terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Percival Puggina (4): o Apartheid oficial dos racistas no poder


Corredores do Passado
Percival Puggina
Zero Hora, 1º de dezembro de 2013

Esses brasileiros são como filhos de novela, do tipo que rejeita a mãe. Embora o tempo presente os condene, veem-se como corregedores do passado. Incapazes perante o futuro, dedicam-se a amaldiçoar os que vieram antes. Obviamente, serão sucedidos por aqueles que os amaldiçoarão. O século 20, leitor amigo, jogou o Brasil num torvelinho de lamúrias e malquerenças, num imprescritível ajuste de infinitas contas.

            Há alguns anos, conversando aqui em Porto Alegre com destacado empresário mexicano, num evento da ADCE, perguntei a ele sobre a situação dos astecas na contemporânea sociedade de seu país. Meu interlocutor era um homem alto, desempenado. Com sua tez avermelhada faria bom papel representando um índio do oeste norte-americano em filmes da década de 50. Olhou-me surpreso e respondeu com outra pergunta: "E eu tenho cara de espanhol?". Não, ele não tinha cara de espanhol, nem eu tinha mais perguntas a fazer. Fui. Serviu-me a lição e a tenho sempre em mente quando se fala sobre a questão do índio e do negro no Brasil.

            Estimam os estudiosos, sabe-se lá como, que havia cerca de 3 milhões de índios por estas bandas, no ano do Descobrimento. Hoje restam 896 mil "puros", contados e recontados. Isso é bom ou ruim? O Brasil é um país por todos os motivos destinado à miscigenação. E o pequeno número de índios puros é, ainda assim, certamente maior do que o número de portugueses da gema. Percorre-se o Brasil e é visível, onde se vá, a existência de dezenas e dezenas de milhões de caboclos, cafuzos, mulatos. São empresários, acadêmicos, jornalistas, artistas, operários, agricultores, integrados à nação e expressando sua realidade social. Numa sessão do Congresso Nacional, em dia de votação importante, a câmera da tevê passeia sobre um plenário onde os pardos talvez formem a bancada majoritária, notadamente quando das regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste.

            O governo da União, dominado por corregedores do passado, acaba de enviar ao Congresso uma lei determinando que todos os concursos públicos para provimento de cargos federais reservem 20% das vagas para negros e pardos. Com isso - suponho que pensem assim - está feita justiça. Um tipo de  "justiça" sempre proposta para viger contra o direito alheio. Nunca com renúncia a qualquer direito de quem decide. Já tramita na Câmara, por exemplo, projeto que pretende criar cotas raciais nas eleições parlamentares. Não o aprovarão porque isso afeta as próprias reeleições. Será que o STF ou o CNJ aprovariam cotas nos concursos para a magistratura? E o governo? O governo, que propõe a lei, tem uma única e solitária ministra negra entre 40 pastas e secretarias com status de ministério.

            O grande Chesterton dedica um capítulo de Os Hereges à questão das raças. Lá pelas tantas, escreve: "Todos os mais autênticos ingleses se aborreceriam ou escarneceriam abertamente se começássemos a falar sobre anglo-saxões. (...) A verdade disso tudo é muito simples. A nacionalidade existe, e nada neste mundo a relaciona a raça". E cita Timothy Healey: "Nacionalidade é algo pelo que as pessoas morrem".  O Brasil, porém, vai deixando de ser a nação pela qual morreram tantos antepassados nossos para se tornar um amontoado de corpos sociais em conflito, sob a fraudulenta reengenharia social dos corregedores do passado. Está se oficializando como um país racista, onde a identidade fundamental passa a ser a cor da pele.

Zero Hora, 1º de dezembro de 2013

Percival Puggina (3): partido que defende criminosos e quadrilheiros

No País da Impunidade
Percival Puggina


Você está surpreso? Eu não. Nunca levei a sério políticos e partidos que centravam sua estratégia rumo ao poder no ataque impiedoso à honra dos adversários e na afetação de virtudes excelsas. Muito escrevi sobre a conduta irresponsável dos que, sem qualquer escrúpulo ou discernimento, se apresentavam com lança-chamas e tonéis de gasolina ao menor sinal de fumaça que surgisse nas proximidades de seus oponentes. Mas a estratégia foi exitosa. A sociedade sentiu-se inclinada a crer na virtude dos acusadores, desatenta para o fato de que onde estiver o ser humano estarão presentes as potências do mal e do bem. E o que melhor detém a ação do mal é a certeza da punição. Na política não existe imunidade natural frente ao poder de corrupção. Nem frente à corrupção nos escalões do poder. O que funciona é a certeza de que as instituições estão moldadas de forma a identificar e punir os culpados. E o Brasil não chega em 63º lugar no ranking da honestidade sem uma bem consolidada cultura de impunidade.

