domingo, 25 de janeiro de 2026

O Brasil e o mundo em poucos parágrafos - Paulo Roberto de Almeida

O Brasil e o mundo em poucos parágrafos


        O Brasil nasceu na emergência da Europa, com seus navegadores e conquistadores, que dominaram o mundo nos quatro séculos seguintes. A Ásia e o Império do Meio estavam até então na vanguarda do mundo, com os chineses, que haviam inventado tudo, e o resto da Ásia Pacífico e o Índico, que tinham o que era o petróleo daquela época: as especiarias, que os europeus iam buscar, para tornar menos horrível a alimentação rústica que eles tinham até então. Importaram tudo: especiarias, chá, açúcar e café (o cacau, o tomate, o peru, vieram das Américas, que os europeus também conquistaram na mesma época).
        Os europeus, mesmo conquistando o mundo, separadamente, continuaram a se guerrear reciprocamente durante séculos, enquanto o Império do Meio entrava em decadência por causa de um imperador idiota que mandou fechar tudo, e com isso o brilhante e avançado Império do Meio perdeu tudo: falhou na primeira e na segunda revoluções industriais, na terceira estava sob a dominação despótica e demencial do maoísmo delirante, e só conseguiu entrar atrasado na quarta por causa do reformador Deng Xiaoping. O Brasil ficou na modorra colonial até o século XX, produzindo só commodities, fez o seu capitalismo tardio, mas de forma insuficiente, e não conseguiu acompanhar a modernidade capitalista porque não educou o seu povo, como fez o Japão na Revolução Meiji, e passou a ser dominante na Ásia.
        Os europeus continuaram, mesmo com toda a integração realizada depois de duas destrutivas guerras mundiais (que começaram primeiro entre eles), mas continuam a ser, ainda e pelas próximas décadas, um mosaico de povos e de culturas. Suas guerras catastróficas os diminuíram política e militarmente, e os dois grandalhões previstos por Tocqueville acabaram dominando o mundo durante 40 anos no pós-segunda guerra.

        Agora, o Império do Meio está renascendo das cinzas, e os dois grandalhões militares estão decaindo rapidamente por razões próprias a cada um, e o Império do Meio retoma sua grandiosidade. Os chineses inventaram tudo antes da decadência: eram os europeus que vinham sequiosos para copiar as novidades: papel, bússola, pólvora, e até educação, mas depois naufragaram por causa daquele imperador idiota: foram humilhados durante um século e meio pelos imperialistas ocidentais e depois invadidos e estuprados pelos militaristas japoneses expansionistas.
        Os europeus, entre o Renascimento e a primeira revolução também inventaram tudo, inclusive a modernidade liberal democrática, os direitos humanos, mas também naufragaram em suas guerras e foram superados pelos americanos. O Brasil seguiu, dentro do possível, os europeus e depois os americanos, mas não fez o dever de casa de educar a sua população, e por isso continuou atrasado.
        Atualmente, qual é o panorama? Os dois grandalhões do pós-segunda guerra seguem no auto suicídio. O Brasil segue sem saber o que fazer: antes seguia os americanos, agora tem vontade de seguir a China, duas coisas impossíveis de serem repetidas, pois não fizemos ainda o dever de casa.
        Vamos ver, então, o que faz o Império do Meio renascido.
        É o caso de apostar nele, ou voltar a fazer o dever de casa?

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 25 janeiro 2026.

Conflict: Niall Ferguson on Ukraine, Taiwan - Peter Tobinson (Uncommon Knowledge)

 Conflict: Niall Ferguson on Ukraine, Taiwan, and His War of Words with 

Peter Tobinson (Uncommon Knowledge)

Niall Ferguson, preeminent historian and Milbank Family Senior Fellow at the Hoover Institution, joins this episode of Uncommon Knowledge with Peter Robinson to discuss the war and ongoing stalemate in Ukraine; the Trump administration’s foreign policy and negotiations with Russia; and the broader geopolitical landscape, including the shift in Europe’s defense posture as the US signals a reduced commitment to NATO.

Throughout the conversation, Ferguson explores historical analogies to better understand Ukraine’s position, using comparisons to South Korea and South Vietnam. He discusses China’s backing of Russia and its role in what he calls Cold War II, highlighting the long-term implications of this growing alliance. The discussion also covers the shock strategy deployed by Trump and Vice President JD Vance to pressure Europe into taking more responsibility for its own defense, a move that Ferguson believes has finally awakened European leaders to their countries’ security needs.

