quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Os autores do Plano Real mereceriam um Prêmio Nobel - Tony Volpon (artigo de 2024)

Por que o Plano Real funcionou? 

Nunca houve na história saída tão indolor de um processo de quase hiperinflação crônica.

Por Tony Volpon*

Artigo publicado em 22/03/2024


Como já defendi várias vezes nas redes sociais, os idealizadores e gestores do Plano Real merecem um prêmio Nobel de Economia e, se não fosse o viés americano/europeu nas escolhas, não duvido que ganhariam. Nunca houve uma saída tão indolor de um processo de quase hiperinflação crônica na história econômica.

Acho que não deve haver dúvidas ou questionamentos que o plano também teve enorme importância social, dado que o acesso a "tecnologias de indexação" dependia do nível de renda, com os mais ricos ganhando - e bastante - com a "ciranda financeira" e os mais pobres pagando a conta. Realmente nunca houve, de uma vez só, um ato que distribuiu tanta renda.

Também não devemos debater (como aconteceu nas redes) "quem merece" os louros do sucesso do plano. Houve personagens centrais - como obviamente Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco - e personagens mais periféricas, mas que deram sua contribuição, como Marcílio Marques Moreira. Também tivemos vários que lutaram contra o plano. O Real foi uma obra coletiva.

Queria aqui endereçar um ponto consensual na narrativa sobre o Plano Real que eu acho exatamente ao contrário da verdade: que o Real elegeu FHC presidente.

A tese parece óbvia: o Real foi um sucesso, houve um "boom" inicial de consumo (não tão intenso ou insustentável como no Cruzado, mas ainda assim um "boom"), e assim FHC facilmente venceu Lula.

Enquanto cronologicamente isso foi verdade, olhando a lógica econômica do plano, vemos que foi exatamente o contrário.

O ponto chave - e mais crítico e frágil - do Plano Real era a passagem do "inflacionado" indexador URV para o que se desejava, uma estável nova moeda.

A instituição da URV resolvia um dos grandes problemas dos planos de estabilização anteriores: o desequilíbrio de preços relativos quando se tentou congelar os preços para frear a inflação inercial.

Se, por exemplo, no momento do congelamento o valor dos salários estivesse "no pico", quando houvesse o eventual descongelamento haveria uma inflação "residual" para ajustar a relação salários/preços. Apesar de ser um ajuste de preços relativos, o ajuste apareceria como inflação, recomeçando tudo de novo (com novo agravante: as remarcações preventivas devido aos temores de futuros congelamentos).

A URV permitiu a negociação e coordenação via mecanismo de mercado (e não "tablitas" e outros mecanismos de controle central) dos preços relativos. Esse problema já era reconhecido em uma publicação conjunta de 1986 de Pérsio Arida e André Lara Resende, a contribuição teórica mais importante para o Plano.

Mas a URV não resolvia o problema do "lastro" da nova moeda, um problema grave, especialmente quando era óbvio que a arrecadação do governo deveria cair com o fim do imposto inflacionário (a despeito do "Fundo Social de Emergência"), piorando o déficit fiscal, o que de fato aconteceu - até o segundo mandato o governo FHC teve déficits primários.

Enquanto hoje muitos lembram as críticas ao plano pela esquerda (por exemplo, Maria da Conceição Tavares), houve várias críticas ortodoxas antevendo o fracasso do Real pela falta de um ajuste fiscal estrutural prévio. Exemplo: Sérgio Werlang e Rubens Cysne publicaram artigo na "Folha de S. Paulo", em janeiro de 1994, intitulado "Esqueçam a URV", no qual escreveram: "O governo errou... por ter desperdiçado os últimos sete meses sem o necessário detalhamento dessas reformas...se o governo não foi capaz de conter a inflação com uma moeda, como poderia combatê-la com duas?".

