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domingo, 18 de janeiro de 2026

Uma proposta modesta: como superar nossas dificuldades atuais - Paulo Roberto de Almeida

 Uma proposta modesta: como superar nossas dificuldades atuais

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre uma via para superar a polarização política do Brasil atual, pela conformação de uma equipe relativamente similar ao “shadow cabinet” da tradição britânica, dedicada a propor políticas racionais para o desenvolvimento nacional

        Minha proposta modesta tem muito pouco, na verdade nada, a ver com aquela que já foi chamada de maior sátira política da modernidade. Refiro-me ao texto de 1729, do irlandês Jonathan Swift, intitulado “A Modest Proposal for Preventing the Children of Poor People In Ireland from Being a Burden to their Parents or Country, and for Making Them Beneficial to the Public”, no qual ele sugeria, baseado nos relatos sobre canibalismo no Novo Mundo, que as famílias muito pobres de agricultores da Irlanda, desprovidas de suas terras para abrir os campos para as pastagens de gado (vacas e ovelhas) das elites proprietárias, entregassem seus filhos recém nascidos para alimentação do público em geral. Horrível, mas uma possível “solução” ao comportamento opressivo das classes dominantes numa Irlanda famélica.
        Estou, na verdade, me referindo às dificuldades patentes do eleitorado brasileiro bem-informado de escapar do círculo vicioso da atual polarização política, tendo de se decidir por um “mal menor”, que é escolher um dos lados para evitar a vitória do outro, seja à esquerda, seja à direita. As elites econômicas, as maiores interessadas numa normalização política do Brasil, com vistas a efetuar reformas e recolocar o Brasil num caminho saudável de desenvolvimento sustentado, com base em políticas fiscais rigorosas e uma atenção especial aos ganhos de produtividade, não têm sido capazes de selecionar os melhores candidatos numa casta política notoriamente medíocre para comandar o país numa nova fase de seu processo de recuperação e integração à economia mundial.
        O Brasil certamente está exibindo uma fase notoriamente medíocre de sua liderança política, com parlamentares continuamente focados no estupro orçamentário das emendas compulsórias – grande parte das quais estão vinculadas a ganhos paralelos em favor de todos os envolvidos num plano puramente municipal –, o que transforma os representantes políticos em vereadores federais, um quadro lamentável do ponto de vista da governança nacional. O que o Brasil precisa, nas próximas eleições gerais e presidencial, é uma renovação completa, ao menos ampla, dos novos eleitos. Para preparar essa mudança, permito-me apresentar a minha proposta modesta.
        Ela se baseia na experiência consagrada da política britânica de manter um “shadow cabinet”, espelhando a governança setorial dos incumbentes do poder nacional, com vocação direcionada à análise responsável e cuidadosa das políticas sendo implementadas, à crítica daquelas políticas que podem não responder às melhores soluções com base num exame de “custo-benefício” de cada uma delas, apresentando, a partir daí, propostas de políticas alternativas às que estão sendo implementadas. O “gabinete paralelo” seria constituído com base numa participação voluntária de pesquisadores, economistas, cientistas políticos e mesmo políticos atuantes, sem um “líder” principal, mas com uma direção colegiada, a partir daquelas forças políticas mais interessadas em superar o impasse da polarização atual.
        Eu chamaria esse “gabinete paralelo” simplesmente de “Governança Alternativa”, a partir de uma exposição sintética de seus propósitos, claramente os de superar os impasses da polarização atual em favor de um conjunto de propostas sensatas, com intenção de fornecer “munição” qualificada para candidatos comprometidos com a elevação do nível político da próxima campanha eleitoral, não a de insistir nos dois polos atualmente em confrontação. Entidades promotoras do centrismo democrático, do reformismo econômico, partidários de uma política externa não alinhada com nenhuma das grandes potências atualmente em fase de nova “Guerra Fria”, poderiam ser convidadas a contribuir para a formação de um núcleo inicial de pensadores e analistas comprometidos com o fim da polarização e com a promoção de uma verdadeira Governança Alternativa.
        Esta é a minha proposta modesta, que não passa pelos atuais partidos políticos, todos comprometidos com a preservação dos mecanismos predatórios existentes, não apenas as emendas compulsórias, mas também os dois fundos ilegítimos sustentando os partidos e suas campanhas eleitorais. Ela passa pela congregação dos melhores subsídios a uma nova política econômica e social não comprometida com nenhum dos dois polos atuais do cenário eleitoral, mas voltada para as reformas fundamentais de que o Brasil necessita, inclusive na área mais sensível da legislação partidária eleitoral, assim como na alocação de recursos orçamentários. Na área da política externa e da diplomacia passa pela superação da atual postura de aliança com um bloco dominado por duas grandes potências autocráticas, em favor da manutenção de nossa tradicional autonomia decisória nos grandes temas da política mundial.
        A Governança Alternativa, ou qualquer outra designação que venha a ter, precisa se firmar como uma via de escape à atual prisão da polarização política.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5190, 18 janeiro 2026, 2 p.

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