Beyond Ukraine, the conversation shifts to the larger economic and military vulnerabilities of the United States, particularly in relation to China. Ferguson argues that America is no longer in a position of overwhelming strength and draws parallels between the US today and Britain in the 1930s: both as declining empires facing an emboldened adversary. He warns that while Trump’s realpolitik approach may be a necessary adaptation to America’s strategic limitations, its success remains uncertain. The discussion ultimately raises the question of whether this strategy will prevent a major conflict or, conversely, accelerate the decline of American global primacy.

Recorded on March 14, 2025.

For more details on this episode, visit: https://www.hoover.org... 

5 Questions for Stephen Kotkin - Peter Robinson (Uncommon Knowledge)

5 Questions for Stephen Kotkin


Recorded on January 14, 2022

Stephen Kotkin is a professor of history at Princeton and a senior fellow at the Hoover Institution at Stanford University. He is the author of nine works of history, including the first two volumes of his planned three-volume history of Russian power and Joseph Stalin, Paradoxes of Power, 1878–1928 and Waiting for Hitler, 1929–1941. The premise of this show is simple: Peter Robinson poses five questions to Dr. Kotkin: what Xi Jinping, the president of China believes; what Vladimir Putin believes; whether nuclear weapons are a deterrent in the 21st century; the chances of another American renewal; and Kotkin’s rational basis for loving the United States. It’s a fascinating conversation that delves deep into one of the country’s brightest minds. 

For further information: 
https://www.hoover.org... 

História Virtual do Brasil: brincando de What If? - Paulo Roberto de Almeida

Retomando uma brincadeira antiga:

5199. “História virtual do Brasil; brincando de What If?”, Brasília, 25 janeiro 2026, 16 p. Retomada de alguns trabalhos antigos apenas como brincadeira com a História séria e correta. Disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/150271221/5199_Hist%C3%B3ria_Virtual_do_Brasil_brincando_de_What_If_2026_

História Virtual do Brasil: brincando de What If?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Retomada de alguns trabalhos antigos.

Durante alguns anos do início do presente século (ainda estou nele, um quarto de século depois), acumulei uma pequena literatura histórica de livros colocados na rubrica “What If?”, ou seja, história virtual, ou alternativa. Nunca desenvolvi o gênero, a despeito de ter ensaiado algumas brincadeiras com a história do Brasil, começando com a identificação daqueles episódios que poderiam ter representado alguma bifurcação em nosso itinerário como nação (e nos quais talvez tenhamos adotado o caminho errado).
Esse primeiro trabalho, puramente indicativo, se chamou “Momentos decisivos da história brasileira” (Washington, 18 junho 2003, 2 p., n. 1064), e tinha a seguinte descrição: “Relação cronológica de eventos ou processos que podem ser considerados como “turning points” na história do Brasil, desde Tordesilhas (1494) até a eleição de Lula (2002) como presidente do País. Base de um possível futuro trabalho ensaístico”. Imediatamente após, efetuei minhas primeiras brincadeiras nessa categoria, com o trabalho “História Virtual do Brasil: (What if...?)” (Washington, 21 junho 2003, 12 p., n. 1065), descrito da seguinte forma: “Aplicação seletiva de alguns eventos e processos relevantes da história do Brasil num exercício de “história virtual”, concluindo otimistamente pela ascensão do Brasil ao status de grande potência. Para ser desenvolvido progressivamente.”.
Menos de um mês depois, eu tratava de “explicar” o exercício pelo trabalho introdutório seguinte: “História Virtual: limites e possibilidades” (Washington, 7 julho 2003, 3 p., n. 1076). Texto de introdução metodológica e de justificativa didática de uma possível seção de história virtual para uma nova revista de história a ser editada no Brasil: História Viva”. Essa revista nunca foi publicada e meu texto acabou sendo incorporado a um trabalho de síntese que efetuei anos depois, congregando os textos acima citados: “História virtual do Brasil: um exercício intelectual” (Brasília, 29 novembro 2007, 16 p., 1841). Esse texto recebeu, em minha ficha de trabalhos, a seguinte descrição: “Consolidação, em arquivo único, de ensaio de história virtual do Brasil, com base nos trabalhos 1064, 1065 e 1076, feitos em Washington, em 18 e 21 de junho de 2003 e em 7 de julho de 2003. Ele teve uma publicação parcial numa revista acadêmica que já desapareceu (Espaço de Sophia (Tomazina – PR, ISSN: 1981-318X, Ano I, nº 9, p.1-15, dezembro 2007; edição eletrônica), e talvez esteja numa forma mais completa em uma das postagens que efetuei em Academia.edu. Em todo caso, vou retomar aqui essa versão mais completa, que segue abaixo.
(...)

