domingo, 21 de dezembro de 2025

Mercosul e União Europeia: a longa marcha da cooperação à associação - Paulo Roberto de Almeida (Academia.edu)

Liberando um artigo que passou um ano no limbo: 

Mercosul e União Europeia: a longa marcha da cooperação à associação

Recebo, em 19/12/2025, uma nova comunicação da revista Monções (UFGD), anunciando a publicação de seu novo número:

Você tem uma nova notificação de Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD: Uma nova edição foi publicada:

Publicado: 2025-12-19
Artigos - Seção Miscelânea
Entre Ocidente e "Não Ocidente": Ideias de Brasil em Paulo Nogueira Batista e José Guilherme Merquior
Victor Tibau, p. 1-25
PDF, DOI: https://doi.org/10.30612/mones.v14i28.19376
(seguem vários outros, interessantes)

Antes desse número foi publicado um número especial sobre integração regional, para o qual eu tinha apresentado um artigo, no começo do ano, de 2025, submetido a um parecerista que objetou à sua publicação, apresentando diversas questões e solicitações de revisões das quais não me lembro agora. Como eu andava muito ocupado, e não achei pertinentes alguns dos pedidos simplesmente não fiz, e meu artigo foi rejeitado, sendo que a revista já havia aceito dois outros anteriormente, como refletido abaixo:

Submissões Arquivadas
Mercosul e União Europeia: a longa marcha da cooperação à associação - Rejeitado

Contra as parcerias estratégicas: um relatório de minoria - Publicado

Uma grande estratégia para o Brasil: elementos propositivos - Publicado

O artigo apresentado, e rejeitado, foi este:
4829. “Mercosul e União Europeia: a longa marcha da cooperação à associação”, Brasília, 18 janeiro 2025, 21 p. Revisão e atualização do trabalho 4322 (15 fevereiro 2023), para submissão, em 18/01/2025, à revista Monções, Revista de Relações Internacionais da UFGD; URL: http://www.periodicos.ufgd.edu.br/index.php/moncoes ; URL da Submissão: https://ojs.ufgd.edu.br/moncoes/authorDashboard/submission/19486.

Deixei o artigo hibernando, pois que o o acordo Mercosul-UE permaneceu num estado de indecisão, pelas mesmas causas conhecidas desde o início, a despeito da mudança de governos e de orientações de políticas econômicas, nos últimos 30 anos (o processo deslanchou em 1995): protecionismo agrícola da parte europeua (alguns países, entre eles França, Itália e Polônia, o que eu já tinha apontado no artigo de janeiro de 2025).
Chegamos ao final de 2025, e nada de acordo ainda, pelas mesmas e quase idênticas questões. Aproveitei, reli meu artigo e acho que não há muito a acrescentar, apenas talvez as últimas condicionalidades (e subterfúgios europeus) no tocante à sensibilidade do setor agrícola, em países sequestrados por seus agricultores como a França e alguns outros.
Por isto decido oferecer o artigo ao conhecimento geral do público interessado, não mais como publicação de revista acadêmica, mas simplesmente em minha página da plataforma Academia.edu, como segue:

Disponibilizado via Academia.edu (dezembro 2025): https://www.academia.edu/145502682/4829_Mercosul_e_Uniao_Europeia_a_longa_marcha_da_cooperacao_a_associacao_Mercosur_and_European_Union_the_long_march_from_cooperation_to_association_Mercosur_y_Uni%C3%B3n_Europea_la_larga_marcha_de_la_cooperaci%C3%B3n_a_la_asociaci%C3%B3n_2025_

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

O Brasil na arena global: o papel do diplomata e a política externa brasileira - Paulo Roberto de Almeida

5066. “O Brasil na arena global: o papel do diplomata e a política externa brasileira

Brasília, 24 setembro 2025. Apresentação em palestra acadêmica em curso de Relações Internacionais de Faculdade do RJ. Disponível na plataforma acadêmica Academia.edulink: https://www.academia.edu/145499538/Co_pia_de_5066BrasilArenaGlobalDiplomPExt  

Enough is Enough! - 30 anos de NÃO ACORDO Mercosul-UE - Jorio Dauster, Manuel María Cáceres e Guillermo Valles Galmés (Folha de S. Paulo)

 Enough is Enough!