A equipe econômica sabia disso. Foi a razão para que no lançamento do Real houvesse a tentativa de impor várias âncoras ao mesmo tempo: alta de juros com apreciação cambial (o Real nasceu flutuante) e metas de crescimento da oferta monetária.

Mas é óbvio que, como se viu em planos anteriores, tais âncoras "nominais" deveriam fracassar se não houvesse mudanças estruturais na política econômica.

Como vimos, grande parte do debate foi sobre a natureza dessas mudanças. Muitos - até aqueles da equipe econômica - argumentaram que elas deveriam acontecer antes do lançamento do Real - que sem um ajuste fiscal/estrutural prévio, a inflação voltaria. O que FHC apostou foi que a expectativa de mudanças em um momento de desordem política pós-impeachment seria o suficiente para lastrear o Real.

Veja o que FHC disse em 1998: "Ninguém acreditava que fosse possível acabar com a inflação num governo de transição... Só eu achava... Começou a discussão, entre nós, e a equipe achava que não dava... Diziam que era preciso ter controle sobre o Banco do Brasil, a Caixa Econômica... eu achava o contrário.... Dizia: "vocês estão rigorosamente equivocados. A única possibilidade de pôr ordem no orçamento é aproveitar que o Congresso está uma desordem... Portanto, só pode passar numa situação caótica, em que não haja força política organizada".

FHC, estudante de Maquiavel, entendeu que não era nenhum utópico "pacto político" - muito defendido na época pela esquerda - que levaria à estabilização, mas sim a rápida implementação do plano em um momento de desordem do establishment político, gerando a expectativa de eleição de um governo reformista dando lastro ao Real.

E a aposta - genial e perigosa - deu certo! A perspectiva de reformas lastreou o Real, o que levou a um "boom" inicial, que ajudou a eleger FHC. O Plano Real foi um perfeito exemplo de uma "profecia autorrealizável".

 

*Tony Volpon foi diretor do Banco Central do Brasil e é atualmente professor-visitante da George Washington University, em Washington D.C.

Bolsonaro não vale uma missa - Editorial Estadão

Bolsonaro não vale uma missa

Os partidos devem refletir se vale a pena ampliar as tensões institucionais, paralisando o País neste momento importante, só para livrar da cadeia um desqualificado como o ex-presidente
Editorial Estadão, Notas & Informações, 10/09/2025

Ao aceitar pagar o preço de se converter ao catolicismo para ser coroado rei da França, o protestante Henrique de Navarra, em 1593, saiu-se com esta: “Paris bem vale uma missa”. E Jair Bolsonaro, vale uma missa?

Em outras palavras: vale a pena ampliar as tensões institucionais e paralisar o avanço de projetos importantes para o Brasil só para tentar livrar da cadeia um completo desqualificado como Bolsonaro?

Parte considerável do establishment político parece considerar que sim. Bolsonaro é muito útil para essa turma, pois desde as eleições de 2018 provou-se capaz de eleger muita gente só ao abrir a boca e declarar apoio. Nem sempre foi assim: recorde-se que na campanha de 2018, mesmo aparecendo bem nas pesquisas de intenção de voto, Bolsonaro teve de se abrigar num partido nanico, o PSL, para disputar a Presidência, porque a maior parte do Centrão estava na coligação do tucano Geraldo Alckmin, que terminou o primeiro turno com vergonhosos 5% dos votos. Antes visto como tóxico, Bolsonaro, após o estrondoso triunfo de 2018, passou a ser tido como a grande liderança de uma direita que até então não se assumia publicamente como tal. Não é algo trivial, num país em que chamar alguém de direitista era (e para muita gente continua a ser) equivalente a xingar de reacionário e golpista.

