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sexta-feira, 10 de julho de 2026

A Guerra de Trump fortalece o Irã. Decadência da Superpotência? Uma guerra portadora de novo equilíbrio de poder regional? - Embaixador Sergio Florencio (portal Interesse Nacional)

   A Guerra de Trump fortalece o Irã. Decadência da Superpotência?

Uma guerra portadora de novo equilíbrio de poder regional?

Embaixador Sergio Florencio

Para o portal Interesse Nacional, 10/07/2026

 

A guerra EUA-Irã já se prolonga por mais de quatro meses sem perspectiva de desfecho. Um fio de esperança surgiu no Memorando de Entendimento, de 17 de junho último, que previa um cessar fogo entre os dois países e medidas destinadas a encerrar o conflito. Não foi além de uma ilusão. Bombardeios mútuos de enormes proporções foram retomados. O cessar fogo foi para o espaço com as declarações de Trump na recente Cúpula da OTAN, em 8 de julho. Além de anunciar o retrocesso, o Presidente norte-americano reiterou conhecidos insultos ao regime iraniano e antecipou novos ataques militares à infraestrutura do país. Teerã anunciou vigorosos ataques a bases norte-americanas no Golfo. A guerra projetou o Irã como potência global, mas fragilizou seu poder bélico e sua infraestrutura física. Que desfecho se vislumbra para o conflito? Que consequências poderão advir para o equilíbrio de poder no Oriente Médio e no mundo?

 

Instinto versus Razão. Trump x assessores, acadêmicos e especialistas

 

Numerosos acadêmicos e jornalistas de reconhecido prestígio internacional avaliam a guerra como o grande erro estratégico de Trump e avaliam os EUA como perdedor. Entre esses figuram John Mearsheimer, Thomas Fiedman, Richard Wolf, Fareed Zakaria, e Glenn Diesen. Número bem menor considera os EUA vitoriosos no conflito, como James Jeffrey, Dennis Ross e John Spencer. Os primeiros dão mais peso ao equilíbrio de poder regional e global, aos desdobramentos geopolíticos, à coesão social e às consequências econômicas da guerra. Os segundos priorizam a dimensão militar e a infraestrutura física.

A consideração fundamental a respeito do atual estágio da guerra EUA-Irã resulta da constatação de que Trump não alcançou nenhum dos quatro objetivos centrais contemplados: mudança de regime; fim do programa Nuclear iraniano; eliminação da fabricação de mísseis de longo alcance; e neutralização dos proxies iranianos – Hezbollah, Houthis, milícias na Síria e no Iraque.

 

EUA-Israel. A metáfora do rabo que mexe o cachorro.

 

É quase consensual a visão de que o Irã não representa ameaça existencial aos Estados Unidos. Apesar disso, e ao contrário das recomendações de inúmeros assessores civis e militares, bem como da maioria da comunidade acadêmica, Trump decidiu iniciar uma guerra de escolha contra o Irã. Teve grande influência nessa decisão Benjamin Netanyahu – há mais de quatro décadas visceral opositor do regime iraniano, com o argumento de que o programa nuclear iraniano visa a destruição de Israel.

Apesar dessa convicção, o Primeiro Ministro israelense não contemplava um ataque direto israelense ao território iraniano.  Entretanto, essa percepção mudou, no segundo mandato de Trump, por duas razões: o apoio incondicional dos EUA a Israel; e a indiscutível superioridade militar israelense.

Em 7 de outubro de 2023, Israel foi vítima de ataque terrorista do Hamas que resultou na morte de 1200 civis israelenses. A resposta israelense - desproporcional e devastadora - resultou na morte de mais de 70 mil palestinos na Faixa de Gaza, o que configurou um quadro de dupla barbárie, por parte de Israel e do Hamas.

A investida israelense contra o Hezbollah, após o ataque do Hamas, e o inédito ataque direto israelense-norte-americano contra as instalações nucleares em território iraniano deixaram evidente a superioridade militar israelense na região, reforçada pela tímida represália iraniana.  Aquelas operações, conhecidas como a Guerra dos Doze Dias, desenhavam um Oriente Médio marcado por flagrante hegemonia militar de Israel, por forte alinhamento de Netanyahu com Trump e por aparente incapacidade bélica do Irã.

 

Ambição maximalista de Netanyahu. Grande erro estratégico de Trump

 

Naquele momento, Trump poderia ter paralisado as hostilidades e optado por não iniciar uma guerra contra o Irã. Se assim tivesse agido, estaria em conformidade com recomendação da ampla maioria de assessores civis e militares, além de especialistas e acadêmicos – todos contrários a uma guerra contra o Irã. Mas Trump cometeu então o grande erro estratégico de obedecer a Netanyahu. Passou a valer a conhecida metáfora – o rabo que mexe o cachorro. O Primeiro-Ministro israelense considerava aquele momento ideal para uma guerra com os quatro objetivos anteriormente citados neste artigo, que foram integralmente assumidos por Trump.

Além de seduzido por Netanyahu, Trump estava influenciado por suas exitosas investidas recentes: derrocada de Maduro na Venezuela; e cancelamento dos contratos chineses para exploração do Canal do Panamá; Guerra dos Doze Dias; e assassinato do líder Supremo do Irã, Ali Khamenei.  

Trump cometeu também outros graves erros. Primeiro, subestimou a histórica resistência iraniana a três tentativas de dominação do país pelas superpotências – russa no século 18, britânica no século 19 e norte-americana no pós- II Guerra Mundial. Segundo, ignorou a forte base cultural-religiosa da Revolução Iraniana de 1979, sua consolidação, na Guerra Irã-Iraque, com oito anos de duração e quase um milhão de baixas.

