quinta-feira, 12 de março de 2026

Querem meu paper sobre Capitalism and Freedom, do Milton Friedman, adaptado ao Brazil, para um Economic Journal dos EUA

 Acabo de receber proposta de uma editora de um Economic Journal dos EUA, para publicar um paper meu sobre Milton Friedman aplicado ao Brasil. Meu paper é este:

4959. Capitalism and Freedom in the United States and in Brazil: rereading Milton Friedman’s classic with a Brazilian perspective (Brasília: Diplomatizzando, 2025, 68 p.). English version of the work 4957.

Aqui o contato:

From: NABP Journals journals@nabpress.com

Paulo,
I am reaching out to follow up on the invitation to publish your paper 4959) Capitalism and Freedom in the United States and in Brazil: rereading Milton Friedman’s classic with a Brazilian perspective (2025) in the Journal of Applied Business and Economics.
We are formally opening the review process next week and I wanted to confirm if your paper is still available for review and to check your interest in submitting it. I can provide you with an initial assessment of your paper if you would like to check if it is ready for review before proceeding with the actual submission.
We are looking forward to hearing from you. Please let me know how my team can assist you with the submission process.
Best regards,
Elena Marks
Journal of Applied Business and Economics
North American Business Press
Phone: Call 1-866-624-2458 1-866-624-2458
Fax: Call 1-800-251-0001 1-800-251-0001
Miami, Florida
Toronto, Ontario Canada
Seattle, Washington
Los Angeles, California
North American Business Press, 30 N Gould St, Ste R, Sheridan, WY 82801


Já respondi aceitando a publicação com uma short Introduction minha...
Paulo Roberto de Almeida

Acessos a textos PRA em Academia.edu: indicadores de impacto - Paulo Roberto de Almeida

Acessos a textos PRA em Academia.edu: indicadores de impacto

Compilação efetuada por Paulo Roberto de Almeida
12 de março de 2026; retirado do Analytics da plataforma Academia.edu

O prazo da coleta de estatísticas é de um mês:
Your Impact from February 10, 2026 to March 12, 2026

As estatísticas indicam que minha página teve:
3,205 Views
2,766 Unique Visitors
117 Countries
931 Cities
150 Universities

16,980 Pages Read
Sendo:
Brazil 706
Vietnam 503
The United States 249
China 146
India 92

Das 16,980 páginas lidas, boa parte dos acessos se deu a trabalhos de terceiros, ou seja, textos produzidos por acadêmicos ou instituições independentes de mim, aos quais tive acesso e resolvi disponibilizar. Ainda assim, a grande maioria dos textos lidos são os deste acadêmico, responsável pela página e por vários outros canais de acesso.

Abaixo apresento os papeis mais acessados em minha página do Academia, ou, pelo menos, os mais lidos, nos últimos 30 dias, até 11/03/2026, até o limite de 20 acessos (pois tem dezenas, centenas de outros arquivos, lidos ou acessados, mas abaixo disso).

Most-Read Papers 30-Day Pages
The Military Balance 2023 International Institute for Strategic Studies, 3107
The Military Balance 2024, 2221
Mandate For Leadership: The Conservative Promise - Trump's Mandate 2025-2028, 1737
Embaixadas e Legações do Brasil - Rogerio S. Farias, Frederico A. Ferreira (2019), 1732
Gilberto Amado: memorial lectures, conférences commemoratives (2012), 915
25) Rompendo Fronteiras: a academia pensa a diplomacia (2014), 442
O Itamaraty na Cultura Brasileira (2001), 393
Falacias Academicas: ensaios sobre alguns mitos persistentes (draft book, 2010), 358
11) The Drama of Brazilian Politics: From Dom João to Marina Silva (2014), 353


(...)


Texto integral na plataforma Academia.edu: 

https://www.academia.edu/165109294/5242_Acessos_a_textos_PRA_em_Academia_edu_indicadores_de_impacto_em_fev_mar_2026



A corrupção que vem de cima: nossas elites assaltantes - Paulo Roberto de Almeida

 A corrupção que vem de cima: nossas elites assaltantes
Paulo Roberto de Almeida

 

        Praticamente de forma contemporânea à descoberta do Mensalão — que aliás foi precedido por um outro esquema fraudulento, de loterias, operado pelo mesmo grão-vizir da corrupção petista, José Dirceu, o Richelieu do Planalto —, eu detectei (pois trabalhei de 2003 a 2006 num órgão de planejamento estratégico da União) a transformação das velhas formas de corrupção política, em geral em bases individuais, em formas mais elaboradas de corrupção organizada burocraticamente, em bases partidárias, com o PT no comsndo. Em linguagem marxista, poder-se-ia dizer que o Brasil passou do “modo artesanal de produção de corrupção” para um “modo industrial de produção de corrupção”, com o PT se encarregando de organizar o saque de estatais e de montar a distribuição, aqui repetindo a Crítica do Programa de Gotha, de Marx: “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades”. Parlamentares passaram a receber o mensalão, por vezes bancadas inteiras, como foi o caso do PTB de Roberto Jefferson (que depois foi reclamar a José Dirceu um quinhão mais elevado e acabou denunciando o esquema).

        A origem de tudo foi o PT, mas o Eduardo Cunha, que sozinho valia por meio PT, tratou de socializar o roubo organizado, sob a forma de emendas compulsórias e não contingenciáveis, sob o reinado de Dona Dilma, uma grande idiota. Foi o início do estupro orçamentário das emendas parlamentares, que se tornaram gigantescas, superando até os dois fundos pornográficos, o partidário e o eleitoral, duas grandes aberrações.

        A aristocracia do Judiciário completa a farra com o dinheiro público com a extorsão dos penduricalhos, um assalto à mão armada contra o povo.

        Acho que completei o quadro sinistro da corrupção que vem de cima.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12/03/2026 


Brasilia, 12/03/2026

A estrutura da polarização: Lula, Flávio Bolsonaro e o empate técnico que organiza a disputa presidencial brasileira - Paulo Baía (Agenda do Poder)

A estrutura da polarização: Lula, Flávio Bolsonaro e o empate técnico que organiza a disputa presidencial brasileira

