Um leitor me envia o seguinte comentário a um post econômico (eles são muitos) deste blog:
Essa semana vi a notícia de que a União Européia comemorou a valorização do Euro sobre o Dólar. Me surgiu uma dúvida e gostaria que se você pudesse me respondesse: Por que a UE comemora a valorização da sua moeda e nos lamentamos?
Outra questão que gostaria de fazer é sobre sua opinião se o governo conseguirá ou não segurar essa desvalorização do real ou o mesmo voltará a se valorizar sobre o dólar.
Respondi inicialmente o seguinte, em comentário ao post em questão, e prometi um post sobre isso:
Suas dúvidas são pertinentes, mas não existem respostas econômicas para variações cambiais em que se comprazem ou com as quais se preocupam os governos.
Governos sempre têm preocupações políticas e acham que a economia deveria ajudá-los. Ora, a economia é implacável: ela não existe para contentar governos, e sim para expressar relações da realidade.
Vou fazer um post para tentar responder suas questões.
Paulo Roberto de Almeida
Bem, vamos tentar agora, mas o assunto do câmbio é vastíssimo e a patetice dos governos em matéria cambial é maior ainda. Em todo caso, posso oferecer minha visão do problema, e o que eu acho razoável de se fazer em matéria cambial.
Em tempos recuados, muito antes da brilhantina, câmbio era visto com certo respeito por governos responsáveis. Eram os tempos do padrão ouro (século XIX, até 1913), quando os governos de países sérios emitiam moeda com lastro metálico (ouro ou prata, mas o ouro forneceu o padrão da libra, oficialmente desde o final das guerras napoleônicas, até o início da guerra, quando se suspendeu a conversibilidade, por razões ponderáveis, digamos assim.
Desde então, o mundo nunca mais foi o mesmo, embora se tenham feito tentativas para voltar à "idade do ouro".
Mas, como os governos aprenderam a emitir dinheiro sem lastro nenhum, durante a guerra, os políticos se acostumaram a essa solução fácil de prometer muito, acima dos recursos disponíveis, manipulando emissões e a paridade das moedas, quando assim necessário.
Passo por cima da indescritível bagunça que foram os anos de entre guerras, mas recomendo a você a leitura de Liaquat Ahmed, Lords of Finance, que me parece ter uma edição brasileira, chamada Os Donos do Dinheiro. O essencial está em que nos anos 1930 tudo saltou pelos ares e o mundo viveu o caos econômico e monetário: emissões inflacionistas, manipulações cambiais, protecionismo comercial, controle de capitais, enfim, a descida aos infernos na economia.
A grande tentativa de restaurar certa ordem se deu em Bretton Woods, e aí recomendo a você o livro de Barry Eichengreen, Globalizing Capital, ou A Globalização do Capital, em edição brasileira.
Em Bretton Woods, em 1944, se definiu um padrão ouro-dólar, que funcionou durante certo período (enquanto os EUA garantiram a conversão oficial a 35 dólares por onça de ouro), mas logo nos anos 1960 os desequilíbrios se acumularam e os EUA tiveram dificuldades em honrar os compromissos assumidos em Bretton Woods.
O desenlace fatal se deu em 1971, quando os EUA denunciam unilateralmente o arranjo de Bretton Woods, e o mundo nunca mais voltou a ser o mesmo. Ou seja, as moedas já não tinham mais referência em ouro ou em dólar, e cada governo podia fazer os arranjos que desejasse, pois o FMI deixou, em 1973 oficialmente, de exigir dos países uma declaração de paridade (estável, tanto quanto possível) de suas moedas. Cada um deveria se arranjar por si, ou seja, liberdade cambial.
Isso quer dizer que um país pode deixar sua moeda amarrada a um valor fixo (expresso em ouro, ou em outra moeda forte, mas esta flutua, na maior parte dos casos), pode preferir uma banda de variação, para evitar tanto o compromisso com um valor fixo (que imporia obrigações muito grandes a sua autoridade do setor), quanto as variações muito fortes, assim como pode simplesmente deixar sua moeda variar em função da velha lei da oferta e da procura, ou seja, ao sabor dos mercados.
Governos de países responsáveis e de economias maduras (o que não quer dizer estáveis, pois isso não existe em economia) adotaram essa solução: abrir seus mercados financeiros e permitir o livre câmbio das suas moedas, ou seja, abolição dos controles de capitais e liberdade cambial, o que quer dizer livre conversibilidade. Por vezes existem flutuações muito importantes, e durante certo tempo, os bancos centrais faziam acordos de empréstimos mútuos para intervenção nos mercados e deixar a moeda em torno de certos valores tidos por desejáveis.
Mas isso é praticamente impossível hoje: a magnitude dos movimentos de capitais é de tal monta que NENHUM governo tem capacidade de intervenção suficiente.
Países menores, ou com dificuldades na liberalização econômica, mantém controles de capitais e ausência de conversibilidade, o que evidentemente penaliza empresas e indivíduos que gostariam de dispor livremente de seus ativos financeiros.
Para se ter uma ideia da ordem de grandeza de que estamos falando, bastar ter em mente estas proporções aproximadas:
60 trilhões de dólares: valor do PIB global anual (sendo que uma espécie de G10 da economia mundial deve ter 90% disso);
220 trilhões de dólares: ativos financeiros intercambiados nos diversos mercados do mundo, sob diferentes modalidades, ou seja, aproximadamente quatro vezes a produção de riquezas;
600 trilhões de dólares: valor total de todos os ativos, incluindo dívidas governamentais, valor das ações, etc.; parte desses valores, parte em fumaça quando das crises, que geralmente correspondem a bolhas acumuladas em algum setor (cambial, imobiliário, ações, etc.).
Pois bem, tendo esse quadro, como interpretar o que você me diz?:
1) "a União Européia comemorou a valorização do Euro sobre o Dólar"
PRA: Pode até ter comemorado, mas isso não tem muito significado econômico, pois a realidade pode mudar. Num momento de crise, as pessoas, os empresários, os especuladores, se afastam dos países em crise -- como a Europa atualmente -- pois significa que as oportunidades de ganho são mais raras e os riscos maiores. Natural, portanto, a desvalorização do euro, o que quer dizer que os europeus ficam mais pobres em face do resto do mundo. Portanto, se existe uma valorização, isso dá certo alívio nos políticos, mas isso é efêmero e enganoso.
Não tenho certeza de que nós lamentamos isso, mas os fenômenos cambiais sempre tem duas pontas: valorização ou desvalorização são sempre relativas às paridades existentes, e podem ocorrer tanto em função de fatores absolutamente econômicos (a velha lei da oferta e da procura), como por manipulações governamentais, que provocam fluxos e contrafluxos de capitais. O que os governos europeus fazem é patético, pois estão se vangloriando por um movimento absolutamente efêmero, provavelmente no imediato seguimento do plano espanhol (afinal, 100 bilhões de euros sempre é alguma coisa), mas o cenário pode mudar, por qualquer motivo, inclusive por fatores totalmente alheios ao cenário europeu (conjuntura americana, por exemplo).
