quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Rolf Kuntz: um demolidor de mitos economicos

Rolf Kuntz é um jornalista e editorialista econômico do Estadão que, ao longo dos anos, tem comentado as medidas de política econômica dos governos brasileiros. Sempre realista, um tantinho irônico, mas sobretudo certeiro, quanto aos acertos e desacertos -- estes mais do que aqueles -- dos responsáveis econômicos de cada governo.
Esta série de artigos recentes comenta aspectos cruciais da conjuntura econômica brasileira.

Diminuir para crescer

Rolf Kuntz - O Estado de S.Paulo, 19 de setembro de 2012

A presidente Dilma Rousseff pôs em xeque mais uma parte da "herança bendita", ao autorizar o corte de 35% do pessoal de Furnas, passo necessário para o aumento da eficiência da empresa, segundo seu presidente, Flávio Decat. Oito anos de empreguismo desenfreado e de subordinação de toda a máquina federal aos objetivos políticos - e até pessoais - do presidente Luiz Inácio Lula da Silva causaram danos enormes ao aparelho de Estado. Os estragos impostos à Petrobrás são hoje muito claros. Foram revelados de forma inequívoca pela nova presidente da empresa, Graça Foster. Apesar de seus esforços para amaciar as denúncias e evitar conflitos abertos com a administração anterior, ela disse o necessário para qualificar a experiência dos oito anos anteriores. Metas irrealistas, projetos mal concebidos, desperdício de recursos e preços distorcidos foram algumas das marcas desse período.
O mesmo estilo de administração inflou os quadros de todos os segmentos do setor público federal. Em dezembro de 2010, o pessoal próprio das estatais era formado por 497.020 funcionários, segundo o Ministério do Planejamento. Em 2002, antes do início da gestão petista, havia 369.658. Houve, portanto, aumento de 34,4% nesse período. A expansão foi praticamente a mesma no setor elétrico - 34,6%, de 22.190 para 27.311 registrados. Em Furnas, a variação foi de 3.453 funcionários em 2002 para 4.906 em 2010 - um crescimento de 42,1%, bem superior à média do setor. O quadro atual, segundo informação divulgada na segunda-feira pela empresa, é formado por cerca de 6,4 mil empregados. O objetivo é reduzi-lo a 4,2 mil. A mudança, é importante notar, deve ocorrer sem prejuízo para a empresa. Ao contrário: o objetivo é torná-la mais ágil e mais capaz de competir. A reforma, segundo o presidente da Eletrobrás, José da Costa Carvalho Neto, será estendida às demais empresas do grupo.
Ao anunciar a redução de encargos sobre as contas de eletricidade, na semana passada, a presidente Dilma Rousseff permitiu-se um autoelogio, estendido, naturalmente, a seu padrinho político e antecessor no Palácio do Planalto. A era dos apagões, segundo a presidente, havia ficado para trás, numa referência ao grande blecaute do governo tucano. Não precisaria, para valorizar a redução de encargos, apelar para uma escandalosa inverdade. A história conhecida de todos os brasileiros é bem diferente. O grande apagão da virada do século foi substituído por uma porção de apagões de menor duração e de enorme extensão territorial. Os exemplos são muitos, mas deve ser suficiente a recordação de alguns. Dezoito Estados ficaram sem energia elétrica em 10 de novembro de 2009, depois de uma pane em Itaipu. Em 10 de fevereiro de 2010, oito Estados nordestinos ficaram sem eletricidade. Nos dias 3 e 4 de fevereiro de 2011, o mesmo número de Estados enfrentou um apagão, no Nordeste, por uma falha no sistema Chesf. Seis dias depois, as vítimas foram 2,5 milhões de pessoas na área metropolitana de São Paulo. Em outras palavras: com muito mais funcionários na folha de pagamento, o sistema continuou funcionando muito mal, com graves falhas técnicas, fiscalização deficiente e baixa regulação.
Nesse, como em vários outros campos da administração federal, o aumento dos quadros foi amplamente desproporcional à evolução da qualidade dos serviços. A capacidade geradora de todo o sistema nacional de energia elétrica aumentou 36,3% entre 2002 e 2010, mas o País continuou sujeito a falhas graves no fornecimento. Nessa área, como na maior parte do governo, os valores da produtividade e da qualidade ficaram em plano inferior, porque os objetivos do grupo governante eram muito diferentes. Vale a pena lembrar uma observação feita por bons analistas logo no começo da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: ele havia chegado a Brasília com um projeto de poder, mas sem projeto de governo. Esse detalhe nunca foi alterado em oito anos de mandato.
A ocupação da máquina pelos amigos, partidários e aliados obedeceu estritamente ao projeto de poder, assim como a centralização do comando da Petrobrás no Palácio do Planalto. A desastrada aliança com o governo venezuelano para a construção da Refinaria Abreu e Lima foi uma das consequências da subordinação das metas gerenciais aos objetivos políticos. O loteamento das empresas do setor elétrico seguiu o mesmo padrão, assim como a desmoralização das agências reguladoras. A presidente Dilma Rousseff nunca deveria esquecer esses fatos. Pode tentar disfarçá-los, em sua retórica, mas só conseguirá governar e deixar uma herança melhor que a recebida se mudar de rumo. O reconhecimento da ineficiência de Furnas e de outras empresas do setor elétrico é um avanço, talvez penoso, nessa direção.
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Desatando a economia

