA comenta minhas muitas postagens sobre os problemas da educação no Brasil - via Airton Dirceu Lemmertz

 Comando de ADL:


- A seguir, uma seleção de postagens do blog Diplomatizzando atreladas ao tema/assunto "educação". A apresentação das postagens seguirá a ordem cronológica (considerando ano e mês, mas não dia). Em cada postagem, há: a) o link/endereço da respectiva postagem e b) um resumo gerado pela Gemini (a IA do Google). 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida manifesta um otimismo contido diante do fato de que o meio acadêmico e universitário brasileiro começou a reconhecer a gravidade da tragédia no ensino público básico, embora pontue que a culpa das próprias universidades ainda não tenha sido assumida. PRA introduz uma matéria de Daniela Oliveira sobre debates ocorridos na 62ª Reunião Anual da SBPC, em 2010, na qual especialistas sugeriram um "tratamento de choque" de médio e longo prazo para sanar os problemas estruturais do setor. O painel expôs dados alarmantes, como o fato de 20% do eleitorado da época ser analfabeto ou sem escolaridade, além das péssimas colocações do país no Pisa, altos índices de abandono escolar e infraestrutura docente precária. Para mitigar esse cenário, o professor Nilson Machado defendeu a criação de um mutirão nacional focado na universalização da educação básica. Adicionalmente, sugeriu-se uma reformulação profunda na formação docente, transformando escolas em laboratórios práticos, e a readequação dos recursos mal aplicados para viabilizar reajustes salariais expressivos atrelados à titulação acadêmica. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida abre a postagem tecendo duras críticas à forte influência do pensamento de Paulo Freire na pedagogia nacional, qualificando-a como um "besteirol" deletério e responsável por inviabilizar avanços reais no ensino público básico. O texto transcreve uma matéria do informativo InfoUnB de 2010 sobre reflexões do professor Miguel González Arroyo apresentadas em seminários na UnB. Arroyo reivindica a urgência de estruturar um projeto popular e contra-hegemônico para a Educação do Campo brasileiro, pautado na matriz pedagógica do trabalho coletivo e na autonomia das comunidades rurais precarizadas. O pesquisador adverte contra a herança colonial excludente das frentes hegemônicas que segregam as minorias e defende o papel dos movimentos sociais na disputa por espaços institucionais e no controle social do Estado e das universidades públicas. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida aborda a modalidade de home-schooling (ensino doméstico), pontuando que o método, embora muito comum e regulamentado nos Estados Unidos, é praticamente desconhecido e carece de regulação expressa no Brasil. PRA expressa ceticismo sobre a eficácia imediata do modelo no país devido à falta de uma cultura familiar de acompanhamento rígido, mas defende que a educação domiciliar deveria ser um direito alternativo garantido aos pais insatisfeitos com a qualidade das escolas públicas e sem condições financeiras de pagar o ensino privado. O texto incorpora uma análise jurídica de 2011 feita por Alexandre Magno Aguiar, evidenciando uma lacuna na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e na Constituição, que não vetam a prática explicitamente e respaldam-se na prioridade legal da família para dirigir a instrução da prole. Juridicamente, conclui-se que o ensino no lar não caracteriza o crime de abandono intelectual do Código Penal se houver a devida provisão de conteúdo, cabendo aos órgãos como o Conselho Tutelar apenas fiscalizar o desempenho cognitivo das crianças por meio de exames, sem interferir na escolha pedagógica dos pais. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida critica de forma contundente um artigo de opinião de Priscila Cruz, diretora do Movimento Todos Pela Educação, classificando-o como um texto "completamente vazio" por não debater o conteúdo pedagógico ensinado nas escolas brasileiras. No artigo reproduzido, a autora aponta que o Brasil descumpre o dever constitucional de assegurar o ensino de qualidade, destacando a contradição de termos metade das crianças do 3º ano do ensino fundamental incapazes de ler ou fazer contas simples, enquanto seus pais avaliam as escolas com notas altas. Cruz defende que o país deve se inspirar em nações bem-sucedidas como Finlândia e Coreia do Sul, adotando três posturas centrais: decisão institucional compartilhada com a sociedade, coragem política para romper padrões viciados e implementar propostas inovadoras, e persistência contínua na gestão pública das políticas setoriais. Por fim, ela enfatiza a relevância estratégica das metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação (PNE) e a urgência de tirá-lo do papel através de uma rotina disciplinada na sala de aula. