Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Neste preciso momento, manhã da segunda-feira 23 de maio de 2016, ouço, leio, vejo que uma nova fase da Operação Lava Jato, a 29a., acaba de ser deslanchada em Brasília e Pernambuco, com detenções de pessoas ainda não identificadas.
Mas, peraí, a 29a. fase já existia, e tinha detido um parente indireto do chefão da quadrilha, por causa de operações angolanas...
Meu cômputo das operações até aqui, algumas sem nome, e por isso não listadas, é o seguinte:
Fases da Operação Lava Jato 2014: 1. Lava Jato; (...)
7. Juízo Final
2015: 9. My Way;
10. Que pais é esse?;
11 A Origem; (...)
14 Erga Omnes;
15. Conexão Monaco; Operação Politeia (políticos: Fernando Collor);
16 Radioatividade;
17. Pixuleco;
18 Pixuleco 2;
19 Nessum Dorma;
20. Corrosão;
21 Passe Livre (+ Delcídio Amaral; Operação Catilinárias; Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Fernando Collor;
2016: 22. Triplo X;
23. Acarajé (João Santana e Dona Xepa);
24 Aletheia;
25. Polimento;
26. Xepa;
27. Carbono 14;
28 Vitoria de Pirro (Gim Argelo);
29. Janus (sobrinho da primeira mulher do Lula: Taiguara Rodrigues dos Santos. operações em Angola); nova fase da MESMA (?) operação em 23/05/2016 com prisões em Brasília e Pernambuco.
Bate coração, quando é que vamos chegar no chefão?
Só na 35a. fase?
Paulo Roberto de Almeida
Uma imagem vale mais que cem palavras, diz o provérbio chinês; e uma
ação vale por cem imagens, poder-se-ia complementar. E, no entanto, na
diplomacia, as palavras podem ter grande peso.
A combinação das palavras com as ações em matéria de política externa, que se ouviram ou viram até aqui, inspira preocupação.
É até compreensível que o novo chanceler do governo interino defenda o
processo que o guindou ao cargo, amplamente criticado no mundo, ainda
que uma grande parte da população brasileira considere tal processo
ilegítimo.
E não estamos falando apenas dos militantes do PT e do PC do B, mas de
artistas e intelectuais, que, de maneira intuitiva, interpretam a alma
do povo. Certamente, a imagem da equipe do filme "Aquarius", estampada
pela Folha em sua primeira página da edição de quarta-feira (18),
contrasta, inclusive por sua diversidade, com as figuras cinzentas que
aparecem na cerimônia de posse do presidente interino.
Evaristo Sá -18.maio.2016/AFP
Novo chanceler brasileiro, José Serra, em seu escritório no Itamaraty, Brasília
Por um momento, ao vê-las, com os áulicos de ontem e de sempre, fui
transportado aos eventos palacianos do tempo do governo militar, quando
não se viam mulheres, negros ou jovens.
O que assistimos no Itamaraty guarda semelhança com esse quadro mais amplo.
Em suas primeiras ações, o novo chanceler
disse a que veio: com palavras incomumente duras, que fazem lembrar os
comunicados do tempo da ditadura, como a acusação de que governos de
países da nossa região estariam empenhados em "propagar falsidades", as notas divulgadas
(aliás, estranhamente atribuídas ao Ministério das Relações Exteriores e
não ao governo brasileiro, como de praxe, com o intuito provável de
enfatizar a autoria) atacam governos de países amigos do Brasil, ameaçam
veladamente o corte da cooperação técnica a uma pequena nação pobre da
América Central e acusam o secretário-geral da Unasul (União das Nações
Sul-Americanas), um ex-presidente colombiano, eleito pela unanimidade
dos membros que constituem a organização, de extrapolar suas funções.
Um misto de prepotência e de arrogância pode ser lido nas entrelinhas,
como se o Brasil fosse diferente e melhor do que nossos irmãos
latino-americanos.
Talvez, por prudência (ou temor do sócio maior dessa entidade), as notas
evitaram palavras equivalentes sobre a OEA (Organização dos Estados
Americanos), a despeito das expressões críticas do seu secretário-geral e
da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Até o momento,
eximiu-se de manifestar-se sobre as preocupações expressadas pela
pequena, mas altiva Costa Rica, insuspeita de bolivarianismo.
Mas o que mais preocupa é o afã em diferenciar-se de governos
anteriores, acusados de ação partidária, como se esta só existisse na
esquerda do espectro político. Quando o partido é de direita, e as
opções seguem a cartilha do neoliberalismo, não haveria partidarismo.
Tratar-se-ia de políticas de Estado.
Há muito que "especialistas", cujos discursos são ecoados pela grande
mídia, acusam de "partidária" a política externa dos governos Lula e
Dilma, esquecendo-se que muitas de suas iniciativas foram objeto de
respeito e admiração pelo mundo afora, como a própria Unasul
—aparentemente desprezada pelos ocupantes atuais do poder— os Brics
(Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul; sem os quais não teria
havido a primeira reforma real, ainda que modesta, do sistema de cotas
do FMI e do Banco Mundial) e o G-20 da OMC (Organização Mundial do
Comércio), que mudou de forma definitiva o padrão das negociações em
nível global.
Ao mesmo tempo, busca-se derreter o Mercosul, retirando-lhe seu
"coração", a União Aduaneira (para tomar emprestado uma metáfora do
presidente Tabaré Vasquez).
Em matéria comercial, o afã em aderir a mega-acordos regionais do tipo do TPP (a Parceria Transpacífico
) denota total ignorância das cláusulas, que cerceiam possibilidades de
políticas soberanas (no campo industrial, ambiental e de saúde, entre
outros).
Chega a ser espantoso que alguém que se bateu, com coragem e firmeza,
pelo direito de usar licenças compulsórias para garantir a produção de
genéricos, não esteja informado da existência de cláusulas, intituladas
enganosamente de Trips plus (na verdade, do nosso ponto de vista, seriam
Trips minus), que, de forma mais ou menos disfarçada, reduzem a
latitude para o uso de tais medidas, no momento em que comissões de alto
nível criadas pelo secretário-geral da ONU alertam para o risco de
debilitar a Declaração de Doha sobre Propriedade Intelectual e Saúde,
consagrada pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, aprovada
pelos chefes de Estado na 20ª Assembleia Geral da ONU.
A África, de onde provém metade da população brasileira e onde os
negócios do Brasil cresceram exponencialmente —sem falar na importância
estratégica do continente africano para a segurança do Atlântico Sul-
ficará em segundo plano, sob a ótica de um pragmatismo imediatista.
