quarta-feira, 11 de março de 2026

O FORTALECIMENTO DA BASE INDUSTRIAL DE DEFESA E SEGURANÇA COMO EIXO DA SOBERANIA E DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL - Embaixador Jorio Dauster

O FORTALECIMENTO DA BASE INDUSTRIAL DE DEFESA E SEGURANÇA COMO EIXO DA SOBERANIA E DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL


O embaixador Jorio Dauster efetuou uma palestra em 10/03/2026 no Departamento de Defesa e Segurança da FIESP sobre as vulnerabilidades do Brasil e a necessidade de urgente fortalecimento da Base Industrial de Defesa. [PRA: o link para o texto mencionado logo ao início figura ao final.]



Em carta aberta à nação com o título de “Brasil, país indefeso”, publicada no número de dezembro da revista Inteligência/Insight, eu e o embaixador Rubens Barbosa afirmamos que o mundo surgido em 1945, depois da Segunda Guerra Mundial, favoreceu o liberalismo econômico, a livre iniciativa, a globalização e as instituições multilaterais. Mas tudo mudou com a chegada pela segunda vez de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, pois ele vem desmontando sistematicamente essa ordem mundial e utilizando de forma abusiva recursos comerciais a fim de sujeitar antigos aliados e adversários políticos.
Não bastasse isso, Trump mais recentemente passou a empregar todo o imenso poderio bélico dos Estados Unidos para sequestrar o chefe de Estado venezuelano e atacar o Irã em parceria com Israel. Por mais criticáveis que sejam esses dois alvos, não podemos aceitar tranquilamente o desrespeito ao princípio da soberania nacional e às normas da convivência entre nações. O fato inexorável é que, a partir de então, passou a imperar neste novo mundo a lei da selva e que o Brasil precisa com urgência rever sua política de defesa e suas posturas diplomáticas de modo a se adaptar a esses tempos turbulentos.
O Brasil não pode continuar a ser um país indefeso.
Numa breve porém esclarecedora perspectiva histórica, podemos ver que o mundo ocidental já conheceu três períodos em que uma nação exerceu papel hegemônico sobre as demais. A chamada Pax Romana durou do reinado de Augusto, em 27 a.C., ao reinado de Marco Aurélio, até 180 d.C. Tivemos bem depois a Pax Britannica, que durou de 1815, com o fim das guerras napoleônicas e o Congresso de Viena, até o início do século XX, período em que a poderosa marinha da Grã-Bretanha sustentou o império em que o sol nunca se punha. Finalmente tivemos a Pax Americana em que os Estados Unidos exibiram uma posição ambígua: por um lado, exerceram o chamado “soft power” ao liderar a criação de uma série de organismos internacionais que davam certa organicidade ao relacionamento entre as nações; por outro lado, aplicaram o “hard power” ao atuar como gendarme mundial, executando diversas incursões militares e travando guerras na Coreia, no Vietnã, no Golfo, no Afeganistão e no Iraque (várias delas, cumpre notar, com resultados negativos).
O que estamos vivendo hoje é uma fase perigosa em que essa hegemonia norte-americana se vê fortemente ameaçada pelo poderio nuclear da Rússia e, mais relevante, pela ascensão extraordinária da China à condição de superpotência no curtíssimo espaço histórico de um quarto de século. Esse declínio da supremacia dos Estados Unidos, que Trump tenta deter inclusive mediante a destruição do sistema multilateral, conduz ao que eu costumo chamar de Segunda Grande Guerra Fria, em que, como ocorre no encontro entre placas tectônicas, vamos conviver por um período de tempo impossível de estimar com terremotos, vulcões e tsunamis geopolíticos.
Na realidade, o país pacífico que somos já nem se recorda da única guerra que lutou contra o Paraguai, nos idos de 1865. Todos os nossos conflitos de fronteiras foram resolvidos em entendimentos bilaterais ou por arbitragem sobretudo ao longo do século XIX. Com tal pano de fundo, não admira a falta de uma cultura de defesa no Brasil equivalente àquela que existe nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, cujos povos verteram e ainda vertem muito sangue nos campos de batalha. Ademais, os 21 anos de autoritarismo e numerosas intervenções militares na política interna contribuíram para empanar a inquestionável importância das forças armadas na vida nacional. É compreensível, portanto, que durante o período de hegemonia norte-americana o Brasil passasse a depender quase inteiramente de material bélico comprado dos Estados Unidos e de outros países da OTAN, não se esforçando de modo efetivo para criar uma indústria nacional de defesa que lhe concedesse qualquer capacidade de proteção autônoma.
As vulnerabilidades do Brasil ficam evidentes quando se pensa na inexistência de meios adequados para assegurar a soberania nacional na defesa das fronteiras, para proteger as plataformas de petróleo no imenso mar territorial, para impedir eventuais ambições externas sobre os extraordinários recursos biológicos, minerais e hídricos na Amazônia, para defender o país de ataques cibernéticos e para preservar as comunicações privadas e governamentais (inclusive militares) dependentes de satélites operados por companhias estrangeiras.
Ademais, existe hoje uma série de novas ameaças que precisamos enfrentar, como o tráfico de armas e de drogas, o terrorismo e a guerra cibernética. E, a esses velhos e novos desafios, vem se somar agora o impacto da Inteligência Artificial, capaz de substituir os recursos humanos em numerosas funções militares e até mesmo em definições estratégicas, como estamos vendo ocorrer no Irã. Se o Brasil não dispuser de capacidade para utilizar as novas tecnologias e a IA, estará em grande desvantagem no que tange ao seu poder de dissuasão perante outras nações.
Não obstante, para um observador desavisado pareceria que nosso sistema de proteção armada é muito bem amparado pois o Ministério da Defesa recebe a quarta maior dotação da Esplanada, com fabulosos 141,9 bilhões de reais no orçamento do ano em curso que representam cerca de 6% do total. Mas, na realidade, os gastos discricionários correspondem a pouco mais de 10% desse montante porque uma grande parcela do resto é consumida com pessoal e encargos sociais, sobretudo inativos e pensionistas. Em números aproximados, as três forças têm 350 mil homens e mulheres na ativa, 170 mil como inativos remunerados e 250 mil como pensionistas (das quais 140 mil são filhas de militares falecidos que até há pouco tinham direito a pensões vitalícias caso permanecessem solteiras e não tivessem empregos públicos). Quando comparadas essas cifras com os cerca de 25% gastos nos Estados Unidos com salários e pensões no orçamento do seu Ministério da Defesa, é fácil entender porque nossas forças armadas são hoje muito mais um instrumento de amparo social do que uma máquina bélica.
Diante dessa carência de recursos para fins de investimento, recentemente foram liberados cerca de R$ 30 bilhões adicionais para as Forças Armadas ao longo de cinco anos, com recursos fora da meta fiscal e protegidos de contingenciamentos. Esses fundos deverão ser alocados em projetos prioritários que estão com seus cronogramas de implantação muito atrasados, porém tais valores são irrisórios e, infelizmente, agravam o desequilíbrio das contas públicas por não se submeterem às já pouco confiáveis metas fiscais.
Assim, fica claro que é necessário criar uma agenda positiva para o setor de defesa que envolva medidas de curto, médio e longo prazo, mas cujo primeiro e fundamental obstáculo consiste em responder à pergunta que se faz qualquer executivo no setor privado: com que recursos posso contar a fim de expandir minha parcela no mercado, desenvolver uma nova linha de produção ou construir mais uma planta para a empresa? E uma coisa é óbvia: as Forças Armadas brasileiras NÃO PODEM contar com verbas orçamentárias para responder aos múltiplos desafios acima listados pois já absorvem parcela muito substancial de um orçamento público que precisa atender aos imperiosos reclamos sociais em matéria de saúde, moradia, transporte e segurança na vida cotidiana de milhões de cidadãos.
De onde virão então os bilhões de reais por ano que se fazem necessários? A sabedoria popular há muito respondeu: do couro sai a correia. Isso significa simplesmente que as próprias Forças Armadas terão de gerar uma parte adicional dos recursos de que necessitam para investir em seu fortalecimento. E isso exigirá uma nova mentalidade no governo e no Ministério da Defesa, porém principalmente no seio do alto comando das três forças, que precisarão se mirar no exemplo do grande brigadeiro Ozires Silva cuja visão de empreendedor nos brindou com a criação desse orgulho nacional que é a EMBRAER.
