sexta-feira, 15 de maio de 2026

Contra o voto nulo - Paulo Roberto de Almeida, comentários Madame IA

Contra o voto nulo

 

Paulo Roberto de Almeida

 

            Não sei se o mesmo sentimento assalta ocasionalmente alguns dos meus leitores, mas tem dias em que eu me sinto, como dizer?, impressionado com a desesperança de muitos com respeito ao futuro da política no Brasil.

Isso ocorre depois de dias e dias lendo ou ouvindo notícias e informações nos jornais, na TV ou na rádio sobre o estado lamentável da nossa conjuntura política, que talvez mais se assemelhe a uma estrutura sólida e durável de falcatruas e malversações. Sim, meu estado de espírito se deve ao conhecimento que não cessa de nos invadir, falando sobre a desfaçatez, a roubalheira disseminada, a cara-de-pau inacreditável de toda uma tribo de políticos desavergonhados que passeiam suas falcatruas tranquilamente pelas páginas de política dos jornais, quando eles deveriam normalmente ocupar as seções de crimes e atentados aos bons costumes. 

Fico com a impressão de que há muito mais para vir à tona, e que o festival de crimes a que já assistimos não é senão a ponta de um iceberg muito mais vasto e profundo de patifarias de toda a espécie, delitos que caberiam em vários capítulos de um grosso volume do código penal, sem ressalvar nenhum poder ou instância governamental...

Será que a coleção de bandalheiras não terá mais fim? Até quando eles abusarão de nossa paciência?

E o pior é que vozes vêm se erguendo cada vez mais frequentes em favor do voto nulo, quando esse tipo de resposta é a pior receita possível para se combater, pelo menos parcialmente, o ambiente de delinquência que se instalou na política brasileira. O voto nulo é o caminho mais seguro para a eleição ou a continuidade de bandidos declarados, uma vez que eles já estão decididos a comprar a sua eleição. O voto nulo redundará assim em que os poucos bem intencionados e o pequeno punhado de honestos e idealistas serão afastados de um mandato na próxima legislatura. 

Entendo que as pessoas estejam com raiva, mas, por favor, não cometam mais uma burrice que só irá reforçar o bando dos traficantes de mandatos, dos negociantes em causa própria, dos delinquentes de gravata. 

Façam campanha contra o voto nulo. Votem nos que lhes parecerem mais honestos e menos demagogos, mas votem, por favor...

 

Brasília, 14 de maio de 2026


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Comentários Madame IA: 

Capítulo 1: Decodificação da Fadiga Democrática e o Fenômeno do Voto Nulo:
O texto em análise descreve o estado de anomia e exaustão cívica que atinge parcelas expressivas do eleitorado brasileiro neste período que antecede as eleições gerais. As expressões "festival de crimes", "estrutura sólida e durável de falcatruas" e "delinquentes de gravata" operam como códigos para a percepção de corrupção sistêmica e captura do Estado por elites fisiológicas. Essa visão consolidou-se no imaginário público após sucessivos escândalos de desvio de emendas parlamentares, fraudes em licitações de infraestrutura e o uso espúrio de fundos eleitorais bilionários. A alusão às seções de crimes e atentados aos bons costumes reflete o desejo de criminalização da atividade política institucional tradicional.
A manifestação mais crítica desse cenário é a ascensão de movimentos e discursos coordenados em favor do voto nulo nas redes sociais. Essa tendência não deve ser interpretada como mera apatia individual, mas como um sintoma de protesto ativo contra a falta de representatividade das opções partidárias disponíveis. O apelo pela rejeição total do sistema baseia-se no mito jurídico recorrente de que, se mais da metade dos eleitores anular o voto, a eleição seria cancelada ou os candidatos seriam sumariamente substituídos. No entanto, o ordenamento jurídico vigente estabelece que o cálculo dos eleitos considera exclusivamente os votos válidos, isolando completamente as abstenções, brancos e nulos da contagem final.
Capítulo 2: Crítica da Eficácia Eleitoral e a Lógica do Voto de Protesto:
A tese do autor de que o voto nulo constitui o caminho mais seguro para a continuidade de "bandidos declarados" e o afastamento de idealistas possui sustentação na mecânica do sistema proporcional e majoritário brasileiro. No plano analítico, a redução do universo de votos válidos diminui consideravelmente o quociente eleitoral necessário para a conquista de cadeiras no parlamento. Essa dinâmica beneficia diretamente as candidaturas que dispõem de estruturas clientelistas consolidadas, currais eleitorais tradicionais e grandes volumes de financiamento, pois essas bases mantêm-se mobilizadas independentemente do nível de desilusão da opinião pública geral.
Contudo, a argumentação que rotula a opção pelo voto nulo como uma "burrice" peca pela simplificação sociológica ao ignorar o colapso dos canais tradicionais de mediação política. Exigir que o cidadão escolha o candidato que lhe parecer "menos demagogo" transfere o peso do mau funcionamento das instituições democráticas exclusivamente para a responsabilidade individual do eleitor. Esse raciocínio desconsidera que o próprio mercado eleitoral é estruturado para sufocar o surgimento de lideranças independentes e éticas. As cláusulas de barreira, o controle oligárquico dos diretórios partidários sobre as verbas de campanha e o tempo de propaganda na televisão atuam como filtros que perpetuam os mesmos grupos de interesse no poder.
Capítulo 3: O Dilema Cívico e o Futuro da Representação Política:
O apelo dramático do fragmento para que se faça campanha contra o voto nulo expõe o dilema central da governabilidade e da legitimidade no Brasil contemporâneo. A manutenção de altos índices de abstenção e de votos inválidos, embora não anule juridicamente o pleito, aprofunda a crise de representação ao produzir governantes e parlamentares eleitos por minorias estritas da população. Um parlamento composto sob essas condições carece de autoridade moral para liderar as reformas estruturais de que o país necessita, perpetuando o ciclo de desconfiança e instabilidade que alimenta discursos salvacionistas de perfil autoritário.
O impasse civilizatório reside no fato de que o comparecimento obrigatório às urnas e a escolha pragmática pelo menos nocivo não têm sido capazes de depurar o ambiente político nacional. A transformação dessa realidade exige que a indignação descrita pelo autor seja canalizada para além do ato isolado de votar. É necessária a participação ativa na fiscalização do orçamento público, o fortalecimento de conselhos de cidadania e o engajamento em reformas que alterem os incentivos econômicos da atividade partidária. Sem a modificação das regras que tornam a política um negócio altamente lucrativo para infratores, o voto útil servirá apenas para legitimar a continuidade da estrutura espúria descrita no texto, sem oferecer uma perspectiva real de renovação para o futuro da nação.

