Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
O artigo não trata do Brasil, em nenhum momento, mas não podemos esquecer que o país é o primeiro parceiro comercial do Brasil (em grande medida graças aos estímulos dos companheiros, que criaram essa "dependência" -- como Lula se referia ao fato de os EUA terem essa posição anteriormente, revelando, aliás, que não entende nada de comércio internacional), e qualquer coisa que ocorra na China, terá imensa repercussão no Brasil.
Esperemos que o cenário catastrófico não ocorra, mas se ocorrer, será difícil para o Brasil enfrentar as consequências do esfriamento chinês.
Paulo Roberto de Almeida
SINGAPORE – The recent financial turmoil in China, with interbank loan rates spiking to double digits within days, provides further confirmation that the world’s second-largest economy is headed for a hard landing. Fueled by massive credit growth (equivalent to 30% of GDP from 2008 to 2012), the Chinese economy has taken on a level of financial leverage that is the highest among emerging markets. This will not end well.
Indeed, a recent study (http://pg.jrj.com.cn/acc/Res/CN_RES/MAC/2013/3/15/cb9c260d-ada0-4ad6-a211-95923c36c7a7.pdf) by Nomura Securities finds that China’s financial-risk profile today uncannily resembles those of Thailand, Japan, Spain, and the United States on the eve of their financial crises. Each crisis-hit economy had increased its financial leverage – the ratio of domestic credit to GDP – by 30 percentage points over five years shortly before their credit bubbles popped.
Economists who insist that China’s financial leverage is not too high are a dwindling minority. Certainly the People’s Bank of China, which engineered a credit squeeze in June in an attempt to discourage loan growth, seems to believe that financial leverage has risen to dangerous levels. The only questions to be answered now concern when and how deleveraging will occur.
At the moment, China watchers are focusing on two scenarios. Under the first, a soft economic landing occurs after China’s new leadership adopts ingenious policies to curb credit growth (especially through the shadow banking system), forces over-leveraged borrowers into bankruptcy, and injects fiscal resources into the banking system to shore up its capital base. China’s GDP growth, which relies heavily on credit, will take a hit. But the deleveraging process will be gradual and orderly.
Under the second scenario, China’s leaders fail to rein in credit growth, mainly because highly leveraged local governments, well-connected real-estate developers, and state-owned enterprises (SOEs) successfully resist policies that would cut off their access to financing and force them into insolvency. Consequently, credit growth remains unchecked until an unforeseen event triggers China’s “Lehman” moment. Should this happen, growth will collapse, many borrowers will default, and financial chaos could ensue.
Two intriguing observations emerge from these two scenarios. First, drastic financial deleveraging is unavoidable. Second, Chinese growth will fall under either scenario.
So, what impact will the coming era of financial deleveraging and decelerating growth have on Chinese politics?
Most would suggest that a period of financial retrenchment and slow GDP growth poses a serious threat to the legitimacy of the Chinese Communist Party (CCP), which is based on economic performance. Rising unemployment could spur social unrest. The middle class might turn against the party. Because economic distress harms different social groups simultaneously, it could facilitate the emergence of a broad anti-CCP coalition.
Moreover, massive economic dislocation could destroy the cohesion of the ruling elites and make them more vulnerable politically. Indeed, members of the ruling elite will be the most immediately affected by financial deleveraging. Those who borrowed recklessly during China’s credit boom are not small private firms or average consumers (household indebtedness in China is very low), but local governments, SOEs, and well-connected real estate developers (many of them family members of government officials). Technically, successful financial deleveraging means restructuring their debts and forcing some of them into bankruptcy.
By definition, such people have the political wherewithal to mount a fierce fight to preserve their wealth. But, given the huge size of China’s credit bubble and the enormous amounts of money needed to recapitalize the banking system, only some of them will be bailed out. Those who are not will naturally harbor resentment toward those who are.
Slower GDP growth undermines elite unity according to a different political dynamic. The current Chinese system is a gigantic rent-distributing mechanism. The ruling elites have learned to live with each other not through shared beliefs, values, or rules, but by carving up the spoils of economic development. In a high-growth environment, each group or individual could count on getting a lucrative contract or project. When growth falters, the food fight among party members will become vicious.
The people who should be most concerned with financial deleveraging and slower growth are President and CCP General Secretary Xi Jinping and Prime Minister Li Keqiang. If the deleveraging process is quick and orderly, they will emerge stronger in time for their reappointment in 2017 (the Chinese political calendar thus dictates that they turn the economy around by the first half of that year).
Xi and Li are inseparably linked with the CCP’s promise of economic prosperity and national greatness, embodied in the official catchphrase, “China dream.” What, then, will they do when faced with a political nightmare?
Minxin Pei is Professor of Government at Claremont McKenna College and a non-resident senior fellow at the German Marshall Fund of the United States.
