sábado, 31 de dezembro de 2011

Balanços de Final de Ano: um exercício interminável - Paulo Roberto de Almeida


Balanços de Final de Ano: um exercício interminável

Paulo Roberto de Almeida

Pretendo, neste que deve ser o último trabalho do ano de 2011, tecer, em primeiro lugar, algumas considerações sobre o que consegui realizar no ano que agora se conclui; alinhar, em seguida e ainda que brevemente – pois a lista é muito longa – os trabalhos que tencionava fazer em seu decurso – e que podem representar alguma frustração ou sentimento de carência em vista do que deveria ter feito; por fim, relacionar alguns dos trabalhos que pretenderia empreender (e de preferência terminar) ao longo de 2012.
Começo, no entanto, corrigindo de imediato o subtítulo deste trabalho: nenhum exercício acadêmico – desses a que me obrigo voluntariamente desde que me conheço como pessoa razoavelmente dedicada aos estudos, à reflexão e à escrita – é propriamente interminável, mesmo um simples balanço como este aqui. Uma avaliação deste tipo termina quando já não temos mais o que listar como realizações, ou quando já não temos mais capacidade de pensar, de formular esquemas tentativos e de realizar projetos que nos aparecem como relevantes. Não creio que o sentimento de finalização pertença ao “universo” que eu frequento, sequer no domínio do imaginário: estou sempre pensando em fazer três ou quatro trabalhos ao mesmo tempo, lendo três ou quatro livros ao mesmo tempo, e planejando iniciar outros, na fila, tão pronto possível. (Já calculei, aliás, que necessitaria, por cima, de mais ou menos 150 anos adicionais para começar e terminar de ler tudo o que tenho em mente, à vista, tudo o que está disponível nas bibliotecas.)
Desse meu modesto ponto de vista, tenho sido particularmente feliz em meus empreendimentos de caráter acadêmico, os quais, aliás, realizo à margem de qualquer obrigação propriamente acadêmica, alheio a qualquer finalidade prática e à margem de qualquer atividade profissional em que possa estar funcionalmente engajado. Balanços de final de ano podem até ser “termináveis”, no sentido em que nos atemos, simbolicamente, a um calendário gregoriano que regula outras atividades sociais – a própria vida acadêmica no Brasil, o orçamento fiscal, a declaração de imposto de renda, etc. –, mas é claro que o fluxo da produção intelectual – se ele é verdadeiramente livre, como no meu caso – não conhece interrupções, nem sofre de restrições mentais ou meros impedimentos materiais: podemos até estar limitados ao ciclo circadiano das horas, mas eu costumo mesmo trabalhar fora do alcance da luz do dia, na calada da noite, e isto por semanas a fio e independentemente das estações do ano, das condições e do local de trabalho.
No que se refere especificamente a balanços restritos ao ano calendário, é claro que estamos pensando naquilo que conseguimos realizar ao longo do ano – e que pode constituir motivo de justo orgulho para nós, no caso para mim – (sem esquecer as bobagens que cometemos) e já projetando as maravilhas que faremos no ano que logo começa. Acho que sou assim, embora seja mais crítico do que o normal em relação ao que já fiz – e estou sempre tentando encontrar erros e omissões nos trabalhos recém terminados, ainda mais quando acabam de ser publicados – sempre sou irremediavelmente otimista quanto ao que vou conseguir fazer no futuro imediato, projetando mais trabalhos do que é humanamente possível terminar em prazos razoáveis.
Enfim, e para terminar esta já longa introdução, sou um pouquinho exigente (comigo mesmo, e com os outros também) e um tantinho perfeccionista no que se refere à forma e ao conteúdo dos meus trabalhos, o que às vezes representa motivos de angústia, para mim e para meus editores, já que estou sempre querendo corrigir, completar, ampliar trabalhos entregues, deixá-los atualizados até o último minuto da conferência e dos eventos correntes. Mania doentia, talvez, mas que me mantém permanentemente ligado às fontes de informação – elas são milhares hoje em dia, com essas maquinetas tipo iPad, iPhone, laptops, sempre conectados – e às últimas análises dos especialistas mais reconhecidos em cada área (e elas são muitas, também). Não sei se conseguirei me livrar dessa “obsessão”, mas se for como a mania dos livros, trata-se de uma loucura talvez sadia (a gentle madness, como já a chamou um desses maníacos por livros e leituras).

