sábado, 9 de agosto de 2014

Declaração de voto: um manifesto pessoal - Paulo Roberto de Almeida


Declaração de voto: um manifesto pessoal

Paulo Roberto de Almeida

Dez pequenas regras eleitorais
Não! Contrariamente ao que diz o título, não vou declarar o meu voto nas próximas eleições, para qualquer candidato que seja dentre a dezena de pretendentes ao cargo supremo na nação. Não é esse o objetivo a que aspira este texto, cuja única intenção é a de fixar alguns parâmetros pelos quais eu vou decidir o meu voto, independente de qual seja ele. Não vou definir quais são meus candidatos preferenciais, nem pretendo influenciar os leitores ou lhes sugerir um nome ou outro dentre os candidatos em liça. Trata-se apenas e tão somente de uma declaração de cunho moral.
Os que me leem habitualmente, neste espaço ou em outro qualquer, e os que por acaso passarem por aqui ou vierem a tomar conhecimento deste ensaio, podem ficar seguros de que não faço, nunca fiz, jamais farei propaganda para alguém, para qualquer candidato, de qualquer partido, tanto porque nunca pertenci a qualquer um deles, jamais pretendo ingressar em algum, nem milito por alguma causa política institucional. Meus poucos objetivos na vida cívica são: os de querer a política da verdade e o simples respeito à lógica; de manter um compromisso intransigente com a honestidade – acima de tudo intelectual, mas também política –, metas que podem ser complementadas pelo engajamento na causa das liberdades democráticas e pela luta sem qualificativos pelos direitos humanos, sem qualquer concessão a ditaduras, ou a ditadores, caudilhos, líderes populistas, aos embromadores políticos habituais e outros patifes eleitorais. Pode parecer antiquado, mas é o que me basta.
Sendo assim – certo de que o que vai acima ficou muito claro – devo talvez começar por dizer, não exatamente quais são os meus parâmetros de escolha eleitoral (pois existem muitas variáveis envolvidas), mas quais são os padrões concretos e quais são as situações políticas que rejeito absolutamente, pois esses elementos já fornecem uma base de julgamento sobre o quê, exatamente, vai determinar o meu voto e as minhas escolhas eleitorais no próximo escrutínio. A rejeição de certos “pecados” políticos já representa um começo razoável para o estabelecimento ulterior de uma plataforma de acolhimento do que eu chamaria de “boas virtudes” na vida cívica.
Pretendo, portanto, oferecer uma lista negativa do que entendo serem os critérios que me guiam na recusa de vários candidatos e na escolha de um, preferencialmente a todos os demais, numa espécie de coleção de reflexões de ordem geral sobre o que me parece importante no jogo eleitoral. Sabendo exatamente o que eu não desejo que continue na política brasileira posso assim descartar o que me parece inconveniente desse ponto de vista. Que fique claro que estou sendo o mais realista possível. Partilho, como muitos de meus leitores, ou com todas as pessoas de minha condição – ou seja, classe média bem informada, incluída digitalmente – o sentimento de rejeição a tudo o que vemos de errado na política brasileira. Mas não sou ingênuo, ou desinformado, a ponto de acreditar que o meu voto de protesto contra isso que vemos se expressaria melhor por uma das três formas de “negatividade” que muitas pessoas tendem a escolher: a abstenção, ou ausência do processo eleitoral, ou o voto nulo ou branco.
Esse tipo de atitude só consegue fortalecer o péssimo sistema já existente, ao ser um protesto absolutamente inconsistente. A abstenção ou os votos nulos ou brancos podem favorecer quem já está na frente – que é usualmente quem detém o poder e pode assim distribuir favores – e o “protestatário” acaba elegendo quem ele menos pretendia que continuasse, pela diminuição do quociente eleitoral. A minha negatividade, expressa nas regras que agora exponho, se destina a uma boa escolha eleitoral, não a uma omissão do processo político.

1. Sou contra os simplismos eleitorais
Muitos políticos pensam que os eleitores são, de modo geral, idiotas, ou então ingênuos. Embora muitos possam sê-lo, em virtude do baixo nível educacional da maioria de nossa população, em particular de uma débil educação política, que nada mais é do que o reflexo da primeira, os brasileiros costumam ser espertos, capazes de captar de modo relativamente rápido se alguém é sincero ou não. Acontece que a grande massa dos cidadãos eleitores carece de informações fiáveis e suficientes, de modo a poder formar uma opinião fundamentada sobre as origens dos problemas sociais – e todo mundo sabe que eles abundam – e sobre os meios para resolvê-los.
A prática habitual dos candidatos, em época de eleição, é prometer desenvolver ações contra isso e mais aquilo, e a favor de todos os brasileiros, dizendo que vão criar programas para isso e mais aquilo, eventualmente através de um novo órgão estatal ou ministério. Nunca vi um político dizendo claramente: “para resolver o problema ‘x’ são necessários ‘y’ de recursos; examinando-se o orçamento brasileiro constata-se que não há mais espaço para aumentos da tributação; cumpriria portanto diminuir os gastos com a rubrica ‘z’ para liberar recursos para esse programa”. Ou então, dizer simplesmente: “não creio que cabe ao governo resolver esse problema, que pode ficar a cargo da própria sociedade, por meio da iniciativa privada; para isso, vamos eliminar essa tributação absurda que pesa sobre os empresários, e abrir espaço para o investimento privado, o único capaz de criar renda e riqueza para a sociedade”.
Invariavelmente, todos prometem aumentar a oferta de empregos, embora poucos o fazem de verdade. Nunca vi nenhum deles reclamar da alta carga que pesa sobre os salários no Brasil – sobre os lucros também – ou dizer que a legislação laboral (e sindical) é anacrônica, e que com elas vamos continuar exibindo baixas taxas de emprego formal e altas taxas de desemprego aberto e disfarçado; jamais algum deles vai dizer que a rigidez do salário mínimo simplesmente impede o emprego de milhões de trabalhadores de baixa qualificação técnico-profissional.
De modo geral, a simplificação do debate político no Brasil é extrema e os candidatos continuam se esforçando para torná-lo ainda mais simplista e enganador. Talvez seja por recomendação dos responsáveis da campanha, que tendem a nivelar por baixo; mas o fato é que os discursos e as propostas estão sendo veiculadas como se destinassem a crianças da quarta série, ou a pessoas incapazes de compreender o modo de funcionamento de uma economia moderna. As campanhas eleitorais deveriam justamente servir para educar o eleitorado, não para idiotizá-lo ainda mais.