Rolf Kuntz - O Estado de S.Paulo, 12 de setembro de 2012
A presidente Dilma Rousseff deixará um bom legado se conseguir desatar a economia brasileira e liberar seu potencial de crescimento, por enquanto limitado a uns 4% ao ano. É um limite muito estreito para um país com um passivo social tão grande e exposto a uma competição internacional cada vez mais dura. Não se irá muito longe investindo cerca de 19% do Produto Interno Bruto (PIB), como nos últimos quatro anos, e ainda será preciso um bom esforço para alcançar os 24% indicados como meta oficial para o médio prazo. Não se trata só de justificar, por prestígio, a manutenção da letra B na sigla Bric. Longe de ser um luxo, a expansão econômica acelerada é uma necessidade para os países desse grupo. O Brasil tem andado fora do ritmo. Agora, o novo plano de logística, a desoneração da folha de salários e a redução da conta de energia elétrica podem ser o início de uma nova política, menos populista, menos retórica e mais voltada que a do governo anterior para o aumento da eficiência geral da economia. Essa nova orientação é por enquanto uma promessa. Mas a ação da presidente pelo menos indica o reconhecimento de problemas importantes e nunca enfrentados nos últimos dez anos.
O próprio governo é um desses problemas. A presidente o reconhece, implicitamente, ao atribuir maior importância ao setor privado para a expansão e a modernização da infraestrutura de transportes. Seu discurso é marcado pelas bravatas de sempre, quando ela critica a ação das concessionárias, cobra maior respeito aos consumidores e anuncia mais controle sobre as prestadoras de serviços ("vamos acabar com monopólios do passado e serviços distorcidos", prometeu). Mas ela sabe, sem admiti-lo, do péssimo desempenho do setor público na elaboração e na execução de projetos. Isso vale para a administração direta e para a indireta.
Em março, o Tribunal de Contas da União (TCU) alertou para o atraso em quase todos os projetos de adaptação dos portos para a Copa de 2014. Na maior parte, as obras nem haviam começado e em vários casos havia sinais de graves irregularidades. No primeiro semestre, as sete Companhias Docas, empresas mistas, aplicaram apenas 7,5% do orçamento previsto para o ano. Um pacote para o setor portuário, ainda em elaboração, deve ser lançado em breve. A importância do problema ultrapassa amplamente os compromissos assumidos para a realização dos jogos. Os planos do governo incluem a participação do setor privado na administração tanto de portos quanto de aeroportos.
O Ministério dos Transportes, responsável por vários dos maiores projetos do governo federal, foi o ponto inicial da faxina realizada no ano passado pela presidente Dilma Rousseff. Depois da limpeza, seus desembolsos emperraram. Neste ano, até agosto, ficaram R$ 2,5 bilhões abaixo do total aplicado um ano antes, R$ 5,5 bilhões. Aparentemente, é muito mais complicado cuidar dos investimentos em rodovias e ferrovias quando o administrador tem de respeitar certas regras de bom comportamento. No mês passado, 236 ações previstas para este ano continuavam paralisadas no ministério, segundo levantamento divulgado pela organização Contas Abertas.
A administração federal nem sempre foi tão incompetente. Raramente foi flagrada em tantas irregularidades. Além disso, talvez nunca tenha sido tão amplamente loteada e aparelhada para atender a objetivos particulares - pessoais ou partidários - de governantes e de seus aliados. A crônica dos desmandos cometidos no Ministério dos Transportes, desde o governo passado, ainda é conhecida de forma incompleta. Novos detalhes apareceram recentemente em depoimentos prestados à CPI do Cachoeira. Talvez nem todas as novidades sejam total ou parcialmente verdadeiras, mas nenhuma delas destoa das histórias correntes sobre os costumes políticos de Brasília.
Aparelhamento, loteamento de governo e irregularidades no uso de recursos públicos prejudicam tanto a moralidade quanto a eficiência da administração pública. São também problemas econômicos, porque se refletem na produtividade geral do País e comprometem o poder de competição dos produtores nacionais. Quando a presidente lançou seu plano de logística, anunciando concessões e parcerias público-privadas, alguns analistas apontaram uma possível mudança ideológica. Poderiam ter apelado para uma explicação mais simples e provavelmente mais realista: a alternativa seria uma reforma muito mais ampla e politicamente muito mais difícil de toda a máquina federal. Uma faxina mais completa seria apenas parte desse trabalho. Ainda faltaria recriar e difundir os valores de competência e de eficiência existentes, em outros tempos, pelo menos em setores da administração. Mas também para uma associação com o setor privado o governo precisará ser mais competente.
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Entre a crise e a ineficiência

Rolf Kuntz - O Estado de S.Paulo, 05 de setembro de 2012
Mais uma vez o governo atribuiu aos fados, isto é, à crise internacional, o mau desempenho do Brasil no comércio exterior. No mês passado o País faturou com a exportação apenas US$ 22,4 bilhões, valor 14,4% menor que o de um ano antes. Em oito meses, a receita comercial ficou 4,8% abaixo da obtida entre janeiro e agosto do ano passado. Nesse período, o gasto com a importação recuou apenas 0,7%, pela média dos dias úteis. Ou seja, a crise externa afetou mais as vendas do que as compras do Brasil. Os deuses devem estar prejudicando mais o Brasil do que os concorrentes. O efeito da retração global é inegável, até pelo menor dinamismo da China, mas essa explicação conta apenas uma parte da história. Outra parte, provavelmente muito mais importante, aparece num documento divulgado um dia depois da balança comercial brasileira. Embora tenha avançado cinco posições, o Brasil ficou em 48.º lugar, entre 144 países, no Índice de Competitividade Global 2012-2013 do Fórum Econômico Mundial. Os principais entraves estão relacionados a instituições, ao seu funcionamento e a outros fatores vinculados à ação do governo, como a infraestrutura e a instrução. Fica mais difícil culpar os deuses, quando se examina o dia a dia de quem precisa de 13 procedimentos e 119 dias para iniciar a exploração de um negócio ou recebe a educação primária brasileira, classificada em 126.º lugar pelo critério de qualidade.
A maior parte da América Latina continua mal colocada na lista do Fórum Econômico Mundial. O Chile, na 33.ª posição, e o Panamá, na 40.ª, aparecem à frente do Brasil. A Argentina passou do 86.º para o 94.º lugar, principalmente por causa da piora das condições macroeconômicas (inflação alta e contas públicas em mau estado), das condições institucionais e do mau funcionamento dos mercados de bens e de mão de obra - óbvias consequências da contínua tentativa do governo de controlar preços, falsificar índices e intervir nos negócios. Nenhuma surpresa, portanto. A degradação do Mercosul reflete a devastação causada pelo governo na capacidade da indústria argentina de produzir e de competir. Poderia ser surpreendente a inclinação do governo brasileiro para imitar o vizinho, apelando para a centralização e para o protecionismo, mas nem isso parece estranho, depois de um ano e meio de mandato da presidente Dilma Rousseff.
Os autores do relatório atribuem o avanço do Brasil para o 48.º lugar a uma "relativa melhora nas condições macroeconômicas" e ao maior uso da tecnologia de informação e de comunicação (54.º posto). O País continua beneficiado, na avaliação dos pesquisadores, pela "sofisticação da comunidade empresarial" (33.ª posição) e pelo tamanho do mercado interno (7.º posto). Mas a capacidade brasileira de competir continua emperrada por fatores citados em várias edições do estudo.
Os pesquisadores destacam no texto a escassa confiança nos políticos (121.º lugar), a baixa eficiência do governo (111.º), o desperdício no gasto público (135.º), a má infraestrutura de transporte (79.º) e a lamentável qualidade da educação (116.º), além das dificuldades para abrir um negócio e das distorções causadas pela tributação (144.º).
Os fatores positivos e negativos são apresentados em duas páginas de tabelas detalhadas e gráficos. A análise e a classificação refletem dados estatísticos (números da produção e do mercado, carga tributária e contas fiscais, por exemplo) e avaliações coletadas entre executivos e especialistas. A relação dos "fatores mais problemáticos" para os negócios é ordenada de acordo com as preocupações indicadas pelos entrevistados. Nos cinco primeiros lugares aparecem os regulamentos tributários, a oferta inadequada de infraestrutura, as alíquotas dos impostos, a burocracia governamental e as normas trabalhistas, apontadas como restritivas. O acesso ao financiamento é citado em 8.º lugar, logo depois da corrupção (7.º) e da educação ruim da força de trabalho (6.º).
Antes da crise de 2008 os exportadores brasileiros já perdiam espaço no mercado internacional. Os entraves tornaram-se mais importantes nos anos seguintes, mas o governo preferiu atribuir as dificuldades ao desajuste cambial causado pela expansão monetária no mundo rico. O câmbio tem sido, em 2012, muito mais favorável que nos anos anteriores, mas a produção industrial diminuiu, apesar do crescimento do consumo.
A inundação de dólares foi interrompida, mas a de produtos estrangeiros continua. A exportação do agronegócio, no entanto, cresceu neste ano e produziu até julho um superávit de US$ 44,5 bilhões, apesar da crise global e dos entraves internos. Há, no setor, um excedente de competitividade - por enquanto. Alguma autoridade poderá, num momento de iluminação, inventar mais algum imposto sobre a exportação de alimentos e matérias-primas. Alguns economistas geniais já têm defendido essa ideia devastadora.