Sobre os Brics, o Ibas (Índia, Brasil e África do Sul), as relações com
os árabes, uma menção en passant. Esqueça-se a multipolaridade, viva a
hegemonia unipolar do pós-Guerra Fria. Nada de atitudes independentes.
A Declaração de Teerã, por meio da qual o Brasil, com a Turquia (e a
pedido reiterado do presidente Barack Obama, diga-se de passagem)
mostrou que uma solução negociada era possível, completou seis anos, no
dia 17 de maio. Na época, foi exaltada por especialistas das mais
variadas partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos. Porém causou
horror aos defensores do bom-mocismo medíocre em nosso país.
Mas as elites não terão mais nada a temer. Nenhuma atitude desassombrada
desse tipo voltará a ser tomada. O Brasil voltará ao cantinho pequeno
de onde nunca deveria ter saído.
CELSO AMORIM, diplomata de carreira, foi ministro das Relações Exteriores (governos Itamar e Lula) e da Defesa (governo Dilma).
PT assaltou o Brasil
Ronaldo Caiado, Senador (GO) Folha de S. Paulo, Sábado, 21 de maio de 2016
Como era previsível, o PT, na sua primeira semana de retorno à oposição, fez cobranças ao novo governo com a autoridade de quem se presume vítima – e não réu – dos delitos expostos.
O país está arruinado. Os números da economia são bem piores do que se imaginava. As contas ainda não estão inteiramente levantadas, já que o governo deposto – e o termo é esse, pois ninguém de bom senso cogita vê-lo de volta – se recusou a providenciar o processo de transição.
Tal recusa a um procedimento meramente técnico equivale a uma confissão de crime, que os números confirmam. Não há outra expressão: o PT assaltou os brasileiros, dilapidou o Estado, deixou atrás de si um rastro de destruição.
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, chegou a um deficit estratosférico: R$ 120 bilhões. Logo na sequência, porém, o ministro do Planejamento, Romero Jucá, constatou que o rombo é maior: R$ 160 bilhões.
Nenhum desses levantamentos incluiu a novidade que se anunciou na quarta-feira: as perdas da Eletrobras, suspensa pela Bolsa de Nova York por não apresentar o balanço auditado de 2014. A perda imediata é de R$ 40 bilhões, mas pode aumentar, já que o escritório Hogan Lovells, que investiga a estatal brasileira, ainda não chegou ao fim da linha. Segundo a agência Reuters, "a cada apuração feita, encontram-se novos indícios de irregularidades que estimulam novas investigações".
A Eletrobras é uma das muitas caixas-pretas a serem abertas – como BNDES, Dnit, Caixa Econômica, Banco do Brasil, fundos de pensão. Como se diz na roça, "a cada enxadada, uma minhoca".
Na Petrobras, os prejuízos são de R$ 42 bilhões – mas os danos são bem maiores. Além de ter perdido a oportunidade de leiloar mais de 40 áreas do pré-sal, quando o barril valia US$ 120, vende agora todos os ativos a preço de banana. É, hoje, a empresa mais endividada do mundo.
Outra descoberta assombrosa relaciona-se à publicidade. A Secretaria de Comunicação da Presidência da República, sob Dilma Rousseff, já gastou toda a verba prevista para 2016: R$ 152 milhões.
Essa verba alimenta, entre outras coisas, os blogs sujos da internet, pagos não só para defender a quadrilha do PT mas, sobretudo, difamar seus adversários. Esses blogueiros estão organizando um congresso na Bahia, para junho, em que esperam a presença de Dilma e Lula, para tratar do "combate ao golpe".
A insistência criminosa no termo "golpe", para definir o processo constitucional de impeachment, mereceu reação por parte da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, que pediu esclarecimentos à presidente afastada, dando-lhe o prazo de dez dias para se manifestar. Não o fará, por falta de argumentos.
A letal conjunção de corrupção sistêmica e gestão desastrosa, que os números atestam, produz efeitos em todos os setores da vida nacional, atingindo sobretudo a parcela mais desprotegida da população.
Na saúde, por exemplo, segundo levantamento divulgado pelo Conselho Federal de Medicina, perderam-se nada menos que 24 mil leitos de internação do SUS, ao longo dos últimos cinco anos – tempo que corresponde à presença de Dilma na Presidência.
A tragédia do desemprego – 11 milhões de vítimas –, da qual a militância do PT estava poupada, é outro subproduto dessa herança maldita.
E uma das medidas preliminares de higiene moral –e de cunho pedagógico– é fazer uma assepsia da máquina pública federal demitindo os milhares que foram nomeados para partidarizar o Estado. E esperar que a Justiça seja célere em julgar e condenar os que assaltaram o Brasil.
O Capitalismo do Povo *Roberto de Oliveira Campos (11/08/1985)
“A coisa mais importante para os governos não é fazer as coisas que os indivíduos já estão fazendo, ou fazê-las um pouco melhor ou pior; e sim fazer aquelas que no presente ninguém possa fazer” (Lord Keynes).
Para o começo de conversa precisamos de uma revolução semântica. A expressão “setor privado” inspira uma conotação de egoísmo e apropriação. A expressão “setor público” transmite a ideia de generosidade. Isso é injusto e inadequado. Mais correto seria, como sugere o economista paulista Rafael Vechiatti, chamarmos o setor público de “setor coercitivo”, e o privado de “setor voluntário”.
Sempre que se fala em desestatização, surge logo a indagação: de onde virão os recursos para o setor voluntário comprar as empresas do setor coercitivo? Uma resposta complexa é explicar que: 1) o governo não gera recursos e sim administra os recursos hauridos do setor voluntário por tributação ou tarifas; 2) que a poupança do governo é hoje negativa e que seu déficit é coberto mediante sucção da poupança privada; 3) que, na medida em que o Governo corte suas despesas, liberando a poupança privada, esta poderia comprar as empresas do “setor coercitivo”. Estas, aliás, não nasceram do nada e sim de tributos pagos pelo “setor voluntário”. A velocidade de geração de recursos para a privatização dependeria assim apenas da velocidade da redução do déficit público e da liberação das poupanças do setor voluntário.
Num sentido fundamental, entretanto, o problema é simples e não exige qualquer despesa. Basta uma revolução conceitual, que pode ser feita por definição legal. O importante, num primeiro estágio, é separarmos o conceito de propriedade, do direito de gestão, diferenciando-se “ações de propriedade” de “ações de gestão”. O Governo é gestor das despesas públicas. Mas não precisa ser seu proprietário. As empresas públicas devem ser do público.