* Paulo Baía
Agenda do Poder, 12/03/2026

A pesquisa nacional realizada pelo instituto Genial/Quaest em março de 2026 constitui um documento sociológico de grande relevância para compreender o estado atual da política brasileira. O levantamento foi realizado entre os dias 6 e 9 de março, com 2.004 entrevistas presenciais realizadas em municípios distribuídos por todas as regiões do país. A amostra foi construída por meio de um desenho probabilístico em múltiplos estágios, envolvendo seleção de municípios, setores censitários e entrevistados, com cotas que reproduzem a distribuição da população brasileira segundo sexo, idade, renda e escolaridade. A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95 por cento.
Esses elementos metodológicos não são apenas detalhes técnicos. Eles são parte fundamental da interpretação sociológica da pesquisa. Um levantamento dessa natureza permite observar, ainda que de forma aproximada, como as clivagens sociais, culturais e políticas se distribuem na sociedade brasileira contemporânea. Mais do que uma fotografia do momento eleitoral, a pesquisa oferece uma espécie de radiografia das forças simbólicas que estruturam o campo político nacional.
Ao analisar os números com atenção, torna-se evidente que o Brasil vive uma configuração política marcada por equilíbrio estrutural entre dois grandes polos eleitorais. Esses polos não se organizam apenas em torno de partidos ou programas. Eles se estruturam ao redor de narrativas políticas que ganharam densidade histórica ao longo das últimas décadas. De um lado está a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, liderança política cuja biografia atravessa quarenta anos da vida pública brasileira. De outro lado emerge a consolidação eleitoral de Flávio Bolsonaro como herdeiro político do movimento que reorganizou a direita brasileira na última década.
A pesquisa revela que a disputa presidencial de 2026 tende a ser organizada por um empate técnico estrutural entre esses dois polos. Esse equilíbrio aparece tanto nos cenários de primeiro turno quanto no confronto direto de segundo turno. A sociedade brasileira encontra-se dividida em dois campos políticos de dimensões semelhantes, intensidade emocional comparável e capacidade equivalente de mobilização eleitoral.
Antes mesmo de apresentar os cenários eleitorais, o levantamento oferece um indicador importante sobre o ambiente político nacional. A avaliação do governo Lula registra 44 por cento de aprovação e 51 por cento de desaprovação. À primeira vista, esse resultado poderia sugerir fragilidade eleitoral do presidente. Entretanto, a análise sociológica mostra que a relação entre avaliação administrativa e preferência eleitoral raramente é linear.
Lideranças políticas que acumulam capital simbólico ao longo do tempo podem preservar bases eleitorais mesmo em momentos de desgaste governamental. O caso de Lula ilustra esse fenômeno com clareza. Sua trajetória política está profundamente entrelaçada com experiências de mobilidade social, expansão de políticas públicas e reconhecimento simbólico de setores historicamente excluídos da esfera do poder.
Essa dimensão simbólica aparece de maneira clara na pergunta espontânea da pesquisa. Quando os entrevistados são convidados a indicar livremente um candidato, Lula aparece com 18 por cento das menções. Flávio Bolsonaro surge com 10 por cento. O dado mais expressivo é a presença de 69 por cento de eleitores que não indicam preferência.
Esse volume de indecisos revela que o processo eleitoral ainda se encontra em fase inicial de consolidação. Em cenários dessa natureza, a campanha tende a desempenhar papel central na definição das escolhas finais. O eleitorado que ainda não possui preferência consolidada torna-se espaço decisivo de disputa política.
Quando se observam os cenários estimulados de primeiro turno, um padrão consistente emerge. Lula lidera todos os cenários testados. No primeiro cenário, registra 37 por cento das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece com 30 por cento. Em seguida surgem Ratinho Júnior com 7 por cento, Romeu Zema com 3 por cento, Renan Santos com 1 por cento e Aldo Rebelo também com 1 por cento.
Esse cenário inicial mostra Lula com vantagem de sete pontos percentuais. Trata-se de uma liderança clara, embora ainda distante de um patamar capaz de assegurar vitória no primeiro turno.
No segundo cenário, Lula aparece com 39 por cento e Flávio Bolsonaro com 32 por cento. Ronaldo Caiado registra 4 por cento. Romeu Zema aparece com 2 por cento, enquanto Renan Santos e Aldo Rebelo mantêm 1 por cento cada.
Nesse quadro, Lula se aproxima da marca simbólica dos quarenta por cento, mas Flávio Bolsonaro também amplia sua presença eleitoral.
No terceiro cenário, a disputa torna-se mais apertada. Lula aparece com 36 por cento e Flávio Bolsonaro com 33 por cento. Eduardo Leite registra 3 por cento. Romeu Zema também aparece com 3 por cento. Renan Santos e Aldo Rebelo surgem com 2 por cento cada.
A diferença entre os dois principais candidatos reduz-se para três pontos percentuais.
No quarto cenário, Lula registra novamente 36 por cento e Flávio Bolsonaro 33 por cento. Ratinho Júnior aparece com 7 por cento. Renan Santos e Aldo Rebelo registram 2 por cento cada.
No quinto cenário, Lula aparece com 37 por cento e Flávio Bolsonaro com 34 por cento. Romeu Zema registra 3 por cento, enquanto Renan Santos e Aldo Rebelo aparecem com 2 por cento cada.
No sexto cenário, Lula registra 36 por cento e Flávio Bolsonaro 34 por cento. Ronaldo Caiado aparece com 4 por cento, enquanto Renan Santos e Aldo Rebelo registram 2 por cento cada.
No sétimo cenário, o quadro torna-se ainda mais apertado. Lula aparece com 36 por cento e Flávio Bolsonaro com 35 por cento. Eduardo Leite registra 3 por cento. Renan Santos e Aldo Rebelo aparecem com 2 por cento cada.
A leitura sociológica desses números revela dois fenômenos simultâneos. Lula mantém piso eleitoral estável, situado entre 36 e 39 por cento. Esse piso representa o núcleo duro do lulismo, formado por eleitores que mantêm identificação histórica com sua trajetória política e com o conjunto de políticas sociais associadas aos governos petistas.
Flávio Bolsonaro apresenta comportamento diferente. Seu desempenho varia entre 30 e 35 por cento. Essa variação indica capacidade de crescimento à medida que o campo conservador se reorganiza.
Esse crescimento progressivo mostra que sua candidatura está não apenas consolidada, mas em processo de expansão política. Ele emerge como figura capaz de concentrar parte significativa do eleitorado conservador brasileiro.
Quando a pesquisa apresenta os cenários de segundo turno, o padrão de equilíbrio torna-se ainda mais evidente. No confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro, ambos registram exatamente 41 por cento das intenções de voto.
Esse empate numérico simboliza o equilíbrio estrutural que caracteriza a polarização brasileira contemporânea.
Quando Lula é testado contra outros nomes da direita, o resultado é diferente. Contra Ratinho Júnior, Lula registra 42 por cento contra 33 por cento. Contra Romeu Zema registra 44 por cento contra 34 por cento. Contra Ronaldo Caiado registra 44 por cento contra 32 por cento.
Contra Eduardo Leite, Lula aparece com 42 por cento contra 26 por cento. Contra Aldo Rebelo registra 44 por cento contra 23 por cento. Contra Renan Santos aparece com 43 por cento contra 24 por cento.
Esses resultados indicam que Flávio Bolsonaro é o único candidato capaz de produzir empate direto com Lula. Esse dado reforça a interpretação de que sua candidatura ocupa posição singular dentro do campo conservador brasileiro.
Outro elemento relevante revelado pela pesquisa refere-se aos índices de rejeição. Os dados indicam que Lula e Flávio Bolsonaro apresentam níveis de rejeição semelhantes. Essa simetria cria uma situação eleitoral peculiar. Nenhum dos dois candidatos possui vantagem clara na capacidade de mobilizar rejeição contra o adversário.
Quando dois candidatos possuem rejeições equivalentes, a disputa tende a tornar-se mais agressiva. Campanhas baseadas em propostas programáticas amplas tornam-se menos prováveis. Em seu lugar, emergem disputas narrativas intensas e confrontos simbólicos.
Nesse ambiente político, temas como violência urbana, segurança pública e corrupção tendem a ocupar posição central no debate eleitoral.
A violência tornou-se presença constante na experiência cotidiana de grande parte da população brasileira. A percepção de insegurança produz ansiedade social e demanda respostas políticas rápidas. O bolsonarismo construiu parte significativa de sua identidade política explorando essa sensação coletiva de ameaça.
Discursos associados ao endurecimento penal, ao fortalecimento das forças policiais e à ampliação da autoridade estatal encontram ressonância em setores importantes do eleitorado.
O campo político associado a Lula tende a responder enfatizando políticas sociais, programas de inclusão e estratégias de prevenção da violência baseadas em políticas públicas estruturais. Esse contraste entre visões de segurança pública cria uma arena de disputa simbólica intensa.
O tema da corrupção também continuará desempenhando papel central na disputa. Ao longo das últimas décadas, denúncias de corrupção tornaram-se elemento estruturante da percepção política brasileira. O bolsonarismo frequentemente mobiliza esse discurso para atacar adversários políticos. O campo lulista responde destacando realizações sociais e criticando o uso político dessas narrativas.
Do ponto de vista psicológico, a polarização produz identidades políticas intensas. Eleitores passam a interpretar a disputa eleitoral como confronto moral entre projetos de sociedade incompatíveis.
O adversário político deixa de ser apenas concorrente eleitoral e passa a ser percebido como ameaça simbólica.
A antropologia política mostra que eleições polarizadas funcionam como rituais coletivos de reafirmação identitária. Grupos sociais utilizam o processo eleitoral para reafirmar valores, memórias e pertencimentos culturais.
Nesse contexto, o voto torna-se gesto simbólico de pertencimento.
A candidatura de Flávio Bolsonaro surge como fenômeno político relevante nesse cenário. Seu desempenho crescente nos cenários de primeiro turno indica que parte significativa do eleitorado conservador o reconhece como herdeiro legítimo do bolsonarismo.
O fato de alcançar até 35 por cento das intenções de voto mostra que sua candidatura possui base social consistente e potencial de crescimento.
Ao mesmo tempo, Lula permanece como liderança singular na história política brasileira. Sua trajetória política continua produzindo identificação em amplos setores populares, especialmente entre eleitores que associam sua figura às experiências de inclusão social e expansão de direitos ocorridas nas primeiras décadas do século XXI.
A eleição de 2026 tende a ser definida nesse espaço de tensão entre duas memórias políticas. De um lado, a memória de um ciclo de governos associado à expansão social. De outro, a memória recente de um movimento político que mobilizou ressentimentos sociais, críticas às instituições e demandas por ordem.
Os números da pesquisa mostram que nenhuma dessas memórias desapareceu. Ambas permanecem vivas e capazes de mobilizar milhões de eleitores.
O Brasil aproxima-se, portanto, de uma eleição que não será apenas disputa administrativa pelo controle do Estado. Será confronto simbólico entre duas narrativas poderosas sobre o país.
Os percentuais revelados pela pesquisa indicam que a sociedade brasileira continua dividida em dois grandes campos políticos de tamanho semelhante.
Esse equilíbrio explica por que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro aparece como empate técnico estrutural em praticamente todos os cenários testados.
A eleição presidencial de 2026 tende a ser uma das mais intensas da história política recente do Brasil.
Mais do que escolher um governante, o país será chamado a decidir qual narrativa política será capaz de interpretar suas angústias, seus conflitos e suas expectativas de futuro.
Entre Lula e Flávio Bolsonaro, o Brasil se aproxima de mais um momento decisivo de sua história política e de república.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ 