Corte de impostos e crescimento economico: not so simple - David Leonhardt

Claro, nada é simples em economia, mas durante muito tempo alguns mitos tentaram propagar a ideia de que os cortes de impostos de Reagan e de Bush II contribuíram para o crescimento econômico dos EUA, quando na verdade eles foram, no máximo neutros, como escreve este comentarista...
Paulo Roberto de Almeida 

CAPITAL IDEAS
Do Tax Cuts Lead to Economic Growth?
The New York Times, September 15, 2012
FOR one of my occasional conversations with Representative Paul D. Ryan over the last few years, I brought a chart. The chart showed economic growth in the United States in the last several decades, and I handed Mr. Ryan a copy as we sat down in his Capitol Hill office. A self-professed economics wonk, he immediately laughed, in what seemed an appropriate mix of appreciation and teasing.
One of the first things you notice in the chart is that the American economy was not especially healthy even before the financial crisis began in late 2007. By 2007, remarkably, the economy was already on pace for its slowest decade of growth since World War II. The mediocre economic growth, in turn, brought mediocre job and income growth — and the crisis more than erased those gains.
The defining economic policy of the last decade, of course, was the Bush tax cuts. President George W. Bush and Congress, including Mr. Ryan, passed a large tax cut in 2001, sped up its implementation in 2003 and predicted that prosperity would follow.
The economic growth that actually followed — indeed, the whole history of the last 20 years — offers one of the most serious challenges to modern conservatism. Bill Clinton and the elder George Bush both raised taxes in the early 1990s, and conservatives predicted disaster. Instead, the economy boomed, and incomes grew at their fastest pace since the 1960s. Then came the younger Mr. Bush, the tax cuts, the disappointing expansion and the worst downturn since the Depression.
Today, Mitt Romney and Mr. Ryan are promising another cut in tax rates and again predicting that good times will follow. But it’s not the easiest case to make. Much as President Obama should be asked to grapple with the economy’s disappointing recent performance (a subject for a planned column), Mr. Romney and Mr. Ryan would do voters a service by explaining why a cut in tax rates would work better this time than last time.
That was precisely the question I was asking Mr. Ryan when I brought him the chart last year. He wasn’t the vice presidential nominee then, but his budget plan has a lot in common with Mr. Romney’s.
“I wouldn’t say that correlation is causation,” Mr. Ryan replied. “I would say Clinton had the tech-productivity boom, which was enormous. Trade barriers were going down in the Clinton years. He had the peace dividend he was enjoying.”
The economy in the Bush years, by contrast, had to cope with the popping of the technology bubble, 9/11, a couple of wars and the financial meltdown, Mr. Ryan continued. “Some of this is just the timing, not the person,” he said.
He then made an analogy. “Just as the Keynesians say the economy would have been worsewithout the stimulus” that Mr. Obama signed, Mr. Ryan said, “the flip side is true from our perspective.” Without the Bush tax cuts, that is, the worst economic decade since World War II would have been even worse.
Since that conversation, I have asked the same question of conservative economists and received similar answers. “To me, the Bush tax cuts get too much attention,” said R. Glenn Hubbard, who helped design them as the chairman of Mr. Bush’s Council of Economic Advisers and is now a Romney adviser. “The pro-growth elements of the tax cuts were fairly modest in size,” he added, because they also included politically minded cuts like the child tax credit. Phillip L. Swagel, another former Bush aide, said that even a tax cut as large as Mr. Bush’s “doesn’t translate quickly into higher growth.”
Why not? The main economic argument for tax cuts is simple enough. In the short term, they put money in people’s pockets. Longer term, people will presumably work harder if they keep more of the next dollar they earn. They will work more hours or expand their small business. This argument dominates the political debate.
But tax cuts have other effects that receive less attention — and that can slow economic growth. Somebody who cares about hitting a specific income target, like $1 million, might work less hard after receiving a tax cut. And all else equal, tax cuts increase the deficit, as Mr. Bush’s did, which creates other economic problems.
When the top marginal rate was 70 percent or higher, as it was from 1940 to 1980, tax cuts really could make a big difference, notes Donald Marron, director of the highly regarded Tax Policy Center and another former Bush administration official. When the top rate is 35 percent, as it is today, a tax cut packs much less economic punch.
“At the level of taxes we’ve been at the last couple decades and the magnitude of the changes we’ve had, it’s hard to make the argument that tax rates have a big effect on economic growth,” Mr. Marron said. Similarly, a new report from the nonpartisan Congressional Research Service found that, over the past 65 years, changes in the top tax rate “do not appear correlated with economic growth.”
Mr. Romney and Mr. Ryan, to be sure, are not calling for a simple repeat of the Bush tax cuts. They say they favor a complete overhaul of the tax code, reducing tax rates by one-fifth (taking the top rate down to 28 percent) and shrinking various tax breaks. Many economists think such an overhaul could do more good than the Bush tax cuts, by simplifying the tax code.
The problem for anyone trying to evaluate the Romney plan, however, is that there isn’t a full plan yet. He will not say which tax breaks he would reduce, and the large ones, like the mortgage-interest deduction, are all popular. In a painstaking analysis, the Tax Policy Center showed that achieving all of Mr. Romney’s top-line goals — a revenue-neutral overhaul that does not increase the tax burden of the middle class — is not arithmetically possible. History is littered with vague calls for tax reform that went nowhere.
Beyond taxes, Mr. Romney has declined to detail what spending cuts he would make, although he has promised to make big ones. And some of the programs that would be at risk — medical research, education, technology, roads, mass transportation — probably have a better historical claim on lifting economic growth than tax cuts do.
The policies that new presidents pass tend to be ones on which they laid out specifics, be they the Bush and Reagan tax cuts or the Obama health overhaul. Based on the specifics, Mr. Romney puts a higher priority on tax cuts than anything else. Yet the reality of the last two decades has caused conservative economists, and Mr. Ryan himself, to acknowledge the limits of tax cuts.
In one of our conversations, Mr. Ryan told me that the single most important objective of any economic plan had to be raising growth. “We have to figure out how best to grow the pie so it helps everyone,” he said.
It is certainly true that strong economic growth helps solve almost every challenge the country faces: the deficit, unemployment, the income slump, even the rise of China. It is also true that some liberals put too much emphasis on the distribution of the pie and not enough on the size.
But when you dig into Mr. Romney’s and Mr. Ryan’s proposals and you consider recent history, the fairest thing to say is that, so far at least, they have laid out a plan to cut taxes. They have not yet explained why and how it is also an economic-growth plan.
David Leonhardt is the Washington bureau chief of The New York Times.

Macroeconomia dos "puxadinhos" - Alexandre Schwartsman


Concordo integralmente com o autor -- ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC -- em que o governo abandonou, na prática (isto é, sem dizer), as metas inflacionárias e a flutuação cambial (e também vem fazendo manipulações contábeis para não dizer que já não luta tanto quanto antes pelo superávit primário), em troca de "puxadinhos", ou seja, uma série de improvisações de políticas macro e setoriais, para tentar manter ao máximo a ilusão do crescimento, mas partindo de falsas premissas keynesianas (a tal de manutenção da demanda agregada, pelo estimulo ao consumo e a provisão de crédito, sem atuar nos fatores de oferta).
As reduções seletivas de tributos também são equivocados, pois que setoriais e parciais e, a despeito de indutoras de emprego, no curto prazo, são potencialmente provocadoras de atraso tecnologico no médio e no longo prazo, pois que incidindo sobre o faturamento das empresas e, portanto, atingindo mais duramente as empresas de maior capitalização.
Esses improvisos governamentais são arranjos ad hoc, contraditórios entre si, e inconsistentes no médio prazo, apenas sinal de que algo precisa ser feito. Se trata do estilo atual de governar: " manda fazer, depois a gente vê..."
Paulo Roberto de Almeida 



Tem, mas acabouAlexandre SchwartsmanA Mão Visível, um blog paleoliberal


Eu bem que queria escrever sobre a ata do Copom, mas, mesmo sob a nova frequência semanal, outros temas me forçaram a adiar o assunto. Não acho, porém, que tenha perdido a atualidade, pois me parece claro que, se restava ainda dúvida acerca da sobrevivência do regime de metas no Brasil, a ata foi a metafórica pá de cal. Em particular o parágrafo 19 é o epitáfio do regime: ali o Copom reconhece que sua projeção para a inflação em 2012 está acima da meta, assim permanecendo até meados de 2014.

