domingo, 7 de abril de 2024

Processos decisórios na história do Brasil: nacionais e diplomáticos - Paulo Roberto de Almeida

 Processos decisórios na história do Brasil: nacionais e diplomáticos

  

Paulo Roberto de Almeida

Diplomata, professor

(www.pralmeida.org; diplomatizzando.blogspot.com; pralmeida@me.com)

Questões relativas a processos decisórios nacionais e setoriais (diplomáticos). Para debate com alunos e pesquisadores de temas de política externa e de diplomacia brasileira.

  

Introdução: processos decisórios, por questões, atores e situações

Não existem decisões tomadas em abstrato. Elas só existem em face de um desafio concreto, apresentadas a pessoas, a empresas, a partidos, a governos, a países. Elas podem se apresentar como resultado de iniciativas próprias, e a reação que se espera a elas, ou em confronto com fatos, eventos, processos objetivos que partem de fora, e exigem uma resposta precisa do tomador de decisão, seja um indivíduo, seja um governo, seja um país.

A literatura sobre decision-making process, o processo de tomada de decisão, é enorme, e cito apenas um exemplo, um clássico dos estudos nesse terreno: o livro de Graham Allison, The Essence of Decision, sobre o momento crucial da Guerra Fria geopolítica, em 1962, quando o mundo esteve à beira de uma conflagração nuclear em outubro de 1962, na reação dos Estados Unidos contra a instalação de mísseis soviéticos em Cuba. Esse autor, da universidade de Harvard, tornou-se novamente célebre mais recentemente ao propagar a possibilidade de uma nova conflagração entre os EUA e a China, baseando-se no precedente histórico da guerra do Peloponeso, por Tucídides, no que ele chamou de “armadilha de Tucídides”, o choque entre uma potência estabelecida e uma ascendente. 

Meu capítulo sobre os processos decisórios na diplomacia brasileira, constante do livro Apogeu e Demolição da Política Externa (Appris, 2021) apresenta observações preliminares que fiz sobre a construção formal desse processo ao longo dos séculos XIX e XX no itinerário do Itamaraty e, nas duas últimas partes, minhas críticas a respeito do abandono das características altamente institucionalizadas desse processo por ocasião das diplomacias sob o lulopetismo e sob o bolsonarismo, ambas altamente personalizadas, no pior sentido da palavra possível, mas com alguma preservação de procedimentos no caso do primeiro e procedimentos absolutamente caóticos no segundo. Atualmente, voltamos a ficar com a personalização da política externa sob Lula 3, mas com plena participação do corpo profissional do Itamaraty nesse processo.

Proponho um exercício de reflexão e de retomada de análise sobre alguns dos momentos decisivos da História do Brasil, identificando episódios, atores envolvidos e os problemas da conjuntura, ou seja, o contexto da tomada de decisão. Sem elaborar a respeito, indico apenas alguns exemplos que podem permitir um aprofundamento da questão, cabendo agora aprofundar cada um dos episódios mencionados, seus atores principais e questões atinentes a cada um desses exemplos, mas divido a relação dos “grandes episódios” em duas listas, uma de questões de Estado e da nação, outra especificamente diplomática.

 

Grandes questões nacionais e seus respectivos processos decisórios

 

(A) Exemplos de decisões no caso do Brasil, em nível de governo e de nação

Episódios

Decisores

Problemas

Independência do Brasil

Príncipe regente, círculo

Reconhecimento, validade

Abolir o tráfico, 1822-23

Bonifácio; elites dirigentes

Negócio rendoso p/ muitos

Abolir a escravidão 

Governos do Império

Necessidade de mão de obra

Guerras no Prata

Governo; pressão: criadores

Equilíbrio na região

Rompimento Grã-Bretanha

Governo e imperador

Orgulho nacional: Christie

Contratação de empréstimos

Necessidades do governo

Dívida externa, investimento

Abolição da Escravidão

Gabinete do Império, Isabel

Indenização proprietários

Golpe da República

Não foi decisão planejada

Sucessão de crises militares

Ingresso na Grande Guerra

Governo; mobilização: Rui

Despreparo para a guerra

Revolução de 1930

Gaúchos, aliados, O. Aranha

Movimento Armado

Deposição Washington Luís

Exército e Marinha

Evitar a guerra civil

Revolta de S. Paulo, 1932

Elites paulistas

Quem manda no estado?