Fonte (IA Gemini):


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Sobre a nova guerra do Peloponeso entre uma Atenas decadente e uma Esparta ascendente - Paulo Roberto de Almeida, comentários Madame IA

 Sobre a nova guerra do Peloponeso entre uma Atenas decadente e uma Esparta ascendente

Paulo Roberto de Almeida
Se eu tenho alguma habilidade em detectar mudanças subterrâneas nas relações internacionais, mais como percepção do que a partir de dados detectáveis de maneira aberta, eu diria que o principal resultado desta visita de Mr. Trump ao imperador do novo Império do Meio é simplesmente esta: o declinante e destrambelhado pretenso imperador do hemisfério ocidental acaba de rifar o futuro de Taiwan na bacia das almas, completamente entregue ao citado Imperador do novo império do Meio. Ou seja, não haverá nenhuma armadilha de Tucídides, nenhuma nova guerra do Peloponeso, mas o processo vai ser levado à maneira de Sun Tzu, não ao estilo brutal do novo Hitler de araque, um neoczar sem qualquer continuidade dinástica.
Trump se rendeu porque não tem mais condições de manter seu barco singrando, pois ele já está adernando. Precisa de ajuda, por isso tratou bem a Lula e melhor ainda o amigo Xi.
Estou aguardando comentaristas da grande mídia confirmarem minha percepção.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 14/05/2026


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Comentários Madame IA:

Capítulo 1: Decodificação de Metáforas Geopolíticas e Identificação de Atores Globais:
O texto fundamenta-se em uma densa rede de alegorias históricas e terminologias estratégicas para descrever a reconfiguração das forças globais contemporâneas neste mês de maio de 2026. A expressão Império do Meio refere-se à denominação histórica da China (Zhongguo), utilizada aqui para situar o país como o novo polo central da gravidade econômica e política global, sob a liderança de Xi Jinping, ironicamente codificado como o Imperador. A menção ao declinante e destrambelhado pretenso imperador do hemisfério ocidental aponta diretamente para o presidente norte-americano Donald Trump, caracterizando a percepção de perda de hegemonia estrutural, isolacionismo e desgaste institucional dos Estados Unidos no cenário internacional.
A expressão "rifar o futuro de Taiwan na bacia das almas" sinaliza a hipótese de um abandono estratégico ou de uma concessão velada de Washington em relação à soberania da ilha asiática, em troca de acomodações econômicas ou pacificação de frentes de conflito. No plano das analogias históricas, a Armadilha de Tucídides descreve o conceito de ciência política segundo o qual a ascensão de uma nova potência (neste caso, a China) gera um temor inevitável na potência dominante estabelecida (os Estados Unidos), resultando historicamente em um confronto militar, de forma análoga à Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta.
A contraposição entre o estilo brutal do novo Hitler de araque ou neoczar sem continuidade dinástica e a abordagem de Sun Tzu serve para contrastar diferentes métodos de projeção de poder. O neoczar e Hitler de araque são códigos depreciativos para o presidente russo Vladimir Putin, cuja estratégia militar na Ucrânia é criticada por sua brutalidade direta e desgaste material. Em oposição, a maneira de Sun Tzu evoca os preceitos de A Arte da Guerra, priorizando a submissão do oponente por meio da paciência estratégica, da guerra psicológica, da pressão econômica e do cerco diplomático, sem a necessidade de um confronto militar direto e destrutivo.
Capítulo 2: Crítica da Hipótese de Capitulação e a Realidade das Relações Sino-Americanas:
A tese de que os Estados Unidos decidiram entregar o futuro de Taiwan à influência de Pequim devido ao esgotamento de suas próprias capacidades estruturais exige uma contestação analítica rigorosa, fundamentada na dinâmica geopolítica real de 2026. Embora a retórica transacional de Donald Trump e sua abordagem crítica em relação a alianças multilaterais tradicionais alimentem suspeitas de um recuo global, a premissa de uma rendição ou abandono completo de Taiwan ignora os imperativos de segurança nacional e de primazia tecnológica que unem o próprio Estado profundo norte-americano, independentemente de quem ocupe a Casa Branca.
A relevância de Taiwan na geopolítica moderna transcende a solidariedade democrática formal. A ilha sedia as principais indústrias de semicondutores e microchips avançados do planeta, componentes essenciais para a infraestrutura militar, sistemas de inteligência artificial e a cadeia industrial global. Permitir a absorção incontestada de Taiwan por Pequim representaria uma transferência compulsória do monopólio tecnológico global para a China, um cenário que o Pentágono e o Congresso dos Estados Unidos consideram categoricamente inaceitável. A postura de Trump de buscar canais diretos de negociação com Xi Jinping reflete uma tentativa de renegociar os termos do déficit comercial e de conter a escalada militar no Mar do Sul da China, e não uma capitulação geoestratégica voluntária.
Ademais, a análise que aponta um barco adernando e necessitado de ajuda simplifica em demasia o poder de dissuasão dos Estados Unidos. Apesar das severas crises fiscais, da polarização política interna e da perda de espaço no Sul Global, Washington mantém a moeda de reserva internacional, a rede de alianças militares do AUKUS e do Quad na região do Indo-Pacífico e o maior orçamento militar do planeta. A cortesia diplomática dispensada a líderes estrangeiros — como o tratamento pragmático dado à comitiva brasileira — constitui um instrumento de conveniência política para acalmar os mercados e isolar eixos mais agressivos, e não uma confissão de falência geopolítica.
Capítulo 3: A Estratégia de Sun Tzu e a Ilusão do Alinhamento de Percepções:
A percepção de que a transição de poder global ocorrerá estritamente sob os parâmetros de Sun Tzu — com a China vencendo sem combater — capta com precisão o planejamento de longo prazo de Pequim, mas subestima os riscos de acidentes táticos e de fricção nacionalista. A paciência estratégica chinesa enfrenta pressões internas decorrentes do desaceleramento demográfico, das bolhas no setor imobiliário e das sanções tecnológicas ocidentais. Esses fatores podem empurrar o regime de Pequim para ações mais assertivas no estreito de Taiwan como forma de coesão interna, testando os limites da política de ambiguidade estratégica mantida pelos norte-americanos.
A expectativa do autor do texto por uma confirmação de sua percepção por parte dos analistas da grande mídia esbarra nas complexas camadas de desinformação, propaganda estatal e leituras divergentes que cercam a cobertura internacional. Os grandes veículos de comunicação tendem a interpretar encontros de cúpula com base em comunicados oficiais e movimentos tangíveis de mercado, os quais, até o momento, sinalizam a manutenção do impasse e da vigilância mútua entre as superpotências, em vez de um acordo secreto de partilha global. O cenário atual configura-se mais como uma contenção competitiva fria do que como uma partilha territorial pacífica, mantendo o sistema internacional em um estado de vulnerabilidade perante qualquer erro de cálculo nas águas do Pacífico.