É esse o objetivo do projeto de lei número 139 que apresentei ao Senado Federal, em junho de 1983, e que há dois anos ali dorme o sono dos justos, pois as ideias simples são em princípio escandalosas. Nesse projeto se prevê que o governo devolva aos cidadãos a propriedade das poupanças deles arrecadadas, mediante a transferência gratuita de ações integralizadas – boas ou más – que sejam de propriedade da União, suas autarquias e entidade públicas, a um grande fundo de repartição de capital. Todos nós, contribuintes do INPS ou IPASE ou Funrural receberíamos gratuitamente frações ideais desse fundo. Os dividendos eventualmente resultantes seriam creditados aos cotistas, vale dizer, ao universo dos contribuintes, cujos impostos financiaram originalmente a criação dos elefantes estatais. As ações ficariam em custodia num organismo central, que poderia ser a Caixa Econômica Federal, ou qualquer outro órgão suficientemente computadorizado, que manteria escrituração da carteira de ações dos beneficiários. Enquanto mantidas em custódia, essas ações seriam de propriedade, porém não de gestão. O poder de voto e de gestão continuaria, como no presente, nas mãos dos administradores governamentais, até que essas ações doadas se transformassem em ações vendidas ou negociadas, através dos mecanismos normais de Bolsas de Valores ou de licitação de ações. O projeto de lei acima citado prevê que a alienação das ações ou a retirada da custodia se faça gradualmente (à razão de 5% ao ano), a fim de na se congestionar o mercado de valores.
Se a privatização da propriedade pode ser resolvida, resta o problema da privatização da gestão, indispensável para aumento da produtividade global do sistema. Esta continuaria a ser buscada através dos programas correntes de desestatização, por venda em bolsa ou licitação. O importante seria abandonarmos a ideia – usada pelos estatizantes para sabotar a desestatização – de que o Governo tem que reaver integralmente o capital investido. Em muitos casos, os investimentos foram superdimensionados, com custos financeiros tornados proibitivos pela lerda execução, de sorte que seria irrealista esperar vendê-las senão pela rentabilidade real ou esperada do patrimônio, aferida segundo as regras do mercado.
O programa de “repartição do capital” inauguraria imediatamente o capitalismo do povo. O programa de “desestatização” aumentaria gradualmente a eficiência de gestão, além de trazer receitas, que o Governo utilizaria para sanar aflitivas carências básicas – analfabetismo, endemias e epidemias, desnutrição e insuficiência dos serviços básicos de infraestrutura. Não faz sentido o governo ter postos de gasolina quando não tem postos de saúde, ou competir na fabricação de computadores quando não tem dinheiro para cuidar da malária...
Se há hoje uma constatação universal é a da falência do Estado-empresário. Até mesmo os regimes socialistas estão sentindo a rigidez e o desperdício dos sistemas centralistas. No universo das estatais brasileiras, o julgamento da eficiência é dificultado porque, contrariamente ao previsto no Art. 170, Parágrafo 20 da Constituição Federal, elas desfrutam de privilégios de mercado ou vantagens fiscais inacessíveis às empresas privadas. A Petrobrás, por exemplo, é lucrativa, mas desfruta de um monopólio que impede a aferição de eficiência. O Banco do Brasil é lucrativo, mas recebe recursos trilionários da Conta de Movimento do Tesouro a juros simbólicos, e coleta depósitos compulsórios de entidades públicas, sem ter que pagar os altos custos de captação. A Vale do Rio Doce e Usiminas, que operam superavitariamente e sem subsídio, em mercados competitivos, figuram talvez entre as únicas empresas sobre cuja eficiência não pairam dúvidas. Os grupos Telebrás e Eletrobrás não podem ser julgados porque operam em condições monopolísticas, caso em que o lucro pode resultar de manipulação tarifária e não eficiência competitiva.
O importante é acentuar que o Ministro Dornelles e Roberto Gusmão, que pregam a privatização por sentirem na carne os abusos dos elefantes enlouquecidos do setor coercitivo, não precisam se preocupar inicialmente com a carência de recursos para a privatização. Podemos privatizar imediatamente a propriedade por transferência gratuita, e, mais gradualmente, o voto e a gestão, pela venda convencional das ações à medida que o mercado as absorva. Mas mesmo o primeiro passo tem consequências psicológicas importantes. Sentindo-se proprietário, ainda que em frações minúsculas, das empresas públicas, os contribuintes se interessariam em fiscalizá-las, na esperança de algum dividendo, e para isso se organizariam em associações civis, a fim de se manifestarem nas assembleias gerais. Os gestores, sentindo-se também coproprietários, ainda que microscópios, talvez deixassem de considerar os dinheiros públicos um bem de ninguém. E o lucro da empresa passaria a ser considerado o que realmente é, um prêmio do desempenho e não uma secreção de cupidez capitalista. É uma perfeita imbecilidade dizer-se que não se pode privatizar as estatais porque elas são “patrimônio do povo”. Precisamente por isso é que devem ser privatizadas, na forma indicada no projeto de lei número 139. Para que sejam do povo. Hoje são dos tecnocratas, que às vezes delas abusam, ou dos políticos, que as desfiguram. O povo não tem vez....
*Defensor apaixonado do liberalismo. Economista, diplomata e político também se revelou um intelectual brilhante. De sua intensa produção, resultaram inúmeros artigos e obras como o livro A Lanterna na Popa, uma autobiografia que logo se transformou em best-seller. Foi ministro do Planejamento, senador por Mato Grosso, deputado federal e embaixador em Washington e Londres. Sua carreira começou em 1939, quando prestou concurso para o Itamaraty. Logo foi servir na embaixada brasileira em Washington, e, cinco anos depois, participou da Conferência de Bretton Woods, responsável por desenhar o sistema monetário internacional do pós-guerra.
How the West (and the Rest) Got Rich
LIFE | IDEAS | THE SATURDAY ESSAY
The Great Enrichment of the past two centuries has one primary source: the liberation of ordinary people to pursue their dreams of economic betterment
A statue of Adam Smith in Edinburgh, Scotland PHOTO: ALAMY
By DEIRDRE N. MCCLOSKEY
The Wall Street Journal, May 20, 2016
Why are we so rich? An American earns, on average, $130 a day, which puts the U.S. in the highest rank of the league table. China sits at $20 a day (in real, purchasing-power adjusted income) and India at $10, even after their emergence in recent decades from a crippling socialism of $1 a day. After a few more generations of economic betterment, tested in trade, they will be rich, too.
