domingo, 28 de setembro de 2025

Um momento decisivo na história da humanidade, ou apenas um soluço que vai passar? - Paulo Roberto de Almeida

Atravessamos, de verdade, um momento tenebroso na diplomacia multilateral?

O que respondi a um amigo que me cumprimentava por uma aula dada a candidatos à diplomacia:

“Eu sou grato a vc pela oportunidade. Normalmente, eu sou de um “natural reservoso”, como o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, personagem do romance fabuloso do livro “O Coronel e o Lobisomem” de José Cândido de Carvalho. Mas de vez em quando ouso expressar meus sentimentos sobre certas misérias diplomáticas, como as que vivemos hoje em Gaza, na Ucrânia, em tantos lugares, até mesmo na sede da ONU, em NY, assaltada esta semana por um perigoso alucinado demencial.”

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 28/09/2025

sábado, 27 de setembro de 2025

Gabriel Galipolo e Arminio Fraga em debate sobre a política econômica do Brasil, 6/10/2025, 10h30

 

Neste webinar, promovido pela Fundação FHC, o presidente do Banco Central abordará os desafios da economia brasileira diante do novo cenário internacional. O evento contará também com a participação de Armínio Fraga, responsável pelos comentários após a exposição inicial de Galípolo. O webinar integra o Ciclo ‘O Brasil na visão das lideranças públicas’, iniciado em 2024.

GABRIEL GALÍPOLO
PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL

ARMÍNIO FRAGA
EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL

SERGIO FAUSTO
DIRETOR GERAL DA FUNDAÇÃO FHC

Neste webinar, promovido pela Fundação FHC, o presidente do Banco Central abordará os desafios da economia brasileira diante do novo cenário internacional. O evento contará também com a participação de Armínio Fraga, responsável pelos comentários após a exposição inicial de Galípolo. O webinar integra o Ciclo ‘O Brasil na visão das lideranças públicas’, iniciado em 2024.

A ilusão do Estado palestino (Editorial do Estadão)

A ilusão do Estado palestino

Editorial do Estadão,  26/09/2025

https://www.estadao.com.br/opiniao/a-ilusao-do-estado-palestino/?utm_source=estadao:app&utm_medium=noticia:compartilhamento


_Reconhecer um Estado sem construir as condições para sua existência apenas multiplica frustrações, fortalece os radicais, fragiliza os moderados e torna a paz ainda mais distante_

O reconhecimento de um Estado palestino por países ocidentais tornou-se um gesto recorrente em meio ao impasse prolongado do conflito israelo-palestino. Espanha, Irlanda, Noruega, Portugal, Canadá, Austrália, Reino Unido e França juntam-se a mais de uma centena de nações que adotam tal posição. Em teoria, é um ato de justiça histórica e pressão diplomática sobre Israel. Na prática, é um exercício de exibicionismo moral, na melhor das hipóteses inócuo; na pior – e mais provável –, é contraproducente.

A posição deste jornal é inequívoca: a criação de um Estado palestino é questão de justiça e condição indispensável para uma paz duradoura. Mas um Estado não nasce de resoluções parlamentares nem de pronunciamentos presidenciais. Ele requer instituições legítimas, reconhecimento mútuo e fronteiras negociadas. Nenhum desses requisitos está presente hoje. O reconhecimento prematuro, sem condições e garantias, não aproxima tais requisitos – ao contrário, tende a afastá-los.

A História mostra que Israel nem sempre foi intransigente. Em 1947, aceitou a partilha aprovada pela ONU, rejeitada pela liderança árabe. Em 1967, ouviu da Liga Árabe os “três nãos” – não à paz, não ao reconhecimento de Israel e não às negociações –, política que oficialmente vigora até hoje. Nos anos 1990, assinou acordos de paz, enquanto os terroristas do Hamas ganhavam força e, depois, tomaram o poder. Em 2000, propostas de grande alcance sobre fronteiras e Jerusalém foram rejeitadas por Yasser Arafat, e Camp David fracassou. Em 2008, Mahmoud Abbas não aceitou a oferta de Ehud Olmert, que abrangia quase toda a Cisjordânia.