2. Sou contrário aos reducionismos políticos
O que leva um político a responsabilizar a falta de ação do Estado, a ausência de “vontade política” ou o descaso dos antecessores pela existência de um problema qualquer em determinada área? Provavelmente essa mesma atitude que estava presente no comportamento indicado no item anterior: a tendência ao simplismo, que caminha de mão dada com o reducionismo, ou seja, a atribuição de um problema qualquer a uma causa única, geralmente equivocada, mas que passa a servir de motivo presumido para a falência em questão.
O desemprego, por exemplo, já mencionado acima, costuma ser atribuído à ausência de investimentos. O que faz então o político candidato? Ele promete a criação de um programa qualquer, no âmbito do ministério setorial, para “estimular” a criação de empregos, com algum anúncio de apelo popular. Tal foi o caso, por exemplo, do programa “Primeiro Emprego”, lançado pelo governo Lula desde o primeiro ano de seu governo: definhou até que ninguém mais mencionasse sequer a sua existência. Por que falham esses programas voluntaristas? Porque justamente tendem a atribuir a uma causa simples a inexistência de empregos, deixando de focar no conjunto de condições do mercado de trabalho que simplesmente desestimulam os empresários a empregar mais jovens: ausência de educação profissional e capacitação técnica, excesso de tributação e de regulamentação sobre o mercado de trabalho, rigidez das normas trabalhistas e tendência da “justiça trabalhista” – uma excrescência brasileira que nem deveria existir – a sempre dar ganho de causa ao trabalhador, penalizando a cada vez o empregador.
Não me lembro de ter ouvido qualquer candidato, em qualquer época, discutir esse conjunto de problemas que afeta milhões de brasileiros e impede o crescimento do emprego e, portanto, da renda. O mesmo tipo de reducionismo figura em várias outras questões da mesma espécie: candidatos preferem encontrar uma causa simples, geralmente equivocada, em lugar de se munir de análises técnicas isentas, e baseadas em dados fiáveis, para expor o problema em toda a sua complexidade.

3. Sou contra populismos e demagogias
“Soluções” de grande apelo popular são comuns em épocas eleitorais, geralmente com a transferência dos custos para o conjunto da sociedade, mais diretamente contra os empresários. Um exemplo típico, aliás, já em curso de utilização no Brasil, é essa tendência de prometer algum benefício social para categorias específicas, jovens ou velhos, por exemplo. A multiplicação dos benefícios para idosos – como passagem reduzida nos ônibus interurbanos ou gratuita em ônibus urbanos – ou para estudantes – com a disseminação de meias entradas, inclusive para professores, nos ingressos de espetáculos – apenas transfere para o conjunto da sociedade os custos de uma medida demagógica que os políticos querem empurrar para os empresários e os trabalhadores, de modo geral.
No mesmo sentido vai a redução da jornada de trabalho sem redução de salário, o aumento da licença-maternidade para trabalhadoras grávidas, ou a promessa de transporte gratuito para mulheres no transporte coletivo: o único resultado só pode ser a diminuição da empregabilidade para o conjunto de trabalhadores, em especial para as mulheres em idade reprodutiva. Ocorre, também, o aumento preventivo – e a corrupção, como é previsível – no sistema de transporte coletivo em zonas urbanas, o qual, aliás, já funciona em condições inaceitáveis de cartelização e de deformação dos regimes de concorrência e de concessão (o mesmo parece acontecer no caso da coleta de lixo).
Os maiores abusos dos candidatos se prendem geralmente a promessas de aumento do salário mínimo, de construção de escolas e hospitais, de ampliação dos serviços públicos e compromissos do mesmo gênero. Não existe, obviamente, qualquer correspondência dessas promessas com a existência de estudos técnicos vinculados aos anúncios efetuados, em típicas atitudes de palanque.

4. Sou contra os exercícios de mistificação política
A mistificação política, muito associada à mentira, ocorre quando o candidato deforma as políticas dos adversários, se atribui feitos que não lhe são de direito (ou seja, se torna um usurpador), se arvora em criador de todas as coisas e patrono de todas as bondades a serem promovidas pelo Estado (ou seja, com o dinheiro de todos nós). Mistificação política ocorre quando o candidato divide a sociedade em “membros da elite”, de um lado – à qual ele diz, obviamente, que não pertence, mesmo sendo manifestamente parte da tropa, qualquer que seja o seu nível de renda – e, de outro, essa categoria mítica que se chama “povo”, que são todos os que votam, de preferência em favor do candidato. Mistificação existe sempre e quando o candidato pretende encarnar todas as virtudes e seus opositores possuiriam todos os defeitos. Mais ainda: apenas ele e suas políticas têm o poder de satisfazer os desejos e as necessidades do “povo”, sendo que os adversários – ou “inimigos” políticos, como esse tipo de personagem vê seus concorrentes eleitorais – trabalhariam em favor das “elites”. O bom mistificador vem de uma longa carreira de enganação, inclusive no sentido de se iludir a si mesmo e seus companheiros de luta política, tendo construído uma carreira quase toda na base da embromação e da enganação. Ele começa por apropriar-se de tudo o que lhe parece conveniente, mesmo de propostas e realizações de seus adversários, aos quais e às quais antes criticava e se opunha, mas que se apressa em adotar na nova conjuntura, por puro oportunismo político.

5. Sou contra os imitadores e falsificadores de todo tipo
Imitar é um recurso de quem se inicia numa nova atividade, sendo muito comum nos processos de industrialização e de modernização tecnológica. Ou seja, está muito afeto ao mundo empresarial, à concorrência entre ofertantes de produtos no mercado. Pode ser que o jogo político também seja regido pelas leis da oferta e da procura, onde tem sucesso quem consegue entregar aos “clientes”, ou eleitores, aquilo que eles demandam como “bens ou serviços”: obras, segurança, empregos, maior renda, perspectivas de um futuro melhor, etc. De fato, o jogo eleitoral se dá geralmente numa arena aberta, com poucas barreiras à entrada, embora algumas sejam necessárias, como a lei da “ficha limpa”, por exemplo, que equivaleria a cassar o registro da empresa que frauda sobre a sanidade dos produtos ofertados ou pratica mentira deliberada sobre suas qualidades intrínsecas.
No jogo político, como na vida empresarial, é inevitável alguma imitação do que faz sucesso, embora eu seja contrário a esse tipo de apropriação indébita. Ruim mesmo é a falsificação de qualidades que pertencem manifestamente a outrem em benefício próprio, o que se aproximaria de roubo consciente. Pior ainda quando o candidato se utiliza do legítimo sucesso conquistado em outra esfera da vida pública – um radialista muito escutado, por exemplo, um artista muito admirado de novelas ou do cinema, um cantor campeão de vendas – para tentar vender a imagem de que também seria estupendo no parlamento ou em algum cargo executivo. É muito frequente a imprensa consultar um prêmio Nobel qualquer – geralmente das ciências ou da literatura – para saber sua opinião sobre um aspecto qualquer da vida política ou social: o resultado costuma ser um completo desastre, com raras exceções. Se até prêmios Nobel em economia costumam abusar de sua condição para oferecer “soluções” arrevesadas aos problemas econômicos de um país distante ou para dar a sua “receita” para “acabar com a crise”, por que personalidades públicas de outras esferas que não a política não poderiam tentar sua sorte nessa arriscadíssima profissão? O resultado costuma ser medíocre, o que justifica minha oposição a esses imitadores e falsificadores de uma nova espécie. Mas atenção: eles também existem, e em abundancia, no próprio meio que lhes é costumeiro, dai meu alerta para se ficar vigilante.