É verdade que sinalizar a inflação acima da meta por um período de quase dois anos não chega a ser inédito. Mais de uma vez o BC teve que reconhecer situações como essa; a novidade agora é que, mesmo sob um cenário inflacionário desfavorável, e com tempo de sobra para reagir a ele, o Comitê preferiu seguir reduzindo as taxas de juros e contar com um milagre (também conhecido com “convergência não linear da inflação à trajetória de metas”), a cumprir a tarefa que lhe foi designada pelo Decreto 3.088/99, qual seja, tomar as decisões de política que tragam a inflação de volta à meta.

Segundo o Copom, “embora (...) o curto prazo tenha sido negativamente impactado porchoques de oferta associados a eventos climáticos, domésticos e externos, [o cenário inflacionário] manteve sinais favoráveis em prazos mais longos”. Como desculpa para inação esta afirmação peca em mais de um aspecto.

A começar porque a persistência da inflação acima da meta por dois anos (repita-se) não é um evento de curto prazo. E nós, leitores da ata, bem que gostaríamos de saber quais são os “sinais favoráveis” a que o BC se refere, visto que em momento algum se mencionam projeções indicando a reversão do processo inflacionário.

Afora isso, há a questão do tratamento do chamado “choque de oferta”. Este é dito “negativo” quando reduz as quantidades disponíveis e, por conta disso, eleva os preços; e é “positivo” quando, ao contrário, eleva a quantidade e faz cair os preços.

O BC, há tempos, afirma que não combate os efeitos diretos de choques de oferta, ou seja, não eleva a taxa de juros quando o choque é negativo, partindo do pressuposto que estes em geral se dissipam em alguns meses, sem necessariamente contaminar a inflação por períodos mais longos. Obviamente, por simetria, o BC não deveria também reduzir os juros quando ocorrem choques favoráveis de oferta, que, da mesma forma, tendem a desaparecer passado algum tempo.

No entanto, não é o que se observa. Enquanto o aumento dos preços internacionais decommodities é invocado como razão para não subir a taxa de juros, eventos favoráveis como o corte temporário de impostos sobre veículos, e, não duvidem, a recente redução de encargos sobre energia elétrica são alegremente considerados como motivos para redução da Selic.

E, cá entre nós, tomar o aumento internacional de preços de commodities como um choque de oferta equivale a esticar o conceito bem mais do que seria recomendável. Para agricultores americanos a seca reduziu as quantidades e elevou preços, configurando um choque clássico de oferta. O agricultor brasileiro, por outro lado, só percebe os preços em alta, sem prejuízo da quantidade. E, se é verdade que os preços mais altos prejudicam o consumidor, é bom lembrar que o país produz bem mais do que consome, gerando um benefício líquido para o Brasil. Trata-se, em outras palavras, de um choque sim, mas um choque positivo, e de demanda!

Note-se, por fim, que a contaminação dos preços domésticos só é possível porque o BC não permite que o dólar se barateie como deveria ocorrer face ao aumento dos preços decommodities. Na prática, ao fixar uma meta para a taxa de câmbio o BC admite que aumentos de preços fora do país acabem por se materializar domesticamente.

Em outras palavras, o BC tem várias metas: para o câmbio, para o crescimento, para a taxa de juros. Só acabou a meta para a inflação.

Profetas demolidores - Tom Friedman

Parece que os muçulmanos não aplicam o que eles pretendem ensinar aos ocidentais...

Look in Your Mirror

The New York Times, September 18, 2012
 
On Monday, David D. Kirkpatrick, the Cairo bureau chief for The Times, quoted one of the Egyptian demonstrators outside the American Embassy, Khaled Ali, as justifying last week’s violent protests by declaring: “We never insult any prophet — not Moses, not Jesus — so why can’t we demand that Muhammad be respected?” Mr. Ali, a 39-year-old textile worker, was holding up a handwritten sign in English that read: “Shut Up America.” “Obama is the president, so he should have to apologize!”
I read several such comments from the rioters in the press last week, and I have a big problem with them. I don’t like to see anyone’s faith insulted, but we need to make two things very clear — more clear than President Obama’s team has made them. One is that an insult — even one as stupid and ugly as the anti-Islam video on YouTube that started all of this — does not entitle people to go out and attack embassies and kill innocent diplomats. That is not how a proper self-governing people behave. There is no excuse for it. It is shameful. And, second, before demanding an apology from our president, Mr. Ali and the young Egyptians, Tunisians, Libyans, Yemenis, Pakistanis, Afghans and Sudanese who have been taking to the streets might want to look in the mirror — or just turn on their own televisions. They might want to look at the chauvinistic bile that is pumped out by some of their own media — on satellite television stations and Web sites or sold in sidewalk bookstores outside of mosques — insulting Shiites, Jews, Christians, Sufis and anyone else who is not a Sunni, or fundamentalist, Muslim. There are people in their countries for whom hating “the other” has become a source of identity and a collective excuse for failing to realize their own potential.
The Middle East Media Research Institute, or Memri, was founded in 1998 in Washington by Yigal Carmon, a former Israeli government adviser on counterterrorism, “to bridge the language gap between the Middle East and the West by monitoring, translating and studying Arab, Iranian, Urdu and Pashtu media, schoolbooks, and religious sermons.” What I respect about Memri is that it translates not only the ugly stuff but the courageous liberal, reformist Arab commentators as well. I asked Memri for a sampler of the hate-filled videos that appear regularly on Arab/Muslim mass media. Here are some:
ON CHRISTIANS Hasan Rahimpur Azghadi of the Iranian Supreme Council for Cultural Revolution: Christianity is “a reeking corpse, on which you have to constantly pour eau de cologne and perfume, and wash it in order to keep it clean.” http://www.memritv.org/clip/en/1528.htm — July 20, 2007.
Sheik Al-Khatib al-Baghdadi: It is permissible to spill the blood of the Iraqi Christians — and a duty to wage jihad against them. http://www.memri.org/report/en/0/0/0/0/0/0/5200.htm — April 14, 2011.
Abd al-Aziz Fawzan al-Fawzan, a Saudi professor of Islamic law, calls for “positive hatred” of Christians. Al-Majd TV (Saudi Arabia), http://www.memritv.org/clip/en/992.htm — Dec. 16, 2005.
ON SHIITES The Egyptian Cleric Muhammad Hussein Yaaqub: “Muslim Brotherhood Presidential Candidate Mohamed Morsi told me that the Shiites are more dangerous to Islam than the Jews.” www.memritv.org/clip/en/3466.htm — June 13, 2012.
The  Egyptian Cleric Mazen al-Sirsawi: “If Allah had not created the Shiites as human beings, they would have been donkeys.” http://www.memritv.org/clip/en/3101.htm — Aug. 7, 2011.
The Sipah-e-Sahaba Pakistan video series: “The Shiite is a Nasl [Race/Offspring] of Jews.” http://www.memri.org/report/en/0/0/0/0/0/51/6208.htm — March 21, 2012.
ON JEWS Article on the Muslim Brotherhood’s Web site praises jihad against America and the Jews: “The Descendants of Apes and Pigs.” http://www.memri.org/report/en/0/0/0/0/0/51/6656.htm — Sept. 7, 2012.
The Pakistani cleric Muhammad Raza Saqib Mustafai: “When the Jews are wiped out, the world would be purified and the sun of peace would rise on the entire world.” http://www.memri.org/report/en/0/0/0/0/0/51/6557.htm — Aug. 1, 2012.
Dr. Ismail Ali Muhammad, a senior Al-Azhar scholar: The Jews, “a source of evil and harm in all human societies.” http://www.memri.org/report/en/0/0/0/0/0/51/6086.htm — Feb. 14, 2012.
ON SUFIS A shrine venerating a Sufi Muslim saint in Libya has been partly destroyed, the latest in a series of attacks blamed on ultraconservative Salafi Islamists. http://www.bbc.co.uk/news/world-africa-19380083 — Aug. 26, 2012.
As a Jew who has lived and worked in the Muslim world, I know that these expressions of intolerance are only one side of the story and that there are deeply tolerant views and strains of Islam espoused and practiced there as well. Theirs are complex societies.
That’s the point. America is a complex society, too. But let’s cut the nonsense that this is just our problem and the only issue is how we clean up our act. That Cairo protester is right: We should respect the faiths and prophets of others. But that runs both ways. Our president and major newspapers consistently condemn hate speech against other religions. How about yours?
Link: http://www.nytimes.com/2012/09/19/opinion/friedman-look-in-your-mirror.html?nl=todaysheadlines&emc=edit_th_20120919&moc.semityn.www