            Em nosso país, a mentira é direito humano. A impunidade é cuidadosa construção. Lança fundações nos meandros de leis e códigos em cujos labirintos se orientam os bons advogados. Ergue paredes nos flagrantes não homologados por motivos irrelevantes. Lança pilares e vigas na permissividade das execuções penais e na benevolente progressão das penas. Ganha telhado quando a criminalidade é tanta que muitos delitos ficam banalizados, inclusive sob a ótica da sociedade e de seus julgadores. A maioria dos crimes praticados no país sequer é notificada pelas vítimas. O telhado protetor da impunidade foi, assim, posto e bem posto. Somos um estranho país onde é acusado de criminalizar os movimentos sociais quem comete a inaudita violência de descrever o que fazem. Somos um país onde condenados passeiam livremente nas ruas porque não há vaga nos presídios. E não se constroem presídios.

            Pois o rumoroso processo do Mensalão realiza a façanha, depois de sete longos anos, de chegar ao período de sentenças definitivas, transitadas em julgado. Não faria o menor sentido discutir, aqui, a correção das condenações. Quase todas foram proferidas por ministros do STF indicados pelo governo do partido dos réus. Ambos, governo e partido reconheceram os crimes. O próprio Lula, em 12 de agosto de 2005, no auge do escândalo, falou à nação: "Eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis, das quais nunca tive conhecimento. (...) Não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas" (há vídeo no YouTube com o título "Lula pede desculpas"). No mesmo dia, Tarso Genro, no exercício da presidência do PT, anunciou a refundação do partido e disse que este iria punir cada um dos envolvidos em denúncias de corrupção e caixa dois para financiamento de campanhas (Agência Brasil, 12/08/2005). O atual Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, na edição da revista Veja de 20/02/2008, em longa entrevista às Páginas Amarelas, reconheceu: "Teve pagamento ilegal de recursos a partidos aliados? Teve. Ponto Final. É ilegal? É. É indiscutível? É. Nós não podemos esconder esse fato da sociedade".

            Agora, desmentem a si mesmos! Adotam uma estratégia desesperada, que fala em "presos políticos", tenta criminalizar o STF, pretende denegrir a imagem do ministro Joaquim Barbosa, e deseja vitimizar os presos perante a opinião pública. É o derradeiro desserviço prestado pelos réus do Mensalão e seus companheiros a uma nação que precisa vencer a impunidade. Talvez pretendessem sair deste processo sentenciados a fazer o que melhor fazem: distribuir algumas cestas-básicas ao povo.

Percival Puggina (2): o petroleo dos companheiros, esse liquido nauseabundo...

No país da petrodemagogia
Percival Puggina
Zero Hora, 03 de novembro de 2013

Em 2007, foi anunciada pela Petrobrás a descoberta de um megacampo, batizado com o nome de Tupi. Passados três anos, depois de muito Tupi para cá, Tupi para lá, o alto comando da Petrobrás resolveu trocar o nome do campo para... para que outro nome, mesmo? Adivinhe! Pois é, depois de guri grande, o campo de Tupi virou Campo de Lula. Há, em nosso país, uma histórica e bem sucedida petrodemagogia. Quem entra no Portal Brasil, por exemplo, e lê a nota do governo sobre o Campo de Libra e o Pré-sal vai pedir para ser congelado hoje e levado ao microondas daqui a alguns anos. No entanto, é importante para a política do poder que essas riquezas minerais, sepultadas sob quilômetros de coluna d'água e ainda mais espessas camadas geológicas, rendam votos no curtíssimo prazo.
Esse é o raciocínio que explica os abusos políticos e de informação envolvendo a Petrobrás. Em 2006, o ex-presidente Luiz Inácio pousou na plataforma P-50 e, minutos após, exibiu para os fotógrafos as mãos lambuzadas de óleo extraído da Bacia de Campos. O fato foi comunicado à nação como início da autossuficiência. O Brasil se tornaria exportador. A vaga na OPEP estava logo ali, provavelmente ao lado da cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Mas o dito logo ficou pelo não dito. Os anunciados saldos positivos que viriam para a balança comercial do país a partir de 2010 viraram saldos negativos e assim se mantêm. Até o passado mês de agosto o Brasil já gastara, só neste ano, US$ 28 bilhões em importação de petróleo e derivados e essa conta joga no vermelho a balança comercial de 2013
            Pensando sobre isso, e já sabendo que quatro empresas haviam desistido de participar, acomodei-me diante da tevê para assistir ao leilão do Campo de Libra. A Globo News, sei lá por quê, demonstrava imenso interesse em duas pacíficas e ociosas barreiras que se entreolhavam no meio da avenida. Numa estavam alinhadas tropas militares. Noutra, pequeno grupo de manifestantes. A tranquila cena atraía tanto a atenção da emissora que ela repartia igualitariamente: meia tela para cada evento.