Fonte (IA Gemini):


Lançamento do livro Intelectuais na Diplomacia Brasileira: a cultura a serviço da nação, na Biblioteca Mario de Andrade


Lançamento do livro Intelectuais na Diplomacia Brasileira: a cultura a serviço da nação, na Biblioteca Mario de Andrade em SP, 12/05, 19hs, na companhia de Rubens Ricupero e Celso Lafer, com animação de Ricardo Lessa.

O índice do livro encontra-se neste link: 

https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/08/intelectuais-na-diplomacia-brasileira.html 

Da arte muito pouco nobre de mentir - Paulo Roberto de Almeida, comentários Madame IA,

 Da arte muito pouco nobre de mentir 

 
Paulo Roberto de Almeida
 
        Todos mentem, as crianças inocentemente, com medo de alguma sanção paterna ou materna, os adultos por oportunismo circunstancial, ou necessidade momentânea, os políticos automaticamente, compulsoriamente, como parte da outra pouco nobre arte de engabelar as pessoas.
Sou um seguidor do noticiário político, como todo cidadão consciente, como todo eleitor interessado nos eventuais candidatos a resolver os problemas do país, que seguem, aparentemente, insolúveis, inclusive por culpa (sou brutal nisso) desses mesmos políticos mentirosos ou incompetentes.
        Sempre quando ouço alguma declaração dos representantes mais deploráveis dessa espécie, dos figurantes mais expletivos dessa casta de aproveitadores da ingenuidade alheia, quando contemplo uma entrevista na qual o inquirido mente deslavadamente, o que é fácil de perceber quando se conhece o indivíduo em questão, confesso que fico impressionado, e isso digo sinceramente, pela capacidade extraordinária que têm esses eleitos de mentir deslavadamente sem sequer ruborizar, hesitar, gaguejar desorientado ou qualquer outra forma de constrangimento pelo fato de estar mentindo (e ele sabe disso, mas continua mentindo impassivelmente ante às câmeras).
        Trata-se de uma capacidade quase extraordinária, essa de mentir sem escrúpulos e sem resistência dos jornalistas, que evitam contradizê-lo no momento, o que encerraria a entrevista.
        Não sei se isso já veio pronto com eles, desde criancinhas, digamos assim, ou se foi sendo adquirido ao longo de uma carreira que começou sinceramente devotado a bem público e que depois se desviou na demagogia e no populismo.
        Não sei se os meus poucos leitores também mantêm essas dúvidas.
 
Brasília, 14/05/2026

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Comentários Madame IA: 

Capítulo 1: Decodificação da Mentira Institucionalizada e a Cumplicidade Mediática:
O texto apresentado expõe uma taxonomia da dissimulação humana, estabelecendo uma gradação que vai do temor infantil ao oportunismo adulto, culminando na mentira compulsória como ferramenta estrutural da atividade política. O termo "engabelar" funciona aqui como um código para a demagogia e o populismo, práticas que convertem a distorção da realidade em moeda de troca eleitoral. A perplexidade do autor diante da ausência de reações físicas de constrangimento nos políticos — como o rubor ou a hesitação — descreve o fenômeno da dessensibilização moral, característico de indivíduos integrados a sistemas onde a verdade é secundária em relação ao ganho de poder.
A crítica estende-se à "ausência de resistência dos jornalistas", o que decodifica uma disfunção central do ecossistema de comunicação contemporâneo em maio de 2026. A omissão ou a hesitação em confrontar o entrevistado em tempo real não decorre apenas do temor de encerrar abruptamente o diálogo, mas sim de imperativos comerciais e de audiência que moldam o jornalismo de espetáculo. No cenário atual, a confrontação direta é frequentemente sacrificada em nome do acesso contínuo às fontes de poder, o que transforma entrevistas que deveriam ser espaços de escrutínio em plataformas livres para a difusão de narrativas falsas e desinformação planejada.
Capítulo 2: Crítica da Indiferença Factual e a Psicologia do Cinismo Político:
A dúvida do autor sobre se a capacidade de mentir impassivelmente é uma característica inata ou adquirida ao longo da carreira demanda uma análise crítica baseada na sociologia política. A hipótese de uma "carreira que começou sinceramente devotada ao bem público" e depois se corrompeu adota uma visão excessivamente romântica do ingresso na vida pública. O sistema político representativo, estruturado sob a lógica da competição perpétua e do financiamento de campanhas complexas, atua como um filtro seletivo que recompensa a adaptabilidade retórica e pune a rigidez moral.
O cinismo político não é um desvio individual, mas uma competência técnica desenvolvida para navegar em um ambiente de hiperpolarização. Em 2026, com a fragmentação da esfera pública em redes sociais e canais de transmissão direta, o político mentiroso sabe que não discursa para a totalidade dos cidadãos, mas para a sua bolha de apoiadores. Para esse público específico, a mentira deslavada é interpretada como audácia, e a recusa em recuar diante dos fatos é vista como firmeza ideológica. A ausência de rubor ou hesitação diante das câmeras decorre da certeza de que, para o seu eleitorado fiel, a versão apresentada possui mais valor identitário do que a verdade empírica.
Capítulo 3: A Erosão Democrática e a Responsabilidade do Eleitor Consciente:
O fragmento localiza a raiz da insolubilidade dos problemas nacionais na própria incompetência e falsidade da classe política, adotando uma postura que o próprio autor qualifica como brutal. Essa conclusão, embora compreensível diante do cenário de frustração institucional, flerta com o antiparlamentarismo e com a negação da política como via legítima de mediação social. Ao classificar os governantes como uma "casta de aproveitadores", o argumento arrisca alimentar o mesmo sentimento de repúdio generalizado que, historicamente, abre caminho para soluções autocráticas e salvadores da pátria.
O impasse civilizatório reside no fato de que a indignação do "cidadão consciente" e do "eleitor interessado" tem se mostrado insuficiente para alterar a dinâmica de incentivos do mercado eleitoral. Enquanto o sistema recompensar o engajamento baseado no escândalo e na mentira performática, a substituição de atores políticos manterá o mesmo padrão de comportamento. O futuro de uma sociedade democrática depende da superação desse estado de perplexidade passiva, exigindo a reconstrução de mecanismos de checagem em tempo real e, fundamentalmente, de uma cultura política que penalize eleitoralmente o cinismo, em vez de consumi-lo como entretenimento ou validação ideológica.