Do ponto de vista instrumental, já existem hoje empresas controladas pelas três forças que podem perfeitamente servir para gerar os lucros a serem empregados por elas próprias, tais como a ENDEFORTE, no caso do Exército, e a EMGEPROM, no caso da Marinha, sem prejuízo de que outras sejam estabelecidas se e quando necessário. Ademais, é fundamental que os recursos que venham a ser obtidos por essas atividades empresariais não caiam na vala comum da Receita Federal, o que tornará necessária, mediante legislação específica, a implantação de fundos que garantam o uso desses recursos apenas para fins de investimento no setor de defesa.
Mas as Forças Armadas de nenhum país podem existir num vazio econômico ou apenas com algumas empresas estatais, uma vez que, sem o suporte de uma ampla estrutura produtiva interna, acabariam sendo meros instrumentos ancilares das potências que lhes forneçam equipamentos e insumos logísticos. Tendo em vista o necessário propósito de obter o máximo de autonomia possível, como ocorreu na Turquia no curto período de dez anos, as Forças Armadas devem associar-se a empresas privadas nacionais que já compõem e venham a fortalecer nossa Base Industrial de Defesa, podendo igualmente fazer o mesmo com empresas estrangeiras que transfiram tecnologia para o Brasil e/ou garantam mercados no exterior. Além disso, o Governo deveria estimular, como faz o da Índia, a criação de “joint ventures” entre empresas brasileiras, que entrem com o capital, e estrangeiras, que tragam tecnologia, a fim de aqui produzir materiais de defesa. Esse foi o modelo pelo qual a Taurus, levando apenas seu “know-how” e ficando com 49% do capital de uma empresa destinada a produzir de pistolas a fuzis, se associou a um dos maiores conglomerados de aço da Índia para criar uma fábrica já em operação naquele país.
Mas o que temos hoje efetivamente como Base Industrial de Defesa? Seu conceito foi estabelecido pela primeira vez na Política Nacional de Defesa (PND) de 2005, que a definiu como “o conjunto das empresas estatais e privadas, bem como organizações civis e militares, que participem de uma ou mais das etapas de pesquisa, desenvolvimento, produção, distribuição e manutenção de produtos estratégicos de defesa”. Outros textos oficiais, como a Estratégia Nacional de Defesa (END), atualizada com frequência, vinculam a BID não só ao planejamento da defesa nacional, mas também ao desenvolvimento econômico e ao avanço tecnológico do setor produtivo pois os investimentos no setor resultam em crescimento econômico, maiores exportações e geração de empregos qualificados graças ao alto valor agregado e componente tecnológico dos produtos de defesa, gerando spillovers de inovação para toda a indústria nacional. Entre os pontos de destaque para desenvolver a BID, a END coloca o domínio de tecnologias duais e a importância da tríplice hélice – governo, setor privado e academia. A END também identificou três setores estratégicos: espacial, cibernético e nuclear, ainda muito carentes de avanços significativos.
A Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil é composta por cerca de 80 empresas exportadoras e algumas outras, tanto públicas quanto privadas, especializadas em pesquisa, desenvolvimento e manutenção de equipamentos estratégicos, contribuindo com cerca de 3,5% do PIB. Exemplos notáveis incluem a Embraer, Taurus, Helibras, CBC e Ares. O setor gera aproximadamente 3 milhões de empregos diretos e indiretos, com efeito multiplicador sobre outros segmentos industriais. Apesar dessas cifras positivas, o número de empresas ativas no setor é ainda muito pequeno e suas áreas de atuação demasiado restritas diante do que seria necessário para superar as múltiplas vulnerabilidades apontadas anteriormente.
Nessas condições, como medida preliminar e imediata, é essencial que o programa de compras de equipamento militar no exterior seja totalmente repensado de modo a beneficiar os produtores nacionais que aqui geram renda e emprego. Não faz sentido que as três forças continuem eternamente a manter em Washington e Londres comissões de compra de equipamentos com a presença de dezenas de oficiais e praças, gastando milhões de dólares anuais para manter caras estruturas quando sem dúvida uma parcela crescente dessas aquisições necessita ser substituída por produtos nacionais.
Como eventuais medidas restritivas nesse novo mundo poderão ser aplicadas a diversas tecnologias inseridas em produtos que adquirimos no exterior, é igualmente imprescindível que as Forças Armadas, valendo-se de nossas universidades e centros de pesquisa, concentrem sua atenção em produtos de uso dual como equipamentos de telecomunicação e de tecnologia da informação, produtos eletrônicos, chips, sensores e lasers. O Governo, juntamente com o setor privado, precisa desenvolver uma infraestrutura própria de armazenamento de dados e de comunicação para eliminar a dependência de empresas estrangeiras, uma vez que o país não está preparado para responder à ameaça cibernética no tocante à segurança e proteção de dados sensíveis. O Centro de Defesa Cibernética, no âmbito do Exército, deveria interagir com o Banco Central, ministérios e empresas privadas, desde bancos até cadeias de bens de consumo, para melhorar a capacidade de defesa contra os ataques de hackers que, como se viu em outros países, podem afetar a infraestrutura de energia, de transporte das cidades e mesmo a segurança nacional. Neste setor em que as ações do governo têm sido historicamente muito insatisfatórias, vale destacar o importante papel que vem sendo desempenhado pela FINEP no apoio ao desenvolvimento tecnológico da indústria de defesa com crédito barato e até mesmo recursos não reembolsáveis.
Na definição das novas estratégias que devem comandar a cooperação entre as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa, é necessário também que o Governo dê solução definitiva aos conhecidos problemas de tributação do setor, eliminando as vantagens de que gozam atualmente os produtos importados nas licitações de armamentos mesmo que isso implique modificações na Constituição. Cumpre igualmente aperfeiçoar os mecanismos de financiamento pelo BNDES das exportações das empresas que compõem a Base Industrial de Defesa, hoje fortemente concentradas nas vendas externas de produtos da EMBRAER tais como o KC-390 e os Super Tucanos. Nesse sentido, como pude observar nos 11 anos em que ocupei a presidência do Conselho de Administração da Taurus, muitos governos estrangeiros preferem adquirir armas no Brasil por saberem que elas não estarão sujeitas a eventuais (e prováveis) condicionamentos arbitrários quando seus fornecedores são potências com mutáveis interesses geopolíticos.
Por fim, e com o objetivo de mostrar que não estamos tratando de metas ilusórias, relaciono a seguir, a título de mero exemplo, algumas atividades que no curto prazo poderiam gerar substanciais recursos de investimento. Para as Forças Armadas como um todo, a monetização das imensas áreas por elas ocupadas em todo o território nacional e que já não têm utilidade estratégica, matéria de que trato no meu projeto intitulado MODERFAR (disponível para quem tiver interesse no assunto). No caso do Exército, a venda de créditos de carbono das vastas florestas atualmente sob sua jurisdição. No caso da Marinha, a exploração de minerais no fundo do oceano em diversas áreas já identificadas no nosso mar territorial. No caso da Aeronáutica, o lançamento oneroso de satélites na Base de Alcântara.
Em conclusão – e voltando ao artigo que mencionei no início da palestra –, reitero que um país com mais de 210 milhões de habitantes e de dimensões continentais não pode e não deve se dar ao luxo de ignorar as vulnerabilidades em áreas estratégicas que podem afetar seus interesses concretos e prejudicar seu desenvolvimento. Urge uma discussão franca entre o setor privado e o Governo para a definição de estratégias a fim de que o Brasil ganhe autonomia em áreas essenciais e reduza ou elimine a dependência externa em segmentos críticos para resguardar a segurança do país. A Base Industrial de Defesa precisa ser vista como uma prioridade pelo Governo e principalmente pelas próprias Forças Armadas. Num mundo em rápida mutação, a grande maioria dos países está colocando seus interesses nacionais acima de alinhamentos automáticos com base na ideologia ou na geopolítica. Esse é o caminho mais seguro para o Brasil nos próximos meses e anos.