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O que seria um "cancelamento provisorio" - ou: Viva o MEC, tres vezes!!!

Ufa! Ainda bem que o MEC se esforça para manter na "inguinorancia" mais da metade da população brasileira, do contrário já teríamos sido enganados por bandidos mais espertos, mais versados na última flor do Lácio, que para eles permanece inculta, e tudo menos bela, e aos quais também faltam os mais elementares princípios da lógica formal.
Se não fosse o MEC, há muito teríamos sucumbido a alguma trampa deste tipo que vai abaixo.
Por isso eu digo: continue assim MEC, você vai muito bem na tarefa de imbecilizar metade da população brasileira.
Estou sendo injusto, claro, cruel e desapiedado, com quem só quer o bem, e para isso mesmo abriga as últimas saúvas do Brasil, as que se salvaram depois da modernização da agricultura.
Uma coisa é certa: as saúvas freireanas do MEC estão acabando com o Brasil.
Ainda bem...


Brasília, setembro de 2012
Informamos que seu titulo eleitoral teve um Cancelamento provisório.
O motivo do cancelamento foi uma irregularidade em seu Cadastro de Pessoa Física (CPF) a qual motivou o cancelamento do mesmo, e também de seu título eleitoral.
Para saber mais detalhes sobre esta irregularidade, e quais providências tomar, leia o regulamento clicando no link abaixo. 
Após clicar no link, será exibida uma janela, onde a opção "Abrir" deve ser clicada.
(...) [desativado]
ou se não conseguir Clique Aqui [desativado]
Todos os direitos reservados ao Tribunal Superior Eleitoral

Especies diplomaticas exogenas - Lima Barreto

Recebido de um leitor fiel, e apreciador de meu post sobre as espécies diplomáticas (ver mais abaixo): 


"O ideal de todo e qualquer natural da Bruzundanga é viver fora do país. Pode-se dizer que todos anseiam por isso; e, como Robinson, vivem nas praias e nos morros, à espera do navio que os venha buscar.

"Para eles, a Bruzundanga é tida como país de exílio ou mais do que isso: como uma ilha de Juan Fernández, onde os humanos perdem a fala, por não terem com quem conversar e não poderem entender o que dizem os pássaros, os animais silvestres e mesmo as cabras semi-selvagens.

"Um dos meios de que a nobreza doutoral lança mão para safar-se do país, é obter empregos diplomáticos ou consulares, em falta destes os de adidos e “encostados” às legações e consulados.
(...)
"Mas, como lhes contava, os nobres doutores tratam logo de representar o país em terras estranhas.
Não fazem questão de lugar. Seja no Turquestão ou na Groenlândia, eles aceitam os cargos diplomáticos.
A um, perguntei:
— Mas tu vais mesmo para o Anam?
— Por que não? Não há lá mulheres?

O sonho do jovem diplomático não é ser Talleyrand; é ser Don Juan para uso externo.
Ia até bastante satisfeito, disse-me em seguida, porquanto, lá, não se distinguindo bem a mulher anamita do homem, devia acontecer surpresas bem agradáveis com semelhante 'engano d’arma ledo e cego'."
(...)

in: Lima Barreto,
OS BRUZUNDANGAS

EUA: confusa situacao economica - Wall Street Journal


The Magnitude of the Mess We're In
By George P. Shultz, Michael J. Boskin, John F. Cogan, Allan H. Meltzer and John B. Taylor
The Wall Street JournalSeptember 17, 2012

The next Treasury secretary will confront problems so daunting that even Alexander Hamilton would have trouble preserving the full faith and credit of the United States. 