Ler a íntegra, neste link:
https://www.academia.edu/150271221/5199_Hist%C3%B3ria_Virtual_do_Brasil_brincando_de_What_If_2026_

sábado, 24 de janeiro de 2026

Aprovação americana do Trump segundo IA americano da Microsoft - Benjamin Ernani Diaz, nota de Paulo Roberto de Almeida

 Qual é o apoio real da população americano às políticas de Trump? Uma questão relevante.

Nota preliminar PRA:
Recebo o texto abaixo em segunda mão de uma lista previamente circulada de forma restrita, mas repassada por um amigo, por considerá-la útil como informação do ponto de vista da população americana que apoia as políticas de Trump de maneira geral, embora muitos discordem da forma como estão sendo aplicadas ou que mesmo sejam contrários ao personagem.
Tenho, por mim e para mim, uma imagem bastante negativa, atualmente, do pensamento médio dos eleitores americanos, considerando-os excessivamente ingênuos, desinformados, ou mesmo ignorantes no sentido mais rústico da palavra.
Os EUA foram grandes, de fato, durante sua fase ascensional, após a guerra civil, quando atrairam milhões de imigrantes europeus, muitos dotados de uma cultura superior à média então prevalecente nos EUA ainda pouco "civilizado" (refiro-me à fase da "conquista do Oeste"). Muitos dos europeus eram imigrantes pobres, de cultura rural, mas grande parte também eram cidadãos urbanos, educados e dotados de títulos universitários. Continuaram a vir, em massa, desde o final do século XIX, até os anos 1920-30, quando restrições nacionalistas começaram a ser aplicadas. Ainda assim, as guerras europeias, o nazi-fascismo sobretudo, produziu um afluxo de pessoas altamente educadas, tangidas da Europa por perseguição política ou racial. Foi o momento de maior preeminência econômica americana – com a Europa e parte da Ásia destruídas – e de dominação absoluta na produção científica e tecnológica, justamente com a integração dessas massas e cidadãos educados e com a penetração americana no resto do mundo.
Esse impulso esgotou-se no final do século XX, o momento de maior dominação (mas apenas aparente) americana, com o fim da alternativa socialista e a intensificação da globalização.
Mas, os fatores de declínio e mesmo de mediocrização já estavam presentes, e continuaram a produzir efeitos nas primeiras duas décadas do século XXI.
A política americana tornou-se nacionalista, a cultura tacanha, os preconceitos se avolumaram (sobretudo com o crescimento do evangelismo ignorante, anticientífico), a qualidade da educação de massa declinou, e uma massa ignorante de eleitores da "caipirolândia" e dos trabalhadores industriais deslocados com o esgotamento da indústria criada na segunda revolução industrial (1870-1930) e sua disseminação pelo mundo, o que aumentou a concorrência com oferta mais barata, geralmente da Ásia Pacífico.
Em síntese, o nacionalismo ignorante dos caipiras do interior e dos novos pobres urbanos produziu políticos medíocres, que fizeram todas as más escolhas internas e externas, até chegar na irrupção de um personagem medíocre – provavelmente por influência direta do neoczar expansionista, plenamente soviético em toda a sua expressão –, que acelerou o declínio, a ignorância e a arrogância desvairada. Os brilhantes acadêmicos da costa Leste e da Califórnia foram desprezados pelos frustrados do declínio, que agora dominam o país do alto da sua estupidez.
Esta é a razão principal que vejo para a aprovação das políticas trumpistas que vão continuar acelerando a decadência americana.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 24/01/2026

Assunto: Aprovação americana do Trump segundo IA americano da Microsoft.
Benjamin Ernani Diaz

As decisões temerárias do Trump associadas às mentiras vergonhosas estão sendo apoiadas pela população americana em geral?

Apoio às ações e declarações de Donald Trump nos EUA é dividido e complexo. Pesquisas recentes mostram que parte significativa da população aprova sua agenda, mas sua taxa geral de aprovação permanece baixa, indicando um país profundamente polarizado.