6. Sou contra a lei dos benefícios imediatos, sem pesar os custos no futuro
Um dos efeitos mais tenebrosos da atividade política está justamente no conceito central desta frase: as consequências que essa atividade provoca como resultado de ações pensadas no plano imediato, tendentes a produzir resultados eleitorais em dois ou três anos apenas. Candidatos sempre prometem mais do que podem cumprir, mas algo da plataforma eleitoral eles têm de atender, sob risco de descrédito nas próximas eleições: geralmente são obras vistosas, aumento de salário mínimo ou de pensões e aposentadorias, construção disso e mais aquilo, enfim, tudo o que for mais visível e propriamente físico, como são costumeiramente as obras de infraestrutura.
O problema desse tipo de imediatismo eleitoral e político é duplo: por um lado ele compromete o equilíbrio das contas públicas, caso a soma das promessas seja superior às disponibilidades orçamentárias (e ela sempre é, por definição); por outro, ele atua sobre o visível e imediato, justamente, em detrimento do que é menos vistoso ou de longo prazo. Exemplificando o segundo aspecto: não existe dúvida de que políticos oportunistas adoram inaugurar obras – em alguns casos exagerados, se “inaugura” até pedra fundamental ou anúncio de um novo programa – deixando de lado obras menos visíveis como saneamento básico ou a melhoria da qualidade da educação, que é uma tarefa de longo prazo e notoriamente difícil de ser realizada (por envolver categorias corporativas como podem ser os sindicatos de professores, sempre atentos ao nível de seus salários nominais, mas bem menos em relação à qualificação de seus associados, ou à sua produtividade).
No primeiro aspecto, também é notório o crescimento da dívida pública e da carga tributária, sem falar dos juros nominais, elementos vinculados entre si, quando não provocadores de uma quarta consequência que é a erosão do poder de compra da moeda, caso o governo decida incorrer no pecado emissionista. Exemplificando com o caso brasileiro, a carga tributária vem aumentando continuamente, desde a promulgação da Constituição de 1988 – pela esquizofrenia garantista de direitos que perpassam quase todos os seus artigos -- e de forma consistente desde 2003, em termos reais, ou seja, acima da inflação e acima do crescimento do PIB, e isso independentemente dos níveis de déficit fiscal (primário ou nominal, isto é, final) e do tamanho da dívida interna. Não se pode dizer, por outro lado, que os juros brasileiros, sendo em média o dobro ou o triplo dos níveis mundiais, tenham sido reduzidos significativamente, devendo ocorrer justamente o contrário, a partir da elevação da dívida bruta total. Estas são as “heranças malditas” a serem deixadas ao próximo governo, qualquer que seja ele.

7. Sou contra a embromação, a mentira, a propaganda enganosa
Toda propaganda é, por definição, enganosa, destacando as qualidades de um produto qualquer, escondendo aspectos eventualmente menos interessantes. Governos não deveriam fazer propaganda, apenas prover informações; e mesmo assim não por meios próprios e, sim, utilizando-se dos canais habituais do mercado. Em épocas eleitorais, a propaganda fica ainda mais enganosa, chegando ao nível da desfaçatez. Governos desprovidos de valores democráticos consistentes abusam da sua capacidade financeira em encomendar e fazer suas própria propaganda, tanto quanto candidatos sustentados por fortes interesses econômicos. Exageros são esperados em campanhas eleitorais, até as mentiras habituais. Mas existem, obviamente, diferenças de grau.
A combinação de candidaturas oficiais com governos sem princípios oferece a oportunidade para a exacerbação da propaganda maciça, feita de recursos públicos, com a utilização descarada da máquina pública para a consecução do objetivo principal. Uma legislação eleitoral mais consistente e a circunstância de juízes eleitorais atentos poderiam representar algum constrangimento; mas, como sempre, a justiça eleitoral é tarda e falha: ela não age por motivação própria, apenas quando provocada. Na ausência, portanto, de fortes contrapesos institucionais ou de freios morais – o que, contudo, pode ser raro em personalidades megalomaníacas  –, todas as características indicadas no título desta seção podem ser levadas ao seu ponto máximo de abuso continuado. A rigor, elas poderiam ser hipóteses meramente plausíveis da presente conjuntura política; inexistindo, porém, os contrapesos institucionais, elas se tornam não apenas possíveis, como inevitáveis.

8. Sou contra paternalismos e pretensas familiaridades
Sistemas políticos pouco evoluídos podem apresentar essa característica de suposta familiaridade entre os candidatos e seus eleitores, com mensagens de cunho pessoal sendo veiculadas pelos candidatos e líderes políticos. Nessa visão, os eleitores são tratados, não como cidadãos dotados de direitos e deveres correspondentes aos dispositivos constitucionais, mas como seres dependentes de favores públicos, num esquema primitivo de vínculos afetivos que mascara o sentido republicano do relacionamento político. Numa versão exagerada dessas falsas intimidades, o candidato diz pretender ser um “pai”, ou uma “mãe” para todos os “filhos” do país, e tratá-los com todo o “carinho” que um pai ou uma mãe dispensaria aos seus próprios filhos. Trata-se, obviamente, da mais pura hipocrisia política, ou então reflexo, mais uma vez, de personalidades megalomaníacas, que pretendem ser donos dos desejos e vontades dos cidadãos e eleitores do país. O que se espera de um candidato não são gestos hipócritas de quem pretende afagar a cabeça de eleitores ingênuos, com palavras mentirosas denotando essa falsa aproximação e intimidade, mas a exposição clara de quais são suas propostas de governo e como pretende implementá-las. Adotar a atitude paternalística significa infantilizar todo um povo.

9. Sou contra políticos de duas faces e que praticam ambiguidades
Atitudes muito comuns, também, em candidatos camaleões: como o eleitorado de uma sociedade complexa, multicultural e religiosamente diversa, é feito de diferentes estratos sociais, com comportamentos opostos e até conflitantes, candidatos “espertos” pretendem ficar bem com todas essas correntes de opinião, adotando a atitude que mais lhes convém para ser aceito por um grupo específico de opinião. Não é raro um candidato ateu, ou simplesmente descrente, fazer profissão de fé e até cortejar adeptos de uma dada religião que, por acaso, possui certa expressão política no parlamento; as bancadas “confessionais”, aliás, apresentam tendência à expansão no cenário político, como a própria “indústria religiosa” que lhes serve de motor e de alavanca eleitoral. A mesma hipocrisia se revela, com os tons da ambiguidade, em relação a assuntos controversos como podem ser o aborto ou o casamento gay.
Mesmo em assuntos estritamente políticos, candidatos camaleões pretendem conservar apoios regionais ou setoriais, mantendo um discurso para cada público, ou fingindo “raízes” ou “influências” sabe se lá de que vertente cultural popular ou regional, ou desta ou daquela categoria profissional. Muitas vezes, essas tentativas são apenas patéticas, mas também podem se aproximar do ridículo, quando não da desonestidade política, pura e simples. Em outras ocasiões, a dupla face tem uma dimensão diacrônica, que é representada por alianças correntes que eram consideradas impróprias ou imorais, em épocas anteriores; ou então pela defesa atual de posições que o candidato atacou ou abominou no passado, ou vice-versa, não importa: não existe a mínima preocupação em se explicar ou se escusar, basta seguir em frente.