Actually, the “we” of comparative enrichment includes most countries nowadays, with sad exceptions. Two centuries ago, the average world income per human (in present-day prices) was about $3 a day. It had been so since we lived in caves. Now it is $33 a day—which is Brazil’s current level and the level of the U.S. in 1940. Over the past 200 years, the average real income per person—including even such present-day tragedies as Chad and North Korea—has grown by a factor of 10. It is stunning. In countries that adopted trade and economic betterment wholeheartedly, like Japan, Sweden and the U.S., it is more like a factor of 30—even more stunning.
And these figures don’t take into account the radical improvement since 1800 in commonly available goods and services. Today’s concerns over the stagnation of real wages in the U.S. and other developed economies are overblown if put in historical perspective. As the economists Donald Boudreaux and Mark Perry have argued in these pages, the official figures don’t take account of the real benefits of our astonishing material progress.
Look at the magnificent plenty on the shelves of supermarkets and shopping malls. Consider the magical devices for communication and entertainment now available even to people of modest means. Do you know someone who is clinically depressed? She can find help today with a range of effective drugs, none of which were available to the billionaire Howard Hughes in his despair. Had a hip joint replaced? In 1980, the operation was crudely experimental.
Nothing like the Great Enrichment of the past two centuries had ever happened before. Doublings of income—mere 100% betterments in the human condition—had happened often, during the glory of Greece and the grandeur of Rome, in Song China and Mughal India. But people soon fell back to the miserable routine of Afghanistan’s income nowadays, $3 or worse. A revolutionary betterment of 10,000%, taking into account everything from canned goods to antidepressants, was out of the question. Until it happened.
What caused it? The usual explanations follow ideology. On the left, from Marx onward, the key is said to be exploitation. Capitalists after 1800 seized surplus value from their workers and invested it in dark, satanic mills. On the right, from the blessed Adam Smith onward, the trick was thought to be savings. The wild Highlanders could become as rich as the Dutch—“the highest degree of opulence,” as Smith put it in 1776—if they would merely save enough to accumulate capital (and stop stealing cattle from one another).
A recent extension of Smith’s claim, put forward by the late economics Nobelist Douglass North (and now embraced as orthodoxy by the World Bank) is that the real elixir is institutions. On this view, if you give a nation’s lawyers fine robes and white wigs, you will get something like English common law. Legislation will follow, corruption will vanish, and the nation will be carried by the accumulation of capital to the highest degree of opulence.
But none of the explanations gets it quite right. What enriched the modern world wasn’t capital stolen from workers or capital virtuously saved, nor was it institutions for routinely accumulating it. Capital and the rule of law were necessary, of course, but so was a labor force and liquid water and the arrow of time.
The capital became productive because of ideas for betterment—ideas enacted by a country carpenter or a boy telegrapher or a teenage Seattle computer whiz. As Matt Ridley put it in his book “The Rational Optimist” (2010), what happened over the past two centuries is that “ideas started having sex.” The idea of a railroad was a coupling of high-pressure steam engines with cars running on coal-mining rails. The idea for a lawn mower coupled a miniature gasoline engine with a miniature mechanical reaper. And so on, through every imaginable sort of invention. The coupling of ideas in the heads of the common people yielded an explosion of betterments.
Look around your room and note the hundreds of post-1800 ideas embedded in it: electric lights, central heating and cooling, carpet woven by machine, windows larger than any achievable until the float-glass process. Or consider your own human capital formed at college, or your dog’s health from visits to the vet.
The ideas sufficed. Once we had the ideas for railroads or air conditioning or the modern research university, getting the wherewithal to do them was comparatively simple, because they were so obviously profitable.
Storefronts along Hudson Street in New York City, circa 1860 to 1900. PHOTO: FOTOSEARCH/GETTY IMAGES
If capital accumulation or the rule of law had been sufficient, the Great Enrichment would have happened in Mesopotamia in 2000 B.C., or Rome in A.D. 100 or Baghdad in 800. Until 1500, and in many ways until 1700, China was the most technologically advanced country. Hundreds of years before the West, the Chinese invented locks on canals to float up and down hills, and the canals themselves were much longer than any in Europe. China’s free-trade area and its rule of law were vastly more extensive than in Europe’s quarrelsome fragments, divided by tariffs and tyrannies. Yet it was not in China but in northwestern Europe that the Industrial Revolution and then the more consequential Great Enrichment first happened.
Why did ideas so suddenly start having sex, there and then? Why did it all start at first in Holland about 1600 and then England about 1700 and then the North American colonies and England’s impoverished neighbor, Scotland, and then Belgium and northern France and the Rhineland?
The answer, in a word, is “liberty.” Liberated people, it turns out, are ingenious. Slaves, serfs, subordinated women, people frozen in a hierarchy of lords or bureaucrats are not. By certain accidents of European politics, having nothing to do with deep European virtue, more and more Europeans were liberated. From Luther’s reformation through the Dutch revolt against Spain after 1568 and England’s turmoil in the Civil War of the 1640s, down to the American and French revolutions, Europeans came to believe that common people should be liberated to have a go. You might call it: life, liberty and the pursuit of happiness.
To use another big concept, what came—slowly, imperfectly—was equality. It was not an equality of outcome, which might be labeled “French” in honor of Jean-Jacques Rousseau and Thomas Piketty. It was, so to speak, “Scottish,” in honor of David Hume and Adam Smith: equality before the law and equality of social dignity. It made people bold to pursue betterments on their own account. It was, as Smith put it, “allowing every man to pursue his own interest his own way, upon the liberal plan of equality, liberty and justice.”
And that is the other surprising notion explaining our riches: “liberalism,” in its original meaning of “worthy of a free person.” Liberalism was a new idea. The English Leveller Richard Rumbold, facing the hangman in 1685, declared, “I am sure there was no man born marked of God above another; for none comes into the world with a saddle on his back, neither any booted and spurred to ride him.” Few in the crowd gathered to mock him would have agreed. A century later, advanced thinkers like Tom Paine and Mary Wollstonecraft embraced the idea. Two centuries after that, virtually everyone did. And so the Great Enrichment came.
Not everyone was happy with such developments and the ideas behind them. In the 18th century, liberal thinkers such as Voltaire and Benjamin Franklin courageously advocated liberty in trade. By the 1830s and 1840s, a much enlarged intelligentsia, mostly the sons of bourgeois fathers, commenced sneering loftily at the liberties that had enriched their elders and made possible their own leisure. The sons advocated the vigorous use of the state’s monopoly of violence to achieve one or another utopia, soon.
