Da coluna do jornalista adesista Luis Nassif:
A tese de doutorado de Mercadante
Coluna Econômica - 20/12/2010
Apresentada na sexta-feira no Instituto de Economia da Unicamp, a defesa de tese de doutorado do senador Aloizio Mercadante foi um bom momento para se discutir os caminhos da teoria econômica brasileira, do desenvolvimento (bandeira da velha Cepal, Comissão Econômica para a América Latina) ao neoliberalismo. Isso em um momento em que os rumos da política econômica parecem superar a velha dicotomia – presente na economia brasileira desde as discussões históricas entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin, nos anos 40.
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Baseio-me no minucioso relato da sessão postado por Marcelo Fantaccini Brito no Portal Luís Nassif (http://ning.it/eKTxjb).
O trabalho de Mercadante consistiu em um balanço de oito anos do governo Lula, período caracterizado por ele como “novo desenvolvimentismo” – um conjunto de conceitos que começa a ganhar forma a partir de 2004.
A banca foi heterogênea. Originalmente incluía João Manuel Cardoso de Mello e (da escola cepalina), Luiz Carlos Bresser-Pereira (um dos arautos do novo desenvolvimentismo), o ex-Ministro Delfim Netto (de uma escola que poderia ser chamada de fiscalista-desenvolvimentista) e Ricardo Abramovay, da USP.
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Em uma exposição de 45 minutos, Mercadante defendeu a tese de que Lula conseguiu se diferenciar do nacional-desenvolvimentismo que dominou o período 1930-1980, e do neoliberalismo de Collor-FHC, através de quatro eixos principais: 1) modelo de desenvolvimento econômico comandado pelo desenvolvimento social, no qual o motor da economia passou a ser o mercado de consumo de massas; 2) fortalecimento da democracia; 3) inserção externa soberana e 4) nova política energética, principalmente após a descoberta do pré-sal.
Incluiu nas análises as políticas macroeconômica, científica, ambiental e educacional e analisou prioridades que ficaram para o próximo governo.
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Embora avaliando positivamente a tese, houve discordâncias quanto a algumas ênfases. No fato de ter realçado mais aspectos positivos do que negativos no governo Lula – e aí fica difícil separar o economista do político -, assim como ter exagerado ao ver em 2002 um ano de ruptura, minimizando a continuidade em relação aos governos anteriores.
Também pouco destaque dado ao fato de que o governo Lula foi beneficiado por uma conjuntura internacional favorável, de 2003 a 2008 – por conta do crescimento da China.
Aliás (e aí a observação é minha), ponto interessante seria analisar como teria se saído o país no período da bonança (2003-2008) e no período da crise (2008-2010), caso vigorasse ainda o modelo fundamentalmente de mercado da era FHC.
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Conta Fantaccini que ao comentar a avaliação de Mercadante da política científica e tecnológica do governo Lula, Delfim Netto afirmou que a Embrapa já existia desde 1970 e a Embraer desde 1967. Lembrou que as exportações continuam paradas, como proporção das exportações mundiais. E que o desenvolvimento alicerçado no social teve seu ponto de partida na Constituição de 1988.
Para Abramovay, a tese minimizou a importância das privatização de FHC.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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