segunda-feira, 16 de março de 2026

Eleições brasileiras 2026 - Diogo Dutra (Revista ID)

 

Quando o sistema trava

Polarização, atratores políticos e o lock-in da democracia brasileira

Introdução — um sistema que não conseguimos mais enxergar de dentro

Talvez estejamos nos aproximando do quinto ou sexto ciclo eleitoral consecutivo no qual o Brasil convive com um fenômeno que, no início, parecia episódico, mas que ao longo do tempo foi se consolidando como uma estrutura permanente da vida política: a polarização radicalizada. Passamos por momentos de enorme tensão pública. Assistimos a crises institucionais, a rupturas profundas no tecido social, a relações pessoais que se deterioraram sob o peso de disputas políticas cada vez mais agressivas. Famílias se dividiram, amizades se romperam, ressentimentos se acumularam silenciosamente em muitas camadas da sociedade.

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Ao longo desse período, muitos de nós experimentamos uma mistura estranha de indignação, cansaço e resignação. Houve momentos de raiva coletiva, momentos de medo real, momentos em que parecia que qualquer coisa poderia acontecer. Algumas das coisas que temíamos aconteceram; outras, felizmente, não aconteceram. Mas o que talvez seja mais intrigante — e, para mim, cada vez mais perturbador — é perceber que, mesmo depois de atravessarmos tantos ciclos dessa dinâmica, ainda parece não ter caído a ficha coletiva sobre o quão profundamente danoso é esse padrão de organização da vida política.

Observando o cenário que começa a se desenhar para mais uma eleição nacional, algo me impressiona profundamente: mesmo antes do primeiro turno acontecer, já estamos operando mentalmente dentro da lógica de um segundo turno polarizado. As pessoas discutem cenários eleitorais como se fosse inevitável que o sistema político brasileiro continue organizado em torno de dois polos que se antagonizam mutuamente. Comentários, análises e até conversas cotidianas parecem aceitar como natural que, ao final do processo, estaremos novamente diante da mesma estrutura binária que tem organizado a política brasileira nos últimos anos.

Esse fenômeno é tão naturalizado que raramente paramos para fazer uma pergunta fundamental: e se estivermos presos dentro de um sistema que reproduz continuamente essa estrutura?

É justamente essa pergunta que me levou a tentar observar o fenômeno político a partir de uma lente um pouco diferente daquela que costuma orientar o debate público. Em vez de interpretar eleições e disputas ideológicas apenas como fenômenos institucionais ou morais, tenho me interessado cada vez mais por compreendê-los como expressões de sistemas complexos. E quando olhamos a política dessa maneira — como um sistema dinâmico composto por milhões de interações entre indivíduos, instituições e fluxos de informação — alguns padrões começam a emergir.

Um desses padrões é o que a literatura sobre sistemas complexos chama de atrator: um estado relativamente estável para o qual o sistema tende a convergir repetidamente. E quando um sistema entra nesse tipo de configuração, ele pode permanecer ali por muito tempo, reproduzindo continuamente a mesma dinâmica [1].

Talvez seja exatamente isso que estejamos vivendo.

Talvez estejamos presos em um lock-in político.

Este ensaio é uma tentativa de dar um passo para trás e olhar para esse fenômeno sob a perspectiva de sistemas dinâmicos. Não para justificar a polarização, mas para compreender por que ela persiste, por que ela captura inclusive aqueles que não se identificam com os polos mais radicalizados e, sobretudo, por que ela só será superada se certas perturbações ocorrerem dentro do próprio sistema social.


I — Atratores, lock-in e sistemas sociais

Na literatura sobre sistemas complexos e economia evolucionária, o conceito de lock-in descreve uma situação em que um sistema entra em uma trajetória histórica que passa a se auto-reforçar. Uma vez estabelecida determinada configuração institucional, tecnológica ou organizacional, cada decisão subsequente tende a reproduzir as condições que mantêm essa estrutura em funcionamento. O conceito tornou-se particularmente conhecido a partir dos trabalhos de Brian Arthur, que demonstrou como tecnologias ou instituições podem tornar-se dominantes não necessariamente porque são superiores, mas porque um conjunto inicial de escolhas cria um caminho do qual se torna progressivamente mais difícil escapar [2].

Em sistemas desse tipo, pequenas perturbações raramente são suficientes para alterar a trajetória dominante. O sistema tende a absorver essas variações e retornar à configuração anterior. Para que uma transformação estrutural ocorra, normalmente é necessário algum tipo de distúrbio suficientemente intenso para deslocar o sistema para outro atrator.

Essa dinâmica aparece em diversas áreas do conhecimento. Ilya Prigogine mostrou que sistemas físicos complexos frequentemente permanecem em estados metaestáveis até que flutuações internas ou externas criem condições para reorganizações estruturais profundas [3]. Na teoria de redes, pesquisadores observaram que interações sociais tendem a produzir agrupamentos densos — clusters — nos quais identidades coletivas e padrões de comportamento se reforçam mutuamente [4].

Quando aplicamos essa lente à política contemporânea, começamos a perceber que certos fenômenos aparentemente contingentes podem refletir estruturas sistêmicas relativamente estáveis. Polarização política intensa é um desses fenômenos.


II — A polarização como atrator político

Conflitos políticos sempre existiram. Divergências ideológicas, disputas eleitorais e confrontos de visões de mundo fazem parte da própria dinâmica das democracias. O que parece ter se alterado nas últimas décadas, no entanto, não é apenas a intensidade desses conflitos, mas a forma como eles estruturam o sistema político como um todo.

No Brasil — assim como em diversos outros países — a polarização deixou gradualmente de ser apenas uma característica episódica da competição política para tornar-se uma espécie de mecanismo organizador do próprio sistema político. A lógica que orienta a mobilização eleitoral passa a depender cada vez mais da criação de identidades antagônicas relativamente estáveis. Em vez de múltiplos projetos disputando preferências em um campo plural, o sistema passa a gravitar em torno de dois polos que se alimentam mutuamente.

A lógica desse processo é relativamente simples. Criar um campo de pertencimento emocional — o “nós” — e simultaneamente construir uma rejeição intensa ao “eles”. Essa estrutura reduz a complexidade do sistema político e torna a mobilização mais eficiente. Eleitores passam a tomar decisões menos com base em programas e mais com base em identidades.

Esse mecanismo tem um efeito curioso: cada lado passa a depender da existência do outro para sustentar sua própria mobilização. Ataques reforçam identidades. Conflitos ampliam o engajamento. Episódios de indignação coletiva aumentam a coesão interna dos grupos.

Com o tempo, essa dinâmica tende a produzir um verdadeiro atrator político. Uma configuração que passa a organizar grande parte das interações dentro do sistema.

Uma vez que esse padrão se estabelece, praticamente todas as forças institucionais começam a reforçá-lo. Estratégias de comunicação política privilegiam narrativas polarizadas. Redes sociais amplificam conteúdos que despertam emoções intensas. E até instrumentos que deveriam ajudar a compreender a realidade política — como pesquisas eleitorais — acabam frequentemente reforçando essa estrutura ao enquadrar o debate quase exclusivamente como uma disputa entre dois polos.

Talvez o dado mais relevante — e menos discutido — seja que, no caso brasileiro, os níveis de rejeição entre campos políticos atingiram patamares historicamente elevados. Ou seja, a polarização deixou de ser apenas competição eleitoral e passou a incorporar uma dimensão emocional de rejeição ao adversário.

Do ponto de vista sistêmico, esse é um indicador clássico de um sistema que entrou em lock-in.


III — Quando o centro é capturado pelo sistema

O aspecto mais intrigante dessa dinâmica talvez seja o seguinte: ela não depende apenas dos atores mais radicalizados do sistema político. Na verdade, sistemas polarizados tendem a capturar progressivamente também aqueles que inicialmente se posicionam fora dos polos.

Em termos de sistemas dinâmicos, quando um sistema possui dois atratores dominantes, elementos que se aproximam do campo tendem a ser puxados gravitacionalmente para uma dessas regiões de estabilidade. Traduzido para a política, isso significa que atores moderados frequentemente acabam sendo absorvidos pela lógica da polarização, mesmo quando não compartilham plenamente das posições ideológicas dos extremos.