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Segue o link para acessar o número da revista Insight/Inteligência em que consta, como artigo de capa, a Carta Aberta à Nação redigida pelos embaixadores Jorio Dauster e Rubens Barbosa com o título “Brasil, país indefeso”:
https://insightinteligencia.com.br/pdfs/111.pdf

Brasil tem 10 anos para ficar rico antes de envelhecer, alerta McKinsey

 Uma leitura imprescindível...

Este relatório da McKinsey deveria ser leitura obrigatória para todos os pré-candidatos presidenciais no Brasil...e para todos os pensadores que estudam as perspectivas de desenvolvimento brasileiro (não é, meus caros interlocutores na criação de uma think tank brasileiro voltado para a Política Internacional...) (Mauricio David)

...A América Latina tem condições de competir com a China. Só que, hoje, essa
competição se dá em países como México, não o Brasil. O Brasil, hoje, é mais
caro pela carga tributária, pela logística e pelo fato de que muitas das nossas
fábricas são obsoletas do ponto de vista de processo produtivo...

Brasil tem 10 anos para ficar rico antes de envelhecer, alerta McKinsey
https://www.mckinsey.com/br/en/our-insights

País, assim como América Latina, precisa de ganhos de produtividade para ter
crescimento sustentável, aponta relatório
Anaïs Fernandes

O Brasil, assim como a América Latina, mas ainda mais do que ela, vive sua
última chance de ficar rico antes de ficar velho; e, se não investir em ganhos
de produtividade e em setores estratégicos, corre o risco de ficar para trás na
atração de investimentos à região. Esses são os alertas de Nelson Ferreira,
sócio sênior da McKinsey, ao comentar relatório da consultoria sobre
produtividade na América Latina, antecipado ao Valor.
A América Latina como região, talvez, tenha uma das últimas chances nos
próximos dez, 15 anos de ficar rica antes de ficar velha. E o Brasil ainda mais.
No Brasil, talvez não sejam 15 anos, talvez sejam dez anos, afirma Ferreira,
explicando que a população brasileira já é mais idosa e cresce menos do que
em pares como Peru e Bolívia.
Com o Brasil chegando ao fim do bônus demográfico, o crescimento da
produtividade precisará vir através de investimentos em capital físico e
humano. A produtividade do trabalho no Brasil, porém, cresce menos de 1% ao
ano há mais de uma década, segundo a McKinsey, enquanto outras economias
próximas avançam perto de 2%.
A perda de relevância da América Latina para a economia global, sobretudo
nos últimos 15 anos, é generalizada, segundo Ferreira. "A América Latina tem
cerca de 7,5% da população mundial e já foi 7% do PIB global; hoje, é 6%. E,
se continuar com a mesma taxa de crescimento, em 2050, será 3,5% , diz.
A baixa produtividade é um indicador dessa situação complicada, como
define Ferreira. Ele aponta que, enquanto outras economias emergentes
crescem, em média, 3,4% ao ano, a América Latina cresce 2,3%. Disso, 1,5
ponto percentual (p.p.) vem do crescimento da população, e apenas 0,8 p.p.,
da produtividade, sendo que a produtividade do capital acrescenta 0,9 p.p.,
mas a da mão de obra retira 0,1 p.p. "Um trabalhador na América Latina, hoje,
produz quase a mesma coisa ou até um pouco menos do que ele produzia no
começo de século, afirma Ferreira.
Apesar do quadro desafiador, a McKinsey aponta oportunidades. Existem
diversas tendências mundiais ligadas, por exemplo, ao aumento do consumo
de proteínas, à transição energética, à necessidade de digitalização e de novos
polos de industrialização que podem tornar a América Latina - e o Brasil, se ele
se preparar para isso - quase "campeã natural,em algumas dessas áreas,
sugere Ferreira.
O custo atual de produção de eletrônicos e da indústria automotiva no México e
na América Central, por exemplo, é comparável ou até inferior ao da China, diz
o executivo. Um terço das principais empresas de equipamentos médicos que
exportam aos Estados Unidos está na Costa Rica, ela já é um hub
exportador;, exemplifica. A região tem 58% das reservas de lítio e 35% das
reservas de cobre, minerais fundamentais para a transição energética, afirma.
Ao todo, são sete os setores mapeados pela McKinsey em que a América
Latina deveria concentrar investimentos: manufatura de próxima geração, para
Inteligência Artificial (IA) e automação; energias renováveis, não só para
geração de energia em si, mas de produtos químicos e outros derivados;
serviços digitais e digitalização da economia; centros de dados; agricultura e
alimentos; combustíveis fósseis, que vão continuar importantes por um tempo;
e minerais críticos.
Esses são os sete setores em que nós enxergamos que a região pode ter um
papel de bastante destaque mundial. E, em vários deles, o Brasil se sobressai,
como em energia renovável, digitalização, agricultura, destino para data
centers - até pela base de energia renovável e hidrelétrica - e minerais críticos
afirma Ferreira.
Juntas, essas indústrias podem trazer cerca de US$ 400 bilhões em receitas
para o Brasil até 2040, calcula a McKinsey. Para a região como um todo, se ela
conseguir crescer nesses segmentos e trazer todos os serviços necessários
para essas indústrias funcionarem, a McKinsey estima que o PIB pode sair de
US$ 6,5 trilhões para US$ 10,5 trilhões até 2040.
Isso é importante porque, com US$ 10,5 trilhões, a região passa a ter uma
renda per capita da ordem de US$ 15 mil, que é mais ou menos o limite inferior
para entrar no patamar da OCDE, diz Ferreira, em referência à Organização
para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, uma espécie de clube
dos países ricos.
Segundo ele, o Brasil, por exemplo, tem uma renda per capita de US$ 10 mil,
mas muito heterogênea entre seus Estados. O Brasil, assim como a América
Latina, poderia ter renda superior a US$ 15 mil e, aí sim, apesar de todos os
problemas, poderíamos ter um nível mínimo de renda média compatível com
países mais desenvolvidos.
Para alcançar essas cifras e investimentos nos setores mapeados, a McKinsey
sugere quatro ações aos países da América Latina.
A primeira é a diversificação de parceiros comerciais e de investimentos. Tem
de ir para Índia, Canadá, Japão, Sudeste Asiático, e não ficar apenas nessa
bipolaridade de China e EUA, diz Ferreira.
A segunda é a integração dentro da própria região. A América Central, por
exemplo, tem taxas de crescimento comparáveis às do Sudeste Asiático e
países vivendo boom similar ao do Brasil após o Plano Real, mas não está na
agenda das empresas brasileiras, diz Ferreira. Mas deveria estar, afirma,
citando como exemplos Guatemala, Honduras, Panamá e República
Dominicana.
O terceiro ponto engloba avanços necessários em regulamentação. Ainda
temos na região, e no Brasil em particular, complexidades regulatórias e
tributárias que afugentam investidores locais e estrangeiros, diz Ferreira.
Por fim, a McKinsey aponta ser preciso atrair talentos internacionais - e, nesse
quesito, até que o Brasil está em um momento de ascensão, segundo o
executivo.
Um trunfo para atrair investimentos é que a América Latina é, talvez, a região
mais geopoliticamente neutra do mundo, diz Ferreira, o que é especialmente
importante em tempos de multiplicação de conflitos como os atuais. Mas o
Brasil pode perder investimentos para o México e a América Central, por
exemplo, se permanecer caro e atrasado, alerta a McKinsey. A taxa média de
investimento no Brasil entre 1997 e 2022 foi de 18% do PIB, abaixo da média
regional de 19,7%, aponta o relatório.A América Latina tem condições de competir com a China. Só que, hoje, essa
competição se dá em países como México, não o Brasil. O Brasil, hoje, é mais
caro pela carga tributária, pela logística e pelo fato de que muitas das nossas
fábricas são obsoletas do ponto de vista de processo produtivo, afirma
Ferreira. O Brasil tem um risco de perder essa onda de investimentos que vão
vir para a região, para México e Costa Rica, por exemplo, alerta.
Segundo ele, reformas são necessárias, como a redução dos gastos públicos,
que ajuda na queda dos juros, tornando investimentos mais atrativos. Além
disso, diz, é preciso avançar em desburocratização e na consolidação da
reforma tributária. Em relação aos setores mencionados, é preciso ter uma
visão de longo prazo do que o Brasil quer ser. Para os setores em que
podemos ser donos naturais globais, não há, necessariamente, visão clara do
que o Brasil gostaria de ser em 2035, afirma. Setor privado e governo
poderiam ajudar a articular isso.
A inteligência artificial também será chave para o ganho de produtividade,
segundo Ferreira. A IA permite com que nós consigamos dar saltos de
produtividade de mão de obra no agronegócio, na indústria e nos serviços, para
fazer com que aquela produtividade que caiu nos últimos 25 anos na região
passe a subir de novo. Têm segmentos da construção civil, infraestrutura,
manufatura fabril e mesmo do agronegócio que ainda estão engatinhando na
utilização de IA, diz Ferreira.
O Brasil tem potencial nessa área por ser uma das sociedades mais
digitalizadas do mundo, observa. "Essa é uma das principais prioridades que o
país deveria ter em todos os setores para efetivamente buscar saltos grandes
de produtividade, afirma Ferreira.
Talvez, seja nossa última chance de investirmos nesses setores, usarmos
esses setores para virarmos a chave da produtividade, não crescermos apenas
pelo crescimento populacional, mas pela produtividade da mão de obra e do
equipamento, conclui.