Intentona Comunista, 1935

Komintern, PCB

Equívocos em série

Golpe do Estado Novo 1937

Complô varguista

Ascensão dos fascismos

Entrada na Segunda Guerra

O. Aranha, pressão popular

Escolha de aliados externos

Derrubada de Vargas 1945

Cúpula Exército, políticos

Novo contexto internacional

Deposição, suicídio Vargas

Crise do sistema político

Disfunções internas

Renúncia Jânio; crise 1961

Embate varguistas-oposição

República Sindical

Golpe de Estado de 1964

Políticos, FFAA, Igreja

Inflação, greves, Guerra Fria

Atos institucionais, AI-5

FFAA, oposição armada

Guerrilha, ameaça ao regime

Transição negociada 1985

FFAA, oposição moderada

Transição democrática geral

Assembleia Congressual

Monopólio forças políticas 

Grande geleia política geral

Reforma da reeleição, 1997

Vaidade pessoal de FHC

Oportunismo dos políticos

Eleição: República Sindical

Mudança estratégia do PT

Crises diversas, humores

Impeachment Dilma, 2016

Partidos, classe média

Recessão, crise política

Ascensão extrema-direita

Setores militares, políticos

Descrédito sistema politico

Retorno do petismo ao poder

Fracasso da 3ª via; Lula

Ruptura institucional

 

 

Questões decisórias especificamente diplomáticas

 

(B) Exemplos de decisões na política externa, em nível de diplomacia

Episódios

Decisores

Problemas

Abolição do tráfico, 1850

Dirigentes: Paulino, Mattoso

Conflito com Grã-Bretanha

Rompimento Grã-Bretanha

Governo e imperador

Orgulho nacional: Christie

Resolução da questão Acre

Rio Branco, exclusivamente

Limites com Peru, etc.

Rearmamento naval

Rio Branco, Marinha

Conflito com a Argentina

Enfrentamento Conf. Haia

Rio Branco, Rui Barbosa

Igualdade soberana nações

Pacto ABC, tripartite

Rio Branco, Lauro Müller

Absorção de conflitos

Saída da Liga das Nações 

Arthur Bernardes, Afrânio

Despreparo diplomático

Defesa do Gatt, 1947-48

Cúpula do Itamaraty

Inserção comércio mundial

Proposta Plano Marshall AL

Itamaraty, altos mandarins

Conferência OEA, 1948

Defesa da Cepal contra EUA

Desenvolvimentistas, MRE

Afirmação multilateralismo

Operação Pan-Americana

JK, Schmidt, Itamaraty

Primeira proposta brasileira

Integração AL – Alalc 1960

Diplomatas, aduaneiros

Resposta a Tratados Roma

Pol. Externa Independente

Jânio Quadro-Afonso Arinos

Diplomacia autônoma

Oposição EUA, Cuba-OEA

San Tiago Dantas, MRE

Direito Internacional, 1962

Rompimento com Cuba-64

Militares, diplomatas 

Questão mais simbólica

Aliança no G-77, Unctad

Diplomatas, nacionalistas

Desenvolvimentismo, PEI

Nova Ordem Eco, Norte-Sul

Diplomatas progressistas

Coordenação 3º. Mundo

Oposição: novos temas Gatt

Diplomatas, fazendários

Serviços, propr. Intelectual

Negociação coletiva Dívida

Diplomatas, políticos

Estrangulamento cambial

Solução pacífica A. Central

Sarney, diplomatas

Grupo de Contadora

Integração Brasil-Argentina

Sarney, diplomatas

Preliminares bilaterais

Ata Buenos Aires, Assunção

Collor, Menem, diplomatas

Mercado Comum a quatro

Protocolo Ouro Preto, 1994

Cúpula MRE, empresários

Não à supranacionalidade

Negociações com FMI

Fazenda (Malan, equipe BC)

Estrangulamento cambial

Lula 1: Alinhamento a Cuba

Lula, PT, exclusivamente

Diplomatas cooptados

Envolvimento no Haiti

EUA-França, PT e MRE

Minustah: ingresso CSNU

Casa à Unasul: união Sul-A.

Lula, petismo, diplomatas

Assunção liderança Am. Sul

Ibas, Bric-Brics, Sul Global

Lula, petismo, diplomatas

Megalomania diplomática

Retorno à normalidade MRE

Temer, chanceleres PSDB

Retorno a padrões Itamaraty 

Ruptura do bolsolavismo

Pequeno círculo lunáticos

Deformação da diplomacia

Lula 3: diplomacia global

Lula 3, petistas, diplomatas

Mundo mudou; decepções

Uma nova ordem mundial?

Lula 3, petistas, diplomatas

Fragmentação sistema ONU

Futuro diplomático incerto

Lula 3, diplomatas?

Desafios Nova Guerra Fria

 

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4384: 7 maio 2023, 4 p.


Foi a ABL quem ganhou: Ailton Krenak e Gilberto Gil


 

sábado, 6 de abril de 2024

Brasil evita se indispor com parceiros comerciais ao não apoiar investigações contra Irã e Rússia - Luiz Henrique Gomes (O Estado de S. Paulo)

 Brasil evita se indispor com parceiros comerciais ao não apoiar investigações contra Irã e Rússia

País se absteve de duas resoluções no Conselho de Direitos Humanos da ONU que investigam violações no Irã e na invasão russa da Ucrânia; analista diz que posição expressa perda de protagonismo da ONU

Luiz Henrique Gomes 

O Estado de S. Paulo, 05/04/2024 


A decisão do Brasil de se abster em duas resoluções do Conselho de Direitos Humanos (CDH) das Nações Unidas que investigam violações no Irã e na invasão russa da Ucrânia demonstra a prioridade do País em não se indispor com dois parceiros comerciais importantes, avalia o pesquisador e professor de relações internacionais Roberto Uebel. Segundo eles, a posição da diplomacia brasileira também expressa uma perda de protagonismo da ONU como espaço para se resolver questões internacionais.