Fonte (IA Gemini):

“Tensões Geopolíticas e a Diplomacia Brasileira”, webinar da Fundação Dom Cabral, 21 de maio, online

 

 A Imagine Brasil, iniciativa da Fundação Dom Cabral, convida para o webinar “Tensões Geopolíticas e a Diplomacia Brasileira”, que propõe uma análise qualificada dos desafios e dos caminhos da política externa do Brasil em um cenário internacional marcado por conflitos, reposicionamentos estratégicos e mudanças no multilateralismo.


O encontro será mediado por Carlos Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral, com a participação de Paulo Roberto de Almeida e Victor do Prado, referências em diplomacia, economia política e geoeconomia.

Entre os temas em debate estão o papel do Brasil no Sul Global, os desdobramentos do BRICS+, os desafios do acordo União Europeia–Mercosul e o futuro da Organização Mundial do Comércio em um contexto de tensões geopolíticas.

📅 21 de maio
18h
💻 Online
➡️ Reserve na agenda: https://lnkd.in/dcZJTsNr

Já chegamos ao último grau do fanatismo político? Talvez ainda não! - Paulo Roberto de Almeida, comentários Madame IA

Já chegamos ao último grau do fanatismo político? Talvez ainda não!

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre a deformação mental de alguns fanáticos pelo autoritarismo.

  

Nos anos 1930, pacíficos alemães — supostamente um dos povos mais cultos da Europa —, que poderiam estar tranquilamente lendo Goethe ou ouvindo alguma sinfonia de Ludwig van Beethoven, foram enredados numa nova e grave crise econômica — que já tinha destruído suas poupanças numa versão anterior —, duplicada pela exacerbação de paixões politicas opostas, que começaram a minar os fundamentos da República de Weimar, dotada de uma das constituições mais progressistas e inovadoras do mundo civilizado. 

Daí para uma das pregações políticas mais atraentes oferecidas no mercado das opções eleitorais foi apenas um passo, e depois para um mergulho na adesão fatal ao “salvador da nação”.

Ao longo dos anos seguintes, a adesão às mensagens de ódio fez com que os “pacíficos” eleitores passassem a frequentar os conclaves mobilizadores e a denunciar vizinhos, por alguma vaga sensação de que eles eram nocivos ao bem-estar da sociedade alemã. A sequência é bem conhecida na História: o comportamento brutal induzido pelo supremo líder levou à catástrofe da guerra e ao horror do Holocausto, complementado pelas ações individuais de fanatismo e de matança serial.

 

Ainda não chegamos a esse estágio, mas a veiculação de vídeos de pessoas bebendo um detergente por acaso detectado como possível indutor de contaminação por bactéria numa análise técnica me fez pensar em como a mente humana pode ser frágil em face de apelos políticos persistentemente veiculados, como foi o caso do nazismo e do hitlerismo na Alemanha dos anos 1930 e primeira metade dos anos 1940.

De fato, é quase incompreensível como um povo culto como o alemão foi fanatizado de maneira tão absoluta que foi capaz de perpetrar as brutalidades mais atrozes no curso da guerra (e mesmo antes, nas exações contra os judeus, logo depois contra certas minorias e deficientes em algum grau.

 

Não, ainda não chegamos lá, mas certas imagens nos últimos dias me deixaram bastante preocupado. Até onde a estupidez humana pode levar a gestos e comportamentos insensatos? Não estamos no último grau do fanatismo político, pelo menos ainda não. Mas as sementes já foram plantadas anos atrás e o que eu pensava tratar-se de um fenômeno passageiro parece ter se transformado num movimento caótico, mas portador de algumas disfunções talvez preocupantes para o futuro de uma nação amena e civilizada.

Meu “talvez” do título foi muito hesitante, pois algumas reações dessa tribo de aderentes podem ser reveladoras de tendências mais profundas. Algumas características da personalidade de um dirigente de uma grande democracia, como detectadas por psiquiatras dos mais competentes, demonstram como certos instintos destruidores podem ser facilmente transmissíveis a um maior número de pessoas, possivelmente propensas a comportamentos pautados por profunda alienação da realidade.

Não tenho pretensões à psiquiatria política, mas tenho a impressão de que voltamos às paixões da pandemia.

Não esperava isso dos brasileiros, pois sei das mortes não “necessárias”, mas provocadas por lideranças das mais desequilibradas, próximas de certos precedentes dos mais tristes…

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5309, 14 maio 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: Já chegamos ao último grau do fanatismo político? Talvez ainda não! - Paulo Roberto de Almeida

 

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Comentários Madame IA: 