Os ucranianos estão eliminando a frota russa no Mar Negro - Chuck Pfarrer

Black Sea Inferno: How Ukraine’s Hybrid Swarm Decimated Novorossiysk

Russia thought the Black Sea Fleet was safe 200 miles east of Crimea. They were wrong. On the night of March 1–2, 2026, a massive Ukrainian hybrid swarm of aerial and maritime drones breached the "impenetrable" defenses of Novorossiysk.

In this investigative report, former Navy SEAL Chuck Pfarrer breaks down:

The Saturation Strategy: How hundreds of UAVs overwhelmed S-300 and Pantsir-S2 air defenses.

Blinding the Giant: The tactical masterstroke that knocked out critical Russian guidance radars during their reload window.

Naval Casualties: Detailed analysis of the strikes on the Valentin Pikul, Yeysk, and Kasimov, as well as the frigates Admiral Essen and Admiral Makarov.

Economic Inferno: The precision strike on the Sheskharis oil terminal that severed Russia’s primary crude export artery and sent global markets into a tailspin.

From high-altitude aerial waves to low-profile "Sea Baby" surface drones, this operation proves that there are no protected areas left for the Russian military.

Analysis — Chuck Pfarrer
Interpretations & assessments are the author’s views.

https://youtu.be/cY2xlCeGRrA?si=5vmys73mlGHO_DVv 

Quando comecei a seguir metodicamente as eleições presidenciais? Em 2006, mas já o fazia antes... - Paulo Roberto de Almeida

 Por acaso, apareceu das "catacumbas" um texto escrito em 2006 sobre as campanhas eleitorais no Brasil e as eleições presidenciais. Reproduzo-o aqui apenas como "curiosidade". Não creio que a realidade tenha mudado muito, apenas certos nomes, menos um: 

Paulo Roberto de Almeida, 11 de março de 2026

segunda-feira, abril 24, 2006

376) A política externa nas campanhas presidenciais

Antecipando o debate das eleições de 2006
Paulo Roberto de Almeida (para o Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros)

Tendo acompanhado a temática da política externa nas campanhas presidenciais desde 1989, depois de já ter estudado durante anos a interação que o Congresso e os partidos políticos mantêm em relação aos temas de relações internacionais e de política exterior do Brasil, minha constatação é clara: a política externa entrou, definitivamente, nas campanhas eleitorais. Trata-se de realidade nova que caberia discutir, antes que os candidatos façam sua aparição nas telas de televisão e também nas páginas do boletim ADB (ver a pequena bibliografia in fine).

Meus primeiros diagnósticos assumiam, invariavelmente, um tom pessimista: eu simplesmente constatava que a política externa era marginal do ponto de vista da atuação dos partidos políticos e que as questões de relações internacionais e de relacionamento externo do Brasil eram secundárias nas preocupações dos líderes políticos, quando não ficavam distantes de todo e qualquer discurso de campanha. Quanto os temas entravam em alguma campanha presidencial, era mais pelo lado prosaico ou negativo: lamentava um candidato as “perdas internacionais” que estavam sendo supostamente impostas ao País pelas empresas multinacionais, condenava, um outro, a dívida externa “impagável” e uma imaginária “submissão” ao FMI e insistia, um terceiro, na velha arenga da defesa das indústrias nacionais que estariam sendo “sucateadas” e entregues, de “mãos atadas”, aos interesses externos. Como regra geral, no Brasil, ninguém se elege tratando de política externa ou de temas diplomáticos e internacionais. Seria isso ainda verdade?

Esse cenário parece ter mudado substancialmente ao longo dos anos, por boas e más razões. Seja pelo crescimento da interface brasileira com o mundo, a começar pela própria região, seja pela internalização de problemas externos, extremamente facilitada pelas redes de comunicações, o fato é que, pela primeira vez em nossa história política, os temas de política exterior e de integração regional estarão no centro do debate da próxima campanha presidencial, também aqui por boas e más razões. Por um lado, o Brasil passou a estar bem mais vinculado aos movimentos da economia mundial, tanto nos aspectos propriamente econômicos como nos políticos – pela posição de liderança em negociações internacionais –, por outro, a ação de grupos de interesse e de movimentos externos passa a influenciar diretamente o cenário interno, como se pode constatar mediante uma rápida consulta à agenda das principais autoridades governamentais.

Por outro lado, o Brasil também está “importando” parte do debate que se dá em cenários estrangeiros, regionais ou internacionais, com certo “contrabando” conceitual de idéias e propostas que não correspondem à agenda política e econômica propriamente interna, e sim a ações e posições de grupos, movimentos e partidos estrangeiros que tendem a refletir interesses que lhes são próprios. Apenas dois exemplos bastariam para ficar claro o que isto pode representar em termos de defesa dos interesses nacionais nos foros multilaterais: a velha questão do “dumping social”, travestida de “cláusula social”, incorporada às demandas de certas centrais sindicais, bem como o apoio interno dado a posturas absolutamente contrárias ao interesse nacional no terreno das negociações agrícolas internacionais, que resulta da importação acrítica de posições como as da ATTAC francesa por movimentos sociais brasileiros operando na órbita do Fórum Social Mundial. Não preciso sequer mencionar dois patéticos plebiscitos organizados em 2001 e 2002 pelos mesmos movimentos sociais, um sobre a dívida externa, o outro sobre a Alca, cujas maiorias “albanesas” contra o pagamento da primeira e a favor da rejeição da segunda dizem tudo sobre essa contaminação da agenda interna pela importação acrítica de posições simplistas ao extremo mas que representam interesses de determinados grupos sociais em outros países.

Independentemente desses exemplos canhestros de debate “enviesado”, o fato é que a política externa adentrou o terreno político nacional e deve figurar em posição central, ou pelo menos preeminente, nas eleições presidenciais de outubro de 2006. Independentemente também do fato que a sociedade possa estar dividida na maior parte das escolhas efetuadas pelas autoridades responsáveis pela nossa política externa e pela condução da diplomacia, o fato é que essas autoridades foram em grande medida responsáveis pela “popularização” da política externa enquanto tema do cotidiano, e não mais sua entronização restrita, como uma agenda de agenda “bizarra”, restrita a uns quantos “especialistas”. Pela primeira vez em muitos anos, quiçá de forma inédita em nossa história, todos, ou quase todos, os temas da agenda diplomática brasileira foram “transferidos” para o cotidiano dos leitores de jornais, ouvintes de rádio e espectadores de jornais televisionados. A política externa do Brasil permeia os temas da agenda interna como nunca ocorreu no Brasil, e isso deverá igualmente refletir-se na próxima campanha presidencial.