Aprovadas por maioria de votos, as resoluções estendem duas investigações da ONU de violações de direitos humanos causadas pelos governos de Teerã e Moscou, parceiros comerciais do Brasil no Brics. Outros membros do bloco, como aÁfrica do Sul, Índia e Emirados Árabes Unidos (no caso do Irã) também se abstiveram. A China foi mais enfática e votou contra os dois documentos.

Para Roberto Uebel, pesquisador e professor de relações internacionais da ESPM, a posição do Brasil nas duas questões demonstra uma tentativa do País construir um pragmatismo na relação às duas nações. “Mostra que o País não quer se indispor, para não causar um distanciamento de dois parceiros comerciais importantes”, disse.

No caso do Irã, o CDH investiga violações cometidas contra mulheres, crianças e minorias étnicas e religiosas depois da morte da jovem Mahsa Amini em 2022. O embaixador brasileiro na ONU, Tovar da Silva Nunes, reconheceu e criticou as violações, mas expressou confiança de que Teerã vai “fortalecer os esforços para melhorar a situação” e se absteve com base “no diálogo construtivo”.

“Encorajamos o Irã a seguir aumentando seu envolvimento com mecanismos de direitos humanos num espírito de cooperação e abertura”, declarou Nunes.

De acordo com Uebel, o discurso do embaixador brasileiro expressa um “apoio crítico”, mas mal calculado. “A fala do representante brasileiro enfatiza que o Brasil condena qualquer violação de direitos de mulheres, mas o País prefere a abstenção por acreditar que o Irã vai cooperar nessa matéria. É um cálculo político que eu avalio como equivocado. O Irã dificilmente irá repensar essas práticas”, afirmou.

Com relação à resolução que investiga as práticas da Rússia na Ucrânia, o representante brasileiro em Genebra também reconheceu a existência de violações, mas classificou o texto de “desequilibrado” e disse que poderia impedir o diálogo entre os dois lados em guerra.

“Permanecemos descontentes com o texto diante de nós. A resolução é desequilibrada e coloca o fardo das violações dos direitos humanos apenas em um lado do conflito, não deixando espaço suficiente para o diálogo que poderia criar condições para prevenir violações de direitos humanos e construir uma paz duradoura na região”, afirmou o chefe da missão brasileira em Genebra.

Uebel avalia que neste caso o posicionamento brasileiro expressa tanto o pragmatismo com a Rússia quanto envia uma mensagem crítica à Kiev. “É um recado para que a Ucrânia também dialogue para a guerra chegar ao fim”, disse. “Neste caso, o Brasil está esgotado com essa questão. Desde o início, a diplomacia brasileira preza pelo diálogo, e inclusive já se colocou à disposição para mediar, mas hoje entende que a Ucrânia precisa estar disposta a esse diálogo, e ela não está por suas questões territoriais”, avaliou.


Perda de protagonismo da ONU

As abstenções no CDH também exprimem uma perda do protagonismo da ONU como fórum multilateral, afirma o analista. Com o surgimento do Brics e do G-20, por exemplo, o Brasil passa a acreditar – como externou o embaixador brasileiro na resolução do Irã – no diálogo em outras instâncias além das Nações Unidas.

A ONU tem sido ineficaz para a resolução de conflitos, a exemplo da Ucrânia e da guerra de Israel contra o Hamas, o que também contribui para esse movimento.

Segundo Uebel, o descumprimento de resoluções da ONU externam um enfraquecimento dos Estados no papel das relações internacionais. “Você tem outros atores, que são empresas, bancos internacionais, sociedade civil, que estão discutindo e podem ter peso nestas questões”, disse. “Se você quer construir uma relação internacional forte, é preciso ter reformas e o engajamento maior desses outros atores em questões relativas aos direitos humanos, por exemplo.”

 

Out of the Darkness, The Germans, 1942-2022, by Frank Trentmann


Out of the Darknessby Frank Trentmann (Knopf). Germany’s postwar transformation into Europe’s political conscience is often cast as a triumphant story of moral rehabilitation. This book points to the limitations of that narrative, arguing that, in the past eight decades, German society has been “preoccupied with rebuilding the country and coming to terms with the Nazi past” rather than with confronting its obligations to the broader world. 

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Chocante placidez da diplomacia lulopetista em face dos crimes russos - Anne Applebaum

O Brasil, Lula, o PT, o Itamaraty (nessa ordem) consideram normal assistir passivamente um Estado agressor massacrar o povo e destruir completamente um outro Estado? Não teriam nada a dizer sobre esses crimes? Por que o silêncio estridente? Chocante!

From: Anne Applebaum

Looks like the Russian plan is now to treat Kharkiv, once a city of 2 million people, the same way Russia treated Grozny, Aleppo, Mariupol: turn it to rubble https://www.bbc.com/news/world-us-canada-68747752 


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