Bolsonaro, portanto, foi uma espécie de libertação. Deu corpo e voz a uma multidão de eleitores que gostariam de se assumir orgulhosamente de direita e não tinham representantes na política tradicional que refletissem essa aspiração. Os partidos invertebrados que farejam o poder logo perceberam que havia um grande mercado do voto pronto para ser conquistado, e Bolsonaro era o produto ideal: boquirroto, indiferente a partidos e saudoso da ditadura militar – considerada uma “era de ouro” que precisava ser resgatada antes que a baderna esquerdista terminasse de destruir o Brasil. Quando se provou extremamente competitivo contra o demiurgo Lula da Silva e o poderoso PT, Bolsonaro ganhou status de “mito”, que conserva até hoje.

O problema de ganhar uma eleição para presidente, contudo, é que o vencedor precisa governar, e Bolsonaro até então havia sido apenas um deputado do baixíssimo clero que só administrava os lucrativos negócios da família com rachadinhas e compra e venda de imóveis em dinheiro vivo. Sem qualquer experiência executiva e sem nenhum cacoete democrático, Bolsonaro não passou de um histrião, incapaz de articular qualquer pensamento coerente para conduzir o Brasil. O resultado disso foi um governo desastroso, irresponsável durante a pandemia e que não entregou quase nada do que prometeu, notabilizando-se apenas pelas crises institucionais que criou. De quebra, ressuscitou Lula da Silva.

Sua grande marca no governo foi o golpismo, do qual resultaram os planos para se aferrar ao poder com a ajuda de militares, culminando no famigerado 8 de Janeiro. Só isso deveria bastar para desmoralizar Bolsonaro perante os partidos que, malgrado tenham lucrado muito ao se associarem ao ex-presidente, bem ou mal precisam da plena democracia para existir e atuar. Hoje, estar com Bolsonaro equivale a considerar a ruptura democrática como algo moralmente aceitável.

Definitivamente, Bolsonaro não vale essa missa. Mas, ao que consta, ganhou impulso a pressão política pela aprovação de uma anistia ao ex-presidente, ao mesmo tempo que cresce no Congresso a ameaça de emparedar ministros do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, pretende-se perdoar um golpista declarado, que nada de bom fez para o País, e punir os magistrados que, malgrado seus abusos e erros, fizeram seu trabalho em defesa da democracia.

Aqui não cabe ingenuidade: nenhum dos empenhados em livrar Bolsonaro e em constranger o Supremo está minimamente interessado em preservar a democracia e as liberdades. O que eles querem é conservar o potencial eleitoral que a marca Bolsonaro representa – e, de quebra, impedir que o Supremo complique a vida dos muitos parlamentares que se lambuzam de emendas ao Orçamento sem prestar contas a ninguém.

Eu adoro discorrer sobre as balanças de poder, sobretudo as novas, como esta...

 


Onde está a oposição moderada? - Ação e reação - Marcelo Guterman

 

Ação e reação

O jornalista Marcelo Godoy é mais um que já está rouco de tanto clamar por uma “direita moderada”. O desespero é tanto que Godoy lista até Ciro Gomes no rol de “políticos moderados”, talvez porque ele fale mal tanto de Lula quanto de Bolsonaro. Mas, convenhamos, chamar Ciro de “moderado” é a própria definição de contradição em termos.

Mas voltemos ao leito do rio principal. A questão sempre omitida nesse clamor por uma “direita anti-bolsonarista” é que Bolsonaro foi somente uma reação à extrema-esquerda representada pelo PT.

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Alguns podem estranhar o termo “extrema-esquerda” aplicada ao PT. Afinal, a esquerda somente seria “extrema” no caso de partidos nanicos como PSTU ou PCO ou mesmo o PSOL. Eu diria que esses partidos são mais folclóricos do que radicais. Em outras palavras, o seu radicalismo é caricato. “Extrema” mesmo, operacional, é o PT.

Durante duas décadas, houve a impressão de que o PT era a esquerda e o PSDB era a direita brasileira, mas ambos mais ao centro do espectro ideológico. À esquerda do PT havia os partidos folclóricos, enquanto à direita do PSDB havia… o nada, o que permitiu ao PT levar adiante esse jogo de ilusão de ótica. Não à toa, nessa época os petistas chamavam os tucanos de “fascistas”.