Antes que as plataformas eleitorais nessa área adentrem, portanto, as páginas do boletim ADB, caberia balizar o debate entre os candidatos, cujo perfil definitivo só será de fato conhecido por ocasião das convenções partidárias do mês de junho. Pode-se antecipar, com pouca margem a dúvidas, que a maior parte parte dos debates eleitorais a partir de agosto de 2006, nos temas de relações internacionais e de política externa, será travada em torno das posições diplomáticas assumidas pelo governo Lula, o que nada mais é senão uma decorrência lógica da centralidade que ela veio a ter no conjunto das políticas governamentais.

Com efeito, sem entrar no mérito das avaliaçoes qualitativas ou de argumentos opinativos, a atual política externa reflete, com bastante coerência, as posições de política internacional exibidas pelo PT e pelo seu único candidato presidencial ao longo de sua trajetória em direção ao poder. Não deveria existe disputa em torno disso, pois trata-se apenas de uma constatação de fato. Em nenhuma outra área das políticas governamentais a identidade entre o partido e o governo é tão ampla e a interface tão colada ao “modelo original” quanto na política externa: inclinações, preferências, discursos, ações, tudo isso reflete, com razoável identidade de propósitos, aquilo que escreviam e argumentavam os líderes do PT quando se encontravam na oposição. Seria natural que, uma vez no poder, se dispusessem a colocar em prática suas idéias. É, aparentemente, o que está sendo feito, com algumas adaptações de estilo e de forma dadas pelo tratamento técnico que cada dossiê recebe dos profissionais da diplomacia.

O que poderá ser abordado, portanto, na campanha eleitoral, é se as posições do PT e do governo Lula, em matéria de política externa, terão ou não correspondido às percepções e necessidades do país, tal como percebido ou refletido pelos demais líderes políticos, pelos especialistas da área e pelos agentes que normalmente constituem grupos com interesse direto na “economia” da política externa, com destaque para os setores produtivos e exportadores. À diferença de tempos passados, as plataformas de governo de cada um dos candidatos, que deverão circular a partir de julho e agosto de 2006, tenderão a reservar espaço maior do que o normal aos principais itens da agenda internacional do Brasil. Nesses documentos, e nos debates que se seguirão, algumas simplificações serão inevitáveis, dada a natureza do debate eleitoral, mas é de se supor que os especialistas mais conhecidos nesta área – alguns dos quais figuram na literatura compilada a esse respeito, disponível no link bibliográfico, in fine) – saberão aprofundar as principais questões de interesse público, relevantes para um debate bem informado sobre essa problemática agora central na definição das políticas públicas do Brasil.

Para saber mais:
ADB - Associação dos Diplomatas Brasileiros. “A partir da hipótese de ser eleito Presidente da República, qual é a sua visão do que será o Brasil e sua inserção no mundo em dez anos?” (resposta do candidato Lula), boletim ADB. Brasília: ano II, n.11, março 1994, p. 8-9.
-------- . “Uma política externa para o fim do século” (resposta do candidato Fernando Henrique Cardoso), boletim ADB, ano II, n. 14, junho 1994, p. 14-16.
-------- . “A inserção do Brasil na economia internacional” (resposta do candidato Leonel Brizola), boletim ADB, ano II, n. 14, junho 1994, p. 20-21.
-------- . “A inserção do Brasil na comunidade internacional” (resposta do candidato Orestes Quércia), boletim ADB, ano II, n. 15, julho de 1994, p. 8-9.
-------- . “Os candidatos a presidente da República e a política externa”, ADB, ano X, n. 41, julho-setembro 2002, p. 18-23.
Almeida, Paulo Roberto de: “A política externa nas campanhas presidenciais, de 1989 a 2002, e a diplomacia do governo Lula”, in Relações internacionais e Política externa do Brasil. 2ª ed.; Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004, p. 255-308.
-------- . “A política externa nas campanhas eleitorais brasileiras: a experiência dos escrutínios presidenciais de 1989, de 1994 e de 1998”, Revista Internacional de Estudos Políticos, Rio de Janeiro: UERJ, v. 1, n. 2, agosto 1999, p. 253-286.
-------- . “A Política da Política Externa: os partidos políticos nas relações internacionais do Brasil, 1930-1990”, in José Augusto Guilhon de Albuquerque (org.), Sessenta Anos de Política Externa Brasileira (1930-1990), IV vol.: Prioridades, Atores e Políticas. São Paulo: Annablume-Nupri/USP, 2000, p. 381-447.
-------.“Uma política externa engajada: a diplomacia do governo Lula”, Revista Brasileira de Política Internacional. Brasília: IBRI, ano 47, nº 1, 2004, p. 162-184; disponível no link: www.pralmeida.org/05DocsPRA/1260PExtLula.pdf.
-------. “Diplomacia presidencial: cronologia de viagens e visitas, 2002-2006”, disponível em formato html no link: http://textospra.blogspot.com/2006/04/68-diplomacia-presidencia-viagens-e.html#links e, em formato pdf, no link: www.pralmeida.org/05DocsPRA/1584ViagVisitLula02a06.pdf.
-------. “Uma bibliografia preliminar sobre a diplomacia do Governo Lula: uma classificação tentativa com base na literatura disponível”, disponível no link: http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/1587BiblioDiploGovLula.pdf.

Paulo Roberto de Almeida, Brasília, 24 de abril de 2006
pralmeida@mac.com - www.pralmeida.org
http://diplomatizando.blogspot.com/

 

Putin renounces to International Law, proclaimed until 2005; no more now

Putin intends to authorise missile strikes or ‘special operations’ abroad to save himself and his accomplices from a jail cell in The Hague.

The Kremlin’s proposal to use the armed forces to "protect" arrested citizens abroad is not a defense of rights.  It’s a desperate, nuclear-edged signal to the world that Russia’s leaders view themselves as above international law.

The masquerade is officially over. By proposing a bill to use the Russian military to shield its citizens from foreign courts, putin is not acting as the protector of his people. He is acting as the boss of a criminal enterprise, issuing a violent threat to the global community: Do not try to hold us accountable.

This move by the Ministry of Defense, approved by a government commission and destined to slide through the Duma, is the logical—and grotesque—conclusion of a regime built on impunity. 

Having crushed domestic law into submission, the Kremlin is now attempting to leverage brute military force to rewrite international justice.

The rhetoric is, as always, a twisted mirror. The bill claims to offer "protection" against the "illegal" actions of foreign judiciaries. 

Yet, who are the "citizens" they aim to protect? Not the countless ordinary Russians they have drafted into a senseless war. 

No, this bill is designed with a specific guest list in mind: the top brass, the inner circle, and the supreme leader himself.

This is the desperate gambit of a wanted man. 

When the International Criminal Court (ICC) issued a warrant for putin for war crimes, it shattered the myth of his untouchable power. 

This new bill is his retaliation—a brazen declaration that any attempt to enforce an ICC warrant will be treated not as a judicial action, but as a provocation of war.

It is a stunning admission of fear, especially after Maduro's arrest. 

For all his theater of strength, putin has spent the last years legally isolating his nation to construct a fortress for himself. 

He first allowed Russia to ignore foreign rulings, then shielded foreign mercenaries from prosecution, and now intends to authorise missile strikes or special operations to save himself and his accomplices from a jail cell in The Hague.

To the countries of the world that still believe in accountability and the rule of law, the message is chillingly clear. Russia is no longer just a nation that commits war crimes. It is formalising a doctrine to defend those crimes by military force. This is not a state acting in self-defense. It is an outlaw state creating a permanent license to operate outside the civilized world, demanding that its leaders be guaranteed impunity, enforced at the barrel of a gun.

In this speech during his visit to the Netherlands in November 2005, at the Peace Palace in The Hague, putin explicitly calls for the "supremacy of law" to be a "mandatory standard." Critics today point to the irony of this statement, as the Russian Ministry of Defense now seeks to pass a bill that would allow the use of military force abroad to "protect" Russian officials from the very type of international judicial oversight he praised in 2005.

putin: “You are well aware that Russia, as a participant in the 2005 Summit, has once again confirmed its commitment to the principle of the supremacy of international law. In Russia, this principle is one of the foundations of the constitutional order. In accordance with Part 4 of Article 15 of the Constitution of the Russian Federation, universally recognised principles and norms of international law, international treaties of the Russian Federation are an integral part of its legal system.