Trinta anos depois do Acordo Marco de Madri, a União Europeia continua sem decidir se quer – ou pode – ser um sócio estratégico válido do MERCOSUL.
Jorio Dauster, Manuel María Cáceres e Guillermo Valles Galmés
Folha de S. Paulo, 20/12/2025

Exatamente trinta anos atrás, na Cúpula de Madri de 1995, a Comunidade Europeia e o MERCOSUR assinaram o Acordo Marco Interregional de Cooperação, inaugurando uma ambição inédita: construir uma associação estratégica birregional baseada no comércio, no diálogo político e na cooperação. Com grande pompa e profunda convicção, todos os Chefes de Estado acompanharam a cerimônia. Nós também lá estávamos e trabalhamos em Bruxelas nos anos seguintes.
A Europa representava à época cerca de 30% do PIB mundial e se projetava como sócio global. Hoje seu peso reduziu-se para algo como 14%. O MERCOSUL enxergava nesse vínculo uma via de inserção estável e previsível na economia internacional.
Mas não se trata apenas de que o mercado europeu seja hoje menor. O veto franco-italiano ao acordo não só frustra aquela promessa original de associação: ele a esvazia de conteúdo. Identificamos explicitamente esses dois países porque estiveram presentes em Madri. Não são sócios novos nem atores marginais: foram testemunhas e protagonistas de um compromisso que atualmente se vê frustrado por sua responsabilidade direta.
O que ocourreu não pode ser explicado por dificuldades técnicas nem por supostas incompatibilidades estruturais. Os textos foram negociados, revisados e concluídos. As concessões estiveram na mesa. O MERCOSUL aceitou até mesmo reduzir drasticamente seu acesso ao mercado europeu: a quota relativa à carne bovina ficou limitada a ínfimas 90.000 toneladas anuais (peso das carcaças). O equivalente a um hambúrguer por pessoa em um ano! Mesmo assim se argumenta que a identidade cultural da agricultura francesa estaria em perigo. Não é verdade. O que fracassou foi a política. E, em particular, a política europeia.
Como adverte o brilhante Informe Draghi de dezembro último, o problema europeu consiste na incapacidade de decidir. Uma Comissão que anuncia e Estados membros que vetam compõem uma União que regula em excesso, coordena pouco e executa mal. Nesse contexto, nenhum sócio externo pode levar a sério compromissos que a Europa não consegue sustentar nem mesmo internamente.
O próprio comissário europeu de Comércio, Maroš Šefčovič, admitiu poucos dias atrás no Financial Times que o acordo com o MERCOSUL é uma questão de “credibilidade e previsibilidade” para a União Europeia, exigindo uma “decisão estratégica”. O problema é que tal decisão nunca chega. Quando a Comissão reconhece o que está em jogo e os Estados membros continuam a bloquear, a falta de credibilidade deixa de ser um risco futuro para converter-se em um dado do presente. Como a triste realidade atual.
A União Europeia, antes defensora do livre comércio baseado em regras, passou a refugiar-se numa lógica defensiva, dominada por pressões internas e uma crescente incoerência entre discurso e ação. Em nome de padrões ambientais, sociais ou sanitários, apresentam exigências tardias e reinterpretações unilaterais que alteram o equilíbrio pactuado. Bruxelas preconiza padrões que ela própria não consegue cumprir.
A mensagem é preocupante. Num mundo marcado pela fragmentação e competição geopolítica, a União Europeia renuncia a consolidar uma aliança natural com uma região com a qual compartilha valores e história. Pior ainda: afeta negativamente sua credibilidade como ator capaz de fechar acordos complexos e honrar negociações prolongadas.
Os países do MERCOSUL podem manter sua paciência estratégica, porém não indefinidamente. Devem considerar os custos de oportunidade e olhar com mais decisão para a Ásia-Pacífico. No tocante à Europa, os custos são ainda maiores: sua incapacidade de transformar trinta anos de diálogo em um acordo efetivo debilita a própria ideia de associação estratégica.
Trinta anos depois de Madrid, a pergunta já não é por que razão fracassou este acordo, e sim o que diz tal fracasso acerca da vontade europeia de exercer uma liderança internacional quando essa liderança é mais necessária que nunca. É agora ou nunca.
Enough is Enough! Ou, para que se entenda bem em francês: Ça suffit !