A corrupção que vem de cima: nossas elites assaltantes - Miguel Reale e Paulo Roberto de Almeida

A corrupção que vem de cima: nossas elites assaltantes

Miguel Reale e Paulo Roberto de Almeida

 PRA: Praticamente de forma contemporânea à descoberta do Mensalão — que aliás foi precedido por um outro esquema fraudulento, de loterias, operado pelo mesmo grão-vizir da corrupção petista, José Dirceu, o Richelieu do Planalto —, eu detectei (pois trabalhei de 2003 a 2006 num órgão de planejamento estratégico da União) a transformação das velhas formas de corrupção política, em geral em bases individuais, em formas mais elaboradas de corrupção organizada burocraticamente, em bases partidárias, com o PT no comsndo. Em linguagem marxista, poder-se-ia dizer que o Brasil passou do “modo artesanal de produção de corrupção” para um “modo industrial de produção de corrupção”, com o PT se encarregando de organizar o saque de estatais e de montar a distribuição, aqui repetindo a Crítica do Programa de Gotha, de Marx: “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades”. Parlamentares passaram a receber o mensalão, por vezes bancadas inteiras, como foi o caso do PTB de Roberto Jefferson (que depois foi reclamar a José Dirceu um quinhão mais elevado e acabou denunciando o esquema).

A origem de tudo foi o PT, mas o Eduardo Cunha, que sozinho valia por meio PT, tratou de socializar o roubo organizado, sob a forma de emendas compulsórias e não contingenciáveis, sob o reinado de Dona Dilma, uma grande idiota. Foi o início do estupro orçamentário das emendas parlamentares, que se tornaram gigantescas, superando até os dois fundos pornográficos, o partidário e o eleitoral, duas grandes aberrações. 

A aristocracia do Judiciário completa a farra com o dinheiro público com a extorsão dos penduricalhos, um assalto à mão armada contra o povo.

Acho que completei o quadro sinistro da corrupção que vem de cima.

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 12/03/2026

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Walmyr Buzatto: Aí está, exposta de forma clara e insuspeita, a história de como a política brasileira foi sendo degradada a partir da vitória do PT em 2002 até chegarmos ao atual lamaçal. Quem vai tirar a vaca do brejo?

••••••••••••••••••••••••••••••

Tragédia moral

Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo.

07 de mar. de 2026


Com aperto na garganta nos perguntamos se o Brasil tem jeito. A resposta, revestida de muitas dúvidas, exige um retrospecto.


A corrupção como forma de obtenção de apoio parlamentar, antes eventual, se institucionalizou com o mensalão. Minoritário na Câmara dos Deputados, o governo conseguiu a partir de 2003 a adesão de parlamentares de outros partidos mediante a entrega a eles de importâncias contínuas advindas de contratos fraudulentos com empresas de publicidade, gerando o conhecido mensalão. Julgado em 2012 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), resultou na condenação de vários líderes partidários.


Esse processo não teve o condão de intimidar, pois enquanto se desenrolava o julgamento no STF instalou-se o petrolão, com ramificações em outras estatais. Constitui-se um tripé: empresas construtoras, diretores de empresas estatais e agentes políticos de diversos partidos.


Obras e equipamentos adquiridos com sobrepreço geravam, com anuência de diretores de estatais, recursos que eram distribuídos a agentes políticos e partidos, em geral fora de época eleitoral. Dessa forma, garantia-se a manutenção desses diretores e dos contratos sobrefaturados, dando os congressistas de muitos partidos, em contrapartida, apoio ao governo.


Descoberta a trama no Paraná, estabeleceu-se a competência da vara de crimes financeiros, a 13.ª Vara Federal de Curitiba, cujo titular era Sergio Moro – competência esta contestada pelas defesas dos acusados, mas confirmada em instâncias superiores. No STF, chegou-se a dizer (Inq. 4130 QO/PR) haver liame entre os inquéritos da Operação Lava Jato e que, “sejam crimes ligados à Petrobras ou não, estão todos inseridos no mesmo contexto”, revelando um modo de governar de organização criminosa estruturalmente ordenada, sendo talvez o “maior caso de corrupção do mundo”.


Houve diversas colaborações premiadas (delações), que constituem negócios jurídicos processuais penais por via dos quais o Estado, detentor do uso legítimo da força, abre mão de parcela do seu poder de punir para receber em contrapartida confissão acompanhada de provas consistentes, especialmente documentais, do esquema de corrupção. Não é tortura ou constrangimento ilegal, mas ameaça legal, redundando em acordo, acompanhado por grandes advogados, em benefício do delator, de um lado, com pena reduzida ou até impunidade; e da acusação, de outro, por conhecer meios para a obtenção de provas dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.


Mas os responsáveis pela acusação e pelo julgamento se arvoraram em salvadores da Pátria e agiram não como partícipes da administração da justiça, mas como agentes políticos, comprometendo a imparcialidade em inadmissível conluio entre promotor e juiz. Anularam-se processos com base nessa evidente violação do devido processo legal.


Além deste vício do comprometimento do juiz, não houve garantia de incolumidade das provas digitais colhidas. No entanto, não há sentença absolutória ou prova da inverdade da corrupção. Assim, anulados os processos, ou se deu a prescrição ou foram erradamente enviados, pelo STF, à Justiça Eleitoral, em vista de o dinheiro ter sido destinado aos partidos políticos, o que não faz o crime ser eleitoral.


A Justiça Eleitoral, por sua vez, não tem estrutura para se encarregar de maxiprocessos. A apuração dos fatos deixou, então, de ser feita e prevaleceu a narrativa falsa de nada ter havido. A impunidade venceu, apesar de as provas estarem depositadas nos processos paralisados. A permissividade ganhou espaço.


O apoio político, antes alcançado pelos contratos fraudulentos do mensalão ou do petrolão, passou a ser adquirido graças a outra forma de apropriação, as emendas parlamentares, por via das quais os congressistas abocanham R$ 60 bilhões da receita disponível, ganhando trunfos nos seus redutos eleitorais, financiando a compra de tratores (com muitos desvios de verbas), a construção de estradas, pinturas de escolas, sem planejamento da administração pública, com obras soltas no varejo.