2) "se o governo [brasileiro] conseguirá ou não segurar essa desvalorização do real ou o mesmo voltará a se valorizar sobre o dólar"
PRA: O governo brasileiro também é patético, pois não sabe o que quer, e comemora coisas que não dependeram dele, diretamente.
Como somos um país economicamente fascista, ou perto disso, no qual o Estado controla um pouco todas as vertentes da atividade econômica, é possível, ainda, influenciar o câmbio, que teoricamente, no Brasil, se situa num status de "flutuação suja", ou seja, o governo diz que o câmbio flutua, mas não deixa de intervir quando pode ou quando quer (comprando ou despejando dólares no mercado).
A valorização inédita ocorrida nos últimos anos, mais importante do que na primeira fase do real (quando os petistas acusavam o governo de fazer "populismo cambial) decorreu de vários fatores, mas sobretudo do afluxo de dólares por: (a) juros altos no Brasil; (b) valorização das commodities brasileiras exportadas; (c) expansão das exportações, sobretudo do setor agropecuário; (d) crescimento econômico e oportunidades de investimento estrangeiro no Brasil; (e) diversos outros fatores residuais, que deixo de mencionar.
Ou seja, o governo pode não ter querido essa valorização, ela ser recusada e denunciada pelos exportadores manufatureiros (que sofrem com o encarecimento em dólar de seus produtos), mas mesmo assim ocorrer.
Governos, em geral, são hipócritas, pois dizem querer favorecer as exportações, mas "adoram", secretamente, essa valorização, pois isso deixa os cidadãos mais ricos, eles podem ir duas vezes por ano a Miami, passear em Paris, etc. Ou seja, todo governo, ainda que não admita, adora "populismo cambial". Daí a razão de deixarem a moeda se valorizar, por vezes até artificialmente.
Mas, digamos que a pressão dos exportadores se tornou insuportável, e que a balança comercial, ou de serviços, apresente déficits preocupantes, e é preciso proceder a pequena desvalorização. Existem muitos meios para isso, mas também depende da capacidade de fogo do governo.
A desvalorização ajuda a desafogar balança de transações correntes, mas também torna os cidadãos mais pobres e a classe média não gosta.
Em todo caso, o mundo ideal, para os governos, seria um em que existissem dois câmbios, um desvalorizado, para exportações, outro valorizado para importações e farra no exterior. Isso é impossível, pelo menos em situações de mercado, mas já tivemos, no passado, taxas múltiplas de câmbio. É um caminho para a corrupção e a desorganização da economia.
Pois bem, termino com a minha opinião sobre o que eu acharia desejável no mundo econômico, e no Brasil.
O ideal para mim seria um cenário em que o governo fosse amputado da capacidade de influenciar juros e câmbio, em que esses elementos importantes da vida econômica fossem regulados pelos mercados, e aí nos adaptaríamos à realidade da vida econômica.
Se fôssemos muito produtivos e competitivos, nossa moeda se valorizaria naturalmente, e seríamos felizes assim (mas para isso é preciso trabalhar como os alemães, digamos assim).
Se fossemos um pouco como os gregos -- o que somos, na verdade -- o desastre viria: essa coisa de viver de sol e mar, esperando turistas, pagando salários fabulosos para um funcionalismo exacerbado, pensões generosas, não costuma dar certo. Aí, a "solução" natural dos mercados é a fuga de capitais, o desinvestimento, a desvalorização, enfim. A tragédia grega foi que eles não podiam desvalorizar. Mas não vamos achar que foram vítimas, isso não: viveram durante anos à sombra dos juros "alemães", importando capital não para investimento, mas para tapar os rombos orçamentários e os buracos de seu balanço de pagamentos, e mais ainda: manipularam e maquiaram suas contas públicas, escondendo vergonhosamente as estatísticas reais.
O governo brasileiro faz um pouco isso, também, manipulando, maquiando, escondendo dívida pública com dinheiro do Tesouro repassado ao BNDES, a um custo fiscal não revelado e não transparente.
Um dia a casa cai.
Qual deve ser a taxa de câmbio no Brasil?
Eu acho que deve ser aquela de equilíbrio, sem manipulações governamentais.
Qual é essa taxa? Eu não sei, só sei que ela corresponderá à dinâmica econômica brasileira: se formos produtivos, competitivos, ela se valorizará naturalmente, e estaremos ricos e felizes.
Se formos improdutivos, os "gregos" da América do Sul, o câmbio vai desabar um dia, e ficaremos mais pobres, como os gregos descobriram agora.
Qual o caminho para evitar esses dissabores?
Bem, se dependesse de mim: juros e câmbio de mercado, ponto.
Quando vamos ter isso?
Não sei, por enquanto vivemos no fascismo econômico.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 19 de junho de 2012
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
terça-feira, 19 de junho de 2012
Greve no Itamaraty: espaco e tempo para refletir...
Uma greve no Itamaraty pode atrapalhar um bocado brasileiros em viagem, que vão sofrer (um pouco mais) no que se refere ao atendimento consular.
Quanto aos demais serviços internos, pode, sim, atrapalhar a emissão de passaportes oficiais, o pedido de vistos por notas, e até a liberação das bebidas e carros dos diplomatas estrangeiros, se esses serviços não estiverem automatizados.
No mais, não creio que afete a economia do país, o tamanho e o crescimento do PIB, o nível de juros e o déficit público (ao contrário, pode até ser que diminua o déficit público).
Em todo caso, estacionamento e biblioteca estarão mais vazios, o que permitirá aos pesquisadores mais silêncio e tranquilidade (isso se a Biblioteca não fechar, claro).
Espero que ela não feche: é o lado do Itamaraty que mais prezo...
Paulo Roberto de Almeida
Quanto aos demais serviços internos, pode, sim, atrapalhar a emissão de passaportes oficiais, o pedido de vistos por notas, e até a liberação das bebidas e carros dos diplomatas estrangeiros, se esses serviços não estiverem automatizados.
No mais, não creio que afete a economia do país, o tamanho e o crescimento do PIB, o nível de juros e o déficit público (ao contrário, pode até ser que diminua o déficit público).
Em todo caso, estacionamento e biblioteca estarão mais vazios, o que permitirá aos pesquisadores mais silêncio e tranquilidade (isso se a Biblioteca não fechar, claro).
Espero que ela não feche: é o lado do Itamaraty que mais prezo...
