quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Três quartos de século, três gerações Paulo Roberto de Almeida

Três quartos de século, três gerações

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre a passagem do tempo, dedicada a Carmen Lícia Palazzo, que me acompanhou pela maior parte desta trajetória de vida, tendo lido muito mais livros do que eu, sendo bem mais inteligente do que eu, e que me confortou, assim como a todos da família, em todos os momentos de uma vida nômade e repleta de boas surpresas intelectuais.

A demografia histórica tem uma função precisa: medir e analisar dados populacionais ao longo do tempo em comunidades definidas; é ela quem nos diz quais países ou sociedades estão registrando crescimento demográfico e quais já entraram na direção da redução da natalidade e diminuição progressiva da população. Ela faz, digamos, o lado macro da evolução demográfica dos países e, cumulativamente, do mundo, no decorrer do tempo. Ao nível micro, a demografia tem de ser vista pelo tempo de vida de cada indivíduo, o que normalmente se estende por três gerações, ou aproximadamente 75 anos: pais, filhos e netos, mais frequentemente agora bisnetos, mas é bem mais raro, sobretudo nos países de esperança de vida reduzida.
A vida das pessoas é, portanto, medida geralmente pelo ciclo da infância, da maturidade (seguida pela maternidade e paternidade) e pela continuidade dessa geração nos filhos dos seus filhos. A realização pessoal de cada individuo de uma geração se faz pelos estudos na infância e na adolescência, pelo trabalho na vida adulta e depois pela ajuda na administração da família que segue na geração seguinte, filhos já adultos e os netos. Esse é, via de regra, o itinerário de uma vida humana que fica geralmente limitada a três quartos de século, considerando-se uma trajetória “normal”, com boa alimentação e cuidados de saúde.
No que me concerne, pessoalmente, minha infância e adolescência foram ocupadas simultaneamente por estudos e trabalhos, aliás praticamente a vida inteira, pois que nunca deixei de estudar e de dar aulas, mesmo quando profissionalmente dedicado à carreira diplomática já na idade adulta. Mas comecei a dar aulas para preparação de ingresso na universidade, antes mesmo de ingressar eu mesmo nos estudos superiores, dada a minha precocidade nas leituras e nos estudos desde que aprendi a ler, na idade tardia de sete anos (sempre achei que perdi dois ou três anos de leituras, por pertencer a uma família de avós analfabetos, completamente, e de pais saídos da escola primária para começar a trabalhar). Leituras, estudos, docência fizeram parte de minha vida muito mais, provavelmente, do que as mais de quatro décadas voltadas para o desempenho na diplomacia profissional.
Aliás, a diplomacia foi a profissão ideal para quem se destinava a uma carreira puramente acadêmica, voltada para minha primeira profissão, que foi a de professor, continuada ao longo dos anos. A diplomacia é a mais intelectual das profissões na burocracia estatal, pois que obriga e combina atividades de pesquisa, de informação, de reflexão, de produção de soluções e de respostas aos desafios das relações exteriores do país, levando em conta um conhecimento preciso das características e necessidades do seu próprio país.
Entrei agora no quarto final de minha trajetória pessoal, ocupacional (pois que ainda sou professor) e intelectual, uma vez que continuo produzindo trabalhos acadêmicos e livros-síntese de minhas leituras, pesquisas e conhecimentos adquiridos em outros livros e no contato com a realidade, pela mídia, pelas visitas e viagens, participação em encontros e seminários, pela docência, pela convivência com familiares e amigos. Espero continuar produtivo pelo tempo que me resta de trajetória neste planeta confuso, agitado, por vezes calmo, mas atualmente tão agitado quanto em certas épocas passadas. A esses desafios do presente, respondo com algum mergulho no passado, leituras de história e memórias de quem participou da vida ativa em épocas pretéritas e alguma especulação quanto ao futuro.
Nos dois últimos anos, tenho ficado muito preocupado com um certo retorno ao imperialismo brutal de duas ou três gerações atrás, ao expansionismo militarista de tiranos e ditadores arrogantes, aos perigos que pensávamos superados depois do final de uma Guerra Fria que por vezes arriscou os limites de uma nova confrontação global, agora novamente à espreita. Volto minhas reflexões, leituras e pesquisas para os novos perigos que rondam a humanidade, e tento oferecer ao meu país, aos meus colegas diplomatas observações que retiro da experiência profissional passada e das constantes leituras que continuo fazendo, mas agora sem qualquer obrigação de trabalho. Ou seja, apenas devoção intelectual pelo estudo, reflexão e escrita sobre os problemas do país e da humanidade.
Persistirei nesse empenho e dedicação ao conhecimento e sua transmissão racional aos mais jovens, geralmente estudantes, muitos que eu sequer conheço, pois que coloco a quase totalidade de minha produção intelectual à livre disposição dos interessados, dos que me seguem, de eventuais curiosos que frequentam meus canais de informação, de passantes ao acaso, que também demonstram interesse por minhas afinidades de leitura e de escrita.
A todos os que se beneficiaram de minhas aulas, de meus trabalhos, direta ou indiretamente, a todos os meus colegas de trabalho, atuais e aposentados, como é agora o meu caso, minhas melhores saudações e cumprimentos, na certeza de partilharmos do mesmo objetivo básico: fazer do presente mundo, e do seu futuro de curto prazo, um mundo melhor do que aquele que encontramos quando nascemos, aquele que nos foi legado por nossos avós, nossos país. Que as gerações seguintes, meus netos, talvez futuros bisnetos possam encontrar no meu patrimônio intelectual algum motivo de satisfação pessoal, tanto quanto eu tive ao produzir certa massa de conhecimento que considero ser de alguma utilidade para a melhoria do país, talvez de alguma parte da humanidade.
Despeço-me do terceiro quarto de século, e espero ainda contribuir com mais algum conhecimento no tempo que ainda me resta como pessoa ativa e pensante. Salut!

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 19 de novembro de 2024.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4792, 19 novembro 2024, 3 p.
Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/11/tres-quartos-de-seculo-tres-geracoes.html ).