O que fiz de útil, ao longo de 2012?
No plano estritamente contábil, alguns números talvez sirvam para impressionar os incautos, os improdutivos ou preguiçosos: comecei o ano pelo trabalho número 2.234 e consegui alcançar o número 2.348, o que perfaz, portanto, numa perspectiva puramente quantitativa, um total de 114 trabalhos, ou seja, 9,5 trabalhos por mês, ou um trabalho a cada 3 dias, aproximadamente. Esse tipo de contabilidade não leva em conta, porém, as dimensões de cada trabalho, e elas são as mais variadas possíveis. Existem tanto os esquemas ou comentários de uma ou duas páginas, como livros inteiros, com quase 400 páginas (embora elaborados parcialmente ao longo de vários meses, ou como resultado de revisão de trabalhos anteriores). O total de páginas escritas elevou-se a 1.397, ou seja, quase 1.400 páginas, das quais talvez se devesse amputar 400 páginas, aproximadamente, que correspondem ao livro Relações Internacionais e Política Externa do Brasil (LTC), já que grande parte do seu conteúdo foi sendo elaborada parcialmente ao longo dos meses precedentes, e muitas vezes já foi contabilizada previamente em algum momento. Em qualquer hipótese, 1.000 páginas redigidas representam 83 páginas por mês (mais de 116 na alternativa maximalista), ou quase três páginas por dia, contando sábados, domingos e feriados. Uau!: eu deveria receber por página, não sob a forma de salário mensal...
Isto quer dizer que estou o tempo todo escrevendo, rabiscando, completando coisas que tinha deixado parado por certo tempo. Sim, e isto é importante esclarecer: quando eu me refiro à contabilidade dos trabalhos, estou mencionando apenas os trabalhos completos, ou seja, aqueles nos quais coloquei um ponto final, numerei e incluí na lista de trabalhos originais – tem uma outra, apenas dos publicados, cronologicamente, também – e não a tudo o que eu escrevi, rabisquei, esquematizei, mas não completei. Impossível calcular o número de páginas, pois existem textos incompletos em dezenas de pastas identificadas apenas pelo nome genérico de algum trabalho que pretendo completar algum dia (às vezes isso pode demorar anos, na melhor das hipóteses, meses). Em outros termos, o volume de papel sujo – maneira de dizer – é, portanto, muito maior, e daria para completar uma volta à terra, se alinhadas as páginas uma a uma, para repetir um slogan velho e sem graça (enfim, quem souber essa medida, pode multiplicar meu número de páginas pelos centímetros do formato A4, e ver até onde eu “voaria”). Enfim, para terminar com esta contabilidade maluca, caberia dizer que cada trabalho tem, em média, 9 páginas, mas a variação entre eles é muito grande.
Por fim, apenas para completar essas estatísticas chatas, tampouco estou considerando tudo o que escrevi, como posts, introdução a postagens de trabalhos de terceiros e comentários meus, diretamente num dos meus blogs de trabalho e de divertimento, sem mencionar correspondência eletrônica, centenas de mensagens, algumas das quais representando algum tipo de elaboração intelectual. Ufa!. Chega! Mas, não sem antes tecer algumas breves considerações sobre os trabalhos produzidos, no plano agora mais qualitativo do que quantitativo.
Percorrendo agora a lista de trabalhos completados e assinados – será que tem algum clandestino?, ou esquecido? – constato o seguinte. A produção mais significativa foi, obviamente, o livro mencionado anteriormente, que deveria ser uma simples terceira edição de minha primeira obra de relações internacionais, mas que terminou sendo um livro inteiramente revisto e reformulado, com cerca de um terço de aproveitamento de ensaios anteriores (mas todos revistos e atualizados), e muita coisa nova, que foi sendo elaborada ao longo dos meses precedentes, sob a forma de artigos, palestras, aulas, reflexões isoladas sobre obras alheias e temas do momento.
 Mas antes de completar esse livro, que só teve versão definitiva no segundo semestre, comecei o ano com um trabalho em Francês sobre a historiografia econômica brasileira (ainda não publicado na França, ao que eu saiba), depois feito também em versão revista em Português; continuei (depois de vários pequenos trabalhos de caráter mais conjuntural, ou de oportunidade) com uma análise de nossa patética oposição política (publicado na mesma revista em que figurou um muito discutido ensaio de FHC sobre a mesma oposição, no qual ele tinha uma fatídica frase sobre o “povão”). Também continuei a escrever sobre os antiglobalizadores inconsequentes, a despeito de já ter fechado um livro sobre esses malucos no ano anterior (mas publicado também em 2011).
Dois dos trabalhos mais importantes que fiz em 2011, representando considerável esforço analítico e alguma pesquisa quanto aos dados e argumentos a serem desenvolvidos, foram sobre o Mercosul, o primeiro uma reconsideração há muito tempo refletida sobre se o Mercosul poderia ser reversível (ou modificável, de alguma forma), o segundo um amplo painel histórico sobre seu desenvolvimento, que renderam, ambos, pequenos “filhotes” sob a forma de pequenas notas parciais organizadas em torno de suas distintas partes. No momento em que escrevo este balanço, estou tentando, justamente, terminar um terceiro trabalho sobre o Mercosul, de caráter prospectivo, que no entanto será terminado apenas nos primeiros dias de 2012.
Também continuei minha série de “clássicos revisitados” – na qual já figuram um Manifesto Comunista, Maquiavel e Tocqueville atualizados para o Brasil e algumas outras pequenas imitações – elaborando um “Sun Tzu para diplomatas” (atenção, não é a “arte da guerra” para diplomatas), bem como várias peças de minha série de “minitratados”, sempre com motivos mais para a comédia do que para o drama (embora devesse considerar esse aspecto, também, algum dia); em todo caso, elaborei considerações mais ou menos bem humoradas sobre a imaginação, a reencarnação, as improbabilidades, os desencontros, os reencontros, as corporações de ofícios, o inusitado, as inutilidades burocráticas e, finalmente, sobre as dedicatórias; ficou faltando um minitratado sobre a subserviência e um outro sobre as consequências involuntárias, já pensados, ou parcialmente escritos, mas ainda não terminados. Como sempre aceito sugestões quanto a novos temas de minitratados, tanto quanto para novas “falácias acadêmicas”, de cuja série só compus um único exemplar em 2011, sobre o modo repetitivo de produção do marxismo vulgar no Brasil (certamente por falta de tempo, pois justificativas para examinar o manancial de falácias que emerge de nossas universidades não faltam, ao contrário).
Elaborei diversos trabalhos sobre a política externa brasileira, sobre as políticas públicas em geral (vários deles diretamente no blog, depois ampliados de maneira mais reflexiva) e alguns capítulos de livros (ainda não publicados). Sim, também terminei um outro livro, de introdução ao tema da integração regional, que me deu bastante prazer ao selecionar os temas que desenvolvi, embora também uma grande angústia, já que o livro tem perfil paradidático e foi limitado em suas dimensões, o que me obrigou a ser sintético e um tanto quanto elementar em certas discussões. Deve ser publicado em 2012, espero.
Coloquei-me no lugar de certos personagens políticos, escrevendo discursos inusitados, e que eles jamais pronunciarão – mas bem que deveriam, pois o mundo, as pessoas, e o Brasil, seriam melhores e mais felizes se eles se pautassem pela minha “ajuda”. Comecei a psicografar as “memórias” do Barão do Rio Branco, o que me lembra que preciso terminar um trabalho mais sério sobre sua diplomacia econômica, para um grande seminário que ocorrerá em 2012, no quadro das comemorações oficiais dos cem anos de sua morte, ocorrida em fevereiro de 1912.
Também comentei diversos eventos correntes e fatos da atualidade – como, por exemplo, o impacto dos wikileaks para as relações internacionais – e atendi a inúmeros convites para comentar problemas correntes. Dei entrevistas, fiz pequenas e grandes resenhas de livros (inclusive para revistas estrangeiras) e apresentei livros e fiz prefácios; também dei parecer sobre artigos submetidos (recusando vários), sobre teses e ajudei em alguns projetos (oralmente e por escrito; mas isso não conta, salvo um ou outro exemplo).