Sometimes a few facts tell important stories. The American economy now is full of facts that tell stories that you really don't want, but need, to hear.
Where are we now? 
Did you know that annual spending by the federal government now exceeds the 2007 level by about $1 trillion? With a slow economy, revenues are little changed. The result is an unprecedented string of federal budget deficits, $1.4 trillion in 2009, $1.3 trillion in 2010, $1.3 trillion in 2011, and another $1.2 trillion on the way this year. The four-year increase in borrowing amounts to $55,000 per U.S. household.
The amount of debt is one thing. The burden of interest payments is another. The Treasury now has a preponderance of its debt issued in very short-term durations, to take advantage of low short-term interest rates. It must frequently refinance this debt which, when added to the current deficit, means Treasury must raise $4 trillion this year alone. So the debt burden will explode when interest rates go up.
The government has to get the money to finance its spending by taxing or borrowing. While it might be tempting to conclude that we can just tax upper-income people, did you know that the U.S. income tax system is already very progressive? The top 1% pay 37% of all income taxes and 50% pay none.
Did you know that, during the last fiscal year, around three-quarters of the deficit was financed by the Federal Reserve? Foreign governments accounted for most of the rest, as American citizens' and institutions' purchases and sales netted to about zero. The Fed now owns one in six dollars of the national debt, the largest percentage of GDP in history, larger than even at the end of World War II.
The Fed has effectively replaced the entire interbank money market and large segments of other markets with itself. It determines the interest rate by declaring what it will pay on reserve balances at the Fed without regard for the supply and demand of money. By replacing large decentralized markets with centralized control by a few government officials, the Fed is distorting incentives and interfering with price discovery with unintended economic consequences.
Did you know that the Federal Reserve is now giving money to banks, effectively circumventing the appropriations process? To pay for quantitative easing—the purchase of government debt, mortgage-backed securities, etc.—the Fed credits banks with electronic deposits that are reserve balances at the Federal Reserve. These reserve balances have exploded to $1.5 trillion from $8 billion in September 2008.
The Fed now pays 0.25% interest on reserves it holds. So the Fed is paying the banks almost $4 billion a year. If interest rates rise to 2%, and the Federal Reserve raises the rate it pays on reserves correspondingly, the payment rises to $30 billion a year. Would Congress appropriate that kind of money to give—not lend—to banks?
The Fed's policy of keeping interest rates so low for so long means that the real rate (after accounting for inflation) is negative, thereby cutting significantly the real income of those who have saved for retirement over their lifetime.
The Consumer Financial Protection Bureau is also being financed by the Federal Reserve rather than by appropriations, severing the checks and balances needed for good government. And the Fed's Operation Twist, buying long-term and selling short-term debt, is substituting for the Treasury's traditional debt management.
This large expansion of reserves creates two-sided risks. If it is not unwound, the reserves could pour into the economy, causing inflation. In that event, the Fed will have effectively turned the government debt and mortgage-backed securities it purchased into money that will have an explosive impact. If reserves are unwound too quickly, banks may find it hard to adjust and pull back on loans. Unwinding would be hard to manage now, but will become ever harder the more the balance sheet rises.
The issue is not merely how much we spend, but how wisely, how effectively. Did you know that the federal government had 46 separate job-training programs? Yet a 47th for green jobs was added, and the success rate was so poor that the Department of Labor inspector general said it should be shut down. We need to get much better results from current programs, serving a more carefully targeted set of people with more effective programs that increase their opportunities.
Did you know that funding for federal regulatory agencies and their employment levels are at all-time highs? In 2010, the number of Federal Register pages devoted to proposed new rules broke its previous all-time record for the second consecutive year. It's up by 25% compared to 2008. These regulations alone will impose large costs and create heightened uncertainty for business and especially small business.
This is all bad enough, but where we are headed is even worse.
President Obama's budget will raise the federal debt-to-GDP ratio to 80.4% in two years, about double its level at the end of 2008, and a larger percentage point increase than Greece from the end of 2008 to the beginning of this year.
Under the president's budget, for example, the debt expands rapidly to $18.8 trillion from $10.8 trillion in 10 years. The interest costs alone will reach $743 billion a year, more than we are currently spending on Social Security, Medicare or national defense, even under the benign assumption of no inflationary increase or adverse bond-market reaction. For every one percentage point increase in interest rates above this projection, interest costs rise by more than $100 billion, more than current spending on veterans' health and the National Institutes of Health combined.
Worse, the unfunded long-run liabilities of Social Security, Medicare and Medicaid add tens of trillions of dollars to the debt, mostly due to rising real benefits per beneficiary. Before long, all the government will be able to do is finance the debt and pay pension and medical benefits. This spending will crowd out all other necessary government functions.
What does this spending and debt mean in the long run if it is not controlled? One result will be ever-higher income and payroll taxes on all taxpayers that will reach over 80% at the top and 70% for many middle-income working couples.
Did you know that the federal government used the bankruptcy of two auto companies to transfer money that belonged to debt holders such as pension funds and paid it to friendly labor unions? 
This greatly increased uncertainty about creditor rights under bankruptcy law.
The Fed is adding to the uncertainty of current policy. Quantitative easing as a policy tool is very hard to manage. Traders speculate whether and when the Fed will intervene next. The Fed can intervene without limit in any credit market—not only mortgage-backed securities but also securities backed by automobile loans or student loans. This raises questions about why an independent agency of government should have this power.
When businesses and households confront large-scale uncertainty, they tend to wait for more clarity to emerge before making major commitments to spend, invest and hire. Right now, they confront a mountain of regulatory uncertainty and a fiscal cliff that, if unattended, means a sharp increase in taxes and a sharp decline in spending bound to have adverse effect on the economy. Are you surprised that so much cash is waiting on the sidelines?
What's at stake?
We cannot count on problems elsewhere in the world to make Treasury securities a safe haven forever. We risk eventually losing the privilege and great benefit of lower interest rates from the dollar's role as the global reserve currency. In short, we risk passing an economic, fiscal and financial point of no return.
Suppose you were offered the job of Treasury secretary a few months from now. Would you accept? You would confront problems that are so daunting even Alexander Hamilton would have trouble preserving the full faith and credit of the United States. Our first Treasury secretary famously argued that one of a nation's greatest assets is its ability to issue debt, especially in a crisis. We needed to honor our Revolutionary War debt, he said, because the debt "foreign and domestic, was the price of liberty."
History has reconfirmed Hamilton's wisdom. As historian John Steele Gordon has written, our nation's ability to issue debt helped preserve the Union in the 1860s and defeat totalitarian governments in the 1940s. Today, government officials are issuing debt to finance pet projects and payoffs to interest groups, not some vital, let alone existential, national purpose.
The problems are close to being unmanageable now. If we stay on the current path, they will wind up being completely unmanageable, culminating in an unwelcome explosion and crisis.
The fixes are blindingly obvious. Economic theory, empirical studies and historical experience teach that the solutions are the lowest possible tax rates on the broadest base, sufficient to fund the necessary functions of government on balance over the business cycle; sound monetary policy; trade liberalization; spending control and entitlement reform; and regulatory, litigation and education reform. The need is clear. Why wait for disaster? The future is now.

The authors are senior fellows at Stanford University's Hoover Institution. They have served in various federal government policy positions in the Treasury Department, the Office of Management and Budget and the Council of Economic Advisers.
A version of this article appeared September 17, 2012, on page A19 in the U.S. edition of The Wall Street Journal, with the headline: The Magnitude of the Mess We're In.

Economia brasileira: conjuntura incerta - Editorial OESP


A retomada e o longo prazo

Editorial O Estado de S.Paulo, 17 de setembro de 2012

A economia brasileira saiu do fundo do poço e está de novo em crescimento, segundo vários indicadores importantes, mas falta saber se a indústria terá fôlego para sustentar, a médio prazo, um dinamismo bem maior que o dos últimos dois ou três anos. De junho para julho a atividade econômica aumentou 0,42%, em termos reais, segundo o indicador estimado mensalmente pelo Banco Central (BC) e considerado pelos especialistas uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB) calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A recuperação ocorre depois de um primeiro semestre muito ruim. Por isso o Ministério da Fazenda deve baixar de 3% para cerca de 2% sua previsão de crescimento para este ano. Para o próximo, no entanto, a economia crescerá provavelmente mais que 4%, segundo o ministro Guido Mantega.
Essa previsão parece razoável, depois de dois anos em marcha muito lenta, com expansão de apenas 2,7% em 2011 e bem menos que isso em 2012. Economistas do mercado financeiro e de consultorias já baixaram suas projeções para algo em torno de 1,6%. O resultado efetivo poderá ser pouco melhor que isso, mas, nesta altura, nem o governo se mostra muito mais otimista quanto ao número final do ano. É outra, no entanto, a questão mais importante.
Trata-se de saber quanto a economia brasileira poderá crescer nos próximos anos sem fortes pressões inflacionárias ou sem graves problemas nas contas externas. A dúvida mais importante, agora, é quanto ao potencial de crescimento do País.
Estimativas têm apontado um potencial em torno de 4% ao ano. Há sempre uma ampla margem de incerteza em cálculos desse tipo, mas a experiência dos últimos dez anos parece confirmar aquela avaliação. A capacidade de crescimento acumulada nas duas décadas anteriores - especialmente a partir da estabilização e das reformas dos anos 90 - parece ter sido plenamente explorada. Os surtos de inflação depois das últimas fases de rápido crescimento e a tendência à erosão do saldo comercial fortalecem esse ponto de vista.
O esgotamento daquele potencial tem sido visível principalmente no fraco desempenho da indústria de transformação, durante décadas o principal motor do sistema econômico brasileiro. O agronegócio preservou a capacidade de crescer e tem sido por alguns anos o setor mais competitivo da economia nacional. Só um excedente de produtividade parece explicar esse desempenho. Afinal, vários obstáculos enfrentados pela indústria prejudicam também a agropecuária - entraves como as deficiências da infraestrutura, a tributação irracional, a baixa qualidade da administração pública e, durante algum tempo, a valorização cambial excessiva.
Durante os últimos quatro anos, o governo deu ampla atenção a uns poucos fatores. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, acusou as autoridades do mundo rico de promover uma guerra cambial - tese apoiada pela presidente Dilma Rousseff. A presidente, além disso, insistiu na redução de juros como solução para boa parte dos problemas de crescimento. Além disso, o Executivo brasileiro tentou, por longo tempo, associar o baixo dinamismo da economia nacional à crise externa, como se a maior parte dos grandes problemas fosse conjuntural.
A boa notícia é uma aparente mudança de atitude da presidente e de seus principais auxiliares da área econômica. Na quinta-feira, o ministro da Fazenda anunciou a mais alguns setores a desoneração da folha de pagamentos. A medida vale agora para 25 setores. Dois dias antes a presidente havia lançado formalmente o plano de redução das contas de energia elétrica, um insumo absurdamente caro no Brasil. Em agosto, o Executivo havia apresentado um plano de investimentos em logística, baseado em concessões e em parcerias com o setor privado. O ponto comum aos três conjuntos de medidas é a ênfase em problemas estruturais e em ações de longo alcance destinadas a elevar a produtividade geral da economia brasileira.
Falta saber se o governo saberá cuidar dos detalhes e mostrará, na gestão dos planos, mais competência do que tem exibido até agora. Resta, por enquanto, registrar a novidade positiva.