Os agradecimentos de um “natural reservoso” por um natalício discreto - Paulo Roberto de Almeida

 Parece que eu preciso retirar uma certa data das minhas ferramentas de comunicação social, pois do contrário acabo passando por indelicado, indiferente ou até mal educado, ao não conseguir responder a todas as mensagens que me chegam neste dia, o que eu já deveria ter feito o ano passado, quando enfrentei o mesmo constrangimento.

Constato agora que já tinha tentado as mesmas desculpas no ano passo, o que reproduzo aqui:

4794. “Os agradecimentos de um "natural reservoso" por um natalício discreto”, Brasília, 19 novembro 2024, 2 p. Nota de agradecimentos aos que me cumprimentaram pelo natalício. Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/11/os-agradecimentos-de-um-natural.html).

Os agradecimentos de um “natural reservoso” por um natalício discreto

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota de agradecimentos aos que me cumprimentaram pelo natalício

Sempre apreciei o romance de José Cândido de Carvalho, "O Coronel e o Lobisomem", no qual o personagem principal, o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, dos Campos de Goitacazes, no Rio de Janeiro, se descrevia a si mesmo como sendo de um “natural reservoso”.
Sempre me identifiquei com essa autodescrição, que se encaixa bastante bem no meu modo de ser: fugidio às exibições públicas, normalmente enterrado em alguma biblioteca, dedicado às leituras, reflexões e escritas, só não consegui encontrar algum lobisomem, como o herói de Cândido de Carvalho – aliás, pai de um colega diplomata, que era apropriadamente chamado, nos velhos tempos, de "Ricardo Lobisomem", tal o sucesso do romance do pai –, mas continuei, ao longo das décadas, minha trajetória de produtor silencioso de trabalhos de sociologia política e histórica aborrecidamente acadêmicos, ou seja, reservados a um público restrito.
Não, nunca consegui escrever um romance, embora tenha tentado, uma ou outra vez, e ainda penso cometer alguma novela em tempos ainda mais reservosos, inevitavelmente vinculados a livros e reflexões sobre minha trajetória intelectual.
Sem pretender falar publicamente de meu natalício, usei de um subterfúgio sobre a passagem do tempo, aqui mesmo postado nesta madrugada:
4792. “Três quartos de século, três gerações”, Brasília, 19 novembro 2024, 3 p. Nota sobre a passagem do tempo, o meu próprio. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/11/tres-quartos-de-seculo-tres-geracoes.html).

Era uma maneira de marcar minha trajetória, sem pretender falar de qualquer data, mas nesta era de invasão da privacidade, pelos instrumentos de busca e de informação na internet, é quase impossível manter encoberto qualquer detalhe da vida particular de um funcionário público e professor de milhares de alunos ao longo de muitas décadas (ainda superiores, em tempo, ao da carreira diplomática).
Logo em seguida, levando em conta os fusos horários ao redor do mundo, já recebi cumprimentos de uma pessoa atenta a essas passagens do tempo, o que me levou a fazer uma outra postagem, sobre o mais gosto de fazer:
“Tudo o que fiz na vida, desde tenra idade, tudo o que fiz na carreira diplomática, tudo o que continuo fazendo, se resume a poucas palavras: ler, anotar, refletir, observar a realidade em volta, no Brasil e no mundo, escrever o que penso, expressar essas ideias, sobretudo sobre o Brasil, sua economia, a situação social, a educação, a diplomacia, a cultura, prioridades minhas em qualquer ordem, e divulgar livremente essas ideias, sem incomodar ninguém, tentando fazer o bem e preservando a honestidade intelectual e a dignidade pessoal. Acho que é isso.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 19/11/2024”

Bem, faço esta nova postagem para agradecer a todos os que se manifestaram, nos diversos espaços e canais abertos ao engenho e arte de meus amigos, colegas, conhecidos, desconhecidos, talvez alguns opositores também (uma vez que não deixo de manifestar minha opinião sobre temas fundamentalmente políticos), enfim tutti quanti reagiram ou à data, ou à minha mensagem, talvez pouco discreta, ao falar de três quartos de século, um número que não é redondo, mas que costuma marcar certas marcas comemorativas. Como não espero ser centenário, creio que se trata da última oportunidade para olhar para trás, fazer um balanço do que já fiz e montar uma lista das tarefas mais urgentes, sobre o que ainda falta fazer (começando por arrumar minha caótica biblioteca).
Espero que todos se sintam incorporados a um agradecimento coletivo e a uma nota de gratidão pela atenção com que possam ter sido recebidas minhas mal traçadas linhas ao longo da minha do tempo intelectual, que aliás começou tarde. Acho que avancei razoavelmente bem desde o primeiro livro publicado, agora já ocupando duas estantes completas na minha biblioteca (a única parte organizada).
Meu abraço a todos, prometendo continuar discreto nos próximos anos...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4794, 19 novembro 2024, 2 p.
Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/11/os-agradecimentos-de-um-natural.html


A Ideologia da Política externa: sete teses idealistas (e razoavelmente provocadoras) sobre a inserção internacional do Brasil (1995, 2001) - Paulo Roberto de Almeida

Interesse Nacional e Política Externa: como vou participar de um debate sobre essa temática na próxima sexta feira, lembrei de uma das primeiras vezes que tratei dessa mesma temática conjuntamente, e foi no âmbito de um trabalho no qual que contestava algumas ideias de senso comum nas minhas atividades diplomáticas. Descubro agora, que o trabalho em questão não está disponível de modo amplo, o que faço agora ainda que de maneira improvisada. O trabalho é este aqui:

508. “A Ideologia da Política externa: sete teses idealistas (e razoavelmente provocadoras) sobre a inserção internacional do Brasil”, Porto Alegre, 28 dezembro 1995, 4 p.; revisão em Brasília: 14 janeiro 1996, 5 p. Argumentos contestadores sobre alguns princípios (ou mitos) da política externa: objetivos nacionais permanentes, independência e interesse nacionais, graduação e condição de país em desenvolvimento, integração regional e entrada em determinados foros, imagem externa e o mito da “excelência” do Itamaraty. Publicado, na versão original, sob o título de “Sete teses idealistas sobre a inserção internacional do Brasil”, no Boletim ADB (Brasília: ano III, n° 27, jan-fev-mar 1996, p. 4-6). Republicado no livro Relações internacionais e política externa do Brasil: dos descobrimentos à globalização (Porto Alegre: UFRGS, 1998). Reelaborado em 2001 sob nº 813. Relação de Publicados n° 187.