O truque se desfez como uma bolha de sabão com o surgimento de Bolsonaro. Os tucanos voaram para o ninho petista, FHC apertou a mão de Lula e Alckmin, tucano histórico, cantou a Internacional Socialista. O fato é que, nesses anos todos, nunca houve uma direita política. Houve uma centro-esquerda (os tucanos) e o PT mais à esquerda. A esquerda da esquerda é chamada de extrema-esquerda. CQD.

Em reação a essa extrema-esquerda surge uma extrema-direita, personificada em Bolsonaro. Para que haja espaço para os moderados da direita, é necessário que haja espaço para os moderados da esquerda. Mas procure artigos e editoriais clamando por políticos à esquerda que se descolem de Lula. Eles até existem, mas não têm, obviamente, nenhuma chance eleitoral. É o beneplácito de Lula que atrai votos, como se viu em 2018, quando um poste desconhecido foi ao 2o turno.

Adoraria ter um segundo turno, por exemplo, entre Eduardo Leite e Kim Kataguire. Um de esquerda, outro de direita, ambos críticos tanto de Lula quanto de Bolsonaro. Mas a vida real não é assim. Enquanto a esquerda estiver dominada por Lula e seus extremistas, a direita estará dominada por Bolsonaro e seus extremistas. Ação e reação, como diria Newton.

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Vamos resumir a história —Paulo Roberto de Almeida

Vamos resumir a história:

Donald já tinha estado na URSS em 1987, com sua primeira mulher (descontando todas as outras, até garotas), e parece que gostou das oportunidades imobiliárias. Voltou em 2013, e foi aí que um ex-oficial do KGB, convertido em patrão do FSB, transformou-o não só em um ativo fácil de manipular — e não só pelo dinheiro, mas jamais por ideologia —, mas igualmente em um aspirante controlado e direcionado à disputa à Casa Branca em 2016.

Foi o mais fantástico e barato dos investimentos feitos em assets russos em toda a história das relações bilaterais: algumas poucas dezenas de milhões de dólares, repassados por meio de bilionários cleptocratas circulando em volta do cleptocrata maior do Kremlin.

O investimento pagou, justamente logo após a invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, um aperitivo para a operação militar especial em 2022, mesmo tendo o incômodo de ter perdido por algum tempo o controle da Casa Branca, a despeito da tentativa desesperada de mantê-la, mesmo ao custo de uma insurreição teleguiada em 2021.

Finalmente, o investimento se mostrou ainda mais rentável com o retorno do querido amigo, em 2025, ao centro decisório do império em declinio. 

Tudo parece rodar na mais perfeita paz (ops), na mais cruel das guerras desde 1945, só faltando mesmo aquele maldito Prêmio Nobel que não parece dar as caras. Não tem importância: os próximos negócios na Rússia e em Gaza devem trazer grandes compensações financeiras, maiores, em todo caso do que qualquer premiozinho norueguês.

Pelo resumo da história:

Paulo Roberto de Almeida

(Um inventor de histórias)

Brasília, 10/09/2025


Revista del Ateneo de Ciencias Sociales de Argentina: homenaje a Rubens Ricupero como miembro de honor



O número da revista do Ateneo de Ciencias Sociales de Argentina que tem a homenagem especial ao embaixador Rubens Ricupero como membro de honra:

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terça-feira, 9 de setembro de 2025

Independência e a política externa - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Independência e a política externa
Desde o início, os formuladores da política externa viam o Brasil como uma ‘potência transatlântica’
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 9/09/2025