            Assistir o leilão do campo de Libra me fez lembrar aqueles filmes nos quais nada acontece e a gente resiste teimosamente só para saber onde aquilo vai dar. E dá em nada mesmo. Perdi meu tempo testemunhando um conflito que felizmente não houve e um leilão que infelizmente não aconteceu. O único consórcio que apresentou proposta tinha a Petrobrás como líder e foi declarado vencedor pelo lance mínimo admitido. Isso é leilão que se apresente num negócio de tamanho porte? Por que tanto desinteresse mundial em riquezas que o governo anuncia tão promissoras e pródigas? Mesmo assim, horas após, a presidente veio a público festejar o resultado do evento e partilhar hipotéticos trilhões de reais que sanearão todas as carências do país. É a arte de gastar, retoricamente, recursos talvez alcançáveis em futuro remoto, convertendo-os em votos na urna de logo mais.

            No dia seguinte, ainda ponderando as patéticas cenas da véspera, abro minha caixa de e-mails e o primeiro que me cai sob os olhos dizia assim: "O Brasil comprou do Brasil uma reserva de petróleo para ficar com 40% para o Brasil". Disse tudo. 

Percival Puggina (1): O ENEM, um simulacro de exame

Para bem compreender o ENEM
Percival Puggina *

É provável que você, leitor, não saiba como funciona o Enem, o tal Exame Nacional do Ensino Médio. Nem imagina como um aluno possa prestar exame no Amazonas e ser qualificado para cursar Direito no Rio Grande do Sul. Menos ainda haverá de entender a lógica dessa migração acadêmica num país de dimensões continentais.
Pois eu também não sei como funciona o Enem. Mas sei algo sobre ele que, segundo tudo indica, poucas pessoas sabem. O Enem é um dos muitos instrumentos de concentração de poder político nacional nas mãos de quem já o detém e a ele se aferrou de um modo que causa preocupação. É parte de um projeto de hegemonia em implantação há vários anos. Tudo se faz solerte e gradualmentel, de modo que a sociedade não perceba estar perdendo sua soberania e se tornando politicamente imprestável. Se não fazemos parte desse projeto e não compomos quaisquer das minorias ou grupos de interesse  que se articulam no país, tornamo-nos inocentes inúteis, cidadãos de última categoria, numa democracia a caminho da extinção por perda de poder popular, por inanição do poder local.
É possível que o leitor destas linhas considere que estou delirando. Que não seja bem assim. Talvez diga que mudei de assunto e que o primeiro parágrafo acima nada tem a ver com o segundo. Pois saiba que tem, sim. Peço-lhe que observe a realidade do município onde vive. Qual o poder do seu prefeito, ou de sua Câmara Municipal? O que eles, efetivamente, podem realizar pela comunidade? Quais os sinais de progresso, da ambulância ao asfaltamento da avenida, que acontecem sem que algo caia da mão dadivosa da União?  Quais são as leis locais que você considera importante conhecer? E no Estado? Tanto o Legislativo quanto o Executivo constituem poderes cada vez mais vazios, que vivem de discurso, de promessas, de criação de expectativas. Empurrando a letargia com a barriga.
Observe que todas as políticas de Estado que podem fazer algum sentido na vida das pessoas são anunciados no plano federal (que venham a acontecer é outra conversa). Por quê? Porque é lá que estão concentrados os recursos tributários e os bancos oficiais realmente significativos. O poder político que comanda o país conta muito com seu elenco de prerrogativas exclusivas. Mas o poder que tudo pode, como temos testemunhado à exaustão, pode até o que não deve poder. Esse monstrengo chamado Enem não é apenas uma fonte de colossais trapalhadas. É um instrumento de poder, centralizando currículos, ordenando pautas, agindo contra as diversidades regionais, ideologizando as provas (não é por mero acaso que a primeira questão do Enem deste ano começa com um texto de Marx), e criando nos estudantes a sensação de que a Educação, o exame, o ingresso no ensino de terceiro grau são dádivas federais.
As cartilhas, os livros distribuídos às escolas, os muitos programas nacionais voltados ao famigerado "politicamente correto", tudo isso atende a um mesmo e único objetivo, do qual o Enem faz parte. É um projeto de poder. O único projeto que de fato mobiliza as energias do governo. Por isso, segue firmemente seu curso e seu cronograma no país.