O clima do vale-tudo passou a prevalecer e o exercício da influência se espalhou, atingindo até mesmo a advocacia, pois o advogado passou a valer não por seu conhecimento e sua arte argumentativa, mas por sua capacidade de interferência no gabinete de ministros. A advocacia passou a ser lobbycacia.


O ápice desta tragédia moral deu-se no caso Banco Master, dirigido por quem soube explorar as fragilidades e vaidades, trazendo para seu campo aqueles que poderiam agir em seu benefício, inclusive comprometendo, segundo consta, autoridades em festas de arromba, instalando a Farra Futebol Clube.


O arcabouço político está corroído, palco de comércio, e a responsabilidade em grande parte se deve ao Aí está, exposta de forma clara e insuspeita, a história de como a política brasileira foi sendo degradada a partir da vitória do PT em 2002 até chegarmos ao atual lamaçal. Quem vai tirar a vaca do brejo?


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Tragédia moral

Miguel Reale Júnior


O Estado de S. Paulo.

07 de mar. de 2026


Com aperto na garganta nos perguntamos se o Brasil tem jeito. A resposta, revestida de muitas dúvidas, exige um retrospecto.


A corrupção como forma de obtenção de apoio parlamentar, antes eventual, se institucionalizou com o mensalão. Minoritário na Câmara dos Deputados, o governo conseguiu a partir de 2003 a adesão de parlamentares de outros partidos mediante a entrega a eles de importâncias contínuas advindas de contratos fraudulentos com empresas de publicidade, gerando o conhecido mensalão. Julgado em 2012 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), resultou na condenação de vários líderes partidários.


Esse processo não teve o condão de intimidar, pois enquanto se desenrolava o julgamento no STF instalou-se o petrolão, com ramificações em outras estatais. Constitui-se um tripé: empresas construtoras, diretores de empresas estatais e agentes políticos de diversos partidos.


Obras e equipamentos adquiridos com sobrepreço geravam, com anuência de diretores de estatais, recursos que eram distribuídos a agentes políticos e partidos, em geral fora de época eleitoral. Dessa forma, garantia-se a manutenção desses diretores e dos contratos sobrefaturados, dando os congressistas de muitos partidos, em contrapartida, apoio ao governo.


Descoberta a trama no Paraná, estabeleceu-se a competência da vara de crimes financeiros, a 13.ª Vara Federal de Curitiba, cujo titular era Sergio Moro – competência esta contestada pelas defesas dos acusados, mas confirmada em instâncias superiores. No STF, chegou-se a dizer (Inq. 4130 QO/PR) haver liame entre os inquéritos da Operação Lava Jato e que, “sejam crimes ligados à Petrobras ou não, estão todos inseridos no mesmo contexto”, revelando um modo de governar de organização criminosa estruturalmente ordenada, sendo talvez o “maior caso de corrupção do mundo”.


Houve diversas colaborações premiadas (delações), que constituem negócios jurídicos processuais penais por via dos quais o Estado, detentor do uso legítimo da força, abre mão de parcela do seu poder de punir para receber em contrapartida confissão acompanhada de provas consistentes, especialmente documentais, do esquema de corrupção. Não é tortura ou constrangimento ilegal, mas ameaça legal, redundando em acordo, acompanhado por grandes advogados, em benefício do delator, de um lado, com pena reduzida ou até impunidade; e da acusação, de outro, por conhecer meios para a obtenção de provas dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.


Mas os responsáveis pela acusação e pelo julgamento se arvoraram em salvadores da Pátria e agiram não como partícipes da administração da justiça, mas como agentes políticos, comprometendo a imparcialidade em inadmissível conluio entre promotor e juiz. Anularam-se processos com base nessa evidente violação do devido processo legal.


Além deste vício do comprometimento do juiz, não houve garantia de incolumidade das provas digitais colhidas. No entanto, não há sentença absolutória ou prova da inverdade da corrupção. Assim, anulados os processos, ou se deu a prescrição ou foram erradamente enviados, pelo STF, à Justiça Eleitoral, em vista de o dinheiro ter sido destinado aos partidos políticos, o que não faz o crime ser eleitoral.


A Justiça Eleitoral, por sua vez, não tem estrutura para se encarregar de maxiprocessos. A apuração dos fatos deixou, então, de ser feita e prevaleceu a narrativa falsa de nada ter havido. A impunidade venceu, apesar de as provas estarem depositadas nos processos paralisados. A permissividade ganhou espaço.


O apoio político, antes alcançado pelos contratos fraudulentos do mensalão ou do petrolão, passou a ser adquirido graças a outra forma de apropriação, as emendas parlamentares, por via das quais os congressistas abocanham R$ 60 bilhões da receita disponível, ganhando trunfos nos seus redutos eleitorais, financiando a compra de tratores (com muitos desvios de verbas), a construção de estradas, pinturas de escolas, sem planejamento da administração pública, com obras soltas no varejo.


O clima do vale-tudo passou a prevalecer e o exercício da influência se espalhou, atingindo até mesmo a advocacia, pois o advogado passou a valer não por seu conhecimento e sua arte argumentativa, mas por sua capacidade de interferência no gabinete de ministros. A advocacia passou a ser lobbycacia.


O ápice desta tragédia moral deu-se no caso Banco Master, dirigido por quem soube explorar as fragilidades e vaidades, trazendo para seu campo aqueles que poderiam agir em seu benefício, inclusive comprometendo, segundo consta, autoridades em festas de arromba, instalando a Farra Futebol Clube.


O arcabouço político está corroído, palco de comércio, e a responsabilidade em grande parte se deve ao presidencialismo de cooptação e ao sistema eleitoral, que não atuam em favor da instalação de lealdades políticas, pois indutores da compra e venda de apoio. Não há adesão a programas de governo e à prevalência do interesse público.


O Brasil depende novamente de sua pujante sociedade civil, que deve exigir correções do disfuncional sistema político. • de cooptação e ao sistema eleitoral, que não atuam em favor da instalação de lealdades políticas, pois indutores da compra e venda de apoio. Não há adesão a programas de governo e à prevalência do interesse público.

O Brasil depende novamente de sua pujante sociedade civil, que deve exigir correções do disfuncional sistema político. •

O BRICS é um Frankestein de um inexistente Sul Global - Paulo Roberto de Almeida

 Pensando fora da caixinha 

(como é meu hábito desde que ingressei no Itamaraty):

O BRICS é uma espécie de Frankenstein de um inexistente Sul Global, começando pelo fato de que, dos cinco países do acrônimo, só dois são (ou seriam) desse Sul não global; os outros três são do Norte, todos eles nucleares, à diferença dos outros dois.

Como é que o Brasil foi se meter numa encrenca dessas, e para o quê, exatamente? 

Deve ser de gente muito necessitada de palanque para tornar uma proposta de oportunidade de investimentos financeiros de retornos interessantes para grandes fundos institucionais em um bloco diplomático sem qualquer convergência doutrinal ou interesses comuns, a não ser o desejo de chutar o pau da barraca do velho G7. 