No dia 29 de agosto, há 200 anos, Portugal reconheceu a Independência do Brasil.
Um dos objetivos da revolução liberal do Porto, em 1820, estimulada pela elite portuguesa, foi forçar a volta de D. João VI e restabelecer o reinado controlado por Lisboa. Seu filho, Dom Pedro, decidiu ficar no Brasil, rebelando-se contra as Cortes (Parlamento), e em 7 de setembro de 1822 proclamou a separação de Portugal.
O processo de Independência do Brasil foi difícil em razão da tentativa das Cortes do Porto de manter o País como colônia portuguesa. A consolidação da Independência não foi pacífica, em vista das sucessivas revoltas estimuladas e financiadas pelas Cortes, com intenção de dividir o País em dois: toda a Região Norte e Nordeste até Minas Gerais continuaria sob o domínio de Lisboa, e o Sul do País permaneceria independente. As revoltas no Pará, Jenipapo, no Piauí, no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia tinham esse objetivo.
Pouco depois da derrota do exército português na Bahia, em 2 de julho de 1823, Portugal e Brasil assinaram, em 29 de agosto de 1825, o tratado que oficializou o reconhecimento da Independência brasileira. O acordo contou com a mediação da Grã-Bretanha, que teve papel decisivo nas negociações.
O reconhecimento do Brasil como país independente, a integridade territorial, a afirmação de sua soberania e a formulação dos princípios básicos da política externa, independente de Portugal, foram alguns aspectos iniciais da ação externa do novo país, mesmo enquanto havia a tentativa de organização de forças de Portugal e Espanha para continuar a manter o Brasil como Reino unido a Portugal.
A relação com a Grã-Bretanha foi dominante nas primeiras décadas depois da Independência e das mais difíceis para a diplomacia imperial brasileira: o esforço para o reconhecimento da Independência (depois de várias tentativas das Cortes de buscar o apoio de Londres contra a separação), para manter uma esquadra estacionada na Bahia para manter a separação de Portugal, para evitar a concessão de novos empréstimos leoninos ao Brasil e, sobretudo, a questão da escravidão, pela pressão britânica para o Império pôr fim ao tráfico de escravos. Apesar dessas questões e da pressão das Cortes, o governo de Londres, de forma pragmática, atendendo a seus interesses comerciais e financeiros, também assinou o Tratado Portugal-Brasil e reconheceu, na mesma data, a Independência do novo Estado, garantindo a integridade territorial brasileira e a continuidade de seus privilégios junto à ex-colônia (renovação em 1827 do acordo de comércio, concessão do primeiro empréstimo internacional) e pela promessa de proteção e fornecimento de material bélico e embarcações. A estreita relação política e comercial com a Grã-Bretanha, que colocou o Brasil quase na condição de um protetorado, teve na questão do tráfico de escravos por mais de 40 anos o maior trabalho da diplomacia para contornar compromissos não cumpridos, tornando os entendimentos com a Grã-Bretanha crescentemente tensos.
Outro relacionamento central no Império foi com os EUA. A história oficial no Brasil registra um equívoco no tocante ao início do relacionamento com os EUA. Dá-se como pacífico que o reconhecimento ocorreu em 1824, com o governo Monroe. Repete-se, inclusive, que os EUA foram o primeiro país a reconhecer a Independência do Brasil. Na realidade, há um duplo equívoco. A Independência só foi oficialmente reconhecida em Washington por um tratado assinado entre o Brasil e os EUA em fins de 1825, depois do reconhecimento de Portugal e da Grã-Bretanha. A razão desse erro histórico talvez resida no fato de o credenciamento do primeiro encarregado de negócios do Brasil em Washington, José Silvestre Rebelo, ter ocorrido em maio de 1824. Rebelo recebeu instruções detalhadas de que tinha como missão obter o reconhecimento da nossa Independência por Washington, visto que o governo norte-americano não reconhecia a Independência brasileira. Na realidade, o primeiro país a reconhecer a Independência não foi nem Portugal, nem os EUA, nem a Grã-Bretanha, foi a Argentina, em 1823, por razões relacionadas com a disputa pela Província Cisplatina, hoje Uruguai.
Desde o início, os formuladores da política externa viam o Brasil como uma “potência transatlântica” que não poderia aceitar subordinação aos interesses de potências estrangeiras, principalmente europeias, que, por seu poderio econômico e militar, eram as principais ameaças à consolidação do Brasil independente. Já nesse início da autonomia em relação a Portugal, a política externa, comandada por José Bonifácio, atuava com um pensamento mais amplo procurando projetar os interesses do País em várias áreas. O essencial para a política externa do novo país era manter a unidade territorial e a soberania. Para isso, trabalhou para equipar as forças de defesa para resistir a alguns focos de resistência à Independência, de modo a defender efetivamente o território nacional e para desenvolver uma ação diplomática que procurasse preservar a autonomia decisória nacional.
Salve a política externa da Independência.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/independencia-e-a-politica-externa/