Nada disso absolve Israel de seus erros e delitos. A expansão incessante de assentamentos, a conduta militar desproporcional em Gaza, a erosão da legitimidade democrática sob Binyamin Netanyahu e a ausência de um plano político crível minam a posição do país e alimentam seu isolamento. Mas culpar exclusivamente Israel é tão simplista quanto injusto. O fracasso palestino em construir uma autoridade legítima e eficaz, a corrupção da Autoridade Palestina e a dominação armada do Hamas em Gaza são obstáculos objetivos à formação de um Estado viável.

Um reconhecimento que ignore esses fatores não ajuda moderados palestinos nem pressiona Israel a negociar. Pelo contrário: reforça a ilusão de que a soberania pode ser concedida de fora, sem reformas internas e sem a obliteração da máquina de guerra do Hamas. Também oferece munição à paranoia dos radicais israelenses que insistem que o mundo está disposto a recompensar o extremismo islamista.

Em vez de proclamações vazias, as democracias ocidentais deveriam vincular qualquer avanço diplomático ao cumprimento de condições concretas: desarmamento de milícias em Gaza, reconstrução institucional da Autoridade Palestina com mecanismos de transparência e legitimidade eleitoral, e compromissos claros dos países árabes de reconhecer Israel e cooperar em segurança. O apoio financeiro e político deveria ser condicionado a esses marcos, de forma verificável.

Em paralelo, é vital que Israel formule um plano político pós-guerra que articule sua disposição a aceitar um Estado palestino quando tais condições forem atendidas. Somente a combinação de pressões externas racionais e transformações internas – dos dois lados – pode pavimentar o caminho para a paz.

Reconhecer o Estado palestino hoje pode apaziguar consciências em capitais europeias, mas não alimenta ninguém em Gaza, não regenera a Autoridade Palestina e não neutraliza o Hamas. Pelo contrário, cristaliza um simulacro de soberania que perpetua a ilusão e adia a solução. Estados não nascem de votos no Parlamento, mas de realidades no terreno.

A existência de um Estado palestino é uma questão de justiça para os palestinos e condição para a segurança de Israel, a manutenção de sua democracia e a paz no Oriente Médio. Mas a ordem dos fatores altera o produto. O reconhecimento desse Estado deveria ser o último tijolo de uma construção política. Lançar mão dele agora é trocar realismo diplomático por teatralidade moral. E cada gesto desse tipo torna o Estado palestino mais distante, não mais próximo."

*N/E*: A realidade é que a maior parte do tempo, nos últimos 77 anos, os intransigentes foram os árabes, não Israel. A começar por 1948 quando basicamente rejeitaram a possibilidade real e imediata de um Estado Palestino e assim foi por décadas, os árabes palestinos pessimamente influenciados pelas ditaduras dos paises árabes vizinhos, rejeitaram absolutamente todas iniciativas de Israel, EUA, Europeus... para um Estado Palestino ao lado e em paz com Israel. As ofertas foram de tal abrangência que governantes israelenses perderam suas posições e influência após oferecer praticamente tudo que os palestinos exigiam, mas não foi o suficiente muito porque, e ficou cada vez mais claro, o que de fato os árabes queriam não era, nem nunca foi, um Estado palestino ao lado de Israel, mas um Estado Árabe (mais um dentre 22 já existentes) *no lugar de Israel*!

https://www.estadao.com.br/opiniao/a-ilusao-do-estado-palestino/?utm_source=estadao:app&utm_medium=noticia:compartilhamento 

Dos retrocessos históricos - Paulo Roberto de Almeida

Dos retrocessos históricos

Putin conseguiu fazer a Rússia retroceder à Segunda Guerra Mundial, ao transformar a base produtiva do país numa economia de guerra (mas desta vez sem qualquer auxílio econômico ou militar dos EUA e do Reino Unido, como ocorreu entre 1941-1945).

Ele próprio conseguiu converter-se numa reencarnação de Stalin, e tão brutal quanto o tirano soviético, ao retroceder à prática monstruosa da regra stalinista que ordenava matar qualquer soldado que recuasse na frente de batalha. Agora está valendo a mesma regra, o que indica o seu desespero em face dos fracassos na sua guerra de agressão contra a Ucrânia.

Só falta agora reintroduzir o Gulag, embora ele também recorra ao hábito de eliminar todos os concorrentes, adversários ou simples críticos, o que inclui jornalistas de modo geral.