Três vozes com experiência direta:
Jorio Dauster (Brasil): Ex-embaixador junto à União Europeia e negociador da dívida externa brasileira. Foi presidente do Instituto Brasileiro do Café e CEO da companhia de mineração VALE.
Manuel María Cáceres (Paraguai): Ex-vice-ministro de Relações Exteriores e ex-embaixador junto à União Europeia, Estados Unidos, OEA, Argentina e Brasil.
Guillermo Valles Galmés (Uruguai): Ex-vice-chanceler; embaixador na China, junto à União Europeia. OMC e Brasil; ex-diretor de Comércio da UNCTAD.

O “corolário Trump” à Doutrina Monroe - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

 A estratégia de Trump para o “quintal” do Hemisfério Ocidental

Trump

Trump

Donald Trump liberou, no final de novembro de 2025, a nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, apresentando-a, como é do seu estilo, em tom grandiloquente:

Nos últimos nove meses, trouxemos de volta nossa nação – e o mundo –, à beira da catástrofe e do desastre. Depois de quatro anos de fraqueza, de extremismo, de fracassos mortais, minha administração avançou com urgência e rapidez histórica para restaurar a força americana no país e no exterior, e trouxe paz e estabilidade ao nosso mundo [sic]. Nenhuma administração na história [sic bis] alcançou uma reviravolta tão dramática em tão pouco tempo. (disponível: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf).

O corpo do texto não é menos altissonante em suas pretensões imperiais: nada é modesto nessa nova doutrina, trumpiana, de segurança nacional, inovando em relação a documentos similares anteriores. Os EUA já tiveram grandes estratégias no século XX. A primeira, desenhada ao início da Guerra Fria, em 1947, contou com aportes significativos de militares e de técnicos vinculados à segurança nacional, inclusive à diplomacia, como a “doutrina da contenção” (da União Soviética), sugerida pelo diplomata George Kennan. Depois acrescentaram algumas “teorias”, como a do dominó, que se revelou um desastre: levou ao “over stretch”, que impôs um excesso de extensão militar – no Vietnã, por exemplo –, bases completas por toda parte e compromissos inviáveis economicamente.

A quebra do padrão de Bretton Woods, em 1971, sinalizou a ruptura de um sistema que já era insustentável desde o final dos anos 1950. Mas, enquanto perdurou o dinamismo econômico e político, o poderio americano continuou a se expandir pela força de atração de sua economia e de um regime de liberdades inigualável no mundo, atraindo imigrantes de todos os tipos e cores, braços e cérebros de todas as partes. Uma consulta aos premiados do Nobel revela quantos estrangeiros, trabalhando em laboratórios americanos, o receberam.

Até que um descendente de imigrantes furiosamente xenófobo resolveu “corrigir” essa abertura, para ele indesejável, postura que recebeu enorme destaque na nova estratégia, como se o fechamento do império aos estrangeiros pudesse inverter seu declínio relativo, ou como se os imigrantes representassem qualquer ameaça à segurança nacional de um país que conta com inúmeros estrangeiros em áreas sensíveis das políticas de Estado.  Sua segunda preocupação se exerce em face do renascimento e fortalecimento de um velho império asiático, mas a China só quer exportar seus bens e serviços, não o “comunismo”.

Em lugar de definir uma estratégia de complementaridade com o gigante asiático, em prol de uma prosperidade comum, os paranoicos da nova estratégia preferiram adotar uma postura de enfrentamento em todos os continentes. A estrutura geográfica do documento começa pelo próprio Hemisfério Ocidental, no qual se perfila, ao Sul, uma América Latina pouco dinâmica, mas que aparece como um problema. A brutalidade da doutrina estratégica já se revela naprimeira frase da seção sobre o “Corolário Trump à Doutrina Monroe”:

Depois de anos de negligência, os Estados Unidos vão reafirmar e impor a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, para nossa pátria e o nosso acesso às geografias-chave em toda a região. (p. 15)

O fato de classificar a nova estratégia para o hemisfério como sendo um “Corolário Trump à doutrina Monroe” já revela a imensa ignorância de seus formuladores, que exibem uma prepotência em relação ao Hemisfério que há muito tempo não se via na política externa regional do Big Brother. Começa pelo fato de que a Doutrina Monroe original (1823), uma mensagem do presidente ao Congresso, não se destinava a estabelecer qualquer preeminência americana no Hemisfério, mas estava dirigida aos absolutismos europeus da Santa Aliança, em suas pretensões de recolonizar suas antigas colônias ibero-americanas.