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida contesta a visão de que aportes adicionais de dinheiro têm o poder de sanar de forma automática os problemas sociais, prevendo que a educação nacional continuará pavorosa mesmo sob um volume maior de verbas públicas. PRA classifica o debate orçamentário como pobre e argumenta que a elevação compulsória dos gastos apenas servirá para inflar as burocracias do MEC e abastecer máfias sindicais ligadas à pedagogia freireana, a qual aponta como responsável pelos retrocessos crônicos no setor. O texto transcreve uma matéria do Jornal da Ciência de 2012 abordando as discussões do Plano Nacional de Educação (PNE), na qual o relator Angelo Vanhoni mantinha a meta de investimentos em 8% do PIB frente à pressão de entidades estudantis e da oposição, que exigiam a fixação de 10% do PIB. Enquanto parlamentares petistas defendiam que os indicadores avançavam gradualmente, deputados da oposição apontavam o cenário como inteiramente negativo, marcado pela carência de infraestrutura física nas escolas e pela desvalorização da carreira de professores mal formados. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida abre o texto contestando a decisão de destinar 10% do PIB para os gastos públicos com educação no Brasil, argumentando que a injeção compulsória de verbas apenas servirá para perpetuar um modelo de ensino medíocre e inflar os bolsos de frentes corporativistas. Sob sua perspectiva contrarianista, PRA defende que o avanço estrutural depende inteiramente de reformas profundas nas bases pedagógicas do sistema nacional, o qual define como um "dinossauro" dominado por burocracias e "saúvas freireanas". Em seguida, a postagem reproduz matérias jornalísticas detalhando a aprovação da respectiva meta de 10% pela comissão especial do Plano Nacional de Educação (PNE) na Câmara dos Deputados em 2012. O texto indica que a expansão orçamentária gradual foi fruto de intensa pressão de entidades sociais e relata o ceticismo do então ministro da pasta, Aloizio Mercadante, que rotulou a execução da lei como uma tarefa política complexa e difícil por exigir, na prática, a duplicação em termos reais das verbas executadas. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida contesta a inclinação de intelectuais de culparem unicamente as "estruturas" ou a falta de verbas pela situação calamitosa do ensino público brasileiro, afirmando que a responsabilidade direta também recai sobre professores mal formados e pedagogos freireanos atuantes em sindicatos e no governo. O texto incorpora um artigo de Mozart Neves Ramos, membro do Todos Pela Educação, no qual se defende o aporte de 10% do PIB para o setor e a necessidade urgente de fortalecer o controle social dos recursos educacionais. Ramos traz dados alarmantes mostrando que verbas substanciais do Fundeb e de repasses federais são rotineiramente desviadas pela corrupção local no "meio do caminho", deixando salas de aula em ruínas enquanto deprime as notas do Ideb e os salários do magistério. Diante disso, o autor preconiza que a fiscalização pública e dos Tribunais de Contas deve ir além do aspecto meramente legal, cobrando dos governos as dimensões corporativas de eficiência, eficácia e efetividade para assegurar a real qualidade do aprendizado. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida critica severamente setores da pedagogia brasileira ligados ao freireanismo, acusando-os de manter o atraso e a indigência cultural no ensino público do país. O ponto de partida é a reprodução de um manifesto assinado por diversos professores e pesquisadores de universidades federais e estaduais contrários à possível nomeação de Cláudia Costin para a Secretaria de Educação Básica do MEC em 2012. No manifesto transcrito, o grupo esquerdista acusa Costin de adotar uma visão mercantilista, autoritária e privatizante no Rio de Janeiro, baseada em apostilas prescritas e na concessão de bônus financeiros por desempenho escolar. Os intelectuais contrários afirmam que as políticas propostas pela gestora transformam a escola em uma fábrica de capital humano e retiram o senso crítico dos estudantes. PRA ironiza esses argumentos corporativos e ideológicos, inserindo comentários de leitores que destacam que, com essa mentalidade retrógrada das corporações docentes, o ensino continuará ruim mesmo se o Estado injetar volumes massivos de recursos financeiros. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida aborda o declínio assustador da educação no Brasil, resgatando e expandindo uma detalhada resenha de sua autoria, originalmente escrita em 2006. O objeto da análise é o livro A ignorância custa um mundo, do economista Gustavo Ioschpe, que defende que a verdadeira tragédia nacional reside na péssima qualidade dos ensinos básico e fundamental, e não no ensino superior. Desmistificando o senso comum, os autores apontam que o Brasil já gasta uma porcentagem expressiva do PIB na área, superando a média da OCDE, porém distribui esses recursos de forma ineficiente ao priorizar as universidades públicas, que absorvem quase um terço das verbas para atender a menos de 2% dos estudantes matriculados. Como solução, PRA endossa as propostas de Ioschpe para vincular repasses orçamentários à queda nas taxas de repetência, focar na alfabetização completa logo na primeira série e acabar com a gratuidade universitária para alunos abastados, direcionando essas novas receitas captadas diretamente ao fortalecimento do ensino básico. 