Esse fenômeno aparece de diversas maneiras. O medo do adversário leva eleitores moderados a votar estrategicamente. Candidatos que inicialmente tentam ocupar posições intermediárias acabam adotando discursos mais polarizados para sobreviver eleitoralmente. A própria narrativa pública passa a tratar posições centristas como ingenuidade, ambiguidade ou falta de coragem.

O resultado é um processo curioso e profundamente distorcedor. Mesmo quando existe uma parcela significativa da população que não se identifica plenamente com nenhum dos polos, o sistema continua produzindo segundos turnos cada vez mais radicalizados. Em vez de escolhas entre projetos consistentes de país, o eleitorado se vê diante de decisões motivadas principalmente pela tentativa de evitar aquilo que considera o pior cenário possível.

Esse fenômeno produz uma ilusão política perigosa. Governos eleitos dentro dessa dinâmica frequentemente parecem possuir legitimidade majoritária, quando na realidade foram escolhidos por um eleitorado fragmentado, que muitas vezes votou movido mais pelo medo do adversário do que pela adesão ao projeto vencedor.

É exatamente assim que sistemas em lock-in operam: empurrando todos os atores para dentro da estrutura existente.


IV — sair da inércia do sistema

Talvez o aspecto mais fascinante — e ao mesmo tempo mais inquietante — dos sistemas complexos seja o seguinte: quando estamos dentro de um atrator, frequentemente temos a impressão de que aquela configuração é inevitável. O sistema parece natural. Parece inevitável. Parece que sempre foi assim e que sempre continuará sendo assim.

Mas sistemas dinâmicos não funcionam dessa maneira.

Eles permanecem estáveis até que alguma perturbação relevante altere o padrão das interações. Pequenas mudanças acumuladas podem, em determinado momento, deslocar o sistema para outra região do espaço dinâmico.

O que me inquieta profundamente neste momento é perceber que talvez estejamos vivendo exatamente o oposto desse processo. Em vez de produzir perturbações capazes de alterar a dinâmica da polarização, muitos atores sociais parecem simplesmente aceitar sua inevitabilidade. Pessoas que não se identificam com os polos mais radicalizados continuam sendo puxadas para dentro dessa lógica pela força gravitacional do sistema.

E aqui está talvez o ponto mais importante deste ensaio.

Se existe hoje uma parcela significativa da sociedade que não deseja viver dentro dessa estrutura de antagonismo permanente, então essa parcela precisa compreender que a inércia também é uma forma de participação no sistema. Aceitar passivamente a lógica da polarização significa, na prática, reforçá-la.

É por isso que talvez seja urgente produzir um tipo diferente de movimento.

Não apenas institucional.

Mas social, cultural e relacional.

Pessoas que se identificam com posições mais moderadas ou que simplesmente rejeitam a lógica de inimização da política precisam começar a se posicionar de forma mais clara — nas conversas privadas, nos espaços públicos, nas redes sociais, nas organizações em que participam.

Isso significa recusar a lógica do “nós contra eles”.

Significa não amplificar narrativas que reforçam a polarização.

Significa defender explicitamente a existência de alternativas políticas fora desse binarismo.

Significa também, eventualmente, estimular alianças entre candidaturas que tentam ocupar esse espaço intermediário — em vez de contribuir para a fragmentação que frequentemente inviabiliza esse campo.

E, se mesmo assim o sistema insistir em reproduzir apenas escolhas polarizadas, talvez seja necessário sinalizar de forma clara que essa estrutura não é aceitável.

Mesmo que isso implique, em determinadas circunstâncias, recusar participar da lógica binária que o sistema tenta impor.

Não como gesto de indiferença política.

Mas como um sinal explícito de que parte da sociedade não aceita mais ser arrastada pela dinâmica de um sistema que produz continuamente inimigos políticos em vez de adversários democráticos.

Se existe algo que a teoria dos sistemas complexos nos ensina é que atratores não são eternos.

Mas eles também não desaparecem sozinhos.

Eles desaparecem quando novas interações começam a reorganizar o sistema.

A pergunta que fica — e que talvez seja a pergunta política mais importante deste momento — é se estamos dispostos a produzir essas novas interações ou se continuaremos aceitando, ciclo após ciclo, a gravidade de um sistema que parece cada vez mais difícil de abandonar.


Notas

[1] Stuart Kauffman — At Home in the Universe (1995).

[2] W. Brian Arthur — “Competing Technologies, Increasing Returns, and Lock-In by Historical Events” (1989).

[3] Ilya Prigogine — Order Out of Chaos (1984).

[4] Duncan Watts — Six Degrees: The Science of a Connected Age (2003).

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Holodomor: depois do genocídio armênio, pelos otomanos, o genocídio do povo ucraniano pelo Stalin - blog Diplomatizzando

 Agradeço a Airton Dirceu Lemmertz ter destacado minhas postagens no Diplomatizzando a propósito do genocídio stalinista contra o povo ucraniano no Holodomor:


As postagens "Holodomor (A Grande Fome) - o genocídio de milhões de ucranianos através da fome pelo regime stalinista - Airton Dirceu Lemmertz" (https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/holodomor-grande-fome-o-genocidio-de.html), "Dossiê Holodomor: o genocídio ucraniano por Stalin - Materiais coletados por Airton Dirceu Lemmertz" (https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/dossie-holodomor-o-genocidio-ucraniano.html) e "A eterna guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia - Euler de França Belém (Jornal Opção)" (http://diplomatizzando.blogspot.com/2025/05/a-eterna-guerra-de-agressao-da-russia.html) possuem links que levam a endereços com material escrito originalmente em língua portuguesa.
Abaixo, outros endereços com a temática Holodomor (A Grande Fome ucraniana); mas, dessa vez, oriundos de material em língua estrangeira (não português), devidamente traduzidos.

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Universidade de Minnesota


Holodomor

O genocídio ucraniano:

"No caso do Holodomor, este foi o primeiro genocídio metodicamente planejado e perpetrado, privando justamente as pessoas que produziam alimentos de seu sustento (para a sobrevivência). O que é especialmente horrível é que a privação de alimentos foi usada como arma de genocídio e que isso ocorreu em uma região do mundo conhecida como o 'celeiro da Europa'." – Prof. Andrea Graziosi, Universidade de Nápoles.

Uma Introdução:

Em 1932 e 1933, milhões de ucranianos foram mortos no Holodomor, uma fome provocada pelo governo soviético de Josef Stalin. As principais vítimas do Holodomor (literalmente "morte causada pela inanição") foram os agricultores e moradores de vilarejos, que representavam cerca de 80% da população da Ucrânia na década de 1930. Embora seja impossível determinar o número exato de vítimas do genocídio ucraniano, a maioria das estimativas de estudiosos varia de aproximadamente 3,5 milhões a 7 milhões (com algumas estimativas apontando para números maiores). Os estudos demográficos mais detalhados estimam o número de mortos em 3,9 milhões. Os historiadores concordam que, como em outros genocídios, o número exato jamais será conhecido.

Por meio do estudo do Holodomor (também conhecido como a Grande Fome), os alunos podem compreender que o Holodomor é um exemplo de como o preconceito e o desejo de dominar e controlar um determinado grupo étnico podem levar ao abuso de poder, à opressão em massa e ao genocídio.

Ucrânia antes do Holodomor:

A partir do século XVIII, os territórios ucranianos foram divididos entre os impérios austríaco e russo. Após a Primeira Guerra Mundial e a queda da monarquia russa em fevereiro de 1917, a Ucrânia estabeleceu um governo provisório, declarando-se a República Popular Ucraniana independente em janeiro de 1918. A República Popular Ucraniana lutou contra o Exército Vermelho bolchevique por três anos (1918-1921), mas perdeu a batalha pela independência.

A maior parte do território ucraniano foi incorporada à força à União Soviética, ou URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), e em 1922 a Ucrânia tornou-se a República Socialista Soviética da Ucrânia (RSSU). Em seguida, a URSS autorizou a requisição de todos os excedentes de produtos agrícolas da população rural, resultando em um colapso econômico.

O descontentamento entre os agricultores forçou Lenin a suspender as requisições e a implementar a Nova Política Econômica (NEP) em março de 1921. A NEP visava proporcionar maior liberdade econômica e permitir a iniciativa privada, principalmente para fazendas independentes e pequenas empresas. A partir de 1923, as autoridades soviéticas também adotaram uma política de indigenização, que na RSS da Ucrânia assumiu a forma de ucranização, uma política de liberalização nacional e cultural que promoveu o uso da língua ucraniana na educação, nos meios de comunicação e no governo. O objetivo da implementação tanto da NEP quanto da ucranização era aumentar o apoio ao regime soviético na Ucrânia. [...].