Inúmeras coisas, a começar pelo segundo volume de minha projetada trilogia sobre a diplomacia econômica brasileira, que deve cobrir o período da República Velha e da era Vargas (1889-1945), em função do qual já coletei muito material, mas ainda não encontrei lazer, tempo e disposição para sentar e escrever (inclusive porque sou dispersivo, aceito muitos convites, e acabo me distraindo com bobagens infantis); espero poder avançar um pouco nesse empreendimento verdadeiramente ambicioso, em 2011. Também não avancei nada na confecção de um “dicionário” de diplomacia brasileira, o que pode parecer uma tarefa por demais grandiosa para um homem só, mas não para mim. Em todo caso, também preciso terminar um “dicionário de disparates diplomáticos”, que já está praticamente pronto há vários anos, bastando apenas começar a revisar e atualizar alguns verbetes, e acrescentar mais algumas doses de humor...
Tinha planejado terminar um trabalho já começado sobre propostas programáticas para o movimento de oposição ao poder atual no Brasil, um outro sobre políticas do Estado brasileiro que são, objetivamente, contra os interesses do Brasil, além de algumas falácias e mais algumas peças para a série dos minitratados já referidos. Newsletter e think tanks estão sempre me pedindo artigos dirigidos ou de livre temática, o que acaba me distraindo dos trabalhos mais sérios, nos quais deveria me concentrar. Deixei de fazer dezenas de outras coisas, mas não me lembro agora: talvez devesse fazer uma terceira lista de trabalhos, uma de textos iniciados, mas ainda não terminados (o que me facultaria agora listar tudo o que deixei de fazer). Também deixei de ler dezenas de livros, que ficam se acumulando em todos os cantos da casa, esperando que algum dia, de 48 horas e nenhum sono, se apresente com uma agenda aberta, totalmente livre e descansada, ao longo do qual (dos quais, seria melhor) eu poderia fazer tudo isso que eu deixei de fazer e que pode estar me causando alguma “síndrome do trabalho inconcluso”.

O que eu pretenderia fazer, em 2012?
Uau! A lista é grande, começando por tudo aquilo que está sumariamente descrito acima e que deixei de fazer em 2011. Mas, não sei a quantas andará minha produtividade na escrita, talvez menos intensa, já que de certa forma ambulante, pelo menos no primeiro semestre. Como estou assumindo o posto de professor convidado do Institut de Hautes Études de l’Amérique Latine, da Universidade de Paris-3 (Sorbonne), no segundo semestre do ano acadêmico que começou em setembro último (portanto, de janeiro a maio de 2012), vou ter de dedicar algum tempo à preparação, em Francês, de dois cursos (já esquematizados), em nível de mestrado, sobre política externa brasileira e as relações econômicas internacionais do Brasil. Também pretendo viajar bastante, pela França e pela Europa, enquanto estiver residindo em Paris, o que promete diminuir mais um pouco a produtividade na elaboração de trabalhos de maior fôlego (ou necessitando pesquisa documental e elaboração discursiva mais sofisticada).
Em todo caso, preciso fazer dois trabalhos de qualidade no primeiro semestre: o que se destina a “comemorar” a morte do Barão, e um grande ensaio sobre o estado da arte em matéria de explicações sobre o (não) desenvolvimento da América Latina, para um colóquio que se realizará no IHEAL, em maio (e do qual sou o conferencista principal). Serão dois grandes desafios, que pretendo empreender dentro em breve. Existem também outros congressos e seminários acadêmicos de que pretendo participar, e que também exigem a apresentação de trabalhos escritos, e certamente receberei convites para artigos de revistas, resenhas de livros, capítulos de obras coletivas e uma confusão de outras coisas que vão pingando ao longo do ano, ao sabor dos intercâmbios diretos ou por internet, o que promete acelerar-se tremendamente. Não tenho ilusão, assim, de que conseguirei “limpar” as centenas e centenas de mensagens não lidas de minha caixa de entrada, justamente porque a maioria são boletins e material de referência, que vou guardando (ou deixando ali depositado) “para ler um dia” que nunca chega, claro).

