Perguntas em palestra na
Liberty Conference
Paulo Roberto de Almeida
[Objetivo: responder a questões; finalidade: atender demandas da audiência]
Tendo sido
convidado, pelo grupo liberal Students
for Liberty, para fazer uma palestra sobre um tema escolhido por eles, que acolhi
sem contestação, compareci, no último sábado 2 de novembro, ao local da conferência,
onde deveria abrir um dos painéis. O tema era este: “Um diplomata liberal em
face dos extremismos políticos”. Comecei por dizer que antes de ser liberal, e
antes de ser diplomata, eu era um marxista, a coisa mais normal do mundo no
ambiente de Guerra Fria e de estudos universitários no Brasil de meados dos
anos 1960; depois fui evoluindo, com estudos, viagens, experiências, leituras,
reflexões.
Numa breve
introdução, para deixar mais tempo aos debates e perguntas e respostas,
discorri, em primeiro lugar, sobre a distinção que caberia fazer entre políticas
públicas, no plano interno, e posições diplomáticas do país no contexto
internacional. O que vale no ambiente doméstico não necessariamente vale no plano
da política externa. As posturas assumidas nesse âmbito devem ser avaliadas em
sua dimensão própria, em função do interesse nacional, não porque sejam de
direita ou de esquerda. Exemplifiquei com o caso da China, um país
perfeitamente autocrático no plano interno, ainda que não mais totalitário como
no passado, mas que não pretende impor a nenhum outro país seu modelo político,
não pretende exportar autocracia, e cuja administração apenas pretende elevar o
nível de bem-estar de seu povo, mediante comércio, investimentos, interações as
mais diversas, enfim, ações perfeitamente compatíveis com o sistema
multilateral de comércio, ainda que a China faça um uso malicioso de suas
regras.
Como
expliquei em seguida, apenas porque o tema sugerido da palestra prendia-se à
minha condição pessoal, que eu era um antigo observador das posturas em política
externa de todos os partidos políticos, e que desde muito antes da ascensão ao
poder do PT eu já havia identificado perfeitamente as características específicas
desse partido na configuração doutrinal dos partidos brasileiros: um típico
partido esquerdista latino-americano, com todas as deformações que poderíamos esperar
dessa tomada de posição: um terceiro-mundismo anacrônico, um anti-imperialismo
infantil, um antiamericanismo démodé,
receitas ultrapassadas em matéria de política econômica, enfim, o que se
poderia esperar de um partido de esquerda congelado no tempo. Minha oposição à
política externa do PT, e às suas políticas públicas em geral, que me valeram
um longo período de ostracismo no Itamaraty, não derivaram em nada do fato de
ser o PT um partido de esquerda, e sim o fato de que ele era inepto no plano
administrativo e tremendamente corrupto, em contradição com sua mentirosa
mensagem de campanha, na qual prometia “ética na política”.
Justamente,
no plano externo, as opções do governo do PT no sentido de adotar o terceiro-mundismo
anacrônico, o anti-imperialismo infantil, suas alianças ideológicas com países
supostamente anti-hegemônicos e antiocidentais me pareciam ridículas e
totalmente inconsistentes com os interesses nacionais do Brasil. Assim, em
lugar de assumir a direção do programa de mestrado do Instituto Rio Branco,
fiquei sem qualquer designação na Secretaria de Estado durante todo o longo período
dos governos do PT, passando a maior parte do tempo na Biblioteca do Itamaraty.
Numa fase inicial, até trabalhei para o governo, no Núcleo de Assuntos Estratégicos
da Presidência da República, embora nunca tivesse abandonado meu espírito crítico
à muitas das propostas de políticas formuladas pelo PT e seus funcionários.
Nunca hesitei em expressar minha opinião, dentro e fora do governo, dentro e
fora do Itamaraty.’
Meu
percurso do marxismo juvenil a um liberalismo bem temperado, no campo
doutrinal, acompanhou a evolução de meus estudos, leituras e reflexões; no
terreno da prática, fui observando todos os experimentos de políticas públicas,
em todos os países que visitei ou nos quais vivi, sem qualquer catalogação primária
do tipo esquerda-direita, apenas com a preocupação principal na eficácia do
combate à pobreza. Deixei o registro dessa evolução em alguns textos que ainda
se encontram disponíveis em meu blog Diplomatizzando, em especial nos textos “Sete
Pecados da Esquerda” e “Contra a Anti-Globalização”, que resumem um pouco dessa
experiência adquirida em viagens e estudos, com muita reflexão sobre as políticas
mais eficazes, independentemente de sua coloração ideológica ou caráter mais
privatista ou mercadista, ou estatal-dirigista.