Uma entrevista "velha" de alguns meses, mas que tinha passado despercebida, infelizmente. O que diz o escritor peruano, entretanto, permanece inteiramente atual, o que justifica sua transcrição aqui, mesmo depois de quase três meses.
Paulo Roberto de Almeida
Mario Vargas Llosa: "Dilma não deveria apoiar uma fraude eleitoral"
O escritor peruano diz que a eleição de Nicolás Maduro foi roubada, defende o casamento gay e acha que a Argentina merecia alguém melhor que Cristina Kirchner
O escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 77 anos, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 2010, voltou ao Brasil, depois de três anos, para dar uma palestra no ciclo Fronteiras do Pensamento, em São Paulo. Defensor dos princípios liberais e democráticos, Llosa é hoje um dos raros intelectuais públicos militantes. “Estou esperançoso com o destino da América Latina”, diz. “Pela primeira vez, o continente conta com uma esquerda não autoritária e uma direita genuinamente interessada em democracia.” Uma exceção, segundo ele, é o chavismo na Venezuela – tão absurdo que, em sua opinião, daria um romance.
Como o livro se chamaria? O autor de A festa do bode, ficção sobre o ditador dominicano Rafael Trujillo, responde, bem-humorado: A festa do passarinho. O presidente venezuelano,Nicolás Maduro, durante a campanha eleitoral, disse em discursos que ouvia a voz de Hugo Chávez no canto dos pássaros. Abrindo várias vezes o sorriso largo que se tornou sua marca, Llosa deu a seguinte entrevista a ÉPOCA.
ÉPOCA – Como o senhor analisa a eleição na Venezuela, vencida por Nicolás Maduro por uma diferença de pouco mais de 1 ponto percentual? Mario Vargas Llosa –Henrique Capriles ganhou as eleições. O uso da máquina do Estado e de seus meios de comunicação foi tão desproporcional que Nicolás Maduro deveria ter vencido o pleito de forma avassaladora. Não foi assim. Houve praticamente um empate. Isso significa claramente que há uma grande reação do povo venezuelano contra o chavismo, contra o que representa Maduro. Por isso, a possibilidade de fraude é grande. Também por isso, me parece justo fazer a recontagem rigorosa dos votos. Os presidentes da América Latina não deveriam legitimar uma possível fraude eleitoral, indo assistir à entronização de Maduro. Seria um ato de cumplicidade contra o povo venezuelano, que claramente pede a democratização, a abertura, a mudança de política. É um momento importante, talvez fundamental, na história da América Latina.
ÉPOCA – A presidente Dilma Rousseff enviou cumprimentos a Maduro pela vitória, logo que saíram os primeiros resultados das eleições. Isso é uma forma de apoio? Llosa – É um ato de cumplicidade com o que está ocorrendo na Venezuela. É lamentável isso partir de um governo democrático. Dilma não deveria apoiar uma fraude eleitoral. Ela não é o único caso. Todos os que fazem isso me parecem igualmente lamentáveis. Deveria haver maior coerência entre a política internacional e a política nacional por parte dos governos democráticos. Os governos que praticam a política chavista, que querem o socialismo autoritário, entendo que se solidarizem com Maduro. Mas governos que praticam internamente a democracia agem de forma absurda quando se tornam cúmplices de governos autoritários, mesmo que seja para aplacar internamente seus radicais. Felizmente, alguns mostram independência. É positiva a atitude da OEA (Organização dos Estados Americanos), ao pedir a recontagem de votos. E devo felicitar governos como o da Espanha, que não enviarão ninguém para representar o país na posse de Maduro, enquanto não se esclarecer o que aconteceu de fato nessas eleições.
"Os países chavistas representam o atraso na América Latina. Os países que progridem são os comprometidos com a democracia"
ÉPOCA – O socialismo fascinou muitos escritores na América Latina. O caso mais conhecido é o colombiano Gabriel García Márquez, que apoiou o regime cubano. No caso da Venezuela de Chávez, não apareceram muitos escritores para apoiar o regime. O que mudou? Llosa – Mudou algo muito importante. É a primeira vez que um governo populista e autoritário conta com a oposição de praticamente toda a classe intelectual. As universidades, que costumavam ser radicais na Venezuela, são praticamente todas antichavistas, estão na vanguarda na luta pela democratização. Não conheço um escritor venezuelano importante que não esteja combatendo em favor da democratização. A única exceção é o romancista Luís Britto Garcia. É um sintoma alentador, porque, no passado, a intelectualidade latino-americana cometeu a insensatez de apoiar regimes como Cuba, a ditatura mais longa que o continente já teve em toda a sua história.