10. Sou contra a utilização de símbolos populares para fins de exploração política, inclusive a religião, supostos artistas populares, figuras do passado, etc.
Pode ser apenas oportunismo político, esperteza conveniente, ou ainda cálculo utilitário, mas é muito frequente essa “promiscuidade” com figuras, símbolos, imagens dotados de certo apelo popular, não importando muito a trajetória anterior do candidato. Procissões, dias consagrados, templos e memoriais, falsas amizades, tudo serve para tentar contabilizar mais alguns votos a favor. Ar compungido, sorriso amarelo, falso interesse naquele “milagreiro” criado pelas crendices locais, todos os trejeitos são esperados do candidato convertido oportunamente ao primitivismo das tradições populares para fins imediatistas. Muitas vezes é preciso deixar o cérebro descansando enquanto se frequenta o novo (e desconhecido) ambiente, já que dificilmente o candidato possui a familiaridade com o tal “ícone popular” que sua propaganda mentirosa diz que ele tem.

Voilà, já alinhei as minhas rejeições ou objeções de natureza política (na verdade, bem mais de ordem moral) quanto aos perfis ou condutas que possam ser adotados pelos candidatos, e que me fazem rejeitá-los por princípio. Não preciso, portanto, declarar minhas preferências eleitorais. Qualquer cidadão medianamente educado politicamente pode fazer suas escolhas em total autonomia de pensamento.

Paulo Roberto de Almeida
Hartford, 9/08/2014

Empresarios mandam "recado" ao governo, em nome do "povo" - Comentario PRA

Não, ainda não é a Fronda Empresarial que eu venho propondo. Se trata de um simples "recado" ao governo, supostamente em nome do povo, o que é duvidoso.
As reivindicações são puramente empresariais, o que faz supor que se o governo atender às reivindicações desse "povo", eles ficarão contentes e deixarão de falar em nome do "povo".
A carta é parcial, mal escrita, enganosa, deformada, carente de sentido e apenas reclamatória.
Lamento constatar que nossos empresários também são medíocres e pouco preparados para liderar uma mudança real nos destinos do país.
Falta substância analítica, falta consistência prescritiva, falta coerência nas propostas, falta unidade de conjunto, falta sequência lógica, ou seja, esse manifesto, chamado de Carta, não tem nenhuma solidez intelectual.
Mas já é um começo.
Seria melhor se esses mesmos líderes empresariais não alimentassem a fantasia trilionária de Brasília, deixando de dar dinheiro a partidos e políticos que manifestamente estão atuando contra a nação, em seu próprio benefício.
Sou muito crítico, e provavelmente muito cáustico, como visto acima. Tenho razões para isso. Voltarei ao assunto.
Paulo Roberto de Almeida 

Carta do Povo Brasileiro
Durante um evento promovido pelo Movimento Brasil Eficiente (MBE) em parceria com o LIDE, na última terça feira, empresários apresentaram uma carta dirigida ao governo brasileiro pedindo mudanças na gestão do país. O documento, elaborado com base em uma pesquisa nacional encomendada pelo MBE ao Instituto Datafolha, em fevereiro, foi lido pelo economista Paulo Rabello de Castro em seu discurso de encerramento. A ocasião debateu o tema "Simplificação Tributária e Gestão Pública Eficiente" e contou com a presença de representantes dos candidatos a presidência Aécio Neves e Eduardo Campos. Dilma Roussef não mandou representante .

O MBE divulgou a seguinte nota:
Carta do Povo Brasileiro
Brasil, agosto de 2014
Sr.(a) Governante:
Quem aqui se manifesta é o coletivo que chamamos de Brasil. Nossa voz aprendeu a reconhecer, a respeitar e a defender a terra onde escrevemos nossa história e a transmitimos à geração seguinte. Esse é o Brasil que fala agora ao Governante. 
Dessa vez é o povo que manda o recado. Um recado mais do que necessário, porque o velho monólogo dos marqueteiros do governo, soprando crenças no ouvido do povo, não funciona mais. O povo que lê e escreve nas redes sociais não precisa de intérpretes de pensamento. O governante que queremos é aquele que vai governar com o povo. O governante moderno aprende porque escuta, em seguida planeja suas ações e as executa como combinado. Governo sem plano é desgoverno.
Chegamos ao ponto-limite. Brasília virou uma fantasia bilionária, de fato trilionária, cercada de desperdícios e ineficiências. O poder que manipula trilhões de reais nos orçamentos públicos ainda tem a petulância de afirmar ao povo que “faltam recursos”. Não! Recursos abundam. Fizemos, nas ruas, essa denúncia, em junho de 2013. O recado deveria ter sido suficiente, mas caiu no vazio. 
Nesta Carta, retomamos a luta de Tiradentes, nosso maior manifestante civil: não aceitamos mais carregar no lombo um governo que aplica uma tributação impiedosa sobre o bolso do contribuinte indefeso. O empresário, que poderia estar gerando empregos, virou um proletário do governo. Este está sempre cobrando sua fatia na frente; não espera nem o lucro acontecer. E o povo continua carregando uma das cargas tributárias mais onerosas do planeta: trabalha até a metade do ano só para sustentar o governo e os governantes.
O povo brasileiro quer treinamento e trabalho. Quer aposentadorias e pensões compatíveis com os aportes que faz ao longo da vida. O povo brasileiro não precisa de salvadores; precisa mesmo é de gestão séria e confiável, rotativa e verificável, em todos os níveis de governo. 
Chega de burocracia e de roubar descaradamente o tempo e a saúde do povo nas filas do atendimento médico e nas paradas de ônibus; ou queimar o futuro dos jovens com classes sem bons professores, com a falta de um computador por aluno. Esta Carta marca um ponto de virada. O povo brasileiro só precisa de condições e ambiente adequado para trabalhar, para empreender seus negócios, para desenvolver sua pesquisa, se educar e cuidar do ambiente.
Perdas são pedagógicas. Perdemos, um dia, a democracia, para aprendermos a não perdê-la nunca mais; com a inflação, perdemos o sentido e o valor do dinheiro para, hoje, darmos todo o valor à moeda estável. Temos perdido tempo e energia demais com governos que governam mal e nos custam cada vez mais caro. Nossa paciência não tem o tamanho da vida inteira. O povo brasileiro exige ser senhor do seu tempo. 
Para o Brasil se projetar como líder em sua região e como um exemplo de nação próspera, moderna e justa, perante o mundo.
Queremos de volta a ordem no governo, para termos de volta o progresso, que perdemos.