Do outro lado do mundo, o desvairado Trump está operando um retorno dos EUA à segunda revolução industrial, à era do petróleo e do motor à explosão, ainda do carvão e das tarifas altas. Provavelmente não vai conseguir, mas tem se esforçado na tarefa. Também adotou as medidas anti-imigratórias dos anos 1920 e um comportamento xenófobo e racista similar aos tempos em que a Ku Klux Kan se exercia livremente na segregação.

No resto do mundo, as democracias recuam ante à disseminação de regimes iliberais e de governos autocráticos. Na América Latina, o populismo continua a prevalecer, sob novas formas. 

É o tal do “eterno retorno”?

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 27/09/2025


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Uma escritora chinesa universal: Can Xue - Nelson de Sá (FSP)

 Nobel não é importante, quero ser como Shakespeare, diz autora chinesa Can Xue


NELSON DE SÁ


A chinesa Can Xue, de 72 anos, liderou as apostas para o Nobel de literatura nas duas últimas edições. Um ano atrás, estava na dianteira na reta final com probabilidade de dez para um, segundo a empresa londrina de apostas Ladbrokes. Perdeu para a sul-coreana Han Kang.

Questionada, não hesitou. "Não considero o Nobel particularmente importante. Meu objetivo é me tornar um escritor como Shakespeare ou Dante."

Sua obra mistura tradições chinesas com experimentalismo ocidental. Ela conta por que enquadra sua escrita como performance, um ato que convida os leitores a não só observar, mas dançar a seu lado.

Diz que cada personagem é um fragmento da alma da autora e cada história é um teste desses fragmentos em um mundo em que explorar o amor e a liberdade é difícil, um tema central de "Histórias de Amor no Novo Milênio", que é lançado agora pela Fósforo.

Por fim, Can Xue confronta suas experiências durante a Revolução Cultural. Rejeita o envolvimento direto com fenômenos históricos ou sociais, dizendo em vez disso como tais experiências, transformadas no "oceano da memória", tornam-se a força motriz por trás da busca de liberdade de suas personagens.

* * *

— Suas obras são traduzidas e discutidas globalmente, e espera-se que você ganhe o Nobel. Ele significa algo para você? Acha que é capaz de reconhecer, por exemplo, a diversidade das vozes literárias chinesas?

— Não considero o Prêmio Nobel de Literatura particularmente importante. Meu objetivo é me tornar um escritor como Shakespeare ou Dante. Se eu ganhar o prêmio, a voz da literatura chinesa certamente será ouvida. E creio que, mesmo que não ganhe, minha voz ainda será ouvida. Isso foi comprovado em países ao redor do mundo. Estou confiante nisso porque minhas obras são realmente as mais universais e humanas, as melhores.

— Por que você descreve sua escrita como performance? E qual seria o nosso papel, como leitores?

— É porque ela pode ser comparada a uma espécie de dança física que ativa as funções do corpo humano. Os humanos possuem essa função, mas, ao longo da história, os povos de civilizações avançadas a esqueceram, substituindo-a por outras funções menos essenciais. Minha escrita é o despertar e a ressurreição dessa função ancestral. Sempre acreditei nisso. Quem pode se tornar meu leitor? Acho que são aqueles que podem dançar comigo. Estimulados e inspirados pela minha performance, eles iniciam sua própria dança inovadora.

— Sendo uma das raras escritoras chinesas contemporâneas com obras celebradas nos círculos literários estrangeiros, o que você acha que os leitores encontram de maior ressonância em suas histórias? Há temas nelas que requerem contexto adicional para compreensão?

— Creio que o que mais atrai leitores internacionais na obra é a maneira como captura a natureza humana mais universal em seu potencial máximo. Todos vivenciam graus variados de repressão na vida secular e anseiam por liberar seus desejos e emoções. Os romances oferecem um alívio profundamente satisfatório. Essas obras, com seus enredos inusitados, evocam paixão, atraindo inconscientemente para seu reino, liberando nossa própria criatividade em busca de um estilo de vida livre.

Entender as obras requer pouco conhecimento prévio da cultura chinesa. Elas são a essência dessa cultura, únicas, porém adaptáveis às necessidades espirituais e físicas de cada indivíduo. Os leitores que entram e dançam com elas as compreendem verdadeiramente.