ÉPOCA – O senhor foi um desses intelectuais, não? Quais as razões para esse fascínio por Cuba e Fidel Castro? Llosa – Sim, também faço minha autocrítica. Reconheço que, quando jovem, senti um entusiasmo acrítico com o que acontecia. No fim dos anos 1950, quando a América Latina era um continente de regimes militares e os Estados Unidosapareciam como aliados dos ditadores, Cuba parecia representar a alternativa, o progresso, a democracia, a liberdade. Por outro lado, parecia uma revolução que não tinha sido feita pelo stalinismo e o Partido Comunista, e sim por jovens idealistas, socialistas libertários. Estávamos enganados sobre a Revolução Cubana no início. Havia um contexto que explicava esse entusiasmo. É difícil manter a ilusão 54 anos depois. Cuba é uma ditadura que destruiu o espírito crítico, empobreceu selvagemente o país. O país depende hoje da caridade venezuelana. Ao lado da Coreia do Norte, Cuba representa o maior anacronismo de nosso tempo. Esses regimes não são modelos para ninguém. Vivem o final de seus ciclos, como aconteceu com todos os regimes socialistas autoritários do mundo.
ÉPOCA – Há, hoje, vários intelectuais latino-americanos comprometidos com a causa democrática, inclusive em Cuba. Llosa – Sim, claro. Recentemente conheci duas mulheres extraordinárias. Uma delas é a cubana Yoani Sánchez, uma mulher inteligente, que converteu seu blog num instrumento de protesto e crítica, sob condições dificílimas. A outra é María Corina Machado, uma deputada de oposição venezuelana, mulher de personalidade extraordinária e grande convicção democrática. Ela fez uma palestra na Argentina sobre o que ocorre na Venezuela. Conclama os democratas de todo o continente a se solidarizarem com o povo venezuelano nesta luta tão heroica – que, ademais, é uma luta por todos nós. Se o chavismo continuar a fazer estragos na Venezuela, todos estamos ameaçados na América Latina.
ÉPOCA – O senhor escreveu no romance Conversa na catedral que as toxinas do autoritarismo demoram a sair do corpo de uma nação. Essas toxinas estão finalmente começando a sair do continente, a América Latina? Llosa – Acredito que sim. Se você compara a situação hoje com a de 15, 20 anos atrás, há um progresso considerável. Temos muito mais governos democráticos que autoritários. Acontece agora um fenômeno: a existência de uma esquerda democrática, pela primeira vez, na América Latina. Antigamente, a esquerda era autoritária, acreditava em governos firmes, em políticas intervencionistas, no Estado empresário e lidava mal com a diversidade. Isso está desaparecendo pouco a pouco. A esquerda está se tornando civilizada. Da mesma forma, a direita também ficou democrática, bem diferente da direita golpista, militarista do passado. A nova esquerda e a nova direita estão dando à América Latina um dinamismo, um progresso que justifica o otimismo. Os países que seguem o chavismo são poucos e representam um atraso em relação ao restante dos países latino-americanos. São os países democráticos que progridem, não só em termos econômicos, como também políticos.
ÉPOCA – No Brasil, os quatro pré-candidatos à Presidência são de partidos que se definem como “esquerda”. Por que a direita desapareceu por aqui? Llosa – É um fenômeno bem latino-americano: ninguém quer ser de direita. No máximo, aceita-se ser de centro-esquerda. Mas não importa tanto as etiquetas que os partidos põem, e sim o que fazem. E o que fazem hoje está mais para centro-direita do que para esquerda.
"Vivi na Inglaterra nos anos de Thatcher. Com ela, o país voltou a ter um protagonismo e uma presença internacional extraordinários"
ÉPOCA – Qual sua impressão sobre o legado da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, cuja morte recente tem rendido homenagens, mas também protestos? Llosa – Vivi na Inglaterra nos anos de Thatcher. Conheço as obras mais positivas dela. Quando ela subiu ao poder, no fim dos anos 1970, a Inglaterra era um país apagado, mergulhado na mediocridade do socialismo. As empresas eram estatizadas. O Estado crescia de uma maneira cancerosa, perdera o nervo criativo e o dinamismo. O país empobrecia e se mediocrizava. A palavra “decadência” exprimia fielmente a realidade inglesa. A transformação promovida por Thatcher foi extraordinária, com as privatizações realizadas com um critério eminentemente social. As empresas foram obrigadas a competir. Acabaram-se os subsídios, o clientelismo, os privilégios. A economia de mercado obviamente trouxe alguns sacrifícios, mas, ao mesmo tempo, gerou um progresso formidável da economia inglesa. Pela primeira vez em muitos anos, a renda per capita da Inglaterra superou a França. A Inglaterra voltou a ter um protagonismo e uma presença internacional extraordinários.
ÉPOCA – Não há nada a criticar em Thatcher? E o apoio ao ditador chileno Augusto Pinochet? Llosa – O apoio a Pinochet foi lamentável. Ela fez isso para agradecer os serviços que a ditadura chilena prestou à Inglaterra durante a Guerra das Malvinas. Também foram lamentáveis os últimos anos do governo de Thatcher, com os ataques à Europa, numa atitude nacionalista exacerbada. Mas, quando fazemos um balanço dos anos Thatcher, o lado positivo é muito maior.