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O texto traz uma análise do movimento Todos Pela Educação (TPE) sobre o Plano Nacional de Educação (PNE) aprovado pela Câmara dos Deputados em 2014. O TPE avalia que, embora o plano apresente uma agenda desafiadora e pontos positivos para o alinhamento de esforços, ele falha em ousadia por focar em pendências do século 20 e não nas transformações do século 21. Entre as críticas específicas, o movimento aponta que a meta de alfabetização fixada até o 3º ano do Ensino Fundamental pode agravar a distorção idade-série, defendendo que o limite deveria ser rigidamente aos 8 anos de idade. Adicionalmente, considera tímida a expansão da educação em tempo integral frente ao financiamento previsto de 10% do PIB e critica o termo "preferencialmente" na meta de educação especial, argumentando que isso enfraquece a inclusão escolar regular. Por fim, destaca a formação e valorização de professores como pontos de partida essenciais e ressalta a urgência de eficiência e transparência na gestão orçamentária para que as metas estabelecidas saiam do papel. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida introduz uma análise do economista Roberto Ellery sobre os gastos com educação, corroborando a visão de que o Brasil gasta muito, mal e de forma totalmente ineficiente. No texto de Ellery, é traçado um paralelo histórico de longo prazo entre o Brasil e a Coreia do Sul, apontando que ambos possuíam rendas per capita semelhantes entre as décadas de 1950 e 1970. A partir dos anos 1980, a Coreia do Sul disparou economicamente, alcançando em 2011 uma renda média três vezes superior à brasileira. Desmistificando a tese comum de que os coreanos enriqueceram apenas por investirem uma parcela maior do Produto Interno Bruto (PIB) no setor, Ellery demonstra com dados da ONU que, entre 1975 e 1983 — período crucial da arrancada —, o governo coreano aplicou uma média de apenas 2,85% do PIB em educação. Em contrapartida, as estatísticas apontam que o Brasil, via de regra, gasta mais do que a nação asiática em termos proporcionais ao PIB, evidenciando que o principal gargalo do ensino brasileiro não reside na escassez de recursos financeiros, mas sim na ausência de uma gestão qualificada e eficiente. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida abre o texto com reflexões críticas e céticas sobre o real valor estratégico de se estruturar canais multilaterais de cooperação educacional com o bloco dos BRICS. Sob uma ótica estritamente utilitarista de custo-benefício e retorno de investimentos, PRA questiona por que o Brasil despende esforços e recursos para tecer cooperações com nações de línguas não tradicionais, como o russo e o chinês, em vez de consolidar e ampliar os históricos laços acadêmicos com potências tecnológicas consolidadas, como Estados Unidos, França, Alemanha e Japão. Em seguida, a postagem transcreve uma notícia do Correio do Brasil de 2015 detalhando o 2º Encontro dos Ministros de Educação dos BRICS em Brasília. O evento reuniu corpos técnicos e resultou na assinatura da Declaração de Brasília, visando a articular o intercâmbio na pós-graduação, criar uma rede universitária integrada e compartilhar metodologias de ensino profissional e técnico alinhadas às demandas locais de mercado. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida ironiza as disputas ideológicas que cercaram o projeto "Pátria Educadora", apresentado em 2015 pelo ministro da SAE, Mangabeira Unger, sob encomenda da presidente Dilma Rousseff. PRA classifica Unger como um acadêmico aloprado com propostas sem bom senso e ataca os pedagogos freireanos, acusando-os de destruir o ensino nacional ao priorizarem jargões abstratos em vez de matérias essenciais. O texto incorpora uma reportagem de Cinthia Rodrigues, da Carta Capital, detalhando a dura reação de educadores e deputados petistas, que acusaram o documento de Unger de ser "conservador, excludente e empresarial" por atropelar as diretrizes do Plano Nacional de Educação (PNE) e privilegiar fundações privadas na sua elaboração. Entre as medidas propostas pelo ministro estavam o Enem digital, uso de novas tecnologias em sala de aula, bolsas de ProUni para formação docente e a reestruturação curricular de colégios particulares. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida abre a postagem criticando asperamente a gestão do Ministério da Educação e a indicação do então novo reitor da UFRJ, Roberto Leher, a quem classifica de forma depreciativa e incompetente, defendendo de maneira extremada a extinção do próprio MEC. PRA transcreve uma entrevista de Leher ao jornal Brasil de Fato, ressaltando discordar integralmente do conteúdo exibido. Na entrevista, Leher denuncia o avanço de fundos de investimento financeiros que adquirem faculdades e geram monopólios focados estritamente na maximização de lucros e orientados pela lógica corporativa. Ele também ataca o movimento Todos Pela Educação, caracterizando-o como uma coalizão da classe dominante para pautar o Estado e converter estudantes em mero capital humano para o capitalismo. Por fim, Leher condena o uso de apostilas padronizadas que engessam o papel intelectual dos professores, tece fortes críticas ao documento governamental Pátria Educadora por visar à formação para o trabalho simples de baixa complexidade e defende a urgência de uma contraofensiva baseada nos fundamentos de uma pedagogia socialista crítica. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida introduz uma entrevista de 2015 com o economista Ricardo Paes de Barros, reforçando que as prioridades máximas do Brasil devem se concentrar estritamente nos ensinos fundamental, médio e técnico. Na entrevista, Paes de Barros aponta que, embora o Brasil pretenda investir 10% do PIB na área, o país possui indicadores educacionais equivalentes a nações com metade de sua renda per capita. Ele classifica o Plano Nacional de Educação como pouco ambicioso e critica duramente o preconceito estatal e ideológico contra a participação do setor privado. Para o economista, a incompetência histórica do Brasil em melhorar o ensino torna a crise educacional mais desafiadora e abrangente do que a própria extrema pobreza, a qual já possui políticas consolidadas de combate. Ele defende a difusão de melhores práticas regionais, a expansão planejada da educação em tempo integral para reduzir desigualdades sociais e o foco em programas domiciliares de apoio à primeira infância, além de criticar distorções no uso das creches públicas e a falta de integração nos programas de transferência de renda. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida introduz um artigo adaptado do libertário Harry Browne que critica duramente a educação estatal, classificando as escolas públicas como agências políticas dominadas por burocratas e sindicatos corporativistas. Sob essa perspectiva, o controle governamental do ensino gera doutrinação ideológica e dependência psicológica, moldando cidadãos para enxergarem o Estado como um benfeitor infalível e essencial. O autor ressalta que o atual modelo é engessado e ineficiente por carecer de concorrência ou incentivos ao mérito docente, preferindo pautas politicamente corretas ao ensino rigoroso de ciências e matemática. Ao traçar um paralelo com a indústria de computadores, o texto ilustra que o mercado livre e desregulamentado gera produtos progressivamente melhores e mais baratos, enquanto o monopólio estatal da educação encarece continuamente o serviço e destrói a sua qualidade básica. Em contrapartida, a privatização total e a ampla liberdade de empreendimento criariam escolas dinâmicas, diversas e focadas estritamente na real satisfação das famílias e consumidores. 