— A língua chinesa é conhecida pela ambiguidade poética. Há desafios na tradução de seus escritos para o português decorrentes das nuances da gramática ou do vocabulário chinês?

— O chinês é difícil de traduzir. Mas creio que todas as línguas do mundo são comunicáveis. As línguas ganham vida através da comunicação. Imagino leitores no seu país lendo as obras. Que cena linda deve ser.

— Algum personagem de "Histórias de Amor no Novo Milênio" soou particularmente pessoal para você? Ou que você tenha visto como representativo de mudanças geracionais mais amplas de como o amor é vivenciado na China?

— Nunca descrevo experiências mundanas superficiais, minha literatura é uma espécie de literatura essencial. Cada personagem e objeto em meu livro é um fragmento da minha alma e do meu corpo. No entanto, permaneço desapegada das emoções mundanas. Simplesmente sublimo esses desejos, transformando-os em uma bela canção de humanidade. Coloco os personagens em ambientes hostis para testar sua humanidade e ver até que ponto cada uma de suas paixões pode ser liberada.

Este também é o significado do título do livro, "Histórias de Amor no Novo Milênio". Nele, interrogo a mim mesma e ao coração humano —como será nossa busca por amor e liberdade no novo século? Acredito que cada personagem do livro dá ao leitor uma resposta satisfatória. Em outras palavras, a própria atuação do autor deve inspirar uma atuação semelhante no leitor.

— Sua escrita reúne elementos de tradições culturais chinesas, como contos populares e taoísmo, com influências estrangeiras, como Kafka e Jorge Luis Borges. Como você equilibra essas duas correntes culturais?

— Essa pergunta exigiria um livro substancial para ser respondida. Estou trabalhando nele no momento. É um tratado filosófico sobre o desejo humano, que entrelaça filosofia antiga com ficção experimental. Escrevo há mais de uma década e vou enviar o livro à editora da Universidade de Pequim para publicação no próximo verão. Considero um livro que combina influências chinesas e ocidentais. Tornei as duas culturas mutuamente essenciais, criando uma visão de mundo e uma metodologia completamente novas.

— Você já mencionou Borges como uma influência literária fundamental. Quais aspectos específicos da escrita dele moldaram mais profundamente as suas escolhas?

— Borges não é o único escritor que influenciou fundamentalmente meu trabalho. Há uma longa lista deles: Dante, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Musil, Kafka, Calvino, Bruno Schulz e assim por diante. A influência mais fundamental desses escritores, incluindo Borges, é que eles moldaram minha visão de mundo, permitindo-me ver o universo e a mim mesma sob uma luz completamente nova.

A influência de Borges está principalmente em sua obsessão pela prática criativa e em suas belas descrições de jogos simétricos e da integração do universo e do humano. Acredito que meu trabalho hoje continua sua narrativa. Em outras palavras, acredito que sua narrativa, como a de outros escritores experimentais antes dele, permanece atual e pouco apreciada.

— Por que você considera seu trabalho desvinculado de sociedade, história, política, economia e assim por diante? Quais são suas principais preocupações?

— Acho que é um hobby pessoal. Minha escrita não se concentra nos fenômenos que você mencionou. Meu foco está na exploração da essência da natureza humana. Meu trabalho também incorpora material social, cultural e político, mas esses materiais servem a um propósito diferente. Acredito que todos os romancistas experimentais escolhem e utilizam o material da mesma forma que eu. De modo geral, gosto de colocar personagens em situações desesperadoras para compeli-los a agir. Esses cenários geográficos ou históricos não são específicos de um país específico, como a China, mas sim de um cenário utópico.

É claro que, por conveniência, geralmente prefiro material chinês. Os leitores devem observar que essas descrições não são realistas; são materiais que extraio de experiências mundanas para criar uma utopia crua. Quero explorar como as pessoas podem se comportar em situações desesperadoras. Portanto, todos os personagens em minhas obras são partes fragmentadas de si mesmos, todos bons, sem nenhum verdadeiramente mau. Ler minha obra exige uma certa compreensão filosófica, uma necessidade de ver o enredo da perspectiva de toda a humanidade. Caso contrário, é difícil entrar na história, e só se pode vagar pela periferia.