O "Nobel" da matematica e a Guerra Fria - Michael J. Barany

SundayReview

How Math Got Its ‘Nobel’

Michael J. Barany
The New York Times, August 10, 2014

ON Wednesday in Seoul, the International Congress of Mathematicians will announce the winners of the Fields Medal. First awarded in Oslo in 1936, the medal is given every four years to two to four mathematicians. It is considered the “Nobel Prize” of mathematics (even the organizers of the congress call it that), filling a gap left by Alfred Nobel, who did not include mathematics among the prizes endowed on his death in 1896.
Many mathematicians will tell you that Nobel omitted mathematics from his prizes to spite the Swedish mathematician Gosta Mittag-Leffler, a rival, and that the Canadian mathematician John Charles Fields created the award that bears his name to correct the omission. But this is a myth that needs debunking. First of all, there is no good evidence of a feud between Nobel and Mittag-Leffler. Nobel omitted mathematics simply because it was not as important to him as other endeavors were.
As for Fields, he proposed his award not as a substitute for the Nobel Prize but as a symbol of international unity. In the aftermath of World War I, the scientific community was fractured by national rivalries. When the International Mathematical Union was first founded, in 1920, it explicitly banned representatives of the former Central Powers. Fields so wanted “to avoid invidious comparisons” among candidates for his award that he suggested it be presented “with a view to encouraging further achievement” rather than just honoring past accomplishments. (This remark would later be used to justify the award’s age limit of 40, though Fields never intended the medal just for the young.)
For decades the Fields Medal was relatively obscure. In 1950, neither of the two recipients had heard of the award before being told that he had won it. So how did it become the Nobel Prize of mathematics? The true story helps illuminate the often neglected intersection of mathematics and politics.
On Aug. 5, 1966, The San Francisco Examiner reported that Stephen Smale, a mathematician at the University of California, Berkeley, who had been subpoenaed to appear before the House Un-American Activities Committee in connection with his anti-Vietnam War activism, had fled to Moscow. But Mr. Smale hadn’t fled. The subpoena hadn’t even reached him, for he was already in Europe. As Mr. Smale’s colleagues hurried to clarify to the press, he was on his way to attend the International Congress of Mathematicians, in Moscow, where he was to receive the Fields Medal on the day he was meant to testify.
Some saw Mr. Smale’s award as evidence of Communist affinities. “U.S. Math Teacher Wins Soviet Award” announced The Gettysburg Times. But The San Francisco Chronicle and The New York Times saw things differently. They credited Mr. Smale’s colleagues’ account, quoted in The Associated Press, that he was abroad to accept “mathematics’ closest award to the Nobel Prize” — an exaggeration that, by enhancing Mr. Smale’s stature, helped insulate him from criticism. The scandal faded.
The following year, Mr. Smale returned to the headlines. It appeared that his funding from the National Science Foundation had been blocked by parties unhappy with his antiwar activism. But once again, the claim that Mr. Smale held the equivalent of a Nobel Prize helped to protect his cause, and he retained his funding. The close association between the Fields Medal and the Nobel Prize, an artifact of Cold War politics, would persist to this day.
Because mathematics seems remote from “real world” concerns, people tend to overlook how intertwined mathematics and politics can be. In Mr. Smale’s case, his mathematical work was not directly tied to his political activities (though his renown as a mathematician created opportunities for his political engagement). But mathematics itself can be political, too. After World War II, the United States military funded elite mathematical research in areas ranging from topology and differential equations to operations research and game theory.
Mathematicians have been some of the military-industrial complex’s biggest beneficiaries, but also some of its fiercest critics. Today, in the wake of the controversy about the National Security Agency’s surveillance, mathematicians are debating how they should relate to the agency, one of their largest employers and a longtime funder of their work. The Stanford mathematician Keith Devlin expressed the frustration of many of his peers when he said recently that mathematicians “should refuse to work for the N.S.A. until they both follow the U.S. Constitution and demonstrate responsible use of mathematical tools.”
Mr. Smale is not a mathematician who merely happened to oppose the Vietnam War, just as others are not mathematicians who merely happen to work for (or oppose) the N.S.A. Mathematics is a critical part of who they are and what they do, for better and sometimes for worse.
To say mathematics is political is not to diminish it, but rather to recognize its greater meaning, promise and responsibilities.

Politica economica companheira: uma assemblagem de slogans utopicos

Talvez os professores, por serem professores, tenham lido esses livros de economistas, talvez. O mais provável é que tenham lido artigos sobre os economistas keynesianos e socialistas e ficado por aí.
Mas certos alunos, por serem mais militantes da causa do que estudantes, nunca lerem os originais, e se contentaram com o que ouviram dos professores em salas de aula.
Muitos não aprenderam nada, e preferiram continuar na militância política.
Para nossa infelicidade, foram justamente esses que não aprenderam nada, que apenas retiveram alguns slogans "de orelha", foram esses que chegaram ao poder e que começaram a fazer política econômica com base em dois ou três slogans aprendidos de orelha...
Eles fazem parte daquela tribo que eu chamo de keynesianos de botequim, talvez mais de botequim do que keynesianos...
Paulo Roberto de Almeida 

Minsky: o entusiasta do intervencionismo que tem inspirado Dilma

Teórico de pensamento heterodoxo que inspirou a escola desenvolvimentista, ele teve seu auge durante a crise de 2008; para a presidente Dilma, contudo, seu momento é agora

Ana Clara Costa
Veja, 9/08/2014
Hyman Minsky
O economista que acredita no 'socialismo de mercado' tem inspirado a presidente (Levy Economics Institute of Bard College/VEJA)