O fato de identificar o “corolário Trump” à Doutrina Monroe não tem absolutamente nada a ver com a original, já que esse “corolário” foi uma leitura acintosamente imperialista, introduzida pelo presidente Theodore Roosevelt, o líder dos “Rough Riders”, os voluntários americanos envolvidos na revolução cubana de 1898 e contemporâneos da guerra hispano-americana do mesmo ano. Ele era vice-presidente de McKinley, assassinado em 1901, e queria legitimar novas intervenções dos Estados Unidos nas ilhas do Caribe e nos países da América Central. Esse primeiro Roosevelt, tio de Franklin, era um imperialista desabrido que recomendava: “fale macio, mas carregue um grande porrete”. Ele não inaugurou, mas expandiu desavergonhadamente a era imperialista dos Estados Unidos, também analisada criticamente por Oliveira Lima, jovem secretário da legação brasileira em Washington, nos anos 1890, em seu primeiro livro “internacional”: Nos Estados Unidos: impressões políticas e sociais (1899; eu o fiz republicar pelo Senado Federal 110 anos depois, em 2009).

Sua “emenda” justificava não apenas o direito, mas o dever dos EUA de intervir nos assuntos domésticos das nações do continente em todos os casos nos quais o próprio governo americano considerasse que havia um perigo iminente de revoltas políticas ou qualquer outro tipo de desordem. Até aquele momento eram os europeus que continuavam a interferir nos assuntos internos de países da região, como ainda o fizeram em 1902-1903, na Venezuela, quando o presidente Cipriano Castro repudiou a dívida externa e barcos da Grã-Bretanha, da Alemanha e da Itália impuseram um bloqueio naval contra o país. Castro, uma espécie de Chávez avant la lettre, confiava em que, pela doutrina Monroe, os Estados Unidos não permitiriam uma invasão militar europeia, mas Roosevelt entendeu que se deveria apenas objetar a uma possível ocupação territorial, e não a uma intervenção militar. O governo americano assistiu de forma complacente ao bombardeio de Maracaibo, com o que Castro acedeu a um processo de arbitragem. O “corolário Roosevelt” emergiu na sequência dessa intervenção. O assunto foi tratado na segunda conferência da paz da Haia (1907), quando o chanceler argentino José Maria Drago propôs a não cobrança pela força de dívidas soberanas, mas os próprios Estados Unidos propunham a doutrina Porter, recomendando arbitragem antes do uso da força. Rui Barbosa estava lá e transmitiu suas impressões a Rio Branco.

Nas duas décadas seguintes, a cada conferência interamericana, os latino-americanos insistiam no fim das intervenções, sem sucesso porém. Apenas em 1934, o sobrinho Franklin Roosevelt, eleito presidente no ano anterior, preocupado com novas incursões europeias no que já era considerado um “quintal americano”, consentiu em substituir o “corolário” do tio pela Good Neighbor Policy, ainda assim longe do panamericanismo multilateral e respeitoso da independência dos “vizinhos” defendido pelo Brasil e alguns outros países. Na era da OEA, as intervenções militares foram menos frequentes; ainda assim ficaram à disposição do irmão maior, cada vez que ele julgasse necessário ou urgente: Cuba em 1961, República Dominicana em 1965 (com a participação da ditadura militar brasileira), depois Panamá, Granada e outras interferências clandestinas nos assuntos internos dos “países turbulentos”.

Na continuidade do primeiro parágrafo “hemisférico”, a truculência possessiva, unilateral e brutal, prossegue em toda a sua petulância:

Nós vamos denegar a competidores não-hemisféricos a possibilidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou possuir ou controlar ativos estratégicos vitais, em nosso [sic] Hemisfério. Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração potente e de senso comum do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses da segurança americana. (p. 15).

Seguem-se três páginas sobre os métodos a serem utilizados para tal finalidade: recrutar e expandir, ou seja, a pretensão de incorporar e de ampliar “sócios” e “aliados na região para alcançar seus objetivos, como se os agentes trumpistas pudessem determinar sozinhos e unilateralmente o curso dos eventos, da evolução política e da sua própria interação no resto do continente. O recrutamento se daria pela seleção de amigos “para controlar a migração, eliminar o fluxo de drogas e para reforçar a estabilidade e a segurança em terra e no mar” (p. 16). O restante da seção é dedicado às várias tarefas do “Enlist and Expand”, inclusive o recrutamento de “campeões regionais” e alguma expansão em novas presenças militares na região, com ativação de guarda costeira e naval para o controle das rotas marítimas, chegando até ao uso de “força letal” para compensar o insucesso na manutenção da lei e da ordem.