Paulo Roberto de Almeida
Servidores do Itamaraty entram em greve
18/06/2012
Pela primeira vez na sua história, o Itamaraty enfrenta, a partir de hoje, uma greve dos seus servidores. Oficiais de Chancelaria, Assistentes de Chancelaria e, de acordo com o sindicato da categoria, até mesmo alguns diplomatas decidiram pela paralisação nesta segunda, em uma assembleia em Brasília que contou com a participação, via redes sociais, de funcionários de fora do País.
Pelo menos 60 postos no exterior, incluindo o atendimento consular em Paris, Roma, Londres, Nova York, Los Angeles e Washington serão afetados. Às vésperas das férias de julho, o problema pode repercutir diretamente nos milhares de brasileiros que devem viajar para o exterior nos próximos dias e nos estrangeiros que desejem vir ao Brasil.
Uma das poucas atividades que não serão prejudicadas pela greve é a organização da Conferência Rio +20. A decisão da assembleia, tomada nesta segunda, ressalta que o os funcionários que estão na organização do encontro de mais de 150 chefes de Estado, que termina no final dessa semana, será preservado. Nele estão mais de 200 diplomatas, oficiais e assistentes. Dos cerca de 500 que ficaram em Brasília, 300 participaram da assembleia.
Os oficiais e os assistentes de chancelaria são, normalmente, os responsáveis pelas funções administrativas das embaixadas, consulados e também na sede do ministério, em Brasília. Um trabalho que inclui também o atendimento direto ao público, o atendimento telefônico das unidades consulares e até mesmo a emissão de novos passaportes – que, apesar de ser autorizada pelos diplomatas, passa pelas mãos dos oficiais. O Itamaraty admite que durante o período da greve, o trabalho poderá ficar mais lento e terá que ser assumido pelos diplomatas.
De acordo com o SindItamaraty, que representa todas as categorias de servidores do chamado Serviço Exterior Brasileiro, o que os funcionários querem é a equiparação com os salários mais altos das carreiras de Estado. No caso dos diplomatas, os vencimentos subiriam pouco: dos atuais R$ 12.960, em início de carreira, para os R$ 13,6 mil de um auditor fiscal. O salário final passaria de R$ 18.470 para R$ 19.689, os vencimentos de um delegado da Polícia Federal.
Os maiores aumentos seriam para os Oficiais e Assistentes. Os primeiros, que hoje recebem inicialmente R$ 6,3 mil, passariam para a segunda categoria de vencimentos de nível superior do governo federal, R$ 12.960. Os assistentes passariam à primeira categoria dos cargos de ensino médio, saindo de um salário R$ 3,1 mil para R$ 5,8 mil – em valores de hoje, já que a maior parte das categorias classificadas nessas faixas também hoje pede reajustes, que os servidores do Itamaraty também pretendem receber.
Os maiores aumentos seriam para os Oficiais e Assistentes. Os primeiros, que hoje recebem inicialmente R$ 6,3 mil, passariam para a segunda categoria de vencimentos de nível superior do governo federal, R$ 12.960. Os assistentes passariam à primeira categoria dos cargos de ensino médio, saindo de um salário R$ 3,1 mil para R$ 5,8 mil – em valores de hoje, já que a maior parte das categorias classificadas nessas faixas também hoje pede reajustes, que os servidores do Itamaraty também pretendem receber.
Em uma carta enviada ao ministro das Relações Exteriores, Antonio de Aguiar Patriota, no dia 14 deste mês, os servidores informavam sobre a possibilidade de greve e suas reivindicações, que estão sendo negociadas com o Ministério do Planejamento. Até agora, no entanto, não houve nenhum sinal positivo. Os servidores já haviam feito uma paralisação no dia 30 de maio, mas as negociações não avançaram. A greve é por tempo indeterminado, mas uma nova assembleia foi marcada para sexta-feira com a intenção de avaliar alguma proposta do Planejamento, se houver.
Disponível em: http://br.noticias.yahoo.com/servidores-itamaraty-entram-greve-221400152.html
Afundando no protecionismo, e preparando a crise futura...
Brasil e Argentina eram, segundo meus critérios, apenas países reticentes em abrir-se à economia mundial, vagarosos nas reformas e sobretudo temerosos da concorrência estrangeira.
Não mais. Eles estão plenamente engajados em retroceder no tempo, fazendo girar para trás a roda da história, em pelo menos cinquenta anos, enquanto ativos promotores, defensores, estimuladores, entusiastas do protecionismo, como se isso fosse solução para qualquer um dos problemas que suas economias enfrentam.
Parece inacreditável que, depois de todos os ensinamentos da história, dirigentes políticos e responsáveis econômicos ainda acreditem que fechamento econômico e protecionismo comercial ainda sejam respostas para o que quer que seja.
Bem, vamos aguardar os efeitos dessa medida. Aliás, elas já se manifestam rapidamente no plano individual: vamos sentir em nossos bolsos imediatamente, ao ter de pagar mais caro por produtos de menor qualidade. Depois, no plano setorial, as indústrias afetadas (que na verdade demandaram esse insulamento da economia mundial) vão ficar atrasadas, incapazes de competir, em qualquer mercado que se considere. Em terceiro lugar, a "folga" comercial que se obtem no balanço de pagamentos, virá com déficits em outras áreas.
Ou seja, no final, vamos ficar pior do que antes.
É a isso que nos levam as medidas dos dois governos...
Paulo Roberto de Almeida
Não mais. Eles estão plenamente engajados em retroceder no tempo, fazendo girar para trás a roda da história, em pelo menos cinquenta anos, enquanto ativos promotores, defensores, estimuladores, entusiastas do protecionismo, como se isso fosse solução para qualquer um dos problemas que suas economias enfrentam.
Parece inacreditável que, depois de todos os ensinamentos da história, dirigentes políticos e responsáveis econômicos ainda acreditem que fechamento econômico e protecionismo comercial ainda sejam respostas para o que quer que seja.
Bem, vamos aguardar os efeitos dessa medida. Aliás, elas já se manifestam rapidamente no plano individual: vamos sentir em nossos bolsos imediatamente, ao ter de pagar mais caro por produtos de menor qualidade. Depois, no plano setorial, as indústrias afetadas (que na verdade demandaram esse insulamento da economia mundial) vão ficar atrasadas, incapazes de competir, em qualquer mercado que se considere. Em terceiro lugar, a "folga" comercial que se obtem no balanço de pagamentos, virá com déficits em outras áreas.
Ou seja, no final, vamos ficar pior do que antes.
É a isso que nos levam as medidas dos dois governos...
Paulo Roberto de Almeida
Brasil e Argentina vão ampliar protecionismo
Mercosul lança na semana que vem lista de mercadorias que terão alíquota de importação elevada; Brasil fala em 200 produtos, Argentina pede o dobro
Renata Veríssimo
Agência Estado, 18 de junho de 2012
BRASÍLIA - O Mercosul deve aprovar na próxima semana mais uma medida para proteger os mercados locais da concorrência dos importados. Os técnicos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai discutem a ampliação do número de produtos que terão o Imposto de Importação elevado.