🇺🇸 O que mostram as pesquisas mais recentes
📊 1. Apoio à agenda e políticas específicas
Uma pesquisa Harvard CAPS–Harris indica que muitas propostas de Trump têm apoio majoritário, como:
81% apoiam deportar imigrantes sem documentação com antecedentes criminais
76% apoiam ações para combater desperdício e fraude no governo
76% apoiam reforço na segurança de fronteira
69% apoiam restrições em esportes femininos
68% apoiam políticas de gênero mais restritivas
Esses números mostram que certas pautas de Trump ressoam fortemente com parte do eleitorado, especialmente em temas culturais e de segurança.

📉 2. Aprovação geral do governo Trump
Apesar do apoio a temas específicos, a aprovação geral de Trump é baixa. Diversos institutos registram:

Aprovação entre 36% e 45%
Desaprovação entre 54% e 61%
Ou seja, a maioria dos americanos desaprova seu desempenho, mesmo que concordem com algumas políticas isoladas.

📉 3. Tendência de queda e insatisfação crescente
Segundo o The Economist, a aprovação líquida de Trump está em –16%, com queda contínua ao longo do mandato.
Apenas 31% acham que o país está no rumo certo
61% acreditam que está no rumo errado
Isso indica insatisfação ampla, inclusive em estados que votaram nele.

🧭 Como interpretar isso?
Sim, há apoio significativo a algumas decisões e narrativas de Trump, especialmente entre seus eleitores e em temas culturais.
Mas não, a população americana em geral não apoia Trump de forma majoritária — sua aprovação global é consistentemente negativa.
O país está profundamente polarizado, e percepções sobre “decisões temerárias” ou “mentiras” variam muito conforme a identidade política.
Se quiser, posso detalhar quais grupos apoiam mais ou menos Trump, ou explicar por que certas mensagens dele têm tanta ressonância.


A burocracia do favoritismo e o fim do mérito na diplomacia brasileira - Marcos Degaut Gazeta do Povo

 A burocracia do favoritismo e o fim do mérito na diplomacia brasileira

Marcos Degaut
Gazeta do Povo, 23/01/2026
Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores: gestão deixou o mérito de lado.

Poucas instituições no Estado brasileiro cultivam aura de excelência tão persistente quanto o Ministério das Relações Exteriores. Durante décadas, o Itamaraty construiu para si a imagem de corpo técnico sofisticado, profissionalizado e imune às deformações mais comuns da burocracia nacional. Contudo, essa autoimagem tem contrastado de forma crescente com a realidade de seu funcionamento interno, em especial no que diz respeito ao sistema de promoções na carreira diplomática, sintoma de um problema bem mais profundo.

Na primeira parte deste artigo, analisarei a dimensão pontual da recente manipulação do já disfuncionalíssimo sistema de promoções do MRE. Na segunda, tratarei da necessidade de reforma da carreira, de modo a incorporar avanços organizacionais que países desenvolvidos adotaram há décadas em seus serviços diplomáticos e, assim, permitir que o Itamaraty funcione como instituição de Estado, e não como o clube de amigos no qual foi convertido pelos governos lulopetistas.

O Decreto nº 12.815, de janeiro de 2026, que institui o novo Regulamento de Promoções do MRE, não representa uma ruptura com as distorções históricas da instituição. Ao contrário: ele as aprofunda, sistematiza, consolida e legitima, ao lhes conferir verniz normativo, incorporando agora, de forma explícita, elementos da agenda identitária contemporânea a um arcabouço já profundamente marcado pelo personalismo e pela discricionariedade política, práticas infensas à moralidade administrativa.

O problema não é apenas técnico e moral. É político, institucional e estratégico, e ajuda a explicar por que o Brasil perdeu densidade, previsibilidade e relevância no cenário internacional. Trata-se, em essência, do mecanismo que define quem decide, quem ascende, quem formula, quem executa e, sobretudo, quem permanece relevante na política externa brasileira. Alterar esse sistema não é um detalhe administrativo: é intervir diretamente no DNA da diplomacia do país e perpetuar um processo de deformação institucional.

Da meritocracia imperfeita ao arbítrio estruturado
A Lei nº 11.440, de 2006, aprovada sob a condução do então chanceler Celso Amorim ainda no primeiro governo Lula, alterou substancialmente a lógica tradicional da carreira. Até então, o sistema de promoções, embora longe de ser ideal, baseava-se em tripé relativamente claro: antiguidade, interstícios mínimos e avaliação de desempenho funcional. Havia espaço para subjetividade, favoritismos e injustiças – mas também havia certa previsibilidade de carreira e limites relativamente claros à intervenção política.