* Percival Puggina (68) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, membro do grupo Pensar+.

A marcha gloriosa do Mercosul, e o fracasso dos companheiros em enfrentar a Argentina...

... que continua a praticar o mais deslavado protecionismo, zombando da paciência estratégica dos companheiros e sua incapacidade atestada em defender os interesses brasileiros.
Paulo Roberto de Almeida 

Argentinos continuam ignorando pressão brasileira e impedem ingresso de calçados vendidos para o Natal

Coluna de Polibio Braga, 17/12/2013

Apesar da ida do ministro Fernando Pimentel e do assessor Marco Aurélio Garcia a Buenos Aires, o que aconteceu há duas semanas, e apesar das promessas solenes do governo local, nem um só par dos 700 mil pares de calçados vendidos para os argentinos cruzou as fronteiras até agora.

. Eram vendas natalinas para as lojas portenhas.

. O evento está perdido.


. Os argentinos engrupiram mais uma vez as autoridades federais brasileiras.

Para a maior gloria do futebol, para a maior miseria do povo brasileiro: os estadios mais caros do mundo

Mais um recorde quebrado pelo governo dos companheiros: o Brasil conseguiu construir os estádios mais caros do mundo, devem ser maravilhosos, ultra-confortáveis, estacio amentos e toiletes perfeitos, transportes ideais...
Paulo Roberto de Almeida 

Seg , 16/12/2013 às 07:27

Brasil terá estádios mais caros do mundo, diz estudo

Jamil Chade | Agência Estado

Com o prazo da Fifa se esgotando para a entrega dos estádios para a Copa do Mundo de 2014, um recorde já está garantido para o Brasil: o País ergueu os estádios mais caros do mundo. Um estudo da consultoria KPMG levantou o custo de cada assento nos estádios construídos pelo mundo. Uma comparação com os valores oficiais dos estádios brasileiros revela que um dos legados do Mundial será a coleção dos estádios mais caros do planeta.

Dos 20 mais caros, dez deles estão no Brasil. Já pelos cálculos de institutos europeus, a Copa de 2014 consumiu mais que tudo o que a Alemanha gastou em estádios para a Copa de 2006 e a África do Sul, em 2010.

Seja qual for o ranking utilizado e a comparação feita, a constatação é de que nunca se gastou tanto em estádios como no Brasil nesses últimos anos. A KPMG, por exemplo, prefere avaliar os custos dos estádios levando em conta o número de assentos, e não o valor total. Isso porque, segundo os especialistas, não faria sentido comparar uma arena de 35 mil lugares com outra de 70 mil.

Com essa metodologia, os dados da KPMG revelam que o estádio mais caro do mundo é o renovado Wembley, na Inglaterra, onde cada um dos assentos saiu por 10,1 mil euros (R$ 32,4 mil). O segundo estádio mais caro também fica em Londres. Trata-se do Emirates Stadium, do Arsenal, onde cada lugar custou 7,2 mil euros (R$ 23,3 mil). Mas a terceira posição é do Estádio Mané Garrincha, em Brasília.

Com custo avaliado em R$ 1,43 bilhão, o estádio tem um gasto por assento de R$ 20,7 mil, ou 6,2 mil euros. Na classificação, o Maracanã aparece na sétima posição, mais caro que a Allianz Arena de Munique. Manaus vem na 10ª colocação, com praticamente o mesmo preço por assento do estádio do Basel, situado em um dos países com os maiores custos de mão de obra do mundo, a Suíça.

O estádio do Corinthians, em Itaquera, seria o 12º mais caro do mundo, seguido pelas Arenas Pantanal, Pernambuco, Fonte Nova e Mineirão. Todos esses seriam mais caros do que estádios como o da Juventus, em Turim, considerada a arena mais moderna da Itália e usada como exemplo de gestão. O Castelão e o estádio de Natal também estão entre os 20 mais caros do mundo. Se o ranking fosse realizado considerando os custos totais dos estádios, o Mané Garrincha seria o segundo mais caro do mundo, com o Maracanã aparecendo na quarta posição.

Para o prestigiado Instituto Braudel, na Europa, os custos dos estádios no Brasil também surpreenderam. Em colaboração com a ONG dinamarquesa Play the Game, a entidade publicou nesta semana levantamento que revela que, em média, cada assento nos doze estádios brasileiros custaria US$ 5,8 mil (R$ 13,5 mil). O valor é superior ao das três últimas Copas. Na África do Sul, em 2010, a média foi de US$ 5,2 mil (R$ 12,1 mil). Na Alemanha, em 2006, US$ 3,4 mil (R$ 7,9 mil). Já no Japão, em 2002, chegou a US$ 5 mil (R$ 11,6 mil).