VEJA TAMBÉM
O Brasil defende uma relação com 200 itens, segundo informou ao Estado a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Tatiana Prazeres. A Argentina quer uma lista com 400 produtos.
No segundo semestre do ano passado, em meio ao agravamento da crise internacional, o bloco anunciou a implementação de uma lista com até 100 itens para cada País que teriam aumento do Imposto de Importação para produtos provenientes de mercados fora do bloco. Nestes casos, o imposto que, em média, é de 12% a 13%, pode chegar a 35%, a alíquota máxima permitida pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
Tatiana acredita que a ampliação da lista será aprovada durante a reunião de cúpula do Mercosul, que será realizada entre os dias 26 e 28 de junho na província de Mendoza. Segundo ela, o Brasil concorda chegar a 200 itens, conforme já tinha defendido no passado, quando a criação da lista foi aprovada.
Critério. Outro ponto de discordância com a Argentina é sobre o critério de definição dos produtos. O Brasil defende que cada país tenha autonomia para fazer a própria lista. O governo argentino quer uma lista única, com os mesmos produtos e alíquotas para os sócios do Mercosul.
A medida dá mais fôlego aos setores afetados pela concorrência dos importados, mas é menos radical que a proposta apresentada pela Argentina no mês passado. Buenos Aires defendeu uma elevação generalizada da Tarifa Externa Comum (TEC) até o limite permitido pela OMC. O Brasil foi contra.
A ideia da lista com até 100 produtos foi anunciada em agosto do ano passado, como uma das medidas do Plano Brasil Maior. A ação, no entanto, não foi colocada em prática até hoje. Paraguai e Uruguai ainda não incluíram (internalizaram, no jargão técnico) na legislação local o novo mecanismo, embora o protocolo assinado pelo Mercosul estipulasse um prazo de 60 dias.
Emprego. O coordenador geral de Imigração do Ministério do Trabalho, Paulo Sérgio de Almeida, disse ontem que as barreiras impostas pela Argentina ao comércio bilateral não só prejudicam as exportações, mas também têm reflexo no mercado brasileiro de trabalho.
Segundo ele, que participou de audiência pública no Senado, a indústria de calçados, abate de suínos, fabricação de tratores, caminhões, autopeças, motocicletas e de equipamentos de transportes ampliaram em 29.682 os postos de trabalho de janeiro a maio de 2011.
Em cinco meses, estes setores fecharam 3.892 vagas, sendo que o País continua gerando novos empregos formais. "De maneira geral, todos os setores estão gerando emprego. A indústria também e estes setores têm sofrido prejuízo no emprego", disse.
Pausa para... operas (uma pausa de varios dias...)
Bem, não dá para ver de uma vez só, mas sempre se pode tentar...
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operas
segunda-feira, 18 de junho de 2012
PRA: RIP
Ainda tenho de esclarecer a minha morte. Espero que a polícia possa colaborar...
O Google, por vezes, nos dá mais trabalho do que o imaginado...
O Google, por vezes, nos dá mais trabalho do que o imaginado...
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Jornal Cruzeiro do Sul
Outra morte a ser desvendada é a de Paulo Roberto de Almeida, baleado num campo de futebol do Jardim Betânia em 15 de fevereiro.
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domingo, 17 de junho de 2012
Fapesp, 50 anos - Celso Lafer
Fapesp, 50 anos
Celso Lafer
O Estado de S.Paulo, 17 de junho de 2012
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) celebrou seu jubileu de ouro na Sala São Paulo, na noite de 30 de maio. Suas realizações são o fruto de uma ação coletiva dos muitos que, nestes 50 anos, a ela se dedicaram. A base da ação da instituição reside, no meu entender, em dois conceitos: o da qualidade de um bom princípio e o da autoridade, na acepção de Hannah Arendt.
Arché, a palavra grega para princípio, aponta para dois significados - o de começo e o de comando. O princípio da Fapesp foi tanto um ponto de partida quanto o fundamento que explica o movimento que se iniciou a partir desse ponto de partida.
Com efeito, a Fapesp, como agência de fomento à pesquisa e a sua correspondente evolução no correr dos anos, está indissoluvelmente ligada aos seus princípios, vale dizer, à qualidade da concepção que comandou as suas origens.
As origens desse princípio remontam à Assembleia Constituinte Paulista de 1947, quando um fecundo trabalho conjunto entre membros da comunidade científica de São Paulo e deputados estaduais resultou na elaboração e aprovação do artigo 123 da Constituição estadual.
"O amparo à pesquisa científica será propiciado pelo Estado, por intermédio de uma fundação, organizada em moldes que forem estabelecidos por lei. § Único: Anualmente o Estado atribuirá a essa fundação, como renda especial de sua privativa administração, quantia não inferior a meio por cento do total de sua receita ordinária", dizia o artigo.
De maneira pioneira em nosso país, consagrou-se o reconhecimento da importância do respaldo à pesquisa como política pública de Estado, voltada para apoiar as atividades vinculadas a descobertas de novos conhecimentos que ampliam o entendimento e o poder de uma sociedade sobre o seu destino e os seus caminhos.
O artigo 123 teve a natureza de uma norma programática que estipulou a relevância de recursos regulares previsíveis e a autonomia administrativa como vis directiva das providências legislativas e orçamentárias necessárias para a sua plena efetivação.
Registro que essa vis directiva é uma das condições de sustentabilidade de uma política científico-tecnológica de Estado, e não de governos, posto que o tempo da pesquisa e da sua gestão é um tempo próprio, mais longo, distinto, por isso mesmo, do tempo curto das urgências políticas, do tempo online dos meios de comunicação e o da celeridade dos movimentos financeiros.
A efetivação da "ideia a realizar" do amparo à pesquisa foi obra do governador Carvalho Pinto, que, também interagindo construtivamente com o Poder Legislativo paulista e a comunidade científica, logrou aprovar a lei n.º 5.918 de 1960. Esta autorizou o Poder Executivo a instituir a Fapesp e Carvalho Pinto a instituiu com o decreto n.º 40.132 de 23/5/1962, conferindo, na ocasião, precisão à norma programática do "amparo à pesquisa" preconizada pela Constituição.