Intellectuals on the political right, for instance, looked back with nostalgia to an imagined Middle Ages, free from the vulgarity of trade, a nonmarket golden age in which rents and hierarchy ruled. Such a conservative and Romantic vision of olden times fit well with the right’s perch in the ruling class. Later in the 19th century, under the influence of a version of science, the right seized upon social Darwinism and eugenics to devalue the liberty and dignity of ordinary people and to elevate the nation’s mission above the mere individual person, recommending colonialism and compulsory sterilization and the cleansing power of war.
On the left, meanwhile, a different cadre of intellectuals developed the illiberal idea that ideas don’t matter. What matters to progress, the left declared, was the unstoppable tide of history, aided by protest or strike or revolution directed at the evil bourgeoisie—such thrilling actions to be led, naturally, by themselves. Later, in European socialism and American Progressivism, the left proposed to defeat bourgeois monopolies in meat and sugar and steel by gathering under regulation or syndicalism or central planning or collectivization all the monopolies into one supreme monopoly called the state.
While all this deep thinking was roiling the intelligentsia of Europe, the commercial bourgeoisie—despised by the right and the left, and by many in the middle, too—created the Great Enrichment and the modern world. The Enrichment gigantically improved our lives. In doing so, it proved that both social Darwinism and economic Marxism were mistaken. The supposedly inferior races and classes and ethnicities proved not to be so. The exploited proletariat was not driven into misery; it was enriched. It turned out that ordinary men and women didn’t need to be directed from above, and when honored and left alone, became immensely creative.
The Great Enrichment is the most important secular event since human beings first domesticated wheat and horses. It has been and will continue to be more important historically than the rise and fall of empires or the class struggle in all hitherto existing societies. Empire did not enrich Britain. America’s success did not depend on slavery. Power did not lead to plenty, and exploitation was not plenty’s engine. Progress toward French-style equality of outcome was achieved not by taxation and redistribution but by the Scots’ very different notion of equality. The real engine was the expanding ideology of classical liberalism.
The Great Enrichment has restarted history. It will end poverty. For a good part of humankind, it already has. China and India, which have adopted some of economic liberalism, have exploded in growth. Brazil, Russia and South Africa, not to speak of the European Union—all of them fond of planning and protectionism and level playing fields—have stagnated.
Economists and historians from left, right and center cannot explain the Great Enrichment. Perhaps their sciences need revision, toward a “humanomics” that takes ideas seriously. Humanomics doesn’t abandon the economics of arbitrage or entry, or the math of elasticities of demand, or the statistics of regression analysis. But it adds the study of words and meaning and their stunning contribution to our enrichment.
Over 200 years, average world income per person has soared from about $3 a day to a stunning $33 a day. PHOTO: GETTY IMAGES
What public policy to further this revolution? As little as is prudent. As Adam Smith said, “it is the highest impertinence…in kings and ministers to pretend to watch over the economy of private people.” We certainly can tax ourselves to give a hand up to the poor. Smith himself gave to the poor with a liberal hand. The liberalism of a Christian, or for that matter of a Jew, Muslim or Hindu, recommends it. But note, too, that 95% of the enrichment of the poor since 1800 has come not from charity but from a more productive economy.
Rep. Thomas Massie, a Republican from Kentucky, had the right idea in what he said to Reason magazine last year: “When people ask, ‘Will our children be better off than we are?’ I reply, ‘Yes, but it’s not going to be due to the politicians, but the engineers.’ ”
I would supplement his remark. It will also come from the businessperson who buys low to sell high, the hairdresser who spots an opportunity for a new shop, the oil roughneck who moves to and from North Dakota with alacrity and all the other commoners who agree to the basic bourgeois deal: Let me seize an opportunity for economic betterment, tested in trade, and I’ll make us all rich.
Dr. McCloskey is distinguished professor emerita of economics, history, English and communication at the University of Illinois at Chicago. This essay is adapted from her new book, “Bourgeois Equality: How Ideas, Not Capital or Institutions, Enriched the World,” published by the University of Chicago Press.
‘Governo não tem a opção de fracassar’, diz José Serra
Eliane Cantanhêde
O Estado de S.Paulo, 22 Maio 2016
Com promessa de ‘turbinar’ o Itamaraty, Serra prepara viagem à Argentina para começar ‘atualização’ do Mercosul
BRASÍLIA - O novo chanceler, José Serra, enumera
os erros da política externa dos 13 anos de governo do PT, anuncia que
vai discutir uma “atualização” do Mercosul em sua primeira viagem
internacional, hoje, à Argentina, e assume um compromisso com a opinião
pública e os diplomatas: “Vamos turbinar o Itamaraty”.
Serra
disse estar acertando com o ministro do Planejamento, Romero Jucá, como
cobrir a carência de R$ 800 milhões do Itamaraty, que tem até atrasado
salários e aluguéis e imóveis no exterior. Fora isso, há dívidas de R$
6,7 bilhões do Brasil a organismos e bancos internacionais, tema também
em discussão.
Ele também prometeu abrir o País ao mundo e uma relação melhor
com os Estados Unidos. “Nossa relação comercial com os EUA deve com
certeza se tornar mais próxima e o grande investimento aí é a remoção de
barreiras não tarifárias”, disse na noite de sexta-feira, em entrevista
ao Estado na qual resumiu os desafios do governo Michel Temer: “Não temos a opção de fracassar. Tem que dar certo”.
José Serra durante posse como Ministro das Relações Exteriores no Itamaraty, em Brasília.O que é uma política externa “regida pelos valores do Estado e da Nação”?
A política externa lida com os interesses nacionais num
contexto mundial e vamos ter uma política de Estado, numa nova
modalidade de política externa independente. Além de não se alinhar às
potências, será independente de partidos e de aliados desses partidos no
exterior, diferentemente do que havia nos governos do PT. O sr. não vê diferenças entre a
política externa de Lula e a de Dilma? O sr. chegou a ficar bem próximo
do chanceler de Lula, Celso Amorim, quando o sr. era ministro da Saúde e
ele embaixador em Genebra e atuaram juntos para a quebra de patentes de
medicamentos contra a Aids.
Trabalhamos muito bem e de forma produtiva. Aliás, o Celso
deixou de fumar cachimbo por minha causa. Eu disse que ele não podia
fumar cachimbo e ir a reuniões antitabagismo e ele jurou que tinha
deixado de fumar. Minha relação com o Celso foi muito boa. Depois, no
Itamaraty, prefiro não analisar. Uma crítica a Amorim era que ele era antiamericanista, mas o sr., pelo passado de UNE e de esquerda, também é visto assim.
