domingo, 12 de maio de 2019

Crônicas do limbo: depois de breve intervalo, um novo retorno - Paulo Roberto de Almeida

Crônica de um novo limbo? De volta ao deserto na diplomacia

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: exposição recapitulativa; finalidade: informação pública]


Estou iniciando uma nova travessia do deserto, que não sei quanto tempo vai durar, como tampouco sabia, na primeira oportunidade, quanto enfrentei a minha primeira travessia do deserto no Itamaraty, em 2003, ao início do regime lulopetista no Brasil. No início daquele ano, convidado que fui para dirigir o curso de Mestrado em Diplomacia do Instituto Rio Branco (do qual já era professor orientador desde seu começo, em 2001), tive meu nome vetado pela direção do Itamaraty (SG e chanceler), mas não desconfiava que meu exílio interior demoraria TODO o regime lulopetista.
Pois é, de 2003 ao impeachment de Madame Pasadena, em meados de 2016, eu NUNCA tive qualquer cargo na Secretaria de Estado: trabalhei em outras áreas, fiz um serviço provisório na China, tirei licença para dar aulas na Sorbonne, e finalmente aceitei um cargo secundário num pequeno consulado nos EUA, apenas para voltar ao mesmo limbo ao final de 2015. 
Finalmente, depois que se iniciou o impeachment da desastrosa presidente que nos levou ao que já chamei de Grande Destruição lulopetista da economia, foi sinalizada minha reincorporação ao serviço ativo na diplomacia, o que se confirmou em agosto de 2016, ao ter sido oficialmente designado diretor do IPRI, órgão subsidiário da Fundação Alexandre de Gusmão, e que combinava basicamente com meus pendores acadêmicos e anarquistas. Foi bom enquanto durou, de agosto de 2016 ao Carnaval (4 de março mais exatamente) de 2019, quando fui exonerado por um pequeno chanceler autoritário. 
Nunca me intimidei com exercícios de arbítrio e de autoritarismo, e nunca recuei na defesa de certas ideias, mesmo contrariando e me contrapondo à instituição à qual pertenço de desde 1977 (por concurso direto). 
Durante os treze anos e meio de minha travessia do deserto sob o lulopetismo, um exílio involuntário da diplomacia, o dobro do tempo de meu exílio voluntário sob a ditadura durante o regime militar, eu nunca deixei de trabalhar, nos meus temas profissionais e intelectuais, escrevendo vários livros e muitos artigos, a maior parte dos quais redigidos na Biblioteca do Itamaraty, meu habitat natural e onde fiz o meu "escritório" de trabalho.
Não sei quanto tempo vai durar o meu novo exílio diplomático, uma travessia do deserto que pode durar todo mandado (espero que único) do bolsonarismo, dominado, ao que parece, por uma banda louca de olavistas fanáticos e fundamentalistas de direita, que não cesso de denunciar.
Durante aquele primeiro exílio diplomático, comparei minha situação à dos "atingidos" – na literatura teológica do cristianismo – pelo chamado limbo, que depois foi eliminado, como locus da cartografia do Vaticano, em algum momento dos anos 1990 ou 2000. Gosto da designação de "limbo", que é uma espécie de "u-topia", cuja etiologia quer dizer "lugar nenhum". Por isso dou início, agora a uma nova série de "crônicas do limbo", remetendo, em primeiro lugar, a um texto que redigi ao final daquela travessia do deserto de 13,5 anos sob o lulopetismo. Ele foi escrito entre o início e a conclusão do processo de impeachment, daí o título interrogativo, ou dubitativo, pois outro poderia ter sido o resultado do processo, para o qual, aliás, se esforçaram não só os militantes do lulopetismo, mas alguns membros da própria Suprema Corte, que atuaram de forma inconstitucional para tentar salvar a desastrosa presidente.

Estou postando novamente esse texto, como abaixo, antes de dar continuidade às minhas novas "Crônicas do Limbo". Aguardem...
 Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 13 de maio de 2019
131 anos desde a Abolição da Escravidão no Brasil



Crônica final de um limbo imaginário?