Em termos absolutos, o gasto total com os estádios bate todos os recordes. Se todo o gasto de sul-africanos em 2010 e alemães em 2006 for adicionado, não se chega ao total que foi pago no Brasil para 2014, mais de R$ 8 bilhões. Em apenas nove meses, o valor aumentou em quase R$ 1 bilhão, segundo dados oficiais do Comitê Organizador Local (COL), em sua quinta edição do balanço geral do andamento das obras da Matriz de Responsabilidade.

SEM EXPLICAÇÃO - Jens Alm, analista do Instituto Dinamarquês para o Estudo dos Esportes e autor do levantamento dos dados sobre estádios da Copa, insiste que a inflação e os custos dos estádios no Brasil não têm explicação. "Quando um país quer receber uma Copa, é normal que queira mostrar estádios bonitos. Mas nada explica os preços tão elevados no Brasil e porque são tão mais elevados do que na Alemanha e na África do Sul", disse.

Henrick Brandt, diretor do Departamento de Esportes da Universidade de Aarhus, também aponta para os custos elevados das obras no Brasil. "Os dados são surpreendentes", indicou. "Um dos debates agora é o que será feito para tornar esses locais rentáveis, principalmente os estádios públicos", alertou.

Uma vocacao para a burocracia: Gabriel e suas gavetas

Parece que o Gabriel, nosso neto, tem vocação para burocrata: ele está sempre enfiado em alguma gaveta da casa, que ele mesmo escolhe, abre, esvazia cuidadosamente, e se instala para pensar. Vai ser um grande funcionário público, ou não...
Ops, está faltando um pente nesta foto de baixo: recém acordado, já atacando uma solução imediata...

Comemorando o aniversario de casamento: Carmen Licia e Paulo Roberto

Nesta segunda-feira, 16 de Dezembro, Carmen Lícia e eu comemoramos nosso aniversário de casamento (nem vou dizer quantos anos, ou décadas), à nossa maneira, e num restaurante apreciado por ambos, um vero italiano, em Hartford, Casa Mia.
Três fotos tiradas por Carmen Licia, a caminho do restaurante, com neve nas ruas de acesso, e na mesa, já servidos, depois de uma entrada com queijo (ainda visível, mas já bem diminuído), duas entradas excelentes e depois os pratos principais: camarão para Carmen Lícia, scaloppina di vitello para mim. Claro, vinho italiano para regar o almoço.
Só faltou uma boa livraria para completar o dia, mas tivemos de fazer compras de Natal, no final do dia.
Salute.
Paulo Roberto de Almeida



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Republica Federativa do BNDES: um banco maior que o Brasil - Juan Forero (WP)

A bank that may be too big for Brazil

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The Washington Post: December 14, 2013