Não é bem assim, mas, de todo modo, não tenho condições agora
de revisar a minha biografia e o que eu pensava a respeito. Só que tive
uma experiência pessoal que foi muito importante, quando passei parte do
meu exílio nos Estados Unidos, nas Universidades de Princeton e
Cornell, e comecei a conhecer a sociedade e a democracia americanas
muito de perto. Daria uma outra entrevista eu contar o impacto que eu
tive ao viver o cotidiano e junto à base da sociedade a democracia
americana. O sr. assume num momento em que o
Brasil precisa revigorar as relações com Washington, depois que elas
ficaram esgarçadas pela contaminação ideológica no Brasil e pela
espionagem da NSA até da presidente...
NSA, o que é isso? Os EUA são uma peça essencial do mundo
contemporâneo, embora já não tão dominante como no passado, pois você
tem novos centros de poder e de economia, caso típico da China. Nossa
relação com os EUA é secular e fundamental e deve com certeza se tornar
mais próxima no comércio. O grande investimento aí é a remoção de
barreiras não tarifárias. Eles têm uma rede de proteção não tarifária,
na área fitossanitária, por exemplo, que exige negociação. Vamos
trabalhar incessantemente nessa direção. Uma eventual eleição do republicano Donald Trump pode atrapalhar esse processo?
Prefiro não acreditar nisso... No seu discurso de posse o sr.
defendeu a reaproximação com parceiros tradicionais, como EUA, Europa e
Japão. É o fim da política Sul-Sul?
Veja, se o Brasil é um país continental, tem de ter relações
com o mundo inteiro. Nós vamos levar adiante nossa relação com a África,
mas não com base em culpas do passado ou em compaixão, mas sabendo como
podemos cooperar também beneficiando o Brasil. Aliás, minha ideia é
fazer um grande congresso no ano que vem entre Brasil e África, para
discutir comércio, cooperação e trocas, inclusive na área cultural, onde
temos grande afinidade. Quando fala em compaixão, o sr. quer dizer que o Brasil não vai mais perdoar dívidas de países africanos, como fez Lula?
Pedi um levantamento para definir o que será feito daqui em
diante. O Brasil não é um país que tem dinheiro sobrando, não somos um
país desenvolvido. Não implica estabelecer relações predatórias com
nenhuma parte do mundo, mas temos que gerar empregos e combate à pobreza
aqui dentro também. Dilma disse em entrevista ser ignorância uma política externa sem os vizinhos e sem os Brics.
A impressão que eu tenho é de que ela não sabe o que está
dizendo. Entendo as dificuldades e até esse certo desnorteamento e me
sinto constrangido e pouco à vontade para debater com ela nessas
condições. Muitos elogiaram, mas muitos
consideraram acima do tom diplomático suas notas contra o diretor da
Unasul e os países “bolivarianos” que criticaram o processo político
brasileiro. Foram acima do tom?
Foi um tom abaixo das agressões feitas. Na minha primeira
reunião no ministério eu disse que não iríamos nem calar nem escalar.
Essa é a linha. O que fizemos foi apontar o que não era verdadeiro.
Dizer que a democracia está atropelada no Brasil? Que não há garantias
democráticas? Basta qualquer um de fora passar uns dias aqui para ver
que a democracia está funcionando normalmente. Foi um processo
traumático? Foi. Mas todo dentro da democracia e do previsto pela
Constituição. Como fica a relação com Venezuela,
Cuba, Equador, Bolívia, Nicarágua e El Salvador, que se manifestaram
sobre o Brasil? E com o diretor da Unasul?
A tendência é ir tendo relativizações. Aliás, eu sou amigo do Ernesto Samper (da Unasul). Depois da nota, nós já nos falamos. Por que a primeira viagem é para a Argentina?
A Argentina é considerada por nós para lá de prioritária.
Entre os propósitos da viagem está o debate sobre a atualização do
Mercosul, criação do mecanismo de ação conjunta Brasil-Argentina e
acertar uma conferência regional sobre ilícitos nas fronteiras, uma
questão vital para o Brasil e para a Argentina. Quando se fala nisso, pensa-se no Paraguai, que, aliás, atuou para evitar notas oficiais contra o Brasil.
Uma ação dessa natureza é inviável sem a colaboração dos
países, porque não se resolve na linha das fronteiras, mas no interior
dos países. Estou convencido de que teremos a cooperação da Argentina,
do Paraguai, da Bolívia, da Colômbia... O Paraguai é um país que está se
modernizando e o chanceler deve vir aqui em breve. O sr. falou em atualização do Mercosul. O que significa isso, já que o sr. é considerado inimigo do Mercosul?
Não, não sou, mas o Mercosul é uma união alfandegária que
terminou sendo um obstáculo a acordos bilaterais de comércio. Houve uns
500 acordos bilaterais nos últimos anos, mas o Brasil só fez três: com
Israel, Palestina e Egito. É preciso aprofundar as condições da zona de
livre comércio, porque ainda há barreiras, e encontrar formas de
flexibilizar as regras para permitir acordos bilaterais mundo afora. Uma das críticas à política externa
do PT é que foi toda centrada no multilateralismo na OMC, que não deu
certo, vetando o bilateralismo, que todos os demais fizeram. Isso vai
mudar?
O multilateralismo poderia ter sido bom para o Brasil, mas, na
medida em que Doha, da OMC, não avançou, ficou preso nisso, sem
multilateralismo e sem acordos bilaterais. Mas, veja, não estou dizendo
que vamos abandonar a OMC, apenas que vamos ter os pés no chão. O Brasil vai reforçar relações com a Aliança para o Pacífico?
É uma grande prioridade. Relação Brasil-Chile sempre foi
próxima e temos boa relação com Colômbia e Peru. Queremos estreitar
relações com o México, que é da Aliança para o Pacífico e, assim como a
Argentina, é prioridade número 1. Aproximar dos pragmáticos e neutralizar os bolivarianos?
Posso ser sincero? Não tem nada a ver com conjunturas políticas. Tem a ver com estratégias mais permanentes. Na era Lula-Amorim, o Brasil
participava de negociações para a crise do Irã, para a crise do Oriente
Médio... O sr. vai priorizar o comércio em detrimento da diplomacia, ou
isso vai voltar?
Sem megalomania. Vamos participar pela paz, pelo entendimento,
usando as vantagens comparativas que o Brasil possa ter, mas, repito,
sem megalomania. Com suas críticas à política externa do PT, vem aí uma dança de cadeiras em cargos-chave da chancelaria e das embaixadas?