Paulo Roberto de Almeida 

Brasilia, 12/03/2026

quarta-feira, 11 de março de 2026

Opinião: Por uma política de Estado para investimentos - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Por uma política de Estado para investimentos
A ausência de uma política industrial e tecnológica de médio e longo prazos, resultado da falta de planejamento e previsibilidade, explica o enfraquecimento da indústria nacional
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 10/03/2026

Além das dificuldades do governo de implementar políticas macroeconômicas, em especial, para diminuir o risco de uma crise fiscal e reduzir a taxa de juros, a falta de uma política de Estado para os investimentos no Brasil está gerando problemas em setores críticos nas áreas de defesa, infraestrutura, comunicações, tecnologia e inteligência artificial, entre muitos outros.
A ausência de uma política industrial e tecnológica de médio e longo prazos, resultado da falta de planejamento e previsibilidade, explica o enfraquecimento da indústria nacional. Sem diretrizes claras, o custo Brasil impede o investimento em inovação tecnológica, capacitação de mão de obra e expansão produtiva, comprometendo a competitividade e a sustentabilidade no longo prazo.
Na área ferroviária, a indústria nacional perdeu recentemente todas as concorrências públicas e aquisições: de 24 trens de passageiros para Belo Horizonte fabricados na China (Consórcio Comporte CRRC); de 44 trens para o Metrô de São Paulo; 62 carros de passageiros para a Vale (2024); e 2 locomotivas (China); além dos 22 trens da Concessionária Trem Intercidades (TIC) São Paulo-Campinas, que inclui a operação da Linha 7-Rubi.
Essa perda existe pela falta de isonomia tributária, fazendo com que a indústria nacional perca contratos relevantes para concorrentes estrangeiros em razão do desequilíbrio tributário imposto pelos processos licitatórios públicos; pelo pregão eletrônico reverso, que, utilizado em licitações de grande porte, permite práticas predatórias. Empresas estrangeiras, especialmente chinesas, contam com apoio estatal que lhes possibilita ofertar preços abaixo do custo, inviáveis para a indústria nacional – por ex-tarifários indevidos, obtidos por empresas utilizando narrativas das condições de prazo e preço para benefícios que não deveriam ser concedidos, distorcendo a concorrência e prejudicando o setor brasileiro.
Na prática, empresas estrangeiras operam com respaldo de governos que subsidiam perdas, prática que inviabiliza a sobrevivência da indústria nacional. Com isso, milhares de empregos e renda deixaram de beneficiar a população brasileira, além dos prejuízos de arrecadação para os cofres públicos. A produção de 128 trens pela indústria nacional poderia ter gerado mais de 22 mil empregos diretos e indiretos no Brasil (sendo cerca de 20 mil no Estado de São Paulo), além de representar um aumento estimado de R$ 2,5 bilhões na massa salarial do País.
Na linha da falta de políticas na área de infraestrutura, 50% do volume de produtos agrícolas exportados pelo Brasil é embarcado pelos portos do Arco Norte Miritituba, Barcarena e Santarém. Todos os portos estão enfrentando gargalos cada ano mais sérios, pelo aumento da produção exportável, em razão dos problemas de melhoria e conservação das estradas que levam até os terminais. A ausência de uma política nacional de hidrovias fica evidente com as marchas e contramarchas nas concessões de hidrovias no Arco Norte, o que pode dificultar ainda mais o escoamento da produção agrícola. Essa situação se repete também no sul, como no Porto de Santos, agravada agora com a possibilidade de proibição da participação de armadores nacionais no principal leilão portuário da história recente, o do terminal de contêineres de Santos. A deficiência na infraestrutura se manifesta também na falta de armazenagem para acolher as crescentes safras e evitar perdas.
A ausência de políticas de Estado para investimentos pode também ser detectada, entre outros setores vulneráveis, na exploração de minérios críticos, na área de defesa, no setor elétrico, na infraestrutura digital e na construção de data centers, com a incerteza de aprovação da Redata, que previa incentivos para sua instalação.
Complementando esse quadro, com um comércio exterior que ultrapassa US$ 0,5 trilhão, chegou a hora de pensar na criação de um Eximbank brasileiro, para o apoio de financiamento das exportações industriais.
A ausência de uma política clara nessas áreas ficará ainda mais evidente com a entrada em vigência do Acordo Mercosul-União Europeia. A baixa competitividade da indústria brasileira, resultado de prioridades equivocadas e de ausência de vontade política para reduzir o custo Brasil, tornará difícil o acesso de produtos nacionais ao mercado europeu, mesmo com tarifa zero, para competir com companhias coreanas, chinesas, japonesas e mesmo europeias.
As oportunidades que o acordo com a União Europeia oferecerá para atrair investimentos em áreas de interesse brasileiro exigirão uma nova política para dar isonomia às empresas nacionais. Para permitir igualdade de condições, a empresa estrangeira que queira se estabelecer no Brasil deveria negociar com empresas nacionais joint ventures e associações, cumprindo, desde o início, as regras de conteúdo nacional estabelecidas pelo governo e pelo BNDES. Além de uma clara política de investimentos e de incremento na competitividade, para evitar o que ocorreu com a imposição e o recuo nos impostos de importação no setor eletro-eletrônico, em casos específicos e bem definidos as medidas de salvaguardas e de antidumping deveriam ser aplicadas em setores estratégicos para o País, com critérios objetivos e sem influência política.

PRESIDENTE DO GRUPO INTERESSE NACIONAL, É MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/por-uma-politica-de-estado-para-investimentos/

Não é de hoje que os russos massacram os ucranianos - Paulo Roberto de Almeida (Diplomatizzando)

 Não é de hoje que os russos massacram os ucranianos:


- Em ordem cronológica, postagens no blog Diplomatizzando atreladas ao "Holodomor" ("A Grande Fome" ucraniana, em um período que a Ucrânia pertencia à URSS stalinista) com o respectivo link:

Holodomor (A Grande Fome) - o genocídio de milhões de ucranianos através da fome pelo regime stalinista:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/holodomor-grande-fome-o-genocidio-de.html

Dossiê Holodomor - o genocídio ucraniano por Stalin:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/dossie-holodomor-o-genocidio-ucraniano.html

Não é de hoje que a Ucrânia sofre sob ataques da Rússia. Uma Ucrânia de uma outra era - a do stalinismo ascendente:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/05/a-eterna-guerra-de-agressao-da-russia.html

Holodomor: o genocídio ucraniano por Stalin.
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/10/algumas-das-minhas-melhores-postagens.html#:~:text=bbc.html%0A%0A%3D%3D%3D-,Holodomor,-%3A%20o%20genoc%C3%ADdio%20ucraniano

O FORTALECIMENTO DA BASE INDUSTRIAL DE DEFESA E SEGURANÇA COMO EIXO DA SOBERANIA E DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL - Embaixador Jorio Dauster

O FORTALECIMENTO DA BASE INDUSTRIAL DE DEFESA E SEGURANÇA COMO EIXO DA SOBERANIA E DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL


O embaixador Jorio Dauster efetuou uma palestra em 10/03/2026 no Departamento de Defesa e Segurança da FIESP sobre as vulnerabilidades do Brasil e a necessidade de urgente fortalecimento da Base Industrial de Defesa. [PRA: o link para o texto mencionado logo ao início figura ao final.]