Causas do Holodomor:

No final da década de 1920, o líder soviético Josef Stalin consolidou seu controle sobre o Partido Comunista da União Soviética. Sentindo-se ameaçado pela crescente autonomia cultural da Ucrânia, Stalin tomou medidas para destruir o campesinato ucraniano e as elites intelectuais e culturais ucranianas, a fim de impedi-las de buscar a independência da Ucrânia.

Para impedir uma "contrarrevolução nacional ucraniana", Stalin iniciou uma repressão política em massa através de intimidação generalizada, prisões e encarceramentos. Milhares de intelectuais ucranianos, líderes religiosos e funcionários do Partido Comunista Ucraniano que haviam apoiado políticas pró-Ucrânia foram executados pelo regime soviético.

Ao mesmo tempo, Stalin decretou o Primeiro Plano Quinquenal, que incluía a coletivização da agricultura, pondo fim à NEP (Nova Política Econômica). A coletivização deu ao Estado soviético controle direto sobre os ricos recursos agrícolas da Ucrânia e permitiu que o Estado controlasse o fornecimento de grãos para exportação. As exportações de grãos seriam usadas para financiar a transformação da URSS em uma potência industrial.

A maioria dos ucranianos rurais, pequenos agricultores independentes ou de subsistência, resistiu à coletivização. Foram forçados a entregar suas terras, gado e ferramentas agrícolas, e a trabalhar como operários em fazendas coletivas do governo (kolhosps). Historiadores registraram cerca de 4.000 rebeliões locais contra a coletivização, a tributação, o terror e a violência das autoridades soviéticas no início da década de 1930. A polícia secreta soviética (GPU) e o Exército Vermelho reprimiram esses protestos com brutalidade. Dezenas de milhares de agricultores foram presos por participarem de atividades antissoviéticas, fuzilados ou deportados para campos de trabalho forçado.

Os fazendeiros ricos e bem-sucedidos que se opunham à coletivização eram rotulados de "kulaks" pela propaganda soviética ("kulak" significa literalmente "punho"). Eles eram declarados inimigos do Estado, a serem eliminados como classe. A eliminação dos chamados "kulaks" era parte integrante da coletivização. Servia a três propósitos: como um aviso para aqueles que se opunham à coletivização, como um meio de transferir terras confiscadas para as fazendas coletivas e como um meio de eliminar a liderança das aldeias. Assim, a polícia secreta e a milícia despojaram brutalmente os "kulaks" não apenas de suas terras, mas também de suas casas e pertences pessoais, deportando-os sistematicamente para as regiões mais remotas da URSS ou executando-os.

Essas repressões em massa, juntamente com a manipulação das compras de grãos controladas pelo Estado e a coletivização por meio da destruição da vida comunitária rural ucraniana, prepararam o terreno para o terror total – um terror pela fome, o Holodomor.

O Holodomor:

A Ucrânia, com seu histórico de resistência ao domínio soviético, representava uma ameaça ao regime soviético. Temendo que a oposição às suas políticas na Ucrânia pudesse se intensificar e possivelmente levar à secessão do país da União Soviética, Stalin estabeleceu cotas de aquisição de grãos irrealisticamente altas. Essas cotas foram acompanhadas por outras medidas draconianas destinadas a dizimar uma parte significativa da nação ucraniana.

Em agosto de 1932, o decreto dos "Cinco Talos de Grãos" estabelecia que qualquer pessoa, mesmo uma criança, flagrada retirando qualquer produto de um campo coletivo, poderia ser fuzilada ou presa por roubo de "propriedade socialista". No início de 1933, cerca de 54.645 pessoas foram julgadas e condenadas; destas, 2.000 foram executadas.

Com o agravamento da fome, um número crescente de agricultores abandonou suas aldeias em busca de alimentos fora da Ucrânia. As diretrizes enviadas por Stalin e Molotov (o colaborador mais próximo de Stalin) em janeiro de 1933 os impediram de sair, selando efetivamente as fronteiras da Ucrânia.

Para garantir ainda mais que os agricultores ucranianos não abandonassem suas aldeias em busca de comida nas cidades, o governo soviético instituiu um sistema de passaportes internos, que eram negados aos agricultores, impedindo-os de viajar ou obter passagens de trem sem autorização oficial. Essas mesmas restrições se aplicavam à região de Kuban, na Rússia, que faz fronteira com a Ucrânia e onde os ucranianos representavam a maior parte da população – 67%.

Na época do Holodomor, mais de um terço das aldeias na Ucrânia foram incluídas em "listas negras" por não cumprirem as quotas de grãos. As aldeias nessas listas foram cercadas por tropas e os moradores foram impedidos de sair ou receber qualquer suprimento; era essencialmente uma sentença de morte coletiva.

Para garantir que essas novas leis fossem rigorosamente cumpridas, grupos de "ativistas" organizados pelo Partido Comunista foram enviados para o interior. Conforme descrito pelo historiador Clarence Manning: "O trabalho dessas 'comissões' e 'brigadas' especiais era marcado pela extrema severidade. Eles entravam nas aldeias e faziam buscas minuciosas nas casas e celeiros de cada camponês. Reviravam a terra e arrombavam as paredes dos edifícios e fogões onde os camponeses tentavam esconder seus últimos punhados de comida."

Para escapar da morte por inanição, os moradores das aldeias comiam tudo o que fosse comestível: grama, bolotas, até mesmo gatos e cachorros. Os arquivos da polícia soviética da época contêm descrições do imenso sofrimento e desespero dos agricultores ucranianos, incluindo casos de desrespeito à lei, roubo, linchamento e até canibalismo.

Essa fome, o Holodomor, resultou em mortes em larga escala e valas comuns cavadas por todo o campo. Os registros oficiais não apresentavam um relato completo do que estava acontecendo na Ucrânia — muitas vezes, as mortes não eram registradas e a causa da morte não era informada — para ocultar a verdadeira situação.

No auge do Holodomor, em junho de 1933, os ucranianos morriam a uma taxa de 28.000 pessoas por dia. Cerca de 3,9 milhões de ucranianos morreram durante o Holodomor de 1932-33 (conforme estabelecido em um estudo de 2015 por uma equipe de demógrafos do Instituto Ucraniano de Estudos Demográficos e Sociais e da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill).

Enquanto ucranianos morriam, o Estado soviético extraiu 4,27 milhões de toneladas de grãos da Ucrânia em 1932, o suficiente para alimentar pelo menos 12 milhões de pessoas durante um ano inteiro. Registros soviéticos mostram que, em janeiro de 1933, havia reservas de grãos suficientes na URSS para alimentar bem mais de 10 milhões de pessoas. O governo poderia ter organizado ajuda humanitária e aceitado auxílio externo. Moscou rejeitou a ajuda estrangeira e denunciou aqueles que a ofereceram, preferindo exportar os grãos e outros alimentos da Ucrânia para o exterior em troca de dinheiro.

A maioria dos historiadores que estudaram esse período da história ucraniana concluiu que a fome foi deliberada e ligada a uma política soviética mais ampla de subjugação do povo ucraniano. Com a queda da União Soviética e a abertura dos arquivos do governo soviético (incluindo os arquivos dos serviços de segurança), os pesquisadores puderam demonstrar que as autoridades soviéticas tomaram medidas especificamente na Ucrânia sabendo que o resultado seria a morte de milhões de ucranianos por inanição.

"O Terror-Fome de 1932-33 foi um subproduto da coletivização com duplo propósito: suprimir o nacionalismo ucraniano e, ao mesmo tempo, eliminar a concentração mais importante de camponeses prósperos." – Norman Davies, Europa, Uma História.

O Holodomor como Genocídio:

Raphael Lemkin (1900-1959), especialista em direito penal internacional (com particular interesse na prevenção do extermínio humano em massa), que cunhou e promoveu o termo "genocídio", identificou o Holodomor como "o exemplo clássico de genocídio soviético".

As ideias de Lemkin sobre genocídio serviram de base para a Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e a Repressão do Genocídio, de 1948. A Convenção define genocídio como atos "que tenham a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, enquanto tal".