Vamos manter uma política gradualista de preenchimento de
cargo e o mais importante é que nós vamos turbinar o Itamaraty. Nesses
anos todos, seja pelo jeito de fazer política externa, seja pelas
dificuldades orçamentárias mais recentes, houve certo desânimo e
ceticismo que comprometeram a autoestima do Itamaraty. Mas isso, eu
prometo, será revertido. Como, se o governo prevê um rombo de R$ 170,5 bilhões?
A carência imprescindível do Itamaraty é da ordem de R$ 800
milhões e não precisa ser tudo de uma vez. Então, o peso do Itamaraty
nas finanças públicas é insignificante e eu não posso atribuir senão ao
descaso tudo isso que vinha acontecendo. E as dívidas com organismos e bancos internacionais?
Quem paga é o Planejamento e hoje (sexta-feira)
passei um bom tempo com o ministro Romero Jucá discutindo isso. Ao
todo, são R$ 3 bilhões de dívida com os organismos, mais R$ 3,7 bilhões
para os bancos (BID, Bird, FMI...) Vai ter corte de embaixadas e consulados?
Eles criaram uns 60 postos e agora são 227. Será que tudo isso é necessário? Estamos vendo custo-benefício. A concessão de passaporte diplomático para o tal bispo evangélico foi uma derrapada?
Eu não assino passaportes, seria exótico se assinasse. O
problema é que a Igreja Católica sempre teve dois passaportes
diplomáticos, as evangélicas reivindicaram a mesma coisa, e algum
governo, acho que do Lula, concedeu. Não cabe ao governo definir que uma
igreja é mais ou menos importante que a outra. O Itamaraty é um trampolim para sua candidatura em 2018?
Claro que não, não tem trampolim nenhum. Tudo o que eu quero é
fazer uma boa administração aqui. Pode parecer uma declaração de
político tradicional, mas é verdadeira. Seus filhos acreditam nisso?
Meus dois filhos, sim, principalmente o homem. As mulheres são mais desconfiadas. E se o governo Michel Temer naufragar?
Os desafios são imensos, mas não temos a opção de dar certo ou
fracassar. Tem de dar certo, pelo País. O impeachment é doloroso e
traumático, mas é uma questão de salvação do Brasil.
Entrevista. Gustavo Franco 'Para reduzir a dívida pública, é preciso vender patrimônio', diz Gustavo Franco Ex-presidente do Banco Central defende a privatização como caminho para recompor o fluxo de caixa do governo – que é o superávit primário Alexa Salomão
O Estado de S.Paulo, 21maio 2016
O economista Gustavo Franco se diz surpreso com a excelente qualidade da equipe econômica. Ficou acima do que ele mesmo esperava. Também está positivamente surpreso com a decisão do presidente em exercício, Michel Temer, em “sentar na cadeira, fazer o diagnóstico e assinalar o legado – que parece horroroso”. Mas Gustavo Franco faz uma ressalva para o novo time: para reduzir a dívida pública, a prioridade neste momento, será preciso ir muito além do corte de gastos. Na avaliação dele, será preciso resgatar uma agenda perdida, a das privatizações. “Só conseguirá fazer reduções relevantes na dívida pública se vender patrimônio: concessões, participações, créditos. Esse é o principal desafio, cujos termos do enfrentamento ainda não estão definidos”, diz Franco. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado.
O que lhe parece a nova equipe econômica? Melhor do que se esperava. Assinala que haverá uma guinada drástica da política econômica na direção do bom senso.
Quais são seus principais desafios? No Ministério da Fazenda, o comando central de todos os desafios da área econômica, é difícil hierarquizar o mais sério e o mais urgente, inclusive porque eles lá dentro estão tendo uma percepção mais fina do que é possível perceber daqui de fora. Mas, para começar, é bastante claro que enxergaram uma situação fiscal muito pior do que se imaginava – e já se imaginava uma coisa muito pior do que o conhecido. Eu acredito que eles precisam deixar isso muito claro, na partida, evitar o que aconteceu com Joaquim Levy (ex-ministro da Fazenda): sentar na cadeira e assinalar o legado. Levy não assinalou o tamanho dos problemas que herdava e ficou parecendo que os problemas foram criados por ele. Hoje a gente vê muita gente colocando no Joaquim a culpa pelos descaminhos da política econômica. Começou muito bem a nova equipe em dar uma parada e fazer o diagnóstico. O próprio presidente Temer deve fazer um pronunciamento à nação. Independentemente disso, vejo com muita clareza que é preciso estabelecer qual é o legado – e ele parece horroroso.
Do lado de fora, conseguimos prever o que pode vir ou é obscuro? É obscuro porque as coisas mais polêmicas ficam numa área que não é bem do orçamento ou dos bancos públicos federais. Ficam ali no meio disso: são as operações criativas envolvendo bancos, fundos, Tesouro. A área que, nós técnicos, chamamos de parafiscal. É onde a Lei de Responsabilidade Fiscal tem pouco a dizer, pouco controle, e onde ocorrem as piores atrocidades. Mas a síntese, por assim dizer, do problema fiscal é o nível do endividamento público interno. Nunca tivemos uma dívida interna tão grande e tão cara. O Brasil pagou de juros, no ano passado, o equivalente a 10% do PIB (Produto Interno Bruto). Isso é algo como duas vezes o que pagou o Tesouro grego. É a maior conta de juros do mundo. É claro que isso ocorre porque o juro é alto e porque a dívida é alta. A dívida é alta demais para o Brasil. Na minha percepção, esse é o maior desafio de todos. Não há muito precedente histórico, seja aqui, seja em outros países, de desalavancagem – a redução rápida do estoque da dívida interna. Há alguma coisa que vale observar no pós-guerra, nas economias desenvolvidas. Também naquele momento era uma dívida de guerra, com caráter excepcional. Pessoas que compraram algo como bônus da vitória não estavam tão interessadas em receber do mesmo jeito que hoje os detentores da dívida pública brasileira estão.
E como resolve? Só conseguirá fazer reduções relevantes na dívida pública se vender patrimônio. Se vender ativos: concessões, participações, créditos. Esse é o principal desafio, cujos termos do enfrentamento ainda não estão definidos. Há boas intenções no ar, mas não vimos nada operacional ainda.