Moreover, if an international treaty of the Russian Federation establishes rules other than those provided for by Russian law, the rules of the international treaty apply. Commitment to international law is also laid at the basis of the concept of our foreign policy and national security.”

( Transcript of the full speech in the comments.)

=======

Here Putin’s 2005 speech in Netherlands:

“ 2/2 

You well know that Russia's participation in the Summit 2005 once again confirmed its adherence to the principle of supremacy of international law. In Russia, this principle is one of the fundamental bases of the constitution. According to Article 15 of the Constitution of the Russian Federation, the commonly recognized principles and norms of the Moreover, if an international treaty of the Russian Federation stipulates other rules than those stipulated by the law, the rules of the international treaty apply. Adhering to international law is the fundamental concept of our foreign policy and national security. 

I shall especially emphasize that the International Court of Justice's decisions and advisory opinions play a major role in strengthening and developing international legal principles and norms, and in making the rights and duties of states explicit. This has a positive influence on the universality of international law.

Once again I shall point out that very existence of the International Court of Justice is a most important condition for the UN’s stability and legitimacy, including with regard to developing and implementing a complex strategy to counteract the new threats and challenges that humanity faces today.

The International Court of Justice makes a huge contribution to preventing international conflicts and to the peaceful resolution of existing disputes. Finally, your activities promote international justice. This is possible due to the Court's independence, its special status and the unique composition of its judges. 

Russia supports strengthening the role of the International Court of Justice and actively supported including the obligation of member states to resolve their disputes by peaceful And Mr Chairman, you have now told us about the very serious, major questions of international relations in which the Court is presently engaged. 

Mr Chairman, we give great value to being represented in the International Court of Justice and consider the Russian legal school's contribution to the Court's activities a very important one. 

In connection with this I am grateful to you for the kind words you addressed to the Russian judge, Mr Vereshchetin, and his predecessors. We hope that our tradition of participation in the Court will continue. 

In conclusion, allow me to express once again my deep respect for the activities of the International Court of Justice and to thank you both for the invitation and for allowing me the opportunity to speak here. 

I wish you success, and thank you very much for your attention.”

Os novos eixos politicos em escala regional e mundial e como se alinha o Brasil do lulopetismo - Revista ID

A queda

A derrocada do populismo de esquerda na AL

Multidão caindo no abismo — Foto © sellingpixsellingpix #31417133


A derrocada do populismo de esquerda e das ditaduras socialistas na América Latina 

Lula e o PT já contaram, na condição de aliados na América Latina, com muitos neopopulistas de esquerda que parasitavam regimes eleitorais não-liberais e alguns ditadores ditos socialistas. Agora não contam mais. Vejamos.

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Antes

NEOPOPULISTAS

1 - Correa e Moreno (no Equador), 

2 - Lugo (no Paraguai), 

3 - Funes e Cerén (em El Salvador), 

4 - Cristina e Fernández (na Argentina), 

5 - Obrador (no México), 

6 - Manoel Zelaya e Xiomara (em Honduras), 

7 - Evo e Arce (na Bolívia), 

8 - Chávez (na Venezuela)

9 - Lula e Dilma (no Brasil)

DITADORES

10 - Os irmãos Castro (em Cuba), 

11 - Ortega (na Nicarágua),

12 - Maduro (na Venezuela). 

Agora

NEOPOPULISTAS

1 - Claudia (no México), 

2 - Lula (no Brasil)

3 - Petro (na Colômbia) - Mas seu candidato pode perder a próxima eleição. 

DITADORES

4 - Ortega e Murillo (na Nicarágua),

5 - Díaz-Canel (em Cuba) - Não se sabe por quanto tempo.

6 - Delcy Rodriguez (na Venezuela) - Não se pode contar mais com ela (pois virou refém de Trump).

Balanço na América Latina

De 12 que já foram (ainda que nem sempre simultaneamente) podem restar apenas 2 ou 3 (simultaneamente). Ou menos, se Lula perder a eleição de 2026. Eis a queda. Talvez a maior derrocada que já se viu na história em uma mesma região do mundo em tão pouco tempo.


No mundo

No plano mundial o lulopetismo está alinhado aos autocratas de esquerda (e socialistas) que estão em governos, como Xi Jinping (na China), Pham Minh Chinh (no Vietnã), Sonexay Siphadone (no Laos), Kim Jong-un (na Coreia do Norte), Lourenço (em Angola). Além disso, está alinhado aos neopopulistas de esquerda que parasitam regimes eleitorais não-liberais, como Subianto (na Indonésia) e Ramaphosa (na África do Sul). Por último, o lulopetismo é defensor de Putin (na Rússia) e de Lukashenko (na Bielorrússia) e seus demais satélites centro-asiáticos (como Cazaquistão, Uzbequistão etc.), de Khamenei pai e agora filho (no Irã) e não condena o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (IRGC) e seus braços terroristas (como Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah, Houthis etc.). 

O que há de comum a todos eles? São, todos, inimigos das democracias liberais ou plenas.

Conclusão

Dizer que Lula e o PT defendem a democracia ou é mentira pura e simples ou revela um profundo desconhecimento do que é democracia.

Bastaria perguntar por que os lulopetistas não se alinham, preferencialmente, aos regimes (democracias liberais ou plenas) vigentes nos seguintes países (não por acaso os mais desenvolvidos do mundo): Alemanha, Áustria, Bélgica, Chéquia, Dinamarca, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Portugal, Suécia, Reino Unido, Noruega, Suíça, Islândia, Canadá, Barbados, Costa Rica, Suriname, Chile, Uruguai, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e Nova Zelândia.

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terça-feira, 10 de março de 2026

Meus blogs em eleições presidenciais - Paulo Roberto de Almeida

Meus blogs em eleições presidenciais

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Primeira informação sobre meus blogs eleitorais.
Destino: Abertura de um novo blog, para as eleições de 2026

Como informei em postagens anteriores, neste mesmo blog, tenho seguido eleições presidenciais pelo menos desde 1960, quando acompanhei meu pai nas eleições que consagraram a inédita vitória de Jânio Quadros (pelo volume de votos sobre o eleitorado habilitado, o que não incluía os analfabetos); em seis meses, desde a posse, ele renunciou à presidência, e lembro-me que minha mãe foi me buscar na escola, temendo, quem sabe?, uma guerra civil, na crise político-militar que se seguiu. Eu era, então, ainda criança, para entender tudo o que estava em jogo na política brasileira e na vida da nação. Mas, eu já não era tão criança quando ocorreu o golpe militar em 1964 (14 anos completos) e, depois de alguma hesitação inicial, coloquei-me precocemente como um dos opositores políticos do novo regime. Bem, não vou relatar agora o que foram os 21 anos seguintes de ditadura, apenas informar que passei quase sete anos no exterior, retomando a graduação em Ciências Sociais na Universidade de Bruxelas, fazendo um mestrado em Economia do Desenvolvimento na Universidade de Estado de Antuérpia e iniciando um doutoramento em Ciências Sociais novamente na Universidade de Bruxelas, deixado interrompido quando retornei ao Brasil em março de 1977, decidido a retomar a luta contra a ditadura e pelo retorno à democracia.
No exterior, continuei, obviamente, seguindo a política do Brasil, tanto foi assim que meu primeiro artigo publicado, na Revue Nouvelle, da Bélgica, foi um questionamento sobre o caráter do Estado brasileiro, se por acaso teria características fascistas. Meu trabalho de graduação, “Idéologie et Politique dans le Développement Brésilien” (1975), analisando as lutas políticas de 1945 a 1964. O mestrado tratou do impacto do primeiro choque do petróleo no comércio exterior e no balanço de pagamento do Brasil. O primeiro projeto de doutorado deveria tratar, na linha do mestre da Escola Paulista de Sociologia, Florestan Fernandes, da “revolução burguesa no Brasil”, mas ela mudou de caráter e de orientação, quando a retomei já no início dos anos 1980. Imediatamente após voltar ao Brasil, sem concurso para uma universidade pública, resolvi tentar a carreira diplomática, tendo sido aprovado em segundo lugar num concurso direto (isto é, sem passar pelo Instituto Rio Branco) para o Itamaraty.
Tendo me ligado à oposição, fui quase simultaneamente fichado como “diplomata subversivo” pelos serviços de informação do regime militar (SNI), mas isso eu só soube muitos anos depois, ao acessar o diretório do SNI no Arquivo Nacional de Brasília. Tendo elaborado um texto para a campanha oposicionista ao último presidente da ditadura, e sendo ele detectado pelos agentes do regime, efetuei um registro desse trabalho, completando mais tarde uma informação sobre esse fato, em junho de 2024. Fiz uma postagem a esse respeito:
        056. “Estratégias da política externa brasileira entre 1960/1978”, Brasília, agosto 1978, 6 p. Análise das diversas etapas da diplomacia brasileira, preparada como texto de apoio à campanha presidencial do PMDB, inserido no documento “Justificativas para uma possível reformulação da política externa brasileira na África”. Entregue, em setembro de 1978, ao staff do candidato do Partido, General Euler Bentes Monteiro. Inédito. Documento constando dos fundos do Arquivo Nacional, sob o título: “Justificativa para uma possível reformulação da política externa no Brasil na África”, como tendo sido elaborado por “grupo subversivo de esquerda”; Fundo: SNIG; AC_ACE_11577_78.PDF; A1157711-1978; DATA: 17/9/1978; 30 páginas. Disponibilizado no blog Diplomatizzando (16/06/2024; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/06/056-estrategias-da-politica-externa.html); divulgado na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/121102667/056_Estrategias_da_Política_Externa_Brasileira_1964_1978_1978_).