Entre as diretrizes estabelecidas e que retêm plena atualidade, destaco: a de que cabe à Fapesp apoiar a pesquisa, e não fazer pesquisa; a de que deve fornecer elementos de orientação e auxílio financeiro, sem interferir com a personalidade do investigador ou da instituição; a de que o âmbito de sua atuação deve ser limitado apenas pela idoneidade dos projetos e pela extensão dos recursos disponíveis; a de que não cabe restrição quanto ao gênero da pesquisa realizada; a do reconhecimento da interdependência entre pesquisa básica e aplicada; a da limitação das despesas administrativas a um teto de 5% do orçamento da fundação, tendo em vista assegurar que os recursos, provenientes do contribuinte paulista, fossem direcionados para as finalidades da pesquisa; a do empenho na objetividade e imparcialidade na avaliação das solicitações apresentadas, pela análise dos pares, o que ensejou a integração da comunidade acadêmica à Fapesp e adicionou sustentável qualidade ao processo decisório da instituição; a da republicana prestação de contas - contrapartida da autonomia - não só aos órgãos de controle da administração pública paulista, mas também à comunidade mais ampla, mediante relatórios anuais e outros meios de divulgação permanente de suas atividades.
Autoridade - autorictas - provém de augere, aumentar. E, como explica Hannah Arendt, a autoridade se constrói acrescendo sempre algo de significativo ao ato da fundação. É por isso que a dinâmica da Fapesp foi norteada pelo empenho em sempre dar nova abrangência às suas atividades de apoio à pesquisa.
Contribuiu para isso a decisão da Assembleia Constituinte Estadual de 1988, pela qual o porcentual da receita anual do Estado destinada à Fapesp passou de 0,5% para 1% e se adicionou à sua missão o desenvolvimento tecnológico.
São exemplos dessa dinâmica: o apoio a bem estruturados projetos de longo prazo, em todas as áreas do conhecimento (como é o caso dos temáticos e dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão - Cepids); os programas em rede de pesquisa abrangente, como o Biota-Fapesp (o estudo da biodiversidade e proposição de políticas para seu uso sustentável) e o Bioen (pesquisa sobre bioenergia); os investimentos de apoio à infraestrutura de pesquisa (por exemplo, o navio Alpha Crucis para a pesquisa oceanográfica); a aproximação com o setor empresarial para estimular a inovação na produção, contemplada com os programas da pesquisa em parceria (Pite) e o da pesquisa inovativa em pequenas empresas (Pipe); e a internacionalização da Fapesp por meio de acordos com entidades congêneres no mundo, o que enseja o avanço do conhecimento, por obra do potencial de sinérgica interação entre pesquisadores nacionais e estrangeiros.
A qualidade de um bom princípio, adensado pela autoridade do que a ele se adicionou no correr de 50 anos, explica por que a Fapesp tem sido capaz de contribuir de maneira significativa para que o nosso Estado se situe melhor no País e no mundo com o impacto do conhecimento gerado pelas pesquisas que patrocina.
PRESIDENTE DA FAPESP
Energia no Brasil: do verde ecologico ao preto fossil Xico Graziano
Abaixo transcrevo um artigo de um dos melhores especialistas brasileiros do agronegocio, sobre o desastre do etanol: depois de reclamar enormemente dos subsídios americanos e das barreiras protecionistas ao etanol de milho americano, estamos importando milhões de hectolitros de etanol americano, por problemas exclusivamente de política equivocada do governo, por manipulações das contas da Petrobras, (inclusive em função dos preços da gasolina, que afetam uma parte apenas dos consumidores (classe média alta, em sua maior parte), e por uma série de outros equívocos, que costumam misturar manipulação grosseira da Petrobras (para fins politicos) e uma desinteligência notável no justo equilíbrio entre matriz energética e considerações de mercado.
O retrato do biodiesel é ainda pior, com perdas imensas mais uma vez mascaradas pelo governo, que lançou programas inexequíveis e antieconômicos de produçao de biodiesel a partir da mamona (o produto menos indicado para isso), apenas porque é endêmica no Nordeste e pode ser plantada ou colhida por pequenos camponeses de nível de subsistência. Isso representa confundir o aspecto técnico de uma matriz energética com problemas sociais, tradicionais nessa faixa de agricultores de subsistência; a base produtiva do biodiesel de mamona é totalmente equivocada, e nunca houve um cálculo econômico muito claro sobre o custo final desse biodiesel de mamona e os diferenciais de custo para outras variedades. Sem que isso fosse feito, o governo promulga lei obrigando a Petrobras a comprar o oleo de agricultores familiares. Um desastre total, e como sempre, as perdas da companhia são mais uma vez maquiadas nas contas do governo.
De toda forma, o governo parece ter há muito tempo abandonado qualquer veleidade ecológica, ambientalista ou de sustentabilidade, no plano da matriz energética; como bons gigolôs do petróleo que são todos os políticos, eles já viraram rentistas do pré-sal. A matriz energética brasileira, que era muito sustentável, está ficando preta, como um fóssil.
Paulo Roberto de Almeida
Vexame Ambiental
Xico Graziano *
O Estado de S. Paulo, terça-feira, 12 de junho de 2012
Que Código Florestal, nada. O grande fiasco brasileiro na Rio+20 se esconde no etanol. O país que ensinou ao mundo como trocar a gasolina fóssil pelo álcool renovável engata marcha ré na utilização do combustível limpo. Um vexame ambiental.
Pode-se comprovar facilmente esse retrocesso na bioenergia. Em 2011, o consumo dos combustíveis derivados de petróleo - gasolina principalmente - cresceu 19%, enquanto o uso do etanol nos veículos despencou 29%. Não precisa dizer mais nada. Anda na contramão da história a matriz energética dos transportes no Brasil.
Aconteceu que os consumidores reagiram ao desequilíbrio de preços a favor da gasolina. Duas razões básicas explicam a mudança do mercado. Primeiro, o governo federal tem reduzido o encargo da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina, taxa que nos últimos anos recuou de 14% para 2,6%. Em consequência, acabaram praticamente equiparados os custos tributários de ambos os combustíveis. Uma política moderna de sustentabilidade, como buscada em todo o mundo, procederia ao contrário, ou seja, reduziria a carga tributária sobre o biocombustível, não sobre o derivado de petróleo.
Trata-se, obviamente, de uma decisão política, arcada pelo governo federal desde 2002. Com a redução da referida taxa, a Petrobrás, que normalmente deveria ter elevado o preço dos derivados de petróleo para manter sua competitividade global, se compensa pela perda de rentabilidade recolhendo menos imposto ao governo. Tudo dissimulado. Conta paga pela sociedade.
Em segundo lugar, a gasolina barata segura, obviamente, o preço do etanol na bomba, roubando margem dos produtores. Pouco lucrativa, a atividade alcooleira vê sua matéria-prima se direcionar para a fabricação de açúcar, movimento que se observa há tempos nas usinas. Bastante rentável no mercado internacional, o açúcar estimula a pauta das exportações. Resultado: a oferta de etanol se retrai, tendendo a elevar seu preço no posto de combustível, espantando a freguesia. Elementar.