Restabelecendo a verdade histórica - Paulo Roberto de Almeida

Restabelecendo a verdade histórica

Paulo Roberto de Almeida

Duas “comemorações” totalmente equivocadas, pelos “80 anos de vitórias” contra a agressão fascista, derrotada em 1945, nos eventos organizados em Moscou, em maio, e em Beijing, em agosto, com a presença, na primeira, do presidente brasileiro, e, na segunda, do seu assesdor internacional. 

A comemoração de maio “esquece” que a segunda guerra mundial começou justamente pela aliança entre a URSS e a Alemanha nazista desde 1939, que só terminou com a traição e invasão brutal da primeira por esta última em 1941.

A comemoração dos 80 anos em Beijing “esquece” que a RPC não existia em 1945 e que a vitória sobre o Japão foi obtida com ajuda feita pelo Reino Unido e pelos EUA à República da China e aos guerrilheiros do PCC. 

Taiwan, diga-se de passagem, nunca pertenceu à soberania da RPC, tendo sido uma província do Império do Meio conquistada pelo Japão em 1870 e “devolvida” à RC em 1945. 

Certos fatos históricos não deveriam ser esquecidos.

Paulo Roberto Almeida

Brasília, 9/09/2025


Meu posicionamento pessoal sobre o discurso diplomático de Lula no dia 8 de setembro de 2025 - Paulo Roberto de Almeida

Meu posicionamento pessoal sobre o discurso diplomático de Lula no dia 8 de setembro de 2025

Paulo Roberto de Almeida

O presidente Lula usou a cúpula virtual do Brics, em 8 de setembro de 2025, para expor, de forma abrangente, a posição do Brics com respeito aos principais problemas da atualidade internacional, com isso reiterando, ademais da postura da diplomacia brasileira sobre esses problemas, os posicionamentos da Rússia e da China sobre as mesmas questões. 

É certo que as turbulências atuais vêm sendo causadas por um presidente notoriamente despreparado para encaminhar essas questões com base no multilateralismo, no diálogo e na cooperação entre Estados soberanos, mas os grandes problemas não começaram em sua segunda gestão, sequer na primeira, cuja efetivação teve como origem a interferência de uma grande potência nos assuntos internos dos EUA, a mesma potência que está na origem da crise atual do sistema internada, que é a Rússia de Putin. 

Em nenhum momento, o discurso de Lula se refere à fonte primacial da crise atual do sistema multilateral, que  remetem à invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, em 2014, por forças clandestinas da Rússia, ou à invasão geral do território da Ucrânia pela Rússia em 2022, outra grave violação da Carta da ONU e do Direito Internacional.

Ao contrário, o discurso de Lula incorpora totalmente as posições de Putin sobre esse grave atentado à paz e à segurança internacionais, como se depreende do parágrafo abaixo, totalmente condizente com as escusas inaceitáveis da Rússia sobre sua grave violação da Carta da ONU:


“No que se refere à Ucrânia, é preciso pavimentar caminhos para uma solução realista que respeite as legítimas preocupações de segurança de todas as partes.”


