Uma bisneta de D. Pedro II morreu numa câmara de gás nazista.
O sangue imperial brasileiro foi apagado pela máquina de eugenia de Hitler. Essa é a história quase esquecida de Maria Karoline de Saxe-Coburgo-Gota.
Em 6 de junho de 1941, a princesa Maria Karoline, bisneta de D. Pedro II, era assassinada numa câmara de gás nazista no Centro de Extermínio de Hartheim, em Alkoven, Áustria. A tragédia de Maria Karoline de Saxe-Coburgo-Gota-Koháry é quase desconhecida pelo público brasileiro. Filha de D. Augusto Leopoldo, o “príncipe marinheiro”, ela teve a vida ceifada aos 42 anos. Nasceu em 10 de janeiro de 1899, em Pula, na atual Croácia, então parte do Império Austro-Húngaro. Era fruto da união de seu pai com a prima, a arquiduquesa Karoline Marie da Áustria.
A criança foi registrada como uma princesa brasileira no exílio. Seus avós paternos eram a princesa D. Leopoldina do Brasil e o príncipe D. Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Koháry. Logo nos primeiros anos, constatou-se que a pequena Maria Karoline tinha deficiência intelectual, possivelmente devido ao grau de consanguinidade de seus pais. Como o casamento não era considerado uma opção para ela devido à sua condição, foi mantida sempre próxima à mãe.
Seu pai, o príncipe D. Augusto Leopoldo, nasceu no Rio de Janeiro em 6 de dezembro de 1867 e foi neto de D. Pedro II. Ele sempre manteve a esperança de retornar ao Brasil com a esposa e os filhos, mas o Decreto do Banimento de 1889 impedia isso. Faleceu em 11 de outubro de 1922, em Schladming, Áustria, aos 54 anos, no ano seguinte à revogação da Lei do Banimento, permitindo assim aos Orleans e Bragança voltarem ao país. Ele morreu doente e não conseguiu realizar o sonho de rever o Brasil.
A princesa tinha 23 anos quando o pai morreu e seu quadro psicológico foi piorando com o tempo. Após a Primeira Guerra Mundial e com o fim dos impérios alemão e austro-húngaro, a família sobreviveu da herança Koháry e se mudou para Schladming, nos Alpes austríacos.
Até 1938, Maria Karoline permaneceu com a mãe e a irmã Leopoldine no Haus Coburgo. Após o Anschluss(a anexação da Áustria pela Alemanha nazista), a mãe e Leopoldine fugiram para Budapeste, a pedido do irmão Philipp Josias. Por causa da saúde frágil, Maria Karoline ficou para trás e foi enviada para o Hospital de Salzburg, em Lehnen, especializado em “doenças neurológicas” e dirigido por freiras.
O diretor médico era Dr. Leo Wolfer, e seu filho Dr. Heinrich Wolfer chefiava a ala masculina e a divisão de doenças hereditárias. Heinrich era membro da SS e chefe do escritório local de higiene racial, conhecido por esterilizar pacientes com deficiência para “impedir a transmissão hereditária”.
Em 1939 foi aprovado o programa Aktion T4, a “eutanásia” nazista, que autorizava o extermínio em massa de pessoas consideradas “incuráveis” e “indignas de viver”. Em 21 de maio de 1941, Maria Karoline foi uma das 86 pacientes transferidas do Hospital de Salzburg para o Hospital Niedernhart, em Linz. De lá, em 6 de junho de 1941, foi levada para o Schloss Hartheim. Nesse mesmo dia, foi morta com monóxido de carbono na câmara de gás, junto com outros pacientes. Os nazistas chamavam isso de “misericórdia”.
Só em Hartheim, entre maio de 1940 e agosto de 1941, 18.269 pessoas foram mortas na primeira fase da Aktion T4. No total, estima-se 30 mil vítimas no local, incluindo deficientes, doentes e prisioneiros de campos de concentração. O corpo de Maria Karoline foi cremado e as cinzas jogadas no Danúbio. A mãe recebeu apenas uma carta afirmando “causas naturais”. Seu nome só apareceu depois nas listas de cremados de Hartheim como “Maria Saxe-Coburgo”. Sem túmulo, a arquiduquesa mandou gravar o nome da filha numa placa no mausoléu da família, na Igreja de Santo Agostinho, em Coburgo.
Maria Karoline nasceu princesa, bisneta de um imperador, neta de uma princesa do Brasil. Morreu como número, reduzida a “vida indigna de ser vivida”. O sangue de D. Pedro II, que governou o maior império das Américas, terminou dissolvido nas águas do Danúbio, sem lápide, sem luto, sem justiça. Maria Karoline não teve funeral. Teve apenas a fumaça da câmara de gás e o silêncio que a história brasileira teimou em manter por décadas. Uma princesa brasileira, morta pelo mesmo veneno ideológico que dizimou milhões. E até hoje, poucos sabem seu nome.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Princesa Maria de Saxe-Coburgo e Gotha. Ateliê Helene Zimmerauer, Viena, VI., Rua Gumpendorfer 23. Colorizado por Rainhas Trágicas.