RIO DE JANEIRO — To dodge the global economic crisis, Brazil cranked up its spending, expanding subway lines and shipyards for oil platforms while building hydroelectric dams and stadiums for soccer’s 2014 World Cup.
There would be no austerity as in Europe, Brazil’s leaders pointedly promised. And Brazil had a well-oiled machine to keep its economy humming: the state development bank, an institution little known outside this country but central to policymakers here.
The bank has loaned a third of a trillion dollars since 2010, twice the amount the World Bank provided to about 100 countries combined, with much of the bounty going to the mining, agriculture and construction giants that are pillars of Brazil’s economy.
Economists at BNDES, as the bank is known, say the benefits are felt evenly across Brazil: low unemployment and an economy that was kept on track while others seemed to careen out of control.
But the global downturn is finally being felt in Latin America’s largest economy. And critics say a big part of the problem is Brazil’s strategy of doling out loans worth billions of dollars from the bank to the country’s richest and most politically connected companies.
Economists and opposition leaders say this focus on Brazil’s “national champions” neglects smaller, nimbler firms that are developing new technologies and products to diversify a commodity-dependent economy. They also say that BNDES’s huge loans are fueling inflation that the Central Bank of Brazil must scramble to control.
Sergio Lazzarini, who works at the Insper business school in São Paulo and writes about BNDES, said the bank’s role has become more difficult to justify in the face of an economy completing its third year of disappointing growth.
“Despite these trends,” Lazzarini said, “the bank has become more aggressive, bigger, with more direct transfers from the government to the bank,” a reference to the treasury funds and payroll tax revenue used for loans.
At the bank’s fortresslike offices in bustling downtown Rio, executives and economists speak proudly of a 61-year-old institution that has backed companies in the past decade whose growth helped make Brazil the world’s seventh-largest economy.
João Ferraz, BNDES’s vice president, called such projects central to an economy that posted solid growth in the 2000s, capped by a blistering 7.5 percent expansion in 2010.
“Can you build a hydroelectric plant with small firms? Can you build a pulp plant or a car factory with small firms?” Ferraz said.
In approving loans, the bank considers the quality of the companies and the benefits of the projects, he said, calling critics misguided in accusing BNDES of cronyism. He spoke about one well-known recipient of BNDES loans, the construction giant Odebrecht, which has 175,000 employees in 26 countries and built BNDES’s modernist high-rise headquarters.
“I am not friends with Odebrecht,” he said of the São Paulo-based conglomerate. “I am friends with the good projects of Odebrecht.”
But Adriano Pires, a prominent government detractor and director of a consulting firm specializing in energy, said the bank’s disbursements — $81 billion this year, its biggest outlay ever — are generating worrisome levels of debt and an outsize role for the state in the economy.
“What is the policy behind this?” Pires said. “It’s an ideology that holds that the state has to have a strong role in the economy.”
Indeed, in exchange for loans, BNDES has acquired a minority stake in dozens of private companies, giving the bank’s executives a say in their operations.
The bank also remains opaque about how it chooses which companies to shower with loans, said João Lopes Pinto, coordinator of the group More Democracy, which has met with bank officials to lobby for more transparency.
Bank executives say they are working to be more forthcoming, although they say regulations prevent them from providing details about loans.
A boon for big borrowers
With disbursements having gone up by a factor of five over the past decade, Pinto said, there has been more of a windfall for big borrowers such as the São Paulo-based meatpacker JBS.
A decade ago, JBS wasn’t even among Brazil’s top 400 companies. But BNDES provided $4.4 billion from 2008 to 2010, essential as the company went abroad to acquire Swift, National Beef, Smithfield Beef and Pilgrim’s Pride. That made JBS a worldwide leader in beef production.
In 2010, JBS was also the largest contributor to President Dilma Rousseff’s campaign, donating $4.7 million, according to a report on BNDES and Brazil’s economy by Mansueto Almeida, an economist at the government-funded Institute of Applied Economic Research. He questions what Brazil has gotten out of supporting the company in its heavy expansion into the U.S. market.
“I don’t see any kind of social outcome or social return that would justify BNDES in promoting this firm,” Almeida said. JBS declined to comment.
Almeida said the problem is that BNDES often acts as an investment bank, not a public institution focused on fostering social development.
In contrast, Almeida said, fast-developing South Korea boosted dynamic companies that developed electronics, among them Samsung.
“In Brazil, we don’t do that,” Almeida said. “We give you subsidized credit so you can do the same thing or go overseas and buy your competitors.”
Ferraz, the BNDES vice president, said such assertions overlook an increasingly diverse portfolio. He said the bank is focusing more on companies with gross revenues of $40 million or less, in categories the bank calls micro, small or medium-size. In 2009, 21 percent of loans went to those companies; this year, 37 percent has been provided to them, according to bank documents.
The bank is also accelerating spending on projects that economists say the country desperately needs, such as energy generation plants, highways, ports, airports and other infrastructure that “will be a big driver of economic growth,” said Nelson Siffert, BNDES’s superintendent for infrastructure.
Still, the bank’s relationship with giant companies and well-connected billionaires has created problems for its executives and government.
Although BNDES was not explicitly one of their targets, protesters who staged huge nationwide rallies in June directed much of their ire at government policies they said benefit the elite in a country of grinding income inequality.
One was would-be oil baron Eike Batista, a flamboyant billionaire whose EBX Group received more than $4 billion in loans, prompting him to call BNDES “the best bank in the world.” But now his empire is collapsing, and opposition leaders are questioning BNDES over its support of his money-losing companies.
“The money cannot go to a few lucky ones,” said César Colnago, an opposition lawmaker in Congress.
Batista’s office did not return calls seeking comment.
Dependent on BNDES
To be sure, credit is expensive in Brazil and BNDES fills that need, particularly the huge loans needed by companies such as the state-controlled Petrobras oil giant and Vale, a mining company that has $5 billion in outstanding loans from the bank.
Vale has grown into a $46 billion company employing tens of thousands of workers.
Sonia Zagury, global head of finance at Vale, said BNDES’s role “in the Brazilian economy is an important one, and they are an important partner for Vale.”
But analysts say there is another downside to BNDES’s big spending: It fans inflation, which has remained stubbornly high at just under 6 percent a year.
To keep it under control, the Central Bank on Nov. 27 raised its benchmark rate to 10 percent. Such a high interest rate — the highest of any developed country — is believed to crowd out the development of private lenders.
That leaves companies perpetually dependent on BNDES and its cheaper loans, according to Almeida, the economist.
“No bank, no matter how smart it is, can compete with a bank that receives subsides from the government,” he said.