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O texto reproduz uma análise de Felippe Hermes que desconstrói a ideia de que o avanço educacional depende apenas do aumento de verbas, demonstrando ineficiências estruturais por meio de dados estatísticos. O autor demonstra que o Brasil gasta 6,1% do PIB no setor, superando vizinhos mais bem colocados no PISA, mas direciona proporcionalmente recursos excessivos ao ensino superior em detrimento da base. Entre as principais distorções, destaca-se o excesso de burocracia, com uma média inédita de 1,5 funcionário administrativo para cada professor, o que consome bilhões que poderiam financiar salários docentes substancialmente maiores. Adicionalmente, o artigo aponta desequilíbrios orçamentários graves em universidades que gastam mais de 100% de suas receitas com pessoal, uma taxa alarmante de 38% de analfabetismo funcional entre os universitários e o fato de que apenas 0,6% das escolas brasileiras possuem infraestrutura ideal. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida critica o Plano Nacional de Educação (PNE) de 2014, classificando suas metas como irrealistas e criadas "para inglês ver" diante da incapacidade governamental de cumpri-las. O texto transcreve uma reportagem do G1 sobre as sete prioridades apresentadas em 2019 pelo então ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, que incluíam alfabetização baseada em ciência cognitiva, implementação da BNCC, renovação do Fundeb, foco em ensino médio profissionalizante, fomento a escolas cívico-militares, educação especial (Libras) e formação docente. Das sete prioridades ministeriais, cinco tangenciam metas do PNE. A matéria salienta que a gestão ignorou o plano formal em discursos e que, até 2018, o Brasil havia atingido apenas uma das 20 metas do PNE (a de titulação de mestres e doutores no ensino superior), estando muito distante de cumprir os objetivos legais de alfabetização infantil, valorização salarial dos professores e triplicação das matrículas no ensino técnico. 