Ao deslocar o eixo das promoções de critérios predominantemente objetivos para um espaço mais amplo de avaliação subjetiva, a lei abriu margem para uma ampliação inédita de discricionariedade política. Sob o discurso de flexibilizar a carreira e valorizar o “mérito”, desloca-se o centro de gravidade das promoções para critérios amplos, vagos e essencialmente interpretáveis. O conceito de mérito deixa de ser predominantemente funcional e passa a ser político.

O Decreto nº 12.815 não apenas regulamenta essa lógica, mas a radicaliza. Redefine o próprio conceito de mérito, reorganiza os pesos do julgamento e introduz critérios que não encontram respaldo no texto legal. O que era ambíguo torna-se explícito. O que era informal torna-se norma. O que dependia de relações pessoais passa a operar por meio de procedimentos aparentemente técnicos, mas controlados politicamente do início ao fim.

A Lei 11.440 fala em mérito funcional, pressupõe avaliação impessoal e não menciona identidade, representatividade ou correções estatísticas. O decreto, por sua vez, reinterpreta o mérito à luz de uma agenda política específica, transformando o processo de promoção em instrumento de política interna e reescrevendo a lei por via infralegal.

O mito da objetividade: planilhas a serviço do arbítrio
O novo sistema é apresentado como moderno e técnico. Metade da nota final decorre de pontuação funcional; a outra metade provém de avaliações da Câmara de Avaliação (20%) e da Comissão de Promoções (30%). A aparência de objetividade, no entanto, não resiste a uma análise mais atenta.

As instâncias responsáveis por 50% da pontuação subjetiva são compostas exclusivamente por ocupantes de cargos de confiança, assessores diretos do ministro e altos dirigentes politicamente escolhidos. O chanceler define as prioridades estratégicas, escolhe quem avalia, estabelece os parâmetros interpretativos e pode intervir diretamente no resultado final.

Como se mede, de forma objetiva, o “alinhamento estratégico” de um diplomata? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser: pela proximidade com o comando político do momento

Em outras palavras, chamar esse arranjo de “avaliação colegiada” é mero exercício de retórica administrativa, pois o que existe de fato é verticalização do poder decisório – centralização hierárquica – com verniz procedimental travestido de governança.

A sofisticação do personalismo
As acusações históricas dirigidas ao Itamaraty – personalismo, favorecimento de grupos, proteção de castas familiares, punição silenciosa de dissidentes – nunca foram adequadamente enfrentadas. O novo regulamento tampouco o faz. Não houve redução da discricionariedade, e sim a complicação das etapas preliminares de avaliação que em nada vinculam a decisão sobre as promoções no contexto de uma definição objetiva de mérito.

Antes, a exclusão era tácita e pouco explicada. Agora, ela se reveste de linguagem tecnocrática e de jargão progressista: “alinhamento com prioridades estratégicas”, “geração de valor público”, “trabalho colaborativo”, “valorização da diversidade”. Conceitos amplos, vagos e essencialmente não verificáveis, que, ao invés de reduzir, ampliam o espaço para decisões arbitrárias, pois é flagrante a total ausência de definições operacionais.

Nesse contexto, como se mede, de forma objetiva, o “alinhamento estratégico” de um diplomata? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser: pela proximidade com o comando político do momento.

O novo sistema não premia competência técnica isoladamente, nem capacidade analítica, nem produção intelectual relevante, nem experiência acumulada em áreas sensíveis. Ele premia comportamentos: adesão narrativa, prudência excessiva, autocensura, capacidade de ler o ambiente político interno. O diplomata deixa de perguntar “qual política é melhor para o Brasil?” e passa a perguntar “qual posição é mais segura para minha carreira?”.

Diversidade como engenharia de resultado
O ponto mais sensível, juridicamente frágil e institucionalmente mais corrosivo do novo Regulamento reside na introdução de mecanismos explícitos de correção identitária ex post, isto é, após a avaliação de desempenho e a atribuição de pontuações. Essa escolha altera a própria lógica do que significa ser promovido em uma carreira de Estado.

Em termos simples, o decreto permite que as listas finais de promoção não reflitam a ordem de classificação decorrente do desempenho, mas sejam ajustadas para atingir resultados considerados desejáveis sob o prisma identitário. Para isso, autoriza a inclusão de candidatos adicionais e a superação da ordem de pontuação, segundo parâmetros de “representatividade” definidos periodicamente pelo ministro.