ÉPOCA – O senhor conheceu Thatcher pessoalmente? Llosa – Encontrei com ela quatro vezes. A primeira foi num jantar promovido por Hugh Thomas, então ministro dela. Durante a conversa, a submetemos a um verdadeiro exame, educado mas severo. No final, quando ela foi embora, um dos presentes, o professor Isaiah Berlin, disse uma frase que resumiu a impressão geral: “Nothing to be ashamed of”. Nada do que possamos nos envergonhar. A segunda vez encontrei-a em seu gabinete em Downing Street. Eu era candidato à Presidência do Peru e lhe perguntei: “Primeira-ministra, se ganhar a eleição, qual seria a decisão mais importante que eu deveria tomar?”. Nunca esqueci a resposta: “Cerque-se de um grupo leal e corajoso. Porque, se você fizer as reformas liberais, a reação será tão feroz que as piores traições virão de seus amigos, não de seus adversários”. E Thatcher sairia do poder não porque a oposição ganhou, e sim por uma traição interna do Partido Conservador, encabeçada por Geoffrey Howe (chefe de gabinete de Thatcher).
ÉPOCA – E os outros dois encontros? Llosa – A terceira vez que a vi foi no México. Ela desmaiara durante uma conferência, estava abatida. Lembro-me do marido dela, Dennis Thatcher, que contraíra uma espécie de horror da América Latina depois daquela excursão. Chamava a todos nós de “mexicanos”. Da última vez que a vi, ela estava já fora do poder. Fui a sua casa acompanhado de cubanos exilados, que queriam convidá-la para fazer uma conferência em Miami. Ela se mostrou simpática e divertida, tomou três uísques. Falou muito, contou piadas. No final, acompanhou a gente até a porta e, como uma menina revolucionária, levantou o braço e disse: “Temos de derrotar Castro!”.
"Os gays sofreram terrivelmente ao longo da história, sobretudo em países machistas como os latinos. A união homossexual é bem-vinda"
ÉPOCA – O que o senhor pensa do governo argentino? Llosa – A Argentina não merece o governo da senhoraKirchner. É um país que já foi Primeiro Mundo, quando três quartos da Europa pertenciam ao Terceiro Mundo. Foi um país industrial, que teve um sistema educacional fora de série. Foi o primeiro país que acabou com o analfabetismo no mundo – ninguém mais se lembra disso. Como a Argentina pode ter retrocedido dessa maneira? Foi por razões puramente políticas, e isso tem um nome: peronismo. Minha esperança é que venha uma reação das bases. Não há sentido algum a Argentina fazer parte do pelotão dos regimes atrasados, encabeçado por Raúl Castro e Nicolás Maduro. É um anacronismo flagrante, que não faz jus ao país.
ÉPOCA – A união civil entre homossexuais tem sido um tema bastante discutido na América Latina. Ela foi aprovada no Uruguai, na Argentina... Llosa – ...e espero que seja aprovada em todos os países da América Latina. É um ato de justiça contra uma minoria perseguida, que sofreu terrivelmente ao longo da história, sobretudo em países machistas como os nossos. Já era hora de haver uma reação positiva para combater esse preconceito absurdo de que são vítimas os homossexuais. Os direitos humanos precisam ser compreendidos na América Latina em toda a sua extensão. O casamento gay é a reparação de uma injustiça. E é bom que figure na agenda política.
ÉPOCA – O senhor acredita que o papa Francisco, argentino, colaborará com o progresso dos direitos humanos e com as liberdades individuais? Llosa – As primeiras iniciativas do papa têm sido boas. Ele está se aproximando das pessoas e dando mostras de simplicidade e modéstia. Dá a impressão de ser um homem bem-intencionado, consciente de que a Igreja Católica precisa realizar uma política de abertura e modernização. A Igreja tem se tornado anacrônica e assim continuará, se ele não abordar com coragem as reformas necessárias.
ÉPOCA – O que teria de mudar na Igreja Católica? Llosa – Duas reformas seriam importantes. A Igreja teria de abolir o celibato clerical, em parte responsável pelos escândalos de pedofilia que tanto dano trouxeram. E teria de dar acesso à mulher a cargos e responsabilidades eclesiásticos. A Igreja mantém uma discriminação antimoderna.
ÉPOCA – Até que ponto ganhar o Prêmio Nobel foi importante para sua vida? Alguns escritores sentiram-se paralisados criativamente com o Nobel, como o irlandês Samuel Beckett. Isso acontece ao senhor, que criticara o prêmio no passado? Llosa – Ganhar o Nobel foi uma grande surpresa. Estava absolutamente seguro de que nunca me dariam o Nobel. Eu tinha feito todo o necessário para não ganhá-lo, com tudo o que defendo e critico. Olha, o Nobel é uma semana de sonho. A gente vai a Estocolmo para receber o prêmio – e vive uma espécie de realidade divertida, belíssima, simpática. Em seguida, essa semana de sonho dá lugar a um ano de pesadelo. Porque a responsabilidade, as obrigações, as indicações, o assédio dos jornalistas, tudo isso é algo enlouquecedor. É preciso lutar para conseguir algum tempo para poder escrever. É terrível. Estou contente, claro, mas ganhar o Nobel envolve realmente uma pressão terrível. Ganhei, estou feliz, como feliz de ter ganhado outros prêmios ao longo de minha vida, mas já estou velho para ficar vaidoso com um prêmio a menos ou a mais. Continuo a fazer meu trabalho, embora com mais dificuldade, porque a pressão é maior. É importante manter as ilusões e os projetos até o último momento. Lutar contra o tempo. Isso mantém o homem vivo, e isso tenho de sobra.