Todas as demais propostas feitas no discurso de Lula correspondem a posicionamentos amplamente coincidentes com a visão chinesa das relações internacionais, sobretudo a de considerar que o BRICS “já é o novo nome da defesa do multilateralismo”, o que infelizmente não corresponde à realidade da crise atual do sistema internacional.

As posições de política externa do presidente Lula, mas não apenas em relação à grave crise atual do sistema multilateral da ONU, estão, conceitualmente e operacionalmente, distantes do que recomendariam os padrões habituais de atuação da diplomacia profissional brasileira. As dissonâncias e divergências entre uma e outra são profundas e persistentes, em função de concepções inadequadas e incompatíveis com a história e as tradições da diplomacia brasileira.

Paulo Roberto Almeida

Brasília, 9/09/2025


Discurso do presidente Lula na Cúpula Virtual do BRICS

 

Discurso do presidente Lula na Cúpula Virtual do BRICS

Discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a Cúpula Virtual do BRICS, em 8 de setembro de 2025

Na Cúpula do Rio de Janeiro, mostramos que o BRICS é capaz de aportar soluções concretas para os dilemas enfrentados pela humanidade.

Aprovamos decisões importantes em matéria de mudança do clima, saúde global, governança da inteligência artificial e integração econômico-comercial.

Passados apenas dois meses, vivemos um momento de crescente instabilidade.

Está cada vez mais claro que a crise de governança não é uma questão conjuntural.

Os pilares da ordem internacional criada em 1945 estão sendo solapados de forma acelerada e irresponsável.

A Organização Mundial do Comércio está paralisada há anos.

Em poucas semanas, medidas unilaterais transformaram em letra morta princípios basilares do livre-comércio como as cláusulas de Nação Mais Favorecida e de Tratamento Nacional.

Agora assistimos ao enterro formal desses princípios.

Nossos países se tornaram vítimas de práticas comerciais injustificadas e ilegais.

A chantagem tarifária está sendo normalizada como instrumento para conquista de mercados e para interferir em questões domésticas.

A imposição de medidas extraterritoriais ameaça nossas instituições.

Sanções secundárias restringem nossa liberdade de fortalecer o comércio com países amigos.

Dividir para conquistar é a estratégia do unilateralismo.

Cabe ao BRICS mostrar que a cooperação supera qualquer forma de rivalidade.

Regras e normas mutuamente acordadas são essenciais para o desenvolvimento.

O comércio e a integração financeira entre nossos países oferecem opção segura para mitigar os efeitos do protecionismo.

Possuímos inúmeras complementaridades econômicas.

Juntos, representamos 40% do PIB global, 26% do comércio internacional e quase 50% da população mundial.

Temos entre nós grandes exportadores e consumidores de energia.

Reunimos as condições necessárias para promover uma industrialização verde, que gere emprego e renda em nossos países, sobretudo nos setores de alta tecnologia.

Reunimos 33% das terras agricultáveis e respondemos por 42% da produção agropecuária global.

O Banco do BRICS contribui de forma crescente na diversificação de nossas bases econômicas e na promoção de uma transição justa e soberana.

Temos, portanto, a legitimidade necessária para liderar a refundação do sistema multilateral de comércio em bases modernas, flexíveis e voltadas às nossas necessidades de desenvolvimento.

Para isso, precisamos chegar unidos na 14ª Conferência Ministerial da OMC no próximo ano, no Cameroun.

Caros amigos,

Quando o princípio da igualdade soberana dos estados deixa de ser observado, a ingerência em assuntos internos se torna prática comum.

A solução pacífica de controvérsias dá lugar a condutas belicosas.

Sem amparo no direito internacional, os fracassos vivenciados no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria voltarão a se repetir. 

No que se refere à Ucrânia, é preciso pavimentar caminhos para uma solução realista que respeite as legítimas preocupações de segurança de todas as partes.