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O diplomata Paulo Roberto de Almeida reproduz um artigo da jornalista Milena Buarque que celebra os 120 anos do nascimento de Anísio Teixeira, intelectual baiano basilar na estruturação do modelo de escola pública, gratuita, laica e de qualidade no Brasil colonial. O texto sublinha que as teses reformistas de Teixeira, firmadas na década de 1930 com o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, enfrentaram forte repulsa da Igreja Católica e de frentes conservadoras, as quais rotularam o projeto de comunista e imoral por prescrever classes de gêneros mistos. Ao longo da sua fecunda vida pública, ele planejou instituições de vanguarda como a Universidade do Distrito Federal, a Escola Parque e a UnB, além de presidir o Inep e a Capes. Por fim, especialistas ouvidos ponderam que o cerne excludente do ensino básico persiste como um gargalo atual, refletido no analfabetismo funcional crônico, no desprestígio da cultura letrada e na precarização de professores de redes estaduais sob o regime de trabalho temporário. 

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Gemini AI, apresente os "pontos/aspectos em comum" das respostas nesta linha de interações. Cada "ponto/aspecto em comum" deverá ser apresentado em um parágrafo diferente; apresente uma análise crítica. 

A convergência das análises do blog Diplomatizzando demonstra que a crise educacional brasileira é de natureza estrutural, gerencial e ideológica, e não financeira.
1) O Mito do Financiamento e a Ineficiência Crônica do Gasto:
O principal ponto de convergência entre os textos é a desconstrução da tese de que o avanço do ensino depende estritamente da elevação de verbas. O repositório documental demonstra que o Brasil direciona fatias robustas do PIB para o setor — superando vizinhos latino-americanos mais bem colocados em exames internacionais —, mas dilapida esses recursos em burocracias hipertrofiadas e no financiamento desproporcional do ensino superior. Sob uma ótica crítica, essa dinâmica evidencia a falência gerencial de governos que utilizam o orçamento como um escudo retórico, ignorando métricas básicas de custo-benefício e perpetuando a precariedade física e humana na base do sistema de ensino.
2) A Captura Ideológica e o Desprezo pelas Competências Básicas:
Outro aspecto recorrente é o combate contundente à influência da matriz pedagógica freireana e ao corporativismo dos sindicatos de professores, apontados como os reais vetores da indigência cultural do país. As postagens convergem na denúncia de que o ambiente escolar foi capturado por jargões sociológicos abstratos e disputas político-partidárias, relegando a segundo plano o aprendizado rigoroso de disciplinas fundamentais como português, matemática e ciências. Uma análise crítica desse cenário revela como o dogmatismo ideológico sabota a função primordial da escola pública, convertendo o espaço que deveria universalizar o conhecimento letrado em uma fábrica de analfabetismo funcional.
3) A Ineficácia Estatal e a Cultura de Metas Retóricas:
Os textos convergem na desconstrução crítica dos sucessivos Planos Nacionais de Educação (PNE) e das reformas ministeriais, rotulados como peças de ficção jurídica criadas "para inglês ver". O blog expõe o abismo histórico entre a ambição das leis e a incapacidade do Estado de aplicá-las na prática, o que resulta no descumprimento crônico das metas de alfabetização infantil, valorização docente e permanência do estudante na sala de aula. Do ponto de vista crítico, essa desconexão reflete o salvacionismo demagógico de burocratas que celebram conquistas formais e legislativas no papel, mas abdicam de implementar mecanismos rígidos de responsabilidade fiscal, cobrança por desempenho e avaliação de resultados. 
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End

Deputada Argentina Marcela Marina Pagano escreve a Lula para se desculpar pelo comportamento do presidente Javier Milei no Brasil

 26/07/2026

Deputada argentina escreve carta histórica a Lula e pede desculpas em nome do seu povo

Buenos Aires, 26 de julho de 2026

Ao Excelentíssimo Senhor Presidente

da República Federativa do Brasil

Senhor Luiz Inácio Lula da Silva

Palácio do Planalto — Brasília, D.F.