O Brasil produziu cerca de 28 bilhões de litros de etanol nesta última safra (2010/2011). Nos EUA o volume já ultrapassou 50 bilhões de litros. Incrível. O país que inventou o Proálcool, obtido a partir da cana-de-açúcar, está tomando poeira dos gringos, que destinam 40% de sua safra de milho para a fermentação alcoólica. Mais ainda. A necessidade de manutenção de estoques confiáveis começou a exigir volumosas importações de etanol. Sabem de quem? Dos norte-americanos, claro. No ano passado, o Brasil comprou acima de 1,1 bilhão de litros de etanol dos EUA. Acredite se quiser.
Não é à toa que paira desilusão no setor sucroalcooleiro. Estimulados pela agenda da economia verde, nos transportes viabilizada definitivamente com a geração dos motores flex fuel, inéditos e fortes grupos, nacionais e multinacionais, entraram na atividade. Anunciaram planos formidáveis que, após quatro anos, micaram, roubando o fôlego do parque alcooleiro. Notícia ruim chega dos canaviais. E quem pensa que é chororô de usineiro se engana feio. Corretores garantem que 20% das usinas do Centro-Sul estão à venda. Sem comprador. As chamadas greenfields, novas plantas a serem construídas, em vários Estados, ficaram no papel. O pouco dinamismo existente advém da ampliação e modernização de fábricas já instaladas. Passos de tartaruga no etanol.
Milhares de estudiosos, ambientalistas e jornalistas se encontrarão logo mais na Rio+20. O governo brasileiro fará ginástica para justificar o inexplicável. Enquanto as nações se debruçam para encontrar soluções capazes de esverdear sua (suja) matriz energética, por aqui se desperdiça uma oportunidade de ouro, retrocedendo no uso do combustível renovável.
Os produtores de cana-de-açúcar e os usineiros de etanol, por sua vez, lançaram por aqui o Movimento Mais Etanol, querendo influenciar a mídia e sensibilizar o governo para sua agenda. Eles se propõem a dobrar de tamanho até 2020 - o que, ademais, geraria 350 mil empregos diretos -, mas precisam viabilizar uma estratégia de política pública que devolva ao etanol a competitividade roubada pelo controle dos preços da gasolina. Basta, de cara, reduzir a carga tributária sobre o biocombustível.
Gasolina barata e etanol caro acabam criando um círculo vicioso contra o meio ambiente, prejudicando a saúde pública. Segundo a Agência de Proteção Ambiental norte-americana (EPA, na sigla em inglês), o etanol derivado da cana-de-açúcar pode ajudar a reduzir até 91% o efeito estufa da Terra, quando comparado com as emissões advindas da queima de gasolina. Mas, curiosamente, o ambientalismo pouca bola dá para essa tragédia da poluição urbana. O foco de sua ferrenha atuação, conforme se verificou na questão do novo Código Florestal, mira no assunto da biodiversidade. Contra o desmatamento.
A intolerância dos ambientalistas agride os agricultores, como se do campo partisse todo o mal contra a natureza. Citadinos, eles poupam as desgraças ecológicas provocadas pela urbanização, a começar pelos escapamentos veiculares. Novos estímulos públicos ao setor automobilístico favoreceram agora as montadoras. Nenhum compromisso ambiental se firmou. Pouco importa, tristemente, aos radicais verdes.
Tal miopia do movimento ambiental, infelizmente, ajudará o governo a esconder, na Rio+20, o retrocesso na agenda do etanol. Seria interessante, aliás, como subproduto da reunião, discutir para onde caminha o ambientalismo brasileiro.
A incrível capacidade fotossintética do Brasil garante enorme vantagem na produção de biocombustível, energia renovável misturada com geração de empregos. Desprezá-la significa maltratar o etanol, um filho da Pátria.
* AGRÔNOMO, FOI SECRETÁRIO DE AGRICULTURA E SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO.
A Alianca do Pacifico e a integracao regional - Stratfor
Existem hoje, na América Latina, três
grupos de países, simplificando um pouco: os globalizados (tipo Chile e
México); os reticentes (tipo Brasil e Argentina), e os bolivarianos (enfim, não
encontrei termo melhor para designar os malucos que estão querendo voltar meio
século atrás, como Venezuela, Equador, Bolívia, e alguns outros). Peru e
Colômbia estão entre os globalizadores e os reticentes, dependendo de quem
governa e de quais são as políticas econômicas: atualmente estão mais próximas
da integração global, mas sempre pode mudar.
Enquanto alguns se inserem no mundo,
outros preferem a política do avestruz. Pior: procuram encontrar bodes
expiatórios para os problemas que enfrentam. Nunca é culpa deles, apenas dos
outros, do capitalismo perverso, do tsunami financeiro, da guerra cambial,
enfim, qualquer coisa, menos as bobagens internas.
Assim vai a América Latina: alguns
realistas, outros surrealistas...
Paulo Roberto de Almeida
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O brejo acadêmico: quanto pior melhor? - Editorial Estadao
A universidade brasileira, sobretudo as federais, estão indo para o brejo há muito tempo, sobretudo em termos de qualidade, embora muitos podem discordar de minha opinião. Eu apenas me baseio no que vejo na área de Humanas, o que há de mais próximo do sindicalismo exacerbado que também contribui para mandar a universidade para o brejo. Minha previsão seria a de uma decadência bem clamorosa, para ver se, com uma supercrise, se poderia pensar em reformar esse monstro sem controle. Mas sou pessimista...
PRA
PRA
Impasse nas federais
Editorial O Estado de S.Paulo, 17 de junho de 2012 | 3h 05
A greve das universidades federais, que paralisa as atividades de graduação e pós-graduação de 55 das 59 instituições de ensino superior da União, completa o primeiro mês com um impasse e um incidente.
O impasse foi causado pelo fracasso da última reunião entre representantes do Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes) e da Secretaria de Relações do Trabalho do Ministério do Planejamento, realizada em Brasília. Depois de mais de três horas de discussões, o governo pediu uma trégua de 20 dias para apresentar um novo projeto de carreira para os professores, mas a proposta foi rejeitada. O governo quer adotar um plano de cargos e salários semelhante ao dos servidores da área de ciência e tecnologia e tem pressa em chegar a um acordo. O Palácio do Planalto teme que a greve se espalhe para outros setores do funcionalismo público, justamente num ano eleitoral. Os grevistas, contudo, acusam os Ministérios do Planejamento e da Educação (MEC) de insistir em diretrizes que já foram recusadas pelo Andes há pelo menos um ano e meio.
Já o incidente ocorreu no câmpus de Guarulhos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Protestando contra a superlotação das salas de aula e a falta de um mínimo de infraestrutura, os estudantes invadiram as dependências da diretoria acadêmica e 26 foram presos, depois de um confronto com a Polícia Militar (PM). Eles foram levados à sede da Polícia Federal e indiciados pelos crimes de dano ao patrimônio e constrangimento ilegal.