Será que um dia eu vou dar conta de tudo o que eu gostaria de fazer, de ler, de produzir intelectualmente, sem continuar a arranhar a superfície das coisas, como muitas vezes faço, ao atender demandas sempre mais intensas? Provavelmente não, mas em algum momento vou ter de parar de escrever tanto para ler mais... O diabo é que quanto mais leio, mais me dá vontade de escrever, já que meus escritos sempre são alguma forma de síntese crítica, e criativa, de leituras feitas, comparadas, resumidas e discutidas.
Quando é que vou ter tempo para não fazer nada, ficar deitado na rede (à sombra, obviamente), cochilando, acordando para tomar algum refresco saudável, consultando as notícias no iPad, respondendo mensagens no mesmo instrumento, ouvindo alguma música no iPod ou no iPhone, pegando distraidamente algum romance histórico ao alcance da mão, enfim, fazendo um monte de coisa ao mesmo tempo, e por isso mesmo sem ter tempo para não fazer nada? Acho que esse dia, esse tempo nunca vai chegar, e por isso mesmo eu me consolo registrando esses balanços feitos de muita contabilidade, alguma frustração por “deveres” não feitos, e muitas promessas e projetos para os tempos que ainda veem pela frente. Nada melhor, de fato, do que ocupar o seu tempo com várias coisas ao mesmo tempo.
Dizem que o ócio é o pai de todos os vícios. Olhando por esse prisma, eu sou uma pessoa de muitas virtudes. Oxalá...

Brasília, 31 dezembro 2011, 8 p.; 2348.

Retrospectiva cientifica de 2011 - Ciencia Hoje


Retrospectiva 2011

Publicado em 26/12/2011
A CH On-line fez uma seleção de acontecimentos relevantes deste ano em cinco áreas: química, física, saúde, meio ambiente e ciências humanas. Confira nesta semana!
Retrospectiva 2011
2011 foi o ano da química, dos neutrinos supervelozes, das doenças crônicas, de avanços em estudos sobre a Aids, dos desastres naturais, das mudanças climáticas, das revoltas no mundo árabe... (montagem a partir de foto de Alex Slobodkin/ iStockphoto)
Retrospectivas, como bem disse a nossa colunista e historiadora Keila Grinberg, são, como a maioria das escolhas, subjetivas. A retrospectiva da CH On-line deste ano não é uma exceção. Por isso, vale explicar um pouco a ideia e as escolhas por trás dela.
Comecemos pela ideia inicial, que não vingou. Pensamos em voltar a alguns estudos importantes divulgados durante o ano e relatar seus desdobramentos desde então. A intenção era ressaltar o caráter contínuo da ciência.
A cobertura jornalística atual nessa área, no Brasil e em outros países, ao dar demasiada ênfase aos resultados de pesquisas e a suas aplicações práticas, ajuda a construir uma imagem deslocada – no tempo e no espaço – e utilitária da ciência – o que chega a justificar a ira de alguns pesquisadores diante da pergunta: “Para que serve isto?”.
Selecionamos áreas nas quais acontecimentos pontuais ganharam especial atenção e que, por motivos diferentes, devem marcar a história da ciência
Apesar das boas intenções, logo concluímos que seria difícil registrarmos desdobramentos relevantes de estudos divulgados há tão pouco tempo. Alguns meses ou mesmo um ano é um período curto para avanços significativos em pesquisas científicas.
Optamos, então, por um caminho mais seguro: selecionar áreas nas quais acontecimentos pontuais ganharam especial atenção este ano – no Brasil e no mundo – e que, por motivos diferentes, devem marcar de alguma forma a história da ciência.

Escolhas fáceis

No Ano Internacional da Química, instituído para comemorar os 100 anos do Nobel de Química da polonesa Marie Curie, não podíamos deixar essa área de fora. O Brasil participou ativamente das comemorações, realizando inúmeras atividades ligadas à divulgação da ciência que estuda a estrutura e a transformação das substâncias.
Durante o ano, dois novos elementos foram incorporados à tabela periódica, e a Academia Real de Ciências da Suécia surpreendeu ao conceder o Nobel de Química ao israelense Daniel Shechtman pela descoberta dos quasicristais, feita há quase 30 anos – o cientista já tinha desistido do prêmio. Quanto à pesquisa na área, o foco esteve principalmente na nanotecnologia.
O ano da física também foi especialmente agitado, sobretudo por conta dos neutrinos supostamente mais velozes que a luz. Não é por menos. Eles contradizem uma teoria importante de Einstein e, se comprovados, podem (e devem) causar uma reviravolta na física.
Palestra ministrada pelo físico Dario Auterio
Plateia da palestra ministrada pelo físico Dario Auterio, em 23/09/11, sobre os resultados do experimento com os neutrinos ultravelozes, do qual é um dos autores. O feito foi recebido com ceticismo pela comunidade científica. (foto: Maximilien Brice e Benoit Jeannet/ Cern)
Ainda nessa área, falou-se muito no Grande Colisor de Hádrons, o famoso LHC, e na sua insistente busca pelo bóson de Higgs. Também não é por acaso. A comprovação de sua existência garantiria a paz no universo da física de partículas, já que praticamente todas as teorias utilizadas nesse campo dependem dela. Caso contrário, a bagunça também vai ser grande – o que, no fundo, muitos físicos desejam.
Neste mês, pesquisadores que procuram pela partícula em projetos conduzidos no LHCdivulgaram resultados inconclusivos dos experimentos feitos até aqui, mas prometeram dar o veredicto no ano que vem. Fica a dúvida: se o bóson de Higgs não for encontrado, é possível descartar 100% a sua existência?