O encontro no Alasca e seus desdobramentos em Washington são passos na direção correta para pôr fim a esse conflito.

A Iniciativa Africana e o Grupo de Amigos para a Paz, criado por China e Brasil, podem contribuir por meio da promoção do diálogo e da diplomacia.

A decisão de Israel de assumir o controle da Faixa de Gaza e a ameaça de anexação da Cisjordânia requer nossa mais firme condenação.

É urgente colocar fim ao genocídio em curso e suspender as ações militares nos Territórios Palestinos.

O Brasil decidiu entrar como parte na ação da África do Sul na Corte Internacional de Justiça.

Reiterar o compromisso com a Solução de Dois Estados estará no centro da atuação brasileira na Conferência de Alto Nível para a Solução Pacífica da Questão Palestina.

No vazio de tantas crises não solucionadas, o terrorismo continua a assombrar a humanidade. O Brasil repudiou o sequestro e assassinato de inocentes pelo Hamas, bem como os atentados na Caxemira. 

Sabemos que o terrorismo não está associado a nenhuma religião ou nacionalidade.

Também não pode ser confundido com os desafios de segurança pública que muitos países enfrentam.

São fenômenos distintos e que não devem servir de desculpa para intervenções à margem do direito internacional.

A América Latina e o Caribe fizeram a opção, desde 1968, por se tornar livres de armas nucleares. Há quase 40 anos somos uma Zona de Paz e Cooperação.

A presença de forças armadas da maior potência do mundo no Mar do Caribe é fator de tensão incompatível com a vocação pacífica da região.

Caros amigos,

Em duas semanas, estaremos reunidos em Nova York para a 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas.

Será oportunidade para falarmos com uma só voz em defesa de um multilateralismo revigorado.

Devemos avançar na ampliação do Conselho de Segurança, incorporando novos membros permanentes e não permanentes da América Latina, da África e da Ásia.

Outra lacuna central na arquitetura multilateral refere-se ao âmbito digital.

Sem uma governança democrática, projetos de dominação centrado em poucas empresas de alguns países vão se perpetuar.

Sem soberania digital, seremos vulneráveis à manipulação estrangeira.

Isso não significa fomentar um ambiente de isolacionismo tecnológico, mas fomentar a cooperação a partir de ecossistemas de base nacional, independentes e regulados.

O impacto do unilateralismo também é grave na esfera ambiental.

Os países em desenvolvimento são os mais impactados pela mudança do clima. 

A COP30, em Belém, será o momento da verdade e da ciência.

Além de trabalhar pela descarbonização planejada da economia global, podemos utilizar os combustíveis fósseis para financiar a transição ecológica.

Precisamos de uma governança climática mais forte, capaz de exercer supervisão efetiva.

O Brasil convida seus parceiros do BRICS a considerar a criação de um Conselho de Mudança do Clima da ONU, que articule diferentes atores, processos e mecanismos que hoje se encontram fragmentados.

Chamo a atenção para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que queremos lançar na COP30, com o objetivo de remunerar os serviços ecossistêmicos prestados ao planeta.

O Sul Global tem condições de propor outro paradigma de desenvolvimento e de refutar uma nova Guerra Fria.

A futura presidência indiana do BRICS contará com todo o apoio do Brasil para seguir na defesa desses ideais.

A Cúpula do G20, sob a presidência sul-africana, também será espaço para um diálogo abrangente sobre os possíveis caminhos para a ordem internacional.

O unilateralismo jamais conduzirá à realização dos propósitos de paz, justiça e prosperidade que nossos antecessores delinearam em 1945.

O BRICS já é o novo nome da defesa do multilateralismo.

Muito obrigado.

Postagem em destaque

A corrupção que vem de cima: nossas elites assaltantes - Miguel Reale e Paulo Roberto de Almeida

  PRA : Praticamente de forma contemporânea à descoberta do Mensalão — que aliás foi precedido por um outro esquema fraudulento, de loterias...