Em um discurso proferido em 1953, bem como em artigos escritos na década de 1950, Lemkin aplicou o termo genocídio ao Holodomor e à tentativa de destruir a nação ucraniana.

Lemkin identificou quatro componentes essenciais no processo genocida na Ucrânia:
- O extermínio das elites nacionais ucranianas (líderes políticos e culturais),
- A destruição da Igreja Ortodoxa Autocéfala (independente) da Ucrânia (seu clero e hierarquia),
- A fome que assolou a população agrícola ucraniana (o Holodomor), e
- Sua substituição por cidadãos não ucranianos da RSFSR e de outros lugares.

Historiadores renomados e outros estudiosos, como James Mace, Robert Conquest, Timothy Snyder, Norman Naimark e Anne Applebaum, que dedicaram um tempo considerável ao estudo do Holodomor e publicaram extensivamente sobre o assunto, concluíram que se tratou de um genocídio.

"O Holodomor ucraniano foi um genocídio? Sim, na minha opinião, foi. Ele atende aos critérios da lei sobre genocídio de 1948, a Convenção – atende às ideias que Raphael Lemkin estabeleceu." – Timothy Snyder (Professor Richard C. Levin de História na Universidade de Yale e Pesquisador Permanente do Instituto de Ciências Humanas em Viena), 15ª Palestra Anual Arsham e Charlotte Ohanessian e Simpósio do Centro de Estudos do Holocausto e Genocídio.

[...]

Negação do Holodomor:

Na época do Holodomor, o governo soviético e o Partido Comunista negaram a existência de uma fome e recusaram qualquer ajuda externa. Uma sucessão de governos soviéticos manteve a negação formal do Holodomor. Na Ucrânia, era impossível falar publicamente, discutir abertamente ou ensinar sobre o Holodomor até o final da década de 1980. Informações sobre a fome estavam disponíveis apenas no Ocidente, principalmente por meio de relatos de testemunhas oculares, refugiados que sobreviveram ao evento e escaparam da União Soviética após a Segunda Guerra Mundial.

Ainda hoje, as autoridades da Federação Russa admitem que houve fomes na URSS na década de 1930, mas recusam-se a reconhecer a natureza deliberada da fome de 1932-1933 na Ucrânia.

Além da negação soviética na época do Holodomor, jornalistas estrangeiros estacionados na URSS praticamente o ignoraram, enquanto a maioria dos governos, cujos países atravessavam a Grande Depressão, tinha conhecimento do ocorrido, mas nada fez. O jornalista Walter Duranty, do The New York Times, ganhador do Prêmio Pulitzer por seus artigos sobre a URSS, escreveu: "Não há fome ou mortes por inanição, mas há mortalidade generalizada por doenças devido à desnutrição... as condições são ruins. Mas não há fome." Recentemente, Duranty foi desacreditado por acobertar a fome na Ucrânia.

Houve alguns jornalistas que escreveram sobre a fome na Ucrânia, como Gareth Jones , que escrevia para o New York American e o Los Angeles Examiner, e Malcolm Muggeridge, um correspondente estrangeiro britânico. [...].

Legado e Consequências:

O Holodomor terminou em 1933. A coletivização foi completa, com todas as terras agrícolas se tornando propriedade socialista e todos os agricultores trabalhando para o Estado. De acordo com estudos demográficos recentes, 13,3% da população da Ucrânia morreu durante o Holodomor. Em algumas regiões da Ucrânia, a porcentagem de mortes devido à fome foi maior; por exemplo, a taxa foi de 19% em Kiev e 29% na região de Kharkiv. O Holodomor dizimou milhões de ucranianos. A promoção de uma "nova identidade soviética" e a pressão oficial sobre os ucranianos para que usassem a língua russa se intensificaram. Mesmo após o fim do Holodomor, o sofrimento dos ucranianos não cessou. As famílias das vítimas do Holodomor temeram a fome e novas repressões pelo resto de suas vidas, e esse medo foi transmitido às gerações futuras. Elas logo vivenciariam novos traumas: os expurgos de Stalin em 1937-38, a Segunda Guerra Mundial, a ocupação nazista e o Holocausto, e a fome de 1946-47.

Outra consequência do Holodomor na Ucrânia foi a perda da memória coletiva. Na Ucrânia soviética, o Holodomor foi mantido fora do discurso público oficial até pouco antes da Ucrânia conquistar sua independência em 1991. Agora sabemos que instruções explícitas foram emitidas em toda a União Soviética proibindo o uso da palavra "fome", não apenas em documentos partidários e militares, mas também em registros médicos e estatísticas. Irena Chalupa, diretora do Serviço Ucraniano da RFE/RL, afirmou: "O motor criativo de um povo foi destruído, retardando e distorcendo a construção da nação por décadas. O regime soviético impediu que famílias e indivíduos processassem o luto pessoal e nacional. Por mais de 50 anos, a Ucrânia não pôde lidar abertamente com esse trauma."

Na década de 1980, com a publicação do relatório da Comissão dos EUA sobre a Fome na Ucrânia e as conclusões da Comissão Internacional de Inquérito sobre a Fome de 1932-33 na Ucrânia, bem como o lançamento do documentário revelador " Harvest of Despair" (Colheita do Desespero), a atenção mundial finalmente se voltou para o Holodomor.

Em 28 de novembro de 2006, a Verkhovna Rada (Parlamento da Ucrânia) aprovou um decreto definindo o Holodomor como um ato deliberado de genocídio. O Holodomor foi reconhecido como genocídio por 16 nações  e 22 estados dos EUA, incluindo Minnesota.

Sugestão para educadores:

É importante que todos os alunos conheçam e compreendam alguns dos aspectos mais importantes do Holodomor, o genocídio ucraniano. O Holodomor e outros exemplos de genocídio têm um significado duradouro para os americanos e para o mundo como um todo, pois há lições importantes a serem aprendidas sobre direitos e responsabilidades humanas, opressão e o desafio da democracia em sociedades multiétnicas e multiculturais.

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Consórcio de Pesquisa e Educação sobre o Holodomor,
Instituto Canadense de Estudos Ucranianos,
Universidade de Alberta


O Consórcio de Pesquisa e Educação sobre o Holodomor (HREC):
Promove a pesquisa, o estudo e a compreensão do Holodomor – a fome na Ucrânia de 1932-33. O HREC foi criado em 2013 pela Fundação Temerty no Instituto Canadense de Estudos Ucranianos (CIUS), da Universidade de Alberta. O mandato do HREC é executado por funcionários em um escritório em Toronto, funcionários do CIUS em Edmonton e pesquisadores na Ucrânia.

Informações básicas sobre o Holodomor:

Curso online sobre Holodomor:

Pesquisar calendário de eventos:

O canal no YouTube (Holodomor Research and Education Consortium):

Trailer [no YouTube] do curso online sobre Holodomor: 
- Aqui está uma prévia do curso online "Fome como Genocídio no Século XX: O Caso do Holodomor". O curso, que foi disponibilizado gratuitamente ao público pela plataforma Coursera, reúne a experiência de mais de uma dezena de acadêmicos internacionais para explorar uma série de tópicos, incluindo história soviética, história ucraniana, o que o mundo sabia na época da Grande Fome, o Holodomor no contexto da fome no século XX e a questão do genocídio. Na Universidade de Alberta, o curso é oferecido com créditos acadêmicos e ministrado por um instrutor que integra os módulos e materiais online. 
- A obra "Fome como Genocídio no Século XX: O Caso do Holodomor" explora de forma abrangente a fome que assolou a Ucrânia entre 1932 e 1933. Os leitores obterão uma compreensão profunda do Holodomor no contexto de outras fomes do século XX, dos estudos sobre genocídio, da experiência dos sobreviventes, da disseminação do conhecimento, da desinformação e da negação, bem como da história ucraniana e soviética. O Holodomor, uma das maiores tragédias do século XX, tornou-se objeto de estudo sério somente após a queda da URSS. Através da análise de pesquisas recentes e sob as perspectivas do colonialismo, do império, do genocídio, da fome e da segurança alimentar, da disseminação de (des)informação e das relações ucraniano-russas, "Fome como Genocídio no Século XX: O Caso do Holodomor" defende a importância crucial do Holodomor para a compreensão da história ucraniana, soviética, europeia e mundial, bem como dos eventos atuais. 