Com isso
encerrei a exposição inicial e dediquei-me a responder às primeiras perguntas,
que tocaram nos temas mais esperados: antiglobalismo – que não hesitei em
classificar como uma idiotice completa –, os desafios do Mercosul na sequência
da derrota de Macri – que eu disse não ter muita relação com o futuro do bloco,
e sim a inadimplência constante dos dois membros principais em cumprir os
termos do Tratado de Assunção –, a questão da China – sempre presente em 100%
das palestras e seminários que ocorrem desde vários anos – algumas questões que
demandei que chegassem por escrito já antecipando que não teríamos tempo para
responder a todas elas no tempo alocado para a palestra. De fato, recebe uma dúzia
ou mais de questões que vou transcrever neste textos, sem que eu possa
assegurar, neste momento, que terei tempo de responder a todas elas no tempo exíguo
que me resta depois de uma extenuante jornada de palestras, conferências,
encontros e conversas com algumas dezenas de colegas, amigos, estudantes, novos
e velhos conhecidos de eventos similares a este a que assisti ou de que
participei nos anos recentes. Tínhamos de interromper o nosso evento, uma vez
que a mesma sala sediaria um outro encontro, e eu mesmo tinha de participar de
um painel sobre o “Brasil no mundo”, mediado pelo professor de Relações
Internacionais da USP, Leandro Piquet, com a participação da economista Sandra
Polónio Rios e o deputado (e diplomata) Marcelo Calero.
Eu tinha
tomado algumas notas preliminares para esse evento em forma de painel, como
sempre faço, ainda que nunca leio o que escrevi, num hábito que apenas serve
para organizar as ideias e deixar registro, justamente, desse tipo de evento,
para o benefício daqueles que não podem estar presentes. As notas que fiz,
imediatamente postadas em meu blog Diplomatizzando
na madrugada anterior, receberam este registro:
Procedo
agora à transcrição das perguntas manuscritas enviadas à mesa, retendo para mim
eventuais endereços de correio eletrônico para envio posterior de minhas
respostas, o que também vou fazer de forma genérica, postando minhas respostas
e comentários adicionais no meu blog, para que todos possam acessar de forma
independente.
1) Por que
o discurso de Bolsonaro é tão atrativo?
2) Como e
quando surgiu a atuação/pensamento Sul-Sul no Brasil e qual seria a inclinação
diplomática no atual período?
3) O
Brasil, como membro “extra-Otan”, faria o país ter algumas obrigações com a
organização, como fazer parte de coalizões em guerra?
4) O Sr.
acha que com uma possível abertura do mercado externo brasileiro irá (?)
desgastar as ideias e sandices ditas por pessoas como o Felipe G. Martins,
Ernesto Araújo, etc.?
5)
Gostaria de saber se o Sr. vê o mundo político-discursivo em cinco ou dez anos
como moderado; se o Sr. enxerga uma superação dos discursos e das políticas
extremistas (principalmente na extrema-direita) que vemos no mundo de hoje.
6) Estou
ajudando Relações Internacionais em uma faculdade de ideias majoritariamente
coletivistas. Qual a sua perspectiva para a entrada de estudantes de RI, que
defendem a liberdade na diplomacia do futuro?
7) Em
minha universidade, os docentes têm uma visão desenvolvimentista nacionalista,
inclusive muitos denominam-se anti-imperialistas. Segundo ele, o Brasil ser um
país agroexportador é um erro, portanto devemos incentivar a nossa indústria,
como no passado. É realmente necessário forçar nossa industrialização? Temos
alguma vantagem diplomática graças à agroexportação?
8) Numa
recente entrevista, Celso Amorim falou que não há nada errado com o empréstimo
do BNDES dos governos petistas; queria que você comentasse sobre isso e se
pudesse sobre a questão dos calotes.
9) O Sr.
acha realmente necessária a “tortura” (?) de acordos bilaterais com outros países
para estabelecer comércio? Se eu fosse o presidente, eu simplesmente abriria as
portas do Brasil. Teria algum efeito negativo?
10)
Conforme seu [meu] livro, como a inteligência da diplomacia brasileira se
tornou miserável? E como isso pode ser revertido?
Todas
perguntas altamente interessantes, como se vê, para cujas respostas eu vou
pedir a leniência dos seus autores para responder nos próximos dias, dado o
adiantado da hora nesta madrugada do domingo 3 de novembro e uma longa viagem
de volta a Brasília, contando ainda com aula, banca de mestrado e outras obrigações
acadêmicas e profissionais a partir desta segunda-feira 4/11/2019. Voltarei às questões
tão pronto possível.
Grato pelo
prestígio, pelo interesse, e pelas questões interessantes, que me permitirão
aprofundar um pouco mais esses temas de interesse geral.
Paulo Roberto de Almeida
São
Paulo, 2-3 novembro 2019.
Brasília, ??/11/2019