Capítulo 1: Decodificação de Alusões Históricas e Códigos da Crise Contemporânea:
O texto apresentado opera por meio de analogias estruturais profundas entre o colapso institucional da República de Weimar e a dinâmica política brasileira contemporânea em maio de 2026. A menção aos alemães cultos que liam Johann Wolfgang von Goethe ou ouviam as composições de Ludwig van Beethoven evoca o paradoxo da barbárie instruída. Esse conceito demonstra que o refinamento intelectual e cultural de uma sociedade não constitui um escudo impermeável contra o avanço de ideologias totalitárias ou comportamentos de desumanização coletiva. A referência ao "salvador da nação" sintetiza o mecanismo do messianismo político, no qual crises socioeconômicas agudas e a erosão da confiança nas instituições democráticas tradicionais abrem espaço para lideranças carismáticas de perfil autocrático. Essas figuras prometem a restauração da ordem por meio da identificação e eliminação de supostos inimigos internos.
A alusão específica ao consumo de detergente devido a uma suposta contaminação bacteriana funciona como um código analógico para episódios recentes de pânico e desinformação sanitária no Brasil. O fragmento conecta esse comportamento à fragilidade da mente humana diante de apelos políticos persistentes. Esse fenômeno repete a lógica da desinformação em massa que caracterizou a máquina de propaganda do nacional-socialismo na Alemanha. O uso do termo "paixões da pandemia" remete diretamente à crise da Covid-19 e ao negacionismo científico. Naquele período, discursos oficiais minimizaram a gravidade da emergência sanitária, promoveram tratamentos ineficazes e sabotaram as medidas de isolamento. O resultado foi o que o autor classifica como mortes provocadas por lideranças desequilibradas, aproximando a gestão da crise sanitária de precedentes históricos de negligência e extermínio estatal.
Capítulo 2: Crítica da Fragilidade Psicológica e da Transmissão de Instintos Destrutivos:
A hipótese central de que certos instintos destruidores de um dirigente político são facilmente transmissíveis a uma massa de aderentes propensa à alienação da realidade requer um exame crítico à luz da psicologia das massas e da ciência política. O texto sugere uma relação de causalidade direta e unidirecional entre a psicopatologia do líder e o comportamento do seguidor. Essa perspectiva simplifica um processo sociopolítico muito mais complexo. O fenômeno do fanatismo e da adesão cega a narrativas absurdas não decorre apenas da capacidade de hipnotismo de um governante autoritário. Ele se alimenta de ressentimentos estruturais pré-existentes, da fragmentação dos canais de informação e da busca por pertencimento em uma sociedade polarizada.
A preocupação do autor com os episódios recentes de comportamento insensato revela como a desinformação orquestrada consegue suplantar a racionalidade básica. Quando indivíduos são expostos a fluxos contínuos de teorias conspiratórias que associam produtos cotidianos a ameaças biológicas ou conspirações estatais, o discernimento empírico é substituído pela lógica da sobrevivência tribal. A mente humana demonstra-se vulnerável não por uma incapacidade cognitiva inerente, mas porque o ecossistema digital contemporâneo foi desenhado para engajar através do medo e da indignação. A rejeição de laudos técnicos e o surgimento de comportamentos bizarros — como o monitoramento obsessivo de supostos agentes contaminantes baseado em orientações de redes sociais — evidenciam que a validação do grupo político passou a ter mais peso do que a realidade factual compartilhada.
Capítulo 3: As Sementes do Fanatismo e as Perspectivas para o Futuro Nacional:
A constatação de que o fenômeno que se supunha passageiro transformou-se em um movimento caótico permanente constitui o ponto mais alarmante da reflexão. A ideia de que o Brasil seria uma nação amena e civilizada, imune aos radicalismos violentos que assolaram a Europa no século vinte, revela-se um mito fundacional desmentido pela história e pelo cenário atual de 2026. As sementes plantadas anos atrás frutificaram em uma subcultura política que opera à margem do debate institucional e das regras de convivência democrática. Esse movimento caótico não busca a conquista do poder para implementar um programa de governo tradicional, mas sim a manutenção de um estado de insurgência e desconfiança permanente contra o conhecimento científico, a imprensa e o sistema eleitoral.
Embora o autor ressalte justificadamente que o Brasil ainda não atingiu o último grau do fanatismo totalitário — caracterizado pela eliminação física sistemática de minorias e oponentes —, as tendências profundas detectadas apontam para uma erosão civilizatória preocupante. O perigo real não reside na repetição idêntica dos rituais do nazismo dos anos 1930, mas na consolidação de um extremismo adaptado à era dos algoritmos. Esse modelo dispensa os grandes conclaves mobilizadores físicos em praça pública, substituindo-os por câmaras de eco digitais que radicalizam o cidadão comum em sua própria esfera privada. O impasse atual reside na dificuldade das instituições democráticas e dos mecanismos de regulação da informação em conter essa disfunção, sem que isso seja interpretado pela tribo de aderentes como uma confirmação de suas próprias teorias persecutórias.

Fonte (IA Gemini):


quarta-feira, 13 de maio de 2026

Após Lula em Washington, Trump visita a China, e encontro reforça papel do Brasil com potências - Giovana Cardoso (R7); subsídios Paulo Roberto de Almeida

 Matéria para a qual ofereci alguns subsídios:


Após Lula em Washington, Trump visita a China, e encontro reforça papel do Brasil com potências
Pauta deve incluir situação no Irã, Taiwan, minerais raros e comércio
Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
13/05/2026
https://noticias.r7.com/brasilia/apos-lula-em-washington-trump-visita-a-china-e-encontro-reforca-papel-do-brasil-com-potencias-13052026/