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Biblioteca da Câmara dos Lordes


Holodomor ucraniano

O Holodomor ucraniano, também conhecido como a "Grande Fome", ocorreu entre 1932 e 1933. As políticas agrícolas implementadas sob o regime soviético de Josef Stalin foram responsabilizadas pela morte de milhões de pessoas durante esse período. Nos últimos anos, diversos governos e parlamentos reconheceram o evento como genocídio. O governo do Reino Unido afirmou que só se referirá ao evento como genocídio após uma decisão judicial competente.

1. O que foi o Holodomor ucraniano?

O Holodomor — traduzido diretamente do ucraniano como "morte por fome" — refere-se a uma fome que ocorreu na Ucrânia entre 1932 e 1933. [1] Isso ocorreu após a implementação das políticas de coletivização agrícola introduzidas sob o regime soviético de Josef Stalin. [2] Essas políticas exigiam que os ucranianos contribuíssem com altas cotas de grãos para o Estado soviético. [3] Aqueles que não conseguiam cumprir essas cotas tinham suas casas revistadas e seus alimentos confiscados. Relata-se que os ucranianos foram proibidos de deixar o país durante esse período, apesar da escassez de recursos alimentares. Embora a Rússia tenha reconhecido o Holodomor como uma tragédia, contesta que o regime soviético tenha causado a fome intencionalmente. [4]

Não existe um número oficial de mortos para o Holodomor. Alguns acadêmicos, incluindo Oleh Wolowyna, diretor do Centro de Pesquisa Demográfica e Socioeconômica de Ucranianos nos EUA, estimaram que ocorreram cerca de 4 milhões de mortes. [5] Outros estimaram o número de mortos em um valor muito maior. [6] No entanto, de acordo com Olga Andriewsky, professora associada da Universidade Trent, no Canadá, demógrafos e historiadores concordaram que não seria possível estabelecer um número preciso devido a problemas com os materiais do censo soviético da época. [7] Serhii Plokhy, professor de história ucraniana na Universidade Harvard, também aludiu à ausência de dados confiáveis sobre as perdas populacionais durante esse período. [8]

Alguns governos e parlamentos, incluindo o governo canadense, o parlamento australiano e o Congresso dos Estados Unidos, classificaram o Holodomor como um genocídio perpetrado pelo regime soviético de Stalin. Mais detalhes sobre alguns desses países que reconheceram o evento como genocídio são fornecidos na seção 4.

2. O que é genocídio?

Genocídio é um crime internacional. Refere-se a qualquer um dos seguintes atos cometidos com a intenção de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso:
- matar membros do grupo;
- causar danos físicos ou mentais graves aos membros do grupo;
- infligir deliberadamente ao grupo condições de vida calculadas para provocar sua destruição física, total ou parcial.;
- impondo medidas destinadas a prevenir nascimentos dentro do grupo;
- transferir à força crianças do grupo para outro grupo.

A Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio (Convenção sobre o Genocídio) forneceu esta definição. O crime pode ser cometido tanto em tempos de paz quanto em tempos de guerra.

O advogado polonês Raphael Lemkin é considerado a primeira pessoa a cunhar o termo 'genocídio' numa tentativa de fornecer um conceito jurídico para o Holocausto nazista. [9]

3. Como se define o genocídio?

Tribunais internacionais e nacionais são responsáveis por condenar pessoas ou estados por genocídio.

A convenção sobre o genocídio foi o primeiro instrumento de direito internacional a codificar o crime de genocídio. [10] O Reino Unido e outros Estados signatários da convenção são obrigados a tomar medidas para prevenir e punir o genocídio, incluindo a introdução de legislação nacional relevante e a condenação dos perpetradores.

O genocídio também é definido como crime em vários outros acordos internacionais, incluindo o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (Estatuto de Roma) . O Estatuto de Roma levou ao estabelecimento do Tribunal Penal Internacional (TPI), que tem o poder de proferir condenações por crimes de genocídio cometidos a partir de 1 de julho de 2002. O Reino Unido ratificou o Estatuto de Roma em 2001. [11]

O Reino Unido também possui seu próprio crime de genocídio na legislação nacional. A Lei do Tribunal Penal Internacional de 2001 incorporou as obrigações do Reino Unido sob o Estatuto de Roma à legislação nacional. Isso conferiu aos tribunais do Reino Unido poderes para condenar cidadãos e residentes do Reino Unido por genocídio. Além dos tribunais do Reino Unido, o TPI também tem o poder de processar cidadãos ou residentes do Reino Unido acusados de genocídio se os tribunais nacionais não puderem ou não quiserem fazê-lo. [12]

As Nações Unidas exigem que seus funcionários usem o termo "genocídio" apenas quando se referirem a eventos que tenham sido determinados por um tribunal como constituindo genocídio. [13] Referir-se a algo como genocídio sem uma determinação judicial pode ser politicamente controverso, alerta a ONU. A organização afirma que, quando tal determinação não tiver sido feita por um tribunal, o uso desse termo poderá ser "vigorosamente contestado" pelas comunidades afetadas e poderá resultar em "tensões políticas".

Até o momento, apenas um número limitado de eventos foi determinado como genocídio por um tribunal. Isso não inclui o Holodomor. Apesar disso, diversas legislaturas nacionais optaram por reconhecer o Holodomor como genocídio em solidariedade à Ucrânia.

4. Quais legislaturas reconhecem o Holodomor como genocídio?

Diversos governos e parlamentos em todo o mundo reconheceram o Holodomor como genocídio. Isso inclui o governo canadense, que apoiou a aprovação de um projeto de lei de iniciativa parlamentar em 2008 que reconheceu oficialmente o Holodomor como um ato de genocídio e estabeleceu um dia de memória para comemorá-lo. [14] Em novembro de 2022, o parlamento federal alemão aprovou uma resolução apresentada pelos partidos da coalizão governista que declarou o Holodomor um genocídio. [15] Outros parlamentos que aprovaram resoluções semelhantes incluem Austrália, Bélgica, França e Estados Unidos. [16]

Mais recentemente, em dezembro de 2022, o Parlamento Europeu adotou uma resolução que reconheceu o Holodomor como um genocídio, tendo anteriormente reconhecido o evento como um crime contra a humanidade. [17]

5. Qual é a posição do governo do Reino Unido?

A política de longa data do governo é que um tribunal competente deve tomar a decisão sobre se um genocídio foi cometido, e não o governo. Um "tribunal competente" refere-se a um tribunal que tem poder para julgar tais questões. O governo considera que isso inclui tribunais internacionais como o TPI, bem como tribunais penais nacionais que cumprem as normas internacionais. [18]

O governo reconheceu anteriormente cinco casos de genocídio, todos após determinações de tribunais competentes. [19] Esses casos são os genocídios em Ruanda, Srebrenica e Camboja, além do Holocausto e do genocídio contra o povo yazidi.

O governo reafirmou sua posição sobre a determinação de genocídio durante um debate em maio de 2023 na Câmara dos Comuns sobre o Holodomor. [20] Leo Docherty, subsecretário parlamentar de Estado do Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento, afirmou que a política do governo garantiria que as determinações de genocídio permanecessem “acima da política, acima do lobby e acima dos interesses individuais, políticos ou nacionais”. O ministro argumentou que essa abordagem daria “autoridade” a quaisquer referências do governo do Reino Unido ao genocídio e seria “mais difícil de ser rejeitada pelos responsáveis por atos de genocídio”. No entanto, o ministro enfatizou que a política não diminuía o reconhecimento, por parte do governo, das atrocidades que ocorreram durante o Holodomor.

Alguns parlamentares discordaram da política do governo. Durante o mesmo debate na Câmara dos Comuns, os deputados aprovaram uma moção segundo a qual a Câmara dos Comuns “acredita que o Holodomor foi um genocídio contra o povo ucraniano”. [21]

Mais recentemente, Patricia Gibson (deputada do SNP por North Ayrshire e Arran) apresentou uma moção de urgência em julho de 2023 para que a Câmara dos Comuns 'reconheça o Holodomor de 1932-33 na Ucrânia como um genocídio do povo ucraniano'. [22] A moção foi assinada por 14 deputados de vários partidos antes de ser rejeitada quando a sessão parlamentar de 2022-23 terminou.