Senhor Presidente:

Escrevo-lhe na minha condição de Deputada da Nação Argentina, isto é, como integrante de um dos três poderes do Estado que, em nosso sistema republicano, expressa de maneira direta e imediata a vontade do povo. Não falo em nome do Estado argentino: a condução das relações exteriores cabe ao Poder Executivo, e não pretendo usurpar qualquer competência. Falo em nome da parcela do povo argentino que me confiou sua representação e atrevo-me a dizer, em nome de uma maioria silenciosa que viu com vergonha e dor a forma como, nos últimos tempos, foi tratada a nação amiga que o senhor preside.

Venho lhe pedir desculpas.

Faço isso com o desconforto de quem pede desculpas por algo que não cometeu, mas com a convicção de que há silêncios que acabam se tornando consentimento. Um país que se cala diante da ofensa feita em seu nome torna-se, com o tempo, autor dessa ofensa. Não é o meu caso, e não quero que seja o da Argentina.

I. A distinção que nossos povos sempre souberam fazer

Permita-me começar pelo essencial. Um Estado não é um governo, e um governo não é um homem. As nações são entidades históricas: duram mais que os mandatos, mais que as conjunturas e, certamente, mais que os destemperos.

O que foi dito não representa a República Argentina. Não representa a sua tradição diplomática, uma das mais antigas e respeitadas do continente. Não representa a sua Chancelaria, seu Congresso, suas províncias de fronteira, seus industriais, suas universidades nem as suas famílias. Representa um homem em um determinado momento. É lamentável — digo isso sem rodeios — o papel institucional que o Presidente da Nação Argentina desempenhou nesse episódio, porque a investidura não é propriedade de quem a exerce: é um empréstimo que o povo faz e que exige moderação.

Mas também sei, Senhor Presidente, que o senhor conhece essa distinção melhor do que ninguém. O senhor foi operário antes de ser presidente; conheceu a fome antes dos palácios; conheceu a prisão e dela saiu sem rancor para governar para todos. Percorreu o mundo e a história em medida suficiente para não confundir uma ofensa pessoal com uma política de Estado.

II. Da rivalidade à fraternidade: duzentos anos de aprendizado

Nossa amizade não foi um presente da geografia. Foi uma construção trabalhosa e, justamente por isso, tem valor.

Nascemos em lados opostos. Fomos as fronteiras móveis de dois impérios que disputaram durante séculos a foz do Prata: desde Tordesilhas até a fundação da Colônia do Sacramento, desde o Tratado de Madri até as campanhas na Banda Oriental. Fomos, depois da independência, adversários em uma guerra que terminou, em 1828, com a criação de um Estado-tampão entre ambos. E também compartilhamos a memória incômoda de uma aliança bélica sobre a qual a história americana tem sido severa — e com razão.

Entrado o século XX, a rivalidade assumiu a forma de uma corrida naval: o Brasil lançou seus encouraçados, e a Argentina respondeu com os seus. Dois países pobres, com povos que careciam de escolas e hospitais, gastando fortunas em blindagens destinadas a apontar umas para as outras. É a imagem mais eloquente do que acontece quando duas nações irmãs escolhem a desconfiança.

E então começamos a aprender.

Aprendemos em 1979, quando a disputa pelo aproveitamento do rio Paraná — Itaipu e Corpus —, que durante anos pareceu insolúvel, encontrou seu caminho no Acordo Tripartite. Dois países que discutiam a água descobriram que a energia compartilhada rendia mais do que o litígio.