Reporting for this article was supported by a grant from the Pulitzer Center on Crisis Reporting.

Guillermo Cabrera Infante, vitima da ditadura castrista: livro postumo

O mapa da tristeza
O recém-publicado livro póstumo de Guillermo Cabrera Infante se intitula “Mapa Desenhado por um Espião”, mas deveria mesmo se chamar “O Mapa da Tristeza”, pelo sentimento de solidão, amargura, desproteção e incerteza que o impregna do começo ao fim. Conta os quatro meses e meio que passou no ano de 1965 em Havana, para onde havia viajado a partir de Bruxelas – ali era adido cultural de Cuba – por causa da morte da sua mãe. Pretendia retornar à Bélgica em poucos dias, mas, quando estava prestes a embarcar para o retorno ao seu posto diplomático, junto com suas duas filhas pequenas, Anita e Carola, recebeu no aeroporto de Rancho Boyeros uma ligação oficial indicando-lhe que deveria suspender sua viagem, porque o ministro das Relações Exteriores, Raúl Roa, tinha urgência em lhe falar. Retornou a Havana imediatamente, surpreso e inquieto. O que teria ocorrido? Nunca chegaria a saber.
O livro narra, numa escrita apressada e às vezes com frenesi e desordem, os quatro meses seguintes, em que Cabrera Infante volta muitas vezes ao ministério, sem que nem o ministro nem nenhum dos chefes o receba, descobrindo assim que havia caído em desgraça, mas sem jamais se inteirar sobre como ou por quê. Entretanto, no dia seguinte à sua chegada, Raúl Roa o havia felicitado por sua gestão como diplomata e anunciado que provavelmente voltaria a Bruxelas promovido a ministro-conselheiro da embaixada. O que ou quem havia intervindo para que sua sorte mudasse da noite para o dia? De resto, continuavam pagando seu salário e até renovaram o cartão que lhe permitia fazer compras nas lojas para diplomatas, mais bem abastecidas do que os armazéns cada vez mais míseros aos quais recorriam as pessoas comuns. Seria ele considerado pelo Governo um inimigo da Revolução?
A verdade é que ainda não. Havia tido um conflito com o regime em 1961, quando este fechou a Lunes de Revolución, revista cultural que Cabrera Infante dirigiu durante os dois anos e meio de sua prestigiosa existência, mas nos três anos de seu distanciamento diplomático na Bélgica havia sido, segundo confissão própria, um funcionário leal e eficiente da Revolução. Embora um pouco desencantado com o rumo que as coisas tomavam, dá a impressão de que, até regressar a Havana em 1965, Cabrera Infante ainda pensava que Cuba corrigiria o rumo e retomaria o caráter aberto e tolerante do princípio. Nesses quatro meses aquela esperança se desvaneceu, e foi ali, enquanto, confuso e temeroso por sua kafkiana situação de incerteza total sobre seu futuro, perambulava por suas amadas ruas habaneras, via a ruína que se apoderava de casas e edifícios, as enormes dificuldades que o empobrecimento generalizado impunha aos moradores, o isolamento quase absoluto em que o poder havia se confinado, seu verticalismo e a severidade da repressão a reais ou falsos dissidentes e a insegurança e o medo em que vivia o punhado de amigos que ainda o frequentavam – quase todos escritores, pintores e músicos –, que ele perdeu as últimas ilusões e decidiu que, se saísse da ilha, se exilaria para sempre.
No seu foro mais íntimo vive entregue à vontade de romper para sempre com seu país