Parte dos ativos em questão são aqueles que não se conseguiu privatizar lá atrás, no governo do PSDB, porque eram privatizações polêmicas. Um governo não eleito, de transição, consegue privatizar Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa? Tem muita coisa para fazer tirando esses três que você mencionou. Tem uma infinidade de participações do setor elétrico. O governo federal vai fazer programa de ajuda aos Estados. Tal qual fez no passado, poderá aceitar empresas estaduais em pagamento e as privatizar. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, pode fazer isso com a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgoto). Ou seja: trata-se de o governo federal fazer o que a Petrobrás está fazendo. Sem maior alarde, a Petrobrás vendeu uma porção de ativos, sem passar pelo rito e burocracia do Programa Nacional de Desestatização. Mas é fundamental que a Petrobrás tenha agilidade para fazer isso, com o mesmo intuito que é o do governo federal: reduzir o endividamento. Isso precisa ser feito com agilidade. Esse é um desafio que perpassa todos os outros. Você precisa recompor o fluxo de caixa do governo – que é o superávit primário. Mas não é com um superávit primário de 1%, 2% do PIB que você vai reduzir dramaticamente uma dívida que já está em 73% do PIB – que é onde se encontra, por ora, a dívida bruta.
Há economistas defendendo que uma medida prioritária é reduzir o juros da dívida. Como o sr. vê essa questão? Infelizmente, isso você precisa combinar com os credores. Aqui é preciso clareza. O Brasil, no passado, teve problemas com a dívida externa. Aí era possível, com muita facilidade, transformar um credor estrangeiro em inimigo e tornar o assunto politizado e irracional. Agora é diferente. A dívida é interna. Os credores são os aposentados de fundos de pensão, os poupadores. É impensável fazer qualquer pirueta com os títulos e suas remunerações. Quantos milhões de aposentados são remunerados por fundos de pensão? Quantos compraram papéis no Tesouro Direto? Não há o que fazer, seja reduzir artificialmente os juros ou mexer na remuneração dos papéis. Isso torna o problema do endividamento público diferente do que foi no passado. Esse tema é parte do assunto que, no fundo, pertence ao Congresso. Corte de gastos do governo e aumento de tributos ou aumento da dívida: essa é a escolha do Congresso. Se não aceitar cortes, nem elevar impostos, o Congresso estará elevando a dívida. Mas estou otimista. O Brasil está enfrentando com mais maturidade temas importantes, como a reforma da Previdência.
É ano de eleição municipal e os especialistas em Previdência dizem que, na hora de mexer em direitos, as pessoas resistem. Uma agenda impopular pode mesmo ser aprovada agora? As coisas que se dizem impopulares são meio enganosas. A coisa mais impopular que existe em economia é errar. O que esse governo não pode fazer é errar. Mas depois que você faz uma coisa impopular do jeito certo, todo mundo gosta. O Plano Real tinha muitas coisas impopulares. É preciso ter clareza de que mais importante do que fazer coisas populares é fazer correto. Se fizer correto, o povo vai gostar.
Qual será o desafio de Ilan Goldfajn à frente do Banco Central? A escolha dele é muito boa. Ilan é uma macroeconomista de mão cheia e participou da criação do regime de metas. Nota dez para a escolha. Agora, o BC não é o centro do problema. O desafio é fiscal. O inimigo agora é outro. Claro que, se tudo der certo no fiscal, a taxa de câmbio tenderá a se valorizar e o Banco Central de Ilan vai enfrentar o que ocorreu comigo, com o Henrique (Meirelles, atual ministro da Fazenda e ex-presidente do BC): ver a apreciação cambial, com seus efeitos, como afetar a competitividade brasileira. Mas aí tomara que esse desafio apareça: vai significar que a economia vai bem.
Há apreensão em relação à saúde de bancos de médio porte. Poderia vir daí uma surpresa desagradável? Pode ser, sim, que haja um razoável conteúdo de estresse creditício, tendo em vista o que ocorreu no nível de atividade. Mas hoje a qualidade de supervisão bancária, o nível de capitalização, a transparência na supervisão da qualidade das carteiras de crédito nos colocam num patamar muito melhor do que em 1993, seja nos bancos público, sobretudo nos privados, onde não vejo nada muito significativo. É uma situação ciclicamente difícil, mas está longe de ser uma mega desafio como foi lá atrás.
E os bancos públicos? Há especial preocupação com a Caixa. É verdade. O Banco Central vai ter de ver isso. No caso da Caixa, há um complicador: o FGTS. As relações entre o FGTS e a Caixa merecem um destaque, uma transparência inicial. Deveria haver mais isolamento entre uma coisa e outra. A Caixa, por outro lado, como é um banco 100% do Tesouro, é quem efetua muitas políticas de governo e coloca no seu balanço. É um problema antigo. O Banco do Brasil sempre teve um minoritário privado, atento a essas coisas. Tanto que o Banco do Brasil manteve muito mais a sua integridade operacional e patrimonial nos últimos anos. O desafio é colocar a Caixa no mesmo padrão do Banco do Brasil. Aí talvez se possa, para melhorar a sua governança, abrir o capital da Caixa – até porque o dinheiro vai ser bem-vindo.
O sr. divulgou uma nota comemorando a nova direção do BNDES... Entre o BNDES e o Tesouro ocorreram muitas operações exóticas. Há meio trilhão de títulos transferidos ao BNDES, numa modalidade de operação parecida com a que havia entre Tesouro e Banco do Brasil, que a gente chamava de conta movimento e achava um absurdo. O principal desafio de Maria Sílvia (Bastos Marques, nova presidente do BNDES), ao sentar na cadeira, é devolver meio trilhão ao Tesouro dessas operações. É uma coisa que só executivos experientes como ela têm conhecimento para fazer.
Muitos economistas dizem que o tempo desse governo é curto para mostrar resultados. O sr. concorda? Vou começar com um lugar comum. O tempo é relativo. É uma das variáveis econômicas mais delicadas e interessantes. O tempo pode ser ampliado conforme o horizonte de expectativas se expande. Cada boa notícia aumenta o tempo deles. Você não pode encarar o pouco tempo como uma restrição para fazer só coisas de curto prazo. Eles podem trazer coisas cujos os efeitos integrais só serão sentidos muito lá na frente. Reforma da Previdência, por exemplo. Os efeitos não são imediatos, mas sobre as expectativas, são avassaladores.
O sr. parece mesmo otimista. Estou. Abriu-se uma janela. A gente está olhando lá para fora, ainda deslumbrados. No calor dos acontecimentos, a gente não consegue discernir as coisas, mas daqui há dez anos, quando olharmos para trás, talvez a gente perceba que esse momento foi paradigmático. As pessoas querem reformas, falam em fazer coisas ambiciosas, que eram impossíveis. De repente, o impossível parece corriqueiro.