ÉPOCA – No livro A anatomia de um instante, o escritor espanhol Javier Cercas esmiúça um único acontecimento histórico num livro, o golpe militar contra o presidente Adolfo Suárez em 1981. Existe um tema da história atual que, a seu ver, daria um livro? Llosa – Eu escolheria esta transição à democracia que acontece na Venezuela. A rejeição do populismo autoritário terá um enorme significado, não apenas para a Venezuela e os países semivassalos da Venezuela – casos de Nicarágua, Bolívia e Equador –, mas também para toda a América Latina. Isso dará um grande impulso à democracia. É um momento nevrálgico, que merece uma reportagem a respeito, como a de Cercas sobre o golpe na Espanha.
ÉPOCA – Não poderia ser um romance, como A festa do bode, que o senhor escreveu sobre a República Dominicana? Llosa – Poderia, só que o título seria A festa do passarinho.
Ex-chefe do Itamaraty revela detalhes de seus contatos com representantes estrangeiros em tensas negociações
FILLIPE MAURO
Revista Época, 1/07/2013
Celso Amorim:
Breves narrativas diplomáticas
(Benvirá, 168 páginas, R$ 27)
No final de 2003, as difíceis negociações da Alca (Acordo de livre comércio das Américas) passavam por um raro momento de tranquilidade. A ideia de por fim às barreiras alfandegárias do continente ganhava um rumo mais equilibrado. Restava apenas negociar o funcionamento de um sistema de solução de conflitos sobre patentes. Em novembro, a delicada questão levou diplomatas da região à charmosa cidade de Lansdowne, nos Estados Unidos. Brasileiros e americanos ficaram responsáveis por redigir um texto que conciliasse os sócios do projeto. O então ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, não aprovou a versão final. Mesmo assim, o representante americano, Robert Zoellick, fez aquela versão circular entre os demais ministros. Amorim aborreceu-se e pediu uma revisão imediata, rejeitada por Zoellick. Irritado, Amorim levantou-se bruscamente, bateu com as mãos na mesa e decretou o fim das negociações.
Episódios como esse são narrados por Celso Amorim em seu novo livro, Breves narrativas diplomáticas (Benvirá, 168 páginas, R$ 27). Amorim, hoje ministro da Defesa, recuperou de suas cadernetas os momentos de tensão que presenciou ao longo do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O livro revela a astúcia de autoridades estrangeiras e recorda conflitos existentes entre os próprios membros do governo Lula. “Ninguém é santo em uma negociação”, disse Amorim a ÉPOCA. A seu ver, as discussões em torno da Alca não prosperaram porque estavam “tortas”. “Tudo muito pesado para o Brasil e muito leve para os Estados Unidos.”
Ao longo da narrativa, Robert Zoellick é colocado como alguém engenhoso e astuto. Durante a Rodada Doha, da OMC, essas características teriam se acentuado ainda mais. Amorim afirma que o representante do comércio americano chegou a praticar “malandragens” no encontro. Zoellick tentava criar isenções para a agricultura americana, que já era, em parte, subsidiada pelo governo. Na visão de Amorim, houve momentos em que Zoellick chegou a ser “agressivo” e “rude”. Ele e Pascal Lamy, então chefe da OMC, criaram um padrão de comportamento “contundente” que ficou conhecido comoThe Bob and Pascal Show (O show de Bob e Pascal). Em meio às negociações, a chanceler japonesa levantou questionamentos a essa forma impaciente de conduzir a Rodada Doha. Zoellick respondeu que compreendia a oposição de países como Brasil, índia e Austrália, e acrescentou: “Mas o Japão... o Japão é um mero estorvo”.
Zoellick não era a única pedra no sapato de Amorim. O chanceler afirma que sofreu oposição de ministros do governo Lula e até mesmo de seus colegas mais leais dentro do Itamaraty. Assim que assumiu o cargo, Amorim teve de se reunir com os então ministros Antonio Palocci, da Fazenda, Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, e Roberto Rodrigues, da Agricultura. Os três se opunham à ideia de menos engajamento com o projeto da Alca. Sob a liderança de Palocci, os ministérios econômicos insistiam que o governo apresentasse o quanto antes uma oferta de participação no novo bloco alfandegário. Ao lado de Amorim estava apenas seu secretário-geral, Samuel Pinheiro Guimarães. Clodoaldo Hugueney, hoje embaixador do Brasil na China e, à época, subsecretário para temas econômicos, acompanhou a posição de Palocci. Amorim diz que Hugueney, seu “compadre”, agravou seu isolamento ainda que fosse seu assessor.