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 1 de julho de 2016

O que é o limbo? Limbo, segundo os dicionários, representa, na teologia cristã, uma região entre a terra e o inferno, um refúgio para as almas dos homens bons, que viveram antes da chegada de Cristo, ao qual também estavam destinadas as almas das crianças não batizadas.
Num sentido civil, pode aproximar-se de uma espécie de prisão, ou confinamento. No sentido mais comum do termo, seria um lugar ou a condição de negligência, ou de esquecimento, aos quais seriam relegadas coisas ou pessoas não desejadas.
Enfim, estas são as definições que retirei do Webster's New Universal Unabridged Dictionary (2nd edition; New York: Simon and Schuster, 1979): podem conferir na p. 1.049.
Entretanto, parece que a própria teologia cristã abandonou esse conceito, que deve ter sido inventado em algum momento especialmente inovador do cristianismo primitivo, para dar conta daquelas situações ambíguas, nas quais o sujeito, ou a criança, nem merecia o fogo do inferno, nem estava habilitada a gozar das delícias do paraíso. Não sei sob qual papa foi adotada essa supressão totalmente inconveniente, pois eu teria vontade de protestar, mesmo a posteriori. Não se faz isso com cidadãos desajustados, filósofos heterodoxos, almas inquietas, contestadores profissionais, como podem ser os anarco-libertários como eu.
Mas, se os teólogos acabaram com o limbo, para onde irão as almas nem tão penadas assim, nem tampouco virtuosas, que ficam sem escolha (ou sem destino) entre o inferno e o paraíso? Situação complicada para seres controversos, como este que aqui escreve, nem tão corporativo para merecer a confiança de colegas de guilda, nem tão contestador para merecer degredo ou banimento. Não se pode planar eternamente na estratosfera, inclusive porque ela é rarefeita (e não tem canal de notícias nem internet, para nada dizer de uma grande biblioteca e de uma boa ducha, sem esquecer café expresso).

Pois bem. Creio que estou chegando ao final de meu limbo institucional, ou seja, uma longa travessia do deserto no qual estive, não necessariamente em prisão fechada, mas numa espécie de confinamento, do mesmo tipo daquele que se reserva a pessoas que atuam, pensam ou reagem de maneira diferente, razão pela qual elas devem ser encaminhadas ao deserto (mas também pode ser uma espécie de cerrado, mato agreste, ou qualquer outra situação denotando uma condição áspera, difícil, de isolamento ou de dificuldade, enfim, ostracismo total). Não foi de todo mau: pelo menos não me colocaram tornozeleira eletrônica, o que por sinal me habilitou a andar por aí, leve, livre e solto (mas com mesada reduzida), podendo falar o que queria, sans Dieu, ni Maître...
Não me decidi ainda, sobre o que vou fazer agora que estou fora do limbo (que confesso nem sei onde ficava, mas ele era uma condição de espírito, não uma situação geográfica), mas, de todo modo e desde já, vou tratar de adotar uma atitude de cautela, pela qual todas as minhas ações serão cientificamente calculadas, e depois registradas, para ver se não volto a cometer alguma bobagem que me habilite a enfrentar um novo limbo, numa nova fase, tanto profissional, quanto acadêmica ou pessoal. Uma coisa é certa, não vou deixar de escrever, ainda que com tinta invisível, como convém em certas situações...
Sempre acreditei que as pessoas são responsáveis, em grande medida (senão totalmente), pelo seu próprio destino, na medida em que fazem escolhas, adotam posturas, assumem atitudes que as colocam em maior ou menor conformidade com o seu meio social, com o seu ambiente profissional, com o seu universo de relacionamentos e de interações. Elas são (eu sou) o resultado de suas (minhas) próprias escolhas, ainda que outras pessoas possam ter contribuído, direta ou indiretamente, para a sua (minha) própria condição.
Não cabem remorsos, ou lamentações, ainda que exercícios de reflexão e revisões críticas de trajetórias passadas (e presentes) sejam sempre desejáveis, na perspectiva de corrigir o que estava (ou ainda está) errado e impulsionar caminhos mais atrativos, ou interessantes. Cabe, talvez, estabelecer algum plano de trabalho para enfrentar os desafios futuros, não mais os anos de travessia de algum deserto particular, mas as novas planícies e planaltos que convidam a uma serena caminhada. Com GPS é mais fácil chegar, mas vou continuar lendo enquanto caminho.
Terminando, e resumindo, confesso que a palavra limbo talvez não seja adequada, uma vez que nunca deixei de trabalhar, e de socializar meus pensamentos, reflexões, escritos e outras formas de verbalização do que penso (sobretudo numa era na qual os meios de comunicação são tão fartos, tão fáceis, tão baratos). A palavra representa, em todo caso, um conceito útil para definir o fim de uma etapa e o início de outra, esperando que eu não retorne a essas paragens tão desconhecidas quanto imaginárias, em busca de algum destino mais apropriado.
Vale!

Brasília, 1 de julho de 2016.


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