A nova estratégia está destinada ao fracasso, e não apenas no Hemisfério Ocidental. Mas, enquanto durar o poder dos ignorantes no império declinante, ela está provavelmente destinada a provocar maiores fracassos e desapontamentos, para os próprios EUA, para os vizinhos ao sul do Rio Grande e no resto do mundo. A razão pode ser explicada pela própria concepção míope do documento: ele não parece ter tido o cuidado de “recrutar e expandir” o número e a diversidade de seus formuladores, mas permaneceu restrito ao pequeno núcleo de seguidores, bajuladores, conversos e submissos ao chefe autoritário, apenas focados em apresentar suas fantasias numa terminologia grandiosa, aparentemente triunfante, mas completamente artificial na situação atual de disputa de poder com outro grande império.

Logo após a seção dedicada ao Hemisfério Ocidental, o documento foca na Ásia, de onde virão provavelmente os piores fracassos da “estratégia”, baseada numa nova doutrina de “contenção”, simplesmente inaplicável, absurda e equivocada. A Europa, genericamente, vem em seguida, com todo o desprezo que lhe devotam os trumpistas-raiz. Os “aliados europeus”, hoje desprezados, não vão protestar pelo tratamento, porque seria politicamente incorreto e muito pouco diplomático.

A Rússia praticamente não é mencionada, a não ser quanto à necessidade de restabelecer a “estabilidade estratégica” com o invasor da Ucrânia, já pensando, provavelmente, na “estabilidade” dos novos e lucrativos negócios. O suposto “adversário”, a China, tampouco vai reagir; ao contrário, ficará quieto. Afinal de contas, como recomendou Sun Tzu (500 a.C.), não se deve fazer nada quando o seu “inimigo” estiver fazendo bobagens. Raras vezes na história mundial um grande império teve o cuidado de documentar e de registrar o caminho do seu próprio declínio.


O retorno da Doutrina Monroe - Hubert Alquéres (Revista Será?)

 O retorno da Doutrina Monroe

Doutrina Monroe

Doutrina Monroe

A Estratégia de Segurança Nacional do governo Donald Trump, anunciada recentemente, representa a mais profunda inflexão da política externa americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Em suas 33 páginas, o documento enuncia de forma direta o que já vinha sendo percebido por analistas e diplomatas: o abandono explícito da ordem liberal internacional construída a partir de 1945. Pela primeira vez em oito décadas, Washington deixa de organizar sua política externa em torno de alianças multilaterais, previsibilidade institucional e distinções normativas entre democracias e autocracias.

Os valores que davam aos Estados Unidos o papel de guardião do mundo “livre e ocidental” são substituídos por um pragmatismo no qual se aceita a divisão do mundo entre esferas de influência das principais potências: Estados Unidos, China e Rússia. A Europa, que Donald Trump qualificou como decadente, perde relevância na estratégia trumpista, assim como o sistema de defesa do Atlântico Norte, a OTAN. Dessa maneira, Putin fica de mãos livres para avançar na Ucrânia e na Eurásia, e Xi Jinping, na Ásia e em regiões do Indo-Pacífico. É a lei dos mais fortes subjugando os demais. Nesse reordenamento mundial, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

A comparação com Ronald Reagan ajuda a dimensionar a mudança. Reagan também exerceu liderança assertiva, pressionou aliados e adversários e defendeu interesses americanos com firmeza. Mas o fez dentro de uma lógica de fortalecimento das instituições internacionais e de consolidação da ordem liberal. O atual movimento, ao contrário, rompe com essa tradição ao substituir liderança por imposição circunstancial e previsibilidade por improviso.

A prioridade de Donald Trump é outra: sua própria área de influência, o “Hemisfério Ocidental”. Particularmente a América Latina, que seu Secretário, Pete Hegseth, chamou de “quintal” dos Estados Unidos.