Ofereço agora o link a esta versão n. 813, que parece mais completa:

Ideologia da política externa: sete teses idealistas

Paulo Roberto de Almeida
[Publicado na revista eletrônica Espaço Acadêmico
(Maringá: UEM, Ano I, nº 5, Outubro de 2001 - ISSN: 1519.6186
Relação de Trabalhos nº 813; Publicados nº 280.


Le canon a tué le féodalisme.
L’encre à écrire va tuer la société moderne.
Napoleão

A reflexão irônica de Napoleão – já imperador, solidamente instalado no comando de seu império europeu e exercendo plenamente o poder – era dirigida, não sem ironia e desdém, contra aqueles que começavam a ser designados, segundo a expressão então cunhada por Destutt de Tracy, pelo conceito de ideólogos. Para Napoleão, esses litterati nouvelle manière – que de maneira otimista ou ingênua, acreditavam que poderiam influenciar a política dos príncipes – viviam concebendo grandes projetos de reforma da sociedade sem qualquer embasamento na realidade ou sem atender um mínimo compromisso com a coerência.
A situação não modificou-se substancialmente desde aqueles dias e a classe dos ideólogos – uma subespécie da categoria mais ampla dos trabalhadores intelectuais – proliferou de maneira extraordinária na era contemporânea. Alguns ideólogos consideram-se a si mesmos “intelectuais independentes”, muito embora vários deles sejam propensos a trocar voluntariamente essa condição pela carreira mais emocionante de “conselheiro de príncipes” (desde, é claro, que estes últimos estejam dispostos a ouvi-los e a acatar seus conselhos aparentemente sensatos e descompromissados).
De certa forma, os diplomatas constituem, no plano da política externa, os ideólogos dos estados modernos. Eles estão sempre procurando soluções inovadoras a velhos e novos problemas das relações internacionais, combinando propostas singelas de melhoria da situação mundial com a expressão mais imediata dos interesses concretos de seus países respectivos. Ao fazê-lo, ele operam um mélange de Idealpolitik com Realeconomik, o que não deixa de representar uma aplicação ponderada da tradicional receita de equilíbrio entre os requerimentos de mudança e as pressões do status quo.
Se os fundamentos da ação diplomática não estiverem contaminados pela ambigüidade ou pela incoerência, tal tipo de atuação representaria nada mais do que uma demonstração do mais puro bom senso. Mas, se é verdade também que a política externa nada mais é do que a continuidade da política interna por outros meios, é mais fácil ser ideólogo no plano nacional ou doméstico do que no das relações internacionais, inclusive porque, pelo menos desde a ruptura renascentista do monopólio papal sobre a legitimidade dos estados, não existem mais príncipes com estatura internacional. Daí porque, mesmo ideólogos da política externa como os diplomatas devem desviar muito de sua atenção para os fatores domésticos da política internacional de seus estados, o que no caso deste texto é assumido de forma explícita.
As reflexões que se seguem buscam, precisamente, discutir as raízes internas das posições internacionais assumidas pelo Brasil ou, de outra forma, recolocar no plano nacional alguns dos fundamentos da atuação externa do Brasil, que muitos julgam poder apreender apenas na interação com outros estados e no contexto exclusivamente externo. Não é esta a posição do autor, que apenas considera compreensível a política externa de um estado quando os diplomatas que a aplicam são capazes de situá-la no contexto dos interesses domésticos e da “ideologia nacional” que a sustenta.
A diplomacia brasileira, por exemplo, sempre ostentou em suas bandeiras ideológicas os princípios da independência e da soberania nacionais, o que nos parece muito sensato e compreensível. Nada nos deveria impedir, contudo, enquanto “ideólogos” da diplomacia, de contestar alguns dos fundamentos dessas idéias e de discuti-las abertamente. Ao fazê-lo confessamos candidamente que pretendemos colocar em causa algumas dessas idées reçues sobre a inserção internacional do Brasil e os requerimentos para uma eventual mudança de status. Assim, as sete teses “idealistas” relacionadas abaixo pretendem comentar, se não discutir, velhos princípios da política externa brasileira que costumam ser reafirmadas de tempos em tempos. O objetivo é confessadamente provocador.