A evolução das espécies diplomáticas: exercício de quantificação - Paulo Roberto de Almeida


 Uma brincadeira antiga, que ficou inédita, esperando um livro planejando, que acabou nunca saindo, como, aliás, um "Dicionário de Disparates Diplomáticos", que aguarda melhores condições (políticas) para ser publicado.

Paulo Roberto de Almeida 

A evolução das espécies diplomáticas: exercício de quantificação
(da série: “Macro e microeconomia da diplomacia”)

Paulo Roberto de Almeida
(Brasília, 1230: 21/03/2004; www.pralmeida.org)

Dando continuidade à minha série de artigos bissextos, enfeixados sob o título geral de “Macro e microeconomia da diplomacia” – e já representados por um primeiro ensaio de levantamento das principais “questões de economia diplomática” e um segundo texto relativo à questão específica da “produtividade diplomática”, ambos disponíveis no link:www.pralmeida.org/07CousasDiplomaticas/01MacroMicroDiplom.html –, permito-me tratar agora de uma das externalidades que influenciam a carreira e o desempenho do diplomata: aquela que se ocupa de sua exata caracterização quanto ao gênero, o que nem sempre tem a ver com a sua orientação sexual. Faço-o apenas para responder a uma indagação de um colega de trabalho que, como eu, é sociólogo de formação, mas que, também como eu, costuma dar palpites em assuntos econômicos. Pois não é que ele vem repetidamente indagando, de forma aparentemente séria, sobre o “índice de boiolagem explícita” no Itamaraty, e eu nem sempre disponho dos dados empíricos para responder?
Questão grave, e importante, que ainda não foi objeto, salvo engano meu, de algum estudo de sociografia diplomática, dentre tantos outros que se ocupam de questões relevantes de política externa e das relações internacionais do Brasil. Ainda que esta série se ocupe, primordialmente, da macro e da microeconomia da diplomacia, ela não poderia ignorar uma questão que afeta, talvez com intensidade insuspeita, aqueles que se ocupam, funcionalmente, de diplomacia, isto é, os diplomatas, as diplomatas, além de todos os “outros” que, por uma ou outra razão, também exercem essa função nobre no Estado. Estes “outros” parecem constituir uma proporção razoável dos funcionários da Casa, não considerando aqui, obviamente, aqueles curiosos que estão exercendo, temporariamente, funções diplomáticas mas que não são diplomatas de carreira (como os políticos no exílio, os amigos do rei e outros apaniguados de qualquer tipo que, a despeito de tudo, toda corte sempre carrega como um fardo). Na acepção aqui retida, por “outros” podem ser classificados todos aqueles que, com a ajuda do superego freudiano, preenchem com uma pontada no coração o item “gênero” nos formulários padronizados.
Quanto são eles, exatamente?: mistério. Como se distribuem entre as classes de diplomatas?: ignoramos totalmente. Qual o coeficiente de abertura externa?: igualmente não sabido. Qual sua incidência nas diversas gerações?: outro imponderável. Foram perseguidos em outras eras, estão mais à vontade nesta nossa época de uniões livres e de abertura de armários?: certamente, mas muitos ainda se escondem atrás de uma vida dupla e de um comportamento reservoso, tão desnecessário, hoje em dia, quão nefasto ao equilíbrio mental de funcionários que, no que se sabe, são tão ou mais dedicados à carreira do que quaisquer outros, por vezes até mais.
Seria possível construir um índice confiável da presença efetiva desses detentores de um charme discreto que tende a ser confundido com o da própria diplomacia? Difícil dizer pois que, à diferença dos conhecidos índices de Laspeyres ou de Paasche, não se pode determinar com rigor a média aritmética ou a média harmônica (esta ainda mais problemática) da evolução desse “produto” – com perdão pelo uso do conceito – ao longo do tempo ou no espaço. Talvez tenhamos de nos contentar com uma aproximação que, ignorando voluntariamente os valores no atacado, se concentre sobre os mesmos no varejo. O coeficiente de variação desses “produtos” na cesta da carreira será sempre algo ambíguo e indeterminado, pois que as estatísticas não sabem como estimar o quantum de população economicamente ativa não revelada, pelo menos não de modo explícito.
O fato é que, impossibilitado de responder precisamente a tão importante questão do supracitado colega – ele chegou a aventar a hipótese de 90%, o que, francamente, eu considero algo exagerado –, decidi, se não oferecer um cálculo, ou sequer uma estimativa grosseira, pelo menos propor um método um pouco mais científico de determinação da incidência relativa dessa fauna peculiar no conjunto da classe (atenção taxonomistas: não confundir a espécie e o gênero com a família e esta com a classe, pois se trata de graus diversos de aproximação filogenética). A investigação compreende obviamente aspectos macro e outros microeconômicos, sendo estes provavelmente mais relevantes em vista da dimensão reconhecidamente privada da matéria.
Uma interpretação de tipo keynesiana a esse problema, tenderia a identificar, historicamente, as grandes tendências das curvas de oferta e procura para o fenômeno em questão, o que revelaria, claramente, um nítida inflexão para cima da curva de oferta e uma estabilização relativa da curva de demanda, com uma certa depreciação, portanto, do valor do produto ao longo do tempo. Esse comportamento pode ser explicado pela existência daquilo que os economistas do século XIX chamavam de “abstinência”, isto é, uma abstenção voluntária ao consumo deliberado desse produto, e que os economistas modernos passaram a denominar sob o conceito de poupança (não confundir, porém, com o vulgar epíteto). Em virtude, todavia, do princípio da “aceleração”, fenômeno colocado em evidência pela primeira vez pelo economista francês Aftalion em 1913, o produto foi sendo incorporado aos gostos da demanda. Atenção: não se trata ainda do “multiplicador keynesiano”, mas tão simplesmente do crescimento proporcionalmente mais forte da demanda por bens de capital – sim: existe um capital intrínseco à espécie – do que a expansão da demanda final da qual ela deriva.
O rendimento marginal do capital fixo investido em equipamentos próprios (que fazem parte do capital no nível microeconômico) redunda, em última instância, naquele tipo de demanda que Keynes, ele mesmo um representante da espécie, chamou de agregada, mas que para todos os efeitos práticos de um serviço gozando do monopólio da reprodução da espécie, tende a ser confundida com a demanda efetiva. Em qualquer hipótese, o ciclo econômico conduz a uma expansão ainda mais desproporcional da oferta do produto em questão, o que pode ter resultado, em várias épocas, naquilo que Marx chamou de “crise de superprodução”. Esse fenômeno era visível no Brasil de meados dos anos 1950 ao início dos 60.
Esse deslocamento para cima da curva da oferta no Brasil – alguns estimaram um crescimento anual da ordem de 7% no período 1956-64, que por acaso se confunde com a variação do PIB na mesma fase – foi temporariamente interrompido pela “Redentora” de 1964, que foi tudo menos liberadora para a subespécie em questão. A forte contração da demanda correspondeu a uma queda ainda mais brutal da oferta, reprimida a ponto de se temer pelo seu desaparecimento.