Esse desenho institucional não corresponde ao que, tradicionalmente, se entende por ação afirmativa. Políticas afirmativas clássicas – legítimas ou não, conforme o debate – atuam no acesso (concurso), na formação ou na redução de desigualdades estruturais ao longo do percurso, criando condições para que todos disputem em bases mais equilibradas. Aqui, o mecanismo é outro: o critério não atua antes da corrida, mas no pódio.

A matriz intelectual desse modelo não é jurídica nem administrativa; é ideológica. Deriva de uma visão de mundo típica da agenda progressista identitária contemporânea, segundo a qual desigualdades de resultado são, por definição, prova de injustiça estrutural, e, portanto, devem ser corrigidas independentemente do percurso individual.

Transportada para uma carreira de Estado, essa lógica produz efeito profundamente desagregador. O desempenho concreto do servidor deixa de ser o elemento decisivo; passa a ser apenas uma variável entre outras, subordinada a um objetivo superior: ajustar a fotografia final.

Em termos práticos, isso significa que dois diplomatas podem ser avaliados de forma desigual não porque um serviu melhor ao interesse público, mas porque um deles se encaixa melhor em uma categoria estatística que a administração deseja expandir naquele momento. O mérito deixa de ser critério suficiente. Passa a ser condição necessária, mas não decisiva, e, em certos casos, sequer necessária.

Esse modelo afeta de modo particularmente severo o diplomata técnico, discreto, não militante e orientado por resultados concretos. A excelência silenciosa – aquela que se traduz em parâmetros definidos, análises sólidas, negociações bem conduzidas, conhecimento acumulado e defesa consistente do interesse nacional – torna-se invisível diante de critérios simbólicos e narrativos.

Mais grave ainda: o sistema cria incentivos perversos. Se o resultado final não depende prioritariamente do desempenho, mas de ajustes políticos e identitários, o racional passa a ser outro. O diplomata racional deixa de investir em excelência técnica e passa a investir em posicionamento, sinalização e alinhamento discursivo. O mérito funcional perde centralidade; a aderência ao espírito do tempo ganha valor. Assim, a neutralidade institucional, valor clássico do serviço público profissional, deixa de ser virtude e passa a ser risco.

Do ponto de vista jurídico-institucional, o problema é igualmente sério. O princípio constitucional da impessoalidade não exige apenas ausência de favoritismo individual; exige que critérios gerais sejam aplicados de forma previsível e verificável. Ao permitir correções discricionárias definidas semestralmente pelo ministro, o decreto amplia de maneira inédita o espaço para decisões personalizadas, ainda que justificadas por linguagem moralizante.

A agenda identitária, nesse arranjo, funciona como instrumento legitimador do arbítrio. Decisões que, em outro contexto, seriam percebidas como favoritismo ou intervenção indevida passam a ser apresentadas como “justiça social”, “inclusão” ou “correção histórica”. O conteúdo muda pouco; a narrativa muda muito.

Há ainda um efeito colateral raramente reconhecido: nem mesmo os grupos nominalmente beneficiados são fortalecidos por esse modelo. Ao promover pessoas com base em correções estatísticas, o sistema mina a legitimidade individual dos promovidos, que passam a carregar a suspeita de não terem ascendido por mérito próprio.

Em vez de inclusão real, produz-se instrumentalização simbólica. A diversidade deixa de ser consequência de um sistema justo e passa a ser objetivo administrativo a ser atingido, custe o que custar.

A “gabinetização” do Itamaraty
Ao concentrar poder decisório no topo da hierarquia, o decreto reforça um velho vício institucional: a corrida por cargos de gabinete. Por quê? Porque é ali que se constroem relações de confiança política; se ganha visibilidade junto aos avaliadores; se participa da definição das “prioridades estratégicas”.

As áreas finalísticas – divisões temáticas, departamentos técnicos, setores de análise – tornam-se periferia institucional. O trabalho substantivo da política externa passa a valer menos do que a proximidade com o centro decisório.

A criação de listas semestrais intensifica esse fenômeno, estimulando campanhas internas, intrigas e desperdício de capital humano altamente qualificado. O contribuinte financia um sistema em que diplomatas passam a dedicar tempo e energia a disputas internas de baixa relevância estratégica, em detrimento da formulação de políticas públicas. O resultado é um ministério cada vez mais cartorial, autorreferente e politizado internamente, mas paradoxalmente irrelevante externamente.