Recentemente, a coluna Radar, de VEJA, revelou que o economista americano Hyman Minsky (1919-1996) tem rondado o pensamento da presidente Dilma Rousseff. Segundo a nota, ela “tem usado muito a expressão ‘isso é Minsky’ sempre que faz um diagnóstico econômico ou justifica determinada ação do governo na economia”. É bom saber o que vai pela cabeça de quem manda. Mas esse conhecimento pode ser um pouco assustador – como por certo é o caso na ligação entre Dilma e esse adepto inveterado do intervencionismo estatal.
Durante a vida, Minsky, que foi orientando de Joseph Schumpeter em Harvard, desfrutou de uma fama não mais do que moderada. Com a crise de 2008, ele foi subitamente incensado, por causa de escritos que pareciam proféticos em relação ao que estava acontecendo. Minsky formulou uma certa Hipótese da Instabilidade Financeira, que assevera que a dinâmica interna do capitalismo contemporâneo, no qual o sistema financeiro desempenha um papel preponderante, implica necessariamente a alternância entre turbulência e tranquilidade. Períodos prósperos trariam as sementes de seu próprio desmonte por tornar irresponsáveis tanto aqueles que emprestam quanto aqueles que tomam dinheiro emprestado. Necessário para o vigor do capitalismo, o sistema financeiro tenderia por natureza ao excesso. Com o tempo, haveria o surgimento de uma bolha especulativa, uma acumulação desgovernada de dívidas sem lastro – até o momento em que a fragilidade de todo o edifício seria notada. Aí ocorreria uma reversão brusca do ciclo econômico, aquilo que acabou sendo batizado como “momento Minsky”.
Uma vez iniciado um cataclisma desse tipo, Minsky prescrevia a adoção de remédios como estímulos fiscais e intervenções do Banco Central como “emprestador de última instância”, que dessem algum alento à economia. Insistia também na necessidade de regulamentação dos mercados financeiros. No pós-crise, seu receituário foi debatido nas páginas do Wall Street Journal e da Economist, bem como em relatórios do banco central americano, o Federal Reserve – um deles assinado por Janet Yellen, atual presidente da instituição.
Mas, perguntava Minsky, como evitar que tudo recomece? Como atacar a suposta doença central do capitalismo, o fato de que nele a estabilidade é iminentemente desestabilizadora? Como diz o título de um de seus últimos textos, o economista tinha “um programa positivo para um capitalismo bem sucedido”. Que consistia, basicamente, em transformá-lo em uma forma de socialismo.
Minsky afirmou certa vez que o pensamento teórico deveria ser guiado por uma visão, por um “mapa da Utopia”. Ele nunca fez segredo de aonde o seu mapa levava. Seus pais haviam se conhecido durante a celebração dos 100 anos de nascimento de Karl Marx, numa festa organizada pelo Partido Socialista de Chicago. Ele mesmo se engajou muito cedo. E foi num seminário organizado pelo partido, em 1939, que ele decidiu mudar o rumo de seus estudos universitários da matemática para a economia. O palestrante era o polonês Oscar Lange, que preconizava, justamente, a criação de uma espécie de socialismo de mercado em que houvesse controle social e planificação do investimento, mas não da produção de bens.
Em 1985, Minsky redigiu um ensaio autobiográfico no qual apontou Lange como a maior influência no seu início de carreira, acrescentando que seu programa de pesquisa, apesar de tanto tempo decorrido, ainda se mantinha coerente com as ideias do velho mestre. Ou seja, o mapa da utopia estava traçado desde sempre – ele apenas havia tornado os seus contornos mais nítidos, recorrendo, sobretudo, às obras do inglês John Maynard Keynes, sobre quem escreveu extensivamente e em quem também se amparou para defender um projeto de sociedade em que o Estado fosse grande e “salvasse o capitalismo de suas ineficiências”, tomando em sua mão visível, e pesada, as rédeas das decisões de investimento.
Minsky reservava ainda outro papel ao Estado: o de “empregador de última instância”.  Sua tese era que o governo deveria garantir o pleno emprego, pagando salário mínimo a qualquer um que estivesse apto a trabalhar. A criação direta de postos de trabalho deveria ter precedência, nas políticas públicas, quer sobre programas de assistência social, quer sobre programas de treinamento e especialização dos trabalhadores. A estratégia deveria ignorar o grau de qualificação do desempregado. “Acolha-os do jeito que forem, e adeque os postos às suas capacidades”, dizia Minsky. Essa é sua proposta mais extravagante, e até os entusiastas hesitam em levá-la a sério. A primeira coletânea de seus escritos sobre emprego foi lançada apenas no ano passado.
Como todo socialista, Minsky afirmava que suas preocupações eram a eficiência econômica, a justiça social e a liberdade individual. Há quem diga isso sem acreditar por um segundo nas próprias palavras. Minsky aparentemente pertencia ao grupo mais honesto, mas não menos perigoso, daqueles idealistas que acreditam que a equação socialista pode realmente ser benigna. “O que importa não é se a propriedade é privada, mas que a sociedade seja democrática e humana”, escreveu. Ele assistiu à derrocada da União Soviética e analisou o fenômeno, mas nem por isso perdeu a fé. Em boa parte, porque seus escritos nunca descem do plano da abstração econômica para estudar como, na prática política, a centralização de poder num Estado hiperdimensionado e dotado de poderes de planificação corrói o processo democrático.
No Brasil, o principal reduto de estudiosos de Minsky é a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde a presidente Dilma fez seus estudos em Ciências Econômicas. Ele se faz presente, em especial, na área de Pós-Graduação em Economia Política, de onde saíram muitos dos economistas da linha desenvolvimentista filiados ao PT — e onde lecionou Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Coutinho é grande conhecedor da obra de Minsky no país, classificando-a como “genial” em artigos redigidos quando era professor universitário. Dilma foi sua aluna na pós-graduação e herdou dele a admiração pelo americano. Outro economista oriundo da Unicamp que lecionou sobre o autor a uma classe que tinha entre seus alunos a presidente foi Otaviano Canuto, atual consultor para os assuntos dos Brics no Banco Mundial. Ele era diretor do Instituto de Economia e professor da universidade quando Dilma cursou suas quatro disciplinas de doutorado, entre 1992 e 1994. Mas ele não acredita que o interesse da presidente por Minsky tenha surgido em suas aulas. "Dilma teve aulas sobre Minsky com Coutinho, Luiz Gonzaga Belluzzo e Gilberto Tadeu Lima. Quando lecionei macroeconomia para ela, já vinha formada", afirma.
Outros economistas que orbitam em torno do PT, além da turma da Unicamp, leem com admiração as obras de Minsky. Há Márcio Pochmann, por exemplo, ex-presidente do Ipea e atual chefe da Fundação Perseu Abramo, que tem a função de subsidiar governos petistas com propostas de cunho econômico-social. Ou Nelson Barbosa, ex-secretário Executivo do Ministério da Fazenda e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Mas o que de Minsky, afinal de contas, tem sido posto em prática no governo Dilma Rousseff? “Nada”, diz Luiz Fernando de Paula, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e fundador da Associação Keynesiana no Brasil. “Não há sinais de sua obra na política econômica conduzida pela presidente”. Ao que tudo indica, é charmoso citar Minsky em certos círculos – talvez por causa do seu “mapa da utopia”. E só. A notícia é tranquilizadora. Só não é melhor porque até algumas ideias do autor seriam um avanço em relação à política econômica atual. No seu entusiasmo pelo big government, por exemplo, o economista tinha lá suas preferências. Para ele, governos que gastam dinheiro em infraestrutura e formação de capital são muito melhores do que aqueles que gastam apenas para incentivar o consumo, como tem feito Dilma com suas políticas. Pois é. Isso não é Minsky. 