A Doutrina Monroe, criada há 200 anos, ressurge das cinzas. Proclamada pelo presidente dos EUA James Monroe em 1823, declarava o continente americano fechado para novas colonizações europeias e proibia a intervenção europeia nos assuntos das nações americanas, sob o lema “América para os americanos”. Inicialmente defensiva, pretendia proteger as novas repúblicas da América Latina da recolonização, mas evoluiu para justificar o intervencionismo e a hegemonia dos EUA na região, tornando-se um símbolo do imperialismo americano.

O trecho mais emblemático do documento da nova estratégia não deixa margem a dúvidas: “Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nosso acesso a áreas-chave em toda a região.” Mais adiante, o texto explicita seu escopo: os EUA “negarão a concorrentes de fora a capacidade de posicionar forças ou controlar ativos estrategicamente vitais na região”. Não se trata de retórica vaga ou formulação diplomática ambígua. Trata-se de uma geopolítica que recoloca a América Latina no centro da estratégia de segurança dos Estados Unidos e restaura, de maneira aberta, a lógica das esferas de influência.

O embaixador Rubens Barbosa, em artigo publicado no Estado de São Paulo, foi direto ao afirmar que o documento “na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos Estados Unidos”. Em outras palavras: não se trata apenas de uma mudança de tom, mas da institucionalização de uma visão de mundo que recoloca a América Latina no papel que ocupava durante a Guerra Fria: o de zona tutelada, sensível à presença militar, econômica e tecnológica de potências rivais.

É nesse contexto que a América Latina reaparece como prioridade. Sob o rótulo de “Hemisfério Ocidental”, o documento prevê maior presença naval, operações ampliadas contra cartéis, vigilância sobre minerais estratégicos (como lítio e terras raras) e monitoramento intensivo de cadeias críticas de suprimentos. Ou seja, áreas sensíveis para o futuro tecnológico e energético dos EUA. A região passa a ser vista não como plataforma indispensável para a segurança nacional, devendo ser protegida contra “interferências de potências externas”, em referência clara à China e, em menor grau, à Rússia.

Esse redesenho tem impactos profundos para o Brasil e seus vizinhos. A ascensão chinesa consolidou a presença de Pequim em portos, telecomunicações, energia e minérios; a Rússia mantém parcerias militares em vários países; o Irã constrói relações políticas e logísticas em territórios específicos. A nova estratégia americana sinaliza que tais movimentos não serão mais tolerados como parte do jogo diplomático corrente. O que antes era questão de comércio ou desenvolvimento passa a ser enquadrado como desafio à segurança nacional. O resultado provável é um aumento da pressão política, econômica e militar para limitar a inserção de potências externas na região — processo que tende a gerar atritos crescentes com governos que buscam maior autonomia na política externa.

Nesse quadro, o retorno da Doutrina Monroe pode representar uma ameaça direta à soberania nacional dos países latino-americanos. Não apenas no caso da Venezuela, que corre o risco de uma ação militar direta, mas também do Brasil. No nosso caso, possuímos a segunda maior reserva mundial de terras raras e atraímos vultosos investimentos chineses em tecnologia, energia, portos e 5G. Ou seja, a disputa por cadeias produtivas críticas nos coloca no centro da geopolítica americana.

Esse retorno ao paradigma das esferas de influência tem duas implicações centrais. A primeira é global: a ordem liberal surgida em 1945 está sendo substituída por uma ordem de contenção e rivalidades, na qual grandes potências delimitam zonas de interesse exclusivas. A segunda é regional: a América Latina volta a ser tratada como extensão da segurança americana. O desafio para os países latino-americanos será preservar margens de autonomia neste cenário.

A geopolítica voltou, e voltou com o vocabulário do século XIX. Por isso mesmo, fazem todo sentido as palavras do ex-ministro do STF Celso de Mello, ao qualificar a nova política de Trump como uma arrogância imperial: “Trata-se, a um só tempo, de gesto anacrônico, de vocação hegemônica e de grave retrocesso histórico, pois reedita fórmulas obsoletas que o Direito Internacional e a consciência democrática das nações há muito repudiaram”.

Diante dessa nova realidade, caberá aos governos latino-americanos articular estratégias capazes de proteger seus interesses sem provocar confrontos diretos com a potência hegemônica do hemisfério.

O retorno da Doutrina Monroe, sob essa forma pragmática e desinstitucionalizada, não significa necessariamente um retorno ao passado, mas aponta para um futuro mais áspero. Um mundo em que regras cedem lugar a relações de força, e em que países médios precisam navegar com cautela entre interesses conflitantes.