Os líderes estudantis acusam os dirigentes da Unifesp de terem chamado a tropa de choque. Mas, vinculados ao PT e não querendo criar problemas políticos para o ex-ministro Fernando Haddad, candidato do partido à Prefeitura de São Paulo, os dirigentes alegaram que a PM teria ido ao câmpus de Guarulhos por "conta própria". A informação foi desmentida pela PM. Segundo o alto comando, foi o setor de segurança da Unifesp que pediu providências para preservar o patrimônio da instituição. Uma semana antes, os dirigentes da Unifesp haviam pedido à Justiça que convocasse a PM para promover a reintegração de posse, autorizada pela Justiça, das dependências da diretoria acadêmica em Guarulhos.
Os professores das universidades federais têm duas reivindicações. A primeira é a exigência de um novo plano de carreira docente. A segunda reivindicação está diretamente atrelada aos seis anos em que Haddad esteve à frente do MEC. Durante sua gestão, foram criadas 14 novas universidades e autorizada a ampliação de muitos campi já existentes. A expansão da rede federal de ensino superior foi uma das bandeiras da campanha eleitoral de Lula e de sua candidata, Dilma Rousseff, no pleito de 2010.
O problema é que quase todas as universidades inauguradas com muita pompa e comício, por Haddad e Lula, estão ocas até hoje. "As condições de trabalho não acompanharam a expansão. Faltam bibliotecas, prédios, professores em número adequado. O ambiente de aprendizado está com prometido", afirma Marina Barbosa, presidente do Andes - entidade que durante anos esteve sob o controle do PT. Esse também é o entendimento dos especialistas em educação. "A política de expansão acelerada não obedeceu a nenhuma avaliação cuidadosa sobre prioridades, abrindo instituições onde não havia demanda, admitindo alunos antes de existirem edifícios e instalações adequadas, forçando as universidades a criar cursos noturnos e contratar mais professores, mesmo quando não havia candidatos qualificados, e sem preparar as universidades para lidar com alunos que chegavam do ensino médio cada vez menos preparados", diz Simon Schwartzman, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade.
A última greve dos professores foi em 2005, ano em que começou a expansão da rede de universidades federais. Sete anos depois, o setor está em crise e não há sinais de que será uma crise de breve duração. Pelo contrário, os docentes acabam de receber o apoio dos técnicos da educação federal - uma categoria que cruzou os braços por mais de cem dias, em 2011.
Os horrores da Segunda Guerra Mundial - The Economist
Pelas minhas informações, a IIGM teria produzido mais de 60 milhões de vítimas.
Esta matéria da Economist, resenha de dois livros, coloca a conta um pouco mais acima, perto de 70 milhões. Provavelmente, a conta é mais acurada, com base nessas obras.
De longe, o país que fez mais sacrifícios foi a União Soviética, com 27 milhões de mortos, mas isto também porque Stalin queria compensar a desvantagem em material em face dos soldados nazistas enviando mais gente para combatê-los. A partir de certa massa humana, mesmo os tanques e metralhadoras mais eficientes não dão conta.
O segundo país em número de vítimas na Europa (pois a China sofreu terrivelmente, com 15 milhões de mortos) foi a Polônia, aliás vitimada pelos dois lados, tendo seu oficialato sido simplesmente eliminado pelos soviéticos logo no começo da guerra. Mais de 5,3 milhões de poloneses foram vítimas da guerra, em suas diversas frentes.
A Alemanha vem em seguida, com 5,2 milhões de mortos, muitos soldados...
Os judeus colocam o número de vítimas, especificamente por serem dessa religião, ou raça, como preferiam os nazistas, em 6 milhões, o que os eleva à terceira maior cifra absoluta.
Em todas as direções, o número de mortos, a maior parte civis, é absolutamente estarrecedor.
Esses dois livros contam um pouco da tragédia, ou muito, já que são de centenas de páginas, cada um.
Paulo Roberto de Almeida
Esta matéria da Economist, resenha de dois livros, coloca a conta um pouco mais acima, perto de 70 milhões. Provavelmente, a conta é mais acurada, com base nessas obras.
De longe, o país que fez mais sacrifícios foi a União Soviética, com 27 milhões de mortos, mas isto também porque Stalin queria compensar a desvantagem em material em face dos soldados nazistas enviando mais gente para combatê-los. A partir de certa massa humana, mesmo os tanques e metralhadoras mais eficientes não dão conta.
O segundo país em número de vítimas na Europa (pois a China sofreu terrivelmente, com 15 milhões de mortos) foi a Polônia, aliás vitimada pelos dois lados, tendo seu oficialato sido simplesmente eliminado pelos soviéticos logo no começo da guerra. Mais de 5,3 milhões de poloneses foram vítimas da guerra, em suas diversas frentes.
A Alemanha vem em seguida, com 5,2 milhões de mortos, muitos soldados...
Os judeus colocam o número de vítimas, especificamente por serem dessa religião, ou raça, como preferiam os nazistas, em 6 milhões, o que os eleva à terceira maior cifra absoluta.
Em todas as direções, o número de mortos, a maior parte civis, é absolutamente estarrecedor.
Esses dois livros contam um pouco da tragédia, ou muito, já que são de centenas de páginas, cada um.
Paulo Roberto de Almeida
The second world war
Counting the cost
Two British historians analyse the 20th century’s worst conflict
Jun 9th 2012 | from the print edition
All Hell Let Loose: The World at War 1939-1945.
By Max Hastings. HarperPress; 748 pages; £30.
The Second World War.
By Antony Beevor. Little, Brown; 863 pages; $35. Weidenfeld & Nicolson; £25.
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HISTORY is full of wars that were bloodier than the second world war. As a proportion of the population, more people were killed during the An Lushan rebellion in eighth-century China, for example, or by the Thirty Years War in 17th-century central Europe. But the sheer magnitude of the human tragedy of the second world war puts it in a class of its own, and its relative closeness to the present day makes claims on the collective memory that more remote horrors cannot.
The statistics of the war are almost mind-numbing. Estimates differ, but up to 70m people died as a direct consequence of the fighting between 1939 and 1945, about two-thirds of them non-combatants, making it in absolute terms the deadliest conflict ever. Nearly one in ten Germans died and 30% of their army. About 15m Chinese perished and 27m Soviets. Squeezed between two totalitarian neighbours, Poland lost 16% of its population, about half of them Jews who were part of Hitler’s final solution. On average, nearly 30,000 people were being killed every day.
Partly because it is so hard to grasp what these numbers mean, recent historians have tended to concentrate on particular theatres or aspects of the war with an emphasis on trying to describe what it was like for the human beings caught up in it. Both Antony Beevor and Max Hastings are distinguished exemplars of this approach. Mr Hastings has written books on Britain’s strategic bombing campaign, the Allied invasion of Normandy and the battles for Germany and Japan in the closing stages of the war. With several books already under his belt, Mr Beevor became known in 1998 for his epic account of the siege of Stalingrad, and went on to produce accounts of D-Day and the fall of Berlin. Now both writers have tried something different: single-volume narrative histories of the entire war. In doing so, they are following in the footsteps of Andrew Roberts and Michael Burleigh, who made similar attempts in, respectively, 2009 and 2010.