Seleção difícil

Em saúde, ficou bem mais complicado fazer escolhas. São tantas pesquisas, doenças, políticas... Optamos por uma divisão entre doenças crônico-degenerativas e enfermidades infectocontagiosas, visto que o Brasil vive um momento de transição importante no que diz respeito a esses dois tipos de problemas.
Historicamente, as doenças crônico-degenerativas são tratadas como um problema exclusivo do primeiro mundo. No entanto, nos últimos anos, elas vêm afetando cada vez mais o Brasil. Hoje, são tão ou mais preocupantes que as enfermidades infectocontagiosas – estas sim típicas de países em desenvolvimento –, o que exige uma reestruturação significativa do sistema de saúde pública do país.
No que tange às doenças crônicas, os destaques do ano se devem a novas aplicações da genética contra o câncer. Já em relação às enfermidades infecciosas, 2011 foi marcado pela estabilização das epidemias de Aids e tuberculose e pelo desenvolvimento de novas vacinas e estratégias terapêuticas.

Arenas mais conflituosas

Falar de meio ambiente em 2011 é lembrar de desastres naturais, no Brasil e no mundo.Enchentes devastaram o nordeste da Austráliao estado de Minas Gerais e a região serrana do Rio de Janeiro – evento natural com impactos sem precedentes no país.
Enchentes da região serrana no Rio
Vista aérea de Santa Rita, zona rural de Teresópolis, em janeiro deste ano. As enchentes da região serrana no Rio de Janeiro deixaram mais de 800 mortos. (foto: Daniel Marenco/ CC BY-NC 2.0)
Terremotos destruíram partes da Nova Zelândia, da Turquia e do Japão – este seguido de tsunami e de acidente nuclear na usina de Fukushima, cujos efeitos ainda estamos tentando entender. Um deles é uma reflexão mais profunda sobre o uso da energia nuclear.
O ano do meio ambiente foi marcado ainda por uma série de estudos, polêmicas e políticas relacionadas às mudanças climáticas – que se cogita estarem ligadas à maior frequência de eventos naturais extremos.
Enquanto fazia bonito na África do Sul, defendendo metas de diminuição de emissões para países em desenvolvimento e ajudando a resolver impasses político-terminológicos, o Brasil aprovava, no Senado, o texto-base do novo Código Florestal Brasileiro, que vem sendo criticado por ‘flexibilizar’ o desmatamento.
Falando em política nacional, vamos aos destaques nas ciências humanas: o primeiro ano de mandato da primeira ‘presidenta’ do Brasil; os avanços nas causas legais homoafetivas – casamento e união estável –; o caso do livro didático Por uma vida melhoracusado de ensinar regras de português erradas; e a proliferação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro.
No âmbito internacional, impossível não falar dos acontecimentos em torno do que ficou conhecido como a primavera árabe, que envolveu a derrubada do presidente da Tunísiae o fim da era Mubarak no Egito e está dando trabalho para Assad, presidente da Síria, sem falar no assassinato de Kadafi, na Líbia.

Veja vídeo com imagens da praça Tahir, no Egito, tomada por manifestantes em janeiro de 2011



Manifestações políticas também agitaram o mundo ocidental. Em Lisboa, o movimento ‘Geração à rasca’ tomou a Avenida da Liberdade para reivindicar melhores condições de trabalho. Em Madri, milhares de pessoas se reuniram na praça Puerta del Sol para protestar contra o sistema político do país. A praça Zuccotti, em Nova Iorque, foi palco do‘Occupy Wall Street’, protesto contra a crise econômica e o sistema financeiro do país. O papel das redes sociais nesses e em outros acontecimentos importantes também mereceu destaque e reflexões.
2011 também foi o ano da marca dos 7 bilhões de pessoas no mundo; da descoberta de diversos planetas extrassolares, da aposentadoria dos ônibus espaciais da Nasa, de avanços importantes relacionados à Aids, do feijão transgênico brasileiro e de tantos outros acontecimentos importantes que nem sempre conseguimos cobrir por falta de pessoal, recursos e, sobretudo, tempo. Não seria fantástico se um dia a ciência conseguisse fabricar mais tempo?
Mas voltemos aos fatos e à nossa retrospectiva. Nesta semana, você vai poder relembrar com mais detalhes a maior parte dos acontecimentos aqui destacados, escritos pela equipe que, durante todo o ano, buscou informar os leitores, da melhor forma possível, sobre acontecimentos relevantes do mundo científico, no intuito de fortalecer cada vez mais os laços entre a ciência e a sociedade.

Carla AlmeidaCiência Hoje On-line

Haiti: uma historia tragica - livro de Laurent Dubois

Haiti’s Tragic History


U.S. Marine Corps/National Geographic Society, via Corbis
A U.S. Marine inspecting a troop of Haitian soldiers, 1920.



For the better part of two centuries, outsiders have been offering explanations that range from racist to learned-sounding — the supposed inferiority of blacks, the heritage of slavery, overpopulation — for why Haiti remains the poorest country in the Western Hemisphere. None of these work: nearby Barbados has a greater population density, and about 90 percent of its people are descended from slaves, yet it outranks all but two nations in Latin America on the United Nations Human Development Index. Neither Barbados nor any other country, however, had so traumatic and crippling a birth as Haiti.


HAITI

The Aftershocks of History
By Laurent Dubois
434 pp. Metropolitan Books/Henry Holt & Company. $32.