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Referências (link para cada uma das 22 referências):

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Museu do Holodomor


Revista Conjuntura Austral: Chamada para submissão de artigos ao dossiê temático Mercosul - União Europeia

Chamada para submissão de artigos ao dossiê temático “Mercosul - União Europeia” | Revista Conjuntura Austral


A Revista Conjuntura Austral está com chamada aberta para o dossiê temático Mercosul-União Europeia, que busca reunir análises sobre a trajetória das negociações e os impactos do Acordo de Associação entre o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a União Europeia (UE). O dossiê propõe um balanço crítico das negociações iniciadas em 1995, abordando aspectos econômicos, políticos e jurídicos do acordo, bem como seus desafios de implementação e ratificação no contexto das transformações da ordem internacional.

Os artigos completos devem ser submetidos até 31 de julho de 2026, por meio do sistema da revista. Os textos podem ser enviados em português, espanhol ou inglês e passarão por avaliação duplo-cega por pares, sem cobrança de taxas.

A publicação dos trabalhos selecionados está prevista para a edição v.17, n.80 (out.–dez.) da revista.

Para mais informações sobre o dossiê, acesse este link:
https://seer.ufrgs.br/index.php/ConjunturaAustral
Já para acessar as diretrizes para autoras/es, acesse aqui:
https://seer.ufrgs.br/index.php/ConjunturaAustral/about/submissions

Uma grande sintese do pensamento conservador no Brasil: Gerhard Erich Boheme

 Morreu o guru de Haddad e FHC

Gerhard Erich Boheme


Morreu Jürgen Habermas, um dos nomes mais "influentes" da esquerda acadêmica europeia do pós-guerra, e com ele desaparece um símbolo de uma tradição intelectual que ajudou a moldar parte significativa da elite universitária, burocrática e política do Ocidente — inclusive no Brasil.

Moldar é uma palavra bonita, o certo é destruir.

Não se trata de dizer que Fernando Henrique Cardoso e Fernando Haddad tenham sido discípulos formais ou repetidores mecânicos de Habermas. O ponto é mais profundo. Ambos pertencem a uma mesma tradição intelectual e política que bebeu diretamente das fontes da teoria crítica europeia e da cultura universitária que emergiu da geração de 1968.

Habermas ajudou a fornecer a linguagem, o método e a moldura mental de uma (de)geração inteira de professores, juristas, administradores públicos, jornalistas, políticos e intelectuais que passaram a enxergar a sociedade não como uma ordem espontânea fundada na verdade, na responsabilidade individual, na moral, na propriedade, na família, nas igrejas, nas associações livres e no mercado, mas como um campo permanente de reconstrução discursiva, mediação institucional e reeducação cultural.

É aí que está o mal que causou.

Habermas foi apresentado durante décadas como o filósofo da democracia, do diálogo e da racionalidade comunicativa. Mas, sob o verniz da moderação, ajudou a consolidar uma visão de mundo em que a verdade vai sendo substituída pela legitimação discursiva, a liberdade concreta vai sendo condicionada por filtros ideológicos, e a vida social vai sendo submetida a uma elite que se julga moral e intelectualmente autorizada a interpretar o mundo, corrigir o povo e conduzir a sociedade.

Essa transformação teve efeitos profundos. A teoria habermasiana contribuiu para deslocar o centro da política da realidade concreta para a engenharia discursiva das instituições.  Saímos do mundo real para o mundo da fantasia, das ideologias coletivistas, da verdade para as narrativas. Não foram só os doidos do Juquiri que ficaram livres, mas foi um mundo que deu voz a canalhas.

O cidadão deixa de ser agente moral responsável e passa a ser objeto de mediação permanente por especialistas, burocratas e intérpretes autorizados da democracia. A política deixa de ser limitada pela tradição, pela experiência histórica e pela prudência e passa a ser reinterpretada continuamente por uma elite acadêmica que pretende redefinir os fundamentos da civilização.

Em vez da civilização ocidental fundada na responsabilidade, na lei, na tradição, na prudência e na liberdade, fomos empurrados para uma civilização de mediações abstratas, consensos fabricados, pedagogia política permanente e suspeita sistemática contra tudo aquilo que sustenta a ordem social orgânica.

Foi assim que a teoria crítica da Frankfurt School, a Escola de Frankfurt, em vez de libertar o homem, ajudou a dissolver os freios culturais, morais e institucionais que protegiam o homem comum do avanço do Estado, da burocracia e da ideologia.

É justamente essa crítica que levou Olavo de Carvalho a afirmar:

“A revolução cultural não se faz pela tomada do poder político, mas pela transformação lenta da mentalidade das elites que depois irão governar.”

Habermas não inventou esse processo, mas forneceu a ele legitimidade acadêmica e respeitabilidade filosófica.

O resultado é visível em todo o Ocidente: universidades convertidas em centros de militância ideológica, imprensa transformada em aparato pedagógico do progressismo, tribunais reinterpretando permanentemente a lei segundo critérios morais mutáveis, e uma cultura política em que a linguagem passa a ser instrumento de poder. E pior, as igrejas transformadas em meras ONGs. A começar a CNBdoB.

Como observa Rodrigo Constantino:

“A esquerda moderna descobriu que controlar a cultura é muito mais eficaz do que disputar eleições.”

Habermas foi um dos principais arquitetos intelectuais dessa estratégia.

E por isso a morte de Habermas é simbólica.

Morre um dos principais sacerdotes intelectuais do mundo inaugurado por 1968.

E é precisamente por isso que precisamos perguntar: qual foi o ano que não terminou para nós brasileiros? 1964, 1967 ou 1968?

A resposta honesta é: os três continuam entre nós. Eu os somo, e o resultado desta soma dá 1889.

1964 não terminou, porque ainda vivemos sob o conflito histórico em torno de sua interpretação maliciosa.

1967 não terminou, porque foi o ano do breakpoint institucional brasileiro. Ou seria um breakthrough?

1968 não terminou, porque foi o ano em que a revolução cultural capturou o imaginário do Ocidente.

Devemos entender os três.

Mas, se quisermos compreender o mundo atual, a linguagem política dominante, a cultura universitária, a hegemonia da esquerda estética bonitinha e cheirosa, o progressismo judicial, a pedagogia de Estado e a arrogância das elites acadêmicas, então é preciso reconhecer: 1968 foi o ano que nunca acabou.

Foi em 1968 que a rebelião saiu da rua e entrou nas cátedras. E as cátedras perderam espaço.

Foi em 1968 que a revolução deixou de depender apenas de partidos, guerrilhas e sindicatos e passou a ocupar as artes, a imprensa, a educação, os tribunais, os currículos, os festivais, os editoriais e as consciências.

Foi em 1968 que a luta política ganhou nova forma: não mais apenas a tomada violenta do poder, mas a corrosão moral e cultural da civilização por dentro.

A velha revolução trocou o fuzil pelo seminário.

Trocou a barricada pela universidade.

Trocou o panfleto pelo parecer (nada) técnico.

Trocou o comício pela sala de aula.

Trocou a guerrilha pela hegemonia cultural.

E Habermas foi um dos principais responsáveis por dar respeitabilidade filosófica a esse processo.

Seu legado ajudou a transformar a crítica permanente em método, a suspeita em virtude, a desconstrução em pedagogia e a politização total da vida em dever moral. Com isso, fortaleceu-se uma cultura em que a tradição passou a ser vista como opressão, a religião como obstáculo, a autoridade como abuso, a moral como imposição, a família como estrutura suspeita, a distinção entre belo e feio como preconceito, a verdade como construção, e a liberdade como algo sempre condicionado pela aprovação de mediadores iluminados.

Foi assim que 1968 venceu.

E venceu não só na França, na Alemanha ou nas universidades americanas. Venceu também no Brasil. A USP é um bom exemplo, de lá sairam esses dois "fernandos".

Venceu quando passamos a confundir artistas com oráculos, professores com redentores, jornalistas com sacerdotes da moral pública, juízes com pedagogos da nação e burocratas com intérpretes superiores da democracia. Do nosso excesso de "democracia".

Venceu quando o entretenimento se converteu em catequese ideológica. Com direito a Oscar e tudo, mas sem público.

Venceu quando a música de protesto deixou de ser manifestação artística e se tornou instrumento de fabricação de mitos políticos e idiotas úteis.

Venceu quando a esquerda cultural conseguiu fazer do sentimentalismo um critério superior à verdade. Passamos a nao mais FAZER O BEM e a FAZER BEM (nossos serviços, trabalhos e produtos), mas a FAZER OS OUTROS SE SENTIREM BEM.