— A Revolução Cultural foi um período de dificuldades para sua família e de censura extrema na China. Apesar dos desafios, suas primeiras leituras de obras filosóficas e literárias continuaram. Como você fez isso? E esse ambiente restritivo inspirou sua maneira de escrever por meio de simbolismo ou subtexto?

— Acho que minha explicação para a pergunta anterior já respondeu. Eu era uma criança sensível e reflexiva, mas nunca me baseei diretamente em experiências da infância ao criar. Toda experiência acumulada serve ao meu processo criativo, que irrompe de uma fonte central. Construo vários aspectos essenciais da natureza humana, permitindo que os personagens cresçam por meio dessas lutas.

Todas essas práticas levam ao surgimento de um reino utópico após o outro. Acredito que o trabalho de escritores experimentais como nós é a forma mais pura de criação. Comprimimos o desejo, permitindo que ele irrompa do centro de nós mesmos, criando um milagre da natureza humana após o outro, um após o outro, do nada.

A Revolução Cultural e o movimento antidireitista certamente tiveram um impacto profundo na formação da minha personalidade, mas esses elementos superficiais não são visíveis em minhas obras. Eles afundaram nas profundezas do oceano da memória, onde passaram por uma transformação fundamental. Quando irrompem do centro de nós mesmos, deixam de ser as experiências superficiais que já foram. Tornam-se a força motriz por trás da busca de liberdade de cada personagem.


Histórias de Amor no Novo Milênio

Preço R$ 104,90 (400 págs.); R$ 73,40 (ebook)

Autoria Can Xue

Editora Fósforo

Tradução Verena Veludo Papacidero

Foto: A escritora chinesa Can Xue, autora de 'Histórias de Amor no Novo Milênio' - Chen Xiaozhen/Divulgação.

FSP 19.09.2025

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Nova diretriz recomenda meta mais rígida de colesterol; veja o que muda - Ludimila Honorato

 Saúde

Nova diretriz recomenda meta mais rígida de colesterol; veja o que muda
Ludimila Honorato
São Paulo, 23/09/2025

Colesterol alto pode levar à formação de placas de gordura na corrente sanguínea e aumenta risco de doença cardiovascular

Depois de classificar a pressão arterial 12 por 8 como pré-hipertensão, a SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia) trouxe mudanças na forma de acompanhar os níveis de colesterol. As metas foram intensificadas, com valores para pessoas com baixo risco cardiovascular e reconhecimento de uma nova categoria de risco.

O que aconteceu

Nova diretriz redefiniu meta para o LDL, conhecido como "colesterol ruim". Para pessoas com baixo risco cardiovascular, a meta é ficar abaixo de 115 mg/dL. Acima desse valor, a recomendação é adotar hábitos saudáveis de forma sustentada, como uma dieta equilibrada e exercício físico regular. Se o nível estiver acima de 145 mg/dL, deve-se considerar tratamento medicamentoso.

SBC reconhece categoria de risco cardiovascular extremo. Quem tem risco extremamente elevado, a meta é ficar com o LDL abaixo de 40 mg/dL. O risco extremo é definido como histórico de múltiplos eventos cardiovasculares (como AVC e infarto) ou um evento cardiovascular combinado com pelo menos duas condições de alto risco (como diabetes, tabagismo e doença renal crônica).

As metas recomendadas de acordo com a nova diretriz são:

Baixo risco: menor que 115 mg/dL
Risco intermediário: menor que 100 mg/dL
Alto risco: menor que 70 mg/dL
Muito alto risco: menor que 50 mg/dL
Risco extremo: menor que 40 mg/dL

Diretriz inclui novo marcador de risco. A SBC recomenda que todos os adultos façam, ao menos uma vez na vida, a dosagem de lipoproteína(a) —ou Lp(a)— para identificar risco residual elevado. Essa partícula semelhante à LDL tem efeitos pró-inflamatórios e seu nível não é influenciado por dieta, idade, sexo, estado de jejum ou estilo de vida, ou seja, é majoritariamente definida pela genética. Assim, é um marcador importante para o risco de doenças cardiovasculares.

Outros "colesteróis ruins" estão na mira. A diretriz estabelece metas para o colesterol não-HDL, que ficam 30 mg/dL acima da meta para o LDL.