Foi essa mesma falta de inocência nas negociações diplomáticas que dificultou a formação dos Amigos da Venezuela. O grupo de países foi idealizado por Lula no final de 2002, quando uma greve geral eclodiu na Venezuela e levou às ruas até mesmo militares que pediam a renúncia do presidente Hugo Chávez. As discussões foram tão difíceis que, ao serem concluídas, Amorim as chamou de “uma vitória diplomática”. A ideia era reunir líderes latino-americanos que apoiassem o diálogo e a conciliação para evitar a escalada da violência na Venezuela. Mas Chávez esperava algo diferente. Queria que, acima de tudo, seu governo fosse apoiado. “Chávez via os ‘Amigos da Venezuela’ como seus amigos e nós não achávamos que isso traria progresso”, afirma Amorim.
Com a morte de Chávez, no início de 2013, e a suspeita eleição de seu vice, Nicolás Maduro, surgiu o temor entre países sul-americanos de que a Venezuela sofreria com uma nova crise institucional. Como a vantagem de Maduro sobre seu principal adversário, Henrique Capriles, foi de apenas 1,5 ponto percentual, as tensões entre oposicionistas e chavistas voltaram a se agravar. Amorim não acredita que as cenas de violência de 2003 voltarão a ocorrer. “Maduro não é uma pessoa difícil de se negociar e já houve uma tentativa de golpe na Venezuela, que fracassou.” Em 1994, quando Amorim ainda era chanceler do governo de Itamar Franco, presenciou uma cena que prenunciou o que foi a frustrada tentativa de tirar Chávez do poder. Ele e seu “compadre”, o embaixador Clodoaldo Hugueney, almoçaram com um grupo de empresários em Caracas e foram servidos com coquetéis e caipirinhas. O álcool subiu as veias, e os protocolos típicos dos encontros diplomáticos se amoleceram. Os empresários começaram a propor conspirações contra o então presidente, Rafael Caldera, político de centro que antecedeu Chávez. “Graças a Deus não me lembro do nome dessas pessoas”, diz Amorim.
Antes mesmo de assumir o Ministério das Relações Exteriores, Celso Amorim já era próximo do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Os dois se aproximaram na década de 1990, quando o Brasil presidiu o Conselho de Segurança das Nações Unidas e coordenou os painéis sobre o arsenal militar do regime de Saddam Hussein, no Iraque. Foi um período de intensa convivência, que Amorim classifica em seu livro como um caso de “quase cumplicidade”. Anos depois dos painéis do Iraque, que ganharam o nome de The Amorim Panels (Os painéis de Amorim), os dois voltaram a conversar. Trocaram opiniões sobre temas diversos, entre eles a guerra civil síria. Um desses encontros ocorreu em Genebra, após uma visita ao Líbano. Os dois concordaram na ocasião que uma solução para a questão síria só será possível se incluir o maior número possível de países da região. “Se países como Arábia Saudita, Irã e Turquia não fizerem parte da solução, um dia farão parte do conflito. Enquanto foi facilitador da ONU, talvez Kofi Annan não tenha conseguido ser mais explícito. Mas era nisso que eu e ele pensávamos. >> Mario Vargas Llosa: "Dilma não deveria apoiar uma fraude eleitoral"
The movie “Hannah Arendt,” which opened in New York in May, has unleashed emotional commentary that mirrors the fierce debate Arendt herself ignited over half a century ago, when she covered the trial of the notorious war criminal Adolf Eichmann. One of the pre-eminent political thinkers of the 20th century, Arendt, who died in 1975 at the age of 69, was a Jew arrested by the German police in 1933, forced into exile and later imprisoned in an internment camp. She escaped and fled to the United States in 1941, where she wrote the seminal books “The Origins of Totalitarianism” and “The Human Condition.”
It is easy to cite the ‘banality of evil.’ It is much more difficult to make sense of what Arendt actually meant.
When Arendt heard that Eichmann was to be put on trial, she knew she had to attend. It would be, she wrote, her last opportunity to see a major Nazi “in the flesh.” Writing in The New Yorker, she expressed shock that Eichmann was not a monster, but “terribly and terrifyingly normal.” Her reports for the magazine were compiled into a book, “Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil,” published in 1963.
The poet Robert Lowell proclaimed Arendt’s portrayal of Eichmann a “masterpiece,” a “terrifying expressionist invention applied with a force no imitator could rival.” Others excoriated Arendt as a self-hating Jew. Lionel Abel charged that Eichmann “comes off so much better in her book than do his victims.” Nearly every major literary and philosophical figure in New York chose sides in what the writer Irving Howe called a “civil war” among New York intellectuals — a war, he later predicted, that might “die down, simmer,” but will perennially “erupt again.” So it has.