Google Scholar: citacoes de trabalhos PRAlmeida

O Google Scholar mantém um sistema de identificação de trabalhos publicados e citados por terceiros. Como eu não sou muito conectado em redes sociais, bases de dados, ou quaisquer outras coisas que me tirem da leitura e da redação de textos, não havia, até aqui, prestado atenção nessa possibilidade, o que fiz agora, separando os artigos de homônimos que não me pertencem..
Aqui abaixo figuram os primeiros mais citados, mas tem muitos outros, que podem ser conferidos no seguinte link: http://scholar.google.com/citations?hl=en&user=OhRky2MAAAAJ
Segundo informa o mesmo site, até esta data eu tive 725 citações, sendo 408 desde 2009, mas não sei colocar isso no contexto.
Espero aprender mais nos próximos meses.
Paulo Roberto de Almeida

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Title / AuthorCited byYear
Uma política externa engajada: a diplomacia do governo Lula
PR Almeida
Revista Brasileira de Política Internacional 47 (1), 162-184
124
2004
Mercosul: fundamentos e perspectivas
PR Almeida
São Paulo: LTr 2
118
1998
Uma nova'arquitetura'diplomática?-Interpretações divergentes sobre a política externa do governo Lula (2003-2006)
PR Almeida
Revista brasileira de política internacional 49 (1), 95-116
37
2006
A política internacional do Partido dos Trabalhadores: da fundação à diplomacia do governo Lula
PR Almeida
Revista de Sociologia e Política 20, 87-102
31
2003
A diplomacia do governo Lula em seu primeiro mandato: um balanço e algumas perspectivas
PR Almeida
Carta Internacional 2 (01), 03-10
17
2007
A dimensão social nos processos de integração
PR Almeida
Mercosul, Nafta e Alca: a dimensão social. São Paulo: LTr
16
1999
Brasil y el futuro del Mercosur: dilemas y opciones
PRDE Almeida
Integración & Comercio 2 (6)
16
1998
O lugar da América do Sul na nova ordem mundial/.
MC Lima, PR Almeida
Encontro Internacional" América do Sul 2005: Desafios e Perspectivas".(2000 ...
15
2005
O Brasil eo Mercosul em face do Nafta
PR Almeida
Política externa 3 (1)
15
1994
Relações internacionais
PR Almeida
O que ler na Ciência Social Brasileira (1970-1995): Ciência Política 3, 191-255
14
1999
Estudos de Relações Internacionais do Brasil: etapas da produção historiográfica brasileira, 1927-1992
PR Almeida
Revista Brasileira de Política Internacional 36 (1), 11-36
14
1993
O Brasil como ator Regional e como Emergente Global
PR Almeida
Periódico Cenário Internacional, 14-12
12
2007
Os primeiros anos do século XXI
PR ALMEIDA
São Paulo: Paz e Terra
12
2002
As duas últimas décadas do século XX: fim do socialismo e retomada da globalização
PR Almeida
Relações internacionais: dois séculos de história: entre a ordem bipolar eo ...
12
2001
Never before seen in Brazil: Luis Inácio Lula da Silva's grand diplomacy
PR Almeida
Revista brasileira de política internacional 53 (2), 160-177
11
2010
Mercosul: textos básicos
PR Almeida
Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão
11
1992
A estrutura constitucional das relações internacionais eo sistema político brasileiro
PR Almeida
Contexto Internacional
11
1990
As relações internacionais na ordem constitucional
PR Almeida
Revista de Informação Legislativa, Brasília
10
1989
O Brasil ea nanotecnologia: rumo à quarta revolução industrial
PR ALMEIDA
Revista Espaço Acadêmico
9
2005
O nascimento do pensamento econômico brasileiro
PR ALMEIDA
Correio Braziliense ou Armazém Literário 30, 323-369

Google Scholar Citations

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9
2001





Corrupcao companheira: grossa, mas nao vimos nem um terco da roubalheira

O TCU, nosso augusto órgão de controle dos gastos público, só consegue, no máximo, auditar 5% de todas as operações com dinheiro do Estado (ou seja, nosso). Ainda assim ele detecta irregularidades em pelo menos 25% dos casos, talvez mais. Não importa, mesmo esse mínimo de apurações por parte do seu corpo de funcionários competentes, é depois sabotado pelos conselheiros políticos, que em alguns casos deveriam ser chamados de cúmplices.
Isso me autoriza a supor que menos de um quarto das patifarias companheiras chega ao nosso conhecimento. Ou seja, se procurar, vai ter mais. Nunca antes...
Paulo Roberto de Almeida 
A revista VEJA desta semana traz uma reportagem com Meire Bonfim Poza. Eis a capa.
capa da veja
Quem é ela? Meire era a contadora do doleiro Alberto Yousseff. Meire viu, ouviu e participou de algumas das maiores operações do grupo acusado de lavar R$ 10 bilhões de dinheiro desviado de obras públicas e destinado a enriquecer políticos corruptos e a corromper outros com pagamento de subornos. Qual era a fonte privilegiada da mamata? Prefeitura do PT.
Meire Poza viu malas de dinheiro saindo da sede de grandes empreiteiras, sendo embarcadas em aviões e entregues nas mãos de políticos. Durante dois anos, Meire manuseou notas fiscais frias, assinou contratos de serviços inexistentes, montou empresas de fachada, organizou planilhas de pagamento. Ela deu ares de legalidade a um dos esquemas de corrupção mais grandiosos desde o mensalão.
Meire sabe quem pagou, quem recebeu, quem é corrupto, quem é corruptor. Conheceu de perto as engrenagens que faziam girar a máquina que eterniza a mais perversa das más práticas da política brasileira. Meire Poza era a contadora do doleiro Alberto Youssef — e ela decidiu revelar tudo que viu, ouviu e fez nos dois anos em que trabalhou para o doleiro.
“O Beto era um banco de dinheiro ruim. As empreiteiras acertavam com os políticos, e o Beto entrava para fazer o trabalho sujo. Ele passava o tempo todo levando e trazendo dinheiro, sacando e depositando. Tinha a rede de empresas de fachada para conseguir notas e contratos forjados”, diz. Um dos botes mais ousados de Youssef, segundo ela, tinha como alvo prefeituras comandadas pelo PT.
O doleiro pagava propina de 10% para cada prefeito que topasse apostar em um fundo de investimento criado por ele. “E era sempre nas prefeituras do PT. Ele falava: ‘Onde tiver PT, a gente consegue colocar o fundo’”. André Vargas era um parceiro fiel. O deputado estava empenhado em fazer com que dois fundos de pensão de estatais, o Postalis (dos Correios) e a Funcef (da Caixa Econômica Federal), injetassem R$ 50 milhões em um dos projetos do doleiro.
Leiam a reportagem. É de estarrecer. As empreiteiras que fizeram contratos com a Petrobras não se saem bem na história. É um esquema de corrupção que rivaliza com o do mensalão e que, muito provavelmente, o supera no valor movimentado. Vejam qual é o “modus operandi” deles.