1. Os objetivos nacionais permanentes
Nunca é demais lembrar: esses objetivos precisam ser permanentemente reafirmados, sobretudo para diplomatas, que vivem num mundo em estado de mutação permanente. Entretanto, alguém, na Casa de Rio Branco, ainda sabe quantos ou quais são eles? Tinham certamente uma presença mais vigorosa na época em que os militares ocupavam o poder político, quando a Escola Superior de Guerra, uma espécie de “Sorbonne” do pensamento estratégico nacional, convidava anualmente o ministro das relações exteriores a pronunciar conferência magistral sobre o assunto: invariavelmente, o discurso começava por retomar os fundamentos desses objetivos nacionais permanentes, como recomendavam aliás os próprios manuais da ESG, o bastião conceitual mais visível da ideologia do poder nacional.
Mas, o fato é que, hoje, o tema está visivelmente em baixa, e ninguém mais se lembra de retomar a lista para verificar se estamos ou não indo pelo bom caminho. Esses objetivos pareciam ter algo a ver com a preservação da segurança da pátria frente às ameaças externas, com a afirmação e a defesa do interesse do país, a preservação da integridade do território nacional, a projeção internacional do estado brasileiro, a consolidação de seu potencial econômico e militar e o desenvolvimento integral da nação, fazendo do Brasil uma sociedade mais justa e mais humana. Em outros termos, nada de muito démodé, ao contrário, uma agenda perfeitamente atual, compatível com programas eleitorais de centro, esquerda ou direita.
Em função desses objetivos ainda válidos, como situar o papel e a função da política externa brasileira? Ela poderia ser definida, parafraseando Clausewitz, como a continuação da política interna por outros meios. Adotando, em conseqüência, uma visão mais idealista (mas não menos “utilitarista”) da diplomacia brasileira, o objetivo precípuo da política externa não deveria ser, unicamente, o de representar o país no exterior e menos ainda o de contribuir para uma pretendida grandeza nacional, a exemplo do slogan “Brasil grande potência” típico daquele passado militar.
Se examinarmos a lista, a constatação que se poderia fazer é a de que, atualmente, nada parece afetar a integridade do território nacional, nem parece existir qualquer ameaça externa à segurança da pátria ou à consolidação de seu potencial econômico e militar, a não ser, talvez, nossa própria capacidade, domesticamente fabricada, de provocar danos ao meio ambiente nacional ou de colocar em risco a saúde e o bem estar da população. Bem mais difícil, contudo, seria apontar precisamente o que poderia constituir o chamado “interesse nacional”, pois cada grupo social ou movimento político parece ter sua própria definição do que seja um “projeto nacional” estabelecido em função dos “interesses do país”.
Se conseguirmos, entretanto, reduzir a um denominador comum as aspirações dos mais diversos setores ou partidos no que se refere ao interesse público nacional, a expressão mais frequente a ser ouvida seria, muito provavelmente, a noção de “desenvolvimento”. Este é o leit-motiv e o verdadeiro fulcro da ideologia nacional, como aliás já tinham constatado, meio século atrás, filósofos como Álvaro Vieira Pinto e sociólogos como Alberto Guerreiro Ramos. Nesse contexto, a função mais importante e fundamental da política externa deveria ser, tão simplesmente, a de coadjuvar o processo de desenvolvimento econômico e social da nação. Assim, o critério essencial pelo qual deveria pautar-se a atuação de cada diplomata brasileiro é a promoção do progresso material e cultural da sociedade brasileira, objetivo de alguma forma intangível e certamente mais fácil de ser pregado do que efetivado, ou ainda de ser opercaionalizado na prática. Em outros termos, não existe um critério unívoco de transposição de “oportunidades externas” em “possibilidades internas”, para utilizar conceitos caros a Celso Lafer. O que remete o diplomata à esfera do bom senso, ou então, à situação de ele ter capacidade de perceber e identificar, na trama por vezes complexa da agenda internacional, o que exatamente correponde ao interesse nacional e que tipo de inserção externa seria mais suscetível, preferencialmente a outras alternativas, de conduzir o Brasil no caminho do desenvolvimento sustentável. Ainda incerto quanto ao roteiro a ser seguido? Isto é compreensível, mas a solução consiste, tão simplesmente, em conhecer profundamente o Brasil e ter uma visão clara da economia política de nosso desenvolvimento social.

2. A independência nacional
No passado, esse conceito já foi equalizado ao exercício pleno da soberania, o que tanto tinha a ver com a capacidade de o estado manter abertas todas as opções possíveis para a demonstração de seu poder, como com a não dependência de qualquer fonte de abastecimento externa. Historicamente, nem o primeiro objetivo foi jamais alcançado, nem o segundo, que é não apenas ilusório como economicamente irracional, apresenta qualquer viabilidade prática ou finalidade instrumental, do ponto de vista do sistema produtivo. Em termos estritamente econômicos, o conceito pode ser traduzido pelo coeficiente de abertura externa, que representa a parte do comércio exterior na formação do produto. No Brasil, a noção assume ares de imperativo categórico, a ponto de figurar, na Carta de 1988, como um dos princípios constitucionais que guiam as relações internacionais do país, como se os líderes do país – ou, vá lá, os diplomatas – fossem capazes de colocá-la em risco.
Durante os períodos de fechamento da economia internacional, como a partir da crise de 1929 e durante a depressão dos anos 1930 e os anos de guerra, não havia mesmo outra opção senão a chamada self-reliance, ou seja, o recurso a fontes alternativas internas de suprimento e a ênfase no mercado interno. No atual contexto internacional, contudo, esse objetivo permanente deveria ser procurado não necessariamente na direção da independência econômica stricto sensu, mas sim mediante uma ativa interdependência com os grandes centros da economia mundial, quando não através de uma internacionalização cada vez mais intensa da economia brasileira. A globalização torna irrelevante qualquer diferenciação entre o mercado interno e o externo e, se alguma distinção pode haver, ela sempre resultaria em destacar a superioridade do mercado externo, tanto em termos de renda agregada como em função da demanda ampliada e do upgrade tecnológico.
A antiga concepção da independência nacional – entendida em determinadas épocas como a realização da plena autonomia decisória em matéria econômica, quase como a conformação de uma espécie de autarquia produtiva –, nunca contribuiu, de fato, para a verdadeira independência nacional, mas sim a fragilizou, a ponto de tornar o País menos propenso a responder aos desafios da competição externa. Apenas uma espécie de substrato inconsciente da antiga “prevenção contra o estrangeiro” ou a manifestação delongada de um complexo de inferioridade hoje aparentemente superado – e aos quais não são alheios certos equívocos de nossas elites políticas – têm impedido a necessária (e inevitável) internacionalização mais intensa do sistema produtivo brasileiro ou a afirmação desinibida da presença cultural no exterior.
Da mesma forma, é carente de sentido a noção de que o país necessita primeiro afirmar-se economicamente ou de que suas empresas devem capacitar-se tecnologicamente ou fortalecer-se financeiramente antes de que possam ser colocadas em prática políticas de abertura econômica e de liberalização comercial. Em outros termos: globalização sim, mas ainda não, esperemos mais um pouco para resolver problemas imediatos. Ao contrário: a multinacionalização das empresas brasileiras ocorrerá no bojo e pari-passu ao processo de internacionalização da economia brasileira. A globalização pode não ser o objetivo final, mas representar tão simplesmente um meio de alcançar determinados objetivos, que não são os da internacionalização em si, mas os do aumento da eficiência e da capacidade de competição dos agentes econômicos nacionais.

