Demagogia latina na política externa
Editorial O Globo, 23.02.2010
A exploração de petróleo por uma companhia britânica nas Ilhas Malvinas é um assunto delicado para os dois lados, especialmente para a Argentina. A Casa Rosada deveria tratar o assunto dentro dos limites da diplomacia, para que a disputa não se torne uma nova questão de orgulho nacional. Pois é justamente isso que não vem fazendo a presidente Cristina Kirchner.
Assim, ela tenta desviar a atenção do caos interno: a briga com produtores rurais, protestos dos sindicatos contra a inflação maquiada, disputa política com o vice-presidente Julio Cobos, perda da maioria no Congresso, onde a oposição prepara uma ofensiva.
Os políticos argentinos têm memória curta. Há 28 anos, o então líder da ditadura militar, general Leopoldo Galtieri, iniciou uma guerra contra a Grã-Bretanha pelo controle das Malvinas. Pensava em unir em torno de seu governo os argentinos, àquela altura fartos da ditadura. A empreitada resultou num desastre, com cerca de 1 mil mortos e um número não divulgado de feridos, além de um golpe profundo no orgulho argentino. A derrota desgastou ainda mais o regime militar e levou Galtieri à renúncia. Em 1983, houve eleições que restabeleceram a democracia no país.
A atual situação parece feita sob medida para os demagogos, em especial o maior deles, Hugo Chávez. Domingo ele deu seu costumeiro show, prometendo enviar forças para defender a Argentina em caso de ataque britânico. Mas quem falou em ataque? Caso típico em que a frase do Rei da Espanha a Chávez - "por que não te calas?" - cai como uma luva. Até porque diplomatas argentinos afastaram a hipótese de resposta militar.
A divergência entre Argentina e Grã-Bretanha ganha ressonância na Cúpula da Unidade da América Latina e do Caribe, iniciada ontem no México e destinada a criar uma espécie de OEA sem EUA e Canadá. Funciona como combustível para o viés terceiro-mundista do encontro, que periga repetir o mesmo cacoete dos líderes argentinos: recorrer a fórmulas surradas e derrotadas. Cristina Kirchner se vangloria de já ter obtido apoio dos líderes latino-americanos e do Caribe, entre eles o presidente Lula. Quando deveriam estar discutindo investimentos e comércio, estão fazendo teatro político para o público interno.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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2 comentários:
Acredito que podemos (Brasil) tirar um bom proveito dessa situação.
Explorar petróleo em um local tão distante deve ser extremamente dispendioso para a Inglaterra, fora o risco ambiental envolvido.
Se conseguirmos fechar um acordo onde o Brasil se encarregaria de explorar o petróleo da região (com capital Inglês) e repassá-lo à Inlgaterra, com o devido pagamento, acrescido de alguns royaltes para a Argentina, além de preservar o orgulho de ambos os países, manter a paz e a estabilidade na região, ainda poderemos colher bons lucros.
Talvez para isso tenhamos que desacreditar a petroleira Inglêsa, coisa que não será nenhuma façanha (veja o que eles fizeram no Golfo do México!) e com pressão Argentina nesse sentido, existe uma boa probabilidade de sucesso... pois certamente com entrada de divisas os Argentinos se acalmarão.
Gostaria de seber de sua opinião sobre meu comentário...parabéns pelo Blog.
Nao precisa ser anonimo para escrever isso ou para fazer essa pergunta.
O Brasil NUNCA vai fazer isso, pois apoia a posicao argentina sobre as Malvinas.
Paulo Roberto de Almeida
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