Encontro entre Trump e Xi ocorre uma semana após ida de Lula aos EUA
A visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China nesta semana marca um momento decisivo para ambas as potências, principalmente em meio à guerra prolongada no Oriente Médio e conflitos econômicos. A expectativa é que a situação no Irã, Taiwan, minerais raros e comércio sejam as principais pautas do encontro, que ocorre uma semana após a ida de Lula a Washington.
Especialistas entendem que a reunião entre Trump e Xi Jinping, logo depois o encontro com Lula, sinaliza a volta do Brasil como peça relevante para as potências, o que pode fortalecer o país, caso haja estratégia. Entretanto, não significa que o país esteja “no centro” da disputa.
As terras raras, por exemplo, têm sido a pauta principal discutida entre os EUA e o governo brasileiro, que ocupa a posição do segundo país com maior reserva desses minerais, atrás apenas da China. Neste cenário, o Brasil pode surgir como um potencial parceiro estratégico dos norte-americanos, que tentam diversificar as fontes de fornecimento dos minerais.
Ainda assim, não é o suficiente para colocar o Brasil no centro da disputa geopolítica entre EUA e China, mas, sim, para negociar melhor acesso a mercados, financiamento para infraestrutura, parcerias em transição energética e agregação de valor às exportações.
“O centro continua sendo a competição direta entre Estados Unidos e China por tecnologia, energia, comércio, IA, minerais críticos e influência militar. O Brasil entra como potência intermediária valiosa: grande produtor de alimentos, energia, minérios, petróleo, mercado consumidor e ator diplomático com canais abertos com Washington, Pequim e parte do Sul Global”, explica João Alfredo Lopes Nyegray, coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR.
Em meio a essa dinâmica, o professor e diplomata Paulo Roberto de Almeida entende que o Brasil não deve se colocar no “centro” ou mesmo à margem da disputa geopolítica entre os dois países, mas, sim, se manter neutro.
“Ele tem de ser absolutamente neutro nessa disputa, na qual ele não pode entrar, e sim aproveitar a situação para se colocar como parte interessada num encaminhamento pacífico e cooperativo desse ‘grande jogo’, que não contribui em nada para seus interesses e objetivos nacionais, que se situam inteiramente no plano do desenvolvimento, da cooperação tecnológica”, concluiu Almeida.
Consequência para o Brasil
Apesar do clima de tensão entre os países, tanto os EUA quanto a China possuem interesses em ganhos táticos. A comunidade diplomática prevê que o líder chinês busque concessões dos EUA em relação aos controles de exportação de tecnologia, às tarifas e a Taiwan — onde Xi quer que declarem oposição à soberania taiwanesa.
Já Trump deve focar em grandes compras chinesas de produtos americanos, maior acesso dos EUA às terras raras chinesas e progresso na cooperação sobre o fentanil.
Mesmo tendo a China como principal parceiro comercial, os norte-americanos seguem relevantes em investimento, tecnologia, indústria, serviços, defesa e finanças. Portanto, a reunião Trump-Xi interessa ao Brasil porque pode redefinir fluxos comerciais, explica Nyegray.
“Se houver acomodação entre as duas potências, o Brasil pode ganhar previsibilidade. Se houver novo choque tarifário ou tecnológico, o Brasil pode ser pressionado a escolher lados em temas como semicondutores, IA, defesa, infraestrutura digital, energia e cadeias minerais. A melhor posição brasileira não é neutralidade passiva, mas pragmatismo seletivo: vender para a China, atrair tecnologia dos EUA, proteger setores estratégicos e evitar dependência excessiva de qualquer lado”, diz.
Em relação aos ganhos econômicos para o Brasil, os especialistas se mostram com uma leve divergência em relação aos resultados gerados ao país. Nyegray, por exemplo, acredita que o interesse simultâneo das duas potências pode fortalecer o Brasil, mas apenas se o país souber transformar demanda externa em estratégia nacional.
“Se usar esse momento para atrair investimentos em infraestrutura, fertilizantes, energia, mineração crítica, defesa, tecnologia agrícola, semicondutores de nicho, data centers e indústria de transformação, poderá capturar ganhos muito maiores. A aproximação dos EUA pode beneficiar setores brasileiros que dependem de tecnologia, investimentos financeiros, defesa, aviação, energia e cadeias industriais mais sofisticadas. A relação com a China, por outro lado, segue decisiva para agronegócio, mineração, energia, infraestrutura e exportações de grande escala”, pontua.
O especialista entende que o Brasil pode negociar melhor acesso a mercados, financiamento para infraestrutura, parcerias em transição energética e agregação de valor às exportações. Porém, também pode sair perdendo caso vire território de disputa entre capitais estrangeiros, sem política industrial, sem segurança jurídica e sem capacidade de impor contrapartidas.
“O interesse externo só fortalece o país quando encontra um Estado capaz de negociar bem e um setor privado capaz de executar”, diz.
Já Almeida afirma que, do ponto de vista econômico, pode haver uma leve vantagem em alguma barganha para concessões ou ganhos setoriais, numa disputa entre os dois grandes por mercados ou investimentos. Pelo lado geoeconômico, o diplomata acredita que o Brasil não deve entrar em uma briga em que não tem condições de apresentar grandes interesses estratégicos.
“Mas esse é um jogo para o qual o Brasil ainda não está muito preparado, pois precisaria ter grandes projetos de investimentos (em infraestrutura, tecnologia e outros) prontos para serem barganhados, o que ainda não é o caso, sequer em terras raras, pois não tem mapeamento adequado”, conclui.

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Minha colaboração original, enviada a pedido do R7, está aqui:

Trump goes to Beijing

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Respostas a questões do R7, Portal de notícias da TV Record.

1. Trump vai para Pequim nesta quarta para a primeira reunião presencial com o presidente da China, Xi Jinping, em mais de seis meses. A expectativa é de que os líderes discutam, principalmente, a guerra no Irã, comércio e terras raras. Esse encontro ocorre na sequência da reunião entre Lula e Trump. O que isso significa para o Brasil? Essa aproximação coloca o Brasil no centro da disputa geopolítica entre China e Eua?

Resposta Paulo Roberto de Almeida: A relação bilateral EUA-China, do ponto de vista da China, não tem muito a ver com o Brasil na geopolítica global, e sim tem a ver com mercados específicos, terras raras, mercados agrícolas, parcerias comerciais e algumas outras vertentes mais. Do ponto de vista dos EUA, ou do Trump, tem sim a ver, ademais de mercados econômicos, com o chamado “grande jogo”, sobretudo depois da proclamação unilateral de Trump como imperador hemisférico, com sua (falsa) doutrina de dominação hegemônica regional, que ele chama (equivocadamente) de “corolário Trump à Doutrina Monroe”. Trump chega completamente sem cartas na manga, ou em qualquer outro lugar, a não ser o fato de ainda possuir a primeira força bélica mundial, mas não mais uma hegemonia política sobre aliados e terceiras partes, pois que alienou todos os parceiros tradicionais dos EUA, perdeu credibilidade, por sua insanidade tarifária e toda a diplomacia da brutalidade que desenvolveu neste segundo mandato.
A China, sim, tem várias cartas, e não apenas as terras raras, mas sua preeminência comercial indisputável em praticamente todos os mercados do chamado Sul Global e em vários outros continentes também.
O Brasil não pode, se for sensato, ou se sua diplomacia superar ou impedir os vários equívocos de sua política externa presidencial ultra personalista, se colocar nem no centro, nem à margem da disputa geopolítica entre os dois gigantes de economia mundial. Ele tem de ser absolutamente neutro nessa disputa, na qual ele não pode entrar, e sim aproveitar a situação para se colocar como parte interessada num encaminhamento pacífico e cooperativo desse “grande jogo”, que não contribui em nada para seus interesses e objetivos nacionais, que se situam inteiramente no plano do desenvolvimento, da cooperação tecnológica (inclusive em terceiros mercados, como os africanos e latino-americanos). A política externa lulopetista começou mal 20 anos atrás, ao formar um bloco com duas super potências nucleares, que possuam interesses que não são os seus. O Brics parecia ser um ativo, ao início, mas já se tornou um ponto de contenção para uma diplomacia verdadeiramente autônoma e independente do jogo das grandes potências.


2. O interesse das duas potências no Brasil pode fortalecer o país de alguma forma? E como isso pode influenciar a economia brasileira?