3. O interesse nacional e a cooperação internacional
A cooperação internacional costuma ser identificada com a disponibilidade de “excedentes nacionais”, isto é, o fato de um determinado país, após sua fase de “acumulação primitiva”, ter deixado de ser recipiendário de assistência financeira ou técnica externa para tornar-se, ele mesmo, provedor de ajuda ao desenvolvimento, a exemplo dos membros do Comitê de Ajuda ao Desenvolvimento da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na verdade, o processo é mais difuso, como indica o fato de o Brasil ter aderido, em 1960, à Associação Internacional de Desenvolvimento (do Banco Mundial) na condição de contribuinte líquido, ao mesmo tempo em que recebia, para o Nordeste por exemplo, ajuda assistencial sob a forma de alimentos ou outros tipos de doações. Os dois lados da equação “cooperação internacional” se confundem por vezes, não havendo uma função de substituição que corresponde exatamente ao processo histórico mediante o qual o sistema econômico de um país passa, numa determinada etapa, de recipiedário líquido de recursos externos à condição de exportador de capitais.
O interesse nacional não deve ser concebido como uma busca egoísta de vantagens exclusivas para o país, no contexto regional ou internacional, mas como um processo de seleção de benefícios crescentes para a nação no quadro da cooperação externa, bilateral ou multilateral. A cooperação internacional, em ambos os sentidos, corresponde ao interesse nacional, tanto mais quanto ela se desdobrar em projetos de maior intensidade, que a transcendam, rumo a processos de associação política ou de integração econômica. Assim, é do interesse do Brasil o desenvolvimento harmônico do maior número possível de estados-nações, muito embora não esteja ao alcance dos representantes brasileiros, em foros internacionais ou em países estrangeiros, a realização de mudanças estruturais ou o atingimento de transformações econômicas e políticas internas nessas nações, ainda que para fins de desenvolvimento. Em todo caso, o interesse nacional confunde-se, em grande medida, com o interesse da comunidade internacional.
A cooperação externa, tanto a recebida quanto aquela generosamente prestada aos países de menor desenvolvimento relativo, é, contudo, acessória ao projeto nacional de desenvolvimento econômico e social, que passa pela auto-capacitação tecnológica e a formação interna de capital humano. Em qualquer hipótese, quanto mais ajuda o Brasil prestar a países de menor desenvolvimento relativo, maiores condições ele terá de lograr avanços para si mesmo nos campos tecnológico, financeiro e comercial.

4. A “graduação” e o status de país em desenvolvimento
O sistema de comércio internacional do pós-Segunda Guerra foi construído com base em regras de reciprocidade, ou seja, no pressuposto de um tratamento igualitário para todos os países, ricos ou pobres, agrários ou industrializados, avançados ou atrasados. Uma das lutas mais consistentes empreendidas pela diplomacia econômica brasileira nos anos 50 e 60 foi levada justamente no sentido de buscar um tratamento diferencial, ou seja, preferencial e mais favorável, para os países em desenvolvimento, o que foi obtido a partir das reformas do sistema multilateral a partir de 1964, com as reformas do GATT e a atuação inovadora da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a UNCTAD. Desde então a não-reciprocidade assegura um certo acesso de produtos desses países aos mercados desenvolvidos – embora segundo uma relação unilateral, condicionada e assistencialista – bem como a derrogação ou redução de certas obrigações normativas. O sistema vem sendo preservado tal qual, praticamente desde essa época, com algumas modificações menores introduzidas no curso de rodadas de negociações comerciais, geralmente no sentido de ser efetuada a graduação dos mais industrializados, como o Brasil, mantendo preferências para os de menor desenvolvimento relativo.
O tratamento preferencial pode trazer algumas vantagens setoriais, mas não constitui, por si só, elemento impulsor do desenvolvimento econômico. Nessas condições, a afirmação, sempre reiterada pela diplomacia brasileira, de nosso status de “país em desenvolvimento” e a conseqüente busca, ou preservação, das vantagens inerentes a tal condição constituem, paradoxalmente, os meios mais seguros de perpetuar o Brasil nesse estado desconfortável – e, em grande medida, falso – de “país em desenvolvimento”. Em determinadas conjunturas históricas, como a que atravessou o Brasil na passagem para o século XXI, de transformação estrutural ou de transição para uma nova etapa de desenvolvimento econômico, uma mudança auto-assumida de paradigma oferece uma chance única para uma melhor inserção internacional.
A liberalização comercial unilateral dos anos 90, por exemplo – como aliás, na mesma linha, a assunção irrestrita do princípio do free trade na Inglaterra vitoriana de um século e meio atrás –, fez mais para aumentar a competitividade externa do Brasil no mercados internacionais do que o suposto tratamento favorável concedido a um certo número de produtos manufaturados por parte de alguns países desenvolvidos. Da mesma forma, o ajuste fiscal e as reformas econômicas internas fazem parte da nova inserção internacional do Brasil. A melhor forma de graduação é aquela auto-assumida, não a imposta pelos parceiros mais desenvolvidos.

