Meu comentário ao artigo abaixo de Carlos Brickmann, um jornalista que leio regularmente, segue logo após a transcrição de seu artigo, recebido há pouco.
Está em forma de carta pois foi assim que mandei ao autor.
Paulo Roberto de Almeida
DE VOLTA PARA O FUTURO
Carlos Brickmann
Edição para os jornais de Quarta-feira, 9 de março de 2016
Na semana que vem, este evento fará 52 anos. Eu atravessava o centro de São Paulo a pé quando cruzei com impressionante multidão, liderada por uma freira, a Irmã Ana de Lourdes, mais o governador, deputados - na época, atraíam público. Dizem que até um metalúrgico, que ficaria famoso, marchou com Deus pela liberdade. Foi difícil passar pela massa, chegar à Folha e comentar: "Tem gente pra caramba". Contestação imediata dos colegas de esquerda: na rua só havia milionários. Todos? Não: para fazer volume, tinham levado babás e empregadas.
Nos dias seguintes, mais negativas. A cada general que se declarava contra o Governo de João Goulart, citava-se outro que defendia o presidente. Havia as Ligas Camponesas, que invadiriam as cidades para dar apoio a João Goulart. O dispositivo militar, generais de muitas estrelas, a Casa Militar, o 3º Exército, o 2º Exército do general Kruel, amigo de Goulart. Cabos e sargentos rejeitariam ordens superiores e defenderiam o regime. Tinha roubalheira em Brasília? Tinha, mas em São Paulo também havia. Luís Carlos Prestes, maior líder comunista, proclamava a vitória: "Já estamos no governo, só falta alcançar o poder".
As Ligas Camponesas se evaporaram, o dispositivo militar não havia, o 3º Exército foi neutralizado, o general Kruel marchou contra o amigo Jango. Tivemos 21 anos de ditadura e sofrimento. Ninguém aprendeu, só esqueceu. Mudança? Em vez de chamar os adversários de gorilas, agora os chamam de coxinhas.
Parece familiar? E é. Mas Lula e PT parecem felizes de buscar o confronto.
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Carta-comentário de Paulo Roberto de Almeida:
Com perdão que lhe diga, mas para quem lê todos os seus artigos com
atenção, este aqui me chocou pela contradição entre o início e o final.
De fato, há 52 anos a sociedade em geral, a classe média em particular,
marchou unida contra o governo. A inflação assustava todos, o espectro
do comunismo assustava os militares e alguns empresários (mais
preocupados com a deterioração do ambiente econômico e com a inépcia de
Jango, que sempre prometia aumentar os salários dos operários e
controlar os preços dos alugueis, transportes e outros bens e serviços),
e a deterioração geral do ambiente político deixava a todos perplexos,
que foram então pedir aos militares que resolvessem o problema
(especialmente aqueles que eram candidatos a presidente em 1965, pelo
menos três governadores e um ex-presidente, que temiam que as loucuras
brizolistas fossem de fato reais: na lei ou na marra). Enfim, deu-se o
golpe.
Mas o que dizer deste parágrafo muito simplista?
“As Ligas Camponesas se evaporaram, o dispositivo militar não havia, o
3º Exército foi neutralizado, o general Kruel marchou contra o amigo
Jango. Tivemos 21 anos de ditadura e sofrimento.”
Não, ninguém
previa, nem os próprios militares, uma duração tão longa para o golpe.
Castello Branco, um intelectual entre os militares, e que só tomou a
cabeça do movimento para impedir que outros piores do que ele nas FFAA
fizessem muita besteira vingativa, um verdadeiro estadista, ainda
esperava colocar o Brasil em ordem em poucos meses, e poder presidir ao
processo eleitoral em 1965, que devolveria o poder aos civis (ainda que a
políticos confiáveis).
Enfim, as coisas nunca se passam como o
esperado e as circunstâncias se precipitaram para mudar radicalmente o
cenário, que não tinha nada de muito perverso planejado pelos militares
(embora alguns quisessem aproveitar a oportunidade para “limpar o
terreno” de vez, o que não tinham conseguido fazer em 1954, em 1955 e
em 1961). Vários militares da chamada linha dura quiseram aprofundar a
“revolução”, e vários malucos da esquerda acharam que era hora de imitar
Guevara e Fidel Castro ou Mao Tsé-tung. Marighella partiu para Cuba,
buscar ajuda dos cubanos para preparar uma insurreição armada, que
resultou apenas ser uma mal organizada guerrilha urbana. Os maoístas se
prepararam durante anos para uma guerra camponesa, esquecendo que o
Brasil não tinha verdadeiros camponeses, pelo menos não na Amazônia, só
agricultores de subsistência paupérrimos, que não tinham sequer
consciência de serem cidadãos de um país chamado Brasil (na verdade nem o
eram, pois analfabetos não votavam). Os verdadeiros camponeses, os
imigrantes europeus do sul do país, eram “pequeno burgueses” diriam os
marxistas do Partidão. Aliás, o próprio Brizola recebeu dinheiro do
Fidel para organizar um levante armado com militares de esquerda e não
fez grande coisa, daí que Fidel passou a chama-lo de El Ratón. Enfim,
muitos embarcaram na aventura armada, o que só redundou, justamente, em
mais ditadura e sofrimento.
Tudo bem com seu artigo, mas essa
coisa de que em 1964 partimos para 21 anos de ditadura e sofrimento não
cola, pois não era verdade, não foi planejado. Só se tornou verdade aos
poucos, e em grande medida graças à esquerda estúpida, que despertou os
instintos mais primitivos da tigrada dos quartéis.
Para quem,
como eu, que me iniciei na resistência e que passou um terço do período
militar no exílio, a verdade histórica continua a ser importante, mesmo
contra certas opiniões simplistas...
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Paulo R. de Almeida
www.pralmeida.org
diplomatizzando.blogspot.com
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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