Seria um erro, contudo, atribuir ao Decreto nº 12.815 todos os males do Itamaraty. Ele é sintoma, não causa. Vítima de suas próprias fraquezas, vícios, tibieza, isolamento, comodismo e conformismo, o Itamaraty é o principal culpado pelo seu próprio esvaziamento. A instituição tem sido incapaz de se posicionar frente aos governantes e de identificar com precisão sua arena de atuação no cenário internacional, que possibilite ao Brasil detectar oportunidades para ampliar sua visibilidade e capacidade de diálogo nos grandes temas de interesse regional e mundial.

Para além da retórica oficial de reforma da governança global de alteração da geografia econômica do globo, a análise da atual política externa indica não haver identificação clara de nossos principais objetivos econômicos e políticos, tampouco a formulação de uma agenda internacional consistente e integrada. A diplomacia brasileira, que deveria traduzir nossos interesses na arena internacional, está completamente sem rumo e sem bússola.

Ao que tudo indica, pragmatismo e visão de longo prazo não mais fazem parte do repertório de nossa política externa, o qual manifesta acentuado empirismo e penosa carência de paradigmas. Adotamos apenas medidas tópicas e descoordenadas, sem perceber que um conjunto de ações dispersas não configura uma estratégia coerente. Inexistem indicadores para determinar metas, priorizar objetivos e avaliar resultados.

Isso é consequência não só de uma interpretação equivocada e ideológica da realidade internacional, mas também de uma clara inadequação institucional que fez o órgão parar no tempo. Seu desprestígio emana de sua estagnação.

Ao incorporar a agenda identitária progressista diretamente ao núcleo decisório das promoções, o MRE não se torna mais justo, moderno ou plural. Torna-se menos profissional, menos previsível e mais dependente do poder político. A promoção deixa de ser reconhecimento de excelência e passa a ser ferramenta de engenharia social e controle interno.

O mérito, que deveria ser o eixo estruturante de uma carreira de Estado, transforma-se em retórica residual – invocado nos discursos, relativizado na prática. E uma diplomacia que relativiza o mérito internamente dificilmente terá autoridade, consistência ou credibilidade para defender interesses nacionais em um sistema internacional cada vez mais competitivo e implacável.

Essas constatações não significam dizer que não existam funcionários qualificados e com vocação, o que seria uma injustiça e uma inverdade. Sim, existem. E muitos. Na maioria das vezes, entretanto, potencial e vocação são desperdiçados por uma estrutura burocrática que aprisiona, estimula o carreirismo e desincentiva o aperfeiçoamento buscado de forma individual, autônoma. Como antídoto e válvula de escape para a frustração profissional, muitos obtêm maiores êxitos se dedicando à literatura, à pintura ou a outras artes.

Somente uma profunda reforma estrutural, administrativa e de gestão de recursos humanos – só discernível em um futuro governo de corte conservador – pode salvaguardar a grandeza do Itamaraty. Seu reerguimento e valorização, com o consequente resgate da capacidade de formular uma agenda internacional pró-ativa e de articular uma grande estratégia coerente e integrada, por meio da qual possamos nos antecipar a novas circunstâncias e desafios, são fundamentais para assegurar a defesa do interesse nacional e auxiliar na missão de retomada do crescimento.

Como aduzi em artigo publicado nesta Gazeta em novembro de 2024, intitulado “Como salvar o Itamaraty das garras do lulopetismo”, os serviços diplomáticos das chancelarias mais eficientes do mundo não adotam modelo sequer vagamente próximo ao do Itamaraty, cujos competentes quadros, que perfazem um dos melhores capitais humanos disponíveis na administração pública brasileira, veem-se na contingência de se movimentar, internamente, em um ambiente de modus operandi mais similar ao de um clube de amigos que ao de uma burocracia estatal de inspiração weberiana, pois o modelo organizacional vigente é em si uma cadeia de incentivos à politicagem em detrimento do desempenho.

A defasada estrutura da carreira, contudo, serve perfeitamente ao propósito de ideologização do sistema de promoções e de remoções implementado pelas gestões lulopetistas. Como o processo de promoções não é público, não produz registros e não é informado por ferramentas formais de avaliação de desempenho, ele é um instrumento sob medida para a viabilização de favorecimentos de todo tipo, com ênfase naqueles que privilegiam laços pessoais e de afinidade ideológica.