5. A integração regional e o ingresso em foros restritos
A economia mundial do final do século XX e início do XXI tem sido caracterizada pelos processos de globalização e de regionalização, que não são contraditórios entre si ou apresentando-se como alternativas excludentes. De fato, o que caracteriza a economia mundial da atualidade é o extraordinário aumento da interdependência entre os países, sejam eles membros ou não de algum bloco de comércio ou sistema de aliança política. O Brasil participa de ambos os processos, tendo logrado superar pruridos nacionalistas para engajar-se resolutamente na globalização e dirigido, de forma relativamente exitosa em seus primeiros dez anos, a consolidação do Mercosul em direção de uma união aduaneira.
Os processos de integração regional, possuidores de uma racionalidade econômica stricto sensu, devem ser perseguidos como objetivos funcionais ou correlativos ao processo de desenvolvimento nacional, mas não necessariamente como um fim em si, na medida em que sua vertente política e institucional deve ser confrontada aos custos sociais (inclusive financeiros e diplomáticos) de sua realização efetiva. Da mesma forma, a busca seletiva de adesão a (ou de aceitação em) determinados clubes seletos – como podem ser o MTCR, o CSNU, a OCDE – devem ser vistos antes como o resultado do que como a causa de determinados processos estruturalmente vinculados aos objetivos nacionais permanentes.
A busca do prestígio pelo prestígio introduz custos adicionais ao esforço interno de ajuste, custos que devem ser confrontados aos benefícios esperados ou à capacidade do país em produzir excedentes líquidos para sua projeção internacional. Em princípio, é o desenvolvimento interno, econômico e social, da nação que trará o reconhecimento externo, e com ele determinados convites à assunção de responsabilidades maiores na comunidade internacional, e não o contrário. O discurso democrático e universalista da diplomacia brasileira, basicamente orientado para a ação multilateral, deve guardar coerência com sua forma de atuação nos mais diferentes foros abertos à nossa presença. O objetivo último de uma política externa “globalizada” e “integracionista” é o aumento do bem-estar da população brasileira, não o internacionalismo abstrato, a integração pela integração ou a incorporação em foros restritos apenas pelo prestígio parente que isso comporta.

6. A imagem internacional do Brasil
Ela é certamente falha, injusta, incorreta, por vezes difamatória: o Brasil geralmente aparece na imprensa internacional mais pelo lado de suas mazelas sociais e ambientais do que pelos aspectos exitosos de seu desenvolvimento ou pelas realizações materiais e artisticas de seu povo. Muitas vezes isso se dá por perversidades próprias à nossa estrutura econômica e social, outras vezes por incompetência dos agentes públicos brasileiros na apresentação de nossas realidades. O aperfeiçoamento dessa imagem não deveria contudo ser buscado pelo mero investimento nos meios, isto é, pela promoção de um retrato “mais fiel” do Brasil, mas por uma ativa política corretiva nas fontes do problema. Do incômodo de conviver com certas realidades, possivelmente vexatórias do ponto de vista internacional, nascem determinadas posições principistas que apenas eludem alguns problemas cruciais de ordem política ou social; nessa ordem de idéias pode ser colocada a visão jurisdicista que ainda anima nossa política de direitos humanos.
Um certo investimento em “imagem” vem sendo feito junto a interlocutores externos, sem que se possa medir muito bem o retorno efetivo dos recursos engajados nessas formas sutis de propaganda. Alguma satisfação, pelo menos no plano individual, pode resultar dessas ações, mas tais recursos estariam certamente melhor empregados se fossem canalizados para as tarefas de educação e de promoção da cidadania ou da preservação ambiental no próprio Brasil, em lugar de serem direcionados para o exterior.

7. Avaliação do instrumento diplomático brasileiro
Depois do “mito do Barão”, a afirmação da “excelência do Itamaraty” é certamente uma das crenças mais arraigadas em nosso estamento profissional, tendo obtido um grau razoável de aceitação pública, interna e externamente. A autocomplacência com nossas supostas boas qualidades pessoais, ótima formação acadêmica e alto desempenho profissional parece constituir uma espécie de “pecado original virtuoso”, tendo sido constantemente estimulada por uma dessas frases grandiloqüentes cuja origem é creditada ao imediato entorno regional: “El Itamaraty no improvisa” (talvez devesse fazê-lo em determinadas ocasiões, para não dar a errônea impressão de lentidão ou passividade).
De fato, a preservação das linhas básicas da política externa brasileira ao longo das décadas deve-se a seu caráter intelectualmente reflexivo, politicamente cauteloso, operacionalmente coordenado e essencialmente discreto em termos de mídia. Sem querer desmerecer a qualidade e a dedicação da burocracia diplomática, sobretudo em confronto com outras categorias profissionais servindo o Estado, caberia no entanto introduzir uma nota de caução e de advertência, no sentido de que a autosatisfação e a glorificação generosa dos atributos de qualquer tipo de casta social são, de um ponto de vista puramente antropológico, os caminhos mais seguros para uma crescente endogamia, a degenerescência precoce e o esclerosamento. Os processos de osmose, em contrapartida, costumam ser regeneradores e vivificadores para todas as células do organismo, da mesma forma como a mistura racial e a abertura à alteridade reforçam a capacidade de resposta e de adaptação de todo e qualquer corpo social.
Todos sabemos, por exemplo, que grande parte do nosso tempo é mais dedicado à busca de meios para (tentar) trabalhar – como suporte logístico, pessoal, material, comunicações, enfim, recursos e insumos de diversas categorias – do que propriamente voltado para os fins precípuos para os quais somos pagos pela comunidade: pensar e praticar a política externa brasileira. Caberia indagar, assim, se alguns procedimentos de trabalho conseguiriam passar num controle de qualidade um pouco mais severo de um auditor externo especializado em organização e métodos. Ou, então, se a continuidade da suposta excelência dos quadros do Itamaraty está vinculada à estabilidade estatutária da classe diplomática, aparentemente considerada (por “direito divino”?) um dos corpos permanentes e inamovíveis do Estado.

Eventuais respostas alternativas às perguntas acima, talvez politicamente incorretas, poderiam introduzir um pouco mais de modéstia em nossa autoavaliação e promover uma busca constante de aperfeiçoamento no modo como funciona esta instituição repleta de jovens idealistas. Como “ideólogos” da diplomacia, nos cabe uma certa dose de responsabilidade na permanente remise en cause da velha ordem em que somos chamados a atuar.