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Robert W. Kelley/Time & Life Pictures — Getty Images
François (Papa Doc) Duvalier, foreground, relied on the violence of the Tontons Macoute to hold on to power.
As a French possession, it was once the most lucrative colony on earth, producing nearly one-third of the world’s sugar and more than half its coffee. All, of course, with the labor of slaves. And slavery in the Caribbean was particularly harsh: tropical diseases were rife, there was no winter respite from 12-hour workdays under the broiling sun, and the planters preferred to replenish their labor force by working their slaves to death over a decade or two and then buying new ones. In 1791, what today is Haiti became the scene of the largest slave revolt in history. Over the next 13 years, the rebels fought off three successive attempts to re-enslave them. The first was by local planters and French soldiers, aided by arms from the United States, whose president and secretary of state, George Washington and Thomas Jefferson, were both slave owners horrified by the uprising. The second was by the British, at war with France and eager for fertile sugar land and slaves to work it. And finally, after he took power, Napoleon tried to recapture the territory as a French colony and restore slavery.
Ill-armed, barefoot and hungry, the rebels fought against huge odds: Britain dispatched an armada of 218 ships to the Caribbean, and its troops battled for five years before withdrawing; Napoleon sent the largest force that had ever set sail from France, losing more than 50,000 soldiers and 18 generals to combat and disease. The former slaves lost even more lives defeating these invasions, and no country came to their aid. This blood-soaked period also included a horrific civil war, periods of near famine, and the massacre or flight into exile of most educated people and skilled workers of any color. By the time Haiti declared independence in 1804, many of its fields, towns and sugar mills were in ruins and its population shrunken by more than half. The Haitian Revolution, as it is known today, was a great inspiration to slaves still in bondage throughout the Americas, but it was devastating to the country itself.
For a gripping narrative of that period, there are few better places to turn than “Avengers of the New World: The Story of the Haitian Revolution,” by Laurent Dubois, a Duke University scholar of the French Caribbean. Now Dubois has brought Haiti’s story up to the present in an equally well-written new book, “Haiti: The Aftershocks of History,” which is enriched by his careful attention to what Haitian intellectuals have had to say about their country over the last two centuries.
The history is a tale of much misery, shot through with flashes of hope and bravery. Both the United States and the colonial powers in Europe were profoundly threatened by the specter of slaves who had successfully battled for their freedom; the United States didn’t even recognize Haiti for over 50 years. Still worse, France in 1825 insisted that Haiti pay compensation for the plantations taken from French owners. In case the Haitians did not agree, French warships lay offshore. The sum the French demanded was so big that a dozen years later, paying off this exorbitant ransom, and paying the interest on loans taken out for that purpose, was consuming 30 percent of Haiti’s national budget. The ruinous cycle of debt continued into the next century.
Seldom, however, can outsiders be blamed for all a country’s troubles. More disastrous than foreign interference was that Haiti’s birth was such a violent one. Democracy is a fragile, slow-growing plant to begin with, and the early Haitians had experienced none of it, not as subjects of the African kingdoms where many of them were born, not as slaves and not as soldiers under draconian military discipline for over a decade of desperate war. In Haiti’s succession of constitutions over its first hundred years, the president sometimes held his post for life, and it’s no surprise that one leader began calling himself king and another emperor. Furthermore, the revolution itself had seemed to show that any change in government could take place only through military force. As Dubois sums it up: “The only way for an outsider to take power — one that would be used again and again over the course of the 19th century — was to raise an army and march on the capital.”

Brute force still ruled in the next century, climaxing in the three-decade reign of the Duvaliers, father and son. Their militia, the dreaded Tontons Macoute, spread terror on a scale exceeding anything before, murdering as many as 60,000 people. François (Papa Doc) Duvalier banned any civic organization that could threaten his control, even the Boy Scouts.

HAITI

The Aftershocks of History
By Laurent Dubois
434 pp. Metropolitan Books/Henry Holt & Company. $32.

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The family’s close ties with the United States were immortalized by a famous photograph of Papa Doc and the presidential envoy Nelson Rockefeller waving from the balcony of Haiti’s National Palace. During the cold war, a strongman like Duvalier, no matter how brutal, could usually count on American support as long as he was vocally anti-Communist. Father and son understood this well and shrewdly used that knowledge to retain power, as did petty tyrants across Latin America, Africa and Asia.
Deep American meddling in Haiti did not end with the cold war. Dubois, however, devotes only a few pages to the quarter-century since Jean-Claude (Baby Doc) Duvalier was overthrown, and doesn’t really tell us what he thinks about the controversial progressive Jean-Bertrand Aristide and the degree to which the United States played a role in his ouster as Haiti’s president in 2004. In an otherwise authoritative history, this is a disappointing omission.
Part of this book does feel chillingly up to date, however: its account of the United States Marine occupation of Haiti for some two decades starting in 1915. The occupation was accompanied by high-flown declarations of benevolence, but the real motive was to solidify American control of the economy and to replace a constitution that prevented foreigners from owning land. The Marines’ near-total ignorance of local languages and culture sounds all too much like more recent expeditions. American officials declared, accurately enough, that the Haitian government was in bad shape and needed reform. But as the troops on the ground discovered, like their counterparts in Iraq and Afghanistan, no one likes to be reformed at the point of a foreigner’s gun. “We were not welcome,” wrote one private Dubois quotes. “We could feel it as distinctly as we could smell the rot along the gutters.” The Americans soon found themselves fighting off waves of rebellion against their rule. United States troops burned entire villages accused of sheltering insurgents and ruthlessly executed captured rebels or — does this sound familiar? — men who might have been rebels; often there was no way to distinguish them from local farmers.
When they finally pulled out, the Marines did leave some roads, clinics and schools behind them. But the occupation’s death toll, humiliation and theft of resources, Dubois makes clear, loom far larger in Haitian memory. Even with the best of intentions, which the Marines certainly didn’t have in 1915, nation-building is no easy job. Administered less arrogantly and in cooperation with Haitians themselves, aid from abroad can sometimes help, as with the work of the estimable, Creole-speaking Dr. Paul Farmer and his Partners in Health program, which brings health care to the poorest rural areas and helps train Haitian medical workers. But the real freeing of Haiti from the burdens of its past — a task now made immeasurably greater by the catastrophic earthquake of 2010 — can be done only by Haitians themselves.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Voce aguenta besteirol? Aguente, so acontece no final do ano...