Venceu quando a moral cristã começou a ser substituída pela ética das emoções.

É por isso que o mundo atual vive de narrativas e já não quer se submeter aos fatos.

Os fatos vêm dos administradores, dos engenheiros, dos auditores, dos peritos, dos que trabalham com realidade objetiva. Mas a esquerda cultural prefere a dramaturgia política. Prefere a emoção à verdade, a vitimização à responsabilidade, a denúncia ao exame, a performance à prova.

Isso nos leva diretamente ao outro braço do problema: o Brasil.

Porque, se 1968 jamais terminou no plano cultural, 1967 jamais terminou no plano institucional brasileiro.

Enquanto muitos insistem em dizer que 1964 ou 1968 foram os únicos marcos decisivos, a verdade é que 1967 foi o ano em que a trajetória da Revolução de 31 de Março sofreu seu verdadeiro breakpoint. Ou seria breakthrough?

Foi em 1967 que se institucionalizou o regime de exceção sob nova base constitucional.

Foi em 1967 que morreu Castello Branco, encerrando-se com ele a possibilidade de uma transição racional e institucional.

Foi em 1967 que a revolução dentro da Revolução se consumou.

Por isso 1967 foi real.

E 1968, no Brasil, foi ao mesmo tempo consequência e disfarce.

Enquanto a máquina institucional endurecia por dentro, a juventude era alimentada pela fantasia revolucionária que vinha de fora.

Não se trata de negar excessos. Trata-se de recusar simplificações históricas.

O Brasil dos anos 60 não pode ser interpretado sem o contexto da Guerra Fria.

Nos primeiros anos daquela década, o país vivia instabilidade crescente.

A renúncia de Jânio Quadros abriu uma crise institucional.

João Goulart conduzia um projeto populista e sindicalista.

Greves, inflação, radicalização política e disputa ideológica colocavam o país à beira de uma ruptura.

Foi nesse cenário que 1964 ocorreu.

Mas 1964 sozinho não explica o Brasil de hoje.

Para entender o Brasil atual, é preciso observar o encadeamento histórico:

1889 destruiu o equilíbrio institucional do Império.

1964 abriu uma ruptura política dentro da República.

1967 mudou a direção do processo institucional.

1968 conquistou a cultura.

Sem o Poder Moderador do Império, a República transformou-se em campo permanente de disputa entre facções.

O Brasil passou a viver ciclos de golpes, crises e rearranjos institucionais.

E hoje vemos o resultado disso.

Vivemos um país em que tribunais acumulam funções que deveriam estar separadas, em que a liberdade de expressão é constantemente tensionada, e em que o Judiciário se converte em ator político central.

Esse processo não começou agora.

Ele é consequência de uma longa cadeia histórica que começa em 1889, passa por 1964, sofre seu ponto de inflexão em 1967 e ganha hegemonia cultural em 1968.

Habermas não criou tudo isso sozinho.

Mas ajudou a fornecer o vocabulário e a legitimação intelectual desse mundo.

Por isso o título faz sentido:

Morreu o guru de Haddad e FHC.

Dois políticos de partidos "diferentes" para quem nao conhece a finalidade da tesoura, mas formados na mesma tradição intelectual: a crença na mediação institucional permanente, na engenharia social conduzida por especialistas e na política como instrumento de pedagogia coletiva.

A social-democracia acadêmica tucana e o progressismo tecnocrático petista compartilham esse mesmo DNA.

Ambos nascem da mesma cultura universitária.

Ambos acreditam na condução da sociedade por elites ilustradas.

Ambos desconfiam da espontaneidade social.

Ambos veem o Estado como instrumento de transformação moral da sociedade.

Essa é a verdadeira similaridade entre os dois Fernandos.

Morreu o guru.

Mas o mundo que ele ajudou a construir ainda está aqui.

1968 não terminou.

1967 também não.

1964 muito menos.

E enquanto não compreendermos a ligação entre esses anos, continuaremos vivendo dentro da mesma engrenagem histórica.

O desafio não é apenas lembrar.

É finalmente encerrar esse ciclo.

E é neste cenário que devemos ler de Thomas Sowell: Os Ungidos.

Você viveu os anos 60?

Recomendo que leia:

BOEHME, Gerhard Erich. 1967: o ano que não terminou. Facebook, 2025. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1876H9p4iJ/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto defende que o verdadeiro ponto de inflexão institucional da história política brasileira não foi 1964 nem 1968, mas 1967. Segundo o autor, foi nesse ano que ocorreu a institucionalização do regime de exceção com a nova Constituição e, sobretudo, a morte do marechal Castello Branco, evento que interrompeu o projeto de transição institucional gradual da Revolução de 1964. A ascensão da chamada “linha dura” alterou profundamente a direção política do regime e abriu caminho para o endurecimento institucional posterior. O ensaio também introduz a ideia da “indústria da ditadura”, isto é, a exploração política e cultural posterior da memória do período militar.

BOEHME, Gerhard Erich. Decida-se! Qual ano que ainda não terminou? 1968 ou 1964? Na realidade 1967. Facebook, 2025. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1AYLHvUFcN/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

Neste texto, o autor discute a disputa interpretativa sobre os marcos históricos do Brasil contemporâneo. Enquanto grande parte da narrativa pública se concentra em 1964 ou 1968, o autor sustenta que o verdadeiro “ano que não terminou” é 1967. O ensaio analisa a ruptura interna ocorrida dentro da própria Revolução de 1964 e mostra como essa mudança redefiniu o curso político brasileiro. O texto também explora o impacto cultural de 1968 e a influência da teoria crítica europeia nas universidades brasileiras.

BOEHME, Gerhard Erich. Quantos golpes teve o Brasil? Facebook, 2023. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1GyboTQqER/ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto apresenta uma interpretação histórica segundo a qual o ciclo de instabilidade institucional brasileiro tem origem na Proclamação da República em 1889. A partir desse evento fundador, o autor identifica uma sequência de rupturas institucionais — 1937, 1964 e o que chama de “golpe judicial contemporâneo”. O argumento central sustenta que a ausência do Poder Moderador do sistema monárquico abriu caminho para uma sucessão de crises políticas e disputas entre facções que continuam a marcar a vida institucional brasileira.

BOEHME, Gerhard Erich. Por que artistas são de esquerda? Facebook, 2024. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1DYbeXwR1U/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto discute a relação entre elites culturais e ideologia política. O autor argumenta que artistas, jornalistas, líderes religiosos e comunicadores frequentemente operam no campo das emoções e da construção de narrativas, o que os aproxima de movimentos políticos que privilegiam mobilização simbólica e cultural. O ensaio dialoga com a tese da hegemonia cultural desenvolvida no século XX e aborda também o papel do financiamento público da cultura na formação de um ambiente intelectual predominantemente progressista.

A TOCA DO LOBO. 1967 não terminou! Facebook, 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/16yNXS9eed/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto recupera episódios culturais e políticos do final da década de 1960 para ilustrar as disputas simbólicas do período. Um dos exemplos citados é a chamada “Marcha contra a Guitarra Elétrica”, manifestação organizada por artistas da música popular brasileira em 1967. O episódio é apresentado como símbolo das tensões culturais e ideológicas da época e como parte de um processo mais amplo de politização da produção artística no Brasil.

BOEHME, Gerhard Erich. 1967: o ano que não terminou. Facebook, 2025. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1876H9p4iJ/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O texto sustenta que o verdadeiro ponto de inflexão institucional da história recente do Brasil não foi 1964 nem 1968, mas 1967. Segundo o autor, foi nesse ano que se consolidou juridicamente o regime de exceção com a nova Constituição e que a morte do marechal Castello Branco interrompeu um projeto de transição institucional gradual da Revolução de 1964. A partir desse ponto, a chamada “linha dura” ganhou espaço, alterando o curso político do regime e criando condições para o AI-5 e para o fechamento institucional posterior. O artigo também introduz a ideia da “indústria da ditadura”, ou seja, a utilização posterior desse período como instrumento de narrativa política e cultural.

