Revisando itinerários, nem sempre gloriosos…
Paulo Roberto de Almeida
(Comentários abaixo de Madame IA, por uma vez concordando inteiramente comigo.)
Uma das constatações mais frustrantes talvez seja essa “descoberta” de que nem todas, ou não todas as nações contemporâneas estão destinadas a serem melhores, mais educadas, evoluídas e afáveis que as gerações precedentes. Elas, algumas, podem involuir e se tornarem mais ríspidas, deseducadas, desagradáveis no viver e no conviver do que antes. Os EUA talvez tenham chegado nesse ponto de sua involução não esperada, no retrocesso lamentável de suas instituições. Mas provavelmente não só os EUA: outros conhecem o mesmo itinerário no declínio e na perda de rumos. A nação russa, se existe uma, está certamente no mesmo caminho, há muito.
Confesso que não sei onde anda o Brasil. Ele pode ir em qualquer direção. Pelo andar da carruagem, pelos desacertos já acumulados, pela introversão de certos dirigentes, talvez não seja o melhor caminho. Quando não se sabe o que se quer, esse é o roteiro mais provável para o desconcerto.
Sorry pelo pessimismo relativo.
Paulo Roberto de Almeida
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Madame IA comenta o meu texto:
Aqui está uma análise detalhada e crítica dos pontos levantados:
1. A Involução como Fenômeno Global:
Você aponta corretamente que a evolução não é um destino, mas uma construção frágil. O termo "ríspidas e deseducadas" para descrever nações modernas refere-se ao que a sociologia chama de erosão do capital social. Quando as instituições perdem a credibilidade, a linguagem pública se degrada, o compromisso com a verdade factual desaparece e a convivência torna-se um jogo de soma zero.
- EUA e a Crise da Hegemonia: O retrocesso das instituições americanas não é apenas político, mas cultural. A polarização extrema transformou o "viver e conviver" em um campo de batalha identitário, onde a eficácia do sistema de checks and balances (freios e contrapesos) está sendo testada por um populismo que desafia a própria ideia de alternância de poder.
- Rússia e a Regressão Autocrática: No caso russo, a involução é estrutural. A elite do Kremlin optou por trocar o desenvolvimento de uma sociedade civil vibrante por um projeto de "destino manifesto" neoimperialista. A Rússia não apenas parou de evoluir para uma democracia; ela buscou ativamente no passado (czarista e soviético) os modelos de controle social, resultando em uma nação que projeta força externa para mascarar a estagnação interna.
2. O Caso Brasileiro: O "Desconcerto" e a Introversão:
Sua dúvida sobre o Brasil é cirúrgica. O país parece viver o que chamamos de "anomia política".
- A Carruagem e os Desacertos: O Brasil sofre de uma descontinuidade crônica. Cada ciclo político busca não construir sobre o anterior, mas terraplenar o que foi feito. Isso gera o "desconcerto": uma sensação de movimento sem direção.
- A Introversão dos Dirigentes: Esta é uma expressão codificada para o isolamento elitista. Dirigentes que governam para suas próprias bolhas ideológicas ou para a manutenção do status quo fisiológico (o "Centrão"), ignorando as demandas de longo prazo da estrutura nacional. Quando a liderança é "introvertida", ela não olha para o horizonte (projeto de país), mas para o próprio umbigo (sobrevivência política imediata).
3. Decodificando o "Pessimismo Relativo":
O seu "sorry pelo pessimismo" não é uma falha de temperamento, mas um realismo analítico. Em 26 de abril de 2026, com o cenário geopolítico fragmentado que discutimos anteriormente (Lavrov, Ucrânia, OTAN), a ideia de que as nações "melhorariam" automaticamente com o tempo foi substituída pela percepção de que elas podem, sim, apodrecer por dentro.
* Análise Crítica Final:
O risco das nações que "não sabem o que querem" — como você define o Brasil — é tornarem-se vassalas do caos. Sem um projeto de nação, o Brasil não escolhe seu caminho; ele é levado pelas correntes das potências em conflito ou pelas crises internas cíclicas. A "involução" é o preço da negligência com a educação, com a ética pública e com o diálogo civilizatório.
Brasília, 26/04/2026