Trata-se de uma estrutura fundamentalmente distinta de todas as demais carreiras de Estado civis, nas quais a progressão funcional ocorre com base no cumprimento de requisitos previstos em lei e regulamentados por outros atos normativos, e não a partir de preferências pessoais e de proximidade com o núcleo de poder institucional. A atual estrutura, ao não atender aos interesses nacionais e aos profissionais da ampla maioria dos diplomatas, prejudica a realização da missão constitucional do Itamaraty.

A essa luz, confio em que a reforma da carreira diplomática deverá perfazer prioridade administrativa de um futuro governo conservador cioso da importância de contar com um material humano motivado e prestigiado para a implementação de seu programa de política externa.

Sem essa reforma, continuaremos exercendo o papel de coadjuvante de luxo, aplaudindo as iniciativas de países mais arrojados, mas exercendo pouca ou nenhuma influência na elaboração das políticas globais. Que a desconstrução a que foi submetido o Itamaraty possa se converter em oportunidade para resgatar o orgulho e a dignidade da política externa brasileira.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.

Roman Sheremeta explain how Putin lies about the Russian people in Donbas

Roman Sheremeta explain how Putin lies about the Russian people in Donbas.

It is a lie that “russian-speaking” Ukrainians want to be a part of russia.

The Kremlin has pushed a narrative that Ukraine is somehow split into a Ukrainian-speaking West and a russian-speaking East, and that people in those eastern parts should “decide for themselves” whether they want to remain part of Ukraine.

Let’s unpack why this is false on multiple levels.

1) There is no clear “russian-speaking region” with a separate identity.

The idea that Ukraine is clearly divided into Ukrainian-speaking and russian-speaking regions — and that these correspond to distinct peoples with distinct political identities — is a fabrication.

Language use in Ukraine was shaped over decades by Soviet-era policies of russification, not by some natural cultural division. Over time, russian became widely used in cities and industry due to political pressure and institutional incentives, not because people in the East suddenly became russians. Language in Ukraine has always been a gradient, not a hard border.

There is no abrupt linguistic line where one “people” ends and another begins — it’s a smooth transition from west to east that correlates with historical schooling, urbanization, and economic structures, not with an underlying “ethnic or political russian identity.”

Most importantly: speaking russian has never been equivalent to wanting to be part of russia.

2) When Ukraine became independent in 1991, people across the country overwhelmingly chose to be Ukrainian.

On December 1, 1991, Ukrainians voted in a nationwide referendum on independence. The question asked was: “Do you support the Act of Declaration of Independence of Ukraine?”

Over 90 % of those who voted said yes, affirming independence from the Soviet Union. Turnout was high — about 84 % of eligible voters participated.  

This was not just in western Ukraine — even in Donetsk and Luhansk oblasts, regions often cited by russian propaganda as “pro-russia,” the vote for independence was clear and substantial: 84% of people in Donetsk and Luhansk voted for Ukraine to be independent from russia.

Not a single region with significant populations said “no” to independence — even Crimea, the most contested region historically, voted majority for independence.  

3) There is no constitutional path for a region of Ukraine to secede by referendum.

Since independence, Ukraine’s Constitution has explicitly protected the country’s territorial integrity. It does not allow parts of Ukraine to unilaterally decide to secede, even by popular vote.

This is not unique to Ukraine — constitutions around the world generally prohibit unilateral secession to protect stable governance and rule of law. So the idea that a “referendum” in some region could legally detach that region from Ukraine is unconstitutional.

4) The so-called “95% voted to join russia” numbers are complete fabrications.

Russian propaganda often claims that “95% of people in Donetsk and Luhansk voted to join russia.” That is just a made up number.

The only votes showing such numbers were so-called referendums organized by russia in 2014 and again after 2022, conducted under occupation, without international observers, without rule of law, and often at gunpoint. These votes have no credibility or legitimacy and are fraudulent, coercive exercises used to justify territorial grabs, not genuine expressions of free will.  

So what does all this mean?

There is no natural cultural or linguistic fault line splitting Ukraine into two political nations.

The Soviet policy of russification explains why russian was widely spoken — not some inherent political division.

When given a free, fair choice in 1991, people across Ukraine — including in Donetsk and Luhansk — overwhelmingly chose to be part of an independent Ukrainian state.

Neither international law nor Ukraine’s Constitution allows parts of the country to secede just because someone calls a referendum.

The high “pro-russia” numbers peddled by Kremlin propaganda have no basis in free, unbiased democratic will.

P.S. The photo shows a Ukrainian woman voting in the russian-organized referendum on whether her Ukrainian region should join russia.

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