DILORENZO, Thomas. As intermináveis mentiras governamentais sobre o mercado. Mises Brasil, 1 abr. 2024. Disponível em: https://mises.org.br/artigos/235/as-interminaveis-mentiras-governamentais-sobre-o-mercado⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O economista Thomas DiLorenzo discute como governos frequentemente distorcem informações econômicas para justificar intervenções estatais. O texto se insere na tradição da Escola Austríaca de economia e argumenta que muitas políticas públicas são sustentadas por mitos econômicos difundidos por burocracias e elites intelectuais. A análise reforça a crítica liberal clássica ao intervencionismo e à engenharia social conduzida pelo Estado, tema que dialoga com o debate sobre o papel das elites intelectuais na formação das políticas públicas.

HOPPE, Hans-Hermann. A análise de classe marxista vs. a análise de classe austríaca. Mises Brasil, 13 maio 2011. Disponível em: https://mises.org.br/article/979/a-analise-de-classe-marxista-vs-a-analise-de-classe-austriaca⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

Neste ensaio, Hoppe contrapõe a teoria marxista de classes à análise proposta pela Escola Austríaca. Enquanto o marxismo define o conflito social como uma disputa entre burguesia e proletariado, Hoppe argumenta que o verdadeiro conflito ocorre entre produtores e grupos que vivem da coerção política ou da redistribuição estatal. O texto é frequentemente utilizado em debates liberais e libertários para questionar a estrutura teórica do marxismo e das correntes derivadas da teoria crítica.

CONSTANTINO, Rodrigo. A política econômica do regime militar (segunda parte). Instituto Liberal, 6 abr. 2018. Disponível em: https://www.institutoliberal.org.br/blog/economia-do-regime-militar-segunda-parte/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

Rodrigo Constantino analisa a política econômica implementada durante o regime militar brasileiro, destacando aspectos de crescimento econômico, modernização industrial e expansão da infraestrutura. O texto também discute as limitações estruturais do modelo econômico adotado e procura relativizar interpretações simplificadas do período, defendendo uma análise histórica mais contextualizada e menos ideologizada.

CATHARINO, Alex. Russell Kirk e a moderna ordem liberal. Instituto Liberal, 14 nov. 2024. Disponível em: https://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/russell-kirk-e-a-moderna-ordem-liberal/⁠ Acesso em: 17 abr. 2025.

O artigo apresenta o pensamento do filósofo conservador americano Russell Kirk, um dos principais formuladores do conservadorismo moderno. O texto enfatiza valores como tradição, prudência política, ordem moral e continuidade institucional. Kirk é apresentado como um contraponto intelectual às correntes revolucionárias e ideológicas do século XX, oferecendo uma defesa da civilização ocidental baseada em instituições orgânicas e na experiência histórica.

CONSTANTINO, Rodrigo. Esquerda caviar: a hipocrisia dos artistas e intelectuais progressistas no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: LVM Editora, 2013.

Nesta obra, Rodrigo Constantino critica a contradição entre o discurso político de parte da elite cultural progressista e o estilo de vida privilegiado que muitos de seus membros levam. O autor argumenta que artistas e intelectuais frequentemente defendem ideias socialistas enquanto vivem em ambientes econômicos e sociais altamente favorecidos. O livro tornou-se uma referência em debates sobre cultura política, hipocrisia ideológica e a relação entre elites culturais e poder político.

As ‘Memórias de Marcos Azambuja’ - Celso Lafer (O Estado de S. Paulo)

As ‘Memórias de Marcos Azambuja’
Celso Lafer
O Estado de S. Paulo, 15/03/2026
No âmbito do funcionamento do Itamaraty, a análise das transições faz destas ‘Memórias’ um paradigma do processo decisório diplomático

As Memórias de Marcos Azambuja, uma das mais notáveis figuras da diplomacia brasileira, acabam de ser publicadas. Foram instigadas pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), denso centro de análise sobre a política externa brasileira, ao qual Marcos se dedicou depois de sua aposentadoria no Itamaraty. No Cebri, Marcos encontrou até o seu falecimento, em maio de 2025, um espaço para uma renovada vida diplomática.

As Memórias são abrangentes na reflexão sobre a diplomacia brasileira. Resultam de três longas entrevistas. A primeira, em 1997, ao término de sua notável embaixada em Buenos Aires (1992-1997). Dela deflui uma excepcional análise da importância das relações Brasil-Argentina.

A segunda data de 2009. Amplia o escopo de sua reflexão, tratando desde o Tratado de Tlatelolco, do campo do desarmamento nuclear e de seus percalços. Inclui o bem-sucedido período da embaixada na França (1997-2003), indicando como uma missão diplomática requer a percepção do que é relevante para atuar num Estado a que está acreditado. É uma lição sobre as artes da diplomacia.

O terceiro depoimento foi colhido em 2025, já sob a expectativa de um arremate do impulso da publicação deste livro, que foi estruturado e organizado numa fluida e cativante narrativa por Gelson Fonseca Jr., Mônica Hirst e Alexandra de Mello e Silva.

O livro revela os ativos da personalidade, do modo de ser de Marcos como pessoa e diplomata. Retém o muito válido tom da oralidade, pois Marcos era um virtuoso da palavra falada, sempre apto a sintetizar com precisão e graça a natureza do que estava em jogo. Com perfeição a ele se ajustava a formulação de Octavio Paz: “A palavra que se ajusta ao movimento é pele – não prisão – de pensamento”.

Na Rio-92, evento inaugural da inserção multilateral do meio ambiente na pauta internacional, Marcos foi o qualificado coordenador das posições brasileiras. Discutindo comigo, o então chanceler, as dificuldades do andamento de um “novo”, ele observou: “Esta conferência é sui generis. É a expressão de uma diplomacia aberta que combina facetas de Yalta, da Conferência de São Francisco e a de Woodstock, da espontaneidade dos atores não governamentais. Daí suas dificuldades”.

Para Marcos, a diplomacia não é uma atividade pastoral de pregação de virtudes. Era um lúcido realista. Para ele, a “diplomacia é o âmago do poder”. “Requer bons modos para não bater de frente, mas é um exercício viril.” É um ofício que “requer polidez” para transmitir “exigências muito firmes”, que são as das necessidades da nação, para lembrar Vattel.

O lúcido realismo de Marcos estava atento à lição do Padre Antonio Vieira: “Perdemse as Repúblicas porque os seus olhos veem o que não é, e não veem o que é”.

O realismo de Marcos não era imobilista e conservador. Ele foi um realista esperançoso, atento ao olhar do potencial do novo. Nas suas palavras: “Sou um grande tradicionalista, que tem um imenso entusiasmo pelo novo”. As qualidades contrapostas deste oxímoro singularizam o modo de ser, da pessoa e do atuar de Marcos.

Marcos foi, por isso mesmo, um mestre no retratar e analisar transições, como destaca Gelson no seu prefácio. Essas transições foram significativas na sua carreira.

No âmbito do funcionamento do Itamaraty, a análise das transições faz destas Memórias um paradigma do processo decisório diplomático, iluminado pela perspectiva de “dentro” e não de “fora” da experiência de quem as viveu. Por exemplo, a Política Externa Independente, o Pragmatismo Responsável e as reorientações trazidas pelo fim da guerra fria.

Marcos analisa a passagem do Itamaraty tradicional para o Itamaraty no qual ingressou. Este modernizou-se e adquiriu institucionalidade com o ingresso na carreira de seus quadros pelo sistema de mérito, implantado pelo Instituto Rio Branco.

Marcos aprecia e valoriza o Itamaraty, ao qual dedicou sua vida. Entendeu que, pela qualidade de seus quadros e de sua dedicação ao tema do lugar do Brasil no mundo, é uma instituição focada em pensar o País. Nas suas palavras: “O Brasil é difuso e o Itamaraty consegue dar ao Brasil do momento o seu foco”. Um foco que combina memória e inovação, como explicitam as análises dos momentos de transição discutidas neste Memórias.

Eu penso que a avaliação de Marcos sobre o Itamaraty é justa. Faço essa observação na condição de estudioso das relações internacionais e de quem, não tendo sido diplomata de carreira, conviveu com o Itamaraty como ministro das Relações Exteriores em duas ocasiões e exerceu a função de embaixador. Por isso, refletindo sobre a experiência a respeito da minha atuação no Itamaraty, observei em sintonia com ele: o Itamaraty é uma instituição que tem autoridade no contexto da administração pública brasileira. Sua palavra é menos que um comando, mas é mais do que um conselho, para valer-me das características da autoridade na formulação de Mommsen.

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