Em carta aberta à nação com o título de “Brasil, país indefeso”, publicada no número de dezembro da revista Inteligência/Insight, eu e o embaixador Rubens Barbosa afirmamos que o mundo surgido em 1945, depois da Segunda Guerra Mundial, favoreceu o liberalismo econômico, a livre iniciativa, a globalização e as instituições multilaterais. Mas tudo mudou com a chegada pela segunda vez de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, pois ele vem desmontando sistematicamente essa ordem mundial e utilizando de forma abusiva recursos comerciais a fim de sujeitar antigos aliados e adversários políticos.
Não bastasse isso, Trump mais recentemente passou a empregar todo o imenso poderio bélico dos Estados Unidos para sequestrar o chefe de Estado venezuelano e atacar o Irã em parceria com Israel. Por mais criticáveis que sejam esses dois alvos, não podemos aceitar tranquilamente o desrespeito ao princípio da soberania nacional e às normas da convivência entre nações. O fato inexorável é que, a partir de então, passou a imperar neste novo mundo a lei da selva e que o Brasil precisa com urgência rever sua política de defesa e suas posturas diplomáticas de modo a se adaptar a esses tempos turbulentos.
O Brasil não pode continuar a ser um país indefeso.
Numa breve porém esclarecedora perspectiva histórica, podemos ver que o mundo ocidental já conheceu três períodos em que uma nação exerceu papel hegemônico sobre as demais. A chamada Pax Romana durou do reinado de Augusto, em 27 a.C., ao reinado de Marco Aurélio, até 180 d.C. Tivemos bem depois a Pax Britannica, que durou de 1815, com o fim das guerras napoleônicas e o Congresso de Viena, até o início do século XX, período em que a poderosa marinha da Grã-Bretanha sustentou o império em que o sol nunca se punha. Finalmente tivemos a Pax Americana em que os Estados Unidos exibiram uma posição ambígua: por um lado, exerceram o chamado “soft power” ao liderar a criação de uma série de organismos internacionais que davam certa organicidade ao relacionamento entre as nações; por outro lado, aplicaram o “hard power” ao atuar como gendarme mundial, executando diversas incursões militares e travando guerras na Coreia, no Vietnã, no Golfo, no Afeganistão e no Iraque (várias delas, cumpre notar, com resultados negativos).
O que estamos vivendo hoje é uma fase perigosa em que essa hegemonia norte-americana se vê fortemente ameaçada pelo poderio nuclear da Rússia e, mais relevante, pela ascensão extraordinária da China à condição de superpotência no curtíssimo espaço histórico de um quarto de século. Esse declínio da supremacia dos Estados Unidos, que Trump tenta deter inclusive mediante a destruição do sistema multilateral, conduz ao que eu costumo chamar de Segunda Grande Guerra Fria, em que, como ocorre no encontro entre placas tectônicas, vamos conviver por um período de tempo impossível de estimar com terremotos, vulcões e tsunamis geopolíticos.
Na realidade, o país pacífico que somos já nem se recorda da única guerra que lutou contra o Paraguai, nos idos de 1865. Todos os nossos conflitos de fronteiras foram resolvidos em entendimentos bilaterais ou por arbitragem sobretudo ao longo do século XIX. Com tal pano de fundo, não admira a falta de uma cultura de defesa no Brasil equivalente àquela que existe nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, cujos povos verteram e ainda vertem muito sangue nos campos de batalha. Ademais, os 21 anos de autoritarismo e numerosas intervenções militares na política interna contribuíram para empanar a inquestionável importância das forças armadas na vida nacional. É compreensível, portanto, que durante o período de hegemonia norte-americana o Brasil passasse a depender quase inteiramente de material bélico comprado dos Estados Unidos e de outros países da OTAN, não se esforçando de modo efetivo para criar uma indústria nacional de defesa que lhe concedesse qualquer capacidade de proteção autônoma.
As vulnerabilidades do Brasil ficam evidentes quando se pensa na inexistência de meios adequados para assegurar a soberania nacional na defesa das fronteiras, para proteger as plataformas de petróleo no imenso mar territorial, para impedir eventuais ambições externas sobre os extraordinários recursos biológicos, minerais e hídricos na Amazônia, para defender o país de ataques cibernéticos e para preservar as comunicações privadas e governamentais (inclusive militares) dependentes de satélites operados por companhias estrangeiras.
Ademais, existe hoje uma série de novas ameaças que precisamos enfrentar, como o tráfico de armas e de drogas, o terrorismo e a guerra cibernética. E, a esses velhos e novos desafios, vem se somar agora o impacto da Inteligência Artificial, capaz de substituir os recursos humanos em numerosas funções militares e até mesmo em definições estratégicas, como estamos vendo ocorrer no Irã. Se o Brasil não dispuser de capacidade para utilizar as novas tecnologias e a IA, estará em grande desvantagem no que tange ao seu poder de dissuasão perante outras nações.
Não obstante, para um observador desavisado pareceria que nosso sistema de proteção armada é muito bem amparado pois o Ministério da Defesa recebe a quarta maior dotação da Esplanada, com fabulosos 141,9 bilhões de reais no orçamento do ano em curso que representam cerca de 6% do total. Mas, na realidade, os gastos discricionários correspondem a pouco mais de 10% desse montante porque uma grande parcela do resto é consumida com pessoal e encargos sociais, sobretudo inativos e pensionistas. Em números aproximados, as três forças têm 350 mil homens e mulheres na ativa, 170 mil como inativos remunerados e 250 mil como pensionistas (das quais 140 mil são filhas de militares falecidos que até há pouco tinham direito a pensões vitalícias caso permanecessem solteiras e não tivessem empregos públicos). Quando comparadas essas cifras com os cerca de 25% gastos nos Estados Unidos com salários e pensões no orçamento do seu Ministério da Defesa, é fácil entender porque nossas forças armadas são hoje muito mais um instrumento de amparo social do que uma máquina bélica.
Diante dessa carência de recursos para fins de investimento, recentemente foram liberados cerca de R$ 30 bilhões adicionais para as Forças Armadas ao longo de cinco anos, com recursos fora da meta fiscal e protegidos de contingenciamentos. Esses fundos deverão ser alocados em projetos prioritários que estão com seus cronogramas de implantação muito atrasados, porém tais valores são irrisórios e, infelizmente, agravam o desequilíbrio das contas públicas por não se submeterem às já pouco confiáveis metas fiscais.
Assim, fica claro que é necessário criar uma agenda positiva para o setor de defesa que envolva medidas de curto, médio e longo prazo, mas cujo primeiro e fundamental obstáculo consiste em responder à pergunta que se faz qualquer executivo no setor privado: com que recursos posso contar a fim de expandir minha parcela no mercado, desenvolver uma nova linha de produção ou construir mais uma planta para a empresa? E uma coisa é óbvia: as Forças Armadas brasileiras NÃO PODEM contar com verbas orçamentárias para responder aos múltiplos desafios acima listados pois já absorvem parcela muito substancial de um orçamento público que precisa atender aos imperiosos reclamos sociais em matéria de saúde, moradia, transporte e segurança na vida cotidiana de milhões de cidadãos.
De onde virão então os bilhões de reais por ano que se fazem necessários? A sabedoria popular há muito respondeu: do couro sai a correia. Isso significa simplesmente que as próprias Forças Armadas terão de gerar uma parte adicional dos recursos de que necessitam para investir em seu fortalecimento. E isso exigirá uma nova mentalidade no governo e no Ministério da Defesa, porém principalmente no seio do alto comando das três forças, que precisarão se mirar no exemplo do grande brigadeiro Ozires Silva cuja visão de empreendedor nos brindou com a criação desse orgulho nacional que é a EMBRAER.