This time, a new critical consensus is emerging, one that at first glimpse might seem to resolve the debates of a half century ago. This new consensus holds that Arendt was right in her general claim that many evildoers are normal people but was wrong about Eichmann in particular. As Christopher R. Browningsummed it up recently in The New York Review of Books, “Arendt grasped an important concept but not the right example.”
Tyrone Dukes/The New York TimesHannah Arendt in her Manhattan apartment, 1972.
The many responses to the film — a feature by the German directorMargarethe von Trotta — have restated this conventional wisdom in some form.
In the German weekly Der Spiegel, Elke Schmitter argued that new evidence shows Eichmann’s “performance in Jerusalem was a successful deception” — that Arendt apparently missed the true Eichmann, a fanatical anti-Semite. In a review in The New Republic, Saul Austerlitzwrote that Arendt’s “book makes for good philosophy, but shoddy history.” David Owen, a professor of social and political philosophy at the University of Southampton, recently faulted the movie for not grasping that “while Arendt’s thesis concerning the banality of evil is a fundamental insight for moral philosophy, she is almost certainly wrong about Eichmann.” In an essay in the Times in May, Fred Kaplan wrote that “Arendt misread Eichmann, but she did hit on something broader about how ordinary people become brutal killers.”
Behind this consensus is new scholarship on Eichmann’s writings and reflections from the 1950s, when he was living among a fraternity of former Nazis in Argentina, before Israeli agents captured him and spirited him out of the country and to Israel. Eichmann’s writings include an unpublished memoir, “The Others Spoke, Now Will I Speak,” and an interview conducted over many months with a Nazi journalist and war criminal, Willem Sassen, which were not released until long after the trial. Eichmann’s justification of his actions to Sassen is considered more genuine than his testimony before judges in Jerusalem. In recent decades, scholars have argued that the Sassen interviews show that Arendt was simply wrong in her judgment of Eichmann because she did not have all the facts.
These facts, however, are not new. An excerpt from the Sassen interviews was published in Life magazine in 1960. Arendt read them and even wrote that “whether writing his memoirs in Argentina or in Jerusalem,” Eichmann always sounded and spoke the same. “The longer one listened to him, the more obvious it became that his inability to speak was closely connected with an inability to think, namely, to think from the standpoint of someone else.” His evil acts were motivated by thoughtlessness that was neither stupidity nor bureaucratic obedience, but a staggering inability to see the world beyond Nazi clichés.
In his 2006 book “Becoming Eichmann,” the historian David Cesaranifinds common ground with Arendt, writing, “as much as we may want Eichmann to be a psychotic individual and thus unlike us, he was not.” But Cesarani also uses the latest documents to argue what so many of Arendt’s detractors have expressed: “It is a myth that Eichmann unthinkingly followed orders, as Hannah Arendt argued.” Similarly, in her 2011 book “The Eichmann Trial,” the historian Deborah E. Lipstadt claims that Eichmann’s newly discovered memoir “reveals the degree to which Arendt was wrong about Eichmann. It is permeated with expressions of support for and full comprehension of Nazi ideology. He was no clerk.”
The problem with this conclusion is that Arendt never wrote that Eichmann simply followed orders. She never portrayed him, in Cesarani’s words, as a “dull-witted clerk or a robotic bureaucrat.” Indeed she rejected the idea that Eichmann was simply following orders. She emphasized that Eichmann took enormous pride in his initiative in deporting Jews and also in his willingness to disobey orders to do so, especially Himmler’s clear orders — offered in 1944 in the hope of leniency amid impending defeat — to “take good care of the Jews, act as their nursemaid.” In direct disobedience, Eichmann organized death marches of Hungarian Jews; as Arendt writes, he “sabotaged” Himmler’s orders. As the war ground to an end, as Arendt saw, Eichmann, against Himmler, remained loyal to Hitler’s idea of the Nazi movement and did “his best to make the Final Solution final.”
When Eichmann agreed at trial that he would have killed his own father if ordered to —but only if his father actually had been a traitor. Arendt pointed to this condition to show that Eichmann acted not simply from orders but also from conviction. To say that Arendt denied that Eichmann was a committed Nazi or that she saw Eichmann as a “clerk” is false.
The widespread misperception that Arendt saw Eichmann as merely following orders emerged largely from a conflation of her conclusions with those of Stanley Milgram, the Yale psychologist who conducted a series of controversial experiments in the early 1960s. Milgram was inspired by the Eichmann trial to ask test subjects to assist researchers in training students by administering what they thought were potentially lethal shocks to students who answered incorrectly. The test subjects largely did as they were instructed. Milgram invoked Arendt when he concluded that his experiments showed most people would follow orders to do things they thought wrong. But Arendt rejected the “naïve belief that temptation and coercion are really the same thing,” and with it Milgram’s claim that obedience carried with it no responsibility. Instead, Arendt insisted, “obedience and support are the same.” That is why she argued that Eichmann should be put to death.