Baixo risco: menor que 145 mg/dL
Risco intermediário: menor que 130 mg/dL
Alto risco: menor que 100 mg/dL
Muito alto risco: menor que 80 mg/dL
Risco extremo: menor que 70 mg/dL

Há uma nova avaliação de risco cardiovascular. A sociedade médica recomenda o escore PREVENT para estratificar o risco de eventos cardiovasculares em adultos sem doença prévia, com idade entre 30 e 79 anos. A avaliação é mais abrangente por incluir medidas como IMC e função renal.

Terapia combinada passa a ser recomendada em casos específicos. A medida é indicada como primeira linha de tratamento, de forma precoce, para pessoas com risco alto, muito alto ou extremo. Trata-se do uso de uma estatina (que reduz o colesterol) com outro medicamento.

https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2025/09/23/nova-diretriz-meta-colesterol.htm?cmpid=copiaecola

Fraude contra Academia.edu, ou apenas fraude contra usuários da plataforma?

 Atenção usuários da plataforma Academia.edu

Alert to the users of Academia.edu platform

    Since some few days, I have been receiving messages like the one inserted below, which are clearly an attempt to commit fraud against me, or at least trying to offer some publication of some of my free articles in an obscure scientific journal, against payment, of course. I recommend not to answer and delete those messages immediately.
    Nos últimos dias tenho recebido mensagens aparentemente elogiosas e atraentes, como esta que transcrevo abaixo, e deduzo que se trata de uma tentativa de fraude, contra mim, ou tentando atrair-me para a publicação de alguns dos meus artigos livremente disponíveis na plataforma em alguma obscura revista científica, contra pagamento, obviamente. Recomendo que não respondam, e apaguem a mensagem imediatamente.
Paulo Roberto de Almeida

Example:

"Enc: Interest in Your Research on Brazilian Multilateralism and International Relations
Dear Professor Almeida,
I hope this message finds you well.
I have been following your work on Academia.edu, particularly your extensive research on Brazil’s multilateral diplomacy, historical sociology, and political development. Your analyses on the evolution of multilateralism—from Bretton Woods to contemporary challenges—have provided me with valuable insights for my own study on Brazil’s role in regional and global governance.
I would greatly appreciate the opportunity to discuss your perspectives on how historical and diplomatic analyses can inform current international relations research, and to learn from your experience bridging academia and diplomatic practice.
Thank you very much for your time and consideration.
Warm regards,
Xxxxxx Xxxx"

Beware, then!
Atenção, portanto!

O Brasil e o multilateralismo: construção e desconstrução - Paulo Roberto de Almeida

 4946. “O Brasil e o multilateralismo: construção e desconstrução”, Brasília, 9 junho 2025, 29 p. Elaboração ampliada a partir do trabalho 4616 (25 março 2024, 23 p.), para aula a candidatos à carreira diplomática. Disponível em Academia.edu (link: https://www.academia.edu/144115270/4946_O_Brasil_e_multilateralismo_construcao_e_desconstrucao_2025_

Paulo Roberto de Almeida

Sumário:
Introdução: o multilateralismo econômico e político, emergência e crise atual
1. Multilateralismo: origens e desenvolvimento até Bretton Woods
2. Bretton Woods, 1944: o multilateralismo econômico
3. ONU: o multilateralismo político: paz e segurança internacionais
4. Desenvolvimento do multilateralismo em suas várias etapas: os grupos regionais
5. A fragmentação e a virtual inoperância do multilateralismo na segunda Guerra Fria
Anexo: Brasil: acordos e organizações multilaterais desde a criação da ONU
Referências bibliográficas

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Projeto Cachoeira Seca: exemplo a ser seguido - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Projeto Cachoeira Seca: exemplo a ser seguido