Inacreditável: não dá mais para assistir sequer um jornal supostamente de negócios como o jornal das Dez, da GloboNews. Ela também passou a se dedicar ao besteirol típico dos canais abertos.

Vocês aguentam besteirol? Só um pouco, prometo. Então vamos lá.

O jornal supostamente sério convidou um astrólogo com cara de debilóide para se pronunciar sobre política e economia, no Brasil e no mundo.
E ele não se privou de nada... e pode nos esclarecer sobre o que dizem os astros sobre o nosso futuro.
Ouçam, ou leiam, o que ele disse, especialmente sobre a crise e o comportamento do Brasil.

Ele considera, por exemplo, que a quadratura entre Urano e Plutão -- sendo que Urano se encontra atualmente em Aries e Plutão em Capricórnio -- reforça este momento de crise, em que vivem os principais países desenvolvidos, e provoca outras consequências em vários lugares: primavera árabe, ditadores caindo aqui e ali, agravamento dos problemas na Europa e nos EUA, que estão numa cilada política, e que vai até 2016 ou 2017.
Apesar, disso tudo, o Brasil - que é de Virgem -- será extremamente beneficiado por essa situação, pois (acreditem, sic três vezes), ele sempre se dá bem quando tem crise lá fora.
Segundo o astrólogo político-econômico, vamos (ou seja, o Brasil vai) ter um crescimento pelo menos até a metade da década de 2020. 
Uau! (Esse sou eu.)
Que mais ele disse?
Enfim, respondendo a outras perguntas debilóides de jornalistas idem, ele reafirmou que o Brasil passa por fase interessante, e terá crescimento ao longo da década. 
Parece que precisamos aproveitar, pois é nossa época de prosperidade e de crescimento, mesmo com a crise lá fora.
E agora, quanto à governabilidade do governo Dilma?
Parece que ela vai ter algum tipo de problema entre janeiro e abril, principalmente entre 24 de janeiro e 4 de abril.
E parece que nem o  Mercosul escapa da crise: ele tem uma tal de "marca retrógrada", que vai se manifestar sob a forma de desavenças entre seus membros, e o Brasil terá dificuldades de negociação com os parceiros.


Uau! (Sou eu outra vez!)


Eu não sei por que estou escrevendo tanta besteira num blog que se pretende inteligente.
Às vezes a gente perde o prumo com esses astrólogos metidos a economistas e cientistas políticos...


E, por fim, besteirol, de vez em quando, alivia os dramas do mundo...
Ou não?
Paulo Roberto de Almeida 



Uma vez corrupto... (alguma novidade nisso?)

TCU pega mais uma irregularidade no Dnit 
 30 de Dezembro de 2011


O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), órgão do Ministério dos Transportes, terá de explicar ao Tribunal de Contas da União (TCU) indícios de graves irregularidades nas obras de implantação da rodovia BR-440, próximo a Juiz de Fora, em Minas Gerais.
O que foi
A fiscalização do TCU constatou que não houve análise da concorrência, o projeto básico é deficiente e o contrato foi sub-rogado e reajustado acima do limite legal.
Estaca a zero
Segundo a Agência Brasil, o problema foi informado à Comissão Mista de Orçamentos do Congresso Nacional e o tribunal determinou que o Dnit rescinda o contrato firmado com a construtora imediatamente. O tribunal ainda apura se houve indícios de sobrepreço no contrato.
Tudo pelo povo
Para o ministro-relator, Raimundo Carreiro, as alegações de que tais obras irão propiciar conforto e segurança aos veículos e pedestres não são compatíveis com boas práticas de gestão da coisa pública.