Ao longo dos anos continuei acompanhando e participando do processo político brasileiro, como registrei recentemente neste trabalho, ainda incluído no meu blog mais usado, o Diplomatizzando:
5238. “Relação de trabalhos referentes a eleições e campanhas eleitorais”, Brasília, 10 março 2026, 16 p. Relação de trabalhos pessoais sobre eleições e campanhas eleitorais, de 1978 a 2026. Postada na plataforma Academia.edu, com esta apresentação: Selected list of all papers, works, interviews, presentations by Paulo Roberto de Almeida about elections in Brazil, electoral presidential campaigns, especially covering all subjects dealing with foreign relations, external policy and Brazilian diplomacy (link: https://www.academia.edu/165013044/5238_Rela%C3%A7%C3%A3o_de_trabalhos_referentes_a_eleicoes_e_campanhas_eleitorais_2026_). Divulgada no blog Diplomatizzando (10/03/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/relacao-de-trabalhos-referentes.html).

Já tendo criado e mantido em três ocasiões anteriores, blogs especificamente dedicados às eleições presidenciais de 2006, de 2010 e de 2018 – com muitas outras postagens efetuadas nos demais blogs ou no Diplomatizzando nos intervalos –, decidi iniciar mais um blog voltado para as próximas eleições de outubro de 2026, mas informo desde já os três blogs anteriores:
http://eleicoespresidenciais.blogspot.com/ (2006)
http://eleicoespresidenciais2010.blogspot.com/ (2010)
https://eleicoespresidenciais2018.blogspot.com/ (2018)

Esta postagem serve, portanto, como introdução a este novo blog dedicado a uma das mais decisivas campanhas eleitorais da vida política brasileira. O primeiro blog do que se pode falar agora de uma série se chamava simplesmente “Eleições Presidenciais 2006” – https://eleicoespresidenciais.blogspot.com/ –, e sua apresentação informava o seguinte: “Um blog dedicado às eleições presidenciais brasileiras de 2006, em especial à campanha presidencial e seus principais candidatos: notícias, análises, comentários, programas partidários e outros materiais relevantes, com destaque para temas vinculados às relações internacionais e à política externa do Brasil. Farei o acompanhamento e o registro dos principais episódios da campanha presidências de 2006. Que vençam os melhores, ou, pelo menos, os mais honestos.” (Esta última frase seria dispensável, mas o Brasil já vivia os episódios do Mensalão.
Já o blog seguinte – https://eleicoespresidenciais2010.blogspot.com/ – se apresentava da seguinte maneira: “Um blog dedicado, antecipadamente, às eleições brasileiras de 2010, em especial à campanha presidencial e seus candidatos.” Depois, repetia o que eu. já tinha escrito em 2006, a partir de “Notícias...”. O terceiro dedicado, em 2018 – https://eleicoespresidenciais2018.blogspot.com/ – foi formatado de modo diferente, e não tenho acesso, no momento, a seu conteúdo completo.
Consoante meus hábitos, puramente acadêmicos, sem qualquer motivação partidária ou ideológica, decidi criar um novo blog: CampanhaEleitoralBrasileira2026. Espero que ele possa contribuir para os debates e as análises da política brasileira nesta nova conjuntura.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5239, 10 março 2026, 3 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (10/03/2026; link: ) e no novo blog:

Guerra política interna e crise global: o Brasil diante da eleição de 2026 - Maria Luiza Falcão (Brasil 247)

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Guerra política interna e crise global: o Brasil diante da eleição de 2026

Maria Luiza Falcão
Brasil 247, 09 de março de 2026, 15:37 h

O mundo atravessa uma fase de instabilidade crescente, enquanto o Brasil enfrenta simultaneamente um processo de recomposição política ainda incompleto

A eleição presidencial de 2026 se aproxima em um momento particularmente complexo da história brasileira e internacional. Não se trata apenas de mais um ciclo eleitoral em uma democracia consolidada. O pleito brasileiro ocorre em meio a uma combinação rara de fatores: uma transição turbulenta da ordem internacional, a erosão do sistema político que estruturou a Nova República e um ambiente doméstico marcado por conflitos institucionais e disputas de narrativas permanentes.

Em circunstâncias normais, eleições nacionais refletem principalmente dinâmicas internas — desempenho econômico, popularidade do governo, capacidade de articulação das forças políticas. O momento atual, no entanto, parece escapar a essa lógica tradicional. 

O mundo atravessa uma fase de instabilidade crescente, enquanto o Brasil enfrenta simultaneamente um processo de recomposição política ainda incompleto. A eleição de 2026 poderá ocorrer justamente no cruzamento desses dois movimentos históricos.

Alguns observadores já percebem esse ambiente como um momento de transição. O economista e escritor Paulo Timm sugere que estamos diante de um período que lembra outros momentos de inflexão histórica — como 1954, 1961 ou 1989 — quando mudanças profundas estavam em gestação antes mesmo de se tornarem plenamente visíveis. A sensação de que algo estrutural está se transformando, ainda que sem contornos completamente definidos, atravessa hoje o debate político em várias partes do mundo.

Essa percepção não é infundada.

A crise da ordem internacional

Desde o fim da Guerra Fria, o sistema internacional foi amplamente organizado em torno da hegemonia dos Estados Unidos. Durante três décadas, a chamada Pax Americana sustentou instituições multilaterais, cadeias globais de comércio e um padrão relativamente estável de governança econômica internacional. Durante algum tempo, chegou-se a acreditar que essa ordem teria caráter quase permanente. Hoje sabemos que não.

A reeleição de Donald Trump representa um dos sinais mais claros da crise desse modelo. Trump não é apenas um líder controverso ou uma anomalia política circunstancial. Ele expressa tensões profundas dentro da própria sociedade americana — desigualdades regionais, conflitos culturais, ressentimentos econômicos e desconfiança crescente em relação às instituições tradicionais.

A política externa americana sob Trump também revela mudanças importantes. O uso agressivo de tarifas comerciais, o abandono de compromissos multilaterais e a retórica nacionalista indicam uma inflexão significativa no comportamento da potência que durante décadas se apresentou como garantidora da ordem internacional liberal.

Esse movimento não representa apenas uma mudança de estilo político. Ele expressa uma transformação mais profunda na própria lógica da liderança americana. A chamada Pax Americana sempre combinou poder militar, influência financeira e legitimidade institucional. O trumpismo, ao contrário, opera frequentemente pela ruptura dessas mesmas engrenagens: enfraquece instituições multilaterais, transforma aliados em alvos de pressão comercial e introduz um grau de imprevisibilidade que fragiliza a própria arquitetura internacional construída após 1945. Em vez de estabilizar o sistema global, Washington passou a ampliar as tensões que já atravessam a economia e a política internacional.