Algumas iniciativas em curso na Amazônia para o crescimento e a melhoria das condições sociais dos povos nativos merecem ser ressaltadas
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 23/09/2025
        Muito se tem discutido sobre os desafios e oportunidades que a região amazônica apresenta para o governo e para o setor privado. Entre outros, são eles representados pelo desmatamento, pelas queimadas e pelo garimpo ilegal, inclusive nas terras indígenas. A ameaça à soberania nacional, pela crescente presença do crime organizado, torna mais difíceis as iniciativas para aproveitar a biodiversidade em favor da população local e para levar a riqueza da região aos povos nativos.
        Um dos temas mais importantes quando se trata do desenvolvimento da Amazônia é a questão do aproveitamento das riquezas da região pelas comunidades indígenas. O artigo 231 da Constituição prevê que as terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas são destinadas a ser por eles ocupadas para sempre, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Sem uma regulamentação mais precisa, essa disposição nem sempre é cumprida e em alguns casos, é flagrantemente desrespeitada, como no caso do garimpo ilegal e do desmatamento em terras indígenas.
        Algumas iniciativas em curso na Amazônia para o crescimento e a melhoria das condições sociais dos povos nativos merecem ser ressaltadas, como importante contribuição para o desenvolvimento econômico da região e para tornar efetivo o cumprimento constitucional. É o caso do projeto Cachoeira Seca, desenvolvido pela comunidade indígena Arara.
        Trata-se do desenvolvimento do maior projeto de carbono em área indígena no Brasil, já de acordo com a lei que regula as bases do mercado de carbono, com todas as aprovações já obtidas, depois de consultas à comunidade, sob a supervisão da Funai e do Ministério Público Federal. O projeto socioeconômico está em andamento para melhorias efetivas para a comunidade e a geração de 1,8 milhão de toneladas/ano de créditos de carbono durante os próximos dez anos.
        A área total da reserva compreende 734.000 hectares da floresta amazônica, rica em biodiversidade e funcionalidade do ecossistema, e está hoje sob pressão pela ocupação ilegal de terras, derrubada seletiva, desflorestamento e mineração. Da área total, aproximadamente, 50 mil hectares já foram devastados e serão objeto de projeto de restauração florestal.
        O território indígena Cachoeira Seca, localizado nos municípios de Altamira (76%), Placas (17%) e Uruará (7%), no Pará, vai beneficiar cerca de 50 famílias indígenas. Todas essas municipalidades são alvos de prevenção prioritária de deflorestação, atividades de monitoramento e controle pelo governo federal. Na realidade, o projeto Cachoeira Seca perdeu mais de 70 mil hectares de floresta natural até 2024. Existem algumas iniciativas de prospecção mineral, ligadas especialmente ao ouro e ao minério de ferro, o que impõe ameaça aos recursos naturais (solo e água) e à vida selvagem do território.
        Levando em conta que a maior parte da área está ainda coberta por florestas nativas e habitadas pelo povo Arara, o projeto Cachoeira Seca representa uma parte crucial da floresta a ser preservada – por reduzir as emissões de GHG (gases de efeito estufa, na sigla em inglês), por preservar a sua biodiversidade e por reconhecer a governança do povo indígena sobre sua terra.
        De fato, essas pressões representam ameaças à valiosa cultura tradicional, herança e modo de vida dos povos indígenas que habitam o projeto. Nos anos recentes, ocorreram frequentes conflitos entre as populações indígenas tradicionais e o crime organizado, que tenta tomar posse da terra para a extração de madeira, expansão da agricultura e transações especulativas de terras. Manter as comunidades indígenas em seus territórios, protegidos de agentes destrutivos como desmatadores ilegais e ocupantes de terra, assegura a preservação da biodiversidade da floresta, na medida em que as práticas tradicionais apoiam o equilíbrio ecológico do ecossistema.
        Um censo socioeconômico vai ser conduzido na comunidade indígena Cachoeira Seca, do povo Arara, que servirá como uma base para planejar e implementar atividades que ofereçam melhoria do bem-estar social, acesso à educação básica e a serviços de saúde para mais de 350 indígenas. Algumas iniciativas servirão também para criar fontes de renda sustentáveis que poderão gerar a independência do povo Arara.
        O projeto, que visa dar relevo ao papel da conservação, do manejo sustentável e do aumento de estoques de carbono florestal, foi desenvolvido pelo REDD+, sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal. Trata-se de mecanismo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que oferece incentivos financeiros a países em desenvolvimento para que reduzam o desmatamento e a degradação das florestas, além de conservarem e aumentarem os estoques de carbono.
        O principal objetivo do Projeto REDD+ dos povos Arara é evitar um desmatamento sem planejamento, dentro do território indígena Cachoeira Seca. Deve ser ressaltado que haverá a destinação de 70% do resultado líquido do projeto à comunidade indígena e 5% para um instituto que visa realizar pesquisas para o desenvolvimento da bioeconomia da floresta a benefício da comunidade. No tocante aos créditos de carbono, o projeto já foi aceito pela empresa Verra e foi incluído em sua plataforma para consulta.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

Dois discursos na AGNU, dos dois primeiros presidentes: Trump e Lula - Paulo Roberto de Almeida

 Dois discursos na AGNU, dos dois primeiros presidentes: Trump e Lula

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre os discursos de Lula e de Trump na AGNU.