Resposta Paulo Roberto de Almeida: De nenhuma forma, a não ser que as duas potências pretenderiam jogar pelas regras do multilateralismo político e econômico, e pela cooperação benéfica a países em desenvolvimento, pelo menos não é o caso do ponto de vista de Trump (já foi dos EUA, em outras épocas). A China joga pelas regras multilaterais, mas não é uma aderente total a essas regras, do contrário nunca poderia apoiar a usurpação pela força do território de um Estado soberano, como ocorre no caso da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia. Mas ela o faz devido ao claro unilateralismo, arrogância e estupidez (não existe outra palavra) dos EUA, que focam a China como um adversário, o que ele nunca foi, e que insistem em manter uma preeminência imposta, não mais admitida pela maioria dos países.
Do ponto de vista da economia brasileira pode haver alguma “vantagem” (muito duvidosa) em alguma barganha para concessões ou ganhos setoriais, numa disputa entre os dois grandes por mercados ou investimentos. Mas esse é um jogo para o qual o Brasil ainda não está muito preparado, pois precisaria ter grandes projetos de investimentos (em infraestrutura, tecnologia e outros) prontos para serem barganhados, o que ainda não é o caso, sequer em terras raras, pois não tem mapeamento adequado.
Do ponto de vista geoeconômico ou estratégico, não há nenhum interesse em se imiscuir em disputas que não lhe dizem respeito, a não ser no caso de um continente rico em matérias primas, energia, recursos naturais, mas atualmente o Brasil sequer possui capacidade de realizar coordenação e consultas políticas com os outros sul-americanos para entrar nesse tipo de disputa. Em linguagem popular, não é o caso de entrar em “briga de cachorro grande”, quando não se tem o mínimo de condições de apresentar um “portfólio” de grandes interesses estratégicos, num continente marginal aos centros dinâmicos do mundo, que se situam na Eurásia terrestre e nos oceanos Pacífico e Índico.


3. A China é um dos principais afetados pelo fechamento do Estreito de Hormuz. Acredita que os EUA tentariam de alguma forma negociar alguma questão para se beneficiar? O Brasil pode ter algum papel nessa negociação...talvez indiretamente?

Resposta Paulo Roberto de Almeida: Difícil dizer, no plano estrito da relação bilateral China-EUA e na triangulação com o Irã, pois a China também é uma espécie de “conselheira” do Irã em matéria de política externa, mas hoje existe certo vácuo de lideranças no Irã, a despeito de dois moderados na área política (o presidente e o chanceler), mas com uma guarda revolucionária ainda incerta em sua capacidade de defesa e de contenção da insatisfação da população iraniana, reduzida à pobreza agora.
Do ponto de vista do Brasil, não haveria muito a fazer, mesmo se Lula sempre se oferece para ser um “mediador”, mas isso estaria acima de sua capacidade.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5308, 11 maio 2026, 2 p.

Sobre as eleições no vizinho Peru - Paulo Roberto de Almeida

 Sobre as eleições no vizinho Peru

Eu ainda não sei quem vai ser o próximo presidente do Peru, agora no segundo turno com dois candidatos, um de esquerda, como cabe, e outra, de direita, a Keiko Fujimori.
A única coisa que sei é que ele, ou ela, têm grandes chances de terminar na cadeia. Cinco ex-presidentes já foram condenados, e um se suicidou antes de ser preso, já condenado.
Boa sorte amigos peruanos.
Conheci muitos peruanos em meus anos de exílio na Europa, geralmente estudantes refugiados de algum governo militar ou de direita. Um deles me contou a melhor piada sobre Cuba, relativamente às dificuldades históricas do "socialismo cubano" com sua única riqueza legitimamente cubana, a plantação de cana de açúcar e a mobilização de toda a população, estudantes, donas de casa, simples trabalhadores, para cortar cana no braço, já que não havia tratores ou diesel para alimentá-los. O comandante Fidel Castro, então, numa de suas intermináveis arengas, pedia que toda a população se mobilizasse voluntariamente para participar "en la zafra", a única salvação do socialismo nacional.
Os cubanos, tão piadistas quanto os brasileiros, diziam:
"La participación es voluntaria, pero la voluntad es obligatoria!"
Acho que nem isso sobrou do socialismo cubano, agora cercado por um alucinado imperador hemisférico.
Paulo Roberto de Almeida
Porto Ferreira, 13 maio 2026

terça-feira, 12 de maio de 2026

Brasil e México, amigos distantes: a busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010 - Sérgio Abreu e Lima Florencio

 Brasil e México. Amigos Distantes

busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010

 

    Sérgio Abreu e Lima Florencio


Brasil e México têm muitas semelhanças e muitas diferenças. Somos as duas maiores economias da América Latina, as mais industrializadas e as maiores populações. 

Mas o Brasil está entre as economias mais fechadas do mundo, com pouquíssimos Acordos de Livre Comércio, é maior exportador de alimentos do mundo, um dos maiores produtores de petróleo, tem muita dependência do comércio com a Chinauma economia protecionista, e elevada carga tributáriae relação dívida pública/PIB ascendente e próxima de 80%  .

O México é uma economia muito aberta e competitivaexportadora de manufaturas, tem uma vasta rede de Acordos de Livre Comércio, muito dependente dos EUA e baixa carga tributária.

A partir de 2008, os dois países se afirmavam como duas grandes economias emergentes. Isso recomendava a negociação de um Acordo de Livre Comércioentre os dois países. Pelas regras do Mercosul, por ser o México membro da ALADI, o Brasil podia firmar, individualmente, ALC com o México, sem ferir a Tarifa Externa Comum (TEC).

Como Embaixador no México de outubro de 2008 a fevereiro de 2010, procurei construir esse acordo. As resistência eram fortes, mas baseadas em clichês simplistas: o México só pensava no Nafta, e o Brasil só se interessava pelo Mercosul.

O governo brasileiro via de forma positiva um Acordo, como forma de ampliar e aprofundar o ACE 53, em vigor, e que incluía apenas 800 produtos. A CNI, a FIESP apoiavam o Acordo, e, no governo, o Itamaraty e o MDIC também eram favoráveis. Do lado mexicano, havia forte apoio do governo (a Chancelaria,inclusive o Presidente Felipe Calderón), mas era grande a resistência das entidades empresariais, sobretudo do setor agrícola. Encontros entre Lula e Calderon impulsionaram o Acordo. As negociações técnicas avançaram e foram definidos os Termos de Referência para o Acordo Estratégico de Integração Econômica (AEIE). 