Sob o comando de Donald Trump, o ataque recente ao Irã pelos Estados Unidos em conluio com Israel de Benjamin Netanyahu, lança o mundo numa situação de apreensão pelo risco de ser deflagrada uma Terceira Guerra Mundial. A morte do aiatolá Ali Khamenei no conflito — líder supremo do irã desde 1989, autoridade máxima do sistema político e controlador das Forças Armadas, da Guarda Revolucionária, do Judiciário, e das principais diretrizes da política externa e nuclear — é de gravidade incomensurável. Seu filho deverá sucedê-lo. 

O Irã contra-ataca. Ameaça com o fechamento do estreito de Ormuz, por onde circula um quinto do transporte do petróleo consumido no mundo, eleva o preço do petróleo a US$ 100 o barril, com perspectivas de aumentos ainda maiores, na casa de 50%. 

O Brasil não passaria ileso por uma escalada mais grave no Golfo Pérsico. Cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente atravessa o estreito de Ormuz, o que torna qualquer ameaça à navegação nesse corredor marítimo capaz de provocar choques imediatos nos preços da energia mundo afora. Para uma economia como a brasileira, os efeitos seriam múltiplos: aumento dos custos de transporte, pressão inflacionária e encarecimento de insumos estratégicos, especialmente fertilizantes, dos quais o país continua fortemente dependente das importações. O setor agropecuário — pilar das exportações brasileiras — sentiria rapidamente esses impactos, seja pelo aumento dos custos de produção, seja pela volatilidade nos mercados internacionais de commodities agrícolas. Em um mundo já marcado por incertezas geopolíticas, crises energéticas e disputas comerciais, um conflito ampliado no Golfo teria repercussões que ultrapassariam em muito as fronteiras da região.

Os Estados Unidos continuam a dispor de extraordinários recursos econômicos, tecnológicos e militares. Mas a estabilidade da ordem que ajudaram a construir tornou-se claramente muito mais frágil. Tensões comerciais, conflitos regionais e disputas estratégicas entre grandes potências se multiplicam.

Para países de renda média e democracias emergentes como o Brasil, esse ambiente internacional mais incerto cria desafios adicionais. Volatilidade financeira, mudanças nos fluxos de comércio e realinhamentos geopolíticos passam a influenciar diretamente as condições internas de crescimento econômico e estabilidade política. Afetam, sem dúvidas, processos eleitorais.

O esgotamento de um ciclo político no Brasil

Se o cenário internacional se torna mais turbulento, o sistema político brasileiro também atravessa uma fase de transição.

A geração que estruturou a política nacional desde a redemocratização praticamente desapareceu. Lideranças como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Fernando Henrique Cardoso foram figuras centrais na construção da Nova República. Representavam projetos políticos distintos, mas compartilhavam uma legitimidade derivada da experiência histórica da reconstrução democrática do país.

Hoje esse ciclo parece chegar ao fim.

O único líder nacional que ainda permanece no centro da política brasileira é Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), cuja trajetória se confunde com algumas das transformações sociais mais importantes ocorridas no país nas últimas décadas, já que está no poder por três mandatos e é candidato a um quarto. Mas a própria longevidade política de Lula também revela o vazio de lideranças estruturantes que caracteriza o momento atual.

Enquanto antigas referências desaparecem, novas lideranças ainda não se consolidaram plenamente. O sistema partidário permanece fragmentado e frequentemente dependente de arranjos regionais ou coalizões parlamentares de curto prazo. O resultado é um ambiente político mais fluido e menos previsível do que aquele que predominou nas primeiras décadas da redemocratização.

Essa recomposição incompleta do sistema político cria incertezas adicionais para a eleição de 2026.

As pesquisas de opinião já começam a refletir esse cenário de tensão política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda aparece à frente nas intenções de voto, mas a diferença em relação ao principal candidato da direita vem diminuindo. Esse candidato é o senador Flávio Bolsonaro, escolhido para representar politicamente o campo bolsonarista após a condenação e prisão de seu pai, Jair Messias Bolsonaro, sentenciado a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de ruptura institucional no país.

O avanço gradual de Flávio nas pesquisas indica que o bolsonarismo permanece uma força política relevante. Mais do que um fenômeno doméstico, ele se conecta a uma onda internacional de nacionalismo autoritário que ganhou novo impulso com a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos. A convergência política entre o trumpismo e setores da direita brasileira sugere que a eleição de 2026 também poderá refletir disputas ideológicas mais amplas que atravessam o cenário internacional.

Guerra política permanente

Outro elemento que marca o ambiente institucional brasileiro é a persistência de um clima de confronto político contínuo.

Desde a década passada, episódios sucessivos de judicialização da política, vazamentos seletivos e disputas institucionais intensificaram a polarização do debate público. O jornalista Luis Nassif observa que esse padrão continua a se reproduzir, com investigações e disputas políticas atravessando instituições-chave do Estado.

O episódio recente envolvendo o banco Master ilustra bem esse ambiente de tensão institucional. As investigações sobre as atividades do banqueiro Daniel Vorcaro, que se encontra preso, e suas conexões políticas rapidamente passaram a atingir diferentes esferas do Estado, incluindo segmentos do Judiciário e do sistema financeiro. 

Independentemente do desfecho jurídico das apurações, o impacto político é imediato: suspeitas, vazamentos e interpretações concorrentes passam a circular intensamente no espaço público, alimentando um clima de permanente disputa narrativa.

Esse ambiente torna-se ainda mais complexo quando combinado com a dinâmica das redes sociais. Rumores, acusações e escândalos — muitas vezes baseados em informações parciais ou não verificadas — circulam com enorme velocidade e alcançam milhões de pessoas antes mesmo de qualquer verificação factual.

O episódio envolvendo o filho do presidente Lula, conhecido como Lulinha — no caso, a reativação nas redes de antigas acusações sobre seus negócios empresariais durante os governos do PT — ilustra como temas antigos podem ser reativados estrategicamente no período pré-eleitoral. Independentemente da consistência das acusações ou de sua relevância jurídica, esse tipo de narrativa tende a ganhar enorme visibilidade nas redes digitais, alimentando ciclos de suspeita e desinformação difíceis de controlar.

O que estará realmente em jogo em 2026

A eleição de 2026 se aproxima em um ambiente de elevada tensão política. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta sustentar uma frente democrática que preserve as instituições reconstruídas após a crise política da década passada. De outro, o campo da extrema direita busca reorganizar-se em torno da candidatura do senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político de Jair Bolsonaro e alinhado internacionalmente ao projeto político representado por Donald Trump.

Nesse contexto, as eleições brasileiras deixam de ser apenas uma disputa doméstica. Elas passam a refletir um confronto mais amplo entre dois projetos políticos distintos: de um lado, a defesa de instituições democráticas e de uma inserção internacional cooperativa; de outro, a afirmação de um nacionalismo autoritário que encontra eco em movimentos semelhantes em diversas partes do mundo.

O pleito de 2026 será um momento de redefinição do projeto nacional brasileiro. O desafio será impedir que essa escolha histórica seja obscurecida por uma sucessão interminável de crises fabricadas, escândalos amplificados e disputas narrativas que pouco dizem sobre o futuro real do país.

As pesquisas mais recentes indicam que o risco de vitória de um projeto de direita não pode ser subestimado. Embora o presidente Lula ainda apareça à frente nas intenções de voto, a distância em relação ao senador Flávio Bolsonaro vem diminuindo gradualmente. Isso mostra que a extrema direita, longe de desaparecer após os acontecimentos que levaram à condenação e prisão de Jair Bolsonaro, mantém uma base social significativa e capacidade real de disputar o poder pelas urnas. 

A eleição de 2026 poderá, portanto, tornar-se um teste decisivo para a democracia brasileira: não apenas sobre quem governará o país, mas sobre até que ponto o sistema político e a sociedade serão capazes de resistir ao retorno de um projeto autoritário de direita que continua presente no cenário político nacional.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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