Liu Xiaobo e o Estado repressor da China


ESSAY

Liu Xiaobo’s Plea for the Human Spirit

Espen Rasmussen for The New York Times
In absentia: An image of Liu Xiaobo in Oslo during the ceremonies marking his winning of the 2010 Nobel Peace Prize.
Related“I have no enemies, and no hatred.” Liu Xiaobo, the 2010 Nobel Peace Prize winner, spoke those words on Dec. 23, 2009, just before he was sentenced to 11 years in prison for “incitement of subversion of state power.” It was his fourth jail term since the Tiananmen Square massacre of 1989. Liu is the only Chinese citizen to win any Nobel while living in China and, as Perry Link notes in introducing a new collection of Liu’s writings, one of only five Nobel Peace Prize winners unable to appear in Oslo to receive the gold medal: “In 1935, Carl von Ossietzky was held in a Nazi prison; in 1975, Andrei Sakharov was not allowed to leave the Soviet Union; in 1983, Lech Walesa feared he would be barred from re-entering Poland if he went to Oslo; and in 1991, Daw Aung San Suu Kyi was under house arrest in Burma.”
In NO ENEMIES, NO HATRED: Selected Essays and Poems (Belknap/Harvard University, $29.95), the well-­translated collection edited by Link, Tienchi Martin-Liao and Liu Xia — Liu’s wife — Liu demonstrates a considerable amount of anger while retaining his Gandhian nonviolent spirit. Taken together, his essays offer the best analysis I have read of what’s wrong in the People’s Republic of China.
Liu was the prime mover (although not the originator) of Charter 08, the petition signed by several thousand Chinese who demanded an accountable government and freedoms of speech, assembly, press and religion. The petition was the main evidence the Chinese government used against Liu when it sent him to prison in 2009, but his accusers might have reached further still, through his hundreds of articles and poems, and his 17 books. Even his 1988 Ph.D. dissertation, “Aesthetics and Human Freedom,” was “a plea for liberation of the human spirit,” as Link explains in his introduction.
Liu has always been most animated by democracy. This concern underlies his essays on Taiwan, Gorbachev’s reforms in the Soviet Union, the failures and lies of the Mao era, the “miracle” of the Deng Xiaoping reforms after Mao’s death in 1976 and, perhaps most emotively, Tibet. Even while Beijing condemned the Dalai Lama as “a wolf in monk’s clothing,” Liu breathtakingly suggested in 2008 that China could solve its ethnic unrest by inviting “the Dalai Lama back to China to serve as our nation’s president. . . . Such a move would make best use of the Dalai Lama’s stature in Tibet and around the world.”
An accomplished poet, Liu pays close attention to the power of language. Noting that the party charged him with “incitement of subversion of state power,” he said this was an excellent example “of treating words as crimes, which itself is an extension into the present day of China’s antique practice called ‘literary inquisition’ ” — a practice exemplified by the 18th-century emperor Qianlong’s purge of subversive books.
More fervently still — Liu never misses an opportunity to skewer Communist Party hypocrisy — he recalls that in the years before its victory in 1949, the party’s newspapers “were constantly criticizing the Chiang Kai-shek regime for its repression of free speech and often issued loud appeals on behalf of persecuted voices of conscience.” He contrasts this with the execution during the Cultural Revolution of Zhang Zhixin, who was condemned to death for criticizing the Mao cult; before Zhang was shot, her throat was cut so she could not cry out a final denunciation.
I recall Liu’s arrival in Tiananmen Square in May 1989. An angular, awkward, bespectacled man bending over and waving his arms, he exhorted the demonstrators to add democracy to their demands for a free press and an end to corruption. On June 2, he and three friends announced the start of a hunger strike. “We seek not death,” they read out to a crowd that had fallen silent, “but to live true lives.” They emphasized that “we should recognize that all Chinese citizens are strangers to the matter of running a country on democratic principles. . . . We must not let hatred or violence poison our thinking. . . . We are citizens before we are anything else.” The next night the tanks and soldiers of the People’s Liberation Army crashed into the square and began the slaughter of many hundreds. Liu and a few others negotiated with the soldiers to allow the surviving students to leave the square in safety.
Some of Liu’s most eloquent observations came afterward. He recalls “the cruelty of the executioners and, even more clearly, the brightness of humanity that shone in the midst of great terror.” Liu faults himself for seeking shelter after the massacre rather than staying in the square to help the victims. Soon after, he was imprisoned for the first time — the sentence was for 19 months. In 2003 he wrote, “I remain acutely aware that I am the lucky and undeserving survivor of a massacre in the waning years of a dictatorship.” Referring to himself ironically as “one of those ‘influential’ figures” on the night of the killings, Liu remembers that “all the people who . . . went out to rescue the wounded or received heavy sentences were common people,” and that “the blood of ordinary people has gone to nourish the reputations of opportunists large and small, people who run around presenting themselves as the leaders of a ‘people’s movement.’ ” I think I know who Liu means, but those who survived, like him, were also heroes who waited to flee until death was staring them in the face.
Nothing escapes Liu’s scalpel. The economic reforms that have transfixed many foreigners who claim that China is on its way to being No. 1 were not the result, he insists, of top-down policies. They arose, he says, from demonstrations in Beijing and the countryside that began even while Mao was alive: peasants called for control over the crops they grew, and ordinary workers like Wei Jingsheng put their mark on Democracy Wall in 1978-79. Liu writes that Deng Xiaoping and his colleagues in the Chinese leadership granted a little more space to those who demanded to be treated like citizens — before stamping on them. “These spontaneous popular forces for reform were rooted in the human longing for freedom and justice, not some slogans of the rulers.”
Always he sees words as the party’s enemy: “Democracy Wall laid a foundation for language — and hence a system of values — that was independent of official ideology.” In a foreword to “No Enemies, No Hatred,” the late Vaclav Havel observed that Charter 08 “articulated an alternative vision of China, challenging the official line that any decisions on reforms are the exclusive province of the state.” Liu notes that the Internet has provided China’s people with news and views of the world hitherto denied them and a way to communicate instantly and often safely. But he laments that “under the guise of restoring national honor . . . thuggish language that unabashedly celebrates violence, race hatred and warmongering passion now haunts the Chinese Internet.”
After Liu was awarded the Nobel Peace Prize in 2010, Beijing cowed 16 ambassadors to Norway into shunning the ceremony. An empty chair on the Oslo stage highlighted Liu’s absence. His words, however, are always with us. Already in 2003, Liu wrote that those “who dare to speak out about major public events may not receive tangible benefits, but they receive the very considerable reward of high moral reputation among fellow Chinese as well as in the international community.” Within Liu’s dark Communist world, the court’s judgment was wholly correct: “Defendant Liu Xiaobo has committed the crime of incitement to subvert state power.”

Jonathan Mirsky, a journalist and historian specializing in China, was named British International Reporter of the Year in 1990 for his dispatches from Tiananmen Square.

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