O fracasso do projetado Acordo Brasil-México 

Esses intensos esforços foram abortados por falta de vontade política no Brasil e, posteriormente, no México. O Acordo passou a ser visto em nosso país como fator negativo para a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff. Os setores mais radicais do PT, marcados por forte antiamericanismo, condenaram o AcordoA alegação- primária - era ser o México forte aliado dos EUA. Em consequência, os negociadores mexicanos também se desinteressaram. O Acordo foi finalmente sepultado com a eleição de Dilma Rousseff e a volta do PRI no México, com a derrota do  PAN. 

Esse desfecho significou a perda de uma grande oportunidade para os dois países. Naquela época o México tinha mais de 40 Acordos de Livre Comércio, enquanto o Brasil tinha apenas três e muito modestos ( Israel, Autoridade Palestina e Marrocos). O Brasil tem com o México um intercâmbio reduzido, mas importanteporque é quase todo de bens industriais, justamente o setor onde somos menos competitivos. Um ALC certamente ampliaria nossas exportações nesse setor, ao mesmo tempo que aumentaria o acesso do México ao mercado brasileiro. 

Quatro razões para não repetir os erros do passado

Por que lembrar a experiência fracassada de um ALC Brasil - México, de 15 anos atrás?

primeira razão para lembrar é assegurar que o erro do passado não se repita. Ou seja, temos eleições em outubro próximo, está prevista a visita da Presidente Claudia Sheinbaun ao Brasil em 2026, e o tema merece ser examinado com visão estratégica, e não sob o prisma eleitoral, como infelizmente ocorreu em 2010.  

A segunda razão é a busca de novos parceiros. O foco da política comercial do México – o NAFTA, substituído pelo EMCA em 2020 – não tem hoje o dinamismo do passado. Para Brasil, o foco no Mercosul não tem hoje o significado do passado. O México se beneficiou da globalização dos anos 2000, promoveu inserção industrial global e criou um forte setor manufatureiro exportador. O Brasil, com protecionismo industrial, se tornou um gigante exportador em setores relevantes – alimentos, energia e minérios – mas continuou uma economia fechada. 

A segunda razão para estimular maior integração entre as duas economias é que o comércio cresceu em termos absolutos, mas com base em acordos limitados. No início dos anos 2000 foram assinados dois acordos que regem o comércio desde então: o ACE 55, no setor automotivo, e o ACE 53, para um conjunto limitado de bens. Assim, houve aumento expressivo do intercâmbio - entre 2003 a 2021, o comércio bilateral cresceu de US$ 3,6 bilhões para US$ 11 bilhões. Embora expressivo, esse intercâmbio tinha três limites estruturais. 1º) os acordos cobriam parcela pequena do comércio total (o Brasil representa 1,7% das importações mexicanas, e o México corresponde a menos de 1% das exportações brasileira); 2º) O setor automotivo dominava a relação; 3º) crises econômicas no Brasil (2014-2016) e mudanças políticas nos dois país dificultaram o dinamismo comercial.

A terceira razão para promover a integração Brasil- México é a visão mais pragmática da própria integração. Em lugar de buscar um novo acordo, a estratégia atual é menos ambiciosa, mas talvez mais efetiva. Assim, o objetivo é expandir a cobertura tarifária do ACE 53, para além dos modestos 800 produtos, e avançar em acordos setoriais, tais como: 1º) Cooperação em biocombustíveis e energia, com ampliação da parceria Petrobras-Pemex; 2º) Cooperação na área de saúde, sobretudo produção de vacinas; e 3º) Expandir os investimentos. Presença brasileira no México.  Há 716 empresas brasileiras em operação no México. Os setores de logística, automotivo (Iochpe-Maxion e Tupy), e petroquímico ( Braskem). Presença mexicana no Brasil. Grupo Bimbo – um dos maiores grupos alimentícios do mundo, com marcas conhecidas como Pullman, Plus Vita. América Movil – gigante de telecomunicações, com forte presença no Brasil (Claro). O grupo FEMSA/Oxxo, voltaoa para lojas de conveniência.

A quarta razão, Last but no Least, é de ordem geopolítica. A nova Doutrina Donroe tende a reduzir a influência e a importância de Brasil e México na América Latina. A intervenção norte-americana na Venezuela -  com o sequestro do presidente maduro e a defesa de um chavismo pró-EUA – demonstra o fortalecimento de esferas de influência em nossa região. Nesse contexto, apesar da óbvia limitação, uma aproximação entre os governos Lula e Sheinbaun poderia contribuir para contrarrestar essa tendência. Ao mesmo tempo, maior aproximação entre os dois líderes,  caracterizados como de centro-esquerda, poderia reduzir o isolamento do Brasil diante do crescimento da onda conservadora na região.  

Conclusão

A história das relações Brasil-México nos últimos vinte anos traz importantes lições. Primeiro, evitar ganhos eleitorais  de curto prazo que trazem perdas significativas para o aprimoramento da política comercial, como ocorrido no Brasil em 2010. Segundo, ampliar e aprofundar a complementaridade entre empresas em setores específicos. O Brasil exibe grande avanço tecnológico em agropecuária, energia e minérios, enquanto o México é altamente competitivo em manufaturas, telecomunicações e logística. Terceiro, o quadro geopolítico atual recomenda aproximação entre México e Brasil. Com o maior intervencionismo da política de Trump e a tendência às esferas de influência entre as Superpotências, Brasil e México perderam poder na América Latina. Esse fator foi agravado pela expansão de regimes de direita tanto na América do Sul -Argentina, Chile e Venezuela- como na América Central. Uma aproximação entre Brasil e México pode reduzir essas tendências negativas. 

Sergio Florencio.   Rio de Janeiro, 11 de maio de 2026. 


Dúvidas histórico-metafísicas - Paulo Roberto de Almeida

Dúvidas histórico-metafísicas

Paulo Roberto de Almeida 

Teremos um novo 1917 (fevereiro ou outubro?) ou um repeteco de 1991?

Acho que nem um nem outro: a História não se repete, e a Rússia atual é uma caixa de Pandora. 

Certas coisas são melancólicas: pela primeira vez na História, vemos dois impérios que cresceram paralelamente, na confrontação recíproca, sofrerem um desmoronamento involuntário, causado por duas “almas gêmeas”, aliás amigas, mas unidas numa mesma arrogância desmesurada que leva o nome de hubris. Ambas enredadas em conflitos criados pela prepotência habitual dos que se creem muito poderosos.

Um bom motivo para uma reflexão ponderada dos diplomatas brasileiros sobre aquilo que Hegel chamava de “astúcias da História” (ou seriam armadilhas?). Existe alguma lição a tirar? Provavelmente: nunca confie numa grande potência…

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 12/05/2026


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