Aprendemos em 1982, e nós, argentinos, não esquecemos nem esqueceremos jamais. Quando a Argentina rompeu relações com o Reino Unido, foi a República Federativa do Brasil que assumiu a representação dos interesses argentinos em Londres. Na hora mais sombria da nossa história contemporânea, quando enterrávamos nossos filhos no Atlântico Sul, o Brasil esteve ao nosso lado. Não com declarações: com fatos. Há dívidas que um país nunca quita, e essa é uma delas. Eu a reconheço hoje, em nome dos que a lembram e dos que a ignoram.

Aprendemos, sobretudo, em 1985. Quando ambas as nações recuperaram as suas democracias, Raúl Alfonsín e José Sarney encontraram-se em Foz do Iguaçu, sobre a ponte que leva o nome de Tancredo Neves, e assinaram a Declaração que deu início à integração. Aquilo não foi um acordo comercial: foi uma decisão civilizatória. Dois países que haviam passado um século e meio medindo forças decidiram que a sua segurança nunca mais dependeria da fraqueza do outro.

Dali surgiu o Programa de Integração e Cooperação Econômica de 1986, o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento de 1988 e uma obra que o mundo inteiro estuda e que nenhum outro par de nações conseguiu realizar: a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC). Dois Estados com programas nucleares avançados renunciaram voluntariamente à desconfiança mútua e se abriram à inspeção recíproca. Ninguém nos impôs isso. Nós decidimos. Em um planeta que hoje volta a falar a linguagem da proliferação e da ameaça, a ABACC continua sendo o melhor argumento moral que a América do Sul pode apresentar ao mundo.

E dali surgiu, em 1991, o Tratado de Assunção. O Mercosul, com todas as suas imperfeições — que são muitas e que, como legisladora, não me cabe dissimular —, é a tradução institucional de uma ideia simples: o destino dos nossos povos se decide junto, ou não se decide.

Esse é o patrimônio, Senhor Presidente. Duzentos anos para passar dos encouraçados às inspeções recíprocas. Nenhuma frase pronunciada no calor de um momento pode ter autoridade para dilapidá-lo.

III. Porque somos parceiros: a economia dos fatos

Quem acredita que as relações internacionais são uma questão de simpatias ideológicas jamais examinou uma planilha de comércio exterior.

O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina. Não um entre muitos: o primeiro.

Nosso intercâmbio bilateral é medido em dezenas de bilhões de dólares anuais e sustenta uma rede produtiva que nenhuma outra relação externa consegue reproduzir.

E aqui está o ponto decisivo, aquilo que distingue o Brasil de todos os demais destinos: é o mercado que compra da Argentina aquilo que a Argentina fabrica. Para outros mercados vendemos grãos, minerais e energia; bens valiosos, mas que não exigem operários qualificados, engenheiros nem cadeias de fornecedores. Ao Brasil vendemos automóveis, autopeças, máquinas agrícolas, produtos químicos e plásticos, alimentos industrializados, medicamentos. Vendemos, em suma, trabalho argentino com valor agregado.

A indústria automobilística é o exemplo mais evidente: a esmagadora maioria dos veículos que a Argentina exporta tem um único destino, e esse destino é o Brasil. Cada operário de Córdoba, Zárate, El Palomar ou Santa Fé tem seu emprego ligado a essa corrente. Quando a relação bilateral esfria, não é uma abstração diplomática que esfria: esfriam linhas de montagem, desligam-se turnos, esvaziam-se os refeitórios das fábricas.

E trata-se de um comércio de mão dupla. A Argentina também é um mercado central para a indústria brasileira, para sua produção de bens de capital e de consumo durável. Somos, um para o outro, aquilo que nenhum parceiro extrarregional pode ser: o cliente que compra manufaturas, o vizinho que compra trabalho.

A isso se somam a passagem fronteiriça terrestre mais movimentada da América do Sul, em Paso de los Libres-Uruguaiana; uma integração energética construída ao longo de décadas; e o fato, nada desprezível, de que os argentinos são, ano após ano, o principal contingente de visitantes estrangeiros do Brasil, enquanto milhões de brasileiros escolhem nossas montanhas e nossas cidades.

IV. E por que, além disso, somos irmãos

Mas seria mesquinho reduzir tudo isso a um balanço comercial. Há algo que vem antes dos números.

Há famílias argentinas com sobrenomes brasileiros e famílias brasileiras com sobrenomes argentinos. Há médicos formados em nossas universidades atendendo no Brasil e estudantes brasileiros que se graduam em Buenos Aires, Córdoba e La Plata. Há uma fronteira de mais de mil quilômetros onde a nacionalidade se dilui no cotidiano, onde o chimarrão cruza em uma direção e o café na outra. Há uma música que atravessou o rio sem pedir licença a ninguém. Há uma rivalidade futebolística que é, na verdade, a forma mais honesta e mais alegre que dois povos encontraram para dizer que precisam um do outro.