Paulo Roberto de Almeida (http://pralmeida.tripod.com)
é doutor em ciências sociais, mestre em planejamento econômico e autor de
Formação da Diplomacia Econômica no Brasil (São Paulo: Senac, 2001)
As opiniões expressas no presente texto são exclusivamente as de seu autor e não correspondem a posições ou políticas do Ministério das Relações Exteriores ou do Governo brasileiro.
[Washington, 813: 2 outubro 2001]

link: http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/35899/20924 




Mensagens e mais mensagens rompendo com meu "natural reservoso", e meus agradecimentos gerais e at large - Paulo Roberto de Almeida

 A despeito de privilegiar um "natural reservoso", como o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, da fabulosa novela de José Candido de Carvalho, "O Coronel e o Lobisomem", acabei incorrendo no pecadilho de indicar data do natalício nestas ferramentas de comunicação social. Ocorre, assim, que, em "retaliação" a tal impensado gesto, vejo minhas caixas de entrada submergidas de mensagens de cumprimentos. Como recém retornei ao ferramental eletrônico, sequer consegui ler todas, e nem sei como vou responder a cada uma nas horas subsequentes. Aguardando a feitura de uma mensagem, provavelmente coletiva, de agradecimento, gostaria simplesmente de postar os cumprimentos de dois antigos chefes no decurso de minha carreira diplomática, o ministro Celso Lafer e o embaixador Rubens Barbosa, seguidas de minhas respostas improvisadas, teclando no celular em movimento, o que segue.

Depois retomo para o universo das interações, com algum novo texto representativo do meu labor de toda uma vida:

1) "Caríssimo Paulo Roberto
Meu afetuoso e amigo abraço de cumprimentos pelo seu aniversário celebrando a sua esclarecida pesquisa e contínua dedicação ao entendimento da política externa e as relações internacionais do Brasil.
Celso"

Minha resposta:
"Caro ministro,
Agradeço sensibilizado sua mensagem.
Toda minha vida foi dedicada primeiro aos livros, depois ao ensino, em terceiro lugar ao aprendizado sobre relações internacionais, política externa e diplomacia brasileira, inicialmente, e principalmente, por meio de suas obras e de várias outras contribuições a essa minha esfera profissional durante mais de 4 décadas.
Creio que aprendi muito, e tentei transmitir a meus alunos, e a outros colegas, esse aprendizado, assim como a experiência obtida no exercício de atividades diplomáticas, nem todas convergentes com certas orientações presidenciais personalíssimas, em face das quais não hesitei em expressar minha opinião, mesmo ao longe no momento.
Quero agradecer o munus intelectual que auferi da leitura de suas obras e o estimulo dado pelos exemplos práticos registrados." PRA

2) Embaixador Rubens Barbosa
"Parabéns pelo dia de hoje. Continue a produzir com o vigor de sempre. Abs."

PRA: "Gratissimo meu eterno chefe: tenha certeza de que vou continuar na mesma trilha que adotei desde a agora distante adolescência: ceticismo sadio e contrarianismo bem informado."

Pronto, pode servir para vários outras mensagens que ainda estão na categoria não respondida. Vamos a elas também.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 19/11/2025


Política Externa e Interesse Nacional: interações e descompassos - Paulo Roberto de Almeida (IRICE)

 Política Externa e Interesse Nacional: interações e descompassos

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Reflexões sobre uma problemática ainda carente de equacionamento no Brasil.
Preparado para seminário homônimo coordenado pelo embaixador Rubens Barbosa.
Realização: Irice, 21 de novembro de 2025, 17:00hs.

        Os conceitos de política externa e de interesse nacional são suficientemente vagos e muito pouco explícitos, para permitir qualquer interpretação objetivamente embasada sobre as conexões possíveis entre uma política setorial concreta, determinada, efetiva, como é a “política externa governamental”, e essa noção subjetiva e abstrata de “interesse nacional”. Entende-se, por esta última, que ela corresponde a toda e qualquer ação, condução, direção que levem à consecução das aspirações concretas do país, ou seja, da maioria de seu povo, em especial daqueles objetivos apontados como necessários pelas lideranças políticas e econômicas da nação. O primeiro conceito, por sua vez, o da política externa, está sendo permanentemente documentado, expresso, exposto e defendido pelo dirigente nacional – primeiro-ministro, presidente, ditador – e pela instituição oficialmente encarregada de sua operacionalização, o ministério das relações exteriores e seu corpo profissional.
(...)
Disponível na plataforma Acdemia.edu, link:
https://www.academia.edu/145030554/5105_Politica_Externa_e_Interesse_Nacional_interacoes_e_descompassos_2025_

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Conceitos “carcereiros” na teoria social (e política) do Brasil - Paulo Roberto de Almeida

Conceitos “carcereiros” na teoria social (e política) do Brasil

Paulo Roberto de Almeida 

Durante toda a sua história, o Brasil não conseguiu escapar de certas “prisões mentais” que dificultaram seu desenvolvimento inclusivo e homogêneo. Durante mais de três séculos, talvez quatro, não conseguimos escapar do escravismo efetivo, que significou o tráfico africano e o escravismo negro (que rapidamente superou o indígena, por ser mais produtivo e “expendável”); ele foi substituído pelo escravismo mental, que perdura até hoje.

Depois veio, a grande ideologia da industrialização nacionalista que contaminou todas as políticas públicas desde o final do século XIX até hoje, compreensível pela importância das revoluções industriais que transformaram o mundo, a partir do núcleo europeu ocidental, até hoje.

Nunca fizemos uma revolução educacional, isto é, ensino básico de qualidade para todos, até hoje.

Mais recentemente, alguns novos “conceitos carcereiros” vêm aprisionando nossas políticas públicas, inclusive no terreno diplomático (que é o meu universo de trabalho acadêmico e profissional), e que insistem em moldar a agenda da teoria social, inclusive no setor governamental: deixo de lado o ridiculo molde “decolonial” que, na área acadêmica, veio tomar o lugar da teoria da dependência, outra grande ilusão metofológica. 

Na área diplomática, o BRICS e o tal de  Sul Global (antes apenas Sul-Su) são os dois novos queridinhos de acadêmicos e dirigentes da nossa diplomacia, aprisionando qualquer nova reflexão sobre uma agenda própria de desenvolvimento econômico e social.

Por que o Brasil precisaria das muletas mentais (e práticas) do BRICS e do tal do Sul Global para poder se desenvolver de maneira uniforme e independente? O Mercosul anda em baixa atualmente, sendo que foi, durante três décadas, o principal projeto estratégico da diplomacia brasileira.

