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sábado, 17 de janeiro de 2026

O Brasil diante da Doutrina Donroe - Demétrio Magnolli (Folha de S. Paulo)

 OPINIÃO

DIPLOMACIA BRASILEIRA
O Brasil diante da Doutrina Donroe
Demétrio Magnolli
Folha de S. Paulo, 16/01/2026
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2026/01/o-brasil-diante-da-doutrina-donroe.shtml

O Corolário Trump da Doutrina Monroe, já batizado como Doutrina Donroe, solicita uma revisão integral da política externa brasileira. No plano dos paradigmas, a resposta ao neoimperialismo é a adesão ativa às leis internacionais –ou seja, ao conceito de soberania nacional inscrito na Carta da ONU.
O Brasil jura, noite e dia, seu compromisso com o direito internacional –mas não o pratica na hora H. O governo Lula esqueceu o princípio da soberania nacional na hora da invasão russa da Ucrânia, multiplicando gestos de solidariedade a Putin apenas disfarçados por uma débil condenação protocolar. A duplicidade precisa desaparecer: a oposição às agressões imperiais de Trump exigem igual oposição às de Putin.
A Doutrina Donroe sintetiza uma política de esferas de influência que agrada à Rússia e à China. Sob o farol de Celso Amorim, o Brasil passou a utilizar a expressão "multipolaridade" como álibi para oferecer apoio às ambições russas e chinesas, além de vergonhoso silêncio sobre o massacre de manifestantes no Irã. A aposta nos Brics, um bloco liderado por Xi Jinping e Putin, tornou-se mais que um equívoco sobre valores: no contexto da Donroe, coloca-nos em posição precária diante dos EUA. Uma política externa soberana solicita distância estratégica das três grandes potências.
O acordo de livre comércio Mercosul-UE não poderia ter sido concluído em momento melhor. No plano geopolítico, representa uma resposta enfática ao protecionismo tarifário dos EUA e, ademais, uma via para reduzir nossa dependência em relação ao comércio e aos investimentos chineses. Há que explorar as potencialidades estratégicas descortinadas pela parceria. A Europa apega-se ao direito internacional para proteger-se da Rússia e, agora, também dos EUA. Eis aí uma base de cooperação na esfera da política externa.
Os europeus enfrentam o risco de anexação da Groenlândia pelos EUA. O Brasil assiste à instalação de bases americanas em países vizinhos, à imposição de um protetorado na Venezuela e a ameaças de intervenção no Panamá, em Cuba e na Colômbia. O princípio da soberania nacional deveria ser erguido, conjuntamente, pela Europa e pelo Brasil. A palavra certa é "multilateralismo", não "multipolaridade".
Soberania nacional é bem mais que um conceito territorial. A violação "soberana" dos direitos humanos por regimes ditatoriais agride os princípios que, constitucionalmente, regem nossa política externa. Por isso, o complemento da soberania nacional é a soberania popular. Quando, finalmente, o Brasil pedirá eleições livres na Venezuela, contrariando Trump e Delcy Rodríguez, sua marionete chavista?
Gustavo Petro, da Colômbia, assinou um manifesto de intelectuais contra a intervenção dos EUA na Venezuela. Faria melhor se confrontasse o narcotráfico baseado no seu país. O Brasil ensaia emendas constitucionais sobre o crime organizado. Palavras ao vento, no ano eleitoral. O governo não precisa de legislação nova ou ministério específico para coordenar operações financeiras, policiais e militares destinadas a quebrar as estruturas das facções.
A recuperação da soberania territorial, nas metrópoles e nas fronteiras amazônicas, um tema vital de segurança interna, tornou-se um imperativo de segurança externa. Não é o momento de oferecer álibis ao neoimperialismo da Doutrina Donroe.

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