Não há dois países no mundo que compitam com tanta paixão e, ao mesmo tempo, se queiram com tanta naturalidade.

V. O pedido

Por isso, Senhor Presidente, este é o coração da minha carta.

Peço-lhe desculpas em nome dos argentinos e das argentinas que não se reconhecem nessas palavras, e que são muito mais numerosos do que se imagina.

E peço-lhe algo mais, apelando à sua experiência, à sua trajetória e à visão geopolítica que o mundo lhe reconhece: deixe isso passar.

Sei o que estou pedindo. Peço magnanimidade, que é a mais difícil das virtudes políticas, porque exige que quem tem razão renuncie a cobrá-la. Mas também sei que a magnanimidade é exatamente aquilo que distingue um estadista de um governante. Os governantes administram agravos; os estadistas administram séculos.

As ofensas de um homem não devem transformar-se na política de um Estado. O agravo de um único dia não deve determinar o rumo de duas nações que levam…

…duzentos anos aprendendo a gostar um do outro. Se isso se cristalizar, não pagará quem o provocou: pagarão o operário da fábrica de autopeças, o produtor das missões fronteiriças, o estudante, o caminhoneiro que cruza a ponte ao amanhecer, o pequeno empresário de ambos os lados do rio. Pagarão pessoas que jamais disseram uma palavra ofensiva contra ninguém.

Nossos povos fizeram bem o seu trabalho. Construíram confiança onde havia desconfiança, integração onde havia fronteira armada, inspeção recíproca onde havia suspeita nuclear. Não permitamos que a imperícia de uma conjuntura desfaça a obra de gerações.

VI. Compromisso

Não venho apenas pedir. Comprometo-me, no âmbito que me corresponde, a trabalhar pela reconstrução do vínculo: na Câmara dos Deputados da Nação, no diálogo interparlamentar, na agenda do Parlasul e em cada instância onde a diplomacia legislativa possa reparar o que a diplomacia presidencial danificou. Os parlamentos existem, entre outras coisas, para isso: para sustentar os povos quando os governos os descuidam.

A Argentina continuará existindo depois deste governo, assim como o Brasil continuará existindo depois do seu. É a essa Argentina permanente — a de Foz do Iguaçu, a da ABACC, a que não esquece quem a representou em Londres em 1982 — que pertenço e em cujo nome lhe escrevo.

VII. Palavras finais

Há quarenta anos, dois presidentes apertaram as mãos sobre uma ponte. Nenhum dos dois está mais vivo. Mas a ponte continua ali, e todos os dias por ela passam caminhões carregados de trabalho, ônibus cheios de estudantes, famílias que vão conhecer seus netos do outro lado. Essa ponte é mais forte do que qualquer insulto, porque não foi construída por um governo: foi construída por dois povos que decidiram deixar de temer um ao outro.

Eu acredito, Senhor Presidente, que as nações se conhecem de verdade nas horas difíceis. O Brasil conheceu a Argentina em 1982 e não lhe soltou a mão. Peço que também não a solte agora, quando a ofensa veio, dolorosamente, da nossa própria casa. Os povos nem sempre escolhem os governos que merecem, mas sempre merecem algo melhor do que pagar por seus erros.

Algum dia este episódio será uma nota de rodapé na grande história de nossos dois países. Depende do senhor, em boa medida, que seja apenas isso: uma nota de rodapé. E depende de nós, argentinos que não nos resignamos, demonstrar-lhe que do outro lado do rio continua vivendo o povo irmão de sempre, aquele que chora suas derrotas futebolísticas, celebra seus carnavais e jamais esquece quem o acompanhou quando estava sozinho.

Que Deus guarde o povo brasileiro. Que a história nos encontre, como em Foz do Iguaçu, do mesmo lado da ponte.

Receba, Senhor Presidente, juntamente com minhas desculpas, o testemunho da minha mais alta consideração e do sincero afeto que o povo argentino dedica ao povo brasileiro.

MARCELA MARINA PAGANO

Deputada da Nação Argentina


Bloco Coerência — Honrável Câmara dos Deputados da Nação

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