Associated PressAdolf Eichmann in the Jerusalem courtroom where he was tried in 1961 for war crimes committed during World War II.
The insight of “Eichmann in Jerusalem” is not that Eichmann was just following orders, but that Eichmann was a “joiner.” In his own words, Eichmann feared “to live a leaderless and difficult individual life,” in which “I would receive no directives from anybody.” Arendt insisted that Eichmann’s professed fidelity to the Nazi cause “did not mean merely to stress the extent to which he was under orders, and ready to obey them; he meant to show what an ‘idealist’ he had always been.” An “idealist,” as she used the word, is an ideologue, someone who will sacrifice his own moral convictions when they come in conflict with the “idea” of the movement that gives life meaning. Evil was transformed from a Satanic temptation into a test of self-sacrifice, and Eichmann justified the evil he knowingly committed as a heroic burden demanded by his idealism.
The best treatment of Eichmann’s writing in Argentina is by the German scholar Bettina Stangneth. In her 2011 book “Eichmann vor Jerusalem” (not available in English), Stangneth showed that Sassen was a Holocaust denier who attempted to get Eichmann to deny the Holocaust, which Eichmann did not. On the contrary, Eichmann boasted of his accomplishments, worried that he hadn’t done enough, and justified his role. Stangneth also revealed that Eichmann dreamed of returning to Germany and putting himself on trial, even drafting an open letter to the West German chancellor Konrad Adenauer to propose just that. His hope was that the royalties from his book, written with Sassen, would support his family for what he imagined would be a short stay in jail.
Stangneth concludes that Eichmann’s manifest anti-Semitism was based neither on religious hatred nor a conspiratorial belief in Jewish world domination. He denied the “blood libel” (the false accusation that Jews had killed Christian children and used their blood in rituals) and rejected as a forgery the “Protocols of the Elders of Zion,” the notorious anti-Semitic tract (and a czarist forgery). Eichmann justified genocide and the extermination of the Jews by appealing to the “fatherland morality that beat within him.” He spoke of the “necessity of a total war” and relied on his oath to Hitler and the Nazi flag, a bond he calls “the highest duty.” Eichmann was an anti-Semite because Nazism was incomprehensible without anti-Semitism.
Arendt famously insists Eichmann “had no motives at all” and that he “never realized what he was doing.” But she did not mean that he wasn’t aware of the Holocaust or the Final Solution. She knew that once the Führer decided on physical liquidation, Eichmann embraced that decision. What she meant was that he acted thoughtlessly and dutifully, not as a robotic bureaucrat, but as part of a movement, as someone convinced that he was sacrificing an easy morality for a higher good.
“What stuck in the minds” of men like Eichmann, Arendt wrote, was not a rational or coherent ideology. It was “simply the notion of being involved in something historic, grandiose, unique.” Eichmann described how difficult it was for him to participate in the Final Solution, but took pride in having done so. He added: “if I had known then the horrors that would later happen to the Germans, it would have been easier for me to watch the Jewish executions. At heart I am a very sensitive man.” In a terrifying act of self-deception, Eichmann believed his inhuman acts were marks of virtue.
Though von Trotta’s film is not a documentary, it does incorporate archival footage of the trial. The director has said that the footage was essential because it let the viewer encounter Eichmann directly. The movie cuts to Arendt, played by Barbara Sukowa, and captures the shock on her face, as Eichmann utters cliché after cliché. It makes visible how and why Arendt concluded that evil in the modern world is done neither by monsters nor by bureaucrats, but by joiners.
That evil, Arendt argued, originates in the neediness of lonely, alienated bourgeois people who live lives so devoid of higher meaning that they give themselves fully to movements. It is the meaning Eichmann finds as part of the Nazi movement that leads him to do anything and sacrifice everything. Such joiners are not stupid; they are not robots. But they are thoughtless in the sense that they abandon their independence, their capacity to think for themselves, and instead commit themselves absolutely to the fictional truth of the movement. It is futile to reason with them. They inhabit an echo chamber, having no interest in learning what others believe. It is this thoughtless commitment that permits idealists to imagine themselves as heroes and makes them willing to employ technological implements of violence in the name of saving the world.
Perhaps Arendt has been so violently misunderstood because her thinking is both provocative and demanding. Her blessing, and her curse was a facility for quotable aphorisms that, like Nietzsche’s, require whole books to reveal their unconventional meaning. It is easy to cite the “banality of evil.” It is much more difficult to make sense of what Arendt actually meant.
At a time when confidence in American institutions is at an all-time low, Arendt’s insistence that we see Eichmann as a terrifyingly normal “déclassé son of a solid middle-class family” who was radicalized by an idealistic anti-state movement should resonate even more urgently today. That is ever more reason to free Arendt’s book, once again, from the tyranny of the conventional wisdom.