 Apesar desses êxitos, a teocracia militar iraniana tem enfrentado vigorosa oposição popular. A cada dez anos em média, rebeliões com centenas de milhares de manifestantes se insurgem contra o autoritarismo, a violência policial, as medidas antidemocráticas, perseguição às mulheres e violações sistemáticas de direitos humanos. Isso fragilizou a base popular da Revolução. Entretanto, a guerra de Trump provocou ressurgimento do nacionalismo e da coesão social.

 

Uma vez mais a triste vítima - o Líbano.

 

A trajetória até agora descrita - ações e reações norte-americanas e iranianas – precisa ser complementada pelo comportamento de Israel. Netanyahu, diferentemente de EUA e Irã, não deseja o fim do conflito, mas sua permanência, até a aniquilação da teocracia militar iraniana. Por isso, o Primeiro-Ministro israelense insiste em manter o clima de hostilidades militares no Sul do Líbano, com o propósito de derrotar o Hezbollah. Ora, muito dificilmente o regime iraniano aceitará esse cenário, pois significaria a submissão do Líbano às imposições político-militares de Israel. Aliás, essa condição já se desenhou nas últimas semanas, com o acordo estratégico entre os governos israelense e libanês.

 Essa fratura entre as posições de Trump e Netanyahu assumiu recentemente proporções inéditas e constitui hoje um difícil dilema para Israel, que tem, historicamente, nos EUA um aliado sem o qual não pode ter o papel de hegemon no Oriente Médio. A esse elemento complicador no xadrez regional deve ser acrescentado o papel de maior protagonismo assumido pela Turquia, que vê com preocupação a ascendência militar israelense.

 

Um Memorando de Entendimento e de  Desentendimento

 

Em grande medida, a complexa configuração de forças anteriormente descrita explica a dificuldade de avançar nas negociações para um cessar fogo. Apesar das dificuldades, tanto de EUA como do Irã em contemplam uma solução para a guerra, o que permitiu a abertura de negociações para um cessar fogo. Essas avançaram, com a intermediação do Paquistão, e foi firmado o Memorando de Entendimento, em meados de junho último.  Embora os dois países tenham interesse em evitar uma guerra prolongada e reduzir os custos econômicos e humanos do conflito, permanecem profundas divergências a respeito de temas sensíveis, tais como: enriquecimento de urânio; segurança regional; sanções econômicas; garantias políticas e mecanismos de verificação. Além dessas divergências, pouco antes da assinatura do Memorando de Entendimento, o núcleo central do impasse negociador entre os dois países se situava em dois patamares. No nível mais profundo, estava a complexa questão nuclear e, no plano mais operacional, um binômio não menos complexo -  fechamento do Estreito de Hormuz (pelo Irã) versus bloqueio militar dos portos iranianos (pelos EUA).

Para superar o impasse gerado por esse binômio, o Irã propôs e conseguiu convencer os EUA a deixar para uma etapa posterior o tema nuclear. Em consequência, Teerã flexibilizou sua posição com relação ao Estreito, que, uma vez reaberto, provocou certo alívio nos mercados e no processo negociador. Entretanto, nos últimos dias voltaram a ocorrer ataques mútuos de enormes proporções, o que levou Trump a anunciar o término da trégua.

 

Dois níveis do conflito: o profundo(nuclear) e o operacional(Hormuz).

 

Um diagnóstico realista do conflito precisa levar em conta sua vertente mais decisiva – a questão nuclear. Trump tem urgente necessidade de encerrar uma guerra que fragiliza sua base política, tanto pela aproximação de difíceis eleições de meio de mandato em novembro próximo, como pelo aumento da inflação e dos preços da gasolina, que saltaram de 2,90 dólares o barril, antes do conflito, para os atuais 4,10 dólares. A reação internacional, sensível à elevação dos preços internacionais da energia, se soma às pressões domésticas.

 Tudo isso configura um quadro em que Trump “não tem as cartas” para negociar de fato com o Irã. Eventual solução tem, como pedra de toque, o equacionamento de um acordo nuclear, sem o qual os negociadores iranianos não se moverão. Embora, precise urgentemente definir essa equação, Trump precisa – para alcançar apoio interno e de Israel - que ela vá além do Acordo sobre o Programa Nuclear Iraniano ( Joint Comprehensive Peace Agreement - JCPOA ), firmado, em 2015, por Obama, pelos cinco membros permanentes do Conselho de segurança da ONU, mais a Alemanha, e revogado em 2018 no primeiro mandato de Trump.

Conclusão

Este artigo sustenta que o nível de desconfiança entre as lideranças das duas partes não será superado apenas com a intermediação de negociadores do Paquistão e do Catar. Na hipótese -  realista- de perdurar o impasse, com graves efeitos desestabilizadores sobre a economia e a ordem internacional, será preciso encontrar  atores de mais peso para desbloquear as negociações.  Assim, poderia abrir-se caminho para um eventual Acordo Nuclear que venha a contemplar, de um lado, demandas fundamentais do Irã e, de outro, cláusulas que permitam a Trump vender  internamente o Acordo como um pouco mais favorável que o alcançado por Obama em 2015. Se esse foi construído, no passado,  por um multilateralismo hoje anêmico, o futuro Acordo poderá exigir o envolvimento de atores até agora ocultos – China, Rússia e União Europeia. 

Sergio Florencio

Brasília, 10 de julho de 2026 

 

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