Mr Hastings got there before Mr Beevor. “All Hell Let Loose” was published seven months ago (it is now out in paperback) to justifiably rave reviews. Mr Hastings’s technique is to mine the written record of those who took part both actively and passively. His witnesses range from the men whose decisions sent millions to their deaths to the ordinary soldiers who carried out their orders and the civilian victims who found themselves on the receiving end. Cynicism and idealism, suffering and euphoria, courage and terror, brutalisation and sentimentality—all find expression through their own testimony. From the Burma Road to the Arctic convoys, the killing fields of Kursk and the London Blitz, their voices are heard. Mr Hastings’s achievement in organising this unwieldy mass of material into a narrative that sweeps confidently over every contested corner of the globe is impressive.
Less so are some of his judgments. Although delivered with verve and economy (Mr Hastings is, above all, an accomplished journalist), they are often unfair. For example, he argues that the decision by Britain and France to declare war because of the German attack on Poland was an act of cynicism because they knew they could do nothing to help the Poles. That was never in doubt, but the Allies hoped the stand against Germany’s naked aggression would persuade Hitler to step back from the brink of all-out war, a motive that was neither base nor ridiculous.
Mr Hastings’s repeated admiration for the fighting qualities of German, Japanese and Soviet soldiers compared with British and American forces is especially trying. Germany and Japan were militarised societies that glorified war and conquest, held human life to be cheap and regarded obedience to the state as the highest virtue. Russian soldiers were inured to the harsh brutalities of Soviet rule and driven on by the knowledge that they were fighting “a war of annihilation” against an implacable enemy. If they wavered, they knew they would be shot by NKVD enforcers. More than 300,000 were killed pour encourager les autres.
The majority of the civilian soldiers of the Western democracies, by contrast, just wanted to survive and return to normal life as soon as possible. That also meant that American and British generals had to eschew the dashing aggression of their Russian and German counterparts, who could squander lives with impunity. Thanks to the bloodbath in Russia, where the Wermacht was broken and nine out of ten German soldiers who died in the war met their end, they could permit themselves to be more cautious.
Mr Hastings excessively admires two German field-marshals: Gerd von Rundstedt and Eric von Manstein, whereas only Bill Slim and George Patton rise above the general mediocrity of Allied field commanders. Luckily, the tactical virtuosity of the Germans and Japanese was more than matched by their strategic incompetence in declaring war against Russia and America. Less hubristic and more informed leaders would have realised that both countries had the manpower and industrial resources to prevail in a war of attrition.
Close connections
Overall, however, Mr Hastings does an admirable job of weaving together deeply personal stories with great events and high strategy. This raises the question of whether another book covering essentially the same ground is necessary. The answer depends on what the reader is looking for. Mr Beevor, who is known for using the sometimes unbearably moving diaries and letters of ordinary soldiers to shed new light on old battles, is otherwise less generous than Mr Hastings in the space he gives to primary sources. He has written what is in many ways a more conventional military history. But where he is good, he is very good.
Mr Beevor is full of insight about the connections between things—he sets out “to understand how the whole complex jigsaw fits together”. Thus the relatively little-known Battle of Khalkhin-Gol, in which Japan’s plans to grab Soviet territory from its base in Manchuria were undone in the summer of 1939 by the Red Army’s greatest and most ruthless general, Georgi Zhukov, had profound consequences. The Japanese “strike south” party prevailed over the “strike northers”, ensuring that Stalin would not have to fight a war on two fronts when the Germans launched Operation Barbarossa in 1941. Mr Beevor decries the rebarbative “Bomber” Harris’s attempt to win the war by bringing death and destruction to every major German city as a moral and strategic failure. But he also points out that by forcing the Nazis to move squadrons of Luftwaffe fighters from Russia to defend the Fatherland, Harris’s campaign allowed the Soviet air force to establish vital air supremacy.
Mr Beevor also has a surer hand than Mr Hastings in describing how the great land battles of the war unfolded. Although his judgments are less waspishly entertaining than his rival’s, they are also more measured. He is notably more generous about Britain’s contribution to defeating Hitler, which Mr Hastings at times appears to think was mainly confined to the code-breaking centre at Bletchley Park and, after defeating the Luftwaffe in 1940, providing an “unsinkable aircraft-carrier” for the build-up of American military power.
Mr Beevor is keener than Mr Hastings on detailing the horror. He is particularly vivid in describing the barbarities that became commonplace during the carnage on the Eastern front. Frozen German corpses littering the battlefield were frequently missing their legs, not because they had been blown off, but because Red Army soldiers wanted their boots and could only pull them off after the legs had been defrosted over camp fires. Outside the besieged city of Leningrad, amputated limbs were stolen from field hospitals and bodies snatched from mass graves as a source of food. Within the city, 2,000 people were arrested for cannibalism. Those most at risk were children, who were eaten by their own parents.
The cruelties perpetrated by the Japanese against civilians in China (Mr Beevor sees the Sino-Japanese conflict that began with the Nanking massacre in 1937 as the true opening chapter of the second world war) and any of the countries unfortunate enough to come within the “Greater East Asia Co-Prosperity Sphere” were nearly as systematic as any of the crimes committed by the Nazis. Japanese commanders actively encouraged the dehumanisation of their troops in the belief it would make them more formidable. Prisoners were burned on huge pyres in their thousands and killing local people for meat was officially sanctioned.
Mr Beevor also gives more attention than Mr Hastings to the appalling acts of violence suffered by women when invading armies arrived. Again, it was the Japanese who set about mass-rape with methodical zeal. Hundreds of thousands of Chinese and Korean girls were press-ganged into becoming “comfort women”; 10,000 women were gang-raped after the fall of Hong Kong. But revenge-fuelled Red Army soldiers were little better. Soviet forces looting and pillaging their way through East Prussia on their way to Berlin raped around 2m women and girls.
This is, however, a less satisfying book than Mr Beevor’s earlier, more focused works. There is an unevenness of quality. The author has a tremendous grasp of the things he has written about before, in particular the titanic struggle between Hitler and Stalin. But he is dutiful rather than exhilarating when dealing with some other passages and theatres of the war. The account of the campaign in north Africa plods, and American readers may be disappointed by his handling of the war in the Pacific. The battle of Midway, arguably the defining naval engagement between Japan and America, gets two pages. At other times, there is too much detail: a succession of generals, armies and battles come and go. Second world war anoraks and students of military history will get more of what they are looking for from Mr Beevor, but less committed readers will find Mr Hastings’s work easier to get to grips with and a better read. Is there room for both books? Absolutely.
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