Eleicoes 2014: programa eleitoral do PT

Documento do PT destaca crescimento, consumo e infraestrutura como prioridades

Andi, 25/07/2014
A presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição em 2014, divulgou esta semana o que chama de “linhas gerais do Programa de Governo” para o debate com a sociedade. Segundo o documento, disponível no site do Tribunal Superior Eleitoral, esse trabalho será aprofundado por meio de grupos temáticos. O documento se dedica a destacar o que os autores entendem como conquistas e avanços das três administrações da coalizão liderada pelo Partido dos Trabalhadores à frente da Presidência da República.  
O crescimento econômico e as “conquistas sociais” têm grande destaque no texto. Segundo o documento, um novo Governo Dilma pretende intensificar investimentos em produção e consumo de massa e em infraestrutura, entre outros itens. Esses investimentos visam obter o que o texto chama de “competitividade produtiva”.
O documento alude a um “modelo sustentável de desenvolvimento” baseado “no aumento de investimentos na economia, inflação baixa, numa radical redução da pobreza, em redistribuição de renda e fortalecimento do consumo de massa”, sem fazer qualquer alusão à conservação dos recursos naturais como premissa desse modelo. A construção de uma “sociedade de consumo de massas” é repetida várias vezes como um objetivo político do PT.

Agronegócio e infraestrutura
O aumento da produção de grãos, um dos históricos vetores do desmatamento na Amazônia, é destacado como consequência das políticas de governo. Segundo o documento, esse aumento na produção do setor foi possível graças à expansão das “políticas de crédito e de apoio à produção” e será impulsionada pela conclusão “de obras estratégicas de infraestrutura”. O texto afirma que “o Brasil dos governos do PT e de seus aliados ficará marcado como o período da história recente com mais entregas de grandes obras de infraestrutura”. A retomada da construção “de grandes usinas hidrelétricas” na Amazônia, pelo Governo Lula, é um dos avanços citados.

Redução de emissões e Código Florestal
Segundo o documento, os governos do PT alcançaram “metas ousadas” nas políticas ambientais, destacando o combate ao desmatamento ilegal na Amazônia e no Cerrado, que “garantiram ao país o papel de maior redutor de emissões de gases de efeito estufa no planeta”.
Ainda no curto tópico dedicado à agenda ambiental, o texto afirma que “conseguimos aprovar, em 2013, o novo Código Florestal, que garantiu as bases mais sustentáveis para a produção agrícola e mais segurança jurídica para os produtores”, possibilitando interpretar que sua aprovação atendeu às demandas do setor rural, como argumentam entidades da comunidade ambientalista no Brasil.

Eleicoes 2014: Voto Util - Merval Pereira (O Globo)

Voto útil
Merval Pereira
O Globo, 8/08/2014

Pesquisa a pesquisa vai sendo reduzida a diferença num cada vez mais provável segundo turno entre a presidente Dilma Rousseff e os dois principais candidatos oposicionistas. Nesta rodada da pesquisa Ibope Inteligência/TV Globo, a soma de votos nos adversários já empata com a da presidente no primeiro turno, 38% a 38%. Num segundo turno, reduz-se a distância que a separa tanto de Aécio Neves, do PSDB, quanto de Eduardo Campos, do PSB.
Na disputa com Aécio Neves, a candidata-incumbente venceria hoje por uma diferença de seis pontos percentuais: 42% das intenções de voto, contra 36% do candidato tucano. Essa distância entre os dois era de nove pontos percentuais na pesquisa anterior. Na disputa simulada pelo Ibope entre Dilma e Eduardo Campos, a petista continua na frente, mantendo uma diferença de doze pontos – 44% a 32%.
Isso quer dizer que o candidato do PSDB Aécio Neves agrega 13 pontos percentuais num hipotético segundo turno, enquanto Dilma acresce à sua votação apenas mais quatro pontos. Já o candidato do PSB Eduardo Campos cresce nada menos que 23 pontos, enquanto Dilma apenas seis.
À dificuldade que os dois estão tendo, especialmente Campos, de subir no primeiro turno, opõe-se todo potencial de crescimento na eventualidade de um segundo turno, quando o eleitor terá diante de si um duelo de vida ou morte entre a presidente candidata à reeleição e um oposicionista. Nesse caso, entra em ação o voto útil.
O resultado da nova pesquisa Ibope/TV Globo mostra que a campanha petista sobre o aeroporto de Cláudio, em Minas, não afetou a competitividade do candidato tucano Aécio Neves, que cresce lentamente na margem de erro. Já a resiliência da candidatura de Dilma Rousseff fica mais uma vez demonstrada, reforçada pela sensação generalizada de que ao final ela será a vencedora.
Como a avaliação do governo não mudou, e sua rejeição continua alta, o fato de a expectativa de vitória continuar sendo a seu favor pode indicar certo desânimo do eleitorado, que ainda não enxerga nos candidatos de oposição uma alternativa real à sua ânsia de mudança, que não se alterou: 69% querem que o próximo presidente mude tudo ou quase tudo no governo.
Foi perguntado aos eleitores quem acreditam será o presidente eleito em outubro, independentemente de suas intenções de voto, e o resultado continua o mesmo: 55% acreditam que a presidente Dilma será reeleita ao fim. Outra marca que também não sofreu alteração foi a rejeição, com a presidente continuando com o maior índice, citada por 36% dos eleitores brasileiros.
A presidente também não consegue sair do inferno astral da baixa avaliação de seu governo: 35% o consideram regular, enquanto 32% o avaliam como ótimo ou bom, e 31% como ruim ou péssimo. Esse nível de aprovação coloca o governo Dilma na parte inferior de uma escala de valores que permite prever uma reeleição quando o candidato tem acima de 35% de ótimo e bom na avaliação de seu governo. Abaixo disso, como se encontra a presidente há alguns meses, a reeleição fica praticamente inviabilizada.
Como ela terá uma grande exposição na propaganda eleitoral, pode ser que consiga reverter essa impressão do eleitorado. Mas a maneira com que a presidente Dilma está governando o país é desaprovada por cerca de metade (49%) dos eleitores brasileiros, contra 47% que a aprovam. O Ibope Inteligência aponta “alterações significativas” entre alguns segmentos analisados. A intenção de votar em Aécio cresce 3 pontos percentuais entre eleitores de 35 a 44 anos, ao passo que as menções a Dilma nesse segmento decrescem 10 pontos.
O segmento em que o candidato tucano tem maior percentual de intenções de voto é no ensino superior, em que cresceu de 33% para 35%, contra uma queda de cinco pontos percentuais de Dilma, que foi a 22% no segmento. A presidente Dilma cresceu de 45% para 50% entre eleitores menos escolarizados, e de 34% para 45% entre os do Norte/Centro Oeste.
O nordeste permanece o maior reduto eleitoral governista, com Dilma sendo escolhida por 51% dos eleitores, contra 11% de Aécio e 12% de Campos. Até o momento, portanto, os adversários de Dilma não conseguiram reduzir a vantagem que ela tem no norte e nordeste, onde tirou 11 milhões de votos à frente na eleição de 2010 recebendo 55% dos votos no nordeste.

Postagem em destaque

Lançamento do livro Intelectuais na Diplomacia Brasileira: a cultura a serviço da nação, na Biblioteca Mario de Andrade

Lançamento do livro Intelectuais na Diplomacia Brasileira: a cultura a serviço da nação , na Biblioteca Mario de Andrade em SP, 12/05, 19hs,...