O desafio brasileiro será preservar espaços de soberania e decisão num ambiente internacional cada vez menos tolerante à ambiguidade.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

O destino do Brasil? Uma tartaruga? - Paulo Roberto de Almeida

O destino do Brasil? Uma tartaruga?

Paulo Roberto de Almeida

Nota sobre os desafios políticos ao desenvolvimento do Brasil

Esse “destino” é o de avançar muito lentamente, a menos de uma mudança cultural e educacional integradora de sua população mais humilde.

O principal problema do Brasil é o de uma classe política (uma casta aberta a todos os oportunistas) predatória, focada em seus ganhos exclusivos, dedicada a se manter no populismo de baixo clero, mantido e alimentado pelos fundos Partidário e Eleitoral (que deveriam ser eliminados) e pelo estupro orçamentário das emendas parlamentares concebidas justamente para abastecer a casta predatória de politicos mediocres.

O esforço da população deveria a partir de agora dirigir-se à eliminação desses três focos de corrupção e de desperdicio de recursos públicos.

Isso não será fácil, pois depende de uma mudança radical na consciência politica da população, o que só advirá com uma educação de qualidade.

Estimo que tais mudanças para melhor podem durar cerca de três gerações, mas apenas se a oligarquização da politica pela casta predatória e corrupta atualmente no poder real (o Parlamento) começar a ser contida por melhorias reais nas percepções políticas da maioria da população, o que só pode vir de uma melhor educação nas camadas mais humildes do povo. Esse é um processo que pode tomar mais de duas gerações.

Mas não é preciso aguardar tão longe; melhorias incrementais podem ser obtidas a médio prazo.

Partidos políticos são entidades de direito privado e não podem ser finsnciados com recursos públicos, assim como sindicatos setoriais ou centrais sindicais não podem ser abastecidos com recursos coletados via impostos diretos ou indiretos.

Da mesma forma, Fundo Eleitoral não pode existir como auto-atribuição de politicos eleitos: tem de ser extinto totalmente.

Finalmente, a prática predatória e corrupta das emendas parlamentares compulsórias deve ser eliminada em quaisquer de suas formas, pois são canais diretos de corrupção e de destruição de qualquer politica racional de investimentos, tornando cada parlamentar (deputados ou senadores) em vereadores federais. Elas devem ser eliminadas, retomando-se a prática anual do ordenamento de despesas segundo prioridades nacionais estabelecidas no orçamento plurianual e nas diretrizes orçamentárias anuais.

A nação tem três prioridades, se quiser avançar além da assistência pública estatal, que, em suas diversas modalidades, atinge atualmente cerca de 1/3 da população.

Nenhum país cresceu e se desenvolveu à base da assistência pública. O progresso só pode vir de uma economia de livres mercados, com base numa educação básica e técnico-profissional de alta qualidade (o que está longe de existir no Brasil atual), com uma base produtiva integrada aos mercados mundiais, comércio liberal e receptividade aos investimentos diretos estrangeiros.

Mas tudo depende de uma boa governança, hoje impossível pela dominação da politica de uma casta predatória, que deriva seu poder dos três mecanismos expropriatórios já descritos: os dois fundos ilegítimos e o estupro orçamentário das emendas. 

Paulo Roberto Almeida

Brasília, 20/12/2025


Alternâncias e conformismo: política externa e diplomacia do Brasil - Paulo Roberto de Almeida

 Alternâncias e conformismo na diplomacia brasileira

Paulo Roberto de Almeida

Em democracias vibrantes, com alternância de poder, a política externa pode ter tonalidades diferentes entre um governo e outro.

Diplomacias assertivas podem assegurar certa continuidade das políticas, desde que baseadas numa concepção coerente dos interesses nacionais com certa fidelidade doutrinal a princípios e valores consensuais na sociedade. 

Mas a diplomacia pode também ser conformista, ao aceitar qualquer nova orientação sem o necessário estudo e uma adequada fundamentação naqueles princípios e valores e no consenso com respeito aos interesses nacionais pensados pelo corpo diplomático permanente. Submissão disciplinada não é exatamente a postura de um corpo diplomático orgulhoso de sua identidade com a validação democrática de novas orientações em política externa.

Não creio que hierarquia e disciplina possam ser principios válidos para o exercício responsável de uma diplomacia assertiva.

Paulo Roberto Almeida

Brasília, 20/12/2025


Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...