Não disse isso a ninguém, claro. Nem a seus amigos mais íntimos, como Carlos Franqui ou Walterio Carbonell, revolucionários que também haviam sido afastados do poder e transformados em cidadãos fantasmas, por razões que ignoravam e que os mantinham, como a ele, vivendo em uma angustiosa e frustrante inutilidade, sem saber o que ocorria a seu redor. As páginas que descrevem o vazio cotidiano desse grupo, que ele tratava de atenuar com fofocas e fantasias delirantes, entre goles de rum, são estremecedoras. O livro não contém análises políticas nem críticas fundamentadas ao governo revolucionário; pelo contrário, sempre que o tema político aparece nas reuniões de amigos o protagonista emudece e procura se afastar da conversa, convencido de que há algum espião no grupo ou de que, de um modo ou outro, o que se disser ali chegará aos ouvidos do Ministério do Interior. Há um pouco de paranoia, sem dúvida, nesse estado de perpétua desconfiança, mas talvez ela seja a prova a que o poder quer submetê-los para medir sua lealdade ou sua deslealdade à causa. Não é de se estranhar que, nesses quatro meses, começasse para Cabrera Infante aquela via-crúcis psicológica que, com o tempo, iria desbaratando sua vida e sua saúde, apesar dos admiráveis esforços de Miriam Gómez, sua esposa, para lhe injetar ânimo e coragem e para ajudá-lo a escrever até o final.
A publicação desse livro é outra manifestação do heroísmo e da grandeza moral de Miriam Gómez. Porque nele Guillermo conta, com uma sinceridade crua e às vezes brutal, como combateu o desalento e a neurose daqueles quatro meses seduzindo as mulheres, deitando-se com elas a torto e a direito, e até se apaixonando por uma dessas conquistas, Silvia, que passou a ser por um tempo publicamente a sua companheira. Este e os outros foram amores tristes, desesperados, como são a amizade, a literatura e tudo o que Cabrera Infante faz e diz nesses quatro meses, porque no seu foro mais íntimo vive realmente entregue à sua vontade de escapar, de romper para sempre com um país para o qual não vê, num futuro próximo, esperança nenhuma.
Escrito com total espontaneidade, comove bem mais que se fosse revisado
Não foi uma decisão fácil. Porque ele amava Cuba profundamente, e em especial Havana, tudo o que havia nela, principalmente a noite, os bares e os cabarés, as bailarinas e os seus cantores, e a música, o clima quente, as avenidas e os parques – e seus cinemas! – pelos quais passeia incansavelmente, recordando os episódios e as pessoas associadas a esses lugares, como para que sua memória os percebesse em todos os seus detalhes, sabendo que não voltaria a vê-los, e pudesse recordá-los mais tarde com precisão em seus ensaios e ficções. Efetivamente é o que ele fez. Quando por fim, após esses quatro meses, graças a Carlos Rafael Rodríguez, líder comunista com quem o pai de Cabrera Infante havia trabalhado durante muitos anos no partido, Guillermo conseguiu sair de Cuba com suas duas filhas, rumo à Espanha e ao exílio, levou seu país consigo, e lhe foi fiel em tudo o que escreveu. Mas nunca se resignou a viver longe de Cuba, nem sequer nos momentos em que obteve os maiores reconhecimentos literários e viu como a difusão e o prestígio de sua obra o recompensavam da feroz campanha de difamação e calúnias de que foi vítima durante tantos anos. Embora dissesse que não, acredito que ele nunca perdeu a esperança de que as coisas iriam mudar lá na ilha, e de que algum dia ele poderia voltar fisicamente para essa terra da qual nunca havia conseguido se desprender. Provavelmente seus males se agravaram quando, em um dado momento, precisou reconhecer que não, que era definitivo, que nunca voltaria, e que morreria no exílio.
Impressionou-me muito este livro, não só pelo grande afeto que sempre senti por Cabrera Infante, mas também pelo que me revelou sobre ele, sobre Havana e sobre essa época da Revolução Cubana. Conheci Guillermo quando ele era ainda diplomata na Bélgica e se resguardava muito bem de fazer críticas à Revolução, se é que as tinha então. Na época que ele descreve, estive em Cuba e não vi nem imaginei o que ele e outros personagens deste livro viviam, embora tenha estado com vários deles muitas vezes, conversando sobre a Revolução e me convencido de que todos estavam contentes e entusiasmados com o rumo que aquela tomava, sem suspeitar nem mesmo que alguns, ou talvez todos, dissimulavam, representavam, e que por baixo do seu entusiasmo havia simplesmente medo. Antoni Munné, que, assim como nos dois livros póstumos anteriores, preparou esta edição com desvelo, pôs ao final um Guia Onomástico, dando conta do ocorrido posteriormente com os personagens com os quais Cabrera Infante compartilhou esses quatro meses; é uma informação muito instrutiva para saber quem caiu efetivamente em desgraça e sofreu isolamento e cárcere, quem se reintegrou ao regime, e quem se exilou ou suicidou.
Fez bem Antoni Munné em deixar o texto tal como foi escrito, sem corrigir suas falhas, algo que sem dúvida Cabrera Infante se propôs a fazer alguma vez e não teve tempo, ou simplesmente não teve ânimo suficiente para voltar a se dedicar a semelhante pesadelo. Assim como está, um rascunho escrito com total espontaneidade, sem o menor adorno, em uma linguagem direta, de crônica jornalística, comove muito mais que se tivesse sido revisado, embelezado, transformado em literatura. Não a é. É um testemunho descarnado e atroz, sobre o que significa também uma Revolução quando a euforia e a alegria do triunfo cessam e ela se converte em poder supremo, esse Saturno que cedo ou tarde devora os seus filhos, começando pelos que estão mais perto, que costumam ser os melhores.

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