Do ponto de vista instrumental, já existem hoje empresas controladas pelas três forças que podem perfeitamente servir para gerar os lucros a serem empregados por elas próprias, tais como a ENDEFORTE, no caso do Exército, e a EMGEPROM, no caso da Marinha, sem prejuízo de que outras sejam estabelecidas se e quando necessário. Ademais, é fundamental que os recursos que venham a ser obtidos por essas atividades empresariais não caiam na vala comum da Receita Federal, o que tornará necessária, mediante legislação específica, a implantação de fundos que garantam o uso desses recursos apenas para fins de investimento no setor de defesa.
Mas as Forças Armadas de nenhum país podem existir num vazio econômico ou apenas com algumas empresas estatais, uma vez que, sem o suporte de uma ampla estrutura produtiva interna, acabariam sendo meros instrumentos ancilares das potências que lhes forneçam equipamentos e insumos logísticos. Tendo em vista o necessário propósito de obter o máximo de autonomia possível, como ocorreu na Turquia no curto período de dez anos, as Forças Armadas devem associar-se a empresas privadas nacionais que já compõem e venham a fortalecer nossa Base Industrial de Defesa, podendo igualmente fazer o mesmo com empresas estrangeiras que transfiram tecnologia para o Brasil e/ou garantam mercados no exterior. Além disso, o Governo deveria estimular, como faz o da Índia, a criação de “joint ventures” entre empresas brasileiras, que entrem com o capital, e estrangeiras, que tragam tecnologia, a fim de aqui produzir materiais de defesa. Esse foi o modelo pelo qual a Taurus, levando apenas seu “know-how” e ficando com 49% do capital de uma empresa destinada a produzir de pistolas a fuzis, se associou a um dos maiores conglomerados de aço da Índia para criar uma fábrica já em operação naquele país.
Mas o que temos hoje efetivamente como Base Industrial de Defesa? Seu conceito foi estabelecido pela primeira vez na Política Nacional de Defesa (PND) de 2005, que a definiu como “o conjunto das empresas estatais e privadas, bem como organizações civis e militares, que participem de uma ou mais das etapas de pesquisa, desenvolvimento, produção, distribuição e manutenção de produtos estratégicos de defesa”. Outros textos oficiais, como a Estratégia Nacional de Defesa (END), atualizada com frequência, vinculam a BID não só ao planejamento da defesa nacional, mas também ao desenvolvimento econômico e ao avanço tecnológico do setor produtivo pois os investimentos no setor resultam em crescimento econômico, maiores exportações e geração de empregos qualificados graças ao alto valor agregado e componente tecnológico dos produtos de defesa, gerando spillovers de inovação para toda a indústria nacional. Entre os pontos de destaque para desenvolver a BID, a END coloca o domínio de tecnologias duais e a importância da tríplice hélice – governo, setor privado e academia. A END também identificou três setores estratégicos: espacial, cibernético e nuclear, ainda muito carentes de avanços significativos.
A Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil é composta por cerca de 80 empresas exportadoras e algumas outras, tanto públicas quanto privadas, especializadas em pesquisa, desenvolvimento e manutenção de equipamentos estratégicos, contribuindo com cerca de 3,5% do PIB. Exemplos notáveis incluem a Embraer, Taurus, Helibras, CBC e Ares. O setor gera aproximadamente 3 milhões de empregos diretos e indiretos, com efeito multiplicador sobre outros segmentos industriais. Apesar dessas cifras positivas, o número de empresas ativas no setor é ainda muito pequeno e suas áreas de atuação demasiado restritas diante do que seria necessário para superar as múltiplas vulnerabilidades apontadas anteriormente.
Nessas condições, como medida preliminar e imediata, é essencial que o programa de compras de equipamento militar no exterior seja totalmente repensado de modo a beneficiar os produtores nacionais que aqui geram renda e emprego. Não faz sentido que as três forças continuem eternamente a manter em Washington e Londres comissões de compra de equipamentos com a presença de dezenas de oficiais e praças, gastando milhões de dólares anuais para manter caras estruturas quando sem dúvida uma parcela crescente dessas aquisições necessita ser substituída por produtos nacionais.
Como eventuais medidas restritivas nesse novo mundo poderão ser aplicadas a diversas tecnologias inseridas em produtos que adquirimos no exterior, é igualmente imprescindível que as Forças Armadas, valendo-se de nossas universidades e centros de pesquisa, concentrem sua atenção em produtos de uso dual como equipamentos de telecomunicação e de tecnologia da informação, produtos eletrônicos, chips, sensores e lasers. O Governo, juntamente com o setor privado, precisa desenvolver uma infraestrutura própria de armazenamento de dados e de comunicação para eliminar a dependência de empresas estrangeiras, uma vez que o país não está preparado para responder à ameaça cibernética no tocante à segurança e proteção de dados sensíveis. O Centro de Defesa Cibernética, no âmbito do Exército, deveria interagir com o Banco Central, ministérios e empresas privadas, desde bancos até cadeias de bens de consumo, para melhorar a capacidade de defesa contra os ataques de hackers que, como se viu em outros países, podem afetar a infraestrutura de energia, de transporte das cidades e mesmo a segurança nacional. Neste setor em que as ações do governo têm sido historicamente muito insatisfatórias, vale destacar o importante papel que vem sendo desempenhado pela FINEP no apoio ao desenvolvimento tecnológico da indústria de defesa com crédito barato e até mesmo recursos não reembolsáveis.
Na definição das novas estratégias que devem comandar a cooperação entre as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa, é necessário também que o Governo dê solução definitiva aos conhecidos problemas de tributação do setor, eliminando as vantagens de que gozam atualmente os produtos importados nas licitações de armamentos mesmo que isso implique modificações na Constituição. Cumpre igualmente aperfeiçoar os mecanismos de financiamento pelo BNDES das exportações das empresas que compõem a Base Industrial de Defesa, hoje fortemente concentradas nas vendas externas de produtos da EMBRAER tais como o KC-390 e os Super Tucanos. Nesse sentido, como pude observar nos 11 anos em que ocupei a presidência do Conselho de Administração da Taurus, muitos governos estrangeiros preferem adquirir armas no Brasil por saberem que elas não estarão sujeitas a eventuais (e prováveis) condicionamentos arbitrários quando seus fornecedores são potências com mutáveis interesses geopolíticos.
Por fim, e com o objetivo de mostrar que não estamos tratando de metas ilusórias, relaciono a seguir, a título de mero exemplo, algumas atividades que no curto prazo poderiam gerar substanciais recursos de investimento. Para as Forças Armadas como um todo, a monetização das imensas áreas por elas ocupadas em todo o território nacional e que já não têm utilidade estratégica, matéria de que trato no meu projeto intitulado MODERFAR (disponível para quem tiver interesse no assunto). No caso do Exército, a venda de créditos de carbono das vastas florestas atualmente sob sua jurisdição. No caso da Marinha, a exploração de minerais no fundo do oceano em diversas áreas já identificadas no nosso mar territorial. No caso da Aeronáutica, o lançamento oneroso de satélites na Base de Alcântara.
Em conclusão – e voltando ao artigo que mencionei no início da palestra –, reitero que um país com mais de 210 milhões de habitantes e de dimensões continentais não pode e não deve se dar ao luxo de ignorar as vulnerabilidades em áreas estratégicas que podem afetar seus interesses concretos e prejudicar seu desenvolvimento. Urge uma discussão franca entre o setor privado e o Governo para a definição de estratégias a fim de que o Brasil ganhe autonomia em áreas essenciais e reduza ou elimine a dependência externa em segmentos críticos para resguardar a segurança do país. A Base Industrial de Defesa precisa ser vista como uma prioridade pelo Governo e principalmente pelas próprias Forças Armadas. Num mundo em rápida mutação, a grande maioria dos países está colocando seus interesses nacionais acima de alinhamentos automáticos com base na ideologia ou na geopolítica. Esse é o caminho mais seguro para o Brasil nos próximos meses e anos.