Rotineiramente, os debates nas reuniões anuais da AGNU, desde 1946, começam pelo delegado do Brasil, eventualmente o presidente ou o chanceler, seguido pelo representante do país-sede, os EUA, raramente pelo presidente, mais frequentemente pelo Secretário de Estado ou o próprio represente diplomático na ONU.
Durante 70 anos, aproximadamente, os discursos inaugurais do Brasil refletiram os conceitos basilares de nossa diplomacia: estrito respeito à Carta da ONU e às normas mais elementares do Direito Internacional, aliás consolidados na Carta Constitucional de 1988. Ocorreu, sim, uma ruptura com os padrões tradicionais de nossa política externa e da diplomacia, durante os quatro anos do governo Bolsonaro, bizarramente oposta ao mecanismo fundamental da diplomacia contemporânea: o multilateralismo e a igualdade soberana das nações, substituídos pela submissão vergonhosa, não exatamente à nação ainda hegemônica na comunidade internacional, mas ao seu primeiro presidente claramente oposto aos mesmos princípios e supostamente um modelo para o seu subserviente colega brasileiro.
Esse mesmo presidente americano, eleito para um segundo mandato, persiste em seus propósitos de desmantelar o sistema multilateral, especialmente o comercial, e as regras consagradas do Direito Internacional.
Não cabe comentar o inacreditável discurso de Donald Trump, uma vez que não há uma única frase que corresponda à verdade dos fatos, um único argumento que reflita a realidade atual das relações internacionais, justamente afetadas pelas ações arbitrárias e unilaterais do Estado ainda mais poderoso do mundo (infelizmente para quase todo o resto da comunidade mundial). Cada palavra mais contundente, contra a ONU, os imigrantes, as múltiplas guerras supostamente terminadas por sua ação “merecedora de um Prêmio Nobel da Paz”, todos os conceitos constituem apenas o reflexo de seus preconceitos, obsessões e invenções de uma mente distintamente perturbada por uma megalomania raras vezes vistas no cenário mundial. Nada de muito novo, de fato, em termos de previsões sombrias para a Europa e o resto do mundo e de futuros radiantes para o seu próprio país.
Quanto ao discurso de Lula, pode ser considerado positivo — na defesa do multilateralismo e da soberania nacional, o que corresponde, na verdade, ao habitual costumeiro de nossa diplomacia — e correto nas críticas às sanções unilateralmente impostas ao Brasil, sem necessariamente vinculá-las ao presidente norte-americano.
Se examinarmos mais detidamente, porém, os primeiros parágrafos do discurso de Lula, chegaremos à conclusão de que todas as referências às violações à Carta da ONU, a condenação do recurso à guerra para resolver controvérsias e disputas entre Estados ou no tratamento do terrorismo, tudo isso se aplica, inteira e totalmente, à Rússia de Putin, sem que ela seja jamais equiparada às mesmas práticas delitivas e criminosas sendo infligidas à população palestina de Gaza.
[Discurso de Lula: “Assistimos à consolidação de uma desordem internacional marcada por seguidas concessões à política do poder. Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra.”]
Ao contrário, Lula repete ipsis litteris os argumentos de Putin no que respeita à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, jamais mencionada enquanto tal, como uma grave ruptura do Direito Internacional e dos mesmos princípios que a diplomacia brasileira defende estritamente.
[Discurso de Lula: “No conflito na Ucrânia, todos já sabemos que não haverá solução militar. O recente encontro no Alaska despertou a esperança de uma saída negociada. É preciso pavimentar caminhos para uma solução realista. Isso implica levar em conta as legítimas preocupações de segurança de todas as partes.” [Putin dixit] ]
Em resumo, o discurso de Lula pode ser considerado como 90% adequado aos requerimentos da ONU, mas totalmente falho no tocante à pior ameaça à paz e à segurança internacionais desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 23 de setembro de 2025

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