As elites econômicas e políticas ainda não perceberam que ambos conceitos nos prendem a modelos e caminhos de atuação interna e externa que limitam e constrangem nossa atuação independente num mundo dominado por impérios — o que nunca fomos, nem seremos, no futuro previsível — e povoado por Estados nacionais, que possuem independência relativa?

Continuamos sem revolução educacional, mas sempre aderindo a modismos que nos aprisionam mentalmente, e que contaminam o discurso público, inclusive o diplomático.

Certas coisas demoram para passar: talvez o Brasil ainda não tenha crescido o suficiente. Como crianças pequenas, imitamos o que vem de fora  e certas modas criadas por intelectuais. BRICS e Sul Global são apenas os exemplos mais recentes dessas prisões mentais, que têm incidência direta nas políticas públicas, inclusive as diplomáticas.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 18/11/2025


Ukraine vs. Russia preferences in Slavonic studies - Dasha Nepochatova

 What I Find Very Difficult at Oxford

Dasha Nepochatova

(Via Anton Geraschenko)

I think I’ve already mentioned that when I entered the university, I did not expect that in Slavonic Studies the overwhelming majority of research would be dedicated to Russia. In fact, my dissertation will be the first one about Ukraine in this department.

Since I hadn’t even thought about this beforehand, because I had no expectations at all, I was genuinely shocked when I first encountered this reality. The world is banning Russia — in sports and many other spheres — yet here it is being studied: its cinema, literature, LGBT community, and so on. On the one hand, scholarship is scholarship, and that’s natural. But at the same time Ukraine is not being studied. That’s the problem.

This was in 2024. The war had already been going on for two and a half years.

When the shock passed, I realized that the only thing I could do was to help build Ukrainian Studies within our sub-faculty. Because it is almost impossible to counter the Russian narrative when most professors are professors on Russia and there is not a single professor on Ukraine. That was the first layer — the one I gradually adapted to.

Later another layer emerged — the narrative around the Soviet Union. Yes, the USSR is studied in other programs too, but in Slavonic Studies, for example, they study GULAG literature. And when I attended a two-day workshop on this topic, I realized that 90% of the presentations were about Russian writers, and none about Ukrainian ones. The topic of the Executed Renaissance wasn’t even mentioned, as if no one had ever heard of it. That’s when I understood that even Soviet history studies turn into studies of Russia.

This was deeply painful. Even more painful than discovering the imbalance in Slavonic Studies. That situation can still be explained somehow, but this one cannot be explained at all. And I thought that programs like this should apply an approach similar to gender quotas — like in parliaments, where at least 30% of MPs must be women. Yes, it’s artificial regulation, but I see no other way.

I eventually worked through that shock as well. I poured even more energy into creating Ukrainian Studies, understood how to build a strategy, what to say, and even drafted a large fundraising document explaining why this work is necessary.

But then a new year came, and unexpectedly I encountered another layer — an even more painful one — and I felt like there was nothing I could do about it. This term I took a course in world literature.

In one of the lectures, dedicated to Nordic literature — the sagas of the Vikings — the professor quoted different texts. In one of them (the Saga of Bjorn) it said that the Vikings set out “east into Russia to see King Vladimar.” Then another reference to ancient “Russian” literature appeared on the slide.

The next lecture, with a different professor, was on medieval literature, and of course she also spoke about “Russian literature” created in Kyiv.

I couldn’t remain silent and wrote the professor an email.

“I wanted to share a brief reflection on two details that particularly caught my attention. The use of the term “Russia” in the slide referring to King Valdimar in the Saga of Bjorn is historically inaccurate. King Valdimar corresponds to Prince Volodymyr the Great (c. 958–1015), ruler of Kyivan Rus’, a polity centred in Kyiv and established in the 9th century. Moscow was founded only in 1147, and the Muscovite state — the precursor of modern Russia — emerged several centuries later.

Kyivan Rus’ is the historical predecessor of the Ukrainian state, not the Russian one. Translating “east into Russia” or referring to that region as “Russia” therefore projects a much later political identity backwards in time and perpetuates the imperial myth of a “shared history” — a narrative that contemporary Russia actively exploits to justify its aggression against Ukraine.

Similarly, the quotation from Schlözer (1773), which places “Russian literature” among medieval traditions, reflects the 18th-century Eurocentric habit of treating all East Slavic culture as “Russian.” Acknowledging this historiographical bias and postcolonial studies could add valuable nuance to how medieval identities are discussed and contextualised.

In the present context of Russia’s full-scale war against Ukraine overlooking these distinctions risks appearing as a form of knowledge distortion, however unintended. It is particularly sensitive when presented to undergraduate students, whose critical thinking skills are still developing. I believe that we all share a responsibility to encourage intellectual curiosity, historical accuracy, and awareness of how narratives are shaped — especially those that carry deep political and cultural implications.

I understand that such terminology is often inherited from long-standing academic conventions, but within an institution like Oxford — where we have both the tools and the responsibility to approach history with precision — it seems particularly important to revisit these inherited frameworks.

I share these reflections with genuine respect for your scholarship, and with appreciation for the thought-provoking nature of your lecture, which encouraged me to raise this perspective.”

To my surprise, the professor responded quickly and very positively. He thanked me for the feedback, promised to revise the lecture, and even asked whether he should re-deliver it with the corrections.

I might not have written this post at all if today I hadn’t come across Judith Jesch’s book Women in the Viking Age. Naturally, I picked it up to look through it, and immediately stumbled on the chapter titled Russia. The term Kyivan Rus’ isn’t mentioned at all, even though the chapter discusses Princess Olha.

And so now I have a question. What do we do with all of this? Do we have scholars working on the decolonization of Kyivan Rus’ at the level of international universities? Because the professor’s reaction to my comment was constructive — he agreed with my arguments. But so much of our history has been stolen — how do we fix it? How do we communicate it? Where do we find the strength and resources? Because to me this is a falsification of knowledge. And Western institutions are participating in it.

The photos are the slide from that lecture and a page from the book.

Author: Dasha Nepochatova, President of Oxford Universtiy Ukrainian Society


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