Como naquele tempo não tinha sido ainda negociada a convenção CITES (isto é, a das espécies ameaçadas de extinção) temeu-se pelo desaparecimento do produto do mercado. Alguns representantes da subespécie, já sem marca registrada, chegaram a ser descartados de maneira vil pelo controle de qualidade dos serviços de inspeção, o que só foi evitado graças a uma estratégia sutil de marketing, consistindo numa gestão discreta da rede de fornecedores e clientes e num serviço quase personalizado de entrega.
Tempos negros para a subespécie, esses das restrições impostas pela corporação viril, levando a uma redução forçada nos níveis de demanda e de oferta, sobretudo esta última, atingida por um recolhimento compulsório que jamais foi igualado por qualquer banco central, em qualquer outra época. O enxugamento de liquidez foi geral, só não chegando a uma balança negativa porque alguns, por interesse próprio ou por espírito humanitário, se dedicaram a manter um cash flow mínimo. Dizem até que um secretário-geral especialmente zeloso chegou a responder a um general mais afoito: “eles podem ser boiolas, mas são os meus boiolas”. E não permitiu que tocasse mais na fauna da Casa. Com isso, se logrou preservar a espécie e se manteve razoavelmente intacto o capital genético, permitindo a reconstituição do plantel uma vez asseguradas as condições de mercado e o adequado equilíbrio entre capital fixo e ativos convertíveis.
Observou-se, em seguida, uma evolução moderada desse exército especial de reserva, ciclo no qual a forte demanda reprimida foi contida por um controle igualmente severo do lado da oferta, limitada na entrada por um chefe da Divisão do Pessoal que ficou conhecido como “Deer Hunter”. O fato é que ele abatia todos os candidatos da categoria que ousavam passar impunes pelos exames da primeira fase, obrigando alguns a adotar uma estratégia de diversificação do produto, envolvendo inclusive matrimônio exogâmico (o que contraria os hábitos endogâmicos do grupo). Passada porém essa fase, com o deslocamento, para fora da abcissa, do atirador contumaz, a linha da coordenada voltou a experimentar um deslocamento para a direita e para cima.
Mas o produto bruto diplomático relativo à subespécie só voltou a conhecer níveis exponenciais de crescimento com o fim do autoritarismo político, período que também corresponde a uma forte injeção fiscal na Secretaria de Estado, com novos expoentes que não mais tiveram de se restringir aos circuitos especializados – e necessariamente discretos – nesse tipo de mão-de-obra. Beneficiando-se então de vantagens comparativas ricardianas – que tendiam a promover, nos trópicos, um produto mais sensual –, os fluxos de capital diplomático customized se expandem a uma velocidade nunca vista, chegando a ameaçar as redes já estabelecidas de serviços tradicionais e ortodoxos. Depois de uma certa confusão inicial no plano regulatório, ocorreu uma acomodação natural segundo as especializações comportamentais, o que confirmou linhas e setores específicos na divisão funcional de trabalho entre os membros das várias castas existentes.
Alguns intercâmbios continuaram a ocorrer, tanto mais importantes quanto o nível observado de demanda reprimida no ciclo anterior de negócios, mas registrou-se em geral uma segmentação de mercados, que progressivamente beneficiou as minorias mais ativas e engajadas na transformação produtiva dessa empresa verdadeiramente multinacional. Com a prática de subsídios cruzados, por parte daqueles situados estrategicamente na administração em favor de outros posicionados na ponta dos determinados serviços de consumo especializado – cerimonial ou mesmo intendência geral –, ocorreu valorização de alguns ativos e desvalorização de outros, mas sempre com uma ascensão gradativa da nova classe a funções cada vez mais bem localizados na escala de comando.
Fatores de produção anteriormente dotados de externalidades negativas – como as colunas sociais e as recepções seletivas – passaram a ser mobilizados pelas novas teorias sobre o comércio estratégico de iniciados, que logicamente se beneficiaram enquanto puderam de importantes transferências fiscais, até a prática ser regulada e fortemente restringida pela Rodada Uruguai do GATT. Mas, os serviços continuaram ser oferecidos segundo listas positivas, o que permitia isolar os simples curiosos ou os pouco dotados de talentos para essas lides alternativas de intercâmbio diplomático.
O fato é que, sem a intervenção moralista dos governos, as relações de mercado entre as novas espécies se expandiram de modo exponencial, a ponto de elas dominarem alguns serviços colocados em regime de concorrência imperfeita (e alguns diriam até mesmo desleal). Nem todos as esferas de administração foram objetos de oligopolização pela subespécie em questão, mas operando num serviço que já ostenta uma situação de monopólio “natural”, a combinação da preferência pelo similar e circuitos fechados de distribuição – onde vale não necessariamente a eficiência alocativa, mas o compadrio e o nepotismo – redundou numa curva de regressão altamente desfavorável para as demais categorias. O tratamento preferencial e mais favorável para os diplomatas do grupo em causa se fez em detrimento do antigo grupo majoritário, que não dispunha do mesmo poder de fogo concentrado e de estratégias de mercado adaptadas a seu status de maioria silenciosa.
Não se dispõe, ainda, de modelos econométricos que permitam medir com precisão, e avaliar a partir de dados empíricos verificáveis, a base instalada e a extensão da população aqui referenciada no conjunto do serviço diplomático, que agora também passou a fornecer mão-de-obra especializada, e relativamente competitiva, para outros serviços da burocracia federal. Não se sabe se um surveydiscretamente conduzido seria capaz de medir a extensão do fenômeno, já que persistem setores reprimidos nas duas pontas e que os novos tipos de uniões legais não estão ainda plenamente consagrados, ou sequer legalizados.
Alguns tiques comportamentais e verbais são, entretanto, facilmente detectáveis, o que permitira construir um modelo formal de análise, pronto a ser testado num survey dotado de variáveis conhecidas e identificadas ao longo do tempo. Pesquisas de campo conduzidas com técnicas ainda rudimentares de medição permitiram, em todo caso, quantificar o exército especial já referido – que não é mais “de reserva”, nota bene – em pelo menos 50% da população economicamente ativa do serviço exterior, tomado em seu conjunto (isto é, os da ativa e os desativados). Talvez uma enquête provista de todos os requisitos científicos da sociografia contemporânea resultasse numa elevação desse percentual a pelo menos um quarto mais da amostra total. Como se vê, ainda não se chegou ao total estimado, com forte dose de arbitrariedade, por aquele colega de trabalho visivelmente mal intencionado. Em todo caso, o assunto permanece em aberto até que estudos mais abalizados venham revelar todo o potencial de mercado suscetível de ser encontrado em novas fórmulas de um velho produto.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 1230: 21/03/2004

1230. “A evolução das espécies diplomáticas: exercício de quantificação (da série Macro e microeconomia da diplomacia)”, Brasília, 21 março 2004, 6 pp. Continuidade do exercício anterior (trabalhos nºs 1061 e 839, sobre questões gerais e de produtividade diplomática), enfocando o problema dos gêneros do diplomata. Para o livro Cousas Diplomáticas.

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