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Segue o link para acessar o número da revista Insight/Inteligência em que consta, como artigo de capa, a Carta Aberta à Nação redigida pelos embaixadores Jorio Dauster e Rubens Barbosa com o título “Brasil, país indefeso”:
https://insightinteligencia.com.br/pdfs/111.pdf

Brasil tem 10 anos para ficar rico antes de envelhecer, alerta McKinsey

 Uma leitura imprescindível...

Este relatório da McKinsey deveria ser leitura obrigatória para todos os pré-candidatos presidenciais no Brasil...e para todos os pensadores que estudam as perspectivas de desenvolvimento brasileiro (não é, meus caros interlocutores na criação de uma think tank brasileiro voltado para a Política Internacional...) (Mauricio David)

...A América Latina tem condições de competir com a China. Só que, hoje, essa
competição se dá em países como México, não o Brasil. O Brasil, hoje, é mais
caro pela carga tributária, pela logística e pelo fato de que muitas das nossas
fábricas são obsoletas do ponto de vista de processo produtivo...

Brasil tem 10 anos para ficar rico antes de envelhecer, alerta McKinsey
https://www.mckinsey.com/br/en/our-insights

País, assim como América Latina, precisa de ganhos de produtividade para ter
crescimento sustentável, aponta relatório
Anaïs Fernandes

O Brasil, assim como a América Latina, mas ainda mais do que ela, vive sua
última chance de ficar rico antes de ficar velho; e, se não investir em ganhos
de produtividade e em setores estratégicos, corre o risco de ficar para trás na
atração de investimentos à região. Esses são os alertas de Nelson Ferreira,
sócio sênior da McKinsey, ao comentar relatório da consultoria sobre
produtividade na América Latina, antecipado ao Valor.
A América Latina como região, talvez, tenha uma das últimas chances nos
próximos dez, 15 anos de ficar rica antes de ficar velha. E o Brasil ainda mais.
No Brasil, talvez não sejam 15 anos, talvez sejam dez anos, afirma Ferreira,
explicando que a população brasileira já é mais idosa e cresce menos do que
em pares como Peru e Bolívia.
Com o Brasil chegando ao fim do bônus demográfico, o crescimento da
produtividade precisará vir através de investimentos em capital físico e
humano. A produtividade do trabalho no Brasil, porém, cresce menos de 1% ao
ano há mais de uma década, segundo a McKinsey, enquanto outras economias
próximas avançam perto de 2%.
A perda de relevância da América Latina para a economia global, sobretudo
nos últimos 15 anos, é generalizada, segundo Ferreira. "A América Latina tem
cerca de 7,5% da população mundial e já foi 7% do PIB global; hoje, é 6%. E,
se continuar com a mesma taxa de crescimento, em 2050, será 3,5% , diz.
A baixa produtividade é um indicador dessa situação complicada, como
define Ferreira. Ele aponta que, enquanto outras economias emergentes
crescem, em média, 3,4% ao ano, a América Latina cresce 2,3%. Disso, 1,5
ponto percentual (p.p.) vem do crescimento da população, e apenas 0,8 p.p.,
da produtividade, sendo que a produtividade do capital acrescenta 0,9 p.p.,
mas a da mão de obra retira 0,1 p.p. "Um trabalhador na América Latina, hoje,
produz quase a mesma coisa ou até um pouco menos do que ele produzia no
começo de século, afirma Ferreira.
Apesar do quadro desafiador, a McKinsey aponta oportunidades. Existem
diversas tendências mundiais ligadas, por exemplo, ao aumento do consumo
de proteínas, à transição energética, à necessidade de digitalização e de novos
polos de industrialização que podem tornar a América Latina - e o Brasil, se ele
se preparar para isso - quase "campeã natural,em algumas dessas áreas,
sugere Ferreira.
O custo atual de produção de eletrônicos e da indústria automotiva no México e
na América Central, por exemplo, é comparável ou até inferior ao da China, diz
o executivo. Um terço das principais empresas de equipamentos médicos que
exportam aos Estados Unidos está na Costa Rica, ela já é um hub
exportador;, exemplifica. A região tem 58% das reservas de lítio e 35% das
reservas de cobre, minerais fundamentais para a transição energética, afirma.
Ao todo, são sete os setores mapeados pela McKinsey em que a América
Latina deveria concentrar investimentos: manufatura de próxima geração, para
Inteligência Artificial (IA) e automação; energias renováveis, não só para
geração de energia em si, mas de produtos químicos e outros derivados;
serviços digitais e digitalização da economia; centros de dados; agricultura e
alimentos; combustíveis fósseis, que vão continuar importantes por um tempo;
e minerais críticos.
Esses são os sete setores em que nós enxergamos que a região pode ter um
papel de bastante destaque mundial. E, em vários deles, o Brasil se sobressai,
como em energia renovável, digitalização, agricultura, destino para data
centers - até pela base de energia renovável e hidrelétrica - e minerais críticos
afirma Ferreira.
Juntas, essas indústrias podem trazer cerca de US$ 400 bilhões em receitas
para o Brasil até 2040, calcula a McKinsey. Para a região como um todo, se ela
conseguir crescer nesses segmentos e trazer todos os serviços necessários
para essas indústrias funcionarem, a McKinsey estima que o PIB pode sair de
US$ 6,5 trilhões para US$ 10,5 trilhões até 2040.
Isso é importante porque, com US$ 10,5 trilhões, a região passa a ter uma
renda per capita da ordem de US$ 15 mil, que é mais ou menos o limite inferior
para entrar no patamar da OCDE, diz Ferreira, em referência à Organização
para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, uma espécie de clube
dos países ricos.
Segundo ele, o Brasil, por exemplo, tem uma renda per capita de US$ 10 mil,
mas muito heterogênea entre seus Estados. O Brasil, assim como a América
Latina, poderia ter renda superior a US$ 15 mil e, aí sim, apesar de todos os
problemas, poderíamos ter um nível mínimo de renda média compatível com
países mais desenvolvidos.
Para alcançar essas cifras e investimentos nos setores mapeados, a McKinsey
sugere quatro ações aos países da América Latina.
A primeira é a diversificação de parceiros comerciais e de investimentos. Tem
de ir para Índia, Canadá, Japão, Sudeste Asiático, e não ficar apenas nessa
bipolaridade de China e EUA, diz Ferreira.
A segunda é a integração dentro da própria região. A América Central, por
exemplo, tem taxas de crescimento comparáveis às do Sudeste Asiático e
países vivendo boom similar ao do Brasil após o Plano Real, mas não está na
agenda das empresas brasileiras, diz Ferreira. Mas deveria estar, afirma,
citando como exemplos Guatemala, Honduras, Panamá e República
Dominicana.
O terceiro ponto engloba avanços necessários em regulamentação. Ainda
temos na região, e no Brasil em particular, complexidades regulatórias e
tributárias que afugentam investidores locais e estrangeiros, diz Ferreira.
Por fim, a McKinsey aponta ser preciso atrair talentos internacionais - e, nesse
quesito, até que o Brasil está em um momento de ascensão, segundo o
executivo.
Um trunfo para atrair investimentos é que a América Latina é, talvez, a região
mais geopoliticamente neutra do mundo, diz Ferreira, o que é especialmente
importante em tempos de multiplicação de conflitos como os atuais. Mas o
Brasil pode perder investimentos para o México e a América Central, por
exemplo, se permanecer caro e atrasado, alerta a McKinsey. A taxa média de
investimento no Brasil entre 1997 e 2022 foi de 18% do PIB, abaixo da média
regional de 19,7%, aponta o relatório.A América Latina tem condições de competir com a China. Só que, hoje, essa
competição se dá em países como México, não o Brasil. O Brasil, hoje, é mais
caro pela carga tributária, pela logística e pelo fato de que muitas das nossas
fábricas são obsoletas do ponto de vista de processo produtivo, afirma
Ferreira. O Brasil tem um risco de perder essa onda de investimentos que vão
vir para a região, para México e Costa Rica, por exemplo, alerta.
Segundo ele, reformas são necessárias, como a redução dos gastos públicos,
que ajuda na queda dos juros, tornando investimentos mais atrativos. Além
disso, diz, é preciso avançar em desburocratização e na consolidação da
reforma tributária. Em relação aos setores mencionados, é preciso ter uma
visão de longo prazo do que o Brasil quer ser. Para os setores em que
podemos ser donos naturais globais, não há, necessariamente, visão clara do
que o Brasil gostaria de ser em 2035, afirma. Setor privado e governo
poderiam ajudar a articular isso.
A inteligência artificial também será chave para o ganho de produtividade,
segundo Ferreira. A IA permite com que nós consigamos dar saltos de
produtividade de mão de obra no agronegócio, na indústria e nos serviços, para
fazer com que aquela produtividade que caiu nos últimos 25 anos na região
passe a subir de novo. Têm segmentos da construção civil, infraestrutura,
manufatura fabril e mesmo do agronegócio que ainda estão engatinhando na
utilização de IA, diz Ferreira.
O Brasil tem potencial nessa área por ser uma das sociedades mais
digitalizadas do mundo, observa. "Essa é uma das principais prioridades que o
país deveria ter em todos os setores para efetivamente buscar saltos grandes
de produtividade, afirma Ferreira.
Talvez, seja nossa última chance de investirmos nesses setores, usarmos
esses setores para virarmos a chave da produtividade, não crescermos apenas
pelo crescimento populacional, mas pela produtividade da mão de obra e do
equipamento, conclui.

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